10 anos da Biblioteca Social Fábio Luz

Retirado:

http://farj.org/

No próximo sábado (19/11), vamos comemorar uma data que consideramos muito especial ao anarquismo no Rio de Janeiro: os DEZ ANOS da Biblioteca Social Fábio Luz (BSFL), fundada em 18 de Novembro de 2001 em Vila Isabel. Junto com este aniversário, será lançado também o livro “Luta Social em Vila Isabel” de autoria do jornalista e integrante da BSFL, Milton Lopes.

A biblioteca, um antigo sonho dos anarquistas cariocas, nasceu com a reunião de acervos de Ideal Peres, do antigo Grupo Anarquista José Oiticica e do acervo do Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres. A temática básica dos cerca de 900 livros é o anarquismo, entretanto, pode-se encontrar outros temas como literatura, poesia, educação, livros didáticos, teatro e marxismo. Hoje contamos também com uma videoteca, bastante procurada pelos freqüentadores do Centro de Cultura Social. O nome da biblioteca foi dado em homenagem ao militante Fábio Luz. Este nasceu na Bahia e formado em medicina, se aproximou do anarquismo ao chegar ao Rio de Janeiro no final do século XIX. Escritor, pioneiro do romance social no Brasil, durante toda sua trajetória esteve próximo a luta sindical e junto aos operários.

Foi também a partir da biblioteca e do acúmulo militante dos anos anteriores, que foi criada a primeira frente de militância da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (fundada em 2003): nossa frente comunitária, que existe até hoje. A biblioteca foi o primeiro trabalho no que viria a se tornar o Centro de Cultura Social, em 2003.

Hoje, a biblioteca cumpre um papel silencioso, mas fundamental para a militância política e social. Por suas estantes, passam todos os sábados, estudantes, desempregados, professores, moradores do bairro, pesquisadores e militantes dos movimentos sociais mais variados. Por isso, comemorar os 10 anos da Biblioteca Social Fábio Luz de certa forma é comemorar também parte da história mais recente do anarquismo no Rio de Janeiro. É comemorar a luta, a organização e o avanço da militância popular e libertária neste estado, do qual, modestamente, acreditamos fazer parte e ter contribuído. É comemorar uma trajetória que se inspira no passado não para reproduzir sem crítica o que já foi, mas para recriar com dedicação e compromisso, as condições de fortalecimento do poder popular, rumo ao socialismo libertário!

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

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O Anarquismo Especifista no Nordeste do Brasil

Retirado do site:

http://anarkismo.net/article/21040

A História do Anarquismo no Nordeste não é tão recente quanto se pensa. A participação e influência da militância anarquista nesta região, que hoje conhecemos como Nordeste do Brasil, pode ser facilmente notada na imprensa e nas diversas associações de trabalhadores desde o começo do século passado, quando o Anarquismo contava com forte enraizamento nas lutas e mantinha firme seu vetor social. Trazer à luz tal História deve ser uma de nossas tarefas, pelo aprendizado adquirido com o conhecimento das experiências de outrora, como forma de respeito à memória de companheiros e companheiras que tanto fizeram junto aos oprimidos e explorados dessas terras e pela própria ideologia que reivindicamos.

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O ANARQUISMO ESPECIFISTA NO NORDESTE DO BRASIL

A História do Anarquismo no Nordeste não é tão recente quanto se pensa. A participação e influência da militância anarquista nesta região, que hoje conhecemos como Nordeste do Brasil, pode ser facilmente notada na imprensa e nas diversas associações de trabalhadores desde o começo do século passado, quando o Anarquismo contava com forte enraizamento nas lutas e mantinha firme seu vetor social. Trazer à luz tal História deve ser uma de nossas tarefas, pelo aprendizado adquirido com o conhecimento das experiências de outrora, como forma de respeito à memória de companheiros e companheiras que tanto fizeram junto aos oprimidos e explorados dessas terras e pela própria ideologia que reivindicamos.O Capitalismo, sistema de organização e dominação social alicerçado na exploração e opressão das classes trabalhadoras, longe de caminhar evolutivamente para sua própria destruição ou ser engolido por suas próprias crises, como advogaram muitos teóricos da tradição socialista autoritária, avança vencendo essas mesmas crises, reorganizando suas contradições e (re)modelando formas de opressão e restrição da liberdade. Isso nos faz acreditar que não podemos esperar o capitalismo cair por si só, muito menos adotar uma postura apenas de resistência aos efeitos das tensões pelas quais passa o mundo do capital e suas instituições. Faz-nos acreditar que, antes de tudo, é urgente a necessidade dos trabalhadores contra-atacarem às classes privilegiadas e sua instituição mantenedora da miséria, o Estado. Para isso, urge novamente a vital organização do nosso povo, com a firme disposição de enfrentamento aos patrões e governos.

Dentro desse panorama, é importante destacar que entendemos como os protagonistas das lutas sociais aqueles que para nós devem construir uma transformação social radical do mundo em que vivemos, no sentido de substituir o sistema de dominação social do capital por outro baseado na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Algumas correntes socialistas, fiéis a sua raiz ideológica, seguem mantendo o “fetiche” de que apenas os operários urbanos e das fábricas são os protagonistas de uma verdadeira transformação da sociedade; disseminando um forte desprezo pelos setores mais oprimidos e explorados do nosso povo e demonstrando a falta de entendimento político pelo apego a um centralismo caduco e equivocado. Para estas correntes, os únicos “sujeitos revolucionários” são os operários – “que sujam os macacões nas fábricas” – em detrimento do conjunto do proletariado, entendidos aqui enquanto o conjunto dos/as trabalhadores/as, inclusive os/as desempregados/as, e das comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, pescadores e etc).

Resumir nossa atenção e esforço militante a um único setor, por mais importante que este seja, é cair em um erro já alertado por Mikhail Bakunin, desde a segunda metade do século XIX. A revolução apenas dos trabalhadores fabris e das cidades é insuficiente para dar conta de um processo avançado de lutas que nos leve a uma “vitória duradoura” pela transformação radical da sociedade. Com essa visão que restringe os sujeitos sociais da mudança, no máximo o que conseguiríamos seria uma revolução política, parlamentar, onde caberia apenas mais o reforço da ordem estatal e quimérica do Estado. Neste sentido é que enfatizamos a necessidade de uma Revolução Social, que enseje em seu bojo uma transformação das estruturas políticas, obviamente, mas que traga fundamentalmente transformações das estruturas econômicas e sociais. Uma revolução que possibilite criar uma nova sociedade, construída por homens e mulheres livres e iguais, e não mais uma revolução que conduza apenas ao reflexo desta (des)ordem de injustiça e opressão do mundo atual.

O Nordeste do Brasil, durante séculos uma região marcada pelo latifúndio e suas graves consequências – as mais visíveis sendo o coronelismo e o assujeitamento racista de índios e negros -, vem sofrendo um forte e intenso avanço do capital nas ultimas décadas, sob a justificativa de diminuir a histórica desigualdade econômica existente nas diferentes regiões do Brasil. O número de investimentos avança não somente em apoio à empresa turística perpetrada pelos Estados nordestinos e sua burguesia, com foco no litoral e suas belezas naturais, mas também avança no interior, nas regiões mais afastadas, em diferentes setores como energia, mineração, comércio, construção civil etc. É forte o incentivo para as indústrias que querem se instalar em nossa região e explorar a firme disposição de nosso povo para incrementar o roubo dos empresários e gerar cada vez mais lucros aos capitalistas. Como exemplo disso, temos a transposição de águas do “velho Chico”, o canal do sertão em Alagoas, construção de usinas de energia térmica a carvão, implantação de parques de energia eólica, instalação de refinarias de petróleo, ampliação de pólos produtores de alimentos para exportação, estaleiros, instalação de montadoras de automóvéis, construção de vários resorts e hotéis no litoral – entre outros mega-empreendimentos imobiliários destruidores do meio ambiente e de modos de vida tradicionais -, e tantos inúmeros exemplos mais que demonstram a disposição do capitalismo em recolonizar essa região que há muito deixou de lado, tratando como a “periferia” da produção e da acumulação do capital nacional.

Tendo em vista isso, não podemos mais considerar a região em que vivemos como afastada dos pólos econômicos e de produção no Brasil, pois atualmente o alvo do capital e de sua sanha destruidora se voltam para outros lugares além dos “centros” políticos e econômicos. Temos que pensar nossa atuação, enquanto anarquistas organizados, neste processo. Não se pode pensar nos estados ao sul do Brasil como lugares nos quais a luta de classes se apresenta com mais intensidade que em outros lugares do país, pois se assim fizéssemos validaríamos a idéia marxista de que os setores avançados do proletariado estariam necessariamente nas regiões mais industrializadas. Não se justifica essa idéia de que, na participação em um processo de lutas e numa conseqüente transformação, as regiões ditas “periféricas” estão fatalmente condenadas a seguir a reboque dos centros de poder econômico e político. Para nós, todo setor explorado e oprimido é potencialmente revolucionário, não apenas um setor que conduzirá todo o processo, não há preponderância do operariado fabril e das cidades. A nossa fraternidade é entre todos os nossos pares, irmãos de luta e que, explorados hoje, se dispõem à construção de um novo mundo. A Revolução será integral e global, ou não será.

Poder popular, autogestão e federalismo fazem parte de nossos princípios, portanto inegociáveis e inflexíveis. Assim, o protagonismo dos setores explorados e oprimidos, dos campos, das cidades e das florestas, das diversas regiões brasileiras, latino-americanas e mundiais; indígenas, desempregados, pescadores, operários, professores e todos outros, é fator indispensável se almejamos com sinceridade a construção de um mundo novo, de uma nova forma de vida. Somente conquistada por meio da transformação revolucionária desta sociedade e a construção de uma nova organização social baseada na autogestão, na democracia direta, na solidariedade e na fraternidade entre iguais.

Sabemos que esta não é uma tarefa fácil. O momento exige uma força hercúlea, mas nós, por estas bandas, estamos seguindo, com esforço e dedicação militante. Como “cabras valentes”, como uma mulher que luta para não ter sua casa (e sua memória) removida por causa de obras de infra-estrutura do capitalismo; como trabalhadores e trabalhadoras que lutam a partir das bases em seus locais de trabalho; como comunidades tradicionais que se mantém firmes e em luta para alcançar e manter algumas mínimas e fundamentais conquistas, após terem sido roubados em seus direitos essenciais ao longo de tanto tempo; como todos aqueles e aquelas que não “arredam o pé” da luta contra todas as formas de opressão e dominação a que estão submetidos neste mundo de miséria, morte e sofrimento.

Caminhamos com o punho ao alto, e certos de que esta é a estrada que nos leva ao objetivo almejado: a igualdade econômica e política de todos/as e a liberdade em seu mais alto grau de expressão, e não um mero privilégio comprado e sustentado pelos capitalistas e administradores do Estado. E que essas aspirações tornem-se, no trilhar do nosso percurso de luta, uma expressão real da vitória dos oprimidos e explorados deste mundo.
Assinam esta declaração:

Coletivo Anarquista Núcleo Negro – Pernambuco
Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP) – Alagoas
Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE) – Alagoas
Organização Resistência Libertária (ORL) – Ceará

Reunidos no I Encontro do Anarquismo Especifista do Nordeste
Maceió – Alagoas, nos dias 08 e 09 de outubro de 2011

Texto também postado nos nossos sites:
www.resistencialibertaria.org

Discurso do FAO nos 55 anos da FAU

Companheiros e companheiras,

É com muita alegria que compartilhamos com vocês a celebração deste 55º aniversário da Federação Anarquista Uruguaia. Sentimos a presença viva de nossas raízes. Os companheiros fundadores da FAU nos contam hoje os feitos históricos dos velhos que conviveram com a mais antiga geração de militantes do séc XIX. E nós, somos uma geração nova de militantes e organizações que surgiram no Brasil há pouco mais de uma década. No entanto, apesar de jovens nos sentimos parte da epopéia vivida pelos primeiros anarquistas do final do século XIX e início do século XX. Trazemos a luta histórica para as necessidades contemporâneas e assumimos a nossa condição de origem.

 

Até o nosso primeiro contato com a FAU, foi preciso quase um ano de relações permanentes, enfrentando os custos, as distâncias e as dificuldades de comunicação através das cartas que não tinham fim. O informe da viajem de um companheiro brasileiro a Montevidéu, deu a empolgação e o fermento para a criação da organização anarquista um ano depois. Em 1995, era fundada a Federação Anarquista Gaúcha. Os anos foram passando e seguimos trabalhando na construção de uma organização anarquista brasileira através da coordenação conjunta com grupos e organizações regionais. Iniciamos em 2002 o Fórum do Anarquismo Organizado que fez adesão à proposta especifista. Com erros e acertos, temos amadurecido e aprendido com esse processo de coordenação que completará uma década contando com dez estados em todo Brasil.

 

 

Do nosso vizinho Uruguai, herdamos as tradições da luta libertária ininterrupta desde 1870. E é na região do Rio da Prata onde se concentraram os imigrantes italianos e espanhóis que trouxeram na bagagem a influência bakuninista da 1ª Internacional. Trouxeram também posições questionadoras a fundo da ordem capitalista, partidárias da ação direta e da insurreição violenta. Essa paixão pela liberdade depois se fez presente nos anarquistas expropriadores, no sindicalismo classista e combativo, ambos fatores importantes que vão influenciar a criação da nossa co-irmã Federação Anarquista Uruguaia. Ao longo dos 55 anos de história, a FAU enfrentou o Estado, a oligarquia e o imperialismo, promovendo a luta de classes e a ação direta em todos os níveis.

 

Conjuntura internacional: o golpe financeiro e a luta dos povos

 

O poder financeiro global deu um golpe infame nos cofres públicos desde o estouro da bolha imobiliária de setembro de 2008. A desregulamentação do setor deu liberdade de movimento para os esquemas especulativos do capitalismo e permitiu uma gigante operação fraudulenta com produtos financeiros sem lastro real – uma série imensurável de derivativos afogou o mercado capitalista. A bancarrota dos maiores bancos do mundo, partindo dos norte-americanos espalhou por todos lugares, em maior ou menor grau, o drama econômico que assistimos.

 

Os altos executivos e operadores de Wall Street montaram um esquema sofisticado nas barbas da política liberticida das autoridades monetárias. Na bolha imobiliária, para fazer um exemplo curto e grosso, as financiadoras da casa própria vendiam no mercado os seus papéis para grandes bancos e fundos de investimentos explorarem os juros do mutuário. Os bancos por sua vez contratavam seguro para suas aplicações e especulavam contra elas para tirar lucros do seguro. A inadimplência do mutuário sujeito a trampa financeira detonou o esquema e arrastou toda a economia para o atoleiro com despejos em massa de moradores, milhões de demissões, falências da indústria, recorte de direitos sociais e serviços públicos. Que ninguém se engane: a jogatina não foi simplesmente uma aventura descontrolada dos capitais financeiros, todo o universo da propriedade capitalista se meteu no cassino financeiro global.

 

Resulta que após o golpe dos “abutres” o governo dos Estados Unidos e dos Estados mais fortes da Europa abraçaram a causa dos bancos e empresas com um socorro generoso da ordem de mais de U$ 12 trilhões prestado com dinheiro do tesouro público. A essa “socialização das perdas” se somou uma brutal “privatização dos ganhos” em que a classe dos dirigentes do sistema financeiro foram premiados com bônus milionários pagos com fundos do Estado. Aqui chegamos na dívida pública. Os governos dos EUA e Europa se valeram do mecanismo para absorver os prejuízos dos bancos com emissão de títulos públicos.

 

Em seu momento Noam Chomsky comentará: “a liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.” A conta desse delito sistêmico do poder financeiro a pagam hoje a classe dos trabalhadores, com a nova pobreza resultante da perda de empregos, direitos, salários e serviços públicos, pedra de toque do ajuste fiscal dos governos do mundo rico e receita para todos os demais. Nos Estados Unidos se ampliam os movimentos contra o sistema financeiro. A Europa vive uma conjuntura tempestuosa com uma deterioração da questão social que tem suscitado protestos populares de toda cor e de todo tipo. Desde manifestações violentamente anti-capitalistas como na Grécia, a greves combativas do sindicalismo da região, a ação direta de massas dos jovens “indignados” na Espanha ou a fúria incendiária dos subúrbios urbanos da Inglaterra.

A revolta dos povos árabes

As rebeliões generalizadas que marcam a conjuntura internacional nos dizem que a hora dos povos segue vigente. Isso tem grande significado. Diversos fatores políticos, econômicos e ideológicos são motores dessa revolta, a exemplo da miséria, da opressão e da falta de perspectivas básicas de vida. Cada país tem suas particularidades, mas há um elemento comum de rebelião que aponta para a destruição das brutais estruturas de opressão. A ação direta dos povos ganhou as ruas e enfrentou a repressão no Egito, Argélia, Bahrein, Yemen, Jordânia, Marrocos, Síria e Líbia. Com isso foram questionados e derrotados alguns regimes da região, colocando a vontade popular na equação de uma nova geopolítica.

A Resistência Popular na América Latina e o tema da integração

Assim como a luta popular tem imposto derrotas as ditaduras no oriente, na América Latina a última década tem sido marcada pelas lutas massivas do povo impondo derrotas ao neoliberalismo. A ação direta popular derrubou governos, deu resistência a tentativas de golpes de Estado e fez virar a balança de poder regional para um posição mais independente em relação ao imperialismo yankee. Porém, não descansamos nossas esperanças nos governos de turno. O exemplo recente do massacre indígena na Bolívia traz à tona os limites do desenvolvimentismo que atropela os anseios populares e faz colaboração com as elites. Apesar do genocídio indígena, mais uma vez o povo organizado mostrou a sua força nas marchas que duraram 65 dias e fizeram o governo voltar atrás na sua decisão. Fica a nossa solidariedade latino americana na luta contra o Plano IIRSA. É nosso dever desmascarar esse projeto de integração do território sul americano a um verdadeiro sistema de saque dos nossos bens e riquezas.

As mudanças no Brasil de Dilma que mantém a estrutura conservadora

No cenário brasileiro, Dilma, sucessora de Lula assumiu a presidência sob o lema: “País rico é país sem pobreza”. Dilma chega a 71% de aprovação com a ampliação das políticas de combate à miséria, a exemplo do bolsa-família, e com denominada “faxina ética” alardeada na imprensa como palavra de ordem de Dilma no combate à corrupção. Foram 6 ministros que despencaram até o presente momento, sendo um a cada 50 dias. Porém, a faxina de Dilma é na verdade sujeira varrida para baixo do tapete. A impunidade segue e forma par inseparável das estruturas burocráticas e oligárquicas da corrupção do poder político burguês. O Estado é uma estrutura de poder com alto instinto de conservação. Para governar com suas instituições, a experiência do PT no executivo assim o confirma, entre outros meios, é preciso se arranjar com as oligarquias que dominam a política burocrática e historicamente escoram seus interesses nos mecanismos públicos de gestão.

No que se refere à dívida pública, a política brasileira é a de engordar os bancos. Logo no início desse ano foram cortados R$ 50 bilhões no orçamento. Para o próximo ano a proposta orçamentária irá sangrar 48% dos recursos para pagar juros e amortizações da dívida. No ramo industrial, as federações da indústria e o governo lançaram recentemente um plano que visa aumentar a produtividade e a competitividade brasileira no plano internacional em acordo com a burocracia sindical. A verdadeira orientação do governo baseia-se nos cortes de investimentos sociais, no congelamento salarial, na flexibilização dos direitos. Tudo isso é feito através de um pacto social onde a patronal, banqueiros, governo e burocracia sindical controlam o jogo. Em 2008 era a crise a justificativa para a patronal demitir, atacar direitos e fazer lobby para que o Estado lhe fornecesse recursos e isenções. Agora sob o lema da competitividade a história repete.

Apesar das medidas de conciliação, nesse ano de 2011 alguns setores do movimento sindical deflagraram greves que se estenderam durante semanas e até meses. Trabalhadores dos correios, de universidades e institutos federais, do magistério e bancários abriram conflitos com o governo em que a disposição da base para a luta atropelou a burocracia sindical e obteve algumas conquistas. A ação direta e a independência de classe estiveram em pauta nessas lutas e esse exercício de poder dos trabalhadores pode surtir bons resultados daqui pra frente.

Se na luta sindical se abrem alguns caminhos, no que se refere à luta por memória, verdade e justiça, no Brasil vivemos um retrocesso. Recentemente foi criada a chamada “Comissão da Verdade” como uma tentativa do Executivo de aliviar os constrangimentos políticos que vêm causando sucessivas denúncias em escala internacional contra as violações aos direitos humanos no país.

A comissão da verdade, no entanto, é composta por apenas 07 membros, todos eles indicados pelo Executivo, sendo um representante das FFAA, a qual tem tensionado a necessidade de se averiguar os “crimes promovidos pela esquerda no período”? Com o estreito prazo de dois anos para a apresentação de seu trabalho final, a comissão, além de não ter autonomia (financeira e política) frente ao Executivo, também se vê desafiada a investigar os acontecimentos que vão não apenas do golpe de Estado ao processo de “redemocratização”, mas, inexplicavelmente, a “investigação” aborda um recorte temporal que se inicia em 1946 e vai até o ano de 1988, desviando assim o que deveria ser seu foco principal.

A não divulgação dos arquivos, ainda secretos, das FFAA, outro assunto que o Executivo não enfrenta com decisão, é uma prova cabal do quanto os resquícios do terror de Estado seguem vivos, pairando, ainda que silenciosamente, na sociedade, passados mais de 30 anos do início da transição pactuada. A Comissão, por sua vez, é outro fiasco no sentido de pautar a abertura dos arquivos da ditadura. Em seu parágrafo 2° do artigo 4° o PL afirma que: “os dados, documentos e informações sigilosos fornecidos à Comissão Nacional da Verdade não poderão ser divulgados ou disponibilizados a terceiros, cabendo a seus membros resguardar seu sigilo”. Ou seja, além de não haver a abertura dos arquivos, estes serão fornecidos por seus guardiões, as FFAA, que, na ausência de um decreto obrigando-as a abrir os documentos, mais uma vez irá divulgar papéis “podres” sem nenhuma autenticidade. A impunidade a torturadores, a industriais e banqueiros que respaldaram direta ou indiretamente a ditadura esta mais uma vez garantida.

Para nós, anarquistas organizados na FAO, a vitória da Verdade e da Justiça, só será possível quando o conjunto das forças populares (movimentos sociais, estudantis, sindicatos e organizações da esquerda) forem capazes de pautar de forma contundente a questão, o que infelizmente não temos visto. O que em países como Argentina e Uruguai é uma espécie de termômetro para a avaliação das forças de esquerda e populares, no Brasil, infelizmente, é tratado em muitos casos como uma questão secundária. Há que se virar a mesa, levando a luta por memória, verdade e justiça para as ruas, muros, para os sindicatos, movimentos sociais, estudantis, dentre outros, pois ainda há tempo!

Assim, esta data é importante não só para celebrarmos e reafirmarmos estas décadas de luta, como para reforçarmos que a proposta libertária segue vigente. Caminhando a cada dia rumo à revolução social, e acreditando que o Poder Popular se dá no trabalho cotidiano e na construção de um povo forte.

Diante das injustiças do sistema capitalista seguimos de pé!

Não esquecemos e jamais perdoaremos!Verdade e Justiça! Castigo aos culpados!

Pelo fim das ditaduras que massacram os povos!

Fortalecer a luta dos oprimidos e unificar os movimentos de greve!

Contra as medidas de austeridade!

Estendemos nossa solidariedade na luta contra o Plano IIRSA!

Nossa saudação à Federação Anarquista Uruguaia nesses 55 anos de lutas pelo socialismo e pela liberdade! Aos companheiros que ficam em nossa memória e estarão sempre presentes em nossas lutas!

Cecília presente!

Pelo Socialismo e pela Liberdade! Viva a anarquia!

Fórum do Anarquismo Organizado – FAO

 

Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (Alagoas)


Federação Anarquista Gaúcha (Rio Grande do Sul)


Federação Anarquista do Rio de Janeiro


Organização Anarquista Socialismo Libertário (São Paulo)

 

 

Resposta da Organização Resistência Libertária (ORL) à sociedade, aos lutadores anarquistas por todo o Brasil e à intitulada “Carta Aberta de Desligamento do Camarada Macarrão…”, ex-militante da ORL.

NOTA DE RESPOSTA

Qui, 03 de Novembro de 2011 12:22

“A REVOLUÇÃO É IMENSA… MAS OS HOMENS SÃO                                                                 INFINITAMENTE PEQUENOS.”

Resposta da Organização Resistência Libertária (ORL) à sociedade, aos lutadores anarquistas por todo o Brasil e à intitulada “Carta Aberta de Desligamento do Camarada Macarrão…”, ex-militante da ORL.

A Organização Resistência Libertária (ORL)[1] é uma organização política anarquista que teve seu início no ano de 2008 e se insere no panorama da luta de classes no Brasil, ao lado de organizações parceiras reunidas em torno do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Ao longo deste período, estivemos inseridos em diversas lutas nos setores popular, sindical e estudantil, contribuindo com nossa militância no sentido de impulsionar os movimentos sociais com os quais tivemos e temos relações, visando alavancar a luta organizada e autônoma do nosso povo. Nossa organização tem como perspectiva ser uma ferramenta inserida nos movimentos sociais, atuando no sentido de contribuir, através de nossa militância, por meio do diálogo, da troca de experiências e da participação ativa, para que as lutas e os movimentos sociais possam ultrapassar o caráter meramente reivindicativo e desenvolver a combatividade, a autonomia, a capacidade de auto-organização e a democracia direta.

É importante fazer esta introdução na medida em que temos uma recente trajetória de organização e alguns setores nos conhecem há pouco tempo, ou ainda não conhecem nossa Organização Política. Ainda, na medida em que pesam sobre o Anarquismo várias definições preconcebidas e preconceituosas, utilizadas ao longo da história para detratar nosso movimento e a organização libertária dos oprimidos e explorados deste mundo. A Anarquia nada mais é do que uma sociedade onde inexiste o privilégio e a exploração do homem pelo homem. Uma proposta de organização social na qual reside a igualdade política e econômica de todas e todos organizados sobre novas bases sociais de existência humana. Uma sociedade cujo poder do povo é efetivamente autônomo e soberano, na qual a autogestão o princípio fundador do modelo de organização e a democracia de base e a ação direta se contrapõem à representatividade burguesa. É rearranjando, assim, a sociedade de “baixo para cima” e não de “cima para baixo” como na atual ordem do Capital e do Estado, cujas funções se resumem a manter a desordem atual, a exploração e o estado de miséria organizada no sistema que denominamos capitalismo.

Ressaltamos ainda que, apesar de sermos uma organização política, nos diferenciamos da prática ligada historicamente aos grupos políticos que conhecemos como “partidos” – uma das formas possíveis de organização política –, inseridos nas correntes de direita e de esquerda, adeptas de um discurso revolucionário ou não. É imprescindível esse prelúdio, tendo em vista que em todos os setores em luta aparecem múltiplos atores em cena, e, dentro destes, um emaranhado de Partidos Políticos organizados para defender seus interesses no seio de cada categoria e cada movimento organizado. Alguns o fazem com vieses mais democráticos, outros com posturas mais vanguardistas e autoritárias. Nesse ponto, nossa prática política se diferencia: a ORL se pauta pela democracia direta e horizontalidade das relações como forma de debate e deliberação, seja no interior da organização, seja em nossas relações políticas com os movimentos sociais.

Tentamos nos guiar, em todos os movimentos, com postura política condizente com nossos princípios libertários, inspirados na tradição e na matriz de pensamento e prática do Anarquismo. Defendemos nos movimentos com os quais atuamos que quem deve decidir os rumos das lutas sociais são os reais interessados e afetados diretos, e não agentes externos. Nossa atuação distancia-se da prática de vanguarda porque acreditamos que nossa contribuição é dialética e, sobretudo, ética. Não entendemos que estamos à frente do povo em luta, nem na retaguarda, mas sim ao lado, ombro a ombro. Enfatizamos que esta é uma de nossas diferenças essenciais, que faz com que, na medida em que atuamos no seio de qualquer luta, estamos também sempre aprendendo, influenciando e sendo influenciados pelos próprios movimentos sociais com os quais nos relacionamos.

Estamos firmemente convictos da importância de nosso difícil e ao mesmo tempo modesto trabalho em todos os setores que atuamos nestes últimos anos. Em todos eles defendemos os nossos princípios (classismo, ação direta, horizontalidade, autonomia, democracia direta e solidariedade) de forma honesta. Por isso, sempre fomos bem recebidos e entendidos como aliados de luta. Isso só faz crescer a solidariedade entre nós, companheiros e companheiras, irmãos na exploração e reação a este estado de desorganização e opressão completa no qual vivemos.

É claro que, como as demais organizações políticas, guardadas suas devidas diferenças, não estamos isentos de tomar caminhos equivocados. A ORL contou com erros e acertos ao longo de toda sua trajetória. Não nos cabe aqui, a exemplo de outras organizações políticas, fazer um discurso triunfante. Cabe destacar que, para nós, as melhores avaliações e aprendizados são construídos com aqueles que estão em luta conosco, nos movimentos sociais, fraternos na luta que travamos cotidianamente.

“A Revolução é imensa, os acontecimentos gigantes, mas os homens são infinitamente pequenos. Eis o caráter de nosso tempo.”

Mikhail Bakunin (Carta a Pierre J. Proudhon)

Infelizmente, após a saída de um companheiro que esteve ao nosso lado nos últimos anos, temos de vir relembrar nossas aspirações publicamente e reafirmar nossa perspectiva enquanto organização. Para nós, não é trabalho demasiado responder, e tornou-se necessário fazê-lo, uma vez que nos sentimos desrespeitados e caluniados com as palavras divulgadas em alguns círculos de luta, por meio da “Carta aberta de desligamento do camarada Macarrão da Organização Resistência Libertária [ORL]”. Não somos em nada contra a escrita de uma carta de desligamento de um militante que decidiu por se desvincular de nossa organização, pelo contrário, somos favoráveis a essa prática. Contudo, esperávamos algo que construísse a luta política e social, de avanço do Anarquismo e dos movimentos sociais no Brasil. Esperávamos o mínimo de análise e reflexão teórica, já que foi este o debate que o companheiro tentou travar antes de sua saída. Ao longo da citada carta, o ex-militante da ORL buscou expor falhas e questões de caráter interno da nossa Organização, compartilhando uma série de avaliações pessoais sobre as mesmas que, na nossa visão, são em sua grande maioria equivocadas e irresponsáveis. Consideramos isso porque o referido ex-militante mentiu e dissimulou partes do nosso referencial teórico e da nossa prática política, substituindo-os por análises, conceitos, idéias e noções que ele próprio defende, relacionados diretamente com outros meios políticos externos e distintos da ORL.

É lamentável que tenhamos que escrever um longo texto para desmentir falsas interpretações, sabendo que todo o discurso da Carta está marcado por um “espezinhamento” e por um “denuncismo” aberto e indiscriminado, numa tentativa de deslegitimar-nos sem, contudo, apresentar fundamentação consistente. Uma prática corrente há anos em setores da esquerda mais autoritária, que tem por objetivo a pura destruição do oponente político.

Iremos, então, responder a carta de modo diferente, com respostas políticas, da maneira como pensamos que deve ser todo debate que participamos. Abaixo descreveremos a análise, de forma mais detalhada e explicativa, de alguns pontos centrais contidos na referida carta, conforme nossa concepção política:

  1. 1. A primeira falha que percebemos nas idéias expostas foi o discurso a-histórico. São feitas avaliações da luta a partir do hoje, não compreendendo o passado em seu contexto e suas particularidades, numa maneira de ver e analisar deveras anacrônica, que projeta no passado noções que o autor da carta tem hoje como se já as tivesse. Aponta erros pretéritos que o próprio autor avaliava diferente à época. Inclusive se isenta de todos os erros que diz ter a Organização cometido, como se não devesse responsabilidades pelo agrupamento que construía e não tivesse relação nenhuma com os equívocos cometidos coletivamente. De modo oportunista, tenta se sobressair escondendo erros e posturas que assumiu ao longo de sua militância conosco. Em nossa Organização, discordamos veementemente de tal conduta, já que todos os militantes da ORL são responsáveis por nossas táticas e estratégias políticas, devendo assumir coletivamente nossos erros e acertos.
  2. 2. Cai na prática do “denuncismo”, com um longo texto que em nada contribui para os movimentos sociais ou para o Anarquismo e sua construção a nível nacional. Reconhecemos que o companheiro pode ter conhecimento e mesmo o debate sobre o campo do Anarquismo no Brasil (ainda que não esteja de acordo com o que pensamos), mas este perdeu uma ótima oportunidade para qualificar e elevar seu discurso. Compreendemos também como equivocada e frustrada o envio de sua carta para círculos de luta variados sem nenhuma relação embriológica com o Anarquismo, demonstrando uma clara confusão de ambientes e desvio de objetivos.
  3. 3. O militante, diferente do que quer fazer transparecer na Carta, se orienta sem norte estratégico. Atua onde explode a luta de forma voluntarista, espontaneísta e individual. Enquanto nossa Organização planeja, coletivamente, a atuação em qualquer espaço de atuação política, o companheiro decidiu eximir-se desta tarefa, uma vez que passou a agir e “fechar” com grupos externos à ORL nos espaços de luta, sem nosso conhecimento, faltando com respeito e responsabilidade perante a Organização. Um exemplo disso foi sua defesa aberta do Voto estratégico em Dilma Rousseff nas últimas eleições, compactuando com o fortalecimento do Estado e do parlamentarismo, negligenciando a nossa conduta e o referencial do Anarquismo frente às eleições e à representatividade burguesas.
  4. 4. Os conceitos utilizados pelo companheiro já não condiziam com nosso referencial teórico, com nossa Declaração de Princípios[2] e com nossa prática política. Conceitos como “vanguarda”, “centralismo”, “massa”, dentre outros, e noções como “material humano” e “pára-governismo” não fazem parte das nossas referências e da linguagem que usamos para comunicar nosso pensamento e nossa ação. Essas noções acabaram por revelar um alinhamento teórico distinto do que temos acumulado. No lugar da prática e do conceito de vanguarda, por exemplo, nos pautamos pelo conceito de “minoria ativa”, ou seja, defendemos a inserção de nossos militantes nos movimentos sem a busca frenética por aparelhos de “direção” da luta ou a conquista dos espaços de decisão. Nossa perspectiva é de construção da luta de base dos setores em luta, defendendo que a organização se dê “de baixo para cima” e da “circunferência para o centro”, e não o inverso. Contrapomos ainda à “centralização”, defendida pelo camarada, a horizontalidade e o federalismo como princípios e formas de organização descentralizada e libertária – tão caros ao Anarquismo internacional e de luta.
  5. 5. Aproximamo-nos do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) porque este representa uma proposta de construção do Anarquismo organicista no Brasil. Discordamos veementemente da análise feita pelo camarada com relação ao Fórum, sobretudo se pensarmos na construção do Anarquismo de maneira séria, com enraizamento nas lutas e respeito às localidades. Para nós, a postura mais acertada é iniciar a discussão com o referido Fórum, que nos oferece uma construção mais atenta e dialética do anarquismo a nível nacional. Contudo, reafirmamos que não fazemos parte organicamente do FAO, mesmo mantendo relações de proximidade política. Na carta do companheiro é oferecida como alternativa para os anarquistas no Brasil a organização em torno da UNIPA, um “partido anarquista”, organizado e centralizado em escala nacional, tendo por base uma teoria engessada a qual não se constrói, apenas se adere. Discordamos que exista uma “expressão acabada do Anarquismo”, como a referida organização defende, um sistema teórico supostamente “científico” e dogmático, que nos isolaria em abstrações, negando a constante dialética entre a teoria e a ação. Para nós, os teóricos são referências para o pensar e o agir de nossa organização em nossa experiência contemporânea. Devem ser lidos, interpretados e apropriados a luz das preocupações atuais.
  6. 6. O companheiro faz confusão e trata com frouxidão a análise do conceito de especifismo, pondo um sinal de “igual” com os de ecletismo e sintetismo. Especifismo, em apertado resumo, traduz a ideia da Organização formada especificamente e unicamente de anarquistas, com unidade teórica e prática, em nível político para atuar no social. A Federação Anarquista Uruguaia (FAU) desenvolve o termo e o difunde para a América Latina. Em outras partes do mundo a organização só de anarquistas é conhecida por outros termos. Na organização especifista não cabe todo tipo de anarquistas, ou todos aqueles e aquelas que se dizem anarquistas. Não é, portanto, uma “colcha de retalhos”, conforme argumentado, pois nesta forma organizacional não cabem os anarquistas reprodutores de uma política autoritária e antiética presentes no seio da organização, ou mesmo individualistas, primitivistas e/ou anti-organizacionistas. Explicando ao companheiro, sintetismo é quando dentro de um mesmo agrupamento anarquista se encontram diferentes concepções do anarquismo distintas no âmbito teórico e que podem, mas não sempre, conflitar na prática, como já fora defendido pelo anarquista Sebastian Faure. Este não é o caso da ORL, que é, como explícito em nossos documentos, expresso em nossas ações planejadas e em nossa prática política, uma organização que busca constante unidade teórica e prática. Contudo, aparenta ser o caso do companheiro ao reivindicar o arcabouço teórico-conceitual e lingüístico do leninismo e do trotskismo, aliado a teóricos do anarquismo. Esta sim é, portanto, uma manifestação “ecletistista” e “sintetista”, uma vez que se arvora no Anarquismo, mas tem por base a fusão de teorias e conceitos completamente distintos e antagônicos.
  7. 7. O camarada tentou no último ano fraturar ou “rachar”, como preferem alguns militantes adeptos do trotskismo e do maoísmo, a organização assumidamente, fazendo, inclusive, a disputa de militantes para construir outro agrupamento. Nos últimos meses em que esteve na organização chegou a propor uma formação política interna com marcada linha teórica de outra organização. Isso demonstra que o companheiro já estava tendo contato direto e/ou íntimo com o grupo a quem solicita ingresso, mesmo se não tivesse ainda ingressado. O mesmo só saiu da ORL quando percebeu que seus objetivos não seriam concretizados.
  8. 8. Por fim, diz na carta que a ORL não tem uma teoria definida, nem aponta possibilidades de debate e formulação teórica, por não darmos importância à teoria para a luta social. A esta crítica resta respondermos e reiterarmos que, na realidade, apenas não nos interessa copiar ou aderir a algum programa político de outra organização, previamente formatado e distante das particularidades do nosso lugar e tempo de atuação. A construção da teoria se dá na prática de luta diária e não sentado em um divã, em busca da teoria perfeita para “aplicar” onde quer que seja.

Nesse sentido, com tantas divergências, entendemos que já era mais que chegada a hora da saída do companheiro da nossa organização. A Organização Política existe para potencializar a luta e, na medida em que nós, na avaliação do companheiro, estávamos seguindo o caminho errado e em que o mesmo atrapalhava, uma vez que não mais construía a Organização, sua saída era questão de tempo. Talvez o nosso maior erro neste processo tenha sido o de não tê-lo expulsado ao percebermos que seu alinhamento teórico e prático estava em confronto direto com o que defendemos. Agimos de modo igual com aqueles militantes que, por motivos vários, optaram por se desligar ou se afastar da ORL, esperando honestidade e fraternidade, quando na verdade deveríamos ter tido uma atitude mais correta e firme. Assumimos publicamente nosso erro.

Por fim, compreendemos que o companheiro não enfatizou o real motivo de sua saída da Organização, tal seja o seu alinhamento teórico e prático com uma organização política que tem seu arsenal teórico vinculado direta e explicitamente com matrizes de pensamento e prática no comunismo autoritário internacional.

Mentiras e dissimulações não toleramos, por isso perdemos nosso escasso tempo, respondendo tais leviandades que aqueles e aquelas que conhecem nossa militância sabem e já vieram discordar, de maneira solidária, entrando em contato e conversando conosco pessoalmente. Desejamos ao companheiro uma bela trajetória de luta e que, independente da organização que venha fazer parte, desenvolva uma militância séria e honesta, baseada na ética, no compromisso militante e na solidariedade. É o que esperamos de todo militante, independente da sua ideologia.

Esperamos sinceramente que esta resposta não seja tomada como mais uma briga de egos das quais o referido militante já tomou corpo historicamente, mas sim uma resposta clara e direta da nossa Organização. Caso este texto abra margem a outros questionamentos ou documentos dirigidos a nossa organização em torno desse assunto, seja pelo ex-militante ou pela organização que o companheiro pleiteia ingresso, desejamos prioritariamente responder-lhes de forma concreta, nos campos de luta em que atuamos, com nossa prática política.

Ao que importa, seguiremos firmes na luta cotidiana ao lado dos nossos companheiros e companheiras de luta do nosso povo, empenhados na construção do Anarquismo como ferramenta de transformação social, mais fundamentalmente na construção de um Povo Forte e cientes da grande tarefa revolucionária que devemos perseguir.

Saudações Libertárias, Fraternas e Solidárias.

Organização Resistência Libertária – ORL.

Fortaleza/CE, 03 de novembro de 2011.