[FARJ] Libera! # 157 – VIOLÊNCIA NO CAMPO: FRUTO PODRE DA BURGUESIA E DO ESTADO

A FARJ publicou semana passada o mais recente número do seu periódico, o Libera!

O Libera de número 157 é fruto da militância e da reflexão da organização na luta dos movimentos sociais do Campo (MST e MPA), O número é inteiramente dedicado ao problema que os trabalhadores do campo enfrentam em seu cotidiano de luta e resistência.

Além dos textos da organização, o periódico apresenta dois textos clássicos (Errico Malatesta e Ricardo Flores Magón),  notícias libertárias referente aos meses de Janeiro a Março, assim como um relato da manifestação que participamos e organizamos em frente ao consulado da Argentina (em libertação aos presos/as de Bariloche).

O Libera #157 está disponível fisicamente na Biblioteca Social Fábio Luz para distribuição e pode ser baixado, em PDF AQUI Caso queira receber alguns para distribuição, basta entrar em contato com farj@riseup.net. O Libera também se encontra com a nossa militância dos movimentos populares que estamos construindo.

Aproveitamos para reforçar o grito de resistência em homenagem aos dois compas que nos deixaram!

Cícero e Regina presentes!!!

[CABN] Palavras de Luta nº 4

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=932

A quarta edição do jornal Palavras de Luta já está disponível. O informativo traz nesse trimestre a luta na Ocupação Contestado, um pouco da concepção do anarquismo especifista defendido pelas organizações que compõem a CAB (Coordenação Anarquista Brasileira) e o espaço Querela.

Confira: http://www.cabn.libertar.org/wp-content/uploads/2013/03/Palavras-de-Luta-04-web.pdf

[COMPA] Nota de repúdio aos trotes racistas na FDUFMG

Publicamos nesta data, nossa nota pública de repúdio ao trote ocorrido na FADFMG, na última sexta-feira, dia 15 de março, e seu conteúdo inaceitável.
A “NOVA ANTIGA” DIREITA: O CONSERVADORISMO E  O NAZI-FASCISMO TRADICIONAIS E SUAS MÁSCARAS DO SÉCULO XXI
Com atitudes indiretas, brincadeiras “despretensiosas” e mascaradas, amparada em falsos discursos de “liberdade de expressão” e da máxima “tudo pelo humor”, a direita reproduz sua ideologia e estreita seus laços. É na brincadeira e no discurso contra o “politicamente correto” (termo forjado pela direita para desqualificar pessoas que optam por uma postura ética diante dos problemas sociais) que se dissemina grande parte do pensamento conservador e preconceituoso da atualidade. É sob o enorme guarda chuva do “humor” que se esconde o processo de naturalização do racismo, do machismo e da homofobia, tão presentes em nossa sociedade.
No dia 18 de março de 2013, foram divulgadas na internet duas fotos de trotes ocorridos dentro do prédio da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Na primeira foto, três veteranos brancos, com bigodes falsos fazendo alusão à Adolf Hitler, fazem uma saudação nazista ao lado de um calouro negro pintado de vermelho amarrado à um poste. Na segunda, há uma caloura pintada de preto, segurando uma placa com os dizeres “Caloura Chica da Silva”, acorrentada e segurada por um veterano branco que sorri.
Bastou uma busca um pouco mais detalhada no perfil do facebook de um dos estudantes que fez a saudação nazista, e pudemos constatar que ele assina páginas de orgulho branco, de figuras nazistas, de conteúdos de extrema-direita, de órgãos e figuras repressivas da atualidade, como a PMMG, a ROTA, o Coronel Telhada e que, em algumas de suas fotos, havia um emblema do Movimento Pátria Nossa Brasil (ligado ao grupo de extrema-direita integralista “Carecas do Brasil”). Temos uma constatação: um declarado nazi-fascista exerce o papel de vanguarda de suas intenções ideológicas em brincadeiras corriqueiras na universidade.
Mesmo que não houvesse um nazi-fascista infiltrado nesse quadro, a resposta a tais acontecimentos e atitudes deve ser dada de maneira categórica, por ser inaceitável que tais piadas e brincadeiras sejam tidas como normais e para que barremos a caminhada da extrema-direita. A figura de uma mulher negra, descrita com “Caloura Chica da Silva” e acorrentada por um branco é uma representação sem escrúpulos de toda uma trágica história de escravidão, opressão, racismo e sofrimento do povo negro brasileiro. A ironia e o sarcasmo são violências morais e, para nós, são como a violência física das chibatadas que nossos irmãos e irmãs negros e negras recebiam nas Fazendas de Engenho dos brancos durante as centenas de anos de escravidão no Brasil.
O povo tem memória! Em resposta às investidas da direita em destruí-la, justamente por ela ser o acúmulo de contestação, luta e conquista durante a consolidação do país e de sua história, nós afirmamos que o povo tem sim sua memória, e a reivindica sempre em suas ações. A abolição da escravatura não foi concedida por nenhuma princesa! Foi conquista de quilombolas guerreiros, de “Zumbis”, de “Dandaras”, do povo negro organizado em defesa de sua libertação e soberania cultural, social e política. Eis uma breve elucidação da memória, que jamais será destruída ou escondida como os fascistas desejam. E é em defesa dessa memória – e a partir dela – que dizemos NÃO à naturalização da violência reacionária, contra o negro, a mulher, o homossexual, o trabalhador, o desempregado, o marginalizado forçado pela sociedade segregatória e criminalizadora etc.
Nesse sentido, publicamos esta nossa nota de repúdio e algumas de nossas avaliações sobre o ocorrido, fazendo uma chamada aos estudantes, como à todo povo trabalhador, negro, mulato, pardo, às mulheres trabalhadoras, mulheres negras; que façamos combate permanente a tais manifestações que ferem nossa história, nossa memória e que seguem essa estratégia da direita de nos enfraquecer e ideologizar ocultamente os espaços sociais onde se inserem, disseminando o ódio, a intolerância e o preconceito.
A estes fascistas, repetimos em alto e bom som a palavra-de-ordem das companheiras e companheiros da Revolução Espanhola em 1936: NÃO PASSARÃO!
SOMOS TOD@S CHICAS DA SILVA!
Coletivo Mineiro Popular Anarquista
Belo Horizonte, 20 de março de 2013

Ocupação da Reitoria da Udesc: Contra a privatização da Universidade Publica

Hoje, dia 19 de março, através da reunião do Conselho Universitário da UDESC (CONSUNI), foi aprovado o processo de no 11781\2012, referente a alterações do regimento geral da universidade

OCUPA UDESC ? 48H DE MOBILIZAÇÃO

O QUE?
Hoje, dia 19 de março, através da reunião do Conselho Universitário da UDESC (CONSUNI), foi aprovado o processo de no 11781\2012, referente a alterações do regimento geral da universidade.

CONSEQUÊNCIAS
Essas alterações, ditas pontuais e sem impactos significativos, foram consideradas estruturais pela maioria dos estudantes. Apesar de uma grande manifestação visando a abertura e ampliação da discussão que possibilitasse a visão das reais consequências dessas modificações, o processo foi aprovado pelo Conselho Superior Universitário. As alterações ditas problemáticas dizem respeito à criação de um Órgão Suplementar Superior, vinculado e subordinado ao reitor, para facilitar, apoiar e incentivar a captação de recursos privados para todas as áreas da Universidade. Essa alteração não pode de forma alguma ser encarada como pontual, pois mexe estruturalmente na autonomia universitária e altera a política de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e direcionamento do ensino, pesquisa e extensão.

POSICIONAMENTO E REIVINDICAÇÕES
Para nós estudantes ficou claro que a votação se deu de forma antidemocrática, uma vez que o poder de voto e voz estudantil é reduzido a um único representante por centro. A produção do conhecimento construído na universidade pública deve ser de acordo com os interesses das demandas populares. NÃO NOS SENTIMOS REPRESENTADOS. Questionamos a democracia e EXIGIMOS paridade de voto nos conselhos e nas instâncias deliberativas da UDESC, bem como a universalização dos votos nas eleições.

Nossas reivindicações vão para além das pautas colocadas hoje em reunião. Há uma história de luta do movimento estudantil por questões estruturais e de permanências estudantis: restaurante universitário, um local de moradia estudantil, bolsas de pesquisa, extensão e monitoria que auxiliem financeiramente os estudantes (o valor é de 360 reais sem reajuste há anos). Nossa estrutura física está decadente! Estamos sem materiais permanentes para uso em aulas até coisas menores como corte de grama, papel higiênico e outras coisas mínimas, devida ao histórico de má distribuição do dinheiro que é destinado para a UDESC.

OCUPA
Os estudantes presentes na reunião do CONSUNI, após a aprovação desta resolução, decidiram em uma assembléia geral pela Ocupação da Reitoria da UDESC por 48h como forma de massificação dos estudantes e da comunidade para a convocação de uma Assembléia Geral de todos os Campi do estado, no dia 21 de março, quinta-feira, às 17h, no saguão da Reitoria.

Fonte: CM”i” – FloripaImage

[CABN] 142 anos da Comuna de Paris: Louise Michel e o protagonismo feminino na luta pela liberdade

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=907

A Comuna de Paris completa hoje 142 anos. Foi no dia 18 de março de 1871 que se iniciou a constituição da primeira experiência histórica de autogoverno operário e popular, a qual durou cerca de quarenta dias, resistindo ante as tropas francesas e alemãs que executaram mais de 20 mil rebeldes até o esmagamento da Comuna, que até então contava entre suas realizações:

  1. O trabalho noturno foi abolido;

  2. Oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;

  3. Residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;

  4. Em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias;

  5. Todas os descontos em salário foram abolidos;

  6. A jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;

  7. Os sindicatos foram legalizados;

  8. Instituiu-se a igualdade entre os sexos;

  9. Projetou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);

  10. O monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;

  11. Testamentos, adoções e a contratação de advogados se tornaram gratuitos;

  12. O casamento se tornou gratuito e simplificado;

  13. A pena de morte foi abolida;

  14. O cargo de juiz se tornou eletivo;

  15. O calendário revolucionário foi novamente adotado;

  16. O Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;

  17. A educação se tornou gratuita, secular, e compulsória. Escolas noturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;

  18. Imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adotadas nas Igrejas;

  19. A Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848, foi demolida. O confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;

  20. A Bandeira Vermelha foi adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;

  21. O internacionalismo foi posto em prática: o fato de ser estrangeiro se tornou irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, poloneses, húngaros;

  22. Instituiu-se um escritório central de imprensa;

  23. Emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;

  24. O serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;

  25. Todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos;

  26. Havia um plano para a rotação de trabalhadores;

  27. Considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a atual ENA francesa é uma cópia;

  28. Os artistas passaram a autogestionar os teatros e editoras;

  29. O salário dos professores foi duplicado.

Das barricadas levantadas no dia 18 de março de 1871, a Comuna de Paris provou para todo o movimento operário que o processo de ruptura revolucionária pela luta de classes pôde posicionar um universo de valores e ideologias do socialismo concretamente. As classes oprimidas e exploradas não chegaram ao poder do Estado constituindo-o, pelo contrário, o destruíram, através do projeto da construção federalista de poder, o “poder popular”. Não partindo da continuidade das reformas políticas francesas como muitos afirmam, mas do acúmulo prático e teórico que as classes trabalhadoras souberam aproveitar, implementando as longas experiências das greves operárias e da recente Associação Internacional dos Trabalhadores. Pela defesa intransigente da concepção da autogestão social, a vitória alcançada a muito custo foi justamente o avanço histórico de demonstrar que a tutela do Estado pode desmoronar quando as classes oprimidas organizam-se de baixo para cima, destruindo os grilhões que impediam sua emancipação.

A derrota da Comuna não está firmada sob o critério da impossibilidade do povo se auto-organizar. A repressão e o fortalecimento das nações capitalistas se articulam e se readequam gradativamente conforme existe o risco de superação da própria ordem capitalista. A Comuna de Paris representa a afirmação de levar adiante a primazia do internacionalismo e das realizações históricas da classe trabalhadora. Dentre estas realizações, é fundamental destacar a importância da luta das mulheres. Como no 08 de março a mídia sempre acaba simbolizando esta data de forma comemorativa, superficialmente, o resgate da história das lutas pela emancipação feminina está mais do que contido no episódio revolucionário da Comuna de Paris. Em homenagem às combatentes anônimas e conhecidas, relembramos artigo que a Federação Anarquista Gaúcha trouxe a público, que denota o protagonismo do passado estendendo-se até o presente.Barricade18March1871

De Mary Wollstonecraft a Louise Michel, e de Lucy Parsons a Elena Quinteros, este reconhecimento cumpre a tentativa de romper com as visões e práticas, ainda em vigência, do patriarcado nas relações no campo da esquerda. A questão de gênero tem avançado em visibilidade social, mas ainda sabemos que falta elementos materiais concretos de mudança. Este texto fala destas verdadeiras lutadoras do povo, como Louise Michel, filha de servente, professora, criadora do grupo “O direito da mulher”, formado por socialistas e feministas, e das milícias, onde comandou batalhões de mulheres à frente das barricadas na Comuna. Guerreira e libertária, defendeu a independência da colônia francesa da Nova Caledônia quando esteve lá deportada. Em “Memórias da Comuna”, de 1898, Louise Michel defendia o feminismo libertário e classista, vindo a conhecer na década de 1890, Malatesta, Emma Goldmam, Kropotkin e Pietro Gori. Em 1905, ano das primeiras experiências federalistas na Rússia, é enterrada envolta pelo estandarte da Comuna de Paris.

Em 1902, Louise Michel escreveu:

Aqui o inverno não tem onde amarrar-se,
Aqui as fragas sempre são verdes (…)

Aqui, em cadeias expira:
O presídio é pior que a morte.
Nos nossos corações sobrevive a esperança,
E se vemos a França novamente,
será para seguir combatendo! (…)

No ar paira a Liberdade!
A batalha nos chama
O clamor do deserdado!…
… A alvorada caçou a sombra espessa,
E o mundo novo se ergue

***

COM A PALAVRA E O EXEMPLO: LOUISE MICHEL

Por Federação Anarquista Gaúcha

louise-michel

Não se pode matar a ideia a tiros de canhão nem amarrá-la

Quando a Comuna foi derrotada, as tropas de Versailles massacraram gente durante 8 dias seguidos. Dizem que o batalhão feminino de Louise Michel “peleou como demônio”. Os soldados assassinaram a maioria delas a sangue frio quando já estavam desarmadas. Em geral, foram assassinados mais de 20 mil comuneiros, outros 43 mil foram presos e 5 mil deportados. Louise Michel escapou, mas se entregou porque a chantagearam com a detenção de sua mãe. Compareceu ante o Quarto Conselho de Guerra e disse: “Já que ao que parece todo coração que late pela liberdade só tem direito a receber uma pequena porção de chumbo, solicito a parte que me toca. Se me deixarem viva, não deixarei de clamar pela vingança e denunciarei os assassinos…

Declarações de Louise Michel em seu juízo

Ah, certamente, senhor advogado geral, a você resulta estranho que uma mulher ouse defender a bandeira negra. Porque temos resguardado a manifestação sob a bandeira negra? Porque esta bandeira é a das greves e indica que o operário não tem pão.

O povo morre de fome, pois bem, eu tenho tomado a bandeira negra para dizer que o povo não tinha trabalho e comida. Este é meu crime, o julguem como queiram.

Se existem tantos anarquistas, é porque muita gente está enojada da triste comédia, que faz tanto tempo, nos mostram os governos.

Resumindo, o povo não tem nem pão nem trabalho, e não temos em perspectiva mais que a guerra. E nós queremos a paz da humanidade e a união dos povos. Estes são os crimes que temos cometido. Cada um busca seu caminho, nós buscamos o nosso e pensamos que o dia em que reinar a liberdade e a igualdade, o gênero humano será feliz.”

Sobre o direito das mulheres

“Eu admito que o homem também sofre nesta sociedade maldita, mas nenhuma tristeza podeser comparada com a da mulher. Na rua ela é a mercadoria. Nos conventos, onde se ocultacomo em uma tumba, a ignorância a ata, e as regras ascendem em sua máquina comoengrenagens e pulverizam seu coração e seu cérebro. No mundo se dobra sobre amortificação. Em sua casa, suas tarefas a esmagam. E os homens querem mantê-la assim. Elesnão querem que ela usurpe sua função ou seus títulos.

Nas reuniões do grupo dos Direitos das Mulheres, e em outras reuniões, os homens maisavançados aplaudiram a ideia da igualdade. Notei – eu  tinha visto antes, e vi mais tarde –que os homens, suas declarações não obstante, ainda que parecessem nos ajudar, sempre seconformavam com as aparências… me convenci que nós as mulheres simplesmente devemostomar nosso lugar sem pedir permissão por isso.

Saúdo a todas aquelas valentes mulheres da vanguarda que foram de grupo em grupo; oComitê de Vigilância, a sociedade das Vítimas da Guerra, e mais tarde a Liga de Mulheres. Ovelho mundo deveria temer o dia em que aquelas mulheres finalmente decidam que  tiveramo bastante. Aquelas mulheres não fraquejarão. A força se refugia nelas. Tomem cuidado comelas… Tomem cuidado com as mulheres quando se cansem de tudo o que as rodeia e selevantem contra o velho mundo. Nesse dia um novo mundo começará.

Sobre o poder

Talvez seria melhor para o povo se todos nós que dirigimos a luta agora caiamos em batalha,para que depois da vitória não fiquem mais Estados maiores gerais. Assim o povo poderiacompreender que quando todo mundo junto comparte o poder, então o poder é justo eesplêndido

Quem informará os crimes que o poder comete, e a forma monstruosa em que o poder transforma os homens?”

Informações e fragmentos tomados do artigo de Victoria Aldunate Morales publicado em Kaos em la Red.

Tradução: EC – Federação Anarquista Gaúcha


Um poema de amor e despedida

Les Œillets Rouges (Os Cravos Rubros)

Quando ao negro cemitério eu for, 
Irmão,
 coloque sobre sua irmã, 
Como
 uma última esperança, 
Alguns
 ‘cravos’ rubros em flor.

Do Império nos últimos dias
Quando as pessoas acordavam,
Seus sorrisos eram rubros cravos
Nos dizendo que tudo renasceria.

Hoje, florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.

Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e pálido
Também pode morrer como o dominado.

Louise Michel

 

Retirado de: http://vermelhoenegro.org/blog/2010/03/06/com-a-palavra-e-o-exemplo-louise-michel/

[fAu] Sobre a Venezuela e ante a morte de Hugo Chávez: Seguir criando Poder Popular!!!

Sua repercussão na América Latina e no mundo.

Uma forte comoção passeou pelo mundo, pois morre um governante e militante de características singulares. Bastante controvertido, polêmico e polemista, de afirmações políticas vigorosas, criativo, incansável no seu dizer e propor, de potente carisma. Trouxe para a cena social política o nome do socialismo quando já poucos ou quase ninguém, a nível de governos em uma estrutura capitalista, fazia menção a tal nome, muito menos depois da queda do chamado socialismo real. Com Marx e Deus na sua boca lançou um socialismo original do século XXI. Ainda se discute qual conteúdo possui tal conceito. Estava então, como segue estando, no trono da infamia, o modelo neoliberal. Seu fazer político o marcou com um selo muito pessoal.  Governante paternalista, personalista, autoritário, foram as definições mais frequentes que usou-se para o seu acionar. Criou mística e esperança na maior parte do seu povo e também, em parte, de outros povos da América Latina. Gritou energicamente forte, com algumas contradições, o seu anti-imperialismo, sobre a grande pátria latino-americana, da independência, sobre o Poder Popular criado fundamentalmente a partir de cima. Teceu desde seu governo, com o suficiente da sua marca, as relações políticas com vários governos ao redor do mundo. Fez uma política de solidariedade com os países latino-americanos e até mesmo para além desta área: venda de petróleo em condições favoráveis, e outros tipos de ajuda, por exemplo, para recuperação de indústrias que levariam os trabalhadores, como no nosso país. Assim como, da mesma forma, propôs e perseverou na construção de novas organizações na América Latina fundamentando de que, com isso resultaria em mais independência, que pudesse trazer melhorias significativas para a qualidade de vida das pessoas.

É um fato que está em vista de sua figura está dimensionada de modo que hoje move multidões em seu país e diferentes expressões e manifestações em nossa América Latina e diversos países do mundo. Só a prova de exemplo, vamos dizer que o Irã declara um dia de luto, Argentina, Equador e Brasil três dias de luto, e moradores da Rússia carregam flores para a porta da Embaixada da Venezuela. Há notas expressando tristeza e dor, desde o Vaticano até a China. Sua morte se torna um evento incomum.

Dor de povo, dor que dói.

Nesse povo numeroso que sai às ruas na Venezuela há expressão dor, sensação de perda de algo querido. Ao mesmo tempo, no interior da dor acentuada, marca que há um caminho à frente a seguir, que ficou uma linha traçada. Assim o vivem, o sentem e o dizem. “Hoje, o nosso dever é continuar ainda mais fundo com o socialismo, com a luta do projeto que o comandante nos deu”, responde um estrevistado a um repórter ao passo. Outros dizem coisas semelhantes e luta e socialismo mencionados novamente e novamente. Qual subjetividade se produziu nesta experiência social aos de baixo? Difícil de responder rapidamente e menos hoje. Se vive na dimensão da emoção, da angústia, do sentimento agredido. Também rebeldia. O que trouxeram estes ventos tão fluidos, tão contraditórios, com esperança, para amplos setores dos de baixo reais? Local onde houve um apoio mais amplo para Hugo Chávez. Que elementos ideológicos se produziram? Como esses elementos se expressarão no amanhã próximo?

É justamente ali, no povo, nos de baixo propriamente dito, onde reside na Venezuela e em todos os lugares, a esperança de início de processos para um amanhã melhor, justo e de solidário.

O anarquismo histórico ombro a ombro com o povo

A FAU é fortemente uma herdeira daquele anarquismo que os imigrantes trouxeram para estas terras. Daqueles semeadores que colocavam tudo para mudar esse sistema brutal, injusto até a demência. Diziam de modo direto nas publicações da época, que nada podia se esperar a partir desta burguesia cruel e exploradora, pois tínhamos que lutar por outra sociedade. O que eles diziam levavam-no à prática. Lá se encontravam metidos até os ombros dentro do seio daquele povo ao que sentiam pertencer. Eles não tinham nenhuma dúvida de que era o seu lugar. A sensibilidade social daqueles militantes libertários que vinham de diferentes partes da Europa lhes perimitiram tomar contato rápido com o sentimento, com todo o imaginário daqueles “nacionais”, que nunca tinham ouvido falar em sindicatos, muito menos em socialismo libertário ou anarquismo. Mas bem tinham como referentes caudilhos políticos e partidos criados descaradamente para manter privilégios. Na vida cotidiana, vivendo com os mesmos problemas de seu povo, sofrendo aquela superexploração, dando, de fato, um exemplo de companheirismo, oferecendo coisas como o desejo de tecer com colegas de trabalho a sensibilidade espremida, foram criando os primeiros sindicatos, explicando que poderia ser alcançado um mundo melhor, que se devia lutar para arrancar dignas condições de existência e da preparação de um amanhã próprio. Depois, nos sindicatos se ensinava a leitura e a escrita, havia palestras sobre vários temas, se formavam temas dramáticos, se levantavam panelas solidárias durante as greves. Ao fazê-lo, em seguida, nesse amassar dos sonhos, foi-se construindo um outro sujeito. Não veio só nem dos livros, veio da ação cotidiana, das práticas que se foram realizando, da participação que estavam levando os trabalhadores que não conheciam a palavra “sindicato”. É claro que aquela militância estava inserida profundamente e propunha uma orientação nas tarefas sociais cotidianas. Propostas que calçavam com aqueles desejos. Mas bem se sabe que desejo não se engravida. Aquele trabalho diário estava, na verdade, organizando representações, idéias, comportamentos, produzindo ao mesmo tempo determinadas mudanças no imaginário dos de baixo. Este foi o caso aqui e, pelo menos, na maioria dos países da América Latina.

Hoje, o imaginário dos de baixo é mais rico, contém muitas experiências-primas e cruas, e a sua subjetividade é ao mesmo tempo mais complexa. Contém elementos de rebeldia e compreensão geral da injustiça que o rodeia. E assim, por vezes, ganha as ruas. Além disso, sempre resulta mais proveitoso que se esteja participando dos eventos sociais do que esteja em um estado de resignação e alheio ao seu entorno. Como estará o imaginário dos de baixo na Venezuela, quando muito se falou do Poder Popular, quando muito se falou sobre o imperialismo, quando certas formas de participação social têm sido eficazes? O que sabemos é que o quietismo e a resignação não produzem nenhum grau de resistência, a possibilidade está na ação política social real, por mais contraditória e confuso que seja.

Imperialismo e poder popular

São conceitos, tanto do imperialismo como o do poder popular, que estiveram com freqüencia nas palestras de Hugo Chávez. Seguem ainda presentes no discurso neste momento nos lábios de estadistas e militantes populares. O conteúdo e sua implementação são já farinha de outra história.

Podemos dizer que são muitas as pessoas que queriam passar o horizonte linguístico do termo imperialismo. Sugerem, às vezes o dizem, que é algo que pertence ao passado do capitalismo. Sugere-se que, nesta era pós-moderna as relações sociais mudaram com o grau de tais problemas que já se dissolveram. Se hoje há algo que fica claro é que a existência de relações de dependência, tudo o que constitui uma política imperial, é um componente constitutivo do sistema capitalista.

Quem deu por morto ao imperialismo não serve para coveiro. O imperialismo vive e oprime como nunca. Enquanto isso, os Estados dos países mais industrializados têm aumentado seus papéis em vários campos. Não é há contradição nisso de que muitos desses países se encontram no que designam como crise e que estão jogando para o desemprego milhões de trabalhadores.

É verdade, hoje, há outra forma de capitalismo de Estado, não deixou de se ocupar de algumas funções anteriores e se ocupou de outras que considera estratégicas para esta etapa. Uma etapa onde o feroz capital financeiro viaja o mundo deixando o rastro de miséria.

Capital financeiro internacional que diariamente se cruza com a esfera política e ideológica. Os banqueiros não têm dificuldade em pagar os bilhões de dólares que eles mesmos roubaram. As estruturas: econômicas, jurídico-políticas e ideológico-culturais revestem hoje uma articulação muito específica. Para isso deve-se acrescentar o uso muito importante da tecnologia da informação para o benefício dos poderosos. Tudo isto interessa aos efeitos de recolocar os temas do presente, os processos em curso, o estado atual da estrutura imperialista.

Não há dúvida de que devemos continuar falando sobre imperialismo. Mas não perdemos a perspectiva, programas táticos a parte, de que consequente anti-imperialismo deva ser anticapitalista.

O bloco imperial, apesar da sua situação interna, continuou operando a todo momento. Nem na América Latina ou em outras partes do mundo. Seguem tentando hoje subordinar seus projetos em todo o Sul. Há ataques e campanhas que vão desde sutis a grotescas, sobre cada país que tenta algum grau mínimo de independência política. Em termos de nossa América a penetração imperial está em várias pontas. No econômico, eles conhecidos por tratados, tal a Alca na etapa anterior e, em seguida, para a resistência oferecida, são populares como substitutos, o TLC e TIFA. Militarmente são as várias políticas do Comando Sul. Ideologicamente, instrumento de primeira ordem para estruturar toda a política, há produção de “teorias” gerais e parciais para justificar todas as suas ações. O pensamento único está composto por uma grande variedade de discursos que abrangem vários domínios.

Ao contrário do que a mídia diz, os EUA introduziram e continuam colocando bases na América Latina, com a Amazônia e o Brasil cercados, financiam a repressão e o tráfico de drogas no Plano Colômbia e, mais recentemente, em sua penetração no México; sempre latentes estão os “clássicos” golpes da CIA e suas políticas desestabilizadoras. Somemos as guerras, intervenções militares, massacres.

Descontamos a intervenção tradicional do FMI, Banco Mundial, a ex-Organização Mundial do Comércio e o BID. Os projetos globais e todos esses mecanismos de prisão e predação.

Sabemos que é impossível separar a estrutura imperialista e os interesses das transnacionais das suas matrizes. Assim estamos em um momento histórico onde as 500 maiores empresas do mundo controlam 80% da circulação da riqueza, bens e serviços. E dentro dos serviços nós colocamos a informática que é bem conhecido, na forma como é utilizada, o serviço singular e implacável que proporciona a toda a política de dominação, com a constante criação de novos mecanismos e símbolos.

A propósito da Venezuela, algo sobre a América Latina hoje

Antes da implantação desta nova fase do capitalismo e das suas brutais e sistemáticas práticas imperiais relacionadas com isso, não se pode dizer que os povos têm estado tranquilos. Apenas mencionaremos de passagem e, genericamente, a chamada “Primavera Árabe”, as revoltas populares, como na Grécia, Portugal, Espanha e mesmo até nos EUA.

Mas queremos enfatizar nossa área. Resumidamente lembraremos da resistência na nossa América Latina na última década, onde, sob diferentes condições sociais e econômicas, em curto espaço de tempo, o povo do Equador, Peru, Bolívia, Argentina, México e Venezuela, protagonizaram confrontos violentos, muitas vezes desesperados , quebrando o circuito da miséria e da injustiça brutal que os aprisionava em um nível elevado. Filha da situação da política neoliberal feroz neste último período. O Caracazo foi quase um precursor destas revoltas populares.

Com diferentes graus de intensidade, o questionamento de tal situação foi se tornando em escolha urgente de luta. Uma luta não orientada geralmente, por aparelhos políticos tradicionais da esquerda, mas do tipo da ação direta popular. Governos caíram, outros tiveram que repensar a sua continuidade de projeto para apaziguar a raiva e tentar não mudar nada de substância. Assim, apesar da cumplicidade de governos na América Latina com a continuidade dos projetos imperiais, continuidade que assumiu várias formas e graus, o cenário político do continente ficou um pouco revolto. No entanto, pode-se observar que após a substituição “progressista”, realizada em vários países, em muitos deles, não houve alterações relevantes nos fundamentos da política interna ou da estrutura de dependência. É claro que não queremos dizer com isso que todas as coisas seguem iguais, seria de pouco rigor. Há um certo número de elementos que compõem uma conjuntura política distinta. Há registros de que existem tentativas de criar estruturas e instituições na América Latina que limitem essa dependência assim como há reformismo forte em países como Bolívia, Venezuela e Equador. Enquanto que, um conjunto de fatores internacionais trouxeram alguns efeitos positivos para a economia da maioria dos nossos países. Definitivamente são questões que merecem um tratamento mais profundo que hoje o deixamos por aqui.

Poder Popular

Nestes anos, especialmente aqueles de baixo da alça da Venezuela, estavam-se desenvolvendo uma série de atividades populares. Isso foi tomando formas organizacionais: coletivos, conselhos comunais, comunas, etc. Isto, como um todo, foi chamado de Poder Popular. A burocracia partidária foi crescendo em interferência e cada vez mais substituindo os autênticos representantes destas formações populares. Havia, e ainda continuam havendo protestos de coletivos e comunas que reivindicam autonomia e que ganhos obtidos tenham efeito. Nós temos a recente situação dramática das reivindicações indígenas para as suas terras e que resultaram no assassinato vil do militante Sabino Romero feito por contratados.

Aliás, sabemos que o movimento bolivariano não é algo homogêneo, e sua composição é fluida. Diferentes abordagens políticas e ideológicas não são escassas. Em um momento de descontentamento dos de baixo, aqueles que trabalham em organizações sociais em comunidades, que rejeitavam o controle crescente da burocracia partidária, e que em um evento popular, Hugo Chávez fazia a leitura de uma carta de Kropotkin a Lênin. Sua maior área de apoio estava sendo afectada pelo comportamento burocrático. Nesta oportunidade apela para enfatizar uma prática de Poder Popular diferente. Vejamos.

Hugo Chávez diz: “Parece-me vital tomar isso como uma referência ao que aconteceu na União Soviética que só começava a Revolução Russa.” Começa a ler a carta:

“Sem a participação das forças locais, sem uma organização a partir dos de baixo dos trabalhadores e camponeses, se é impossível construir uma nova vida por eles mesmos.

Parecia que os soviets serviriam justamente para cumprir a função de criar uma organização desde baixo. Mas a Rússia tornou-se uma República Soviética, só de nome (comenta: 1920, isso começou mal, não?) A influência dirigente do “partido” sobre as pessoas (acrescenta: “partido entre aspas, partido falso”), que consiste de recém-chegados, porque os ideólogos comunistas, estão, principalmente, nas grandes cidades, já destruiram a influência e energia construtiva que os soviets tinham, no momento atual, são os comitês do partido e não os soviets que carregam a direção na Rússia e sua organização sofre os efeitos de toda organização burocrática. Para sair desta confusão a Rússia deve retomar todo o gênio criativo das forças locais, em cada comunidade, o que a meu ver, podem ser um fator na construção da nova vida, e quanto mais cedo a necessidade de retomar o caminho, quanto melhor será. As pessoas então estarão prontas e dispostas a aceitar novas formas sociais de vida, se a situação atual continuar, mesmo a palavra ‘socialismo’ será transformada em uma maldição.” “Temos que olhar para isso”, diz ele em tom de forte crítica da sua militância.

O empoderamento do povo, o Poder Popular é sem dúvida, com uma consequente prática um fator político de primeira ordem. Para encarar adequadamente política e teoricamente esse conceito, que rapidamente definimos como a capacidade de uma força político-social de realizar seu projeto, há questões de caráter estratégico e teórico que devemos considerar. Hoje faremos de forma breve e para uma situação específica que se está chamando.

Diferentes abordagens e orientações podem surgir a partir de tal conceito de Poder Popular. Por exemplo, existe toda uma conceituação em torno do conceito de vanguarda que pode fazer com que práticas opostas ao que se tenta, ponham-se em ação. O conceito de vanguarda que foi todo um paradigma para quase um século. Na verdade, este conceito nos indica o critério de que deve haver uma única direção: do partido para a classe e toda à população. Hoje seria de, pelo menos em alguns lugares, do partido para o movimento popular. Contém a crença de que a população, o sujeito histórico estabelecido, já seja classe, ou movimento popular, deve permanecer subordinado ao Partido. De que a “massa” operária ou popular, em geral,  sozinha é incapaz de criar instâncias de deliberação. Além disso, também a crença de que no seio da sociedade capitalista não pode ser gerada a partir de baixo, condições básicas para a sua dissolução. Muito não importa, então, com essa concepção, o grau de desenvolvimento da auto-organização, de auto-gestão, de instâncias contínuas de participação popular. Não se trata, no fundo, de criar um povo forte, senão um partido forte. Reducionismo político total, filho, por outro lado de toda uma concepção geral reducionista.

Uma ideología para o Poder Popular

Se trata de apostar a um processo que produza uma ideologia de ruptura. Ela articulada com a prática política nesse sentido.

E a ideologia não vem de fora, ocorre no coração das práticas, idéias e comportamentos que o povo vai realizando através dos seus vários enfrentamentos. A produção de uma nova tecnologia sócio-política e “discursos de saber” correspondentes à libertação não podem ocorrer sem deslocar aos que fazem a dominação. É tarefa política de desconstrução. São discursos que devem entrar em confronto e que devem regar todos os casos em que o povo protagonize lutas de resistência.

Uma estratégia de Poder Popular não é uma enteléquia, ou algo que vem com o feitiço certo. Não é um ato isolado. Requer a modificação de práticas, de ruptura, de descontinuidade, em áreas como o econômico, o ideológico, o político-jurídico, o cultura geral. É estar batendo e quebrando esta vasta rede de dominação. Todas essas idéias se concretizam em um processo com participação ativa popular. Um povo, que compondríamos como um amplo espectro dos oprimidos e explorados, nesta fase, designamos como conjunto histórico de Classes Oprimidas. Um povo que sofre, dentro das mudanças estruturais, uma fragmentação de importância que deve ser superada. Onde novas estruturas de dominação têm sido desenvolvidas e surgidas em outros lugares do que àquelas tradicionais. Necessário, indispensável, construir laços de solidariedade que vinculem, que façam com que a unidade das suas lutas constituam uma base de primeira ordem para que conformem uma força social capaz de dar confrontamentos efetivos e dar passos em qualidade. Nós não estamos falando de gradualismo, nem linearidade ou de tomar os inimigos um por um. Estamos falando de oporem-se sistematicamente, estrategicamente, um universo que inclui a nova realidade histórica, as mudanças que foram surgindo em processos complexos. A nova militância que esta situação impõe.

Nossa América Latina teve na última década, por exemplo, várias experiências de luta. Ela enriqueceu seu quintal ideológico.

Em certos momentos históricos se produzem com peso um conjunto integrado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos diferentes sujeitos sociais. É este conjunto articulado de caráter imaginário, e que toma a forma de “certezas” que é defendido pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes ou por estratégias equivocadas que o pedem quietude, silêncio, “disciplina”.

Assim, a ideologia tem a ver diretamente com a constituição histórica dos sujeitos sociais, e com a forma como estes se expressam na sociedade. É algo muito diferente da noção de que a ideologia é a falsificação da realidade, precisamente porque ela é um dos componentes fundamentais de qualquer realidade social.

A ideologia tem na sua constituição elementos de natureza não-científica e que contribuem para aumentar a ação, motivando-a com base a circunstâncias que não derivam estritamente delas. A ideologia está condicionada pelas condições históricas, mas não determinados por elas mecanicamente.

Nesta relação entre a ideologia ea produção de sujeitos históricos, relação que se não existisse, não haveria nem ideologia nem sujeito, é que vai moldando-se os momentos de vigência ideológicas. Bem como, os sujeitos/agentes históricos se expandem e levam a hegemonia dos corpos sociais, a partir da vigência das ideologias.

Estes momentos podem ser expandidos chegando a se totalizarem, em outros momentos as ideologias se sobrepõem na mesma sociedade ou ficam vivendo em áreas isoladas. Frente ao fruto da fragmentação neoliberal, quebrar o isolamento de representações ideológicas com potencial emancipador é tarefa permanente de uma organização política com intenções de mudança.

Assim podemos concluir a importância da luta ideológica, presentes principalmente em tempos históricos atuais no nosso continente. Onde a operação da ideologia neoliberal, com todos os meios operacionais informáticos funcionando; o que dá a curva à direita das esquerdas institucionais que vão cada vez mais inserindo-se no sistema.

Em suma, uma concepção e uma prática do Poder Popular tem a sua produção específica, tem o seu próprio universo. Ele tem a sua própria produção. Para jogar como uma força transformadora, condicionante de conjunturas, produzindo progressos desestruturantes há uma condição necessária: deve sempre manter sua independência. “A independência de classe” se dizia em outros momentos do desenvolvimento histórico, hoje diríamos, ajustando ao novo contexto: a independência das classes oprimidas, isto é, de todos os movimentos populares.

Mas queremos salientar que, apontando esta categoria, em especial tendo em conta as características particulares de cada formação social, sua história, suas transformações, sem negligenciar o que tem de comum com outros países, principalmente na área e, obviamente, as condicionantes que globais estruturas de poder estabelecem.

É bem sabido, as malhas de podera dominante esmagam, manipulam, moldam. Inserem em seu seio, partidos, ideologias, movimentos, histórias, os amassam e depois os devolvem como bons seguidores do antigo e reprodutores do atual. O mecanismo se repete uma e outra vez. E muitas são reiteradas como forças incomensuráveis girando nessa roda louca. Nestes dispositivos é que temos que atirar com propostas e ações de conteúdos diferentes. Com uma coerência que permita pisar firme.

Está a mais notar que a circulação infinita das mesmas dinâmicas e lógicas não podem criar algo novo, apenas recriar o existente, com menor ou maior fantasia.

Para permitir que outras relações sociais, os fatos parecem indicar a necessidade de usar outros materiais para a nova construção. Uma outra abordagem, outra perspectiva, outra lógica, outras práticas, outros mecanismos. Outro ponto de partida. Nada original, é a nova civilização que elaboraram os socialistas antigos. Esse processo deve descansar e implantar-se em uma feroz independência das classes oprimidas. De um povo construindo seu destino no ritmo que permitem as condições históricas. As armadilhas, as relações, as próprias alianças tácitas e explícitas devem ser feitas a partir dessa perspectiva de independência. Uma vez que não pode ser isolado, como deve se estar no meio do povo e nos eventos sociais complexos e variáveis, esse fator adquire uma importância de caráter estratégico de primeira ordem.

Diante de todas essas mudanças e perdas sociais, contra a cultura que proclama o fim das ideologias e da história, declarando o capitalismo e suas instituições como a única realidade possível, é que atualmente a luta ideológica ganha dimensões estratégicas para a produção de um novo sujeito histórico, capaz de enfrentar tais concepções dominantes com base na ação direta. A partir da ideologia, do poder das ideias, é que se pode mobilizar os corações e razões, coletivamente, articulando-os em uma expressão de resistência e progresso na medida que convoca diferentes sujeitos sociais e os transforma em agentes capazes de reescrever a história e conceber um mundo novo. Tudo isso articulado na expressão política subsequente.

Inseridos em nosso povo, vivendo seus problemas cotidianos, com esperança e ferramentas eficazes iremos construindo crescentes espaços de socialismo e liberdade.

Arriba los que luchan, sempre.

6 de marzo de 2013

Fonte do texto traduzido: http://www.cabn.libertar.org/?p=879

Texto original  da FAU: http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2013/03/07/sobre-venezuela-y-ante-la-muerte-de-hugo-chavez-seguir-creando-un-pueblo-fuerte/

55-años-comienzo FAU

[CAB] Nota de Repúdio em solidariedade aos estudantes da UFMT

Constantemente é dito que não vivemos mais em uma ditadura, mas presenciamos o quanto isso é questionável. Durante todo período da ditadura militar no Brasil ocorreu todo tipo de prática repressiva inimaginável contra os movimentos sociais, talvez em maior proporção aos movimentos estudantis que naquele momento se colocavam de maneira mais radical contra a censura e aos ataques aplicados contra a liberdade de expressão. Estamos chegando aos quarenta e nove anos do golpe militar no Brasil, quase meio século do fim de uma ditadura que prendeu, torturou, violentou, assassinou e sumiu com os corpos de militantes da esquerda brasileira. Mesmo depois de quase meio século dessa barbáridade, voltamos a ver essas mesmas práticas repressivas sendo aplicadas contra os movimentos sociais.

Em Cuiabá, cidade do estado de Mato Grosso, presenciamos no dia seis de março uma brutal repressão contra estudantes que fizeram uma manifestação por melhorias na assistência estudantil e contra o fechamento de cinco casas destinadas para a moradia dos estudantes universitários da UFMT (Univesidade Federal de Mato Grosso). Os estudantes fecharam pacificamente a avenida Fernando Correa da Costa quando foram surpreendidos pela presença da ROTAM que foi chamada para realizar a dispersão e liberação da avenida que foi utilizada como ponto da manifestação, porém foi na avenida lateral ao campus universitário de Cuiabá conhecida como Alzira Zarur – avenida principal do bairro Boa Esperança, mesmo bairro onde um estudante da UFMT, natural de Guiné-Bissau, foi brutalmente assassinado pela policia militar do estado mato-grossensse – que os estudantes foram brutalmente espancados e presos. A prática de disperção utilizada foi tapas e socos, principalmente, nos rostos dos e das estudantes, disparos de balas de borracha a queima-roupa que atingiu também um pedreiro que trabalhava em uma obra próxima ao ato. Uma estudante tomou um tiro de bala de borracha na mão e com isso sofreu uma fratura e terá que passar por cirurgia. Outro estudante tomou um tiro na costela que fez com que o mesmo espelice sangue pela boca… sem contar as possíveis torturas que devem ter sido aplicadas aos estudantes detidos. Foi contabilizado através de informações de alguns participantes que dez pessoas ficaram feridas e seis foram presas.

Essa é a política ideológica da “Ordem e Progresso” e essa é a democracia na qual vivemos. Uma repressão, disfarçada de democracia, cada vez maior contra os movimentos sociais, uma repressão que vem crescendo cada vez mais dentro das periferias para a realização da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada em 2016.

Nós da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) também nos colocamos contra as políticas de mercado aplicadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), voltadas para a precarização e a privatização da educação pública, e, reivindicamos a ampliação e implementação de políticas efetivas de assistência estudantil que garantam o acesso e a permanência. Algumas das várias bandeiras defendidas pelo movimento estudantil.

Portanto, declaramos total repúdio a brutalidade exercida pelo corpo militar repressivo do de Cuiabá e a postura conivente da administração superior da UFMT.

Declaramos também nossa total solidariedade a todas e todos estudantes que foram feridos e presos!

Por uma Educação Pública e de Qualidade!

Pela Autonomia dos Movimentos Sociais!

Contra a Brutal Repressão aplicada pelo Estado contra os Movimentos Sociais
Combativos e Classistas!

A História são os pobres que as fazem, a Vitória está nas Mãos de
quem Peleia!

Não tá morto quem peleia!

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB

Coordenação Anarquista Brasileira

 

Alberto “Pocho” Mechoso, PRESENTE!

Os restos mortais de Alberto “Pocho” Mechoso foram encontrados nessa quarta-feira, dia 23 de maio. Fundador da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), organização anarquista especifista, “Pocho” também foi sindicalista na Federação dos Operários da Carne e militante ativo da Organização Popular Revolucionária 33 Orientais (OPR-33), braço armado da FAU que dava apoio a greves e realizava sequestros de patrões e expropriações para financiar a luta.

Em seus últimos anos de vida, “Pocho” militou no Partido Pela Vitória Popular (PVP), organização que dissolveu a FAU dentro de si. “Pocho” se manteve junto a outros companheiros da FAU dentro do PVP com a intenção de refundar a organização especifista. Preso em Buenos Aires em 26 de setembro de 1976, seu corpo foi encontrado com outros sete no fundo do mar, dentro de barris com cimento.  Relembramos esse companheiro que mesmo sem termos conhecido é muito querido por nós. Seu exemplo militante estará presente em nossa luta, hoje e sempre.

Libertad o muerte!
Ni olvido, ni perdon!
Hasta siempre, Pocho!
Arriba los que luchan!

Bruno, OASL

Reproduzimos abaixo a tradução de um fragmento do livro “Ação Direta Anarquista: Uma História da FAU” e de uma carta escrita por “Pocho” antes de sua fuga para a Argentina.

Alberto “Pocho” Mechoso – Fragmento tirado do livro “Ação Direta Anarquista: Uma história da FAU”ALBERTO “POCHO” MECHOSO, ANARQUISTA E EXPROPRIADOR

Nasceu em Trinidad, no departamento de Flores. Ali fez seus dois primeiros anos de escola, que continuaria depois em Montevidéu. Não conseguiu terminar o primário. De família de trabalhadores que tinham renda insuficiente, aprendeu a compartilhar as dificuldades com seus quatro irmãos.

A família, cansada de uma situação que não oferecia possibilidade alguma de melhora, emigrou para Montevidéu. Era questão de tentar a sorte, como tantos vizinhos que já haviam partido para esta aventura. A rua Ansina, no bairro Palermo, foi onde fez suas primeiras amizades montevideanas e imediatamente formou uma turma de amigos. O beiral da Escola da rua Gaboto foi testemunha de alguns castigos que sofreu por responder aos professores. Era rápido e agudo para questionar sobre as coisas que considerava erradas.

La Teja e o Cerro foram os bairros que o viram crescer. Três irmãos se tornaram anarquistas e em sua casa o libertário passou a ser tema de todos os dias. Perguntava, tinha simpatia, seu espírito rebelde o aproximava dessa ideologia que reclamava justiça para os pobres e que não a pedia de joelhos.

Mais adiante trabalhou na Indústria da carne e durante uma longa greve acabou demitido. Foi então feirante por um tempo junto com alguns de seus irmãos. Não existia a FAU ainda, havia sim uma Agrupação Anarquista Cerro-La Teja e o Ateneu Livre também Cerro-La Teja. Começou a militar na Juventude do Ateneu.

Corria já mais da metade da década de 1950, nesse momento o trabalho era escasso. A crise econômica já começava a golpear forte aos lares operários. Com um grupo de jovens como ele, amigos entre si e quase todos simpatizantes libertários, começaram a falar de finanças para montar uma cooperativa de trabalho e doar uma parte para a reluzente FAU. Finalmente decidiram expropriar um Banco do Paso del Molino: La Caja Obrera.

Foi um trabalho cuidadoso, estudado em seus detalhes. Encontraram uma quantidade de dinheiro maior do que a esperada. Fizeram a doação e deixaram o resto para o objetivo acordado. Foi este, por acaso, o primeiro Banco expropriado no Uruguai.

Um ano depois acabou preso vinculado a tal episódio.

Ficou seis anos detido: em Miguelete e Punta Carretas. Lia muito na prisão, por exemplo: “Nacionalismo e Cultura” de Rocker, “Vida e pensamento de Malatesta” de Luiggi Fabbri, “A Revolução” de Landeur, romances. Em um pacote, semanalmente recebia pelo menos um livro.

“- Como são esses guerrilheiros, eles seguirão a fundo?”, perguntava em uma visita em meados de 1959. Acompanhava com grande interesse o processo cubano.

Saiu da prisão com mais formação política e imediatamente tomou contato com a FAU. Iniciaram-se conversas para definir seu posto de militância. Mauricio (Gatti) foi o primeiro a pensar que haveria que incorporá-lo em atividades do tipo armado.

“Pocho” tinha reflexos rápidos, bom trato para acomodar as pessoas, jovial, rebelde e determinado, tudo isso o fazia uma pessoa singular. Gostava das piadas, brincava com questões sérias, fazia piadas sobre si mesmo e a militância engajada. Mas isto era acompanhado de uma profunda fé no que fazia e de respeito verdadeiro pelo trabalho. Era bom nas operações mas não subestimava nada, sempre queria analisar bem os detalhes.

Finalmente, foi, na formação da OPR, uma peça fundamental em todo o trabalho organizativo e também em estimular confiança nos companheiros que estavam começando. Aqui verteu sua experiência e sua decisão. Integrou, como encarregado, a primeira equipe operativa quando se resolveu encarar a atividade armada de forma específica e continuada. Realizou no princípio, com sua equipe precursora, expropriações bancárias decididas pela Organização e que foram vitais para o desenvolvimento dos projetos em curso. Depois atuou em diversas operações, entre elas a retenção de burgueses.

Formou parte da Aguilar [*] e sua experiência e firmeza foram contribuições inestimáveis neste organismo que tinha a responsabilidade da ação armada da Organização.

Caiu preso, foi selvagemente torturado, resistiu com integridade pouco comum e sozinho protagonizou uma fuga espetacular de um quartel. Recuperou-se de cortes nas mãos e das costelas quebradas e, por decisão da FAU, mudou-se para a Argentina. Ali se reintegrou imediatamente às atividades.

Capturado, sofreu novamente torturas no Pozo de Orletti [prisão clandestina]. Hoje é um dos companheiros que figura como desaparecido. Pocho, seu apelido público, ou Martín, seu nome de batalha, manteve sempre seus costumes, sua cultura de bom homem do povo. Menino do bairro, na boa rua, autodidata, leitor, modesto e com um profundo sentimento de pertencimento aos de baixo, deixou uma marca indelével.

Sabemos que (ele compartilhou disso completamente) não são as pessoas por si só que produzem o desenvolvimento e permanência de uma Organização. É uma quantidade de esforços de muita gente que produz algo fecundo. É nesse contexto que apontamos esta contribuição militante. No entanto, é certo que no marco deste conjunto imprescindível há companheiros com contribuições excepcionais. “Pocho” e “Santa Romero”, sem dúvida, foram exemplo disso.

[*] A OPR-33 se organizava em “células” ou equipes de 3 ou 6 pessoas, duas ou três das quais se uniam pra formar unidades de trabalho (operativa, de serviços ou de informação). Aguilar era o corpo responsável por articular essas unidades. (NT)

Texto original em: http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2012/05/24/alberto-pocho-mechoso-fragmento-tomado-del-libro-accion-directa-anarquista-una-historia-de-fau/

Tradução: Khaled, Coletivo Anarquista Bandeira Negra

Alberto “Pocho” Mechoso – Hoje e sempre – Viva os que lutam!!!
 
Alberto Mechoso Méndez (Pocho)
1936-1976

Esta carta foi escrita após sua estada na 5ª sede da Artilharia, quartel localizado ao lado do Cemitério Norte, do qual fugiu. “Pocho” desapareceu na Argentina como militante da FAU no interior do mar de militantes que foi o PVP de 1976.

Companheiros:

Desde 6 de agosto até agora, eu acho que aprendi mais, muito mais do que me ensinaram os 6 anos que passei em Punta Carretas; me parece que aprendi muito mais que nos 35 anos que tenho de vida. Por um lado está a experiência de dentro do Quartel, o enfrentamento aos carrascos, as mãos solidárias dos companheiros. Por outro lado o que passou depois, do lado de fora. Na noite seguinte à fuga me vi na televisão.

Me requeriam por “estar vinculado a…” e em nenhum lado uma só linha do que realmente havia passado. Depois novas listas de exigências. Uma delas era encabeçada por minha companheira. Me informei que a casa onde vivia com minha mãe, com minha companheira e meus filhos estava fechada, em custódia das Forças Conjuntas. Me informei que um militar com várias patentes disse que essa casa só seria devolvida se eu me entregasse.

E tudo isto que eu vivo tão intensamente, o estão vivendo, de um modo ou outro, centenas de milhares de orientais [uruguaios]. São muitos os pequenos separados de seus pais porque estão presos ou porque precisam ir a outros lados buscar o trabalho que aqui não encontram. São muitas as mães que não veem seus filhos porque estão sendo perseguidas ou porque trabalham de sol a sol para ajudar a encher a panela. São muitas as mulheres que ao final de uma vida de trabalho não têm um teto onde abrigar-se, porque não podem pagar com suas aposentadorias miseráveis ou porque a mente podre dos carrascos vinga sobre elas a rebeldia dos filhos que com imenso carinho elas souberam criar.

E ante tudo isto, que outro caminho nos resta? Ante tudo isto, de que maneira vale a pena viver a vida?

Há um só caminho, há uma só maneira de viver sem sentir vergonha: lutando. Ajudando para que a rebeldia se estenda por todos os lados, ajudando para que se unam o perseguido e o homem sem trabalho, ajudando para que o “sedicioso” e o operário explorado se reconheçam como companheiros, aprendam lutando que têm à frente um inimigo comum. Por tudo isso, companheiros, quero que me guardem um lugar… por tudo isso não vou tardar em voltar. Liberdade ou Morte.

“Pocho”

Texto original em:

http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2012/05/23/alberto-pocho-mechoso-hoy-y-siempre-arriba-los-que-luchan/

Tradução: Khaled, Coletivo Anarquista Bandeira Negra

Retirado da página:

http://www.vermelhoenegro.co.cc/2012/05/alberto-pocho-mechoso-presente.html

Considerações sobre a morte de Hugo Chávez

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Para refletir. A Venezuela se encontra diante de um impasse. Na arena externa, o vice-presidente em exercício, Nicolás Maduro, teve de expulsar dois diplomatas dos Estados Unidos hoje, pouco antes do anúncio do falecimento de Hugo Rafael Chávez Frías. Ou a inteligência do país, auxiliada de fato pelo G2 (serviços de inteligência cubanos), de fato identificaram sondagens nas FFAA (o que ocorre sempre), ou então se tratou de manobra diversionista. Mas a probabilidade de alguma articulação para desestabilizar o país é bem alta.

Pouco depois, foi anunciada a morte de Hugo Chávez. Na semana passada, o baita jornalista Elias Aredes Junior me perguntou exatamente se eu achava que Chávez voltara à sua terra natal para falecer? Entendo que sim. Já terminal, optou por morrer no país e com isso ajudar o condicionamento da sucessão. O problema não reside aí, e sim nas múltiplas possibilidades de cenários no futuro próximo.

A cancha está aberta…

Projetando cenários para a Venezuela pós-Chávez

1) Cabello assume como presidente do Poder Legislativo e Maduro concorre pelo PSUV; já Capriles, pela oposição unificada. Seria uma eleição única, onde o Departamento de Estado e o continente, além dos capitais Ibero-americanos e as petroleiras, estarão presentes.

2) Maduro garante o exercício do Poder Executivo e não transfere no prazo constitucional o poder para o Parlamento. A oposição ameaça não participar do processo. Neste caso, o papel das FFAA é fundamental para a manutenção chavista do poder.

3) O PSUV racha e a oposição também. Este cenário é muito improvável, mas pode vir a ocorrer no campo da oposição, caso a direita não tenha uma eleição agendada para logo. No caso, a cancha fica aberta, inclusive com maior agressividade do Império.

4) Mesmo que Nicolás Maduro saia vencedor das eleições marcadas – o mais provável – abre-se uma segunda rodada no exercício do poder pelo líder chavista. A interna do PSUV está terrível e pode haver racha interno; mas isto seria após uma provável vitória nas urnas.

PSUV no poder

Para concluir a primeira projeção, lembro do populismo na Argentina.

O peronismo sem Perón é diferente do peronismo com Juan Domingo, o que também já não era muita coisa diante das propostas de juventude de esquerda que se somou ao movimento no final dos anos ’60. No caso venezuelano, a reprodução da cultura política do país por dentro do PSUV (formado por caudilhos e mesmo politiqueiros reconvertidos, os setores são chamados de direita endógena) é marcante. O problema seria a quebra do pacto.

O PSUV existe em função de Chávez. Na sua ausência, a dimensão ideológica não é tão forte como a conveniência de estar bem com o Executivo. Hoje existem diversos peronismos e existirão diversos chavismos em um par de anos. O mais provável é que, até as próximas eleições, nada venha a ocorrer. Até porque a tendência é que Maduro seja o candidato oficial e vença nas urnas.

Mas se o PSUV perder, dificilmente a direita leva o poder, mesmo que o ganhe nas urnas. Seria também uma quebra de pacto, assim como os rasgos de constitucionalidade se rompem ao não serem convocadas as eleições nos prazos legais. O chavismo sempre se baseou na legalização e constitucionalização do processo, quase sempre deixando como pauta do longuíssimo prazo, ou da terra do nunca, o câmbio social profundo ou o problema da sucessão.

Agora o problema chegou e a balança só pode pender para o processo bolivariano se houver um grau elevado de unidade pelas forças sociais – como rádios comunitárias, o que existe de sindicalismo combativo, movimento indígena, palenqueros (equivale a quilombolas) e o que sobrou da comunidade urbana organizada e mobilizada em Caracas e nos estados vizinhos.

Neste último caso, repousa o controle sobre e das milícias. Se este controle estiver com as lideranças – duvidosas em sua maioria – do PSUV, tudo pode acontecer inclusive durante o provável governo de Maduro. Já se este controle estiver com a parte mais radicalizada dos diversos movimentos bolivarianos, como Tupamaros, Andrés Vive, Comunidades al Mando, Frente Campesina Zamora, entre outro, aí existe alguma chance de câmbio profundo, desde que não se instale um cenário onde as FFAA reprimam diretamente o movimento popular, ao menos não num primeiro momento.

No momento, as urgências dizem respeito ao fato de serem ou não convocadas eleições e se antecipar aos movimentos do Depto de Estado, da mídia palangrista e dos esquálidos. Mas isso é agora; o médio prazo é logo ali, assim que Maduro assumir o poder pelas urnas (de novo).

Bruno Lima Rocha

[FARJ] A pró-imperialista Yoani Sánchez e os debates no campo da esquerda: uma opinião socialista libertária

Retirado de: http://farj.org/

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira

A vinda da “ativista” Yoani Sánchez despertou atenção de muitos, reacendendo um debate não apenas sobre o governo Cubano, mas também sobre questões-chave aos trabalhadores e aqueles que lutam. Modestamente, tentamos emitir nossa opinião sobre o tema. Ainda que o debate gere e reacenda muitas paixões, permitimo-nos tecer algumas considerações.

Que fique claro: uma pró-imperialista que defende a “liberdade” em marcos muito distantes dos da classe trabalhadora. Primeiramente, precisamos afirmar que há argumentos bastante plausíveis de que Yoani é sim uma agente do imperialismo estadunidense e que recebe apoio (financeiro, logístico e político) do governo dos EUA e/ou dos grupos anti-castristas da Flórida para promover seus ataques contra Cuba (amplo apoio tecnológico, de tradução, recursos, etc.). A blogueira defende, lamentavelmente, um capitalismo sui generis (ver entrevista citada no final deste documento), tudo o que nós socialistas libertários condenamos e combatemos. Assim, é preciso que fique bastante claro, que Yoani é uma inimiga de quaisquer avanços populares. Na sua vinda, por exemplo, foi recepcionada e ovacionada pelos setores da direita mais reacionária do país e que surfaram na “popularidade” fabricada de Yoani. Cabe ressaltar, também, o enorme destaque dado pela imprensa monopolista do RJ (Globo) e de SP (Folha e Estadão). Tal destaque não foi dado, por exemplo, ao militar que denunciou crimes de guerra dos EUA, Bradley Manning (que hoje se encontra preso nos EUA) e, tampouco, a Julian Assange, que revelou as entranhas do imperialismo com a wikileaks, sem qualquer defesa entusiástica por parte da mídia burguesa.

Neste caso, Yoani e a mídia corporativa na sua luta pela “liberdade” de expressão, enquadram-se na mentalidade e demandas (neo) liberais mais canhestras, pois prontamente atacam as conquistas sociais da Revolução Cubana. Posicionamo-nos, neste sentido, em repúdio à atuação desta personagem, que está sendo utilizada pelas instituições mais perversas do cenário mundial e que, ao que tudo indica, parece estar gostando disto. Aqui, por exemplo, foi recepcionada por deputados claramente vinculados a direita política, os mesmos que ajudam a oprimir nosso povo. Se a mídia burguesa e os setores de direita dão todo apoio a Sánchez isso indica que querem silenciar outras vozes, inclusive vozes críticas ao isolamento/burocratização de Cuba, mas que não fogem dos marcos de um socialismo que debata também a real socialização das decisões políticas. Neste ponto, estamos decididamente com a classe trabalhadora e seus lutadores. Repudiaremos quaisquer formas de imperialismos, que tanto massacram nosso povo e os povos em outras partes do mundo.

Fundamentamos essas questões a partir de um referencial classista, socialista e libertário, o qual não vamos abrir mão. A liberdade exigida por Yoani Sánchez não é nem de longe a mesma exigida por nós, anarquistas. Não pode haver, como bem ressalta Mikhail Bakunin, liberdade sem socialismo e, tampouco, socialismo sem liberdade, esta equação, que guardadas às ironias, é admitida como impossível por estalinistas e liberais e que orienta as demais considerações a seguir.

Além da denúncia da atuação lamentável de Yoani, cabe um debate necessário e fraterno sobre questões caras ao campo da esquerda e aos lutadores populares. Sabemos entretanto, que quando alguma organização faz este debate, o estalinismo costuma “colocar no mesmo saco” as críticas ao seu modus operandi pela esquerda, como “críticas de direita”. Quanto a esse procedimento histórico, só podemos lamentar sua profunda miopia política e falta de autocrítica. Falamos à partir de um lugar determinado. O lugar dos que lutam, dos que repudiam o imperialismo e dos que colocam modestamente sua pequena parte nas barricadas contra o capital.

A Revolução Cubana, que retorna na polarização Yoani e castristas ou pró-cubanos foi um marco para o imaginário e o avanço das lutas populares na América Latina. Os anarquistas, a despeito do desconhecimento ou silenciamento histórico sobre sua participação, cerraram fileiras com o povo cubano. Protagonizaram a revolução junto com outros setores populares, participando ativamente dos sindicatos que existiam em Cuba, à véspera da revolução e nas lutas que se seguiram. Com o golpe castrista, esses mesmos companheiros, que estavam juntos na luta, foram traídos por discordarem do modelo autoritário implementado paulatinamente por Fidel Castro e alguns membros de seu estado-maior. A lista de socialistas libertários perseguidos pelo regime castrista é longa. Rolando Tamargo e Ventura Suárez, fuzilados; Sebastián Aguilar Filho, assassinado a tiros; Eusebio Otero apareceu morto em sua casa; Raúl Negrín, acossado pela perseguição, se suicidou ateando-se fogo’. Por outra parte, foram detidos e condenados a penas de prisão os seguintes companheiros: Modesto Piñeiro, Floreal Barrera, Suria Linsuaín, Manuel González, José Aceña, Isidro Moscú, Norberto Torres, Sicinio Torres, José Mandado Marcos, Plácido Méndez e Luis Linsuaín, oficiais estes dois últimos do Ejército Rebelde (Exército Rebelde). Francisco Aguirre morreu na prisão, Victoriano Hernández, doente e cego pelas torturas carcerárias, suicidou-se; e José Alvarez Micheltorena morreu poucas semanas antes de sair da prisão”. Casto Moscú, como citado acima, foi preso na sede da ALC – que abrigara membros do M26J durante a revolução. Logrou um indulto e rumou para o exílio no México. Esses lutadores eram todos notórios anticapitalistas e antiimperialistas. Não se alinhavam com os que esmagam nossa classe, mas mesmo assim foram perseguidos por defenderem o socialismo libertário.

Os setores estalinistas, como vimos, logo que se encastelaram no poder, destruíram a diversidade das correntes de esquerda existentes em Cuba e limitaram profundamente as melhores possibilidades da Revolução. Esmagaram, assim, a heterogeneidade ideológica que permitia o debate fraterno e a democracia popular no campo da esquerda. O socialismo perseguido pela revolução cubana em seus horizontes logo se transformou em um primitivo capitalismo de estado, na ilha que ainda hoje depende da produção açucareira e do turismo. Muitos avanços e conquistas da Revolução foram mantidos e hoje são um orgulho para o povo cubano, como no campo da saúde e da educação. Mas o retrocesso produzido pelo estalinismo impediu o povo de construir o poder popular de fato. O processo revolucionário em Cuba não deve ser confundido com o castrismo, que nada mais é do que uma política de centralização do poder e de burocratização da histórica e heróica Revolução Cubana. Apoiamos o povo cubano e a Revolução e repudiamos firmemente o imperialismo estadunidense. Ao mesmo tempo, nos posicionamos sempre críticos e alertas ao estalinismo e a burocracia vermelha que esmagam as conquistas históricas das revoluções e silenciam as oposições de esquerda que intentam radicalizá-las. A burocratização das revoluções é sempre a primeira etapa da derrota popular. Assim o foi com a URSS e, ao que tudo indica, se o povo cubano não conseguir imprimir seu protagonismo por fora das burocracias, assim o será com a ilha de Cuba.

A democracia direta, que nós anarquistas defendemos, pressupõe o protagonismo e o federalismo como tática e estratégia que conforma o poder popular e constrói os instrumentos de luta da classe trabalhadora. O socialismo para nós não pode ser construído sem democracia direta e liberdade, tampouco sem classismo, ação direta e protagonismo popular. Na URSS, por exemplo, Leon Trotsky abriu, nesse sentido, um largo caminho para o estalinismo, militarizando os sovietes (conselhos de trabalhadores) e reprimindo brutalmente os trabalhadores que os defendiam. Liderando o Exército Vermelho, esmagou a comuna de Kronstadt e a Revolução Social na Ucrânia. Os trotskistas, sempre que falam de democracia, o fazem com um pesado “cadáver” histórico em seus ombros.

A defesa da democracia direta, do classismo e do poder popular passa pela nossa atuação nos movimentos populares, sindical e estudantil. Nesse caminho de construção dessa democracia direta e popular das bases acaba esbarrando com práticas de burocratização que abrem as portas para a falta de liberdade e para o possível retorno da direita ao cenário político após os processos revolucionários. Por isso, defendemos ampla participação popular e democracia direta, construindo um poder popular que emane das bases, para que não se encastelem nos movimentos populares (sindical, rural e estudantil) vanguardas que façam o povo deixar de decidir sobre seu próprio destino e freiem os processos revolucionários.

Combateremos sempre, como minoria ativa, quaisquer formas de imperialismo e de burocratização, assim como nos colocaremos permanentemente enérgicos contra a democracia burguesa que oprime os trabalhadores e trabalhadoras do mundo.

Todo apoio ao povo cubano! Fora Yoani Sánchez! Pela democracia direta e popular contra a burocratização!

Conferir mais sobre o tema:

Entrevista de Yoani ao jornalista Salim Lamrani:http://www.viomundo.com.br/entrevistas/salim-lamrani-um-bate-papo-com-yoani-sanchez.html

Revolução Cubana: mais à esquerda que o castrismo

http://www.anarkismo.net/article/12126