Arquivo da tag: Berta Cáceres

[CAB] Nota pública da Coordenação Anarquista Brasileira: 8 de Março, Dia Internacional da Mulher

“Somos escravas dos escravos. Exploram-nos mais impiedosamente que aos homens.” Lucy Parsons.

Resgate histórico sobre 8 de Março, Dia Internacional da Mulher:

Possuímos uma cultura do esquecimento, de apagamento de nossa memória, somos fruto de uma história que gerações antepassadas construíram. Por isso é de suma importância que nós, enquanto anarquistas feministas organizadas, façamos o resgate e a preservação cultural da história da luta da classe oprimida, das lutas empregadas por grandes mulheres que não se submeteram ao regime patriarcal dominador de sua época.

Datas importantes e que foram históricas na luta de classes, como o 8 de Março e o 1° de Maio, são “comemoradas” sem que haja o conhecimento suas origens. Sabemos que a classe dominante tem sua própria versão da história, versão essa que apaga deliberadamente as lutas sociais contra a dominação e exploração. Ainda mais por isso é que devemos nos apropriar da história de nossa classe, valorizar suas conquistas e aprender com seu movimento.

8 de Março:

O Dia internacional de luta das mulheres tem origem em 8 de Março de 1857. Em um episódio de muita repressão e violência empregadas contra a luta das mulheres operárias do setor têxtil e ao seu movimento grevista. As operárias haviam ocupado a fábrica em que trabalhavam, reivindicando redução da jornada de trabalho, equiparação salarial aos dos homens, que chegavam a receber três vezes mais pelo mesmo tipo de serviço, e mais dignidade no ambiente de trabalho. Na cidade de Nova Iorque, os patrões, em resposta ao movimento, trancaram as operárias e incendiaram a fábrica, carbonizando e matando cerca de 130 tecelãs.

Se vivemos sob a lógica de dominação e exploração, que faz milhares de pessoas viverem submetidas às várias formas de opressões, também podemos ter a certeza de que são as mulheres as que mais sofrem com toda a desigualdade e a injustiça social do capitalismo. Elas já são exploradas enquanto trabalhadoras, o que se intensifica ainda por serem mulheres numa sociedade regida pelo machismo.

Conjuntura política de ataques às mulheres:

E hoje, em uma sociedade em que o ascenso da direita conservadora é inegável, vemos os ataques às de baixo se intensificarem ainda mais. Um dos ataques é o Projeto de Lei 5069/2013 de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que trata sobre a prática do aborto, em que “Tipifica como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto.” Prevê pena de prisão de 4 a 8 anos, para quem auxiliar de forma direta ou indireta a gestante na prática do aborto. E isso se acentua ainda mais em relação ao auxílio e/ou orientação por parte de profissionais, com penas entre 5 a 10 anos de prisão.

Este deve ser um momento de unificação dos setores da classe oprimida para reagir contra os ataques dos de cima. Só com muita organização e força social nós, mulheres, avançaremos em nossas conquistas econômicas e políticas e arrancaremos das forças do capital e do Estado, os direitos que sempre nos foram negados durante a história da luta de classes.

Podemos dizer que o ano de 2015 foi de avanços para a luta das mulheres. Além da 5ª Marcha das Margaridas, em agosto de 2015, que reuniu mulheres indígenas, quilombolas e agricultoras de todo o Brasil, também em Brasília ocorreu a Primeira Marcha da Mulher Negra, que serviu para dar mais visibilidade para quem até então “não aparecia na foto carregando o piano”, como disse Juliana Gonçalves, jornalista e uma das coordenadoras do movimento em São Paulo.

Curdas e Zapatistas:

Em outros dois pontos do globo terrestre, um tanto quanto distantes do Brasil, estão em curso processos muito interessantes de auto-organização e empoderamento feminino, em que podemos nos debruçar e atentar um pouco mais, servindo de referência e inspiração.

Um deles é o processo revolucionário curdo, em que as mulheres, em uma região historicamente dominada e regida por um machismo perverso, que as impedia de mostrar o próprio rosto, vêm protagonizando um papel central na luta contra o Estado Islâmico e o Estado Turco, dois grandes inimigos do povo curdo.

Mais próximo a nós, há as Zapatistas, no México, onde desde 1994 as mulheres indígenas vem chamando a atenção do mundo todo na luta em defesa de seus territórios e de sua cultura. Como se vê na Ley Revolucionária de Mujeres de EZLN, “Noveno: Las mujeres podrán ocupar cargos de dirección en la organización y tener grados militares en las fuerzas armadas revolucionarias.”

Neste 8 de Março, queremos chamar atenção especial para o assassinato de Berta Cáceres. Ela foi coordenadora Geral do Conselho Cívico de Organizações Populares e Honduras Indígena (COPINH). Havia repetidamente manifestado-se contra as ações e intenções de ambas as atuais concessões governamentais de recursos naturais e empresas transnacionais estrangeiras nefastas através da construção de barragens e captura dos recursos dos povos indígenas. Foi assassinada em sua casa, em 03 de março. Por ela, nenhum minuto de silêncio. Todas nossas vidas de luta!

A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) vem a público dizer que faz parte, com todas as mulheres, desta luta contra o sistema capitalista patriarcal e pelo resgate da memória histórica das lutas das mulheres. Chamamos todas as pessoas para a luta em defesa da mulher trabalhadora, da mulher ribeirinha, da mulher indígena, da mulher camponesa, da mulher quilombola, da mulher negra, da mulher LGBT, de todas as mulheres exploradas e oprimidas!!

zapatistas  curdas

VIVA 8 DE MARÇO!!

VIVA BERTA CÁCERES!!

VIVA AS CURDAS E ZAPATISTAS!!

NÃO AO PL 5069/13 !

Mulheres da CAB, 8 de março de 2016

cab

[FAG] Nosso feminismo será classista e de base, ou não será!

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/03/06/nosso-feminismo-sera-classista-e-de-base-ou-nao-sera/

Opinião das mulheres anarquistas da FAG lido na ocasião do Ato Político Anarquista celebrativo ao 8 de março, dia Internacional da mulher trabalhadora.

12745681_1155973071080916_3155340972329807896_nPor ocasião do 8 de Março, data importante para as mulheres de todos os povos do mundo, nós, mulheres da Federação Anarquista Gaúcha, convidamos a todas e todos, no dia de hoje, a se somar nesta modesta, porém convicta opinião de luta contra as mais diversas opressões, especialmente contra as violências que decorrem das ideias machistas e patriarcais. Nossa presente contribuição não pretende ser totalizante nem abarcar toda a diversidade de opressões que sofrem os diferentes grupos dentro do que definimos por “mulher”, porém, uma coisa queremos demarcar: nossa luta e nossa vida se dedica às mulheres do povo, às mulheres oprimidas, pois delas nascemos, delas somos parte e por elas estamos dispostas a viver e morrer. Assim, conscientes de nossa insuficiência, queremos apresentar alguns debates e construções que temos feito na medida em que o protagonismo feminino vem aumentando a cada dia em nossa Organização e em nossas Frentes de Luta.

Sabemos que a situação social e política das mulheres no país é muito dificil, ainda mais para as mulheres pobres e negras das periferias de todo o Brasil. Vivemos momentos de ataques graves à dignidade das mulheres compostos por medidas de leis e questões culturais que reforçam a mentalidade machista de que a mulher é um sujeito social menos respeitável e que sua condição na sociedade ainda é a de ser responsável pelas tarefas domésticas, mão de obra mais barata e um corpo passivel das mais cruéis agressões em nome da “honra” masculina.

Queremos, nas linhas que seguem, trazer alguns apontamentos sobre a condição das mulheres oprimidas, aquelas que são trabalhadoras, desempregadas, negras, indígenas, mulheres do povo. Nesse sentido, esta carta de opinião tem como objetivo fundamental nos impulsionar para uma das mais importantes lutas que precisamos fazer: a luta contra o capitalismo, que tem como elementos estruturantes o Estado, o patriarcado, o racismo e a opressão de classe.

Nossa posição como mulheres anarquistas, que lutamos diariamente contra todas as formas de opressão, vai muito além de um discurso meramente comportamental e ou estético; busca entender que dentro das mais variadas opressões de gênero que existem na sociedade as mulheres de Baixo são mais atingidas pela ação violenta do Estado-patriarcal. Não é por acaso que o maior índice de violências de gênero ocorrem nas periferias e que em termos de acesso a direitos básicos, como educação, saúde, creche, moradia, são as pobres e negras as menos atendidas.

Nossa luta não se resume a demandas por direitos, porém, entendemos essas demandas como uma parte importante de todo um processo de luta, por garantirem, em um primeiro momento, dignidade e autonomia para as oprimidas. No entanto, a luta pela libertação das mulheres é muito maior do que isso. Nesse sentido, é importante pensar desde um ponto de vista que provoque mudanças nas pequenas pequenas coisas, desde a vida diária, no aspecto ideológico-cultural, nas microrrelações, se queremos e nos comprometemos a mudar as coisas de fato. A ideia de que a mulher hoje está em condições de igualdade com o homem continua sendo uma farsa, que mascara toda a violência a que somos submetidas, porque não trabalhamos em condições iguais, não somos educadas a buscar nosso valor; ao contrário, é muito forte o disciplinamento de nossos corpos, por meios institucionais e culturais, para continuarmos sendo as sujeitas-assujeitadas da sociedade, mesmo sendo nós, mulheres, mais da metade da população mundial.

Sobre as politicas contrárias as mulheres e a autonomia de seus corpos

Nos últimos meses, vimos com indignação um fortalecimento de discursos contra as mulheres por parte dos setores fundamentalistas, assim como são ferozmente propostas, dentro dos marcos instituicionais, leis graves que nos atacam vitalmente, além de colaborarem para que o pesamento machista seja mantido e incentivado. Dentro dessas medidas, podemos destacar algumas leis que tramitam e que infelizmente não ganham mais adversários do que nós, as mulheres. São leis como o Estatuto do Nascituro (Projeto de Lei 478/2007), do qual destacamos as atrocidades que o Estatuto propõe: aborto como crime hediondo, em qualquer caso- inclusive em quando apresenta risco de vida para a mulher- bolsa-estupro, entre outros. Por que aprovar uma lei como esta? Para manter o corpo da mulher sob controle, obviamente.

O aborto no Brasil é tratado como um grande tabu e ainda é hegemônica a opinião de que isso é um “crime contra a natureza”, mesmo sabendo que milhares de brasileiras fazem abortos todos os dias. A hipocrisia é a regra do discurso hegemônico, porque sabemos que as que mais morrem por conta de abortos inseguros são mulheres pobres que não encontram outras maneiras, a não ser as mais arriscadas, para fazer este procedimento.

As mulheres das classes médias-altas fazem aborto em clínicas seguras, pagam bem, quando não viajam para outros paises para fazerem em clínicas luxuosas. No entanto o que se coloca nesse debate está para além de um discurso meramente moral: é uma questão de saúde e de garantia de vida para as mulheres pobres! Ou se acredita que é uma decisão fácil fazer um aborto? Para tomar uma decisão como essa, a mulher entende que não pode cuidar de uma vida a mais, por questões econômicas, emocionais, por insegurança, por medo, mas nunca por ousadia ou por esporte. Afinal, se não decidimos sobre nossos corpos, sobre o que mais decidimos mesmo? Mas, com isso, não se pode esquecer que assim como a mulher tem que ter direito para decidir se vai abortar, também deveria ter direito para decidir ter um filho em condições de dignidade, sem  sofrer com a fome, a violencia obstétrica, a violência doméstica dentre tantas outras.

A gravidade do Estatuto do Nascituro está quando afirma que, mesmo que fique grávida do homem que a estuprou, a mulher seja obrigada a ter esta gestação, com “auxílio” de uma “bolsa macabra” de míseros reais por parte do governo…O estupro é um ato de profundo desrespeito à moral e ao corpo da mulher. É uma arma de terror. O estupro é o mecanismo mais vil e covarde que o homem encontra pra provar sua força e poder sobre as mulheres e é terrivel pensar que o RS seja um dos estados que mais tem os maiores índices de estupro no país. O limite entre os assédios de rua até o estupro é muito tênue e é inaceitável as hipócritas justificativas que não justificam nada:  “roupas inadequadas”, “sozinha em espaços públicos”, “se a mulher bebeu é porque quer ser abusada”, “se ela está com raiva é porque falta um pênís”, etc…

No Brasil, 850 mil mulheres abortam por ano e a cada dois dias uma mulher pobre morre por aborto clandestino. De acordo com algumas pesquisas, mais de 8,7 milhões de brasileiras com idade entre 18 e 49 anos já fizeram ao menos um aborto na vida. Destes, 1,1 milhão de abortos foram provocados. No Brasil o aborto tem cor e renda sim. No Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes maior que o de mulheres com superior completo (5%).

O mapa de terror contra as mulheres no Brasil chamado Feminicidio

A violência contras as mulheres é corriqueira e aceita como um costume, já que o homem tem, moralmente, um status social mais importante que a mulher. As agressões contra as mulheres deixam rastros de sangue, medos e traumas desde de sempre, em meninas, jovens e mulheres das mais diferentes idades. Os abusos contra crianças não estão deslocados desta engenharia machista, de domínio em relação ao sexo feminino e à infância. O Brasil é o 5° país no mundo que mais mata mulheres, 3 a cada 5 mulheres declara já ter sido agredida, mais de 50% dos casos acontecem dentro de casa, 70% dos casos de violências cometidos contra mulheres acontecem semanalmente, mais de 70% destes casos é cometido pelo “parceiro” ou “ex parceiro”. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos de mulheres registrados no Brasil – ou seja, aproximadamente 13 homicídios femininos diários. Esses dados indicam que, diariamente, vivemos uma guerra civil contras as mulheres brasileiras.

Racismo e violência: homicídio de negras aumenta 54% em 10 anos

A taxa de assassinatos de mulheres negras no Brasil aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. As mulheres negras são mais de 60% das vítimas de feminicídio, exatamente porque não contam com assistência adequada e estão mais vulneráveis aos abusos das próprias autoridades.Isso só comprova que as mulheres negras entre as demais são as que mais sofrem com a gravidade da violência machista, por conta de uma sociedade com fortes rasgos racistas e preconceituosos.

O problema do racismo na nossa sociedade afeta as mulheres negras das mais variadas formas, porque também o genocídio da juventude negra é sofrimento direto para milhares de mães negras. Não é à  toa que as filas de hospitais e de presídios estão cheias delas, pois seus filhos, irmãos, sobrinhos, enfim, são os mais vulneráveis à violência policial, não importando se estão ou não envolvidos em algum ato ilícito. Só o fato de serem negros, jovens e pobres já os coloca na linha de tiro diariamente.

No mundo do trabalho, são as negras as mais marginalizadas, e também no ensino superior, no acesso à saúde e  à moradia digna. O racismo e o machismo são elementos estruturantes na sociedade brasileira, são elementos de coerção e desigualdades que precisam urgentemente acabar!

O Feminismo vem, ao longo das décadas, tentando englobar todas as mulheres em uma única característica em comum: o gênero. Porém, ao supor que todas passam pelos mesmos problemas e desejam as mesmas coisas, o Feminismo que não enxerga as especificidades de cada grupo feminino acaba atuando sob omissão, muitas vezes deliberada. As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo.

A luta das feministas negras é uma batalha contínua. Isso, por si, levanta a importante reflexão sobre a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com outros indivíduos do seu próprio gênero.

Em 2013, a PEC 66 foi aprovada, transformando em lei a reivindicação de empregadas domésticas, que há décadas lutavam por direitos trabalhistas. Não por acaso, as mulheres negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%). Porém, a realidade ainda permanece distante do desejado. As funcionárias que exigem seus direitos muitas vezes acabam despedidas e, sob ameaças e assédio moral, é difícil efetivar a conquista.

Com relação ao aborto, as mulheres negras também integram a parcela de maiores vítimas da ilegalidade. Por causa das complicações geradas por abortos clandestinos, as mulheres negras morrem em números altíssimos e também estão mais vulneráveis ao indiciamento criminal, caso sobrevivam.

A violência obstétrica também é um marco na vida das mães negras e pobres. Negligenciadas nas filas do SUS, elas são colocadas em segundo plano para que mulheres brancas – consideradas mais frágeis e sensíveis – sejam priorizadas, independente da ordem de chegada.

Resumir pautas e fazer reivindicações genéricas ainda é um vício dos movimentos sociais. Nos posicionamos contrárias à homogeinização das lutas, pois a diversidade e a heterogeneidade de sujeitos das classes oprimidas é capaz de produzir muito mais união e potencial de transformação. Reconhecendo e respeitando as diferenças e características subjetivas das mulheres do povo, é possível contemplar as necessidades urgentes de cada categoria. A diversidade sexual, as variáveis nas identidades de gênero, de trabalho, de moradia, de urbano x rural x floresta, de escolaridade, de raça e etnia, entre outras especificidades que compõe o espectro das classes oprimidas estão se transformando em abordagens prioritárias que exigem conscientização imediata.

O caminho para as conquitas por parte das mulheres de Baixo será com organização de base ou não será

Somos anarquistas especifistas e por isso entendemos a necessidade de estarmos organizadas para poder lutar contra o patrão, Estado e também contras as demais opressões. Sem organização de base, democracia direta e  com trabalho continuo não teremos êxitos nas nossas peleias. Precisamos estar enraizadas no terreno fértil das lutas sociais, semeando organização e rebeldia.

O feminismo, do nosso ponto de vista, tem que abandonar os debates isolados dentro das universidades, dos divisionismos conceituais, que acabam por fazer discurso apenas no aspecto comportamental, sem colocar a questão de classe como um dos elemntos que caminha junto na luta das mulheres. Nós também entendemos que a luta das mulheres tem que estar alinhada a uma estratégia classista, sem colaboração com os governos e ações de Estado. O Estado nunca foi, não é e nunca será aliado das mulheres oprimidas; o Estado-Patriarcal é nosso maior inimigo ideológico, por isso que a luta das mulheres tem que estar fortemente organizada fora das estruturas governamentais e submersa nas diferentes esferas da vida das pessoas, nas suas comunidades, locais de trabalho e estudo, buscando alternativas a curto e longo prazo para a auto-organização das mulheres. Isso implica também em pensarmos a nossa autodefesa, assim como de nossas comunidades que sofrem diariamente pela violência de Estado. Também é importante estarmos unidas para as lutas mais imediatas que são fundamentais para as mulheres do povo, como a questão das creches, acesso à saúde, trabalho, estudo. Isso tudo construído em uma marco estratégico maior, de construção de poder popular, de baixo para cima, que lute pelas mudanças do “hoje e do amanhã”. Convocamos as mulheres oprimidas à sua auto organização, sem abandonar os movimentos mistos, lutando ombro a ombro, com os companheiros que são convictos de que a mudança desta sociedade precisa levar a liberdade da mulher a sério e dentro de um marco programático. Nosso feminismo será classista e de base ou não será!

O exemplo das mulheres de Curdas e os desafios da solidariedade internacional

Uma revolução social está em marcha no Curdistão e coloca no cerne da questão política o protagonismo das mulheres, com o lema “se as mulheres não forem livres, a sociedade também não será” caminha a causa do Confederalismo Democrático. A luta das mulheres Curdas hoje também nos inspira, não só por defender o protagonismo das mulheres, mas por pensar uma revolução social e um novo projeto de sociedade de baixo para cima, construindo, apesar da guerra, uma radical democracia de base e solidariedade entre os povos oprimidos daquela região. Hoje, mais do que nunca, são as mulheres curdas que combatem o pensamento autoritário, assassino e patriarcal do Estado Islâmico e o genocídio que promove o Estado Turco. Porém, mais do que pegar em armas, as companheiras do Curdistão estão armadas de ideias: ideias de liberdade, solidariedade e de transformação radical da sociedade. Mais do que inspiração, são exemplos de que a mudança é possível em meio ao caos do sistema capitalista e patriarcal. Vibramos a cada conquista dos povos em luta no Curdistão, nossa solidariedade é mais do que palavra escrita. Também somos daquelas e daqueles que não confiam nem um pouco em revoluções que adorem o Estado, por isso, as companheiras Curdas, assim como seu povo, tem um lugar especial no coração e na estratégia política das e dos anarquistas.

“É aqui e agora que a construção de um novo homem e uma nova mulher se faz necessário, não só para pensar o futuro, mas para transformar o importante presente de resistência, pois aí sim o futuro diferente será. Com as mais difíceis mudanças, que são aquelas que fazemos dentro de cada uma e de cada um de nós… Esta é a prefiguração dos valores Anarquistas e de uma sociedade livre da qual estamos dispostas a lutar até o fim. Não o nosso fim, mas o fim deste injusto e terrível sistema! Não é só por nós, é por aquelas que já se foram e por todas as que virão e que continuarão a luta depois de nós.”

Em memória de todas as lutadoras, em memória de Berta Cácere, militante indígena de Honduras assassinada por ter coragem de lutar!

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!!!

MULHER, TE ORGANIZA E LUTA!