2 ANOS DO MASSACRE DE CAARAPÓ ! !

Nesse dia 14 de junho de 2018 completam 2 anos do Massacre de Caarapó, onde o lutador e agente de saúde Guarani Kaiowa Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza foi assassinado. Oito chegaram a ser hospitalizados e mais de 20 guarani kaiowa foram feridos, incluindo crianças e idosos.

Dois dias antes do ocorrido, o povo Guarani Kaiowa havia retomado 490 hectares da Fazenda Ivy que se sobrepõe ao território ancestral guarani Tora Paso, num processo histórico de recuperação do território de que foram expulsos pelo avanço da fronteira agrícola do capital com o total e pleno incentivo do Estado de Mato Grosso do Sul governado nos últimos tempos tanto por PSDB, PMDB como pelo PT.

Os fazendeiros da região não aceitaram que o povo Guarani Kaiowa retomasse o que é deles por Direito Originário. Era uma terça-feira, 14 de junho de 2016 quando um grupo de mais de 300 pessoas compostas de paramilitares, jagunços, milícia privada em conjunto com as forças oficiais de repressão do Estado (Departamento de Operações de Fronteira e Policia Militar) a serviço dos fazendeiros da região de Caarapó, organizou-se com dezenas de caminhões, tratrores e armas de fogo. Transformado num verdadeiro cenário de guerra, o acampamento que hoje leva o nome Kunumi Poty Verpa, nome guarani kaiowa de Clodiodi, mas que na época era chamado de Toro Paso, as forças de repressão de forma covarde, que é como atuam em defesa dos interesses do capital, iniciaram um ataque contra a resistência guarani kaiowa com a intenção de desmobiliza-la e expulsar as famílias guarani kaiowa de seu Tokoha, “meteram sem miséria, tiro de 12, 38 e espingarda” disse Ruspo em sua música*.

Mas dando continuidade a uma resistência de mais de 500 anos, o povo guarani kaiowa não se intimidou com as forças de repressão e permaneceu firme em seu território e enfrentou com ajuda da força espiritual que Nanderu lhes promove, o ataque orquestrado pelo capital. Não só resistiram a mais esse ataque etnocida, como responderam com o avanço nas retomadas de seus territórios já pouco tempo depois do assassinato do Kunumi Poty Verá, na mesma região.

O estado do Mato Grosso do Sul chama a atenção por ser o olho do furacão do processo etnocida anti-indígena que ocorre hoje no Brasil, despontando no cenário nacional não somente com assassinatos, perseguição e criminalização de indígenas, como também em outros problemas que atentam a direitos básicos como a mortalidade infantil decorrente da desnutrição. É o que nos revela o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) com dados contidos no documento: “As Violências Contra os Povos Indígenas em Mato Grosso do Sul – E as resistências do Bem Viver por uma Terra Sem Males”, dados de 2003-2010.

De 2003 a 2010 houve 452 assassinatos de indígenas no país, sendo 250 somente no Mato Grosso do Sul, ou seja, 55,5%, mais da metade! Também de 2003 a 2010 mais de 4.000 crianças indígenas sofreram de desnutrição nesse Estado, sendo que em 2003 a taxa de mortalidade infantil por desnutrição chegou ao horripilante número de 93 crianças para cada 1000 nascimentos. Essa é a contradição. Povos que tiveram a agricultura como parte essencial de seu desenvolvimento e cultura enquanto povo originário têm agora suas crianças sofrendo em decorrência da fome e da alimentação industrializada, que é também mais uma forma de violência e colonização contra os povos originários. As crianças hoje sofrem porque seus pais não podem plantar, pois vivem sob a eminência de uma reintegração de posse e de terem suas roças destruídas, quando isso não ocorre de forma proposital mandada pelos fazendeiros. Ou também quando são envenenados com a pulverização aérea dos grandes latifúndios, prática essa que não deve ser vista apenas como “consequência” da utilização de determinado maquinário agrícola, mas sim, como arma de guerra e extermínio etnocida contra o povo Guarani Kaiowa.

Por isso é necessário, que olhemos enquanto povo brasileiro para o que está acontecendo com o povo Guarani Kaiowa no estado do Mato Grosso do Sul e apoiemos o seu processo de retomada dos territórios ancestrais, dos quais foram expulsos em detrimento da exploração dos recursos naturais pelas mãos do latifúndio, que sempre e somente produziu morte e dor na vida destes povos que habitam há mais de milênios e conhecem essas terras melhor do que todos.

Nós do Coletivo Anarquista Luta de Classe/PR, viemos relembrar o que ocorreu há dois anos, porque a memória não pode ser esquecida. Após dois anos do assassinato de Kunumi Poty Verá, o processo de demarcação de terras indígenas no estado do Mato Grosso do Sul continua paralisando a política fundamental que possibilita tantas outras como a saúde, a educação e o saneamento básico, por exemplo. Mas o estado é ruralista e deixa claro o lado que assume na luta entre o capital e os povos originários. O assassinato de Kunumi Poty Verá é exemplo disso, não há nada a esperar do Estado a não ser mais destruição dos direitos básicos e repressão, criminalização de todos e todas que lutam e ousam resistir. Usam de artimanhas jurídicas, como a tese do Marco Temporal, para travar o processo de demarcação de território indígena, que sempre foi lento tanto em governos de direita quanto nos ditos de “esquerda”.

Se hoje o povo Guarani Kaiowa vive sob os resquícios de seus territórios originários, é porque resistiu e conseguiu pela força de seu próprio movimento retomar o que um dia lhe foi usurpado com o derramamento de sangue e o tombamento de lideranças de seu movimento de re(existência). Consegue ainda se manter com o que vive hoje, mas o capital não permite e vai fazer de tudo para retirá-lo de cima de seu território. Será somente com resistência e organização da base que o povo Guarani Kaiowa poderá defender seu território e avançar nas retomadas, coisa que já demonstrou saber fazer quando em abril desse ano fez a ministra do STF Carmen Lucia, suspender os pedidos de reintegração de posse previstos para ocorrer nas Tekoha Guapo’y, Jeroky Guasu e Pindo Roky tambem em Caarapó.

A partir dessa singela, mas honesta nota pública, viemos enquanto Coletivo Anarquista Luta de Classe/PR contribuir e somar ao ato nacional convocado pelo Comitê de Solidariedade aos Povos Indígenas de Dourados-MS, ato politico em memória dos 2 anos do Massacre de Caarapó e dos 2 anos do assassinato de Kunumi Poty Verá !

(https://www.facebook.com/events/247785449103082/)

KUNUMI POTY VERÁ VIVE ! !

TODO APOIO ÀS RETOMADAS DOS TERRITÓRIOS GUARANI-KAIOWA ! !

NÃO AO MARCO TEMPORAL ! !

Comitê de Solidariedade aos Povos Indígenas:

https://www.facebook.com/Comitedesolidariedadeaospovosindigenasdedourados/

A Assembleia da Retomada Aty Jovem (RAJ) vai ocorrer entre os dias 10 a 14 de setembro de 2018 no Território Indígena Porto Lindo, cidade de Japorã, e é um espaço importante de organização e articulação da juventude Guarani e Kaiowá. Por dificuldades financeiras em viabilizar esse encontro o movimento conta com a ajuda de apoiadores/as através de uma vaquinha virtual:

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/assembleia-da-retomada-aty-jovem-guarani-e-kaiowa

*Música: Ruspo – Meu Gloriodo Clodiodi

https://www.youtube.com/watch?v=NI3TeSpDiOQ

Letra:

PF de helicóptero
batendo asa nos barraco
(ferve a água prum mate…)

(relata:)
botaram fogo em tudo
tentaram enterrar
o corpo com a carregadeira.

os gatilho
foi pra defender
os novilho
vale mais que o quê
sem carícia
tirando os patrício
de caarapó

atiraram sem trégua
encapuzados da milícia paramilitar
atiraram sem trégua
milícia paramilitar

acertaram professores e lideranças
agentes de saúde e as crianças
rezadores e rezadoras e as guerreiras
guerreiros e guerreiras
e os patrício
o!

o fazendeiro louco
mete fogo em nós
meteu fogo em vários de nós

(e o cara do sindicato
mentiu na TV…)

meu glorioso clodiodi
meu glorioso clodiodi
meu glorioso mártir
meu glorioso mártir

meteram sem miséria
tiro de 12, 38 e espingarda

pra depois falar
que ninguém tava armado
então como foi que ele morreu
então como foi que ele morreu

arrastão de: jorge ben e gilberto gil, lily allen, beach boys

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