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[FAG] Lutando e Criando Poder Popular!

Enquanto a agenda do Fórum Social Mundial é pautada pelos debates oficiais patrocinado pelos governos e pela máfia sindical, na contramão do calendário oficial estamos juntos com outra forma de lutar e de fazer política.

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Enquanto a agenda do Fórum Social Mundial é pautada pelos debates oficiais patrocinado pelos governos e pela máfia sindical, na contramão do calendário oficial estamos juntos com outra forma de lutar e de fazer política.

Nesses últimos dias do mês de janeiro estivemos juntos com os que lutam, construindo um poder dos debaixo através de práticas concretas e não somente em discursos.

Começando pelo fim, a recente ocupação do Palácio da Justiça em Porto Alegre na última terça-feira em memória às famílias de Pinheirinho, indica que “Sempre haverá Resistência” e a ação direta é arma que nós temos pra fazer justiça pra viver.

No dia anterior, a concentração na esquina democrática em repúdio ao massacre de Pinheirinho e o ato no final do dia articulado nacionalmente pelos Comitês Populares da Copa, demonstraram que é sem pedir licença e nem bexiga que devemos lutar e nos organizar com independência pelos nossos direitos.

Valorizando a iniciativa e a autonomia, por fim, saudamos aos companheiros e companheiras que organizaram e participaram do Encontro de Educação Libertária em Sapiranga.

Com modéstia e dedicação, vamos aportando nosso grão de areia às lutas e iniciativas construídas com horizontalidade e independência, pois esses são ingrediente e fermento na estratégia construção do Poder Popular.

Não tá morto quem luta e quem peleia!

Federação Anarquista Gaúcha (FAG)

[FAO] I Seminário de Formação do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sudeste

Retirado de:

Rio de Janeiro, 21 e 22 de janeiro de 2012

Declaração do I Seminário de Formação do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sudeste, realizado no Rio de Janeiro, em 21 e 22 de janeiro de 2012.

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“É melhor dar um passo com mil do que mil passos com um”

O Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) – representado por suas organizações da região Sudeste (Federação Anarquista do Rio de Janeiro / FARJ e Organização Anarquista Socialismo Libertário / OASL-SP) – coordenou, entre 21 e 22 de janeiro de 2012, o I Seminário de Formação da Região Sudeste. O seminário reuniu, nas dependências do Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro, além da FARJ e da OASL, coletivos em processo de articulação ou aproximação com o FAO e individualidades interessadas em se organizar ou ingressar nas organizações já constituídas. Estiveram presentes militantes dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná, cumprindo um triplo objetivo: fortalecer o processo nas organizações existentes; estimular a criação de novas organizações/núcleos; integrar em um processo comum, levado a cabo no FAO, esse conjunto de indivíduos, grupos e organizações interessados na construção do anarquismo de matriz especifista no Brasil.

Estiveram presentes no evento cerca de 50 pessoas das seguintes cidades/regiões: Rio de Janeiro, Niterói, Baixada Fluminense, São Paulo (capital), Baixada Santista, Ribeirão Preto, Mogi das Cruzes, Belo Horizonte, Montes Claros, Grande Vitória, Cachoeiro de Itapemirim e Curitiba, O evento foi realizado de maneira autônoma, pela FARJ e OASL, contando com a colaboração de todos os participantes em um ambiente de apoio mútuo e solidariedade, que permitiu tanto uma infra-estrutura adequada (hospedagem, alimentação, limpeza etc.), como um elevado nível de discussão.

O evento teve início dia 21 pela da manhã, com a recepção dos participantes seguida de uma apresentação de boas-vindas, que reforçou a relevância do processo organizativo do anarquismo no Brasil contemporâneo e a necessidade do fortalecimento da Região Sudeste neste processo.

O primeiro módulo do seminário, “Teoria e História”, teve por objetivo levantar questões sobre o surgimento e o a trajetória do anarquismo, compreendido pelo FAO como uma ideologia ligada à prática política de intenção revolucionária. A partir formação da corrente libertária, discutiu-se o conceito de anarquismo e suas estratégias (formas históricas da ideologia), indo desde Proudhon e o mutualismo, até a Revolução Espanhola, passando por Bakunin, a Aliança e a Internacional; o anarco-comunismo de Kropotkin e Malatesta; a propaganda pela ação e o individualismo tático; o sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo; a Comuna de Paris, o sindicalismo no Brasil, o magonismo e a Revolução Mexicana e a Revolução Russa.

O segundo módulo, “Organicidade”, apresentou conceitos básicos da organização anarquista: o que é, quais são os objetivos, meios de atuação, função, diferença com outros modelos de organização política, documentos orgânicos (Carta de Princípios, Carta Orgânica e Programa), atividades, modelos de estrutura, frentes e secretarias, lógica dos círculos concêntricos, processo decisório, qualidades militantes. Num segundo momento, deu-se destaque à questão da Carta Orgânica, sendo apresentado um modelo de carta para que os participantes conhecessem seu conteúdo, facilitando a elaboração local de documentos desse tipo.

Depois da exibição de dois vídeos da Bucaneiro Produções, que mostram trabalhos sociais no Rio de Janeiro e São Paulo, teve início o terceiro módulo, “Trabalho Social”, visando aprofundar método do trabalho de base, para o que foram tratados os seguintes eixos: a arte do trabalho social; o sistema de dominação e sua estrutura de classes; as diferenças entre os trabalhos que são realizados pelos agentes internos (que moram/trabalham/estudam no mesmo local de trabalho social) e agentes externos (que não moram/trabalham/estudam no mesmo local de trabalho social); distintos modelos de agente, a partir das noções e diferenças entre minoria ativa e vanguarda; as melhores maneiras práticas de iniciar e aprofundar o trabalho/inserção social; questões de mística; método e educação popular etc.

A noite contou com o lançamento do livro Ideologia e Estratégia, de um companheiro do FAO, e também com a apresentação cultural dos grupos de hip-hop das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro, Liberdade e Revolução e Us Neguin q ñ c kala, além de uma intervenção do grupo Anarcofunk de Belo Horizonte.

O segundo dia teve início com uma breve discussão de teoria e método de análise, que buscou suprir lacunas identificadas no primeiro dia. Logo em seguida, foi desenvolvida uma dinâmica de grupo com objetivo de analisar/solucionar problemas hipotéticos de militância social concreta. Além de socializar o contato e as experiências da militância presente, a dinâmica muniu os participantes de um conjunto teórico/prático capaz de permitir o aprofundamento dos trabalhos sociais em curso ou que estão para ser iniciados.

Na continuação das atividades mais práticas, FARJ e OASL apresentaram seus trabalhos sociais realizados em suas distintas frentes (movimentos sociais urbanos, MST/anarquismo e natureza, comunitária, estudantil). O evento foi finalizado com um debate que encaminhou questões organizativas e os próximos passos para o fortalecimento do FAO na região Sudeste.

Para todos os presentes, o anarquismo no Brasil, de maneira geral, e mais concretamente o caso da corrente especifista, vivencia um momento ímpar desde o fim da ditadura militar. O processo do FAO, que completa este ano uma década de existência, vem dando um salto quantitativo e qualitativo desde 2007, quando conseguimos progressivamente reunir e aproximar todo o anarquismo especifista brasileiro. A presença atual nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Alagoas pode ser ampliada, ainda em 2012, para Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e Ceará. O aniversário de 10 anos do FAO será marcado por um evento sem precedentes, em que a organicidade será aprofundada e daremos mais um passo na construção do processo nacional.

Compreendemos que este é não é um processo rápido e que deve contar com a contribuição coletiva, de maneira a aprofundar teoria e prática que, para nós, são indissociáveis. Se por um lado, notamos um aprofundamento dos trabalhos sociais e da inserção em distintos setores do campo popular (sindical, sem terra, pequenos produtores, sem teto, desempregados, catadores, estudantes, comunitário, indígena, quilombolas, gênero), por outro vemos avançar um debate teórico profundo que, generosamente, visa extrair de autores clássicos e contemporâneos elementos teóricos e ideológicos que dêem conta de um método de análise e uma estratégia capaz de impulsionar nosso projeto revolucionário de transformação social.

Entendemos que, modestamente, temos conseguido reinserir o anarquismo no campo da luta de classes e dos movimentos populares e buscado criar um povo forte, capaz de assumir o protagonismo em suas lutas e em seu processo emancipatório. O I Seminário de Formação do FAO da Região Sudeste, juntamente com os seminários realizados nas regiões Sul [http://www.anarkismo.net/article/20167] e Nordeste [http://www.anarkismo.net/article/21040], demonstram a maturidade e a vontade dos militantes que vêm superando as dificuldades de um país de dimensões continentais e avançando na construção do socialismo libertário.

Construir o FAO!
Ética, compromisso, liberdade!
Lutar, criar, poder popular!

***

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (RJ)
Organização Anarquista Socialismo Libertário (SP)
Coletivo Mineiro Popular Anarquista – antigo Movimento Anarquista Libertário (MG)
Coletivo Anarquista Luta de Classe (PR)
Coletivo Pró-Organização Anarquista do Espírito Santo
Coletivo Pró-Organização Anarquista da Baixada Santista
Coletivo Pró-Organização Anarquista de Ribeirão Preto
Indivíduos

Lançamento de “Ideologia e Estratégia”, de Felipe Corrêa

Retirado de: http://anarkismo.net/article/21612

Anarquismo, movimentos sociais e poder popular

A Faísca Publicações Libertárias acaba de publicar o livro IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA: Anarquismo, movimentos sociais e poder popular, de Felipe Corrêa.

Faísca, 2011, 238 p.
Faísca, 2011, 238 p.

A Faísca Publicações Libertárias acaba de publicar o livro IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA: Anarquismo, movimentos sociais e poder popular, de Felipe Corrêa.

Conteúdo:

Apresentação

Prefácio Alexandre Samis

IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA

Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário
Uma resenha crítica do livro de Edilene Toledo, a partir das visões de Michael Schmidt, Lucien van der Walt e Alexandre Samis

A Estratégia de Massas de Neno Vasco

Movimentos Sociais, Burocratização e Poder Popular
Da teoria à prática

Abaixo segue a apresentação do livro com os respectivos links dos textos do livro, já publicados anteriormente no Anarkismo.net.

Os três artigos agora reunidos em livro foram escritos durante o ano de 2010. Ainda que tratem de temas relativamente distintos, pode-se dizer que têm interesses similares. Tentarei, nas próximas linhas, sistematizar seu conteúdo, de maneira a permitir sua melhor compreensão e a demonstrar a intencionalidade que os cruza transversalmente.

Os textos surgem a partir de uma necessidade concreta de reflexão teórica que se deu em meio à militância prática, âmbito em que pude aprender, refletir ou mesmo aprofundar alguns dos temas em questão.

Primeiramente, evidencia-se o tema do anarquismo. Devido à significativa quantidade/qualidade de material publicado sobre o assunto, foi possível uma sistematização que aceita alguns dos pressupostos colocados na literatura, mas ao mesmo tempo rechaça outros. Ao definir o anarquismo como uma ideologia, busquei fundamentar minha argumentação no material produzido pelos grupos e organizações que hoje constituem parte orgânica ou orbitam em torno do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) e pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU), organização que contribuiu decisivamente, desde meados dos anos 1990, para o campo teórico do anarquismo especifista brasileiro, que ainda segue em construção.

Nessa concepção ideológica do anarquismo, não se assume a leitura marxista de ideologia, considerando-a simplesmente como “falsa consciência”, mas, conforme expus nos dois primeiros artigos, de conjunto amplo de idéias, valores e aspirações que possuem relação direta com uma determinada prática política.

Foi necessário, a partir dessa noção do anarquismo como ideologia, buscar uma reflexão sobre o que é o anarquismo e localizá-lo no espaço e no tempo. Foi o que tentei realizar em “Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário” [http://www.anarkismo.net/article/16164], o primeiro artigo do livro, quando, ao criticar a definição de anarquismo de outros autores, senti-me obrigado a propor minha própria definição. Foi o que realizei a partir de uma reflexão histórica do tema, tentando formalizar os conteúdos apreendidos nos últimos dez anos de leitura. Da mesma maneira, ao criticar as abordagens que não localizavam o anarquismo no espaço e no tempo, tive de pensar, levando em conta a definição assumida, quando e onde surgiu o anarquismo – o que me levou a assumir a posição de que esse é um fenômeno que se inicia na Europa em meados do século XIX.

Ainda nessa reflexão sobre o anarquismo, desenvolvi uma análise por meio de duas categorias que julguei fundamentais para a compreensão do assunto. A primeira, da ideologia, que constituiria o anarquismo em si, sua espinha dorsal, e a segunda, da estratégia, que implicaria os caminhos escolhidos pelo anarquismo ao longo dos anos para atingir seus objetivos revolucionários, socialistas e libertários. Foi a partir dessas duas categorias que tentei conceituar os princípios ideológicos fundamentais que, para mim, definem o anarquismo, e mencionar os principais debates estratégicos que, historicamente, deram-se internamente ao anarquismo.

A partir dessa noção, refuto a tese de que há “anarquismos”. Para mim, o que há é uma ideologia, o anarquismo, que, ao longo da história, adotou e continua a adotar diferentes estratégias – ou “formas históricas”, como vem colocando Alexandre Samis – para melhor avançar rumo aos seus objetivos. Uma dessas estratégias, como coloco no primeiro artigo, foi a do sindicalismo revolucionário – impulsionada pelos anarquistas mundialmente, os quais, na maioria dos casos, detiveram a hegemonia do movimento no
que diz respeito à determinação de seu modus operandi.

O tema do sindicalismo revolucionário, relativamente bem discutido no campo da história, encontra agora uma visão que se pauta no (correto) argumento de que o que houve no Brasil da Primeira República foi sindicalismo revolucionário e não anarcosindicalismo. Abordagem que tem como conseqüência, independente da intencionalidade, o desvínculo entre o anarquismo do sindicalismo revolucionário, atribuindo ao último caráter de ideologia própria. Desvincular o anarquismo do sindicalismo revolucionário no Brasil seria, a meu ver, realizar uma revisão historiográfica sem o menor fundamento nos fatos.

Foi esse o motivo que me incentivou a escrever “Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário” – fiz questão de colocar o mesmo título do livro que criticaria –, realizando uma resenha crítica do livro homônimo de Edilene Toledo e produzindo um texto em tom de polêmica. Tomo, para isso, duas referências fundamentais das produções contemporâneas sobre o anarquismo: os livros dos africanos Michael Schmidt e Lucien van der Walt (Black Flame) – referência central no tratamento do anarquismo em geral – e do brasileiro Alexandre Samis (Minha Pátria é o Mundo Inteiro) – referência central para o anarquismo no Brasil.

Foi no processo de crítica dos argumentos do livro em questão que pude utilizar as reflexões de ambos os livros, dos africanos e do brasileiro, para construir uma argumentação construtiva, formulada a partir de suas posições e também de alguma reflexão própria. Era necessário, também, tentar formalizar os principais argumentos da discussão “sindicalismo revolucionário versus anarco-sindicalismo”, de maneira que fosse possível entender o que estava em jogo nas discussões realizadas. Terminei baseando minha distinção nos autores que tomei para o argumento construtivo, e também nas discussões que foram forjadas no anarquismo brasileiro em geral, e no de São Paulo em particular, que, desde os anos 1990, havia acumulado algo neste sentido.

Outra questão relevante era encontrar categorias que pudessem explicar essas diferentes estratégias; a proposta de Schmidt e van der Walt de se falar, em nível mundial, em “anarquismo de massas” e “anarquismo insurrecionalista”, pareceu-me adequada; no Brasil, com a pouca expressão do insurrecionalismo, creio que as categorias utilizadas por Samis, de “organizacionistas” e “antiorganizacionistas”, apesar de próximas das outras, adaptam-se melhor ao contexto do que foi o anarquismo no Brasil da Primeira República.

A escolha dos livros nos quais me baseei para os argumentos construtivos não foi acidental. Senti a necessidade de fugir do eurocentrismo que vem marcando muito das “histórias do anarquismo” que se tem publicado e, para isso, a utilização do livro dos africanos torna-se central por construir hipóteses para a interpretação do anarquismo em nível mundial, considerando mais de um século de teorias e práticas em todo o globo. A utilização da obra de Samis para o tratamento do Brasil também foi proposital, visando fugir da historiografia clássica sobre o tema, que incide em vários problemas metodológicos e muitas vezes distorcem suas posições teóricas por razão da adoção de um ou outro ponto de vista ideológico.

“A Estratégia de Massas de Neno Vasco” [http://www.anarkismo.net/article/18792], o segundo artigo, tem exatamente a intenção de dar suporte ao argumento do primeiro, demonstrando, fundamentado em material teórico produzido pelo autor, as noções do anarquismo como ideologia e do sindicalismo revolucionário como estratégia. Ainda que Neno Vasco não tenha dado tanta ênfase em seu tempo à construção de uma organização política especificamente anarquista, suas posições estão em completo acordo com muito daquilo que defendo como proposta de anarquismo e como estratégia a ser adotada. Ele defendia um anarquismo classista, que funcionasse como fermento e motor das lutas populares – o que caracteriza sua estratégia como sendo uma “estratégia de massas” –, e que deveria impulsionar o movimento sindical a partir de uma concepção programática, envolvendo a ação direta, a independência de classe e a neutralidade sindical, fortalecendo as lutas de curto prazo na medida em que elas pudessem contribuir com uma estratégia revolucionária, de ruptura, no longo prazo.

Estratégia esta que possui similaridades com a proposta dos anarquistas que atuavam na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e que inspirou a primeira onda do sindicalismo de intenção revolucionária, pré-CGT francesa, nas décadas de 1870 e 1880, assim como o sindicalismo revolucionário propriamente dito, tanto da CGT como de diversas outras localidades do mundo – incluindo o Brasil. É possível dizer, ainda, que essa estratégia possui muito em comum com a proposta de poder popular que os anarquistas especifistas vêm utilizando como base de sua estratégia e que tentei abordar em “Movimentos Sociais, Burocratização e Poder Popular” [http://www.anarkismo.net/article/18158], o terceiro artigo.

Os dois primeiros artigos apóiam-se, fundamentalmente, em literatura teórica anarquista que poderíamos chamar de clássica: Bakunin e Malatesta, no primeiro, além das referências já citadas; Neno Vasco, no segundo – independente de não ter adquirido uma envergadura internacional como os dois primeiros, pode ser também considerado um clássico. O terceiro artigo, ainda que fuja um pouco à regra no que diz respeito às referências teóricas clássicas, possui uma conexão direta com a discussão dos outros artigos, não pelos aspectos ideológicos, mas no que diz respeito à discussão de estratégia.

Buscando referências contemporâneas de teóricos dos movimentos sociais, esse artigo busca, a partir de uma constatação da burocratização dos movimentos sociais – o principal fenômeno que impede a construção de poder popular nos setores populares já organizados –, as causas dessa burocratização e propõe um programa antiburocrático a ser aplicado nos movimentos burocratizados. Levando em conta que, nesse artigo, trabalhei com uma concepção ampla de movimento social – que inclui também o sindicalismo –, creio que o programa proposto pode, em linhas gerais, subsidiar distintas discussões daqueles que estão envolvidos os diversos campos das lutas populares.

Desse programa antiburocrático, que não deixa de ter muita similaridade com o programa que era proposto pelos anarquistas para o sindicalismo revolucionário, surge a discussão sobre o poder popular. Ainda que o tema deva ser aprofundado – e eu mesmo tenho me dedicado atualmente neste sentido –, o debate sobre o poder popular, nessa concepção libertária, nada mais é do que pensar estrategicamente. Ou seja, refletir sobre os objetivos estratégicos, as linhas estratégicas e táticas para intervir na realidade, assim como adotar um método de análise que dê conta de uma interpretação dessa realidade e que potencialize o atuar. Foi buscando aportes nesse sentido que desenvolvi 20 teses sobre o poder popular, praticamente resumindo documentos e artigos contemporâneos que, desde o campo libertário, abordam a temática.

Em suma, posso dizer que os três artigos articulam-se em torno desses dois eixos: ideologia por um lado, e estratégia por outro. No que diz respeito à ideologia, objetivam pensar o anarquismo de maneira séria e honesta teoricamente, evidenciando teorias clássicas, trazendo discussões contemporâneas e refletindo criticamente sobre o material analisado. Buscam apresentar ao público em geral, e também àqueles com afinidades ideológicas, um anarquismo que seja digno de respeito no campo da esquerda e do socialismo; um anarquismo que possa retomar sua intensa e honrosa história de lutas que tiveram grande influência nos mais distintos movimentos populares em todo o mundo. Conceber um anarquismo que possa ter relevância política e, incidindo sobre a realidade, impulsioná-la no sentido desejado, mudando a correlação de forças que hoje se dá na sociedade e, passo por passo, entre conquistas de curto prazo, ter como chegar aos objetivos revolucionários e socialistas de mais longo prazo. No que diz respeito à estratégia, proporcionar aos libertários – anarquistas ou não, organizados politicamente ou não – plataformas possíveis para intervenção nos distintos campos da luta de classes. Ou seja, elementos programáticos que possam potencializar hoje a construção da sociedade que queremos amanhã.

Ideologia e Estratégia é, portanto, um livro saído do calor das lutas, buscando, em um movimento que se poderia chamar dialético, formalizar teoricamente uma série de conhecimentos que foram apreendidos tanto em teoria quanto em prática, de maneira que essa teoria agora produzida possa, em um futuro breve, retornar como contribuição, ainda que singela, às lutas e movimentos de nosso povo. Essa é, real e honestamente, a minha intenção e espero, com a devida humildade, poder submetê-la agora à apreciação crítica dos leitores.

Felipe Corrêa
Maio de 2011

[FARJ] A Luta Social em Vila Isabel

Retirado de :

http://farj.org/

Livro escrito pelo jornalista Milton Lopes narra os conflitos entre operários e patrões no bairro de Vila Isabel. O título é uma boa dica para aqueles que desejam conhecer um pouco sobre a história das lutas sociais no bairro em que funcionara a fábrica de tecidos Confiança.

“A chaminé outrora fumegante, da antiga fábrica Confiança, hoje desativada, eleva-se de forma imponente sobre as casas e os prédios residenciais do bairro de Vila Isabel. A cada esquina, a cada rua, cujos horizontes permitem vislumbrar o conjunto arquitetônico da antiga fábrica, somos confrontados com elementos de um passado não tão distante, que se confunde com a própria história do bairro e de seus trabalhadores.” Rafael V. da Silva

Núcleo de Pesquisa Marques da Costa – 2011

Título lançado em comemoração aos 10 anos da Biblioteca Social Fábio Luz  (2001 – 2011)

Preço: R$ 6,00 (sem valor de frete)

Para comprar: emece1924@yahoo.com.br

[Curitiba] Concentração para distribuição do Jornal Socialismo Libertário

No dia 21 de Dezembro, por volta das 18hs os militantes do Coletivo Anarquista Luta de Classe se concentraram para a distribuição do Jornal Socialismo Libertário de número 27. A distribuição ocorreu na Praça Santos Andrade e arredores.

A distribuição ocorrerá a nível nacional, os militantes da FAG (Federação Anarquista Gaúcha se concentraram no dia 20 de Dezembro http://www.vermelhoenegro.co.cc/2011/12/concentracao-para-distribuicao-do.html

Você pode baixar o Socialismo Libertário número 27 :

http://www.4shared.com/document/FfjvSOj8/soli_27.html

Coletivo Anarquista Luta de Classe

Viva o Socialismo libertário!

Viva  FAO!

[FAO] Novo “Socialismo Libertário”, edição 27!

Retirado de: http://anarkismo.net/article/21405

A folha nacional do FAO (Fórum do Anarquismo Organizado), edição n. 27 já está em circulação. Nesta edição realizamos uma breve análise de conjuntura da política do governo Dilma e da Dívida Pública, das lutas sindicais, mega-eventos e plano estratégico de seguraça das elites, além de nossa posição sobre a recém aprovada Comissão da Verdade.
A Folha Nacional do FAO tem sua distribuição gratuita e pode ser encontrada com as diversas organizações anarquistas que compõem o Fórum ou então fazendo o download no endereço http://www.4shared.com/document/FfjvSOj8/soli_27.html

A todos(as) uma boa leitura!

Pelo Socialismo e Pela Liberdade!

Fórum do Anarquismo Organizado – FAO

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[FARJ] Novo número do LIBERA já está disponível

N°151 do informativo da Federação Anarquista do Rio de Janeiro disponível na rede

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Novo número do LIBERA já está disponível

N°151 do informativo da Federação Anarquista do Rio de Janeiro disponível na rede. Neste número apresentamos uma análise de conjuntura sobre as greves no Governo Dilma. Publicamos também o manifesto produzido pelas organizações Anarquistas especifistas do Nordeste e o documento de fundação do Coletivo Anarquista Bandeira Negra – SC. Avança o anarquismo organizado no Brasil!

Aproveitamos este espaço, para registrar com pesar, o falecimento do militante Luiz Poeta. Poeta era integrante do grupo Verdejar, organização atuante na defesa da ecologia urbana nos arredores do Engenho da Rainha e região. Que a terra lhe seja leve companheiro!

Baixe o LIBERA nº 151 no endereço: http://anarquismorj.files.wordpress.com/2011/12/libera_151.pdf

 

Related Link: http://www.farj.org/

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10 anos da Biblioteca Social Fábio Luz

Retirado:

http://farj.org/

No próximo sábado (19/11), vamos comemorar uma data que consideramos muito especial ao anarquismo no Rio de Janeiro: os DEZ ANOS da Biblioteca Social Fábio Luz (BSFL), fundada em 18 de Novembro de 2001 em Vila Isabel. Junto com este aniversário, será lançado também o livro “Luta Social em Vila Isabel” de autoria do jornalista e integrante da BSFL, Milton Lopes.

A biblioteca, um antigo sonho dos anarquistas cariocas, nasceu com a reunião de acervos de Ideal Peres, do antigo Grupo Anarquista José Oiticica e do acervo do Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres. A temática básica dos cerca de 900 livros é o anarquismo, entretanto, pode-se encontrar outros temas como literatura, poesia, educação, livros didáticos, teatro e marxismo. Hoje contamos também com uma videoteca, bastante procurada pelos freqüentadores do Centro de Cultura Social. O nome da biblioteca foi dado em homenagem ao militante Fábio Luz. Este nasceu na Bahia e formado em medicina, se aproximou do anarquismo ao chegar ao Rio de Janeiro no final do século XIX. Escritor, pioneiro do romance social no Brasil, durante toda sua trajetória esteve próximo a luta sindical e junto aos operários.

Foi também a partir da biblioteca e do acúmulo militante dos anos anteriores, que foi criada a primeira frente de militância da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (fundada em 2003): nossa frente comunitária, que existe até hoje. A biblioteca foi o primeiro trabalho no que viria a se tornar o Centro de Cultura Social, em 2003.

Hoje, a biblioteca cumpre um papel silencioso, mas fundamental para a militância política e social. Por suas estantes, passam todos os sábados, estudantes, desempregados, professores, moradores do bairro, pesquisadores e militantes dos movimentos sociais mais variados. Por isso, comemorar os 10 anos da Biblioteca Social Fábio Luz de certa forma é comemorar também parte da história mais recente do anarquismo no Rio de Janeiro. É comemorar a luta, a organização e o avanço da militância popular e libertária neste estado, do qual, modestamente, acreditamos fazer parte e ter contribuído. É comemorar uma trajetória que se inspira no passado não para reproduzir sem crítica o que já foi, mas para recriar com dedicação e compromisso, as condições de fortalecimento do poder popular, rumo ao socialismo libertário!

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

O Anarquismo Especifista no Nordeste do Brasil

Retirado do site:

http://anarkismo.net/article/21040

A História do Anarquismo no Nordeste não é tão recente quanto se pensa. A participação e influência da militância anarquista nesta região, que hoje conhecemos como Nordeste do Brasil, pode ser facilmente notada na imprensa e nas diversas associações de trabalhadores desde o começo do século passado, quando o Anarquismo contava com forte enraizamento nas lutas e mantinha firme seu vetor social. Trazer à luz tal História deve ser uma de nossas tarefas, pelo aprendizado adquirido com o conhecimento das experiências de outrora, como forma de respeito à memória de companheiros e companheiras que tanto fizeram junto aos oprimidos e explorados dessas terras e pela própria ideologia que reivindicamos.

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O ANARQUISMO ESPECIFISTA NO NORDESTE DO BRASIL

A História do Anarquismo no Nordeste não é tão recente quanto se pensa. A participação e influência da militância anarquista nesta região, que hoje conhecemos como Nordeste do Brasil, pode ser facilmente notada na imprensa e nas diversas associações de trabalhadores desde o começo do século passado, quando o Anarquismo contava com forte enraizamento nas lutas e mantinha firme seu vetor social. Trazer à luz tal História deve ser uma de nossas tarefas, pelo aprendizado adquirido com o conhecimento das experiências de outrora, como forma de respeito à memória de companheiros e companheiras que tanto fizeram junto aos oprimidos e explorados dessas terras e pela própria ideologia que reivindicamos.O Capitalismo, sistema de organização e dominação social alicerçado na exploração e opressão das classes trabalhadoras, longe de caminhar evolutivamente para sua própria destruição ou ser engolido por suas próprias crises, como advogaram muitos teóricos da tradição socialista autoritária, avança vencendo essas mesmas crises, reorganizando suas contradições e (re)modelando formas de opressão e restrição da liberdade. Isso nos faz acreditar que não podemos esperar o capitalismo cair por si só, muito menos adotar uma postura apenas de resistência aos efeitos das tensões pelas quais passa o mundo do capital e suas instituições. Faz-nos acreditar que, antes de tudo, é urgente a necessidade dos trabalhadores contra-atacarem às classes privilegiadas e sua instituição mantenedora da miséria, o Estado. Para isso, urge novamente a vital organização do nosso povo, com a firme disposição de enfrentamento aos patrões e governos.

Dentro desse panorama, é importante destacar que entendemos como os protagonistas das lutas sociais aqueles que para nós devem construir uma transformação social radical do mundo em que vivemos, no sentido de substituir o sistema de dominação social do capital por outro baseado na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Algumas correntes socialistas, fiéis a sua raiz ideológica, seguem mantendo o “fetiche” de que apenas os operários urbanos e das fábricas são os protagonistas de uma verdadeira transformação da sociedade; disseminando um forte desprezo pelos setores mais oprimidos e explorados do nosso povo e demonstrando a falta de entendimento político pelo apego a um centralismo caduco e equivocado. Para estas correntes, os únicos “sujeitos revolucionários” são os operários – “que sujam os macacões nas fábricas” – em detrimento do conjunto do proletariado, entendidos aqui enquanto o conjunto dos/as trabalhadores/as, inclusive os/as desempregados/as, e das comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, pescadores e etc).

Resumir nossa atenção e esforço militante a um único setor, por mais importante que este seja, é cair em um erro já alertado por Mikhail Bakunin, desde a segunda metade do século XIX. A revolução apenas dos trabalhadores fabris e das cidades é insuficiente para dar conta de um processo avançado de lutas que nos leve a uma “vitória duradoura” pela transformação radical da sociedade. Com essa visão que restringe os sujeitos sociais da mudança, no máximo o que conseguiríamos seria uma revolução política, parlamentar, onde caberia apenas mais o reforço da ordem estatal e quimérica do Estado. Neste sentido é que enfatizamos a necessidade de uma Revolução Social, que enseje em seu bojo uma transformação das estruturas políticas, obviamente, mas que traga fundamentalmente transformações das estruturas econômicas e sociais. Uma revolução que possibilite criar uma nova sociedade, construída por homens e mulheres livres e iguais, e não mais uma revolução que conduza apenas ao reflexo desta (des)ordem de injustiça e opressão do mundo atual.

O Nordeste do Brasil, durante séculos uma região marcada pelo latifúndio e suas graves consequências – as mais visíveis sendo o coronelismo e o assujeitamento racista de índios e negros -, vem sofrendo um forte e intenso avanço do capital nas ultimas décadas, sob a justificativa de diminuir a histórica desigualdade econômica existente nas diferentes regiões do Brasil. O número de investimentos avança não somente em apoio à empresa turística perpetrada pelos Estados nordestinos e sua burguesia, com foco no litoral e suas belezas naturais, mas também avança no interior, nas regiões mais afastadas, em diferentes setores como energia, mineração, comércio, construção civil etc. É forte o incentivo para as indústrias que querem se instalar em nossa região e explorar a firme disposição de nosso povo para incrementar o roubo dos empresários e gerar cada vez mais lucros aos capitalistas. Como exemplo disso, temos a transposição de águas do “velho Chico”, o canal do sertão em Alagoas, construção de usinas de energia térmica a carvão, implantação de parques de energia eólica, instalação de refinarias de petróleo, ampliação de pólos produtores de alimentos para exportação, estaleiros, instalação de montadoras de automóvéis, construção de vários resorts e hotéis no litoral – entre outros mega-empreendimentos imobiliários destruidores do meio ambiente e de modos de vida tradicionais -, e tantos inúmeros exemplos mais que demonstram a disposição do capitalismo em recolonizar essa região que há muito deixou de lado, tratando como a “periferia” da produção e da acumulação do capital nacional.

Tendo em vista isso, não podemos mais considerar a região em que vivemos como afastada dos pólos econômicos e de produção no Brasil, pois atualmente o alvo do capital e de sua sanha destruidora se voltam para outros lugares além dos “centros” políticos e econômicos. Temos que pensar nossa atuação, enquanto anarquistas organizados, neste processo. Não se pode pensar nos estados ao sul do Brasil como lugares nos quais a luta de classes se apresenta com mais intensidade que em outros lugares do país, pois se assim fizéssemos validaríamos a idéia marxista de que os setores avançados do proletariado estariam necessariamente nas regiões mais industrializadas. Não se justifica essa idéia de que, na participação em um processo de lutas e numa conseqüente transformação, as regiões ditas “periféricas” estão fatalmente condenadas a seguir a reboque dos centros de poder econômico e político. Para nós, todo setor explorado e oprimido é potencialmente revolucionário, não apenas um setor que conduzirá todo o processo, não há preponderância do operariado fabril e das cidades. A nossa fraternidade é entre todos os nossos pares, irmãos de luta e que, explorados hoje, se dispõem à construção de um novo mundo. A Revolução será integral e global, ou não será.

Poder popular, autogestão e federalismo fazem parte de nossos princípios, portanto inegociáveis e inflexíveis. Assim, o protagonismo dos setores explorados e oprimidos, dos campos, das cidades e das florestas, das diversas regiões brasileiras, latino-americanas e mundiais; indígenas, desempregados, pescadores, operários, professores e todos outros, é fator indispensável se almejamos com sinceridade a construção de um mundo novo, de uma nova forma de vida. Somente conquistada por meio da transformação revolucionária desta sociedade e a construção de uma nova organização social baseada na autogestão, na democracia direta, na solidariedade e na fraternidade entre iguais.

Sabemos que esta não é uma tarefa fácil. O momento exige uma força hercúlea, mas nós, por estas bandas, estamos seguindo, com esforço e dedicação militante. Como “cabras valentes”, como uma mulher que luta para não ter sua casa (e sua memória) removida por causa de obras de infra-estrutura do capitalismo; como trabalhadores e trabalhadoras que lutam a partir das bases em seus locais de trabalho; como comunidades tradicionais que se mantém firmes e em luta para alcançar e manter algumas mínimas e fundamentais conquistas, após terem sido roubados em seus direitos essenciais ao longo de tanto tempo; como todos aqueles e aquelas que não “arredam o pé” da luta contra todas as formas de opressão e dominação a que estão submetidos neste mundo de miséria, morte e sofrimento.

Caminhamos com o punho ao alto, e certos de que esta é a estrada que nos leva ao objetivo almejado: a igualdade econômica e política de todos/as e a liberdade em seu mais alto grau de expressão, e não um mero privilégio comprado e sustentado pelos capitalistas e administradores do Estado. E que essas aspirações tornem-se, no trilhar do nosso percurso de luta, uma expressão real da vitória dos oprimidos e explorados deste mundo.
Assinam esta declaração:

Coletivo Anarquista Núcleo Negro – Pernambuco
Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP) – Alagoas
Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE) – Alagoas
Organização Resistência Libertária (ORL) – Ceará

Reunidos no I Encontro do Anarquismo Especifista do Nordeste
Maceió – Alagoas, nos dias 08 e 09 de outubro de 2011

Texto também postado nos nossos sites:
www.resistencialibertaria.org

Discurso do FAO nos 55 anos da FAU

Companheiros e companheiras,

É com muita alegria que compartilhamos com vocês a celebração deste 55º aniversário da Federação Anarquista Uruguaia. Sentimos a presença viva de nossas raízes. Os companheiros fundadores da FAU nos contam hoje os feitos históricos dos velhos que conviveram com a mais antiga geração de militantes do séc XIX. E nós, somos uma geração nova de militantes e organizações que surgiram no Brasil há pouco mais de uma década. No entanto, apesar de jovens nos sentimos parte da epopéia vivida pelos primeiros anarquistas do final do século XIX e início do século XX. Trazemos a luta histórica para as necessidades contemporâneas e assumimos a nossa condição de origem.

 

Até o nosso primeiro contato com a FAU, foi preciso quase um ano de relações permanentes, enfrentando os custos, as distâncias e as dificuldades de comunicação através das cartas que não tinham fim. O informe da viajem de um companheiro brasileiro a Montevidéu, deu a empolgação e o fermento para a criação da organização anarquista um ano depois. Em 1995, era fundada a Federação Anarquista Gaúcha. Os anos foram passando e seguimos trabalhando na construção de uma organização anarquista brasileira através da coordenação conjunta com grupos e organizações regionais. Iniciamos em 2002 o Fórum do Anarquismo Organizado que fez adesão à proposta especifista. Com erros e acertos, temos amadurecido e aprendido com esse processo de coordenação que completará uma década contando com dez estados em todo Brasil.

 

 

Do nosso vizinho Uruguai, herdamos as tradições da luta libertária ininterrupta desde 1870. E é na região do Rio da Prata onde se concentraram os imigrantes italianos e espanhóis que trouxeram na bagagem a influência bakuninista da 1ª Internacional. Trouxeram também posições questionadoras a fundo da ordem capitalista, partidárias da ação direta e da insurreição violenta. Essa paixão pela liberdade depois se fez presente nos anarquistas expropriadores, no sindicalismo classista e combativo, ambos fatores importantes que vão influenciar a criação da nossa co-irmã Federação Anarquista Uruguaia. Ao longo dos 55 anos de história, a FAU enfrentou o Estado, a oligarquia e o imperialismo, promovendo a luta de classes e a ação direta em todos os níveis.

 

Conjuntura internacional: o golpe financeiro e a luta dos povos

 

O poder financeiro global deu um golpe infame nos cofres públicos desde o estouro da bolha imobiliária de setembro de 2008. A desregulamentação do setor deu liberdade de movimento para os esquemas especulativos do capitalismo e permitiu uma gigante operação fraudulenta com produtos financeiros sem lastro real – uma série imensurável de derivativos afogou o mercado capitalista. A bancarrota dos maiores bancos do mundo, partindo dos norte-americanos espalhou por todos lugares, em maior ou menor grau, o drama econômico que assistimos.

 

Os altos executivos e operadores de Wall Street montaram um esquema sofisticado nas barbas da política liberticida das autoridades monetárias. Na bolha imobiliária, para fazer um exemplo curto e grosso, as financiadoras da casa própria vendiam no mercado os seus papéis para grandes bancos e fundos de investimentos explorarem os juros do mutuário. Os bancos por sua vez contratavam seguro para suas aplicações e especulavam contra elas para tirar lucros do seguro. A inadimplência do mutuário sujeito a trampa financeira detonou o esquema e arrastou toda a economia para o atoleiro com despejos em massa de moradores, milhões de demissões, falências da indústria, recorte de direitos sociais e serviços públicos. Que ninguém se engane: a jogatina não foi simplesmente uma aventura descontrolada dos capitais financeiros, todo o universo da propriedade capitalista se meteu no cassino financeiro global.

 

Resulta que após o golpe dos “abutres” o governo dos Estados Unidos e dos Estados mais fortes da Europa abraçaram a causa dos bancos e empresas com um socorro generoso da ordem de mais de U$ 12 trilhões prestado com dinheiro do tesouro público. A essa “socialização das perdas” se somou uma brutal “privatização dos ganhos” em que a classe dos dirigentes do sistema financeiro foram premiados com bônus milionários pagos com fundos do Estado. Aqui chegamos na dívida pública. Os governos dos EUA e Europa se valeram do mecanismo para absorver os prejuízos dos bancos com emissão de títulos públicos.

 

Em seu momento Noam Chomsky comentará: “a liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.” A conta desse delito sistêmico do poder financeiro a pagam hoje a classe dos trabalhadores, com a nova pobreza resultante da perda de empregos, direitos, salários e serviços públicos, pedra de toque do ajuste fiscal dos governos do mundo rico e receita para todos os demais. Nos Estados Unidos se ampliam os movimentos contra o sistema financeiro. A Europa vive uma conjuntura tempestuosa com uma deterioração da questão social que tem suscitado protestos populares de toda cor e de todo tipo. Desde manifestações violentamente anti-capitalistas como na Grécia, a greves combativas do sindicalismo da região, a ação direta de massas dos jovens “indignados” na Espanha ou a fúria incendiária dos subúrbios urbanos da Inglaterra.

A revolta dos povos árabes

As rebeliões generalizadas que marcam a conjuntura internacional nos dizem que a hora dos povos segue vigente. Isso tem grande significado. Diversos fatores políticos, econômicos e ideológicos são motores dessa revolta, a exemplo da miséria, da opressão e da falta de perspectivas básicas de vida. Cada país tem suas particularidades, mas há um elemento comum de rebelião que aponta para a destruição das brutais estruturas de opressão. A ação direta dos povos ganhou as ruas e enfrentou a repressão no Egito, Argélia, Bahrein, Yemen, Jordânia, Marrocos, Síria e Líbia. Com isso foram questionados e derrotados alguns regimes da região, colocando a vontade popular na equação de uma nova geopolítica.

A Resistência Popular na América Latina e o tema da integração

Assim como a luta popular tem imposto derrotas as ditaduras no oriente, na América Latina a última década tem sido marcada pelas lutas massivas do povo impondo derrotas ao neoliberalismo. A ação direta popular derrubou governos, deu resistência a tentativas de golpes de Estado e fez virar a balança de poder regional para um posição mais independente em relação ao imperialismo yankee. Porém, não descansamos nossas esperanças nos governos de turno. O exemplo recente do massacre indígena na Bolívia traz à tona os limites do desenvolvimentismo que atropela os anseios populares e faz colaboração com as elites. Apesar do genocídio indígena, mais uma vez o povo organizado mostrou a sua força nas marchas que duraram 65 dias e fizeram o governo voltar atrás na sua decisão. Fica a nossa solidariedade latino americana na luta contra o Plano IIRSA. É nosso dever desmascarar esse projeto de integração do território sul americano a um verdadeiro sistema de saque dos nossos bens e riquezas.

As mudanças no Brasil de Dilma que mantém a estrutura conservadora

No cenário brasileiro, Dilma, sucessora de Lula assumiu a presidência sob o lema: “País rico é país sem pobreza”. Dilma chega a 71% de aprovação com a ampliação das políticas de combate à miséria, a exemplo do bolsa-família, e com denominada “faxina ética” alardeada na imprensa como palavra de ordem de Dilma no combate à corrupção. Foram 6 ministros que despencaram até o presente momento, sendo um a cada 50 dias. Porém, a faxina de Dilma é na verdade sujeira varrida para baixo do tapete. A impunidade segue e forma par inseparável das estruturas burocráticas e oligárquicas da corrupção do poder político burguês. O Estado é uma estrutura de poder com alto instinto de conservação. Para governar com suas instituições, a experiência do PT no executivo assim o confirma, entre outros meios, é preciso se arranjar com as oligarquias que dominam a política burocrática e historicamente escoram seus interesses nos mecanismos públicos de gestão.

No que se refere à dívida pública, a política brasileira é a de engordar os bancos. Logo no início desse ano foram cortados R$ 50 bilhões no orçamento. Para o próximo ano a proposta orçamentária irá sangrar 48% dos recursos para pagar juros e amortizações da dívida. No ramo industrial, as federações da indústria e o governo lançaram recentemente um plano que visa aumentar a produtividade e a competitividade brasileira no plano internacional em acordo com a burocracia sindical. A verdadeira orientação do governo baseia-se nos cortes de investimentos sociais, no congelamento salarial, na flexibilização dos direitos. Tudo isso é feito através de um pacto social onde a patronal, banqueiros, governo e burocracia sindical controlam o jogo. Em 2008 era a crise a justificativa para a patronal demitir, atacar direitos e fazer lobby para que o Estado lhe fornecesse recursos e isenções. Agora sob o lema da competitividade a história repete.

Apesar das medidas de conciliação, nesse ano de 2011 alguns setores do movimento sindical deflagraram greves que se estenderam durante semanas e até meses. Trabalhadores dos correios, de universidades e institutos federais, do magistério e bancários abriram conflitos com o governo em que a disposição da base para a luta atropelou a burocracia sindical e obteve algumas conquistas. A ação direta e a independência de classe estiveram em pauta nessas lutas e esse exercício de poder dos trabalhadores pode surtir bons resultados daqui pra frente.

Se na luta sindical se abrem alguns caminhos, no que se refere à luta por memória, verdade e justiça, no Brasil vivemos um retrocesso. Recentemente foi criada a chamada “Comissão da Verdade” como uma tentativa do Executivo de aliviar os constrangimentos políticos que vêm causando sucessivas denúncias em escala internacional contra as violações aos direitos humanos no país.

A comissão da verdade, no entanto, é composta por apenas 07 membros, todos eles indicados pelo Executivo, sendo um representante das FFAA, a qual tem tensionado a necessidade de se averiguar os “crimes promovidos pela esquerda no período”? Com o estreito prazo de dois anos para a apresentação de seu trabalho final, a comissão, além de não ter autonomia (financeira e política) frente ao Executivo, também se vê desafiada a investigar os acontecimentos que vão não apenas do golpe de Estado ao processo de “redemocratização”, mas, inexplicavelmente, a “investigação” aborda um recorte temporal que se inicia em 1946 e vai até o ano de 1988, desviando assim o que deveria ser seu foco principal.

A não divulgação dos arquivos, ainda secretos, das FFAA, outro assunto que o Executivo não enfrenta com decisão, é uma prova cabal do quanto os resquícios do terror de Estado seguem vivos, pairando, ainda que silenciosamente, na sociedade, passados mais de 30 anos do início da transição pactuada. A Comissão, por sua vez, é outro fiasco no sentido de pautar a abertura dos arquivos da ditadura. Em seu parágrafo 2° do artigo 4° o PL afirma que: “os dados, documentos e informações sigilosos fornecidos à Comissão Nacional da Verdade não poderão ser divulgados ou disponibilizados a terceiros, cabendo a seus membros resguardar seu sigilo”. Ou seja, além de não haver a abertura dos arquivos, estes serão fornecidos por seus guardiões, as FFAA, que, na ausência de um decreto obrigando-as a abrir os documentos, mais uma vez irá divulgar papéis “podres” sem nenhuma autenticidade. A impunidade a torturadores, a industriais e banqueiros que respaldaram direta ou indiretamente a ditadura esta mais uma vez garantida.

Para nós, anarquistas organizados na FAO, a vitória da Verdade e da Justiça, só será possível quando o conjunto das forças populares (movimentos sociais, estudantis, sindicatos e organizações da esquerda) forem capazes de pautar de forma contundente a questão, o que infelizmente não temos visto. O que em países como Argentina e Uruguai é uma espécie de termômetro para a avaliação das forças de esquerda e populares, no Brasil, infelizmente, é tratado em muitos casos como uma questão secundária. Há que se virar a mesa, levando a luta por memória, verdade e justiça para as ruas, muros, para os sindicatos, movimentos sociais, estudantis, dentre outros, pois ainda há tempo!

Assim, esta data é importante não só para celebrarmos e reafirmarmos estas décadas de luta, como para reforçarmos que a proposta libertária segue vigente. Caminhando a cada dia rumo à revolução social, e acreditando que o Poder Popular se dá no trabalho cotidiano e na construção de um povo forte.

Diante das injustiças do sistema capitalista seguimos de pé!

Não esquecemos e jamais perdoaremos!Verdade e Justiça! Castigo aos culpados!

Pelo fim das ditaduras que massacram os povos!

Fortalecer a luta dos oprimidos e unificar os movimentos de greve!

Contra as medidas de austeridade!

Estendemos nossa solidariedade na luta contra o Plano IIRSA!

Nossa saudação à Federação Anarquista Uruguaia nesses 55 anos de lutas pelo socialismo e pela liberdade! Aos companheiros que ficam em nossa memória e estarão sempre presentes em nossas lutas!

Cecília presente!

Pelo Socialismo e pela Liberdade! Viva a anarquia!

Fórum do Anarquismo Organizado – FAO

 

Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (Alagoas)


Federação Anarquista Gaúcha (Rio Grande do Sul)


Federação Anarquista do Rio de Janeiro


Organização Anarquista Socialismo Libertário (São Paulo)