[FAG] Carta de opinião da FAG | A saída não vem de cima!

Retirado de:                                                                                                                https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2015/12/17/carta-de-opiniao-da-fag-a-saida-nao-vem-de-cima/

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A situação política e econômica do país encontra-se num momento delicado. A aceitação do pedido de Impeachment contra Dilma Rousseff (PT) por parte do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) abre margem para diferentes e divergentes posições. A polarização entre os que defendem o governo Dilma Rousseff e os que defendem seu Impeachment precisa ser questionada. E seu questionamento deve ser feito através da afirmação e da construção de uma saída alternativa, de uma terceira posição, própria e característica dos de baixo, daqueles e daquelas que independente do desenrolar dos fatos, terão seus direitos sociais, suas condições de trabalho e a dignidade de suas vidas destroçadas e dificultadas ainda mais.

A saída não vem de cima!

Desde a eleição de Dilma Rousseff à presidência da república, e mesmo antes, as classes oprimidas vêm sofrendo duras penas com a retirada de direitos trabalhistas, ajuste fiscal que corta verbas da saúde e educação e com projetos de austeridade que encarecem o custo de vida. Tudo ao contrário do que prometia Dilma em sua campanha eleitoral. Na verdade, Dilma se elegeu com margem apertada com o verso de que não tocaria nos direitos dos trabalhadores. Imediatamente aplica as receitas de ajuste fiscal defendidas pelo seu adversário Aécio Neves (PSDB). Um verdadeiro estelionato eleitoral que indica, mais uma vez, o caráter nefasto da democracia representativa burguesa e a falsa representação dos interesses populares.

Mas os setores da direita na oposição, representantes diretos das ideias conservadoras e neoliberais de pura cepa, não contentes com o modo petista-peemedebista de governar (através do pacto de classes que dá pouco aos pobres para dar muito aos ricos)  decidiram que é hora de governar diretamente, descartando de uma vez por todas o PT junto com o verniz social e popular que lhe é atribuído. Na visão de uma fração das classes dominantes, o PT já não serve a seus interesses, mesmo que essa seja uma reclamação de barriga cheia já que em mais de 12 anos de governo Petista lucraram e se privilegiaram como nunca.

Essa briga de cachorro grande, de vizinhos de um mesmo condomínio é, assim, uma luta feroz entre as elites dirigentes pela máquina do poder político para aprofundar ainda mais os ataques aos direitos dos de baixo que já vem pela mão do PT. Não se trata de luta de classes, em que os interesses dos trabalhadores são defendidos contra os interesses dos patrões. Essa polarização entre “impeachment e governo” não representa os nossos interesses enquanto oprimidas/os. A luta de classes não vai sair de cena para deixar lugar a essa falsa polarização.

A guerra de nervos do impeachment e a democracia que deve ser defendida

As investigações das várias operações em curso (Zelotes, Lava Jato, etc.) indicam o que há tempos nós anarquistas da FAG procuramos afimar: a corrupção é algo estrutural e sistêmico que atinge a todos, entre partidos da ordem, bancos, empresários e patronais. Aliado a essa corrupção sistêmica, se encontra um modo suprapartidário de governar que não toca nos privilégios das oligarquias, no poder dos grupos econômicos e financeiros e no regime ideológico das práticas institucionais. Quem governa pelo sistema, pelo sistema é governado! Nesse sistema, todos são sócios na corrupção e na impunidade. Uma mão lava a outra. Todos têm sua vez. Quem não pactua com esse esquema não governa.

É nesses termos que encaramos o corrupto Eduardo Cunha (PMDB), investigado por corrupção e lavagem de dinheiro, assim como encaramos os corruptos de todos os partidos da ordem em conluio com os patrões e os banqueiros.

Portanto, a democracia que aí está, não foi criada para garantir os interesses e as vontades do povo. Seu funcionamento expressa muito bem isso em cada estelionato eleitoral, em cada manobra regimental, em cada lobby patronal, no racismo institucional cotidiano que condena sem julgamento a juventude negra das periferias, nos conchavos de toda ordem, nas redes subterrâneas que roubam e desviam recursos públicos e em cada fuzil que diariamente extermina o povo negro e indígena em todo o Brasil. A lista não termina aqui.

O impeachment é, portanto, uma carta a mais no jogo que vai mudar algumas peças para manter tudo como está. Pois as regras do jogo não vão ser alteradas e o Estado Democrático de Direito, que é mais de direito para alguns do que pra todos, vai continuar reproduzindo privilégios e práticas que excluem os oprimidos de toda e qualquer decisão fundamental sobre nossas vidas. Pois o núcleo duro da dominação capitalista continuará intacto. Porque os mais de 13 anos de governo “progressista” não representaram a vontade de mudanças estruturais e sim uma variável de administração, um modo de operar a máquina que ao final não põe em causa as suas engrenagens, não questionam as suas regras de funcionamento.

A democracia que deve ser defendida nesse momento, na nossa visão, é a democracia direta e de base dos lutadores sociais, das assembléias populares, dos conselhos e plebiscitos na vida pública, nas ocupações de escola e nas lutas sociais que defendem direitos e que na prática exercitam um modo próprio de gerir seus interesses, de tomar decisões sobre os assuntos que nos afetam diretamente, de fazer política desde baixo enquanto povo oprimido. Será pela luta popular e sem recuar um centímetro que defenderemos os direitos sociais e as liberdades de reunião, associação e de manifestação, buscando ampliá-las e aprofundá-las para além da ilusão oferecida pela democracia representativa. Não cederemos um passo para a judicialização da política pois queremos um Povo Forte que faça da política a gestão direta dos bens comuns.

O que fazer então nesse momento?

Nós anarquistas da FAG nos posicionamos por uma terceira posição que afirma a independência de classe dos trabalhadores contra o ajuste econômico, a democracia direta e de base em oposição ao sistema corrupto da representação da política burguesa e a generalização das lutas pelas ruas, greves e ocupações fora dos controles burocráticos e dos cálculos eleitoreiros. Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

ocupaA ocupação das escolas estaduais pelos estudantes secundaristas em São Paulo contra o projeto de reorganização escolar que fez recuar o governo Geraldo Alckmin (PSDB) suspendendo a reforma que previa o fechamento de 94 escolas é para nós um exemplo do que deve ser feito nesse momento. Talvez seja, depois das reduções das tarifas de ônibus que provocaram as jornadas de junho de 2013, a maior conquista da luta social contra o ajuste nesta conjuntura. Uma conquista parcial certamente, mas que gerou moral rebelde de peleia, calçada em outras práticas, que produz outros sentidos e que não se deixa capturar pela polarização das elites. Não há saída no curto prazo que passe por fora da luta direta dos oprimidos. Buscar atalhos nesse momento é cair novamente na armadilha do pragmatismo que não vai levar a lugar nenhum. A saída não vem de cima, da política feita por profissionais, mas deve vir de baixo, da política feita com ação direta e democracia de base por parte de todas as classes oprimidas.

 Outra ideologia, outra cultura política, que faça caminho pra nova geração de lutas rebeldes que defende seu trabalho, território, direitos sociais, saúde, educação e radicaliza a democracia pela auto-organização. Que não joga mais sua sorte e suas esperanças no esquema trapaceiro dos partidos da ordem e semeia núcleos de poder popular como fatores de resistência.

A radicalidade de uma alternativa está no plano das práticas e a produção de força social de uma resistência combativa vem de baixo, dos lugares vitais do cotidiano de trabalho, estudo e comunidade. A unidade que pode forjar uma terceira posição tem que pulsar dessas dinâmicas e da união dos organismos de democracia de base das classes oprimidas. Para nós, estes são os fatores que podem mudar a correlação de forçar nessa etapa.

Por uma terceira posição: independência de classe e unidade pelas lutas!

Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

Democracia direta e de base com Assembléias, Conselhos e Plebiscistos na vida pública!

 Generalizar as lutas para mudar a correlação de forças!

 Federação Anarquista Gaúcha – FAG

[FACA] CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÊNERO

Retirado de: http://faca.noblogs.org/post/2015/12/17/contra-a-violencia-de-genero/

A questão de gênero é um assunto que por muito tempo foi ignorado, negligenciado, secundarizado e relegado a debates menores. Porem, a luta da mulher se faz presente cotidianamente, ontem, hoje e será no amanhã, resistindo às inúmeras formas de opressão socialmente construídas dentro da cultura patriarcalista/machista que somado ao capitalismo potencializa sua perversidade se tornando mais uma de suas facetas. Pois as situações de violência e humilhação que são colocadas tantas mulheres aqui, ali e acolá ao redor do globo, nos colocam em contradição na medida em que nossa luta contra todas as formas de dominação e opressão não pode apenas tangenciar tais situações. Cada mulher é única (somos únicas) e nossa representação se firmará com o nosso protagonismo. Pois a luta delas, também deve ser a luta deles, e assim frear o avanço do conservadorismo e das pautas que retrocedem aos direitos conquistados com muita peleia.

download    Dentre as questões propostas ao longo da histórica para construção do gênero feminino (pelo conservadorismo machista), surge de maneira muito incisiva e como ponto de discussão o que é feminino e masculino? A mulher tem seu universo restringido por convenções machistas impostas a ela, enquanto o homem desfruta das mais variadas situações e privilégios. Portanto, fazer hoje, no agora, construção de cultura pela igualdade de gênero e pela liberdade das/dos indivíduos, pelo protagonismo feminino somando forças na luta de nosso povo oprimido contra as investidas do opressor que é machista e capitalista.

     Assim nossa pratica deve refletir bem isso e funcionar, sobretudo, como instrumento de mudança do atual sistema machista e capitalista para a sociedade almejada por nós, que lutamos pelo apoio mútuo, pela autonomia, onde a igualdade e o respeito existiriam para além dos limites da mediocridade capitalista, e do discurso individualista que coopta, banaliza e sexualiza a essência do feminino.1

     A padronização do corpo feminino, com regras estéticas que enquadra no tipo imposto pela mídia, também se torna responsável pela limitação de nossa liberdade, já que o meio social e também midiático é responsável por exercer um certo tipo de corpo para uniformizar os gostos e com isso normatizar a beleza, que até um certo ponto, deixa de ser relativa. Somos cotidianamente pressionadas a assumirmos posturas consideradas femininas, sob uma performance do que é mostrar ser feminina e o corpo acaba sendo alvo de destaque que assim sobrepõe, nossa própria identidade, tal padronização responsável por dar um sentido à noção de beleza da mulher, também constrói a noção de pertencimento, infere à mesma uma noção de valor a partir da comparação do seu corpo com os corpos ao seu redor.

     A lógica de mercado capitalista aplicada na produção de objetos, aplica-se na maneira de pensar e agir, a exemplo da expressão: “vou me produzir”. Há uma produção, de um objeto, para um mercado. Objeto este que precisa ser sempre renovado, produzido e re-produzido para que se torne sempre visível, chamativo e fetichizado, seguindo sempre a ditadura dos padrões estéticos machista que são bombardeados pela mídia.muralezln2

     A mulher não pode ser vista enquanto “mercadoria”, porque diferente dos objetos, nós mulheres possuímos autonomia pra ser quem quiser, agir como quiser e trabalhar onde quiser. Nosso corpo obedece às nossas regras e nossos limites. Não podemos ser coisificadas, a ideologia de consumo e do comportamento serve para nos aprisionar e paralisar diante das diversas injustiças que temos que enfrentar diariamente por conta dessa logica.

     Se as assimetrias das relações de gênero nunca deixaram de existir, sobretudo pela imposição cultural e histórica da dominação masculina, por outro lado há de se criar uma outra cultura orientada pela igualdade entre mulheres e homens, alicerçada no socialismo e impulsionada pela liberdade.

PELA LUTA POR UMA SOCIEDADE IGUALITÁRIA, SEM CLASSES, NEM DESIGUALDADE DE GÊNERO!

E NÃO À SEXUALIZAÇÃO DOS NOSSOS CORPOS!