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[Rusga] PARTE 02 – JUDICIALIZAÇÃO, CRIMINALIZAÇÃO, VIGILANTISMO E PERSEGUIÇÃO – REFLEXOS DA DOUTRINA DE SEGURANÇA NACIONAL

Tentamos, nas partes anteriores, dar uma caminhada pela construção conceitual a respeito da DSN; construções que foram feitas dentro dos jogos de disputa do poder que se colocaria em hegemonia mundial. Essa construção foi realizada, obviamente, com as transformações históricas, cultural, política e econômica da sociedade e de acordo com a estruturação/consolidação do mundo capitalista. Nas próximas linhas daremos um salto para a nossa realidade, brasileira, com a entrada e novos aprimoramentos nas leis e diretrizes da LSN; aprimoramentos que se deu com grande avanço durante o período do PT, não somente em esfera federal, mas, também, em regiões que tiveram governança. É sempre válido ressaltar que as práticas de criminalização e perseguição, não esquecendo do vigilantismo, foi possível presenciar em todo território brasileiro, possuindo unicamente algumas pequenas diferenças de aplicabilidades (contundência).

Com a entrada do Partido dos Trabalhadores (PT), em 2002, tivemos um grande aumento da repressão, judicialização, criminalização e perseguição aos movimentos sociais que, historicamente, vem se organizando e movimentando no campo e na cidade. Partido que sobe ao poder com um discurso verborrágico de atender as necessidades dos setores oprimidos, mas colocando em prática maior atenção para as necessidades dos setores opressores – executando com eficácia um Pacto de Conciliação de Classes, com migalhas e endividamento para as/os de baixo e regalias e altos lucros para as/os de cima. Os altos lucros podem ser constatados através dos lucros obtidos pelos principais bancos privados, principais empreiteiras e a maior detentora de controle das redes privadas de ensino (Kroton Educacional).

A esperança (de vários setores da camada popular) foi transformada em descrença, algumas lutas foram se engessando e os que se mantiveram no enfrentamento contra as contínuas políticas neoliberais, “iniciadas” no período FHC e aplicadas com maior fervor pelo governo do PT, sofreram duramente os efeitos da repressão e da perseguição política. A criminalização se intensificou, tanto do protesto como da pobreza – principalmente contra aos que continuaram se movimentando contra as políticas de exclusão e de retirada dos direitos sociais e trabalhistas. É de grande importância refrescar a memória: o que estamos enfrentando com o governo Temer, é uma continuidade de práticas de criminalização/judicialização/repressão/perseguição já adotado pelo governo PT, só que sem a necessidade de uso da “Luva de Pelica”.

A LSN passou por frequentes modificações e complementações orçamentárias no período Lula e Dilma, nesses dispositivos de investimentos ao setor bélico – às Forças Armadas – houve desde investimentos para novos equipamentos (armas, tanques, aviões, etc.) como também um investimento interligado ao setor de inteligência (novos mecanismos destinados para vigilância telefônica e cibernética). Além das FA, os demais órgãos de repressão do Estado também obtiveram um gritante investimento em equipamentos como: novas armas de fogo (letais e “não letais”), blindados para conter “conflitos” nas favelas e também para dispersão de manifestações, bombas e gás destinados, também, para dispersão das mobilizações de rua, além de vários concursos destinados para ampliar as corporações de “segurança pública”.

Em resumo, todo investimento necessário para conter (antecipadamente e no fato corrido) mobilizações, organizações e lutas de maior contundência contra as políticas de austeridades que já tramitavam na esfera federal e estadual – desde investimentos financeiro e em rápidas modificações jurídicas, foi efetuado.

Perseguição, vigilantismo, criminalização, judicialização e encarceramento são métodos muito utilizados em outros países que precisaram avançar em políticas de austeridade – principalmente no tocante das políticas neoliberais. Desde os últimos 13 anos foi possível presenciar essa política em vários setores populares, até mesmo os de maior base de sustentação do PT. Foram várias rádios comunitárias (rurais e urbanas) fechadas, escolas rurais, militantes do campo e da cidade perseguidos, alto método repressivo nas lutas urbanas por transporte público, por educação e por saúde; além dos vários ataques aos direitos mais básicos da população, através das mais variadas ações de precarização e privatização dos setores essenciais para a população mais pobre; métodos aplicados em todo território brasileiro com total aval do governo federal.

 A PL Anti Terrorismo, um mecanismo necessário para o progresso da Austeridade

“Às organizações terroristas, cujos atos preparatórios ou executórios ocorram por razões de ideologia, política, xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou gênero e que tenham por finalidade provocar o terror, expondo a perigo a pessoa, o patrimônio, a incolumidade ou a paz pública ou coagir autoridades a fazer ou deixar de fazer algo […]” – trecho da lei antiterrorismo, aprovada ainda no governo de Dilma Rousseff.

Aos finais da novela do Golpe Midiático-Jurídico-Parlamentar, antes de seu episódio final, o governo PT deixou uma perfeita ferramenta para as mais possíveis judicializações e criminalizações contra as lutas populares. Em vários estados se tem registros de perseguição, vigilância, criminalização ao sentido jurídico criminal de fazerem parte de “formação de quadrilha” – uma “pequena” brecha aberta com a lei antiterror. Rafael Braga é o maior exemplo desse processo criminalizatório! É importante salientar que, junto de todos esses confrontos por interesses governamentais (projeto político partidário eleitoral) e empresarial, ocorreu a efervescência explícita dos setores mais conservadores; com gritante demonstração de prática fascista/racista/xenofóbica/homofóbica – além das mais bárbaras demonstrações de misoginia. Para essas práticas, o uso do aparato legal e repressivo foi pautado como “direito a dúvida” e como direito a “liberdade de expressão” ou, até mesmo, manifestação.

A crença de que o PL 2016/15 fosse algo novo no cenário repressivo é prova da fragilidade de todo campo da esquerda (revolucionária e eleitoral) ao não tratar com maior seriedade reflexões/estudos sobre o papel do Estado e diretrizes da Segurança Nacional, principalmente quando tais aparatos legais e instrumentais tecnológicos se voltam em maior potencialidade aos setores oprimidos da sociedade. As diretrizes que vão engrossar a centralidade desse projeto de lei são reformulações de diretrizes sobre Segurança Nacional da época da ditadura brasileira… ao nosso ver, era de grande importância para o Estado reformular algumas diretrizes no campo da DSN/LSN, onde o argumento de “inimigo externo/interno” necessitaria ser reutilizado para o desenvolvimento de megaempreendimentos e megaeventos – principalmente quando deixaria claro uma possível contradição de progresso econômico social, ficando exposto um longo período de danos e austeridades; um dos argumentos utilizados para justificar essas adaptações e reformulações era de uma “necessidade de se enquadrar” as deliberações da própria ONU.

Enquanto o campo ex-governista digladiava, para manter Dilma no governo, o mesmo governo sancionava várias leis que aumentariam a estratégia de repressão aos protestos com extrema e generalizada violência; algumas das principais violações praticada pelos aparatos repressivos: falta de identificação dos policiais, detenções arbitrárias, proibições prévias de participação por decisão judicial, uso de armamento letal, uso desproporcional de armas consideradas “não letais”, desproporcionalidade de ações e efetivos policiais, aprimoramento e implementação de táticas e técnicas de impedimento das manifestações (muitas consideradas como ilegais em vários países por infligir os direitos humanos e civis), vigilantismo aprimorado tanto nos atos de rua como em meios de comunicação (monitoramento de perfis, páginas e grupos de Facebook e WhatsApp), proibição e intimidação das mídias populares (vários setores do jornalismo passaram por inúmeras violações, desde tendo equipamentos apreendidos ou quebrados).

Nesse processo todo, ainda em 2014, o Centro de Informações do Exército (CIE) passa por uma completa reestruturação. Desde os setores da Inteligência como da Contra-inteligência passam a ter como “alvo prioritário o monitoramento de movimentos sociais”. Sobre o investimento em tecnologias de ponta para o Centro de Guerra Cibernética, fica extremamente clara a intenção ao ler o trecho abaixo:

A readequação era planejada há anos e surge na esteira da convulsão de atuações de black-blocs, sem-teto e sem-terra com atividades similares a guerrilhas urbanas e rurais, diante de provas de ligações destes grupos com organizações criminosas das grandes capitais. Antigos oficiais de inteligência e de operações especiais, hoje na reserva, estão sendo convocados para treinar nos novos quadros do CIE. Link: http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/2014/07/29/exercito-remodela-centro-de-inteligencia-para-monitorar-movimentos-sociais/

Portanto, o que temos presenciado desde a entrada do Temer no governo não é algo criado agora. São leis e diretrizes reformuladas, aprimoradas, potencializadas para que qualquer possibilidade de abalo nas estruturas de poder fosse com grande precisão reprimida. Essas intenções repressivas sempre existiram na estrutura do Estado, mas o potencializador e reformulador, após os anos da ditadura, foi o PT em seus 14 anos de governo.

Não podemos deixar de relembrar as perseguições sofridas contra a Federação Anarquista Gaúcha, quando tiveram por várias vezes sua sede pública invadida pela polícia, assim como outros militantes anarquistas perseguidos pelo Brasil. Ao nosso ver, 2013 em diante foi palco de grande ataque contra nós anarquistas – à nossa ideologia –, essa perseguição se deu por vários setores: desde os setores conservadores, até mesmo, por vários setores da esquerda governista e institucional, onde foi possível presenciar desde violências físicas durante atos até mesmo em publicações/opiniões públicas. Reflexo dessa perseguição ideológica que companheiros soltaram a seguinte opinião/resposta “Deixemos todas as bandeiras vermelhas levantadas…. Mas as bandeiras rubro-negras exigem respeito! ”, publicado durante as manifestações de 2013 – link: https://anarquismorj.wordpress.com/2013/07/01/respeitem-as-bandeiras-rubro-negras/

Link para Download do PDF: Opinião Anarquista 03 – DSN Uma Análise Anarquista (part.02)

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Barricada e Greve Geral contra a reforma trabalhista e previdenciária! Ação Direta no Paraná em 28 de abril de 2017.

Dezenas de categorias paralisaram, barricadas foram feitas em rodoviais e milhares de pessoas foram às ruas.

Professoras e professores, metalúrgicos, pedreiros, motoristas, garis, estudantes, agricultores e muito mais lutadoras e lutadores paralisaram neste 28 de abril, no Paraná.

Em várias regiões do Paraná, como nas cidades de São José dos Pinhais, Araucária, Mauá da Serra e Laranjeiras do Sul, foram bloqueadas rodovias com barricadas em chamas.

Para citar apenas as grandes cidades deste estado, 30 mil pessoas foram às ruas em Curitiba, 20 mil em Londrina, 10 mil em Maringá revoltadas com esses grandes ataques aos nossos direitos.

E como na Greve Geral de 1917, os e as anarquistas estavam presentes construindo a luta, desta vez mais modestamente.

Aqui no Paraná, o Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC) e o Coletivo Ação Direta (CAD) ergueram as bandeiras preta e vermelhas. No restante do Brasil as organizações que compõem a Coordenação Anarquista Brasileira – CAB estiveram fortalecendo e fomentando a autonomia, a democracia e a ação direta dos sindicatos e de outros movimentos da classe oprimida.

LIBERDADE PARA RAFAEL BRAGA!
LUTAR! CRIAR PODER POPULAR!
NENHUM DIREITO A MENOS!

Saudações do CALC/CAB aos 60 anos da Federação Anarquista Uruguaia (fAu)

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“Hay un solo caminho, hay una sola manera de vivir, sin vergüenza: peleando, ayudando a que la rebeldia se extienda por todos lados, ayudando a que se junten el perseguido y el hombre sin trabajo, ayudando a que el “sedicioso” y el obrero explotado se reconozcan como compañeros, aprendan luchando, que tienen por delante un mismo enemigo…”

Alberto “Pocho” Mechoso 

O Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), saúda a comemoração dos 60 anos da Federação Anarquista Uruguaia (fAu)! A fAu cumpriu e cumpre papel determinante na formação do CALC, assim como na criação e desenvolvimento das várias organizações anarquistas especifistas que hoje compõe a CAB, no Brasil.

O CALC se organiza publicamente no estado do Paraná, Região Sul do Brasil, desde o ano de 2010. Com a influência das organizações que na época construíam o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), que em 2012 deu espaço para a fundação da CAB, e com a influência da Federação Anarquista Uruguaia, pudemos fundar uma organização anarquista especifista neste local de muita tradição de luta social.

Estamos envolvidos em vários movimentos e lutas sociais desde nossa fundação, contando muito com o desenvolvimento ideológico, teórico e estratégico que a fAu construiu nos últimos 60 anos. Sem toda a produção teórica e o desenvolvimento organizacional elaborado desde os anos 50 no Uruguai, não seria possível que nossa organização estivesse aqui hoje.

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Modestamente, o anarquismo organizado volta a estar presente nas lutas de nosso tempo nestas terras paranaenses. Nos últimos anos, com esforço, trabalho e inserção social, estamos humildemente em bairros, comunidades, sindicatos, escolas, hospitais, universidades, na cidade, campo e floresta. Lutando desde baixo e à esquerda, marcados sempre pelo exemplo da fAu, estivemos em algumas das marcantes lutas recentes no Brasil, hasteando nossas bandeiras rubro-negras: Jornadas de Junho de 2013; luta contra a privatização (EBSERH) do maior hospital público do Paraná; lutas contra o corte de direitos no funcionalismo público e Massacre de 29 de Abril de 2015; e atualmente no processo de mais de 800 ocupações de escolas no estado.

A atual mobilização da classe oprimida, especialmente dos estudantes secundaristas, contra reforma do Ensino Médio e ataques à educação e saúde pública marcam todo o Brasil, e desde o Paraná, seguimos firmes na luta por nossos direitos e vidas dignas!

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Para além das lutas sociais, também modestamente, fazemos um esforço para disseminarmos nossa ideologia, a partir da propaganda anarquista. A mais de 10 anos temos vendido livros anarquistas neste local e, desde 2015, lançamos a Livraria Anarquista Alberto “Pocho” Mechoso em homenagem ao grande militante da Federação Anarquista Uruguaia!

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Saudamos os 60 anos da fAu e agradecemos esta organização por tudo o que construiu e contribuiu para o desenvolvimento do anarquismo especifista e da luta popular. Em memória de todas as companheiras e companheiros que tombaram na luta pelo socialismo e liberdade! Viva a luta dos/das de baixo por um mundo justo e igual!

Viva a Federação Anarquista Uruguaia!

Viva o Anarquismo Especifista!

Viva a Luta dos/das De Baixo!

Arriba lxs que luchán!

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[ORL] CARTA PÚBLICA DE COMEMORAÇÃO DOS 7 ANOS DA ORGANIZAÇÃO RESISTÊNCIA LIBERTÁRIA

Retirado de: http://www.resistencialibertaria.org/index.php?option=com_content&view=article&id=163%3A2015-12-19-23-41-17&catid=38%3Aeleicoes&Itemid=56

Carta Pública de Comemoração dos 7 anos da Organização Resistência Libertária

Companheiras e companheiros de caminhada nesta luta por igualdade e liberdade,

Nossa Organização completou 7 anos de atividade política e pública. Aos olhos de muitos, esse é um tempo pequeno diante da caminhada pela liberdade. Aos nossos olhos, esse tempo modesto tem amplo significado, tanto para nossas vidas como para a experiência de luta do anarquismo neste estado.

Em meados de 2007, a recente experiência de luta de muitos/as estudantes secundaristas e universitários/as se unia a experiência organizativa de muitos/as militantes anarquistas que há longos anos movimentava a luta libertária nestas terras cearenses. Naquele cenário, de aliança de militâncias jovens e de uma militância mais experiente e ideológica, prosperou a fraternidade necessária e a vontade de fazer crescer um coletivo independente das forças políticas existentes até ali, que a nosso ver representavam um prejuízo aos movimentos sociais, retirando-lhes potência e ação.

Foi exatamente um ano o tempo necessário para nossa constituição como corpo político. Aos 8 de dezembro de 2008, na abertura do I Encontro Libertário: Anarquismo e Movimentos Sociais (em Fortaleza), a Organização Resistência Libertária lia seu Manifesto de Criação. Esse processo, de um ano de discussão interna, teve uma importância decisiva em nossa organização. Nesse tempo, dezenas de discussões políticas e muitos/as militantes se revezaram na difícil tarefa de diálogo e construção de laços de uma unidade possível e fazer crescer nossa militância.

A experiência da luta do anarquismo cearense, sobretudo naquela história recente, era tributária de muita luta, mas pouquíssima organização entre os/as anarquistas. Era uma intensa atividade política, mas entre nós nos entendíamos pouco e isso era refletido também em nossas ações, condenando-nos a atividades pontuais e de pouco alcance. A necessidade de uma maior organização entre os anarquistas era cada vez mais evidente. E começávamos a entender, com muito esforço, e aliado a muitas companheiras e companheiros anarquistas deste país, que nosso limite estava ali. Ou dávamos um passo à frente e construíamos laços mais orgânicos e que nos impulsionariam a crescer politicamente, ou então, como já tinha acontecido dezenas de vezes em anos anteriores, estaríamos condenados a inanição política como coletivo ou a mera ação individualizada, que já havia se mostrado estéril politicamente.

Aqui queremos dar um registro especial a todas e todos que construíram a ORL. Ainda que muitos fundadores e fundadoras não estejam mais conosco organicamente, registramos a importância de cada um de vocês. É preciso não ter dúvidas. Foi cada palavra, cada conflito e cada calma, cada gesto, de todo/as, que fazem esse texto ser lido agora. Aqui está a Organização Política que vocês ajudaram a construir. Aqui está, com novos rostos, e depois de muitas sementes, a vossa plantação. Somos nós que, entendendo os motivos de cada militante que precisou se afastar por um curto ou largo período, manifestamo-nos diariamente na manutenção do sonho que certamente temos em conjunto. Importante também fazer um registro dos/as apoiadores/as que, mesmo nunca tendo feito parte orgânica da do nosso grupo, foram sem dúvidas de inteiro companheirismo desde primeira hora. A Organização também é resultado do apoio de vocês, foram também decisivos em cada momento.

É preciso também dizer que nossa história não é triunfalista. Recusamos o típico discurso das organizações políticas que comemoram novos ciclos apenas a cantar vitórias e ações revolucionárias. Nossa história não é bela e nem feia. Ela foi, dentre as muitas possibilidades de ação, construída coletivamente, a partir da força, dos medos, da radicalidade, dos anseios… de cada um de nós que, compartilhando ações com mais um mundo de lutadores sociais intentamos projetar novos mundos. É preciso ter coragem, sob tantos os ângulos, para afirmar nossos acertos e principalmente nossos erros. Foram muitos destes erros que nos fizeram amadurecer e prosseguir, dirimindo traumas e construindo um espírito de luta coerente com nossa caminhada.

Foi no terreno da luta social, da difícil luta militante, de muito trabalho e pouco sono, que pudemos semear nosso sonho libertário. É na peleja com muitos lutadores que nos criamos. Na militância estudantil, indígena, comunitária, sindical… aprendemos com a prática aquilo que já pensávamos no plano teórico. Juntos com a militância dos/das companheiros/as do Movimento de Luta em Defesa da Moradia (MLDM) e, mais recentemente, do Movimento Social FOME (Sobral), do Movimento Passe Livre (MPL), do Movimento de Oposição Sindical (MOS) e na Biblioteca Social Plebeu Gabinete de Leitura, temos se construído como militantes, aprendendo com cada um e cada uma, renovando diariamente nossas ideias de transformação social.

No plano político, mais orgânico, é preciso reconhecer de início a forte influência que tivemos da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ). Foram nossos/as primeiros/as companheiros/as de leitura e concepção de projeto revolucionário, participando diretamente da nossa formação. Saudamos também em nome de todas as organizações irmãs, a Federação Anarquista dos Palmares (FARPA), também irmãos e irmãs de primeira hora, desde 2008, e por todo o esforço com que tem trabalhado em conjunto conosco pela construção do anarquismo no Norte e Nordeste desse país. Internacionalmente, nossas relações com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) não poderá jamais ser esquecida, pelas elaborações teóricas e pela experiência de luta compartilhada nos últimos 5 anos.

É preciso afirmar também nosso imenso crescimento político com a construção da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), que desde 2012 tem reunido organizações irmãs de diversas partes deste país, tentando criar um projeto de transformação social construído pelos “de baixo” e em sintonia com nossas princípios e práticas militantes. Que cada militante, de cada organização irmã, sinta um forte abraço de cada um de nós. É com vocês que criamos nosso projeto e é com vocês que nosso projeto avançará. Vocês são nossa bandeira tremulando em cada território saqueado desse país, vocês são nossa esperança de resistência e luta.

A Organização Resistência Libertária agradece a fraternidade de todas as organizações-irmãs, nomeadamente: Federação Anarquista Gaúcha (FAG/RS), Rusga Libertária (RL/MT), Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ/RJ), Federação Anarquista dos Palmares (FARPA/AL), Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC/PR), Organização Anarquista Socialista Libertário (OASL/SP), Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN/SC), Federação Anarquista Cabana (FACA/PA) e, mais recentemente, do Fórum Especifista da Bahia (FAE/BA), da Organização Anarquista Maria Iêda (OAMI/PE) e da Organização Anarquista Zabelê (OAZ/PI). De pé e em luta, sempre!

Fazer crescer a bandeira negra!

Vivas a Organização Resistência Libertária!

Lutar, Criar, Poder Popular!

Organização Resistência Libertária

19 de dezembro de 2015

Nota de repúdio à criminalização do Coletivo Quebrando Muros, estudantes da UEL e Antifa 16

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Após o massacre do movimento de luta pela educação pública no dia 29 de abril, o governo de Beto Richa (PSDB), através da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, tentou criminalizar “grupos radicais” por terem iniciado o confronto com a polícia.

Em coletiva de imprensa, o ex-Secretário de Segurança Pública do Paraná (Fernando Francischini) e um delegado da polícia federal “divulgaram as informações coletadas pelo departamento da inteligência da SESP” colocando estudantes da UEL, o Coletivo Quebrando Muros e Antifa 16 como sendo “baderneiros, black blocks” responsáveis pela tentativa de invasão da ALEP. MENTIRAS NÃO PASSARÃO!

O movimento de luta se esforçou para impedir a votação do PL da Previdência a partir da ação direta, da pressão popular, assim como em fevereiro quando o Estado tentou passar o “pacotaço de maldades”. Inúmeras categorias, estudantes e outros movimentos sociais fizeram parte do processo de decisão das ações tanto em fevereiro como no 29 de abril.

O que houve foi um massacre, o braço armado do Estado – a polícia, apenas utilizou de todo seu aparato militar para reprimir o movimento de luta pelos direitos trabalhistas. E ainda ousam criminalizar os libertários.

Ainda por cima, nas reportagens que divulgaram a coletiva de imprensa da SESP, especialmente na CBN e RPC (filiada à Rede Globo), colocaram os grupos como “pregadores da anarquia”, de forma a tentar criminalizar a ideologia anarquista.

NÃO VAMOS ACEITAR ESTE TIPO DE INTIMIDAÇÃO!

Toda solidariedade aos criminalizados e criminalizadas! É inaceitável este tipo de intimidação, com destaque no que foi feito a estudantes da UEL que sofreram humilhações absurdas pela polícia, tendo quatro detidos no dia 29, além de fortíssimos abusos e ameaças. Como na maioria das universidades estaduais, a de Londrina está muito sucateada e o movimento estudantil e sindical cada vez mais mobilizado. TODO APOIO À LUTA DOS TRABALHADORES, TRABALHADORAS E ESTUDANTES DA UEL!

O agrupamento de tendência Coletivo Quebrando Muros tem destacada atuação estudantil e sindical, leia mais em Protestar não é Crime: Quebrando Muros e o Antifa 16 compõe a luta por transporte público a anos e está lado a lado na luta dos servidores e servidoras. FASCISTAS NÃO PASSARÃO!

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PROTESTO NÃO É CRIME!

CRIMINOSO É O ESTADO!

RESPEITEM AS BANDEIRAS RUBRO NEGRAS!

RODEAR DE SOLIDARIEDADE OS QUE LUTAM!

TODA SOLIDARIEDADE AO COLETIVO QUEBRANDO MUROS, ESTUDANTES DA UEL, ANTIFA 16 E TODXS CRIMINALIZADXS!

Leiam:

NOTA DO COLETIVO QUEBRANDO MUROS https://quebrandomuros.wordpress.com/2015/05/05/protestar-nao-e-crime-criminoso-e-o-estado/

NOTA DE SOLIDARIEDADE DA CAB: http://anarquismo.noblogs.org/?p=150

PUBLICAÇÃO DO CALC SOBRE O MASSACRE DE 29/04/2015: https://anarquismopr.org/2015/04/30/o-estado-e-29-de-abril-de-2015/

[CAB] Protesto não é Crime! Toda solidariedade ao Coletivo Quebrando Muros!

Retirado de: http://anarquismo.noblogs.org/?p=150

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No dia 29 de Abril de 2015, o governador Beto Richa instaurou um verdadeiro estado de exceção no Paraná, sendo o responsável pelo massacre cometido pela polícia contra o movimento dos servidores e servidoras públicas, que contava com o apoio de estudantes e outros setores na luta contra o ataque à previdência.

Os lamentáveis acontecimentos daquele dia escancaram o verdadeiro caráter do Estado e seu papel na manutenção da “ordem”, entendendo-se aqui como a ordem da classe dominante, que utiliza-se do aparato estatal para manter os seus privilégios e garantir a execução de seus interesses. Quem pagou pela crise, mais uma vez, foram as classes exploradas. Porém, sabemos que os verdadeiros responsáveis são aqueles que estão no poder e que tentam forçar o povo a arcar com o ônus da ruína que eles mesmos criaram.

Desta vez, no entanto, os setores oprimidos pagaram não apenas com o seu bolso, mas também com o seu sangue. A repressão ocorrida no Centro Cívico viola todas as garantias constitucionais “democráticas” em matéria de direitos humanos e liberdade de manifestação. O que apenas nos revela, mais uma vez, aquilo que os anarquistas já sabem desde sempre: quando se trata de garantir os interesses da burguesia, não há lei que não possa ser violada pelo Estado. O reforço da lei vale apenas para as classes dominadas; os abusos ilícitos da polícia e do Estado que a comanda raramente são punidos, ainda que venham a ser muito mais graves e criminosos.

Mas os ataques do governo do Paraná àqueles que lutam e resistem não se encerram por aí. Nesta semana, foram veiculadas reportagens em dois meios de comunicação do estado, a CBN e a RPC (filiada à Rede Globo), nas quais a Secretaria de Segurança Pública tecia acusações infundadas ao Coletivo Quebrando Muros, acusando-o de ser um grupo criminoso que teria se “infiltrado” nas manifestações para promover ações violentas contra a polícia. Ora, sabemos muito bem que a responsável pelas ações violentas daquele dia foi a própria polícia e que o Coletivo Quebrando Muros tem militantes ativos no movimento dos professores e professoras do Paraná.

Nas mesmas reportagens, a polícia e os jornalistas acusam os “supostos black blocks”, antifascistas e o Coletivo Quebrando Muros de “pregarem a anarquia”, como se o anarquismo fosse contrário à organização social. Porém, se o Estado acha que isto vai intimidar os libertários e anarquistas, ele está muito enganado. A luta vai continuar e os libertários continuarão ativos!

Este ataque calunioso tem interesses claros: desviar o foco do massacre cometido pela polícia no dia 29 de abril e criminalizar os movimentos e organizações políticas que lutam e defendem os interesses da classe oprimida. A liberdade de organização foi conquistada com o sangue e a vida de centenas de militantes durante a ditadura, apenas para sofrer um novo ataque do governo Beto Richa. Um governo que busca sair impune das graves violações aos direitos humanos cometidas no dia 29, e ainda assim conserva cinismo o suficiente para acusar organizações políticas que apoiavam os protestos de serem criminosas. Tal é o papel do Estado: reprimir os movimentos sociais, perseguir organizações políticas, massacrar manifestações que buscam lutar contra a perda de direitos dos trabalhadores. Tudo para manter os privilégios das classes dominantes intactos.

As mentiras de Beto Richa não intimidarão o povo em luta. Chega de perseguição! Calúnias não intimidarão as organizações em luta!

Protesto não é crime!

Arriba lxs que luchán!

As bandeiras rubro-negras continuarão erguidas!

Toda solidariedade ao Coletivo Quebrando Muros!

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[CQM] Todo apoio à ocupação da ALEP! Ação Direta para garantir nossos direitos!

Retirado de: https://quebrandomuros.wordpress.com/2015/02/10/todo-apoio-a-ocupacao-da-alep-acao-direta-para-garantir-nossos-direitos/

Hoje a luta dos professores e funcionários da rede pública de educação do Paraná se radicalizou e ganhou mais força.

Apesar da presença massiva da PM, a categoria não se intimidou e, com mais de 20 mil pessoas presentes, a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná foi ocupada, fortalecendo a greve através da ação direta.

Não esperamos nada de deputados, porque sabemos do lado de quem estão. Só a ação direta do povo pode garantir e avançar nossos direitos!

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Repudiamos a hostilidade que a direção da APP vem mostrando às professoras e professores do Coletivo Quebrando Muros, pedindo a retirada de nossa bandeira rubro-negra do movimento e nos acusando de sermos infiltrados. Reiteramos que estamos na luta, lado a lado com a base.

Ajudamos a construir a ocupação da ALEP com a firme convicção de que só a base radicalizada pela ação direta poderá ter a força necessária para reverter os ataques que o governador Beto Richa vem fazendo contra a educação pública. Além do sucateamento das escolas e universidades estaduais e do calote que o governador deu aos técnicos e professores, Beto Richa agora também tenta retirar a autonomia das universidades estaduais através do famigerado Meta 4. Perante a todos estes ataques contra a educação pública do Paraná, afirmamos que só a luta da base pode trazer vitórias, e DA LUTA NÃO NOS RETIRAMOS!

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Não confiamos em deputados! Somente na ação direta do povo organizado!

A nossa luta é todo dia, educação não é mercadoria!

O povo unido jamais será vencido!

Lutar! Criar Poder Popular!

Ocupa Curitiba!

[FARJ] 11 Anos da FARJ

Retirado de: http://farj.org/

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Em 30 de agosto de 2014, a FARJ fez 11 anos. Completamos 11 anos do bater de assas do tiê pelas terras fluminense.

Esse pássaro belo, símbolo de nossa Federação, cujas penas negras apresentam nosso Ideal, traz em seu peito o vermelho sangue dos homens e mulheres que tombaram em luta.

É mais um ano de continuação de nossas lutas e nossos sonhos. Mais um ano em que a luta de Ideal Peres, Domingos Passos, Fábio Luz, Elvira Boni e tantos outros e outras continua.

Na foto nossa primeira bandeira com a data da nossa fundação, presente tantas vezes nas ruas e em atividades.

Viva o anarquismo organizado!
Viva a FARJ!
Ética, compromisso e liberdade!

Deixemos todas as bandeiras vermelhas levantadas… Mas as bandeiras rubro-negras exigem respeito!

ParasiteFARJ1º de julho de 2013 Rafael Viana da Silva*, Bruno Lima Rocha**, Felipe Corrêa***

Nos final dos anos 40, numa conjuntura que, guardadas às proporções, traz similitudes com nosso atual momento, o anarquista Pedro Catalo reclamava nas páginas do periódico Ação Direta que, na Praça do Patriarca em São Paulo, onde o povo ia às ruas debater a situação política do país, “quando os oradores que sobem são anarquistas, a gritaria toma proporções atordoantes”. Segundo Catalo, “organizaram uma brigada de desordeiros, encarregados de gritar, assobiar, insultar e apostrofar todos os quantos em sua arengas, não observem os ditames absurdos da linha justa Prestiana.” (CATALLO, Pedro. Infâmia Bolchevista. Ação Direta, Rio de Janeiro, 30/11/1946, nº 26, p. 01) Catalo expunha, assim, uma atitude que pode ser considerada como contrária à democracia direta defendida pelos anarquistas nos espaços públicos. A claque era o supra-sumo do stalinismo brasileiro, encabeçado por um partido cujos líderes eram, em sua maioria, ex-militares tenentistas.

Vale situar o leitor no período. Luiz Carlos Prestes saiu da cadeia para dirigir o Movimento Queremista, indo a comícios varguistas, mesmo após o Estado Novo ter entregado sua companheira, Olga Benário, aos nazistas. Esse tipo de cálculo político frio – embasado na real politik leninista – sempre acaba por fortalecer o pior do dirigismo político nas esquerdas. A saber, a massa a vaiar os oradores anarquistas era base do Partido Comunista do Brasil (ainda PCB), em seu curto período de legalidade, quando Prestes, de preso político torna-se senador da república na Constituinte de 1946. Depois, a seção brasileira do Partido de Moscou cai na ilegalidade e, por um brevíssimo período, flerta com a linha revolucionária (tese de ’50), para depois arrepender-se de tudo. Qualquer semelhança com os arrependidos ex-comunistas, hoje no PT e à frente da república, não é nenhuma coincidência.

De volta ao nosso contexto, apesar das diferenças cronológicas e ideológicas, o protesto de Pedro Catalo se coaduna em algumas linhas com o incômodo manifestado no texto intitulado “Não deixem abaixar as bandeiras vermelhas” do professor Valério Arcary, que expôs sua opinião acerca do crescente antipartidarismo que tomou conta de algumas manifestações no Brasil. Não vamos repetir as sínteses conjunturais para evitar cansar o leitor, mas cabe dizer que, na crescente onda de mobilizações, os movimentos sociais conseguiram uma vitória ao diminuir, por meio da luta e da ação direta, os preços das passagens em diversas cidades do país. O que no início alimentou esperanças quase virou decepção, com os alarmes de golpe e a infiltração da direita e da extrema direita nos protestos, na tentativa de capturar as pautas dos manifestantes, canalizando as demonstrações de força popular para ideologias reacionárias e ufanistas. Nesse cenário, a mídia corporativa estimulou a divisão entre manifestantes e “baderneiros”, tentando consolidar também a criação de bodes expiatórios, no intuito claro ou mascarado, de associar estritamente a revolta popular a determinadas ideologias políticas, numa manobra clara de criminalizar grande parte dos que lutavam. O auge desta medida foi a invasão da Polícia Civil à sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG).

Escrevemos esse texto alguns dias depois do artigo do prof. Arcary. Portanto, estamos com a “vantagem” dos desdobramentos dos fatos e nosso intuito é realizar um diálogo. Também o fazemos alguns dias após o texto de Zé Maria, em que o dirigente do PSTU pede desculpas formais a duas organizações anarquistas, FARJ e UNIPA, o que compreendemos generalizar as desculpas pelas práticas equivocadas anteriores. Ainda que a justa retratação do dirigente nacional do PSTU contribua, como contribui qualquer autocrítica franca, com nosso respeito, ela não pode esconder nossas diferenças políticas. Mantemos a crítica, mas reforçamos a necessidade tanto do debate sadio entre as esquerdas, assim como a unidade necessária para reforçar o poder popular a partir da avançada de Junho de 2013. Obrigamo-nos a dizer isso, pois as primeiras informações que circulavam no interior do campo ampliado da esquerda, em específico no trotskismo, eram a de que os anarquistas, esses “incorrigíveis” culpados da história, promoviam ativamente o antipartidarismo.

Essa era a informação divulgada amplamente pelo setor de Juventude do PSTU que, num texto catalisador dessa opinião, Henrique Canary dizia que o liberalismo burguês era “a verdadeira filosofia do anarquismo”, comparando o neoliberalismo de Margaret Tatcher ao anarquismo. Este artigo, sofrível do ponto de vista teórico e histórico, e que pode vir a merecer uma resposta adequada num momento breve, reafirmava e insuflava de maneira sectária os militantes do PSTU e de outros partidos de esquerda a difundir a informação de que os anarquistas “cumpriam um papel verdadeiramente vergonhoso” e “tentam proibir, inclusive por meio da força física, que os militantes dos partidos políticos exerçam uma liberdade elementar.”

Sabemos que, nas fileiras do PSTU, assim como das dezenas de agrupações trotskistas, existem militantes devotados a causa da classe e do povo. Mas, também por isso, nos vemos obrigados a afirmar – de forma dura,  mas fraterna – que essa opinião é completamente equivocada, mesmo que venha sendo reproduzida em outras análises (a)históricas do PSTU e (infelizmente) por outros setores marxistas, que enfatizam o inevitável “papel reacionário dos anarquistas” (PSTU, Lutemos juntos contra os governos). Isso, em geral, é feito reproduzindo a teoria cíclica da “crise de direção”, “apoliticismo” e “não-Estado” como sinônimos de capitulacionismo ou outras generalizações absurdas. No campo oposto do trotskismo, esta opinião (apartidarismo do movimento popular sinônimo de antipartidarismo e apoliticismo) coincide curiosamente com a análise do governador petista Tarso Genro que, em sua sanha repressiva contra a FAG, associava o anarquismo a grupos de extrema-direita. Aliás, também é curioso e triste, como o intuito caluniador do ex-dirigente do Partido Revolucionário Comunista (PRC), o atual governador Tarso Genro, infelizmente encontrou certo eco nos artigos escritos por filiados do PSTU. Companheiros, se, de fato, a intenção é a unidade da esquerda classista combativa, definitivamente esses procedimentos são o pior caminho.

Na crítica da crítica (a)histórica e absurda teoricamente, soa ainda mais curioso quando se sabe que o extinto PRC era um racha de linha stalinista do PC do B e que por uma década operara como força política na interna do PT dos anos ’80. Neste mesmo período, o PRC era o grande inimigo da então Convergência Socialista (CS), sigla anterior da ala majoritária que compôs a Frente Revolucionária e, depois, o PSTU, na década de ’90. Tarso e Canary coincidem em classificações de fraqueza teórica e (a)históricas, sendo que o irmão de Adelmo Genro (para vergonha da ala sadia do marxismo brasileiro), abusa dos neologismos, classificando, nos  microfones da mídia comercial, os militantes da FAG de “anarco-direitistas”. Tal absurdo, dito pelo governador – mas ampliado por Canary, pela via da aproximação nossa ao neoliberalismo!, se fosse dito numa instância política seria alvo de piadas. Como vivemos uma era de desinformação e calúnias, torna-se mais um “meme” de fala inócua e irresponsável, para não dizer politicamente criminosa, ao criminalizar uma organização política com 18 anos de existência e vida pública.

Voltando ao texto original, que é, em grande medida, alvo desta crítica, parece que o professor Arcary – por opinião própria ou pela desvantagem dos dias de informação – reiterou alguns dados incorretos em seu artigo. Seria completamente injusto dizer que o prof. Arcary reproduziu ipsis litteris os preconceitos de Canary ou do governador Tarso Genro. Em seu artigo suaviza em alguma medida a generalização e a pobreza teórica do artigo “Anarquismo e socialismo: o individual e o coletivo nas manifestações” do site do PSTU, talvez pelo fato de Arcary ser historiador por ofício e ter acessos a dados mais elementares da história do movimento operário que Canary, seja por incapacidade ou por preconceitos ideológicos, negou (entre eles), o combate histórico e permanente dos anarquistas ao fascismo e ao liberalismo.

O núcleo duro da crítica do PSTU foi então “minimizado” por Arcary, pois já não eram todos os anarquistas, mas “alguns pequenos núcleos de inspiração anarquistas” que insistem “na divisão do movimento querendo impor pela força dos gritos sua ideologia”. Perguntamos sinceramente se participamos dos mesmos atos, pois os gritos de “sem partido” e as agressões, pelo menos no Rio de Janeiro e na imensa maioria dos casos de São Paulo, vieram de pessoas com bandeiras do Brasil. Não cremos ser necessário dizer, que este não é um símbolo anarquista.

Apesar dos indícios elementares de abertura para o diálogo contidos no texto do prof. Arcary, com os quais temos concordância, por ser este o primeiro passo para quebrar os estereótipos políticos, é necessário elucidar para verdade dos fatos todas as informações veiculadas. Primeiramente, concordamos com a opinião da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), que diz repudiar “as agressões aos militantes de esquerda, partidos políticos e movimentos populares” e quaisquer atitudes “fascistóides” venham ela de onde vierem. Subscrevemos também a nota do Movimento Passe Livre de São Paulo, que diz ser “um movimento apartidário, não antipartidário” e repudia “os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial”. O MPL muito oportunamente afirma que “desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos”. Mas não podemos aceitar que informações inverídicas sejam tomadas como “letra da lei”. Parece que até mesmo o PSTU, costumeiramente virulento em seus ataques aos anarquistas, teve de finalmente reconhecer o oposto em seu site. Cabe dizer que tal reconhecimento veio depois de um intenso trabalho dos anarquistas para refutar tais inverdades. Os companheiros devem revisar suas táticas para o bem da unidade na luta. Pois, na democracia operária do trotskismo – ao menos do morenismo – somos culpados até provar o contrário. Tivemos de “provar” o óbvio, que os inimigos não eram os libertários, mas neonazistas e infiltrados da polícia que “investem contra ativistas”.

Infelizmente, os militantes deste partido – ou ao menos, suas lideranças públicas – tiveram práticas de tipo expurgo público. Por isso, a verdade factual pode virar um elemento secundário quando formulam suas análises, pois elas carregam em seu bojo preconceitos teóricos e históricos instituídos. Há também dois discursos, convenientes de acordo com o contexto. Se o professor Arcary, que por sinal também é integrante do PSTU, faz a divisão entre anarquistas “honestos” e os que supostamente atacavam as bandeiras de seu partido (os desonestos), o boletim estadual do PSTU do Rio de Janeiro distribuído na plenária da Frente de Luta contra o Aumento da Passagem no dia 25/06/13 reafirmou a calúnia, desmentida inclusive em seu próprio site, de que foram os anarquistas os responsáveis junto com os fascistas a atacar suas bandeiras. Se no site foram os fascistas, nas plenárias políticas foram os fascistas, os policiais infiltrados junto com grupos anarquistas! Uma nítida tentativa de neutralizar o setor libertário, seja o identificado claramente em organizações políticas anarquistas ou a juventude que não concorda com suas práticas políticas vanguardistas e que não necessariamente se alinham ao recente “ufanismo” estimulado pela direita.

Até os jornais da imprensa burguesa noticiavam o que já era óbvio para os militantes anarquistas, que os ataques aos partidos era parte de uma articulação da extrema-direta. Extrema-direita que, se hoje ataca especificamente os partidos de esquerda, já incomoda os libertários desde os anos 80 e 90, excluindo as experiências históricas anteriores, quando os anarquistas efetivamente construíram com outros setores frentes antifascistas em comum.

Temos, diante deste cenário, de ensaiar passos de crítica e autocrítica. Muito do sentimento antipartido foi fomentado por práticas históricas da esquerda tradicional, e nisso, o trotskismo também tem suas responsabilidades. Vejamos o que viemos afirmando em documentos e comunicados anteriores:

“Limites como a prioridade da esquerda institucional em disputar aparatos sindicais e estudantis em detrimento do fortalecimento das bases. Limites de uma prática aparelhista e instrumental com os movimentos sociais, (…) a falta de inserção social de grande parte da esquerda com os desempregados/as, na favela, na juventude pobre e precarizada”. (FARJ, Breve análise sobre os últimos acontecimentos e as mobilizações sociais no Brasil e propostas socialistas libertárias para a luta).

Tudo isso gerou uma repulsa aos partidos políticos que hoje é canalizada em grande medida pela direita. O anarquismo também tem de ser autocrítico, e a corrente especifista, que longe de representar a totalidade do que “se chama por lugar comum de movimento anarquista” (FAG, Lutar contra a Tarifa até que vença a vontade das ruas!), vem fazendo isto com todos os seus limites. O anarquismo, e agora falamos de maneira muito mais ampla, não pode admitir confusões, neste momento crítico, em torno de sua ideologia política; o classismo, a necessidade da organização política, o trabalho de base e a responsabilidade e disciplina coletiva (Dielo Trouda, Plataforma dos Comunistas Libertários) sempre fizeram parte de sua valorosa história, representada por muitos militantes abnegados em diversas partes do país. Vemos com bons olhos e grande simpatia aqueles que hoje têm como referencial, mesmo que difuso, o setor libertário do socialismo (anarquismo). O anarquismo, assim como marxismo, também tem correntes e debates políticos fundamentais, nem sempre conciliáveis. Se há um setor (francamente minoritário em todo este ascenso de massas e na história do anarquismo, diga-se de passagem) que se reivindica anarquista sob balizas individualistas ou antiorganizacionistas, mesmo mantendo o respeito pelas posições teóricas distintas das que defendemos, consideramos totalmente incorreto afirmar que o anarquismo em sua maioria endosse ou se alinhe a esta posição. Todo indivíduo ou organização que reproduz uma caricatura burguesa sobre o anarquismo presta um desserviço à causa. Não os consideramos “inimigos”, nem “fascistas”, mas companheiros que, em muitos casos, desconhecem completamente os fundamentos teóricos e a prática histórica dos anarquistas.

Devemos também ter generosidade e paciência para com aqueles que hoje chegam e se aproximam de nossas fileiras. A luta é pedagógica e formativa para todos nós. E acima de tudo, devemos tratar as outras correntes políticas com respeito e sem estereótipos previamente (de)formados. Façamos o mesmo com o trotskismo e outras correntes do socialismo. Neste sentido, sem rifar nossos princípios, nós anarquistas estaremos, como sempre estivemos, ao lado das bandeiras vermelhas dos trabalhadores, sejam elas de partidos políticos, movimentos sociais ou entidades de classe. Nossas bandeiras só foram abaixadas pela força da reação e do autoritarismo. Esse foi o caso na Rússia e Ucrânia em 1919/21, quando os anarquistas foram esmagados pelo Exército Vermelho sob comando de Trótsky; da Bulgária, de 20 a 40, onde fomos massacrados pelos fascistas e depois pelos stalinistas (inclusive sendo enviados para campos de concentração); na Coréia, onde fomos esmagados pelos comunistas; no Estados Unidos, onde fomos perseguidos pelo Estado Liberal e capitalista norte-americano (com destaque para o caso Sacco e Vanzetti), na ditadura civil-militar Uruguaia e Argentina, que perseguiu, nas décadas de 60 e 70, as bandeiras negras de operários e anarquistas, para não nos prolongar em variados outros exemplos que exigiram mais espaço.

O que exigimos é respeito e, para isso, um debate franco é o melhor caminho que podemos trilhar. Sem ignorar nossos princípios ideológicos e as experiências históricas relevantes, nas quais cerramos fileiras com outras tradições da esquerda ou fomos traídos, o anarquismo tem um papel importante a cumprir no conjunto mais amplo do socialismo. Continuaremos a trabalhar sem sectarismo para auto-organizar a classe trabalhadora e os/as oprimidos/as, mas exigimos que tratem as bandeiras rubro-negras e o anarquismo como parte do que sempre foram, o setor libertário do socialismo.

* Historiador e professor de História.
** Cientista Político e professor de Relações Internacionais.
*** Editor e pesquisador.

Referências

ARCARY, Valério. Não deixem abaixar as bandeiras vermelhas. Disponível em http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1533 .

CANARY, Henrique. Setor de Juventude do PSTU. Anarquismo e Socialismo: o individual e o coletivo nas mobilizações de massa. Disponível em http://www.pstu.org.br/node/19465.

CATALLO, Pedro. Infâmia Bolchevista. Ação Direta, Rio de Janeiro, 30/11/1946, n0 26, p. 01

DIELO TROUDA, Plataforma dos Comunistas Libertários. Disponível em http://nestormakhno.info/portuguese/platform2/org_plat.htm .

FAG, Lutar contra a tarifa até que vença a vontade das ruas! Disponível em http://pt.scribd.com/doc/134038977/OPINIAO-Luta-transporte-2 .

FAG, O Enredo de uma farsa! A tentativa de criminalização da Federação Anarquista Gaúcha. Disponível em http://batalhadavarzea.blogspot.com.br/2013/06/o-enredo-de-uma-farsa-tentativa-de.html .

FARJ, Breve análise sobre os últimos acontecimentos e as mobilizações sociais no Brasil e propostas socialistas libertárias para a luta. Disponível em http://anarquismorj.wordpress.com/2013/06/25/breve-analise-sobre-os-ultimos-acontecimentos/

PSTU, Lutemos Juntos contra os governos. Disponível em http://www.pstu.org.br/node/19475

PSTU, Sobre as bandeiras do PSTU nas manifestações e os anarquistas. Disponível em http://www.pstu.org.br/node/19514

Artigo publicado originalmente em: http://estrategiaeanalise.com.br//deixemos-todas-as-bandeiras-vermelhas-levantadas…-mas-as-bandeiras-rubro-negras-exigem-respeito,6a5fb099b6a0519ef035f4a7c5f1da9a+01.html

[CABN] Saudação aos companheiros e companheiras da Federação Anarquista Uruguaia

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=1012

“A la FAU de mis amores
que fue forja de mí mismo
honda raíz de anarquismo
de los viejos precursores,
utopistas soñadores
que plasman la realidad
la verdadera verdad
con el pueblo desde abajo,
liberemos el trabajo
que es toda la libertad.”
Carlos Molina

Nós, do Coletivo Anarquista Bandeira Negra, de Santa Catarina, enviamos nossas saudações fraternas para este presente Ato na Coluna Histórica de Cerro-La Teja, às vésperas do 1º de Maio. Duplamente, reconhecemos o valor real da data que está marcada para sempre nas páginas da humanidade e a força que da memória extrai a caminhada de luta dos companheiros e companheiras deste espaço.

Nos dias que antecedem as atividades de propaganda nas ruas, em verdade já estamos anunciando que este dia histórico não passará em branco, junto com outras organizações sociais, formando e informando um 1º de Maio cada vez mais classista e cada vez mais combativo. Para mais além, estaremos levando nesse dia, pela primeira vez, nossa bandeira até uma ocupação de um movimento de luta pela moradia em SC. Apesar de toda tentativa, ano após ano, de criminalizar os movimentos sociais, a mídia burguesa através de seus aparatos da reação, é incapaz de impedir a marcha dos de baixo, dos oprimidos e explorados. Esses guerreiros que não se escondem das lutas populares, evidenciam sua organicidade e sua firmeza.

À Federação Anarquista Uruguaia, nos seus 55 anos de luta e organização, toda nossa solidariedade àqueles que estão na peleia no Cerro e La Teja, e outras periferias da capital oriental que nos fazem crescer e olhar à frente um exemplo a ser seguido, superando as dificuldades de estar inserido dentro deste sistema que apenas fabrica injustiças e misérias.

Estamos tristes por não compartilharmos do mesmo ato presencialmente mas, ao mesmo tempo, contentes por sabermos que em memória e na luta de cada compa, somamos em grau nossa solidariedade. É por este sentimento de mística que nos inspira a continuar trabalhando e elaborar nossa disciplina militante, intransigentes, como afirmamos, cujo objetivo final é a construção do socialismo libertário.

Que os ventos que sopram no Prata limpem nosso caminho por aqui. Desde 1886, os Mártires de Chicago mostraram ao mundo capitalista que as sementes da contestação germinaram e se espalharam por todos os continentes. Cerro-La Teja, ao recordar estes fatos, estará enriquecendo a vontade de luta dos que se aproximam agora e fortalece a memória daqueles que se acham derrotados. Que a FAU não retire a bandeira rubro-negra das ruas! De pé e erguidas pelas memórias dos mártires!

Se escucha! Arriba los que luchan!
Viva la FAU!

Santa Catarina, 26 de abril de 2013.

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