[Rusga Libertária] QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL. (CASEY WILLIAMS)

Retirado de:                                        https://rusgalibertaria.wordpress.com/2015/02/23/quem-e-lucy-parsons-a-mitologizacao-e-a-re-apropriacao-de-uma-heroina-radical-casey-williams/

Estamos compartilhando aqui nosso primeiro trabalho de tradução. Queremos deixar claro que estamos passíveis de erros em alguns trechos, o material ainda passa por uma revisão mais minuciosa. Resolvemos publicar pelo tempo que ficamos pendentes em compartilhar esse material traduzido. Que fala um pouco da vida de uma importante anarquista norte-americana, Lucy Parsons. Estamos abertos para sugestões e revisões solidárias.

Forte Abraço e boa leitura!

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QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL.*

Casey Williams

 

*Anarcho-Syndicalist Review número 47, Verão, 2007. Colaborador: CREAGH Ronald. Por citar essa página: WILLIAMS, Casey. “Whose Lucy Parsons? The mythologizing and re-appropriation of a radical hero”. Edição: 23 de Dezembro de 2007. [Online].

 Parsons Lucy portrait

     Como uma anarquista radical, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos de sua vida a lutar pela classe trabalhadora norte-americana e pobre.1 Uma oradora habilidosa e escritora apaixonada, Parsons desempenhou um papel importante na história do radicalismo norte-americano, especialmente no movimento operário da década de 1880, e permaneceu uma força ativa até sua morte em 1942. A única pergunta da qual ela nunca se desviou foi “como levantar a humanidade da pobreza e desespero?”.2 Com essa questão impulsionando o trabalho de sua vida, Parsons foi ativa em uma infinidade de organizações radicais, incluindo o Socialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista), a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras) e a Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo). Paralelamente com seu longo envolvimento no movimento trabalhista norte-americano, estava sua solida visão de uma sociedade anarquista, filosofia que era a base de sua crítica às instituições econômicas e políticas opressivas dos Estados Unidos da América.

    Sua oposição ao capitalismo e ao autoritarismo estatal foi solidificada em 1887, quando seu marido, Albert Parsons, foi executado injustamente.3 Após a bomba e as execuções de 1886, na manifestação de Haymarket, Parsons dedicou os próximos cinquenta anos de sua vida aos desempregados e à classe trabalhadora norte-americana. De fato, o poder do caso Haymarket na formação da vida adulta de Parsons não pode ser subestimado. Os acontecimentos de 1886 e 1887 fixam uma animosidade inflexível entre Parsons e o Departamento de Polícia de Chicago. Durante a vida de Parsons, a polícia a perseguiu, suprimindo sistematicamente seu direito à liberdade de expressão, prendendo-a várias vezes sem justificação.

    Quase seis décadas após sua morte, a polícia de Chicago deu nova vida a este legado de animosidade mútua, lutando em uma proposta para nomear um parque da cidade de Lucy Parsons. Em março de 2004, quando o Chicago Park District (gerenciador de parques municipais) propôs nomear o lote 4712 da Avenida Belmont no lado noroeste da cidade “Parque Lucy Elis Gonzales Parsons”, Mark Donahue, presidente local da Ordem Fraternal da Polícia, atacou a proposta – descartando Parsons como uma anarquista “cujas raízes históricas viriam” apenas a partir da “defesa de seu marido.” Da perspectiva de Donahue, teria sido uma farsa nomear um dos parques de Chicago com o nome de uma mulher que “promoveu a derrubada do governo e o uso de dinamite.” Infelizmente, as autoridades da cidade não contrariaram as acusações de Donahue com os fatos históricos sobre a própria vida e as realizações de Parsons. Em vez disso, os funcionários do parque ressaltaram a importância dos esforços de Parsons em nome dos trabalhadores, das mulheres e dos afro-americanos. O prefeito de Chicago, Richard M. Daley, explicou, “Nós estamos homenageando Lucy Parsons”, não “seu marido”, porque “ela era muito bem vista entre os reformadores sociais por seus esforços para promover os direitos civis” e observou que teria sido injusto e sexista “culpar a mulher por causa das ações de seu marido.”4

    Claramente, tanto o prefeito Daley quanto o oficial Donahue não compreendem a história de sua cidade. No entanto, Donahue, pelo menos, estava disposto a reconhecer que Parsons era uma anarquista, em vez de rotulá-la como uma reformista de direitos civis. Como uma anarquista, Parsons rejeitava o conceito de direitos civis que pressupunham a cooperação e aceitação do estado capitalista para conceder privilégios que ela acreditava serem os direitos naturais. De fato, uma rápida revisão da história do caso Haymarket demonstra que nem as alegações da polícia nem da cidade eram completamente corretas.5 Embora Parsons fosse inocente de qualquer envolvimento no atentado de 1886, ela compartilhou uma visão anarquista da harmonia social que defendia a destruição do capitalismo por meio de atos revolucionários, e rejeitou o reformismo e os direitos civis como curativos. Assim, há uma grande discrepância entre as reais crenças e ações de Parsons e as mitologizadas ou comemoradas que são apresentadas pela Chicago Parks Distric. Como e por que esse abismo surgiu garante uma investigação mais aprofundada, com implicações não só sobre Lucy Parsons, mas sobre a própria memória histórica.

            As repostas a estas perguntas estão no cerne da motivação subjacente à proposta dos funcionários dos parques. A sugestão surgiu a partir de um esforço de toda a cidade para homenagear mais mulheres em um sistema em que apenas 27 dos 555 parques receberam nomes de mulheres.6 Assim, o parque proposto tinha menos a ver com o reconhecimento de Parsons do que com o desejo dos funcionários de criar um sistema de parques mais “politicamente correto”. No entanto, essa idealização encontrada na incorporação de Lucy Parsons à história pública também se reflete no trabalho acadêmico sobre Parsons. Muitas vezes, os historiadores que mencionam Parsons têm moldado a vida dela para atender suas inclinações políticas. Mais notavelmente, apenas a biógrafa de Parsons, Carolyn Ashbaugh, afirmou que Parsons não era uma anarquista e que se juntou ao Partido Comunista.7Fazendo isso, Ashbaugh havia reformulado Parsons de uma heroína anarquista em uma Marxista. A discrepância entre as próprias palavras de Parsons e a memória pública de Parsons pode ser atribuída, em grande parte, à reformulação histórica de Ashbaugh. A manipulação no trabalho de Ashbaugh já foi exposta com êxito.8 Ainda assim, tem havido pouco ou nenhuma análise sobre as ideias perdidas por essa manipulação do registro histórico.

Um Histórico Contestado

            Com poucos registros conservados, juntar o início da vida de Lucy Parsons tem sido difícil para os historiadores. Na verdade, é pouco provável que os fatos do início de sua vida sejam completamente conhecidos. Ashbaugh afirma que Parsons nasceu em março de 1853, perto de Waco no noroeste do Texas. De acordo com Albert Parsons, os dois se conheceram em 1869, enquanto ele estava vivendo uma vida perigosa como um republicano radical na pós-reconstrução do Texas. Ao viajar através do condado de Johnson como correspondente para o Houston Daily Telegraph, Albert conheceu Lucy no rancho de seu tio. Animadamente, Albert descreve-a como uma “encantadora jovem donzela hispano-indígena.”9 Muitas perguntas sobre o início da vida de Parsons ainda estão sem respostas. Por exemplo, de acordo com algumas fontes, os dois se casaram em 1871, enquanto outros datam o casamento em 1872. O casamento nunca foi confirmado por uma certidão de casamento ou outro documento oficial.10

A biografia de Ashbaugh desafia a descrição de Albert Parsons sobre Lucy, afirmando que ela era, na verdade, uma antiga escrava. De acordo com Ashbaugh, Parsons era uma escrava dos irmãos Gathings, que possuíam 62 escravos perto de Waco em 1860. Ashbaugh afirmou que Parsons foi provavelmente nomeada em homenagem à filha Philip Gathings, nascida em 1849; e afirma que Henry e Marie del Gather, que Parsons chamou de sua mãe e seu tio, eram de ficção. Além disso, Ashbaugh sugere que Albert não conheceu Lucy no rancho de seu tio. Em vez disso, ela concluiu que eles se conheceram em Waco, onde as defesas de Albert dos direitos políticos negros fizeram dele uma figura popular entre a população negra. Ashbaugh especula que, enquanto vivia em Waco como uma antiga escrava, Parsons testemunhou atrocidades da Ku Klux Klan, que cresceu no poder como Reconstrução e desmoronou. Entre os inúmeros acontecimentos violentos que ela pode ter presenciado, estão a castração de um menino Africano-Americano, em 1867, e o assassinato cometido pela Klan de 13 afro-americanos perto de Waco, em 1868.

Sem dúvida, a brutalidade racial que tomou conta do noroeste do Texas na década de 1860 influenciou profundamente a sensibilidade de Parsons e a aversão pela violência contra os oprimidos. No entanto, mesmo que Parsons não fosse, como Ashbaugh especula, uma antiga escrava, ela ainda teria testemunhado a violência racial. A degradação e opressão do povo negro levou Albert Parsons, que era um ex-soldado confederado, a iniciar seu próprio jornal/boletim, em 1868, The Spectator (O Espectador), para desafiar a Ku Klux Klan e políticas de reconstrução de apoio.11 Como testemunha e talvez vítima da brutal violência racial do sul, ainda é importante notar que os registros de escravos dos irmãos Gathings não incluem nomes e, portanto, não é possível identificar Parsons como uma antiga escrava.12

Ao longo de sua vida, Lucy Parsons insistiu que ela era de ascendência mexicana e americana nativa. De acordo com Parsons, sua mãe era mexicana e seu pai, John Waller, foi um índio Creek. A afirmação faz da herança mexicana e indígena de Parsons e sua negação apaixonada da ascendência Africana é facilmente documentada. Ao cobrir o julgamento de Haymarket, um repórter do Chicago Tribune observou que Parsons “opõe-se ao termo ‘mestiço’ como significado de que ela tem sangue negro nas veias. Ela diz que sua mãe era uma mexicana e seu pai um índio.”13 Em setembro de 1886, um antigo escravo que viveu em Waco acusou Parsons de abandonar a ele e a seu filho para viver em Chicago. Quando a acusação foi à primeira página do jornal em Chicago, Parsons arrastou um repórter do Herald até a cela do marido, onde Albert explicou que o homem em Waco tinha confundido Lucy com outra mulher, e que “Sra. Parsons não tem sangue Africano em suas veias.”14 A identificação com a ascendência indígena e mexicana de Lucy Parsons não era apenas para negar a herança escrava. Ao falar em Londres em 1888, Parsons explicou:

 Eu sou aquela cujos ancestrais são indígenas neste solo da América. Quando Colombo avistou pela primeira vez o continente ocidental, antepassados do meu pai estavam lá… Quando os anfitriões da conquista das Cortes se moviam sobre o México, antepassados da minha mãe estavam lá para repelir o invasor; de modo que eu represento o genuíno Americano.15

Parece que Parsons tinha orgulho de sua identidade étnica. No entanto, a identidade negra foi empurrada em cima de Parsons ao longo de sua vida. Parsons foi repetidamente referida nos jornais como uma Negress, Negro, escuro, colorido ou mulato. 16 Embora muitos desses termos tenham sido utilizados para identificar as pessoas de raça mista, a implicação subjacente era, como um repórter do Tribune colocou, “que pelo menos um de seus pais era um negro.”17 Assim, durante sua vida, havia uma discrepância entre a identidade racial que ela alegou e a identidade racial colocada sobre ela pela sociedade. A tradição ao ver Lucy Parsons como negra, apesar de suas próprias palavras, continua até hoje.

Ashbaugh sustentou que a auto identificação de Parsons como mexicana indígena foi uma tentativa de encobrir sua herança Africana.18 Há uma série de razões pelas quais Parsons poderia ter feito isso. Em primeiro lugar, o perigo físico simples de estar em um casamento inter-racial durante a década de 1880 poderia ter levado Parsons a negar uma ascendência Africana. Juntamente com sua proteção contra alguns dos perigos de ser negro, tal rejeição pode ter criado mais oportunidades para Parsons, especialmente em um movimento operário predominantemente branco. Contudo, não obstante a lógica por trás da reivindicação de Ashbaugh, permanece a especulação, devido, em grande parte, à falta de provas – contando o apoio principalmente de sua aparência física em fotos. Simplesmente, não existem provas suficientes para declarar definitivamente que Parsons “era negra”, como Ashbaugh faz. No entanto, muitos estudiosos, como Roxanne Dunbar-Ortiz, Marion Tinling e Robin D. G. Kelly, têm rotulado Parsons como uma mulher Africano-Americana.19 Muitas vezes, essa caracterização é uma tentativa de situar Parsons em uma narrativa maior, de negros heróis americanos.20

            A existência de tantas pessoas que veem Parsons como Africano-Americana, apesar de suas próprias palavras, incita-nos a perguntar não por que Lucy Parsons precisava não ser negra então, mas por que precisamos que ela seja negra hoje? No entanto, seja negro, índio ou mexicano, Lucy Parsons ainda era uma mulher de cor, nascida e criada em um estado extremamente violento e racialmente estratificado, Texas.

Encontrando o Anarquismo em Chicago

            Após sua chegada em Chicago em 1873, Lucy e Albert Parsons entraram em um mundo turbulento, caracterizado menos por tensão racial do que pelo capitalismo industrial e problemas trabalhistas. Depois da Guerra Civil, as principais indústrias, incluindo as empresas madeireiras e de gado, criaram raízes em Chicago, trazendo praticamente todas as linhas de transporte para a cidade e fazendo de Chicago o mais importante centro econômico do centro-oeste. A nova riqueza de Chicago a tornou um destino atraente para os americanos em todo o país e imigrantes do outro lado do mar. Durante a década de 1860, mais de 74,000 imigrantes europeus entraram na cidade, junto com milhares de americanos. O aumento da população rapidamente criou moradias superlotadas e pobres, que foram ofuscadas pelas mansões enormes e o opulento estilo de vida dos capitalistas industriais da cidade.

            O contraste entre a pobreza e a riqueza criou tensões de classe, e, em 1867, os trabalhadores da cidade iniciaram o primeiro movimento para a jornada de trabalho de oito horas. Fabricantes da cidade se recusaram a cumprir com as exigências do trabalho e, após cinco dias de greve, as autoridades brutalmente reprimiram a primeira greve de oito horas, marcando o início de uma longa história de repressão violenta do trabalho.

Quando Chicago entrou na década de 1870, as condições de vida e trabalho da cidade foram exacerbadas ainda mais. Em outubro de 1871, um grande incêndio destruiu Chicago. No rastro das chamas, 17.450 edifícios estavam em cinzas e 64 mil pessoas ficaram desabrigadas. A devastação do fogo foi seguida, em 1873, por uma grande depressão, que deixou milhares de pessoas em Chicago não só sem casas, mas também sem emprego. Os eventos associados com a greve de 8 horas, em 1867, combinada com a devastação do grande incêndio e a depressão criada em Chicago, criaram uma atmosfera de tensão e medo, tornando a cidade em um solo fértil para um movimento operário radical em expansão.21 Quando Lucy e Albert Parsons mudaram para o novo apartamento perto da rua Larrabee e avenida North, rapidamente tornaram-se imersos na cultura turbulenta do conflito de classes em Chicago.

            Depois de conseguir trabalho como tipógrafo do Chicago Times e aderir à União de Tipógrafos, Albert Parsons tornou-se rapidamente uma figura proeminente no movimento operário de Chicago. Em 1876, ingressou noSocial Democratic Party (Partido Social Democrata), onde ele dedicou um tempo considerável para as causas da classe trabalhadora e tornou-se um dos mais famosos oradores da língua Inglesa na cidade. Durante esse tempo, ambos, Lucy e Albert, estavam concentrados nas obras de Karl Marx, e por volta de 1877 eles estavam realizando reuniões em sua casa para o Working-Men’s Party (Partido dos Trabalhadores). Nesse momento, Lucy e Albert Parsons não eram anarquistas, mas defendiam uma “combinação de ação econômica e política para realizar a emancipação do trabalho.”22 Eles viam os sindicatos como ferramentas poderosas contra o calcanhar de ferro do capitalismo, mas ainda acreditavam “que, contanto que os trabalhadores vivessem em uma república, eles tinham esperança de ganhar o poder através do processo democrático.”23

            Várias experiências entre 1877 e 1880 direcionam Lucy e Albert Parsons a abraçar o anarquismo. Em 17 de julho de 1877, uma greve massiva começou em West Virginia, quando os engenheiros da estrada de ferro de Baltimore & Ohio reagiram contra o salário cortado, parando os trens e desencadeando uma enorme paralisação do trabalho que se espalhou no Ocidente, chegando a Chicago; onde, em 23 de julho, “uma onda de protestos tinha se espalhado para fora dos pátios ferroviários e fábricas, serrarias e olarias”, acumulando em uma grande marcha pela Market Street, em Chicago.24 Em reação, os principais empresários de Chicago abriram seus cofres para os líderes da cidade, que usaram o dinheiro para criar um enorme exército de 5.000 cidadãos comissionados. Então, em 27 de julho, uma combinação de soldados, policiais e civis armados, violentamente esmagaram os grevistas, deixando 30 homens mortos e um ar amargo de desconfiança e ódio entre as classes de Chicago.

Essa rápida militarização de cidadãos proeminentes da cidade demonstrou a poderosa influência que a classe capitalista teve sobre o governo. Lucy Parsons escreveria anos depois que “a grande greve da estrada de ferro de 1877″ ensinou-lhe que o “poder concentrado” do governo seria sempre “exercido no interesse de poucos e em detrimento de muitos.”25 Além disso, a sua crescente desconfiança com o poder governamental tornou-se uma questão pessoal durante a greve, quando Albert Parsons ficou cara a cara com o poder das lideranças industriais de Chicago. Um dia depois de fazer um discurso empolgante antes dos trabalhadores entrarem em greve, Albert Parsons foi demitido do Times. Em seguida, o Superintendente da Polícia Michael Hickey sequestrou rapidamente Albert e disse-lhe para deixar a cidade. Mais tarde, quando Albert Parsons tentou reunir-se com membros do sindicato no edifício Times, ele foi forçado a sair por dois homens armados que ameaçaram atirar na cabeça dele. Durante o dia da grande greve ferroviária, Albert Parsons foi demitido, com uma arma apontada para ele, dizendo que deixasse a cidade. Assim, a grande greve ferroviária tocou os Parsons de uma forma extremamente pessoal e serviu como catalisador para uma ideologia muito mais radical.

Nos anos seguintes da grande greve, o Working Men’s Party se fundiu com oSocialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista) e tentou várias vezes eleger os socialistas para alas da cidade. Mas, em uma eleição após a outra, os votos foram erradamente calculados ou as urnas foram descaradamente recheadas, levando muitos a perder toda a confiança na reforma eleitoral. Em uma carta a um jornal trabalhista, Lucy Parsons explicou que “as chamadas leis” não “valem o papel em que estão escritas”, porque os capitalistas tinham o poder de fazer o que eles queriam mesmo que “os produtores de toda a riqueza tivesse desejado o contrário.”26

            No início dos anos 1880, como as ações eleitorais repetidamente falharam e as greves e as manifestações foram reprimidas pela polícia, milícia e bandidos contratados, muitos socialistas de todo o mundo começaram a se concentrar na ação direta (muitas vezes chamada de “propaganda pela ação”) como um meio para inspirar as massas e trazer a revolução. Em 1882, Johann Most, conhecido agitador revolucionário e ex-parlamentar, falou em Chicago argumentando que os trabalhadores teriam de se armar e travar uma guerra contra seus governantes capitalistas. O movimento de Chicago, em particular, combinou união e trabalho de agitação com a defesa da autodefesa armada. Acreditando profundamente na necessidade de organização, Albert e outros militantes de Chicago se estabeleceram em Pittsburgh, em outubro de 1883, onde eles, Most e outros iriam fundar a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras).

A declaração de princípios da IWPA, ou o Manifesto Pittsburgh, é o trabalho mais importante surgido a partir da conferência de 1883. Ela também continua a ser uma excelente expressão da ideologia anarquista de Parsons. Informado pela oposição de Bakunin sobre a organização autoritária e teoria da mais-valia de Marx, o Manifesto Pittsburgh expressa a crença dos escritores na inutilidade da cédula, o seu apoio à insurreição armada, e o poder do sindicalismo revolucionário.27 O principal elemento anarquista do Manifesto era seu ponto de vista a respeito dos sindicatos, vistos tanto como “um instrumento de revolução social ” quanto como a fundação de uma ordem social baseada na organização cooperativa que surgiria com a destruição do capitalismo. A combinação do sindicalismo revolucionário e do anarquismo veio a ser conhecida como a “ideia Chicago”, e logo iria captar a atenção da classe trabalhadora da cidade.

O Manifesto Pittsburgh descreve o capitalismo como “injusto, insano e assassino.” Escolas, igrejas e imprensa estavam “na folha de pagamento e sobre direção das classes capitalistas” para manter os trabalhadores reprimidos. Com um sistema tão corrupto, os trabalhadores tinham de “organizar a revolta” e destruir o capitalismo por qualquer meio necessário. Depois de descrever a natureza exploradora do capitalismo, o Manifesto Pittsburgh conclui delineando seis metas para o IWPA:

Primeiro: Destruição da dominação de classe existente, por todos os meios, ou seja, por uma ação enérgica, implacável, revolucionária e instrumental.
Segundo: Estabelecimento de uma sociedade livre baseada na organização cooperativa de produção.
Terceiro: a livre troca de produtos equivalentes por e entre as organizações produtivas sem comércio e especulação financeira* (profit-mongery*: especulação financeira foi a melhor adaptação que escolhemos para dar sentido na tradução).
Quarta: Organização da educação em uma base secular, científica e igual para ambos os sexos.
Quinto: Direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou raça.
Seis: Regulamentação de todos os assuntos públicos por contratos livres entre as comunas e associações autônomas (independentes), fundamentada em uma base federalista.28

      Acreditava-se que esses objetivos poderiam ser alcançados através das federações de grupos autônomos das IWPAs. Um departamento de informações facilitaria a comunicação entre agrupamentos IWPA, mas não haveria nenhuma autoridade central ou comitê executivo; a existência de uma entidade que controlasse estaria em contradição com a visão que o movimento tinha de uma sociedade cooperativa.

      Os princípios do Manifesto Pittsburgh é o que melhor expressam a visão de mudança social radical ao longo da vida de Lucy Parsons. Anos mais tarde, escrevendo em um ensaio sobre o anarquismo, Parsons explicaria que “os sindicatos são padrões embrionários” das “comunidades cooperativas” vindouras.29 Parsons também voltou de novo e de novo à ideia de que o Estado era tão somente um agente da repressão e, por isso, tinha de ser destruído através da ação revolucionária. Além disso, os mecanismos específicos de transformação social nomeados no Manifesto eram as suas armas escolhidas. Para Parsons, a revolução só viria através da mobilização de massas, baseada na união de um movimento aberto ao poder da ação violenta. Esse protótipo do anarco-sindicalismo impulsionaria seu envolvimento com os Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo) em 1905, com a Syndicalist League of North America (Liga Sindicalista da América do Norte) em 1912, e com a Communist Party’s International Defense League (Liga Internacional de Defesa do Partido Comunista) em 1927. Assim, o Manifesto Pittsburgh pode ser visto como a primeira e mais concisa expressão da ideologia radical de Lucy Parsons. Após a convenção de Pittsburgh, Lucy e Albert Parsons rapidamente centraram suas atividades radicais no desenvolvimento da IWPA. Conforme numerosos agrupamentos iam se estabelecendo em todo o país, Albert assumiu a editoria do único jornal de língua Inglesa da associação, The Alarm. O jornal tornou-se, rapidamente, a base para os anarquistas de língua Inglesa no movimento operário de Chicago. Lucy Parsons, com Lizzie M. Swank, começou a ajudar Albert com a produção do jornal e, juntas, escreveram alguns de seus artigos mais contundentes. O mais conhecido artigo de Parsons no The Alarm foi “A Word to Tramps” (Uma palavra aos Desempregados). Aparecendo na primeira edição, “To Tramps”(Aos Desempregados) encorajou a “desempregados” e “deserdados” a “aprender o uso de explosivos” e, quando à beira do suicídio, fazer uma declaração revolucionária, tomando as “avenidas dos ricos” e dar fim às suas vidas enviando “à frente, o clarão vermelho da destruição” através do poder da dinamite.30 Através de artigos como “To Tramps” e seus discursos inflamados, ela rapidamente se tornou “uma das mulheres anarquistas mais ativas no país.” 31

            Parsons também ficou ocupada trabalhando como costureira e cuidando de seus dois filhos pequenos. No meio da luta pela emancipação dos trabalhadores, Lucy e Albert tinham começado uma família com o nascimento de Albert Richard Parsons, em 14 de setembro de 1879, e Lulu Eda Parsons em 20 de abril de 1881. Essa nova posição como uma mãe trabalhadora explica, em parte, o seu envolvimento na organização de mulheres costureiras para os “Knights of Labor” (Cavaleiros do Trabalho***). De fato, quando uma outra greve pela jornada de oito horas de trabalho varreu Chicago em maio de 1886, Lucy Parsons poderia ser regularmente encontrada em reuniões para organizar as mulheres costureiras de Chicago.

            Em 1 de maio de 1886, uma grande greve pela jornada de oito horas de trabalho engoliu Chicago. As tensões entre os grevistas e a polícia rapidamente se intensificaram, e, em 3 de maio, a polícia disparou e matou vários grevistas fora da fábrica McCormick. No dia seguinte, alguns dos organizadores anarquistas da cidade responderam à violência policial com um comício na praça Haymarket, onde haviam cerca de 2.000 trabalhadores reunidos pacificamente em protesto. Lucy e Albert Parsons passaram a primeira parte da noite em uma reunião para a união das mulheres costureiras, mas conseguiram participar do comício de Haymarket depois, trazendo seus filhos junto. Albert falou por 45 minutos sobre a história do movimento operário, tendo um grande esforço para evitar a retórica inflamatória.32 Por volta das dez horas, uma repentina tempestade forçou Lucy, Albert e seus filhos a deixarem a reunião. Nesse momento, o Capitão James Bonifeld e 170 policiais marcharam até a praça Haymarket, ordenando que os restantes dos manifestantes, cerca de 300, se dispersassem. Quando o último discursante contestou a ordem, citando a natureza pacífica da reunião, alguém jogou uma bomba na falange da polícia. Os oficiais responderam com uma cascata de balas, disparando em vários de seus próprios homens e deixando inúmeros trabalhadores mortos e feridos. Infelizmente, o número real de vítimas entre os manifestantes, juntamente com a identidade da pessoa que jogou a bomba, nunca foram definidos.33

            Na sequência do atentado, os líderes anarquistas de Chicago foram perseguidos por uma onda de repressão. Os dias seguintes foram marcados por prisões em massa. Em cinco de maio, sozinha, Lucy Parsons foi presa, pelo menos, três vezes sem justificativa, na tentativa de forçá-la a delatar o paradeiro do marido.34 Albert Parsons, antecipando a repressão, havia fugido da cidade na noite do atentado. No entanto, quando foi feita uma acusação de conspiração para cometer assassinato contra sete grandes anarquistas, Albert voltou para a cidade; e, no dia da abertura do julgamento, se entregou ao tribunal. Com pouca ou nenhuma evidência que pudesse relacionar os réus a pessoa que jogara a bomba e com poucas pistas reais sobre o mesmo, o chefe promotor Julius Grinnell alegou que os discursos e escritos dos réus nos jornais anarquistas, como no The Alarm, “tinham inspirado uma pessoa desconhecida a lançar a bomba, e que eram, portanto, responsáveis por conspiração.” As acusações de conspiração, embora com severa falta de provas, foram mais do que satisfatórias para o júri lotado e um juiz abertamente hostil; e, em agosto, condenaram um réu a 15 anos de prisão e os outros sete homens à morte.

As sentenças foram seguidas por vários meses de apelos que falharam, incluindo a recusa da Suprema Corte dos Estados Unidos para julgar o caso. Dias antes da execução, o governador de Illinois comutou duas das sentenças dos homens condenados, que puderam sobreviver; um outro homem, Louis Lingg, cometeu suicídio em sua cela. Finalmente, quatro homens – August Spies, George Engel, Adolph Fischer e Albert Parsons – foram enforcados em 11 de novembro de 1887. A bomba em Haymarket e o assassinato judicial de dirigentes anarquistas em Chicago lançaram uma sombra que assombrou o movimento sindical norte-americano. Além disso, a tragédia pessoal caiu sobre Lucy Parsons, consolidando sua dedicação aos movimentos radicais da classe trabalhadora; tal fato incidiu sobre ela como um novo dever, o de compartilhar com o mundo a história da bomba de Haymarket e o julgamento dos anarquistas.

História de Lucy Parsons em Haymarket

Imediatamente após as sentenças de morte serem proferidas, Parsons deixou Chicago em uma turnê nacional para gerar apoio e arrecadar fundos para a defesa. Falando em grande parte aos “sindicalistas conservadores”, Parsons acreditava que ela iria “iluminar o povo americano” sobre a “operação de assassinato judicial em Chicago.”35 Em fevereiro de 1887, Parsons havia abordado mais de 200.000 pessoas em dezesseis estados. A turnê e o apoio gerado por ela desempenharam um papel significativo na conquista de uma suspensão de execução da Suprema Corte do Estado de Illinois. Além disso, a turnê de palestras de Parsons chamou a atenção nacional, tanto para as injustiças do julgamento quanto para as ideias dos anarquistas. No entanto, o sucesso da turnê foi limitado pela falta de apoio dos dirigentes sindicais conservadores. Terence Powderly, grande trabalhador mestre no Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho), recusou-se a apoiar a defesa e falou contra os condenados, agravando ainda mais a tensão já existente dentro do movimento operário. Contudo, a comissão de defesa criada por Parsons e o uso de uma turnê para angariar o apoio público e financeiro iriam servir como importantes modelos para os futuros radicais. Em um nível pessoal, a turnê iria introduzir uma das características mais persistentes da vida de Parsons. De 1886 até sua morte em 1942, Parsons gostaria de voltar novamente e de novo para o seu compromisso de compartilhar sua história em primeira mão de Haymarket em suas audiências.

Através de livros publicados, discursos e escritos, Parsons dedicou 50 anos de sua vida não só para limpar o nome de seu marido, mas também para a preservação, educação e inspiração de outras gerações com a história do caso de Haymarket. Parsons compartilhou essa história, em grande parte, através de materiais publicados. Menos de um mês após as execuções, Parsons estava rodando propagandas de um livro de discursos de Albert em The Alarm.36 Em 1889, Lucy Parsons estava vendendo Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons), uma coletânea de ensaios sobre a história do movimento operário americano e os próprios escritos de Albert. Com o livro, Lucy se dispôs a criar uma obra que “não era apenas biográfica, mas histórica – um trabalho que pode ser invocado como uma autoridade” para o futuro.37 A dedicação de Parsons para garantir que essa história não seria esquecida se estendeu muito para o século XX. Em 1909, Parsons escreveu para Mother Earth (Mãe Terra), uma revista anarquista editada por Emma Goldman e Alexander Berkman, entre outros, pedindo, “quem iria perpetuar a memória de nossos companheiros mártires”, para ajudá-la a republicar seu outro texto, o Famous Speeches of our Martyrs (Discursos Famosos de nossos Mártires).38 Muitas vezes, quando falava no 1º de Maio ou 11 de Novembro, Parsons infundia a sua história com forte paixão, ao compartilhar a dor pessoal que sentiu quando ela e seus filhos foram presos e detidos durante a execução.39 Frente às audiências e publicações da IWW, ela contou as atrocidades de conspiradores capitalistas ao comparar o julgamento de Chicago com a acusação do líder do IWW, Bill Haywood, em 1907.40 Mais tarde, quando o socialista Eugene V. Debs e o sindicalista radical Tom Mooney foram presos, Parsons enviou para eles dois exemplares de Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons).41

            Lucy também tinha plena consciência de outras obras sobre Haymarket. Quando a obra ficcional de Frank Harris foi publicada em 1908, Parsons tinha 10.000 folhetos impressos e distribuídos para refutar as “declarações contidas nesse livro mentiroso.”42 Acreditando que a identidade do homem da bomba era “absolutamente desconhecida”, Parsons opôs-se a Harris nomear um bombista e também ao papel secundário de Albert desempenhado em The Bomb. Por outro lado, em 1937, Parsons elogiou oLabor Agitator: the Story of Albert R. Parsons de Alan Calmer (Agitador de Trabalho: a História de Albert R. Parsons, de Alan Calmer), chamando-o de “boa história do trabalho” que a atual “geração deve conhecer”.43

            Parsons se dedicou para compartilhar as radicais histórias de Haymarket, que estão profundamente disputadas. Um historiador precoce de Haymarket praticamente ignorou o papel de Parsons nos esforços de defesa e limitou sua vida para as notas finais.44 De acordo com Ashbaugh, na década de 1960, os editores da Radcliffe’s Notable American Women (Notáveis Mulheres Americanas de Radcliffe) não optaram por incluir Parsons, chamando-a de uma figura patética incapaz de escapar do passado e parar de chorar sobre injustiças.45 Aparentemente, de acordo com essas caracterizações, a defesa que Parsons fez de seu marido e a dedicação aos mártires da história de Haymarket a fez historicamente insignificante. Na verdade, a luta de Mark Donahue contra o parque Lucy Parsons atesta o fato de que essa ideia ainda está viva hoje.

            Na década de 1970, os historiadores revisionistas contra-atacaram essa demissão. Em sua biografia, Ashbaugh denunciou “a impressão de que Lucy Parsons dedicou sua vida a limpar o nome de seu marido” como completamente errada, retratando Parsons, ao invés disso, como uma revolucionária comunista, não uma esposa devotada. Mais recentemente, Gale Ahrens escreveu que seus “escritos e discursos sobre os acontecimentos em 1886-87… são uma parte relativamente pequena do trabalho de sua vida”, e que ela só estava tentando demonstrar a continuidade histórica entre Haymarket e julgamentos políticos posteriores.46 Ambos estão corretos ao considerar Parsons uma revolucionária em seu próprio direito. Entretanto, a história dos mártires de Haymarket não era uma pequena parte da vida de Parsons, mas, em vez disso, foi uma característica central de sua vida.

            Quase imediatamente após a bomba, as histórias populares do evento entraram na esfera pública. Na maioria das vezes, essas histórias serviram apenas para apoiar processos sensacionalistas que apregoavam concepções de anarquistas como perigosos subversivos. “O mais notável destas histórias é o capitão da polícia Michael” de Schaack, 1889, Anarchy and Anarchists, que retrata o julgamento de Haymarket como uma grande vitória para a lei e a ordem sobre terroristas anarquistas.47 Outra história inicial é a “Anarchy at an End: Lives, Trial, and Conviction of the Eight Chicago Anarchists” de 1886, que incide sobre os papéis heroicos do júri, acusação e juiz.48 Junto com outras histórias populares da época, esses livros disseminaram a interpretação do Estado capitalista a respeito dos eventos de Haymarket. Como contraponto à essas histórias conservadoras, Life of Albert Parsons segue um esquema semelhante ao texto de Schaack. Ambos começam com uma história do movimento operário muito antes da década de 1880 e, embora ambos sejam extremante subjetivos, eles tentam apresentar um quadro histórico para a compreensão dos acontecimentos de 1886.

Contudo, com o decorrer do tempo, Albert Parsons passou a ser o centro da história do caso Haymarket, crescendo no trabalho de Parsons. De fato, Parsons tomou um interesse particular na mitificação e criou um herói fora do legado de seu marido. Isso pode ser visto pela comparação das respostas que deu a Harris em The Bomb e as que deu a Calmer em Labor Agitator. Parsons, apaixonadamente, denunciou o The Bomb, porque ela acreditava que Harris tinha identificado erroneamente a pessoa da bomba, e porque o The Bombapresentou Albert Parsons como uma figura secundária.49 Por outro lado, Parsons elogiou o livro de Calmer, o que está diretamente ligado ao fato de que Albert toma o lugar central em Labor Agitator. Claramente, Parsons apoiou a narrativa que colocou seu marido na vanguarda dos acontecimentos, apesar de que sua importância no movimento operário era, em grande parte, devido ao fato de ser ele um dos seus poucos agitadores de língua Inglesa. Assim, Parsons era culpada de participar na transformação de si mesma em herói. No entanto, um reconhecimento dessa subjetividade não só reforça a centralidade do caso Haymarket em sua vida, mas também mostra que ela não era infalível. Parsons permitiu, por vezes, que suas lealdades pessoais moldassem sua interpretação no caso de Haymarket, ainda que não fosse patológica ou de grau obsessivo.

            Ainda assim, há uma justificativa para o calendário e a forma de apresentação encontrada na narrativa histórica de Parsons. Na maior parte das vezes, Parsons compartilha essa história quando participa de eventos apropriados – especialmente nos aniversários do dia da bomba ou da execução. Em seu jornal The Liberator (O Libertador) no IWW, impresso de 1905 a 1906, demonstra claramente isso. Em The Liberator, Parsons dedica amplo espaço para as questões da época, como o sindicalismo, a Guerra Russo-Japonesa e próximas eleições, economizando uma discussão detalhada sobre a questão de Haymarket para o dia 11 de novembro de 1905. Na memória do assunto, Parsons ofereceu sua narrativa de assassinato judicial, apoiando seu argumento com registros do tribunal do Condado de Cook.50Além da edição de aniversário, quase todos os artigos sobre Haymarket emThe Liberator foram acoplados a um artigo sobre a história internacional dos trabalhadores, refletindo sua consciência do lugar mais amplo de Haymarket na história.51

Da mesma forma, quando falava em eventos que não estavam diretamente relacionados com a Haymarket, Parsons geralmente reservaria sua discussão sobre Haymarket para o final, como uma pedra angular inspiradora. Seu discurso na convenção fundadora do IWW começou com uma exposição da opressão das mulheres trabalhadoras, em seguida, discutiu a solidariedade de classe e terminou com um histórico do caso de Haymarket. No entanto, na celebração do May Day (Dia do Trabalhador) em 1930, Parsons dedicou a totalidade do seu discurso a Haymarket, começando com “a grande greve” para “a jornada de oito horas” e terminando com as últimas palavras do mártir no tribunal.52 As diferenças entre os dois discursos destaca a racionalidade por trás das decisões de Parsons quando fala sobre a história de Haymarket.

Ao contar a história Haymarket para o público de trabalhadores, Parsons advertiu contra visões ingênuas da democracia americana. Juntamente com as lições da greve em 1877, o susto vermelho que se seguiu ao atentado ensinou Parsons, da forma mais pessoal, que o estado norte-americano poderia derramar um “reinado de terror” em cima do radicalismo, igual ao “cão de caça russo mais zeloso.”53 A história do caso Haymarket mostrou que o governo podia se mover rapidamente para esmagar indivíduos e movimentos. A incapacidade do comitê de defesa para impedir os assassinatos judiciais incutiu em Parsons a importância central de angariar apoio em massa para desafiar o poder do capitalismo sobre o Estado. Assim, o objetivo subjacente de compartilhar a história de Haymarket se estendeu para além de limpar o nome de seu marido, pois almeja, no fim das contas, usar as lições do caso para educar futuros radicais trabalhistas. As lições embutidas na história de Parsons foram evidentes aos militantes posteriores. Organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn explicou que Parsons “viajou de cidade em cidade, batendo nas portas de sindicatos locais e contando a história do julgamento de Haymarket” a fim de alertar os jovens sobre a “gravidade da luta adiante” e a possibilidade de que a “prisão e a morte” podem vir “antes da vitória.”54 A natureza perigosa do radicalismo do trabalho foi ilustrada pela explicação de Parsons em um discurso de que “a imprensa capitalista”, o “púlpito”, a polícia, um júri lotado, e “juízes preconceituosos” agiram conjuntamente para executar líderes anarquistas de Chicago.55 Assim, Parsons advertiu jovens radicais, usando a história do caso de Haymarket para mapear as estruturas de poder em um estado capitalista.

            Historiadores revisionistas que rejeitaram ou ignoraram a dedicação de Parsons à história de Haymarket também têm mascarado o fato de que Parsons havia fixado um significado alternativo para o caso Haymarket, que desafiou o significado criado por poderes institucionalizados. Através de interpretações históricas de tais historiadores, “comentaristas da grande mídia, porta-vozes do capital, e oficiais estaduais fundamentados na legitimação das instituições” transmitiram a “ideia dominante de que a violência do governo efetivamente protegeu” a América contra a “violência conspiratória e niilista de terroristas da classe trabalhadora”, como Albert Parsons.56 Em outras palavras, histórias como a de Schaack, que classificou os anarquistas como terroristas e subversivos estrangeiros, deram aos acontecimentos de Haymarket um significado simbólico que mais tarde justificou a criação de aparatos estatais repressivos, incluindo “esquadrões vermelhos” (red squads, unidades de inteligência policial especializadas em se infiltrar), legislação nativista, e agências de inteligência. Em oposição a essa caracterização dominante, Parsons retratou os anarquistas como mártires, em vez de terroristas, exibindo uma forte consciência desta luta pelo sentido. Praticamente, em todos os tempos, “a reunião Haymarket” foi referida historicamente como o “motim de Haymarket”; e Parsons teria, apaixonadamente, citado a natureza da reunião como “pacífica e tranquila”.57Parsons sabia que ela tinha que “cavar os fatos” de uma história de mentiras que haviam sido amontoadas sobre os mártires por aqueles que tentaram “encobrir [o] crime de enviar cinco líderes de trabalhadores para a forca.”58Além disso, o significado histórico alternativo que Parsons atribuiu também construiu as bases simbólicas de comemorações institucionais, como o May Day. Quando a dedicação de Parsons à interpretação histórica radical do caso Haymarket é jogada abaixo, obscurece-se o papel influente que ela desempenhou na fixação de um significado alternativo para o episódio da bomba na Haymarket.

            Ao reconhecer que Parsons passou grande parte de seu tempo compartilhando a história dos acontecimentos de Haymarket, é possível explorar a influência da narrativa pessoal sobre o radicalismo. Embora bem versado no pensamento radical, a capacidade de Parsons para moldar o significado dos eventos de 1886 não deriva de sua experiência intelectual. Em vez disso, a influência de Parsons está enraizada no uso de uma narrativa pessoal e sua posição como uma viúva do acusado e executado. Parsons explicou que ela tinha um “direito como mãe e como esposa de um dos [a] os homens sacrificados, para dizer o que quer”, que ela poderia “trazer a luz a incidir sobre” a judiciária “conspiração”.59 Apesar de sua falta de poder institucionalizado, ela poderia usar seu poder simbólico como uma viúva para impulsionar seu significado alternativo para a esfera pública por meio de palestras e livros, e, assim, combater as ideias sensacionalistas divulgadas pela imprensa mainstream (termo inglês que designa o pensamento ou gosto corrente da maioria da população). Assim como as histórias institucionais do episódio da bomba em Haymarket produziram poderosos sentimentos de medo no seio da sociedade, a narrativa de Parsons havia criado sentimentos apaixonados de raiva e revolta entre os radicais. Quando os historiadores ignoram que Parsons teria um compromisso de dizer a sua história alternativa do caso Haymarket, destroem também a oportunidade de ver o poder que a experiência pessoal pode ter na promoção de radicalismo na América, e em preencher as lacunas no registro histórico.

 

Raça e a Criação da Consciência de Classe

            A postura de Parsons sobre a opressão racial também é contestada bruscamente. Relacionado à sua celebração como uma ativista dos direitos civis, muitas vezes, é afirmado que Parsons foi uma forte porta-voz contra o racismo. A página inicial do site comemorativo LucyParsonsProject.org afirma que Parsons desafiou a discriminação racial. Na mesma linha, os funcionários dos parques de Chicago acreditavam que o parque proposto não reconhece apenas o ativismo operário de Parsons, mas também os seus esforços em nome dos afro-americanos.60 No entanto, essa celebração da militante como uma voz ativa contra a opressão racial não tem sido afirmada por acadêmicos. O historiador Robin D. G. Kelly argumenta que Parsons eloquentemente lutou contra a opressão da classe trabalhadora, mas “ignorou a raça”; argumenta, ainda, que, embora ela escrevesse sobre linchamentos de negros, Parsons visualizava a tamanha violência racial, principalmente, como uma extensão da opressão de classe. Kelly baseou seu argumento, em grande parte, em um artigo de 1886 no The Alarm, em que ela escreveu que a opressão não foi “lançada sobre o negro porque ele é negro”, mas porque “ele é pobre.”60 Kelly argumentou que Parsons praticou reducionismo de classe, e acredita que esse reducionismo é explicado pela sua incapacidade de operar fora “dos limites do pensamento ocidental socialista do século XIX.”62 Ashbaugh concorda, argumentando que Parsons “acreditava que a abolição do capitalismo produziria automaticamente igualdade racial.” Ashbaugh explica que a postura de Parsons (ou falta dela) sobre a opressão racial refletiu sua profunda internalização do racismo branco, o que tornou impossível para “ela analisar sua posição social em relação a tudo menos seu status de classe.”63 Essa análise contradiz claramente a imagem mitologizada de Parsons como “uma defensora ferrenha” para “os direitos dos afro-americanos.”64 Essa contradição é explicada, em parte, pelos questionamentos às visões que Kelly e Ashbaugh tinham de Parsons como uma reducionista de classe.

A historiadora feminista Roxanne Dunbar-Ortiz argumentou recentemente que Parsons, de fato, reconhece o racismo como uma força fora dos limites da opressão de classe, baseando-se em um artigo de 1892, em que Parsons protesta contra a violência racial, “sendo perpetuada no Sul contra os cidadãos pacíficos, simplesmente porque eles são negros.” Em resposta a esse racismo brutal, Parsons sugeriu que os afro-americanos tirassem o espírito de John Brown e “ajudassem a si mesmos” pelo aumento da autodefesa.65 Dunbar-Ortiz argumenta que a postura de Parsons sobre o racismo se estende além do “economicismo reducionista” e que sua “linguagem de autoconfiança e autodeterminação” foi um precursor para o radicalismo de “Malcolm X e os Panteras Negras”.66 A conexão feita aqui é bastante tênue. No entanto, ligando escritos de Parsons com as ideias do “movimento dos direitos civis durante a década de 1960”, Dunbar-Ortiz plantou as sementes para comemoração de Parsons como uma defensora dos direitos negros.

            Parsons, em 1930, trabalhou para a defesa dos Scottsboro Boys, através da International Labor Defense (ILD, Defesa Internacional do Trabalho), o que também é citado como evidência de seu ativismo negro. Argumenta-se que o seu trabalho em defesa dos oito homens negros, conhecidos como os “Scottsboro Boys”, em julgamento pelo suposto estupro de uma mulher branca, mostra “dedicação… para as lutas dos afro-americanos.” (www.lucyparsonsprojet.org/about_lucyparsons.html.) No entanto, na década de 1930, Parsons também estava trabalhando com o ILD para obter a liberdade do líder trabalhista Tom Mooney da prisão. Seus esforços em nome dos Scottsboro Boys parece refletir seu trabalho de longa data contra o assassinato judicial, mais do que uma dedicação específica para os afro-americanos.67 Na mesma linha, seu ensaio “Southern Lynchings” (Linchamentos no Sul) não fornece provas suficientes para demonstrar que a opressão dos afro-americanos era um foco central em sua obra. No entanto, o artigo demonstra que Parsons estava ciente do racismo, e não ignora a questão. De fato, “Southern Lynchings” sugere que, antes que Parsons passe a ser definitivamente marcada como uma reducionista de classe ou uma ativista pelos direitos dos Negros, é necessária mais investigação.

Uma exploração mais profunda em sua postura sobre o racismo pode começar com uma análise das alegações de Kelly e Ashbaugh a respeito do reducionismo em relação à dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe. Para reiterar, Kelly explicou a postura de Parsons sobre o racismo como um reflexo de seu confinamento ao pensamento socialista ocidental. Ao fazer isso, Kelly deu a entender que o trabalho de Parsons dentro do movimento operário apenas a distanciava da opressão racial, que ela era incapaz de ver o poder opressivo do racismo. Ashbaugh acreditava que o reducionismo de Parsons deveu-se ao fato de que ela internalizou o racismo, a tal ponto que ela “negou a sua própria ancestralidade negra” e, assim, ficou incapaz de ver tanto a sua própria “opressão como uma mulher negra” quanto o papel do racismo na sociedade em geral.68 Essas explicações são, em grande parte, especulativas e, paradoxalmente, apesar de Kelly e Ashbaugh chegarem a mesma conclusão, um raciocínio contradiz o outro. É difícil imaginar que uma mulher de cor viva, no início do século XX, não podia ver ou sentir o racismo. Além disso, juntamente com o “Southern Lynchings”, uma exploração de dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva demonstra que Parsons estava ciente do poder do racismo na sociedade em geral.

Ao longo da vida, Parsons se esforçou ativamente para construir uma identidade de classe comum entre todos os trabalhadores norte-americanos.69Muito antes do episódio da bomba de Haymarket, Parsons pediu às “massas para aprender que” os seus interesses estariam sempre em oposição à classe dominante.70 Parecia que a falta de apoio para a defesa dos líderes dosKnights of Labor, junto com divisões pré-existentes dentro do movimento operário e um medo geral de represálias, impediu o apoio unificado dos trabalhadores aos réus de Haymarket. Parsons se afastou das execuções, acreditando que só um movimento massivo baseado no interesse comum dos trabalhadores poderia desafiar com êxito o capitalismo. Assim, no sentido de incitar a formação de uma classe operária auto identificada na América, Parsons estava tentando fortalecer a única arma que ela acreditava realmente que poderia derrubar o capitalismo. Em 1907, depois que o líder da IWW, Bill Haywood, foi absolvido das acusações de conspiração para cometer assassinato, Parsons explicou que o sucesso da defesa foi porque “a classe operária era unida e ficou ombro a ombro”; e tornou-se consciência de classe ao reconhecer que a própria IWW, não só Haywood, era, na verdade, levada a julgamento.71

            Além disso, a sua visão de classe incluiu pessoas de todas as raças e etnias. Parsons abraçou organizações que se recusaram a participar de bode expiatório racial e rejeitavam políticas racialmente exclusivas. Em 1885, oIWPA declarou que não faria como outras organizações de trabalhadores tinham feito e “declarou o Chinês responsável pelas condições opressivas dos trabalhadores”, como o “IWPA nunca iria sentir que suas fileiras estavam completas se excluíssem trabalhadores de qualquer nacionalidade.”72 Parsons continuaria a defender um movimento trabalhista racial, inclusive, muito depois do desaparecimento das IWPAs. Falando antes do IWW, Parsons ressaltou a importância de formar uma solidariedade inclusiva entre os trabalhadores, lembrando o IWW que:

O fluxo vermelho que corre nas veias de toda a humanidade é idêntico… Não importa onde, seja nas planícies ensolaradas da China, ou no sol batendo nas colinas da África, ou nas margens distantes cobertas de neve do norte, ou na Rússia ou na América… todos eles pertencem à família humana e têm uma identidade de interesses.73

            Claramente, Parsons estava ciente que questões de raça dentro do movimento trabalhista americano poderiam ser poderosamente divisionistas. Na verdade, dialogando diretamente com problemas de racismo que assolaram o movimento operário, Parsons incentivou claramente o IWW a abraçar uma forma inclusiva da consciência de classe, não permitindo que a união fosse dividida em linhas raciais ou nacionais; assim como muitos outros sindicatos da época. Longe de ignorar raça, Parsons rejeitou a criação de organizações de trabalhadores exclusivamente raciais ou estratificados.

            Além disso, sua dedicação para forjar um movimento trabalhista racialmente inclusivo desafia a ideia de que ela havia internalizado o racismo. Em vez disso, ela reconheceu o poder de divisão do racismo e, junto com os outros fundadores do IWW, abraçou e incentivou a formação de uma consciência de classe racialmente inclusiva, que poderia atuar como um poderoso mecanismo contra o capitalismo.

            Explorar essa dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva na América pode servir como um ponto de partida para uma análise da sua postura de raça. Na verdade, em termos comemorativos, incluir nomes e as celebrações do parque que leva o nome Parsons pode de fato estimular o movimento operário americano a adotar mais práticas e políticas raciais inclusivas. Ainda assim, deve-se ressaltar que a dedicação de Parsons para forjar uma classe trabalhadora racialmente unificada, autoconsciente, estava enraizada em seu desejo de fortalecer a escolha das armas contra o capitalismo – um movimento de trabalhadores em massa. Na realidade, implícita dentro de sua postura de oposição, incluindo a sua crítica ao poder de divisão do racismo, Parsons tinha o desafio de ter sua própria concepção para América como uma sociedade sem classes.74

Criando a Heroína Mítica

 

            Grande parte da controvérsia sobre a vida de Parsons tem resultado da remodelação inadequada e da criação de um ícone histórico. A história de Parsons foi influenciada pelas afiliações políticas e objetivos daqueles que a gravaram, e por aqueles que foram empenhados em criar um herói em sincronia com suas inclinações políticas específicas ou suas necessidades. No entanto, são possíveis várias formas de comemoração ou homenagem para Parsons sem alterar ou ignorar suas próprias palavras. Parsons pode ser facilmente celebrada como uma figura fundamental na criação e preservação de uma história alternativa de Haymarket. Ela pode ser vista como um herói trabalhador que rompeu com a tradição e defendeu racialmente (e gênero) a unidade da classe trabalhadora dos Estados Unidos – uma posição geralmente radical para esse período. No entanto, não é dada atenção suficiente a como e por que essa manipulação é tão prevalecente na historiografia de Parsons. Uma série de fatores influenciam a reformulação do seu legado. Ao explorar como e por que Parsons tem sido rotulada como uma ativista negra, feminista e comunista, as raízes dessa manipulação podem ser resolvidas na íntegra.

Muitos dos problemas associados com a rotulação de Parsons como Africano-Americana já foram discutidos, mas a atratividade desse rótulo garante mais discussão. Em sua rotulação como negra, torna-se possível se envolver com ela em um nível mais familiar. A incapacidade dos Estados Unidos de reconhecer suas divisões de classe fez das identidades raciais e étnicas uma área mais familiar no discurso. É mais fácil rotular Parsons em questões afro-americanas e, em seguida, discutir questões que confrontam figuras negras na história americana. Por exemplo, quando se compara Parsons com uma famosa anarquista branca, Emma Goldman, Ashbaugh argumenta que “Goldman pudesse estudar na Europa e viajar em meios educados”, mas a “pele escura” de Parsons impediram-na de tais oportunidades.75 Contudo, o registro histórico refuta tal argumento. Parsons foi calorosamente recebida ao falar em Londres, em 1888, pelo menos, nos meios radicais; e sua visita à Inglaterra é considerada um fator chave para levar muitos socialistas ingleses a abraçar completamente o anarquismo.76 Sua popularidade na Europa durou décadas. Enquanto escrevia The Liberator, um camarada de Paris lembrou Parsons de que ela ainda estava “bem conhecida na Europa” e que qualquer conselho que pudesse oferecer sobre os perigos do sindicalismo iria “fazer uma boa impressão” nas alas radicais parisienses.77 Claramente, Parsons poderia viajar pela Europa. Assim, nem todas as restrições típicas das mulheres negras afetaram Parsons. Em vez disso, uma comparação de classe e culturas constituintes serviria como melhores mecanismos para a compreensão de diferentes experiências de Parsons e Emma Goldman na Europa. Além disso, essa comparação exigiria que a comunidade acadêmica participasse mais plenamente com Parsons em um nível de classe.

            O legado de Parsons também foi transformado em história de uma heroína feminista. Especialmente nas arenas de memória pública, Parsons é rotineiramente chamada de feminista.78 Ao longo de sua vida, ela abordou muitas questões que as mulheres enfrentam. Ela se enfureceu contra as práticas corrosivas que pressionavam as mulheres para absorver empregos domésticos e incentivou as mulheres a abraçar o controle da natalidade.79Como uma mãe trabalhadora, Parsons acreditava que falava em nome de todas as mulheres que trabalhavam quando participou da fundação do IWW.80No entanto, seus esforços em nome das mulheres sempre fizeram parte de sua dedicação à luta de classes.81 Seu interesse pela libertação feminina manteve-se focado em questões que lhe foram mais diretamente ligadas ao trabalho e ao capitalismo. Parsons respondeu às anarquistas que defendiam maior liberdade sexual das mulheres, salientando que a rejeição das relações sexuais e familiares tradicionais poderia aumentar a opressão das mulheres que trabalhavam por removê-los da rede de segurança econômica da família.82 No entanto, com os escritos dispersos de Parsons sobre questões femininas, como prova, os historiadores revisionistas têm usado com sucesso o rótulo feminista para combater a visão de Parsons como uma viúva apaixonada. Contudo, o rótulo feminista também é problemático. Pode ainda prejudicar a exploração de sua dedicação à história de Haymarket, tornando difícil esquadrinhar as maneiras pelas quais o poder de Parsons foi positivamente derivado de sua posição como mulher e viúva. Além disso, tal como os termos dos direitos civis, o rótulo feminista tende a ser usado de maneiras que fundem ideias de Parsons com as ideias e objetivos do movimento das mulheres de 1960. Ao invés de usar o termo feminista, pode ser mais simples afirmar que Parsons foi uma heroína para todos os trabalhadores.

            A ideia de que Parsons foi membro do Partido Comunista é a identidade mais contestada e sem fundamento já colocada a seu respeito. A imagem de Parsons como uma comunista é apenas a criação de Ashbaugh. Escrevendo em 1976, no final de uma era de intelectualismo marxista, Ashbaugh afirmou que Parsons perdeu a fé no anarquismo no início de 1930; e, como o Communist Party USA (Partido Comunista dos EUA) cresceu em proeminência, ela tornou-se ativa na International Labor Defense, um grupo da frente comunista. Em 1927, Parsons foi eleita para o Comitê Nacional do ILD e, de fato, trabalhou em uma série de casos, incluindo o caso Scottsboro.83 No entanto, Ashbaugh, dando, então, um salto de fé, alega que, em 1939, Parsons entrou oficialmente para o Partido Comunista, mas não forneceu qualquer evidência sólida para essa afirmação. O Partido não registra a adesão de Parsons, seja na literatura promocional ou em seus registros. Em vez disso, Ashbaugh usou um trabalho de Parsons com o ILD e seus discursos antes das audiências comunistas como prova de filiação. Já se observou que o trabalho de Parsons com o ILD foi, antes de tudo, uma continuidade de seus esforços na defesa dos líderes trabalhistas vítimas da repressão. Os discursos de Parsons antes das audiências comunistas não indicam necessariamente que era um membro do partido, mas que ela estendeu a mão para uma organização que considerava eficaz no tratamento das questões trabalhistas.

            A presença de Parsons na história do comunismo americano expõe uma das principais formas de manipulação da sua história. Na década de 1920, o movimento anarquista americano foi praticamente dizimado por políticas governamentais anti-radicais. Na década de 1930, o Partido Comunista dos EUA foi a organização mais proeminente com foco em questões trabalhistas. Desde o caso Haymarket, Parsons professava uma ideologia radical simples: apenas uma sólida organização baseada em classes e que tivesse a atenção das massas e aceitado a natureza violenta da luta de classes poderia trazer o ideal revolucionário de uma sociedade livre.84 Parsons passou a vida se movendo de organização para organização, a fim de apoiar a associação com o forte poder revolucionário. Ela explicou, em 1930, que tinha “visto muitos movimentos de vir e ir” e havia “pertencido a todos aqueles movimentos”, mas que sempre fora “uma anarquista, porque o anarquismo [transporta] o próprio germe da liberdade em seu ventre.”85 Uma pequena lista de organizações em que Parsons trabalhou inclui o Socialistic Labor Party (Partido Socialista Trabalho), o IWPA, o Socialist Party (Partido Socialista), o IWW, o Syndicalist League of North America (Liga dos Sindicalistas da América do Norte) e oILD. Parsons, em um fluido movimento de organização para organização, enfraquece a afirmação de Ashbaugh.86

            Em vez de reconhecer a vontade de Parsons para trabalhar com uma ampla gama de organizações da classe trabalhadora, Ashbaugh introduziu algo semelhante a uma competição sobre quem poderia reivindicar Parsons. Por exemplo, a história documental de Gale Ahrens foi uma tentativa de resgatar Parsons “para o movimento anarquista.”87 Ao fazê-lo, Ahrens fornece ao anarquismo outro herói, mas faz pouco para desmistificar o legado de Parsons. Ao enfatizar suas próprias afiliações políticas e não reconhecer a dedicação de Parsons à criação de uma sociedade livre, superando suas lealdades institucionais, historiadores abriram a porta para o legado de Parsons ser destorcido para a história de um mero reformador social.

Por fim, deve-se salientar que essa mitologização de Parsons resultou na desvalorização e expurgação de seu compromisso revolucionário. A adesão de Parsons à ideia de “propaganda pela ação” praticamente desapareceu do registro histórico.88 Lidar com a história de Parsons e o anarquismo de promoção da ação direta, às vezes violenta, tem sido uma tarefa difícil para a esquerda norte-americana. Além disso, em um mundo pós-11 de Setembro, o discurso em torno do surgimento e méritos da violência revolucionária tem sido quase que totalmente limitado a sua repulsa. Tornou-se difícil para comemorar publicamente Parsons, embora reconhecendo sua dedicação à “propaganda pela ação”. No entanto, sua vida pode servir como um caso de estudo para a compreensão da relação entre as experiências de repressão e de crença na necessidade ou inevitabilidade da violência como um mecanismo para a mudança. Tal exploração nos permitirá visualizar as crenças de Parsons não como uma anomalia a ser esquecida em uma outra vida louvável, mas como um elemento central de uma ideologia radical profundamente influenciada pela experiência pessoal da repressão.

O Parque Lucy Elk Gonzales Parsons

            Em 07 de março de 1942, Lucy Parsons morreu quando sua casa pegou fogo, pondo fim há mais de 70 anos de trabalho incansável em nome da classe trabalhadora da América. Parsons deixou para trás um longo histórico de contribuições influentes para o radicalismo americano, mas o fogo e a remoção e supressão de seus registros pessoais pelas autoridades estaduais contribuíram para ocultar o seu legado.89

            Historiadores e funcionários públicos ainda sepultaram a influência de Parsons, moldando sua vida para caber nos interesses políticos e culturais atuais. Essa reformulação histórica está na raiz da criação de uma imagem heroica de Parsons que contradiz muitas de suas próprias crenças. Através do esforço para ver a vida de Parsons dentro do contexto de seu próprio tempo e retornando para muitos dos registros históricos disponíveis, é possível lidar com essas contradições e deixar brilhar uma nova luz sobre suas contribuições para o radicalismo americano. Parsons foi claramente a figura mais formativa no sentido de garantir que a história do caso de Haymarket seria lembrado e não fosse distorcida por aqueles no poder. Parsons usou essa história para educar líderes trabalhistas jovens da América a respeito do poder repressivo do Estado, bem com infundir no movimento operário uma indignação apaixonada. Além disso, Parsons acrescentou ao ideal americano de justiça, promovendo políticas de trabalho racialmente inclusivas que ajudaram a fortalecer a compreensão tradicionalmente fraca de classe na América.

Em maio de 2004, o conselho do Chicago Park District’s aprovou a proposta do Parque Lucy Elis Gonzales Parsons. As contribuições de Parsons para o radicalismo americano certamente merecem ser comemoradas, e o Parque Lucy Elis Gonzales Parsons pode servir como um poderoso local para tal comemoração, apesar de os pressupostos historicamente imprecisos que levaram a sua criação. Rodeado por um número de fábricas, em um bairro operário intocado pela especulação imobiliária, o cenário do parque Parsons é bastante apropriado.90 O parque poderia facilmente servir como um ponto de encontro de diversos grupos para se unirem em torno de suas causas comuns. O parque também oferece uma oportunidade para Chicago e América começarem a abraçar plenamente a sua história radical. O passado da América está cheio de lutas pela liberdade econômica, e nossa sociedade não é nutrida através da limitação de nossa celebração histórica para o movimento dos direitos civis e de outras lutas que têm sido, muitas vezes, domadas em sua releitura.

Naturalmente, a verdadeira questão não é quem foi a heroica Lucy Parsons, mas como podemos aprender com sua luta e como sua história pode proporcionar uma melhor compreensão do radicalismo americano. Mais importante ainda, o Parque Parsons deve servir como um lembrete de que a história que encontramos em uma placa ou espremido em listas de heróis foi certamente influenciada pelo presente. A formação do legado de Parsons para atender às necessidades de um governo da cidade, relutante ou incapaz de celebrar diretamente sua história anarquista, nos ensina que histórias de banco de parque nunca devem ser vistos como a história completa, mas deve servir como ponto de partida para um estudo mais profundo.

A pesquisa sobre a vida de Parsons está apenas começando. Com uma compreensão de como e por que sua história tem sido deformada, existe uma oportunidade inestimável para cavar ainda mais os registros, em uma tentativa de desmistificar sua vida. Existem áreas inteiras de sua vida, especialmente na era da Primeira Guerra Mundial e na década de 1920, que estão em falta, a partir do registro histórico, e devem ser exploradas.

A história Lucy Parsons é mais ampla e mais complexa do que sua condensação em uma biografia ou do que um pequeno livro de fontes documentais pode capturar. Estudos sobre Parsons e o radicalismo em geral, não podem ser considerados finais – como ela mesma salientou:

“Nada é considerado tão verdadeiro ou tão certo, que as descobertas futuras não possam prová-lo falso.”91

 

__________________________

1 Sou grato a S. Kashdan que corrigiu e comunicou este artigo.

2 PARSONS, Lucy. “The Moving Inspiration of our Age,” The Agitator, 15 de Novembro de 1911, em Ahrens, ed. ____: Freedom, Equality and Solidarity(FES).p. 136.

3 Albert Parsons foi formalmente acusado e cúmplice por cometer assassinato. AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. p. 272.

4 “`Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7; “Daley Backs Plan to Name Park after Anarchist,” Chicago Sun-Times, 24 de Março 2004, 17. Tem sido muito aceito que Lucy e Albert Parsons não tiveram nenhum papel direto nos atentados de 1886. Para uma sinopse sobre a natureza injusta do julgamento veja, o perdão de Neebe, Fielden e Schwab do governador Altgeld; vindicação dos mártires de Chicago de 1887.

5 A melhor consideração do atentado é de Avrich, The Haymarket Tragedy.

6 “Park Plan Upsets Chicago Cops”, Chicago Tribune, 22 de Março 2004

7 De acordo com Ashbaugh, “Parsons afirmou ser uma ‘anarquista’, quando o título foi fixado nela pela imprensa burguesa”. PARSONS, Lucy. American Revolutionary. p. 201. Alguns historiadores têm o mesmo modo, buscou reformar visualizações dos Mártires para atender suas próprias predileções.

8 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist More Dangerous than a Thousand Rioters,”. p. 19-20.

Em: MCKEAN, Jacob. A Fury for Justice Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago. Tese sênior, 2006.

9 Albert Parsons, “Auto-Biography” em The Life of Albert Parsons, Lucy E. Parsons, ed., 9.

10 ASHBAUGH. Lucy Parsons. p. 268.

11 AVRICH. The Haymarket Tragedy. p. 9-10.

12 ASHBAUGH, Lucy Parsons. p. 267.

13 “The Mayor Testifies”, Chicago Tribune, 3 de Agosto 1886, p.1.

14 “Parsons Dusky Bride”, Chicago Herald, 18 de Setembro 1886, p. 1.

15 “Mrs. Lucy E. Parsons Her Fisrt Address in London at A Welcome Extended Her on Arrival”, The Alarm, 9 de Dezembro 1888, p. 1.

16 “Invoking the Law”, Chicago Times, 9 de Maio 1886, p. 2; “Lucy Parsons Talks”. New York Times, 16 de Outubro 1886, p. 5; “Their Last Night”, Los Angeles Times, 11 de Novembro 1887, p; 5; “Philadelphia Anarchists Mrs. Parsons Appealing for the Chicago Anarchists”, New York Times, 1 de Novembro 1886, p. 1; “Biographical Parsons”, Chicago Times, 7 de Maio 1886, p. 3. Deve ser notado que as descrições raciais de Parsons encontrados em jornais são quase sempre ligados a uma maior tentativa de demonizar ela. Por exemplo, o Chicago Times de 9 de maio de 1886 descreve o bronzeado mulato de Parsons é acompanhada pela acusação de que seus “lábios grossos, pequena, olhos brilhantes e expressão sinistra” eram prova de sua vontade de beber o sangue de crianças dos ricos.

17 “The Mayor Testifies”, Tribune, 3 de Agosto 1886.

18 De fato, “Lucy Parsons was Black” são as primeiras quatro palavras da biografia de Ashbaugh.

19 Roxanne Dunbar-Ortiz, “One Infallible, Unchageable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,” em FES, p. 169. Dunbar-Ortiz tenta preencher a lacuna, alegando que Parsons era de misto negro, do México, e ascendência indígena. Marion Tinling, Women Remembered: A guide to Landmarks of Women’s History in the United States (Greenwood Press, 1986, 479), refere-se a Parsons como “um negro de pele clara.” De acordo com ROBIN, D.G. Kelly. Freedom Dreams: the Black Radical Imagination. Beacon Press, 2002. p. 41. Parsons era “a mulher negra mais proeminente radical do final do século XIX”.

20 Ver, por exemplo, o site da African American Registry.

21 GREEN, James. Death in the Haymarket.

22 AVRICH. Haymarket Tragedy, p. 21-25.

23 GREEN, p. 85.

24 GREEN, p. 77.

25 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 29.

26 PARSONS, Lucy. “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor or the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Setembro de 1878, p. 40.

27 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 131.

28 “To the Workingmen of America”, The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 3.

29 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 32.

30 PARSONS, Lucy. “A Word to Tramps”. The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 1.

31 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 105.

32 De acordo com AVRICH (202), o discurso de Albert Parsons foi “surpreendentemente temperado” em comparação com seus discursos anteriores.

33 AVRICH. The Haymarket Tragedy, xi. **Jeffory A. **Clymer, America’s Culture of Terrorism, p. 33.

34 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”. 10 de Maio 1886, p. 53.

35 PARSONS, Lucy. “Challenging the Lying Monopolistic Press”, 11 de Outubro 1886, p. 56.

36 The Alarm, 17 de Dezembro 1887, p. 4.

37 PARSONS, Lucy. “Author’s Note”. In: The Life of Albert Parsons, p. xxx.

38 PARSONS. “To Lovers of Liberty”, Mãe Terra 4, n. 9 (Novembro 1909): 303; Lucy Parsons, ed., The Famous Speeches of Our Martyrs.

39 PARSONS. “November 11: Fifty Years Ago”. One Big Union Monthly, Novembro 1937, p. 165.

40 PARSONS, “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p. 85; “The Proposed Slaughter”,The Liberator, 4 de Março 1905, 1; “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p. 130.

41 PARSONS. “Letter to Tom Mooney”, 11 de Junho 1936, p. 162; Parsons para Eugene V. Debs, 12 de Março 1926, em: CONSTANTINE. J. Robert. Letters of Eugene. University of Illinois Press, 1990. p. 557-558.

42 PARSONS. “Letters to the Editor”. Freedom, Dezembro 1933, p. 6.

43 PARSONS. “Forward”. Em: CALMERS. Labor Agitator. International Publishers, 1937, p. 5

44 DAVID. The History of the Haymarket Affair, p. 476.

45 ASHBAUGH, p. 6.

46 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist, More Dangerous Than a Thousand Rioters,” p. 12.

47 SCHAACK. Anarchy and Anarchists.

48 Anarchy at an End

49 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 440.

50 PARSONS, Lucy. “The Great Conspiracy all Capitalist Lies”. The Liberator, 11 de Novembro de 1905, p. 1.

51 Por exemplo, em outubro 1905 Parsons escreveu vários artigos sobre “Mulheres Famosas na História”, que incluiu um longo artigo sobre revolucionária francesa. MICHEL, Louise. The Liberator, 29 de outubro de 1905, p. 1. The Liberator também demonstra que o interesse Parsons não se limitaram a história radical. Por exemplo, um recurso de longa duração foi “The Wonders of Science” da série, que se concentrou em questões científicas que variam de exploração da Antártica para Crater Lake de Oregon. The Liberator, 8 de outubro de 1905, 3; 10 de dezembro de 1906, 3.

52 PARSONS, Lucy. “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho de 1905, p 85; “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 155.

53 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”, p. 53.

54 FLYNN. I Speak My Own Piece, p. 70.

55 “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro de 1907, p. 129.

56 CLYMER. America’s Culture of Terrorism, p. 6. Para uma discussão mais ampla sobre como o significado do lance da bomba de Haymarket foi criado e utilizado pelo Estado, ver CLYMER, p. 33-68.

57 PARSONS, Lucy. “The Eleventh of November, 1887”, 1912, p. 141-142.

58 “November 11: Fifty Years Ago,”One Big Union Monthly, p. 163-164.

59 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p 85.

60 “Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7.

61 “The Negro: Let Him Leave Politics to the Politician and Prayers to the Preacher”. The Alarm, 3 de Abril 1886, 2.

62 KELLY. Freedom Dreams, p. 42.

63 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p. 66.

64 LOWNDES, Joe Lowndes. “Lucy Parsons (1853-1942): The Life of an Anarchist Labor Organizer”. Free Society 2:4, 1995, Internet.

65 “Southern Lynchings”. Freedom, 1892, p. 70.

66 “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons”, p 181.

67 Em 1934, Parsons explicou que ela “passou a trabalhar para a International Labor Defense, porque” ela “queria fazer algo para ajudar a defender as vítimas do capitalismo”, não fazendo qualquer referência ao racismo. Lucy Parsons para Carl Nold, 27 de Fevereiro 1934, p 161.

68 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 66.

69 Os artigos a seguir demonstram longa dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe através da educação dos trabalhadores em seus interesses comuns como produtções: “On the ’Harmony’ between Capital and Labor Or, the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Dezembro 1878, p 39-40. “The ’Scab’ a Result of Conditions.” Freedom, Agosto 1892, p 73; “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p 1; “Workers and the War.” The Agitator, 12 de Fevereiro, 1917, p 151.

70 “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor,” p. 40

71 PARSONS, Lucy. “The Haywood Trial and the Anarchist Trial.” The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p 129-130.

72 GRIFFIN. “Union of ’Black’ and ’Red.” The Alarm, 26 de Dezembro 1885, p 4.

73 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World,” 28 de Junho 1905, p 83

74 Parsons acreditava que um dos maiores problemas enfrentados pelos trabalhadores americanos era a crença generalizada de que “não havia classes” na América. Assim, ela se esforçou para educar os trabalhadores sobre seus interesses de classe, a fim de desmascarar concepções míticas da liberdade americana. Parsons, “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p. 1.

75 ASHBAUGH, p. 200.

76 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978, p 82. Para uma quente introdução ver “Mrs. Parsons in London.” The Alarm, 1 de Dezembro 1888, p. 2.

77 CUSAS, Lawrence. “Correspondence.” The Liberator, 10 September 1905, p 3.

78 Veja a LucyParsonsProject.org’s “About Lucy Parsons”, onde ela é chamada de “feminista proeminente” e “pioneira dos direitos civis.” Aparentemente Julia Bachrach, historiadora da Chicago Parks Division, considera Parsons uma sufragista, uma afirmação completamente anulada pela rejeição de longa data de Parson da política eleitoral. ROSENFELD, KATHRYN. “Looking for Lucy (in all the Wrong Places)”. Social Anarchism , 28 de Junho 2006,WorldWide Web

79 “Working Women.” The Socialist, 1 February 1879, p. 42-43; “The Women Question Again.” The Liberator, 3 de Outubro 1905, p 1.

80 “Speeches at the Founding Convention of the IWW,” 28 de Junho 1905, p. 79.

81 Por exemplo, Parsons estava disposto a defender a entrada das mulheres no mercado de trabalho apenas se as mulheres se recusassem a aceitar “salários mais baixos do que os humilhados pelos homens.” Se as mulheres aceitassem salários tão baixos ela acreditava que o trabalho das mulheres só seria um “prejuízo… [para] as suas colegas de trabalho.” “Woman: her Evolutionary Development.” The Liberator, 10 de Setembro 1905, p 2

82 Parsons destacou ainda que a discussão sobre a liberdade sexual feminina, referido na época como “variedade” sexual, foi dominada por homens. “Comrade Lucy Parsons Writes.” The Firebrand, 14 de Fevereiro 1897, p. 6. Dunbar-Ortiz situa Parsons dentro da história do feminismo americano, mas com cuidado articula a natureza baseada em classes de trabalho de Parsons para as mulheres. “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,”, p. 171-174.

83 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 251

84 Parsons refere-se a isso como “anarquismo de velha escola.” Em 1907, Parsons acreditava anarquistas tinham abandonado a ideia de uma “organização” construída de “membros” responsáveis por “pagar dívidas mensais e recolher fundos para propaganda”, destinada a grande ideal de uma sociedade livre. Ver “A Wise Move: on Anarchist Organization.” The Demonstrator, 6 de Novembro 1907, p. 131.

85 “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 156-157.

86 Paradoxalmente, Ashbaugh reconhece que Parsons não se importava, “sob cujos auspícios ela trabalhava”, enquanto ela trabalhava para a “classe trabalhadora”. No entanto Ashbaugh ainda indefensável declara-lhe um membro do Partido Comunista. PARSONS, Lucy, p. 256.

87 FLOOD, Andrew. “Review of Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity.” 5 de Maio 2005.

88 Por exemplo, em sua introdução biográfica, Ahrens dedica um único parágrafo para a crença de Parsons na violência revolucionária, dando amplo espaço para a participação de Parsons no Fórum da Sociedade de Antropologia de Chicago. “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist”, p. 13, 17-19.

89 Quando os amigos foram para recuperar a extensa biblioteca de Parsons do entulho foi dito pela polícia de Chicago que tinha sido tomada por um agente do FBI. No entanto, nenhuma agência já admitiu ter recebido a biblioteca de Parsons e seus papéis nunca foram encontrados. ASHBAUGH, p. 266.

90 ROSENFELD. “Looking for Lucy…,” Social Anarchism. p. 37.

91 “The Principles of Anarchism,” 1905, p. 30.

 Trabalhos Citados

AHRENS, Gale. Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity: Writings and Speeches, 1878-1937. Charles H. Kerr, 2004.

 Anarchy at an End. Lives, Trial and Conviction of the Eight Chicago Anarchists: How they Killed and What They Killed with: a History of the Most Deliberate Planned and Murderous Bomb Throwing of Ancient or Modern Times: the Eloquent and Stirring Speeches of the Attorneys for the Defense and Prosecution, with the Able Charge of Judge Gary to the Jury: Seven Dangling Nooses for the Dynamite Fiends. Hastings Library, California; Chicago: G.S. Baldwin, 1886. text-fiche.

 ASHBAUGH, Carolyn. Lucy Parsons: American Revolutionary. Charles H. Kerr, 1976.

 AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. Princeton University Press, 1984.

 CLYMER, Jeffory. A. America’s Culture of Terrorism: Violence, Capitalism, and the Written Word. University of North Carolina Press, 2003.

 DAVID, Henry. The History of the Haymarket Affair: A Study of the American Social-Revolutionary and Labor Movements. Russell and Russell, 1936.

 GREEN, James. Death in the Haymarket: a Story of Chicago, the First Labor Movement and the Bombing That Divided Gilded Age America. Pantheon, 2006.

 Governor Altgeld’s Pardon of Neebe, Fielden and Schwab; Vindication of the Chicago Martyrs of 1887: Parsons, Spies, Fisher; Engel and Ling. New York Labor News Co, 1906.

 FLYNN, Elizabeth Gurley. I Speak My Own Piece: Autobiography of “the Rebel Girl.” Masses and Mainstream, 1955.

 MCKEAN, Jacob. “A Fury for Justice: Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago.” Senior thesis, 2006.

 PARSONS, Lucy. Life of Albert Parsons with Brief History of the labor Movement in America. Chicago: by the author, 1889.

 _____. Twenty-fifth anniversary, eleventh of November, memorial edition. Souvenir ed. of the famous speeches of our martyrs delivered in court when asked if they had anything to say why sentence of death should not be passed upon them, Oct. 7, 8, and 9, 1886. Nov 11, 1887-1912. Chicago: by the author, 1912.

 ROEDIGER, Dave and Franklin Rosemont (eds.). Haymarket Scrapbook. Charles H. Kerr, 1986.

 SCHAACK, Michael J. Anarchy and Anarchists. A History of the Red Terror and the Social Revolution in America and Europe. Communism, Socialism, and Nihilism in Doctrine and in Deed. The Chicago Hay-market Conspiracy, and the Detection and Trial of the Conspirators. F.J. Schulte, 1889.

 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978

 Newspapers: The Alarm, 1885-88; Chicago Herald, 1886; Chicago Times, 1886; Chicago Tribune, 1886; The Liberator, 1905-06.

[CQM] Todo apoio à ocupação da ALEP! Ação Direta para garantir nossos direitos!

Retirado de: https://quebrandomuros.wordpress.com/2015/02/10/todo-apoio-a-ocupacao-da-alep-acao-direta-para-garantir-nossos-direitos/

Hoje a luta dos professores e funcionários da rede pública de educação do Paraná se radicalizou e ganhou mais força.

Apesar da presença massiva da PM, a categoria não se intimidou e, com mais de 20 mil pessoas presentes, a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná foi ocupada, fortalecendo a greve através da ação direta.

Não esperamos nada de deputados, porque sabemos do lado de quem estão. Só a ação direta do povo pode garantir e avançar nossos direitos!

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Repudiamos a hostilidade que a direção da APP vem mostrando às professoras e professores do Coletivo Quebrando Muros, pedindo a retirada de nossa bandeira rubro-negra do movimento e nos acusando de sermos infiltrados. Reiteramos que estamos na luta, lado a lado com a base.

Ajudamos a construir a ocupação da ALEP com a firme convicção de que só a base radicalizada pela ação direta poderá ter a força necessária para reverter os ataques que o governador Beto Richa vem fazendo contra a educação pública. Além do sucateamento das escolas e universidades estaduais e do calote que o governador deu aos técnicos e professores, Beto Richa agora também tenta retirar a autonomia das universidades estaduais através do famigerado Meta 4. Perante a todos estes ataques contra a educação pública do Paraná, afirmamos que só a luta da base pode trazer vitórias, e DA LUTA NÃO NOS RETIRAMOS!

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Não confiamos em deputados! Somente na ação direta do povo organizado!

A nossa luta é todo dia, educação não é mercadoria!

O povo unido jamais será vencido!

Lutar! Criar Poder Popular!

Ocupa Curitiba!

[FAG] Não se intimidar, não desmobilizar! Toda nossa solidariedade ao companheiro Vicente!

Retirado  de: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=1077

Janeiro de 2015, às vésperas da retomada das lutas contra o aumento das passagens e em defesa de um transporte 100% púbico em Porto Alegre, recebemos a notícia da sentença dada ao companheiro Vicente, militante da FAG e lutador social do Bloco de Luta pelo Transporte Público de Porto Alegre. Vicente está sendo condenado a um ano e meio de prisão por dano ao patrimônio público e crime ambiental, “crimes” que teria cometido em Abril de 2013 durante uma manifestação do Bloco de Luta em frente a Prefeitura de Porto Alegre. Trata-se da primeira condenação em Porto Alegre e para nós uma clara tentativa de intimidar e colocar medo no conjunto de lutadores e organizações que estão rearticulando as lutas nesse início de 2015. Um expediente político e histórico utilizado pelos setores dominantes de nossa cidade e de todo o mundo: o encarceramento dos que se levantam. Não nos desmobilizaremos e a nossa solidariedade será militante e nas ruas!!!

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E a criminalização continua…

O fato de a condenação nos ter sido comunicada apenas uma semana antes do primeiro protesto do ano do Bloco de Lutas pelo Transporte Público é tudo menos uma obra do acaso ou de um processo regular do poder judiciário. Inicia-se o ano e ao mesmo tempo se começa a mexer nos processos que estavam tramitando desde 2013: adicionando nomes à alguns, novos crimes à outros. O processo neste contexto busca ter o mesmo efeito de uma bala de borracha ou de uma bomba de efeito moral: uma tentativa de intimidar e freiar as lutas nas ruas que ousam questionar os lucros dos empresários e os conchavos já evidente das empresas com os poderes públicos.

A situação está longe de ser apenas uma situação local: quem achou que a conjuntura de criminalização havia se esgotado em virtude do descenso das mobilizações de rua após a Copa do Mundo em 2014, a recente movimentação dos governos e dos aparelhos repressivos indicam o contrário. Em São Paulo, Rio de Janeiro e uma série de outras cidades no Brasil que iniciaram o ano com mobilizações contra o aumento das tarifas de ônibus a repressão tem usado dos mesmos expedientes contra os manifestantes: gás lacrimogênio, bala de borracha e detenções arbitrárias. O carioca Rafael Braga Vieira, que era até então o único condenado dos protestos de junho de 2013 continua preso e em Porto Alegre os processos voltam a ser movidos, novos nomes são inseridos e agora a primeira sentença é dada, sem prova alguma. É a velha justiça burguesa tomando lado em uma luta entre opressores e oprimidos que está longe de acabar.

Contudo, a luta e organização dos de baixo não começou hoje e também continuará. Mobilizam-se os jovens, os trabalhadores, os sem tetos e as comunidades de periferia. As mobilizações de rua de 2013 abriram novas possibilidades na gestação de experiências organizativas e de luta que o conjunto da esquerda combativa e anti capitalista precisa ajudar a fomentar e impulsionar, descartando as velhas práticas vanguardistas, sectárias e impositivas que infelizmente ainda permeiam discursos e práticas de muitas organizações. Acreditamos que só assim podemos criar força social que desde baixo vá gestando mecanismos de auto-organização e cravando em seu horizonte a necessidade de transformação social do conjunto da sociedade. Uma verdadeira frente de oprimidas e oprimidos solidária a todo e qualquer companheiro preso, torturado, assassinado e desaparecido.

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2015: avançar em organização, cercar ainda mais de solidariedade @s que lutam!

A seletividade do sistema penal também se torna evidente neste caso. Ao longo desse processo que começa com mais de uma dezena de acusados pelos danos realizados em uma manifestação com mais de mil pessoas, vimos arquivarem um a um todos os suspeitos, responsabilizarem o único rapaz negro de ideologia anarquista que estava entre os acusados e agora incluírem outro militante negro do Pstu. Sabemos que o motivo central dessa condenação é de ordem político-ideológica mas não podemos omitir o fato de que a cor negra dos acusados tem um peso importante.

Os últimos processos tiveram como destaque a criminalização contra os coletivos e movimentos anarquistas. Em 2013, tivemos os nossos espaços públicos invadidos e nossos livros recolhidos, passando por pesados processos de inquéritos onde o que era avaliado era nossa posição em relação a temas como autoridade, governo, forças policiais e outros assuntos caros à ideologia anarquista. Panfletos, cartazes e literatura foram anexadas nos processos, como se fossem provas circunstanciais que mostrassem algum papel de mentor intelectual da nossa ideologia nas depredações ou saques realizados nas manifestações de 2013, que contavam com mais de 50 mil pessoas em Porto Alegre.

O companheiro Vicente, assim como os demais militantes e lutadores de outras organizações, coletivos e ideologias, não foi o primeiro e não será o último jovem negro e anarquista a ser condenado nesse Brasil racista. São milhares de homens e mulheres negros/as e pobres exterminados e condenados diariamente pelas polícias militares e pela justiça burguesa e racista. É a elas e eles que nossa solidariedade militante é direcionada e será junto de cada trabalhador/a que cerraremos nossos punhos. Não nos intimidaremos e em cada marcha de rua, piquete, greve, ocupação estaremos ombro a ombro com todos e todas que lutam!

Solidariedade à todos e todas companheiros e companheiras perseguidos por lutar!

Pelo fim da polícia militar!

Nossa ideologia anarquista não se presta a caricaturas!!!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

[FLPT e CTZ – Curitiba] 2° ATO CONTRA O AUMENTO DA TARIFA! QUINTA FEIRA 5/2, 18HRS, NA BOCA MALDITA!

Retirado de:                                          https://tarifazerocuritiba.wordpress.com/2015/02/04/2-ato-contra-o-aumento-da-tarifa-quinta-feira-22-18hrs-na-boca-maldita-flpt-e-ctz/

E o prefeito continua com seu jogo sujo e desonesto com a população curitibana. Temos visto nos jornais, na internet, na tv e nos meios de comunicação de massa noticiarem o aumento da tarifa para cima do valor dos 3 reais, e aterrorizando a população com a ameaça do fim da Rede Integrada de Transporte – RIT, pauta histórica do movimento desde junho de 2013, quando tentaram também acabar com a integração com as 14 cidades da região metropolitana que se beneficiam com a integração e a força do povo nas ruas impediu mais essa falta de respeito ao trabalhador. E agora vemos o final de mais um episódio da novela já conhecida por todos, a tarifa aumenta e o prefeito sai de bonzinho por ainda ter conseguido manter a integração com tarifa unica. Passando ainda por cima de decisões judiciais, com a implementação da tarifa diferenciada para pagamento em cartão transporte e pagamento em dinheiro, que sera respectivamente, de 3,15 e 3,30 em dinheiro, o que não tem nenhuma justificativa concreta para essa diferença, pois o serviço é o mesmo, independentemente da forma de pagamento, e é o Ministério Público do Paraná que tem afirmada isso ( http://www.bonde.com.br/?id_bonde=1-3–87-20150203 ) que alega ser ilegal tal situação que também ocorre de forma similar em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

A tarifa técnica paga aos empresários que antes era de 3,15 passa ao patamar agora de 3,60, tarifa essa que é completada com subsídios estaduais e municipais, o que nós do Coletivo Tarifa Zero nos posicionamos contra, pois a política de subsídios só serve para desmobilizar a população em torna da pauta, pois alivia o pagamento da tarifa na catraca para a população mas engrossa o pagamento com dinheiro publico! Subsídios nada mais são, do que dinheiro do bolso do trabalhador também, pois são frutos das arrecadações de impostos que nos roubam diariamente! E agora com essa tarifa Curitiba chega a estar entre as três capitais que tem a tarifa mais cara do país, perdendo apenas para São Paulo e Rio de Janeiro. Curitiba e Paraná sempre na frente, agora alem de termos o governador estadual mais bem pago do país, o prefeito mais bem pago do país, logo teremos a mafia do transporte coletivo mais bem paga do país!

Na segunda feira, dia 2 de fevereiro fomos para as ruas contra o aumento da tarifa, e continuaremos nas ruas até a tarifa cair!

CONJUNTAMENTE COM A FRENTE DE LUTA PELO TRANSPORTE CONVOCAMOS A TODA POPULAÇÃO CURITIBANA A SOMAR NESSA LUTA QUE É DE TODXS!

2° ATO CONTRA O AUMENTO DA TARIFA!

QUINTA FEIRA DIA 5 DE FEVEREIRO! CONCENTRAÇÃO AS 18HRS NA BOCA MALDITA!

https://www.facebook.com/events/638107769651990/

– Contra o aumento da tarifa que a elevou para 3,30! Redução imediata para 2,70;
– Quatro relatórios apontam superfaturamento na tarifa (TCE, CPI do Transporte, URBS e Sindicatos), tais relatórios apontam que a tarifa pode chegar a 2,25, assim, 2,25 já!; ( http://www.bandab.com.br/jornalismo/relatorio-cpi-tarifa-ate-r-222-licitacao-dezenas-indiciamentos/ )
– Congelamento da tarifa em 2,25;
– Rompimento dos contratos devido a irregularidades, dentre elas formação de cartel na licitação pela família Gulin;
– Fim do subsídio nas passagens (cobrança direta), quem paga os impostos são os trabalhadores, destinar dinheiro público a empresas é sobretaxar os trabalhadores, desviando dinheiro da saúde, educação, etc.
– Contratação de cobradores;
– Supressão de cobranças para compra e abastecimento do cartão magnético;
– Controle social com estatização do transporte público;

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[FARJ] Sectarismo e vanguardismo – Debatendo um problema na esquerda

Retirado de:                                               https://anarquismorj.wordpress.com/2015/01/17/sectarismo-e-vanguardismo-debatendo-um-problema-na-esquerda/

FARJ – Publicado em Libera 163 (Julho a outubro de 2014)

O sectarismo é a intolerância com as posições, opiniões, ideologias ou práticas diferentes das suas ou de seu movimento, organização, grupo etc. Vem acompanhada da arrogância, vaidade e oportunismo, colocados acima da luta pela transformação social. Assim, uma prática sectária vai pautar a política pela diferença, afirmando-se pela negação e denuncismo do outro, buscando o conflito em vez do consenso coletivo e do debate fraterno.

Quando se manifesta entre os setores da esquerda, o sectarismo é ainda mais danoso, pois muitas vezes a luta conjunta contra os inimigos de classe é prejudicada por uma visão de mundo inflexível, fanática e pouco atrativa que acaba mais por espantar o povo do que atraí-lo à causa revolucionária. O sectário preocupa-se mais com o que outros grupos políticos estão fazendo do que com os inimigos de classe dos trabalhadores.

As diferenças políticas, ideológicas e estratégicas de fato existem na esquerda, mas nenhum movimento social ou ideologia avançará sozinha no processo de transformação social. Faz parte da luta saber construir alianças, composições e articulações, com ética e sem que seja necessário deixar de lado os princípios e o programa estratégico, mas buscando o consenso coletivo pelos pontos e demandas que se tem em comum e que ajudem a fortalecer o povo e a alcançar os objetivos revolucionários. Uma prática política ética que respeite as diferenças políticas e procure sempre o fortalecimento da classe trabalhadora é o que diferencia uma proposta libertadora de um processo autoritário; uma meta democrática de um método impositivo. Práticas informais de articulação e grupos mal estruturados também prejudicam o caminho para o poder popular. Podem reproduzir por outras vias o vanguardismo, criando “lideranças ocultas” e desestimulando espaços de construção coletiva.

É preciso ter atenção, pois as relações de opressão também podem estar encarnadas na militância e essa prática deve ser combatida. Deve-se evitar todo doutrinamento, enfiando na cabeça do povo sistemas de ideias ou esquemas de ação já montados que não dialogam com sua realidade. O processo de construção do poder popular não é a doutrinação. Nem formas autoritárias de se fazer política que supõem que uma “vanguarda iluminada” saiba, fale e ensine, enquanto uma outra, o povo, ignore, escute, aprenda e obedeça.

Não são apenas belos discursos que convencerão o povo de sua força e capacidade de luta. Será sua participação concreta e efetiva na organização dos trabalhos de base, de uma greve, manifestação de rua, mutirão etc, em práticas coletivas que vão gerar acúmulos e poder popular. Tampouco é com uma bela retórica que iremos dar cabo das demandas populares, ao contrário, é por intermédio da participação política direta, com o povo organizado deliberando sobre seu cotidiano; no exercício prático com suporte de uma teoria voltada para a realidade e nutrida por esta. Trata-se assim de promover um avanço com o povo sem “idealizações” ou “ideologizações”, ou simplesmente ficar soltando “programas máximos” de maneira a não estabelecer um diálogo com o cotidiano das pessoas. Mas sim traçar objetivos, construir um programa mínimo e planos de ação proporcionais às exigências da realidade e da prática.

Pois, quando há uma vontade de acelerar artificialmente este processo de organização, mesmo em nome das causas mais “revolucionárias”, cria-se um descompasso perigoso que leva a formas estéreis de radicalismo. É querer mais do que o povo e “dar o passo maior que a perna”. É projetar um ponto de vista ideológico sobre uma realidade, de cima para baixo, enxergando apenas o que se gostaria de ver e forçando o povo a fazer aquilo que se acha que ele deveria fazer. E muitas vezes isso vem acompanhado da exaltação de um “martírio militante” ou de uma “autoridade teórica revolucionária”, promovendo determinadas vanguardas políticas.

Outra prática sectária é fazer uma ação descolada da realidade ou que não foi construída coletivamente e acusar de “reformistas”, ou algo semelhante, os que dela não participaram. Ao fim, a ação visa fortalecer as vanguardas políticas e não a luta popular. Essa prática autoritária de forçar uma “radicalização” ou impor uma pauta externa que não foi construída coletivamente pode ser contraproducente e resultar em recuo. E o que parece “revolucionário” tem um efeito reacionário pois não tem sensibilidade com o povo e não quer caminhar junto com ele.

Contribui para isso a arrogância de não se analisar corretamente as possibilidades da conjuntura e as condições concretas da luta. Querer dogmaticamente “empurrar” o povo sempre para uma correlação de forças desigual é agir de forma irresponsável que causa prejuízos sempre para os setores menos privilegiados. Forçar o passo só leva a iniciativas sectárias e à divisão no meio das massas. Uma ação é revolucionária não por sua “estética radical”, mas pelos objetivos que busca e pelo método com que foi construída e encaminhada. Querer que, de uma hora para outra, haja comprometimento imediato do povo em um processo político é colocar o trabalho de base a perder. “É melhor dar um passo com mil do que mil passos com um”.

Todos os verdadeiros processos de poder popular começam com modéstia. Pois a luta dos de baixo cresce a partir dos pequenos problemas sentidos e nas possibilidades de solução, onde toda ação deve ser assumida pelo povo enquanto sujeito ativo. Assim, o lugar das organizações políticas não é atrás nem à frente, mas como são formadas pelo povo, estar em seu meio, para estimular, propor políticas e organicidade e colocar combustível na luta. É necessária uma grande sensibilidade para acompanhar e respeitar a dinâmica viva da ação popular no momento em que ela se processa no dia a dia, numa manifestação ou numa mobilização, por exemplo.

Vontade de lutar para a transformação social sim! Mas uma determinada concepção de trabalho e de prática política cotidiana são o diferencial que vão determinar o caráter do novo mundo que se busca construir. Existem outros métodos que ajudam a acelerar efetivamente e de maneira consequente essa caminhada do povo, como a avaliação da conjuntura, a promoção da articulação, o avanço na organização interna e contato com outros grupos e experiências, o estímulo à (auto)formação política, e a criação de um ambiente social e político ético e favorável a isso, com participação direta e respeito ao povo. Métodos e práticas dotados de princípios populares como a ação direta, autogestão, ética, apoio mútuo e classismo. Valores que devem estar presentes no agora para a construção do poder popular e da transformação social.

[CTZ – Curitiba] Ato nacional de luta contra o aumento da tarifa, MPL

Retirado de:                                             https://tarifazerocuritiba.wordpress.com/2015/01/25/ato-nacional-de-luta-contra-o-aumento-da-tarifa-mpl/

Dia 23 de janeiro foi estipulado pela federação do Movimento Passe Livre o dia nacional de luta contra o aumento da tarifa. No começo desse ano de 2015 varias cidades do país tiveram aumento na tarifa de ônibus, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Joinville e Curitiba não ficou fora dessa onda, tivemos um aumento na tarifa em novembro de 2014, que era de 2,70 e passou a ser 2,85 e como se não bastasse junto com esse aumento veio o anuncio de mais um aumento para o inicio de 2015, por volta de fevereiro/março, período esse de reajuste salarial da categoria dos trabalhadores do transporte coletivo e também coincide com o carnaval, o que faz a mafia do transporte aproveitar esse momento para fazer um jogo sujo e jogar a culpa do aumento em cima dos trabalhadores do transporte enquanto a população esta festando o carnaval. Mas sabemos da mentira desse discurso, sabemos que o aumento não vem para melhorar as condições de trabalho da categoria mas sim para aumentar ainda mais os exorbitante lucros dos empresários.

Sabemos disso porque existem provas concretas que apontam para o superfaturamento da tarifa, a formação de carteis, irregularidades nos itens da planilha de custo.. que são o relatório do TCE-Tribunal de Contas do estado do Paraná ( http://www1.tce.pr.gov.br/noticias/tce-recomenda-em-relatorio-queda-de-167-na-tarifa-do-onibus-em-curitiba/2104/N ), o relatório da própria URBS, empresa reguladora do transporte coletivo na cidade, relatório da CPI do Transporte (http://www.cmc.pr.gov.br/docs/RELATORIO_final_CPI_TRANSP_CTBA_26-11-2013.pdf ), que ocorreu na Câmara dos Vereadores, fruto da luta pelo transporte de junho de 2013. Portanto sabemos que mais um aumento na tarifa só beneficiária os empresários do transporte e que a população mais uma vez pagará a conta e o luxo dos ricos. E para impedir isso somente o poder das ruas fara a o poder público retroceder nesse aumento e cancelar o próximo!

Por isso realizamos uma aula publica com o professor Lafaiete Neves, doutor em Economia pela UFPR e antigo militante na luta pelo transporte na cidade de Curitiba, para esclarecer melhor a população sobre o aumento na tarifa e convidamos também a todos a se juntarem a nós nas mobilizações que faremos nesse inicio de ano, contra o aumento da tarifa e por um transporte de qualidade! No final do ato realizamos uma caminhada até a Estação Central, onde realizamos um catracaço no tubo de ônibus, liberamos as catracas para a população ir embora de graça por pelo menos uma hora, a população teve a oportunidade de ver na pratica a tarifa zero acontecer, a ação direta mexendo com o imaginário da população, isso nunca havia acontecido na historia de luta pelo transporte público da cidade, realizamos um ato histórico!

NENHUM CENTAVO A MAIS PARA A MAFIA DO TRANSPORTE!

2,85 É ROUBO! MAIS QUE 3 REAIS É ABSURDO!

POR UMA VIDA SEM CATRACAS!

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[FARJ] Libera #163

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2015/01/17/libera-163/

Acabou de ser impresso o exemplar mais recente do Libera, nosso jornal. O Libera #163, referente aos meses de julho a outubro de 2014, tem como editorial um texto analisando as eleições de 2014 e nossa posição sobre. Além disso, há um texto nosso sobre “Sectarismo e Vanguardismo – Debatendo um problema da esquerda”, notas sobre um ato ocorrido no Rio de Janeiro em solidariedade à Revolta Curda, sobre o massacra de estudantes no México, atividade de sarau ocorrida no CEAT, atividade de 150 anos da AIT realizada no Rio de Janeiro, o caso do Rafael Braga, o II Gritinho dos Excluídos ocorrido em Vila Isabel e 140 anos de Ricardo Flores Magón.

Você pode conseguir o Libera fisicamente com nossos militantes e apoiadores e na Biblioteca Social Fábio Luz. Caso deseje receber um número grande para distribuir, entre em contato conosco.

O Libera #163 pode ser baixado aqui ou clicando na figura abaixo.

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[Cursinho Ação Direta – CQM] Dois estudantes aprovados no vestibular UFPR: conquista da organização coletiva!

Mais um resultado do vestibular UFPR chegou, e é com muito alegria que anunciamos a aprovação de dois dos nossos estudantes mais antigos do Cursinho.

Parabéns Romilene Lora e Mateus Moraes, aprovados no vestibular UFPR 2014/2015 nos cursos de Terapia Ocupacional (Curitiba) e Agroecologia (Matinhos).

Presentes e ativos desde o início da construção do Cursinho Ação Direta, como estudantes e como organizadores, se tornam hoje símbolos desse primeiro ciclo de aprendizados e experiências do primeiro projeto de Educação Popular que organizamos.

Tais resultados não vem exclusivamente da ação individual, mas sim do acúmulo organizativo de um trabalho coletivo que fizemos ao longo de 2013 e em parte de 2014. Continuaremos juntos, na luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, agradecemos e parabenizamos também todas as pessoas que estiveram presentes de alguma maneira na história da construção do Cursinho.

Em 2015, o Cursinho Popular Ação Direta voltará às atividades, com novidades e energias renovadas!

“A história são os pobres que a fazem
A vitória está na mão de quem peleia”

(Hino da Ação Direta)

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(foto tirada em 3 de agosto de 2013)

[Espanhol] La “herencia del estado islámico”

Retirado de:                                        http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2015/01/14/la-herencia-del-estado-islamico/

HERENCIA DEL ESTADO ISLÁMICO

Por Luca Pistone

Rojava, Siria, 10 Ene (Notimex).- Los más inhumanos fueron, sin duda, los europeos, dicen en las tierras liberadas. Los yihadistas lo saqueaban todo, desde la comida hasta los objetos de poco valor. Así es cómo los kurdos sirios lidian con el legado del autoproclamado Estado Islámico y se preparan para el nuevo conflicto.

“Si Kobane* cae todo habrá terminado, pero si la salvamos nada volverá a ser como antes”, dice Gavan, un joven estudiante universitario de literatura inglesa y compañero de viaje en la carretera que nos lleva a Derik, en Rojava**.

En el puente que atraviesa el río Tigris en la frontera entre Siria e Iraq, que antes era provisional, fluyen ininterrumpidamente los camiones, mientras que las barcas rojas para el transporte de personas han aumentado de dos a cuatro.

A bordo son numerosos los diplomáticos y los trabajadores humanitarios, mientras que, respecto a hace unos meses, han disminuido los prófugos que buscan refugio en el Kurdistán iraquí.

En Semalka, en el lado sirio, los obreros trabajan incansablemente para construir las oficinas que reemplazarán los contenedores donde se gestionan los pasajes.

“Estoy seguro de que pronto empezarán a poner hasta los visados en los pasaportes”, bromea Gavan.

Cerca de cuatro millones de kurdos, árabes, sirios, yazidíes y turcomanos viven en Rojava. Hace un año los dos partidos kurdos, el Consejo Nacional Kurdo (KNC) y el Partido de la Unión Democrática (PYD), declararon la autonomía del territorio respecto a Damasco.

“Cuando atacaron Kobane, los de Daesh (el acrónimo árabe de Dawlat al-Islâmiyya fî al-Irâq wa s-Shâm, como también se llama el Estado Islámico) pensaban que iban a luchar sólo en la ciudad y sus alrededores. Pero ahora tiene que vérselas con todo Rojava.

“A lo largo de los 200 kilómetros de la línea que nos separa de ellos, tenemos decenas de frentes abiertos”, dice un funcionario de las Unidades de Protección Popular (YPG), el brazo militar del PYD, que pide permanecer en el anonimato.

En su pequeña oficina en Derik tiene una televisión, conexión a internet y un pequeño generador de electricidad, aunque la luz se va continuamente.

En Derik, como también en Qamishlo, la capital de Rojava, los retratos del presidente sirio, Bashar al-Asad, y su padre, Hafez, continúan volando sobre las cabezas de los policías que regulan el tráfico.

“La presencia del régimen se limita a cargos públicos. Entre nosotros y Damasco no hay frentes abiertos. Lo que no está claro es la relación entre el régimen y Daesh”, asegura.

“Entre ellos nunca ha habido grandes batallas. Si el régimen quiere abrir un frente también en contra nuestra cuando hayamos derrotado a Daesh, estamos dispuestos a luchar contra él”, continúa el funcionario.

Se pueden ver por todas partes retratos de Abdullah Öcalan, el padre de la causa kurda, y también banderas pintadas que alaban a las YPG, fotos de los mártires. Las televisiones locales alternan las noticias del frente con vídeos de cantantes vestidos de militares y documentales sobre el heroísmo de los combatientes kurdos.

“Vinieron por ese camino. Nos atacaron durante un par de meses, pero las YPG vinieron a socorrernos y finalmente nos liberaron”, cuenta Jino, de 58 años, de Yarmouk, un pequeño pueblo en la primera línea de frente que hasta hace unas semanas estaba bajo el control del Estado Islámico.

“Eran unos 30. Llegaron por la noche, disparando al azar y con sonrisas burlonas. Después siguieron los enfrentamientos durante 60 días”, continúa.

Silona, de 43 años, alimenta a las gallinas que corretean por el jardín: “Daesh robó todo lo que se podía robar. Los que no pudieron escapar temían ser secuestrados. Las mujeres teníamos miedo de lo que nos podían hacer. Mi marido fue el único ejecutado”.

Su suegra, Lende, de 69 años, irrumpe en la conversación: “Estábamos en casa y vinieron a por él. Sin dar ninguna explicación, se lo llevaron a la plaza y le dispararon en la cabeza. Todavía no sabemos por qué”.

“Antes de Daesh aquí vivían más de mil personas, y ahora sólo quedamos un par de familias. Todos huyeron. Nosotros no lo hicimos porque somos pobres y no sabíamos dónde ir. Y además tenemos mucho miedo, porque si te escapas y luego los de Daesh te atrapan te cortan la cabeza”, reanuda Silona.

Los milicianos de las YPG patrullan día y noche Yarmouk y otros pueblos de los alrededores de los emplazamientos del Estado Islámico. Desde las colinas llegan granadas, que recuerdan que los yihadistas no tienen intención de dejar ir la presa.

“Entre los que luchan con Daesh los hay que realmente creen en la causa, los que lo hacen por el dinero y los que, aunque son pocos, se ven obligados a unirse a ellos”, dice el comandante -quien también prefiere no ser identificado- de la sección YPG desplegada en la zona.

“He visto miembros de Daesh de todas partes del mundo, incluso de China. Pero los europeos son los más peligrosos y sanguinarios”, sostiene.

El pequeño centro de Tel Kocer alberga la única aduana entre Siria e Iraq que está en manos de los kurdos. A finales de 2013 una larga batalla entre el Estado Islámico y las YPG devolvió la aduana a manos de estos últimos, que han montado un cuartel y una prisión.

En las paredes siguen presentes unos escritos en negro de los extremistas, como advertencia para no bajar la guardia.

El comandante ordena a sus subordinados que le traigan a dos chicos esposados y con los ojos vendados. Son dos ex milicianos del Estado Islámico.

El primero, Erselan, de 23 años, dice que proviene de un pueblo de Rojava: “Hace un año los de Daesh me capturaron y me obligaron a alistarme, de lo contrario me hubiesen matado. Las YPG me atraparon antes de que pudiera llevar a cabo mi martirio”.

Erselan lleva casi dos meses en esta pequeña prisión, tiempo suficiente -asegura- para haberse arrepentido: “Me convencieron de que haciéndome volar en pedazos iba a entrar en el paraíso. No pensaba en mis familiares. Para inculcarnos estas cosas nos daban lecciones y drogas duras”.

También Nebez, el otro preso, asegura que se ha arrepentido: “Si me hubieran liberado hubiese vuelto inmediatamente a luchar con Daesh. Pero las YPG me han tratado de una manera humana, y me han hecho darme cuenta de que estaba haciendo cosas horribles”.

Nebez, de 22 años, capturado hace cuatro meses, insiste en el lavado de cerebro al que el Estado Islámico somete a sus miembros:

“Nos decían continuamente cómo nos deberíamos comportar en la yihad (guerra santa). Antes de alistarme conocía a gente de todas las religiones. Después de las lecciones empecé a creer que tendríamos que matarlos si no se convertían”.

*Ciudad siria de mayoría kurda que desde el 16 de septiembre está bajo el asedio del Estado Islámico.

**Juntos, los cantones de Al-Jazeera, Kobane y Efrin constituyen Rojava (en kurdo, “Occidente”), también llamado Kurdistán sirio o Kurdistán occidental. Es una región autónoma, independiente de facto, en el norte de Siria, y está habitada principalmente por kurdos.

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