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[CAZP] Boletim CAZP #JUL 2015

Retirado de: https://cazp.wordpress.com/2015/07/08/boletim-cazp-jul-2015/
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DIREITO A CIDADE E “MUNICIPALISMO LIBERTÁRIO’’

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A cidade que passou ao longo de sua existência a aglutinar o conjunto da população que antes ocupava em maior número o campo, e que buscava uma forma de organização societária de maneira a atender o bem coletivo, foi aos poucos sendo atravessada por uma relação de poder específica, denominada de domínio, que surgiu com a divisão em classes sociais e que implicava que a organização da vida atendia os interesses de uma minoria em detrimento da maioria. Isso permitiu o desenvolvimento do Estado, sendo um instrumento que sempre serviu aos interesses das classes dominantes, disfarçando sua política essencialmente opressora das mais variadas formas.

A construção da vida em sociedade implica em diferentes posições e ideias que serão disputadas por diferentes grupos e indivíduos – as relações de poder. A divergência e a disputa de ideias não é um problema a ser combatido, mas uma realidade do ser humano. Ocorre que em uma sociedade dividida em classes sociais, permeada por relações de domínio (tipo específico de relação de poder), os interesses das classes dominantes prevalecem contra o bem-estar coletivo, ainda que seja em nome deste.

Desde que as relações de domínio passaram a determinar a relação social e a forma de estruturar a cidade em que vivemos como uma das consequências também houve resistência das camadas que sofrem opressão. Mesmo considerando grupos melhor posicionados dentro da escala de acesso à produção material e cultural da humanidade, a maioria não constrói as políticas de gestão da cidade de maneira satisfatória. Quem tem influência decisiva nesse processo é a camada minoritária da sociedade, que confirma seu projeto de dominação com as políticas executadas pelo Estado, gestor das cidades.

Essa resistência, mesmo que não tenha saído do marco da dominação, garantiu alguns direitos dentro da organização da cidade. As necessidades mais imediatas pautaram a luta dos grupos dominados na disputa pela cidade. Se há exclusão da maioria de certos espaços da classe dominante, existem bloqueios de estradas que reivindicam as mais variadas coisas (saneamento básico, lazer, educação etc.), que podem travar toda a cidade.

Essas lutas imediatas constituem a possibilidade de construção de uma força social capaz de reivindicar a cidade para o conjunto de quem mora nela. Cada disputa de espaço na cidade pelos grupos dominados é um caminho trilhado na luta contra o Estado e por uma cidade para os trabalhadores.

No entanto, um desafio que se coloca é fazer o trabalhador – que está imerso no seu dia a dia, tragado pela rotina trabalho-casa-trabalho – pensar criticamente, para que se interrompa esse boom de projetos de exclusão social, que só geram lucros para o empresário.

Quando paramos e procuramos alternativas para ir de encontro aos problemas que todos sofremos no cotidiano, e se fizermos isso de maneira solidária aos outros setores que sofrem dos reverses provocados pela cidade capitalista, podemos ter uma chance de impedir o sucesso da classe dominante. Por mais difícil que seja, temos uma chance. Parar e aceitar é a certeza da derrota. Nós preferimos tentar. Cada derrota no projeto excludente, cada avanço em termos de mobilidade urbana, cada derrota da especulação imobiliária são vitória daqueles que concebem uma nova forma de se construir a cidade.

Não podemos esquecer que nossos espaços de convivência foram forjados numa sociedade profundamente desigual. Para termos êxito definitivo somente se aliarmos a luta do bairro com a luta por uma nova sociedade. Não esperemos uma nova sociedade para lutar pela melhoria de nosso bairro e de nossa cidade, mas não esquecemos que ela só ganha sentido se encararmos como degraus necessários para construção de outro patamar histórico.

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Bookchin e o Municipalismo Libertário

O anarquista norte-americano Murray Bookchin defendia uma nova forma de sociedade baseada na reinvenção da construção dos espaços de convívio, de moradia e de construção de nossa sociabilidade. Chamava de Municipalismo Libertário sua proposta. Trata-se de uma proposta de organização política da cidade baseada na democracia direta em oposição à lógica representativa do Estado que tira da coletividade seu poder de decisão, sempre delegando a uma minoria aliada aos interesses capitalistas ou incapaz de ultrapassar estes interesses.

Na compreensão de Boockin, tornar os sujeitos ativos nas decisões, chamando para si a capacidade de planejar e executar as tarefas do dia a dia da cidade é formar sujeitos críticos que passam a ver que a sua vida depende do bem-estar do coletivo, que suas decisões têm que ir para além do egoísmo individualista para ela mesmo ter sentido. Isso não é possível numa sociedade desigual, por isso o municipalismo libertário concebe o fim das classes sociais e a gestão da cidade pelos seus próprios moradores.

Acreditamos que resgatar essas ideias do municipalismo libertário colabora bastante no atual debate das discussões do direito a cidade e colabora muito na tentativa de se aliar as lutas imediatas a luta por uma nova sociedade. Porém uma crítica ao pensamento de Bookchin é extremamente importante. Para ele a categoria do trabalho está ultrapassada. A luta por uma nova sociedade não passaria pela luta construída pelo local de trabalho, senão apenas pelo local de moradia.

Para nós, anarquistas, o anarquismo sempre esteve junto a organizar os trabalhadores a partir das contradições vivenciadas no local de trabalho. Inclusive foi na militância sindical que os anarquistas tiveram mais expressão social. A desigualdade da sociedade se dá, sobretudo, na distribuição desigual da riqueza material e imaterial produzida pela humanidade. Para reformulá-la de maneira a apontar para uma sociedade sem classe, é necessário mudar a maneira como se trabalha, acabando com a divisão de trabalho manual e trabalho intelectual, e mudando a lógica de como os produtos são produzidos e distribuídos. Isso só se dá no local de trabalho.

O mesmo sentido se dá ao trabalho voltado para a prestação de serviços, como saúde e educação. Para reorganizá-los numa perspectiva igualitária e livre, é preciso reformulá-lo dentro do próprio ambiente de trabalho. Tudo sendo planejado e executado pelo conjunto dos/ das trabalhadores/as. Obviamente que a reorganização desse trabalho deve ser feita em sintonia com as demandas do bairro e da cidade.

Bookchin prossegue, afirmando que a fábrica ao destruir o trabalho artesanal acabou a possibilidade de um trabalho mais positivo, mais próximo das ideias comunitárias. Virou uma padronização dos operários, uma nova fórmula de escravidão.

De fato, o ambiente fabril, estruturado numa sociedade de classes, reproduzirá a desigualdade e é extremamente opressor. No entanto, não podemos desprezar que a seria impossível para sociedade se manter hoje, mesmo em outra perspectiva societária, sem uma produção industrial. Se o capitalismo trouxe a degradação ambiental, desperdício de recursos e exclusão social, a produção fabril nos permite produzir para 7 bilhões de pessoas no mundo. Hoje a distribuição do que é produzido é desigual, mas o fato é que existe produção para todos, mesmo que os produtos não cheguem a atender a necessidade do conjunto, mas apenas de alguns. Não seria possível alcançar essa produção em escala artesanal. Tampouco podemos acreditar, como defende Bookchin, que a tecnologia permitiria livrar a humanidade totalmente do trabalho material.

Para nós, a luta por uma nova sociedade será feita no dia a dia do trabalho e da vida cotidiana. Pensamos uma sociedade federada em locais de moradia e de trabalho. Nisso Bookchin erra e deixa a desejar, não anulando sua belíssima contribuição com a discussão da cidade.

Ficamos nesse ponto com Bakunin, que fala que a humanidade se diferencia dos demais animais pela capacidade do trabalho inteligente e da fala. Somos homens e mulheres porque trabalhamos. Nenhuma mudança social será feita se desprezar esse espaço fundante da humanidade.

A revolução de Rojava e o Municipalismo Libertário

Existe em uma parte do Oriente Médio uma população dispersa entre alguns países: a população curda. Tem seu direito de soberania popular negado há muito tempo. Durante a guerra civil na Síria e o recente avanço do Estado Islâmico, o povo curdo, que já luta por sua liberdade há décadas, se organizou de maneira inusitada na fronteira da Síria com a Turquia, numa região chamada Rojava. Milícias guerreiras da Unidade de Proteção Popular (YPG/YPJ) travaram combates ferrenhos contra a selvageria ignorante do Estado Islâmico e com seus próprios esforços conseguem o que Estados da região tiveram dificuldade de fazer: barraram o avanço do Estado Islâmico na cidade de Kobani.

Momento único na história recente da humanidade, não pela derrota imposta militarmente, mas, principalmente, por como foi feito isso e o que ocorreu depois. É o que queremos destacar. O protagonismo da mulher, nesse processo, tem sido uma força decisiva. Planejando, cuidando da cidade e participando dos combates aos facínoras do Estado Islâmico. Mulheres que sofrem bem mais com o avanço de ideias ultra machistas e totalitárias e que souberam dar a resposta.

Sobre a orientação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) se vive uma nova forma de vida nessa localidade, com todas as dificuldades que uma realidade de guerra impõe. Incríveis semelhanças com Barcelona da Guerra Civil espanhola de 1936. O PKK deu uma guinada na sua orientação teórica ao adotar o Municipalismo Libertário como uma das suas orientações para reconstruir sua vida em sociedade. Tem conquistado a população de Kobani. Organização de assembleia por bairros, controle da própria população sobre suas vidas no que se é chamado de Confederalismo Democrático.

Auto declarados anti-estatistas e anti-capitalistas esse movimento tem uma dura tarefa pela frente: combater um inimigo feroz por um lado e reconstruir uma vida social sobre novos parâmetros. Suas ideias, obviamente, não agradam as fossas hegemônicas do Oriente Médio e nem ao sistema capitalista internacional. Nossa solidariedade às mulheres e homens curdos em luta. Eles mostram que um novo mundo é possível.

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[CAZP] BOLETIM CAZP

Retirado de: https://cazp.wordpress.com/2015/03/10/boletim-cazp/
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ESTADO, PATRIARCADO E OPRESSÕES: O FEMINISMO NA PERSPECTIVA SOCIALISTA LIBERTÁRIA

“O homem mais oprimido pode oprimir um ser, que é a sua mulher. Ela é a proletária do próprio proletário”.
(Flora Tristan, 1803-1844)

Na história do feminismo no mundo, muitos movimentos levantaram várias bandeiras contra a opressão da mulher. Contudo, apesar de muitos avanços, na atual sociedade capitalista ainda é muito vivida (e indispensável) a subordinação das mulheres para a manutenção do sistema, seja socialmente ou no núcleo familiar, uma vez que o exercício de tarefas domésticas e de criação dos filhos é condição primordial para o pleno exercício das atividades laborativas do trabalhador.

Nesse sentido, um feminismo de concepção anarquista coloca a luta contra a opressão feminina num outro patamar, pois compreende que existe uma teia de relações opressivas ao qual a mulher está submetida.  As mulheres trabalhadoras (portanto, a maioria das mulheres no mundo capitalista atual) sofrem dois tipos de opressão: uma transversal a todas as classes sociais como mulheres, e outra transversal a toda classe trabalhadora, portanto desprovida dos meios de produção. Destacamos também a dimensão étnico-racial que põem para as trabalhadoras negras o peso de uma opressão de múltiplas dimensões: econômicas, políticas e ideológicas-culturais.

Os partidos de esquerda frequentemente fazem o necessário “corte de classe” para distinguir as diferenças entre trabalhadoras e burguesas, porém, muitas vezes fazem “vista grossa” no tocante às disparidades entre as trabalhadoras e os trabalhadores. Isso decorre, geralmente, pelo fato da esquerda não trabalhar as questões de solidariedade interclasses e intragênero – consciente ou inconscientemente – que existe dentro do gênero masculino como forma de subordinar a mulher e manter seus privilégios perante esta.

Na perspectiva de enfrentamento ao Estado, percebe-se que este, na medida em que se apropria da ideia de exploração econômica dos trabalhadores, também toma como cerne de sua construção o patriarcado. O patriarcado é uma ideologia que, historicamente, perpassou por inúmeras sociedades já existentes. Trata-se de uma ideologia de múltiplas formas de dominação do homem sobre a mulher, sendo o homem considerado superior à mulher; uma organização social baseada no poder do pai, e a descendência e o parentesco seguem a linha masculina – o pai é a lei. O Estado se apropria dessa concepção na medida em que também determina e regula a vida em sociedade: o “Pai/ Deus” criador das leis que o permite usar da violência para manutenção da ordem vigente – tal ordem deve ser inquestionável e inquebrantável.

Desse modo, em sua lógica de dominação, a relação entre Estado e patriarcado, nos leva à perspectiva de que não podemos separar a luta contra a opressão de gênero da luta classista e a recíproca torna-se verdadeira quando compreendemos que a luta contra o Estado e o capital não pode ser desvencilhada da luta contra o patriarcado.

Há ainda uma tradição forte na esquerda em colocar o debate feminista, assim como os que envolvem relações étnico-raciais e sexualidade, como algo de menor importância, algo “a ser discutido depois” ou uma questão que é incorporada de maneira oportunista. É preciso avançar para uma concepção e prática que identifique e articule estruturalmente a luta feminista em conjunto com a luta contra o capitalismo e o Estado. O socialismo não é sexista e heteronormativo, ele deve ser integralmente libertário.

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QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL.

Casey Williams

Como uma anarquista radical, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos de sua vida a lutar pela classe trabalhadora norte-americana e pobre.1 Uma oradora habilidosa e escritora apaixonada, Parsons desempenhou um papel importante na história do radicalismo norte-americano, especialmente no movimento operário da década de 1880, e permaneceu uma força ativa até sua morte em 1942. A única pergunta da qual ela nunca se desviou foi “como levantar a humanidade da pobreza e desespero?”.2 Com essa questão impulsionando o trabalho de sua vida, Parsons foi ativa em uma infinidade de organizações radicais, incluindo o Socialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista), a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras) e a Industrial Workers of the World(Trabalhadores Industriais do Mundo). Paralelamente com seu longo envolvimento no movimento trabalhista norte-americano, estava sua solida visão de uma sociedade anarquista, filosofia que era a base de sua crítica às instituições econômicas e políticas opressivas dos Estados Unidos da América.

Sua oposição ao capitalismo e ao autoritarismo estatal foi solidificada em 1887, quando seu marido, Albert Parsons, foi executado injustamente.3 Após a bomba e as execuções de 1886, na manifestação de Haymarket, Parsons dedicou os próximos cinquenta anos de sua vida aos desempregados e à classe trabalhadora norte-americana. De fato, o poder do caso Haymarket na formação da vida adulta de Parsons não pode ser subestimado. Os acontecimentos de 1886 e 1887 fixam uma animosidade inflexível entre Parsons e o Departamento de Polícia de Chicago. Durante a vida de Parsons, a polícia a perseguiu, suprimindo sistematicamente seu direito à liberdade de expressão, prendendo-a várias vezes sem justificação. Ao longo da vida, Parsons se esforçou ativamente para construir uma identidade de classe comum entre todos os trabalhadores norte-americanos.69Muito antes do episódio da bomba de Haymarket, Parsons pediu às “massas para aprender que” os seus interesses estariam sempre em oposição à classe dominante.

O legado de Parsons também foi transformado em história de uma heroína feminista. Especialmente nas arenas de memória pública, Parsons é rotineiramente chamada de feminista. Ao longo de sua vida, ela abordou muitas questões que as mulheres enfrentam. Ela se enfureceu contra as práticas corrosivas que pressionavam as mulheres para absorver empregos domésticos e incentivou as mulheres a abraçar o controle da natalidade. Como uma mãe trabalhadora, Parsons acreditava que falava em nome de todas as mulheres que trabalhavam quando participou da fundação do IWW. No entanto, seus esforços em nome das mulheres sempre fizeram parte de sua dedicação à luta de classes. Seu interesse pela libertação feminina manteve-se focado em questões que lhe foram mais diretamente ligadas ao trabalho e ao capitalismo.

A história Lucy Parsons é mais ampla e mais complexa do que sua condensação em uma biografia ou do que um pequeno livro de fontes documentais pode capturar. Estudos sobre Parsons e o radicalismo em geral, não podem ser considerados finais – como ela mesma salientou:

“Nada é considerado tão verdadeiro ou tão certo, que as descobertas futuras não possam prová-lo falso”.

Tradução: Rusga Libertária

Adaptação: CAZP

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