[FAR] Apontamentos feministas na perspectiva do anarquismo organizado – Federação Anarquista de Rosário


Nota sobre Feminismo no Jornal “Voluntad nº3” (jornal da Federação Anarquista de Rosário) 

Parece apropriado para nós, nesta edição especial, no momento que marca o XXXI Encontro Nacional de Mulheres (Argentina) reforçar alguns aspectos fundamentais sobre o lugar da luta feminista no contexto de nossa proposta política anarquista à partir de um sentido amplo e integral.

Localizando-nos então, no marco de uma análise sobre o sistema de dominação capitalista atual, que se constrói com base na teoria da interdependência das esferas política-jurídica-militar, econômica, ideológica-cultural. Nesse sentido, entendemos que as relações de poder estão presentes em todas as relações sociais, impregnando a sociedade de maneira capilar, e desta maneira o poder penetra nas relações cotidianas e nas vidas de todos/as nós.

Não acreditamos que seja uma questão de “acrescentar” o feminismo como algo mais, já que seria uma declamação vazia e oportunista. Mas pelo contrário, consideramos que a luta contra a opressão machista é de primeira ordem para um projeto que busca a ruptura revolucionária contra o sistema de dominação. Nesse sentido, ao considerar esse tipo de dominação implica não apenas abordar as problemáticas que surgem a partir dela, mas também modifica a maneira como entendemos e enfrentamos outros tipos de opressão.

Em primeiro lugar, entendemos o feminismo – no nosso caso, o anarco-feminismo – como uma práxis, em construção permanente. Assim, consideramos que a luta feminista é altamente valiosa, seja pela sua manifestação em lutas concretas como na intensa busca por quadros teórico-conceituais que permitam analisar a opressão.

Achamos pertinente deixar claro que valorizamos as diferentes contribuições teóricas que diferentes correntes do feminismo elaboraram. Por exemplo, as feministas da igualdade levantaram a necessidade de estabelecer direitos universais como pessoas, independentemente do sexo. Ou como a teoria queer, nos adverte a nunca baixar nossa guarda sobre os mecanismos de dominação que inclusive interferem na criação de conceitos como patriarcado ou gênero (ou sexo), viciados pela lógica dicotômica (masculino / feminino), impossibilitando ou reprimindo a existência de outras formas de experimentar a sexualidade e a construção de identidades.

No entanto, apesar de reconhecer as contribuições realizadas de grande ajuda para a militância cotidiana, devemos distanciar-nos de outras propostas de certas correntes, o que nos leva a falar sobre anarco-feminismo como uma parte intrínseca do nosso projeto. Muitos destas propostas, em termos políticos-programáticos tendem a institucionalização da luta feminista; levando às propostas de igualdade como um acesso igualitário ao mecanismo de dominação (querer ter mulheres presidentas, empresárias, legisladoras, líderes, etc.); o que evidencia um claro “esquecimento” do restante das múltiplas formas de dominação que atravessam a complexa realidade que configura a luta da classe oprimida pela libertação. Negamos qualquer estratégia de institucionalização estatal de nossa luta, já que não só não podemos entender o patriarcado sem o Estado e vice-versa, mas também cotidianamente experimentamos como o Estado exerce o poder de dominação machista de maneira material e simbólica (disciplinamento corporal e identitário, vitimização das mulheres, proxenetismo, etc). Em outros casos, nos afastamos de posturas que levam à inação ou a negação da capacidade de transformação, como se toda ação organizada possível fosse o resultado em última instância do sistema de dominação que nos deixa ser funcionais a ele.

Nossa proposta é a de criar e fortalecer o poder popular autogerido, através da organização, consolidação e superação da fragmentação do campo popular. É no marco das organizações populares, que a classe oprimida se constrói em sua resistência à dominação, onde encontramos o sustento da luta feminista. E nós insistimos, não agregando termos inclusivos e proclamações, mas lutando e refletindo em um código feminista.

Entendendo então que a resposta é organizada e popular, para nós, o conceito de patriarcado – e gênero – são necessários e estratégicos, o que nos leva a ressignificá-lo, com todos os cuidados que isso exige para deixar de lado a sua lateral totalizadora e dicotomizadora. Assim, acreditamos que o patriarcado é o conjunto de mecanismos que de maneira sistêmica, condiciona o modo de organização social, e onde, por um lado, baseado num sistema sexo-gênero, se estabelecem relações assimétricas de poder à favor dos machos e, por outro lado, se produz o estabelecimento da heteronormatividade, através da repressão da homossexualidade.

O valor do conceito do patriarcado, como forma de nomear o invisibilizado e de evidenciar seu caráter sistêmico; assim como o valor do conceito de gênero para pôr em relevo a construção cultural que sustenta esse tipo de opressão e, portanto, suscetível de transformação, ganha uma dimensão programática, à partir da qual se pode articular uma série de reivindicações, por parte dos movimentos populares, em torno dos efeitos ou expressões que a opressão machista tem nas diferentes esferas do âmbito social.

Desta forma, à partir da luta contra a violência machista e homofóbica, pelo direito ao aborto, pelo acesso à saúde sexual e reprodutiva, contra a discriminação salarial para as mulheres, pela democratização das tarefas domésticas e do cuidado; não só nos permite avançar, mas ao mesmo tempo consolida uma força antagônica a força dominante, mas também permite ir aprofundando e revelando os mecanismos que impedem e limitam a capacidade de decidir sobre nossas vidas e nossos corpos.

Levando em conta tudo que foi colocado, nos é apresentado o desafio de delinear estratégias concretas para que nossa militância social e política promova e fortaleça a luta contra o patriarcado como parte configuradora do atual sistema de dominação, contextualizada em nosso lugar e tempo.

Primeiramente, se coloca a necessidade de estabelecer, por um lado, mecanismos que garantam o tratamento específico das problemáticas próprias das opressões patriarcais, e de outro lado, a perspectiva de gênero seja tratada de forma transversal, uma vez que, como dito acima, existem expressões em todas as esferas da vida e não há uma ação que seja neutra quando se trata desta questão.

Somado ao que foi colocado acima, outro elemento importante a ter em conta é como encarar a luta feminista sobre uma tradição de organizações político-sociais desenvolvidas em função de certos âmbitos onde a dominação se expressa, e que poderia vir a apresentar algumas limitações. Entre os quais se destacam, a setorização [1] e que estas tradições muitas vezes contêm lógicas machistas, onde os papéis de gênero marcaram e até hoje marcam, em muitos casos, restrições à participação das mulheres.

Apontamos a partir da FAR, fomentar organizações sociais (movimentos sociais, sindicatos, grêmios ou centros estudantis, etc.) para que sejam capazes de abraçar a luta feminista, não apenas a partir das reivindicações próprias da temática, mas também onde se faça uma revisão constante das lógicas machistas que atravessam as próprias organizações.

Desta maneira buscamos evitar em nossa prática uma especialização da luta feminista apontando para a reversão da fragmentação existente no campo das lutas sociais, sem gerar uma hierarquia de opressão que possa resultar num abandono do trabalho de base e da perspectiva de classe.

Entendemos que, como militantes, devemos contribuir para a existência de um equilíbrio entre especificidade e transversalidade dentro das organizações das quais fazemos parte. Ou seja, que possam existir espaços específicos – traduzidos em mudanças estruturais formais ou não das mesmas –, mas que a perspectiva feminista possa atravessar toda a vida dessas organizações.

Com o objetivo de sintetizar a proposta deste artigo, acreditamos que existem dois eixos articulados que poderiam orientar a tarefa no curto prazo:

  • Participação. Esse eixo é fundamental para toda a nossa estratégia anarquista, fomentar a participação, como a recuperação da capacidade de decidir, como meta e como metodologia das organizações populares. Nesse contexto, a dimensão de gênero nos obriga a pensar quais são as limitações para a participação das mulheres, ou melhor, de todas as pessoas que não se enquadram no estereótipo de homem heterossexual, que o patriarcado reforça constantemente. Nesse sentido, não apenas devem ser garantidos mecanismos formais que garantam a participação das mulheres, mas também é necessário mostrar e combater os dispositivos não formais, invisíveis, de caráter machista, que obstacularizam a participação; não apenas em questões relacionadas à luta feminista ou “de mulheres”, mas em todas as atividades das organizações, buscando desconstruir os papéis atribuídos historicamente aos gêneros. Isso requer um acompanhamento ativo dessa promoção com ações de formação e reflexão sobre o assunto. Mas, além disso, participar de termos autogeridos, implica que elas sejam/sejamos protagonistas. Que nos reconheçamos como sujeitos políticos capazes de transformar a realidade e nos transformar.

Neste contexto, retomamos o conceito de vontade de E. Malatesta, como a força “capaz de produzir novos efeitos, independente das leis mecânicas da natureza, é um pressuposto necessário para aqueles que sustentam que é possível reformar a sociedade” para relacioná-lo com a aceitação e celebração de que também somos seres com desejos, e que ninguém melhor do que nós mesmas sabemos o que queremos. Foi bem expressa pelas companheiras do jornal La Voz de la Mujer:” decidimos levantar nossa voz no concerto social e exigir, dizemos exigir, nossa parcela de prazeres no banquete da vida”.

  • Construção de uma agenda de reivindicações que permita visualizar as problemáticas setoriais, como expressões do patriarcado em diferentes esferas, bem como outras mais gerais (aborto, violência de gênero, entre outras); procurando ligar os dois níveis para desvendar os mecanismos de dominação existentes. Acreditamos que a construção desta agenda deve envolver gradualmente todos os membros da organização, tanto em termos de delineamentos como a luta nas ruas. Desta forma, pretende-se que as organizações se apropriem adequadamente da agenda e atribuam a ela o lugar de importância que acreditamos que deveria ter.

 

[1] Como exemplo, vemos que o trabalho assalariado foi um grande eixo não só ordenador da vida, mas também a resistência contra a opressão capitalista através dos sindicatos. Estes tem uma agenda própria do setor, onde são aquelas problemáticas de gênero em relação com o emprego – como a não discriminação salarial das mulheres – as que são majoritariamente adotadas; outras como o direito ao aborto seguem alheias ao mesmo. Algo similar ocorre com o movimento estudantil. Em contraposição, existe uma vasta experiência de organizações sociais, por exemplo, de tipo territorial, onde existe certa diversidade de problemáticas que se abarcam à partir daí; e que as reivindicações feministas podem ser abordadas mais amplamente.

Tradução: Federação Anarquista do Rio de Janeiro – FARJ

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