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[CAB] Entre a farsa do pacto social e a tragédia golpista: só a luta de classes decide!

Entre a farsa do pacto social e a tragédia golpista: só a luta de classes decide!

20 de março de 2016

Manifestamos aqui nossa posição, das e dos anarquistas da CAB, diante do agravamento no cenário de disputa feroz entre os setores dominantes pela direção do poder político nacional.

Os expedientes usados pelo juiz Sergio Moro, a Polícia Federal e o MPF, combinado com o espetáculo orquestrado pelos oligopólios da comunicação, em especial a rede Globo, desde a condução coercitiva de Lula até os grampos vazados em paralelo a sua nomeação como ministro, são descritivos de uma luta cada vez mais agressiva pela máquina do Estado.

A direita opositora ao governo do PT se vale da judicialização da política e de toda produção do discurso seletivo e criminalizador da mídia para atuar numa “zona de fronteira” dos marcos constitucionais do direito democrático burguês. Em meio a esse cenário, têm sido comuns entusiasmadas manifestações oportunistas de setores da esquerda anti-governista com pretensões eleitorais em torno da judicialização da política. Ao contrário do que sugere estas manifestações, a judicialização da política não guia para a esquerda, muito menos para uma “revolução política”. Sugerir isso demonstra o retrocesso de expectativas e horizonte estratégico e um esvaziamento de significado que faz do que se entende historicamente por “revolução”, uma infantil bravata para ser agitada de forma torpe nas redes sociais. O oportunismo que hoje abraça esse espetáculo abre caminho para a capitulação de amanhã. Trágicos exemplos que seguiram essa via não nos faltam.

Antes de mais nada, a judicialização da política joga efeitos ideológicos que repercutem em ideias e noções conservadoras de uma salvação nacional pelas mãos do poder judiciário, da polícia ou das forças armadas. Tanto ceticismo, indiferença, a ascensão de discursos de ódio e ressentimento com a política amesquinhada pelos partidos da democracia burguesa são o caldo de cultura de um pensamento fantasioso. Uma noção de política que dispensa a participação popular e governa pelas técnicas do controle e da ordem. Pode dar asas para a imaginação autoritária de onde nascem as criaturas mais infames da política.

É pela via desses artifícios que um golpe branco está em curso. Mas, digamos em linhas muito francas para evitar equívocos: este é um tipo de golpe orquestrado por setores da direita no congresso, no judiciário, na mídia, nas organizações patronais que tomam coragem em cima da situação ridícula e patética em que caíram o PT, as autoridades do governo e as burocracias dos movimentos populares que fazem parte de seu arco de sustentação. Um PT atirado na vala comum da política burguesa é o álibi perfeito de uma ofensiva que vem para castigar os direitos e liquidar recursos e serviços públicos.

O sistema de dominação capitalista não leva a Constituição debaixo do braço para atuar. Quando tem oportunidade, ele torce a legalidade, rasga o estado de direito, mexe nas regras do jogo pela força e impõe seu poder de fato. Quando a esquerda tentou fazer reformismo apoiada nessa estrutura legal, foi, primeiramente, empurrada ao recuo organizativo e ideológico para em seguida ser severamente reprimida. A história tem vários episódios que contam isso.

Mas esse não é o caso do PT. O Partido dos Trabalhadores, parafraseando Lula, foi acovardando seu reformismo desde os anos 80 até chegar ao governo pela eleição de 2002 com um programa negociado com as estruturas do poder dominante. Foi um eficiente e deslumbrado gestor de turno do capitalismo brasileiro, associado com patrões, banqueiros e ruralistas, amigado com uma oligarquia nojenta. O PT atraiu um setor da direita para um pacto de classes com prazo de validade e o pior é que se convenceu e segue convencido que pode ser parte confiável do sistema das classes dominantes.

O fracasso da colaboração de classes que sonhou o PT e seus governos arrastou junto o movimento sindical e popular, tirou a independência de classe na luta da classe trabalhadora, dividiu e burocratizou as organizações de resistência. Fez toda uma cultura política que produziu um sujeito domesticado pelo poder, que pôs freios e cabrestos na luta de classes.

Se esse projeto sempre rezou a cartilha das regras do jogo institucional do Estado burguês, no campo popular nunca dispensou a possibilidade de pisotear os mais elementares princípios de democracia de base. Fraudes em eleições e assembleias de organizações sindicais e estudantis, manobras, agressões e perseguições a correntes e militantes dissidentes foram se afirmando como o script por excelência na base dos maiores movimentos que dão sustentação ao projeto “democrático-popular”. Nesse sentido, é sintomático notar que as burocracias dos movimentos populares a reboque são muito mais enérgicas e combativas para defender o governo de turno do que para defender a classe, constantemente aviltada por esse mesmo governo e também pelos rebaixados acordos assinados por seus sindicatos com as patronais que hoje convocam a liquidação de ambos.

Por outro lado, ativou na sociedade um recalque furioso pelo que não foi, que desperta ódios e abre espaço para emergência nas ruas de setores fascistizantes de extrema-direita, que, animados por esse mesmo recalque, buscam hoje um linchamento público de tudo aquilo que cheire esquerda, fazendo-se valer da vidraça do PT.

Quem quer assumir o governo agora e pisa por cima da carniça do PT são partidos de oposição ressentidos por ficarem de fora do controle dessa estrutura de privilégios, mas que nunca ficaram de fora do rateio dos recursos públicos e da farra com os patrões sobre o orçamento e o patrimônio público. Mas também está o mercado com o sistema financeiro e os industriais que ganharam toda sorte de juros, benefícios e privilégios durante os melhores dias da narrativa do crescimento econômico. Os agiotas, sonegadores, genocidas do povo indígena e negro, que fazem de conta que estão de fora do esquema. Eles cospem no prato que comem, engordaram com o PT e agora querem fazer da sua queda o palco de imposição do ajuste no grau máximo. Um ajuste que busca rasgar de vez os direitos trabalhistas, fazer a cama para os vampiros das patronais que pretendem precarizar ainda mais as condições de trabalho, impor o PL das terceirizações, a reforma da previdência, manter as falências fraudulentas, atirando os trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho no olho da rua como se fossem dejetos, demitindo em massa para recontratar em condições cada vez mais precárias.

Esse é o golpe que está em processo. Que se vale do PT sócio da corrupção com as empreiteiras, avalizador do ajuste, de entrega do pré-sal, autor da lei antiterrorismo, das UPPs, da paralização da reforma agrária e da violência contra os povos indígenas e quilombolas. Que o toma como patético refém e o execra publicamente para fazer o ajuste cortar ainda mais fundo e sangrar sem limites as classes oprimidas.

O curto prazo promete um concerto por cima. Seja como for, vem um governo de coalizão agressivo contra os trabalhadores e o povo. Independente do desfecho deste trágico espetáculo, o que veremos serão coxinhas e jararacas, cada qual a sua forma, buscando fazer valer o ajuste, ainda que com graus de variações distintos. A punhalada está vindo de frente pela direita ideológica, mas também pelas costas, aplicada por um governo e partido que não deixa de se valer de um discurso emotivo e irracional, que convoca mitologias e fetiches em torno de um passado de luta como forma de criar uma cortina de fumaça ao seu ajuste e ao seu claro projeto político de centro-direita.

A eterna espera pela “guinada à esquerda” nesses dias se manifesta na defesa intransigente de um Lula ministro que não esconde que chega para tentar salvar a aliança com o PMDB e o restante da base aliada, leiloando o que pode, com os joelhos dobrados cada vez mais à direita. Enquanto a cortina de fumaça midiática agita uma polarização de “torcidas”, as mãos se fecham em acordos pelo avanço da privatização das empresas estatais e adequamento do aparato repressivo para a maior criminalização do povo que luta.

Somos contra este golpe, porque ele implica um corte mais profundo na carne das classes oprimidas e abre caminho para uma correlação de forças ainda mais desfavorável para os de baixo. Mas não admitimos negociar nenhum direito para servir como moeda de troca deste governo moribundo que cavou sua própria cova ao trair as expectativas dos/as trabalhadores/as e ao sancionar a lei antiterrorista em plena crise política. Vamos lutar realmente contra esta tentativa de golpe, sem aderir ao reboquismo e ao mesmo tempo sem perdoar a pelegada, ao fortalecer uma posição à esquerda, de combate e a partir da concepção de que só podemos contar com nós mesmos e com o povo em luta organizado construindo seu próprio caminho, contra todo e qualquer golpe historicamente aplicados pelas/os de cima contra as/os de baixo.

Nosso lugar nessa dramática e decisiva disputa é fazer valer a independência de classe como a real alternativa às classes oprimidas. Uma alternativa de classe que no curto prazo, marcado pelo trágico desmantelamento organizativo do tecido social, se traduz na mais resoluta solidariedade de classe. Dar disputa ideológica em defesa das lutas que surgem desde baixo e aportar toda solidariedade possível; buscar estender e massificar as greves, ocupações, atos contra as medidas de austeridade e a carestia para, a partir daí, se acumular forças reais para radicalizar a independência de classe, colocando-a como efetivo embrião de poder popular, de um forte e solidário punho a se estender dos oprimidos em todos os rincões do país e golpear de forma altiva e destemida os patrões, governos e também o peleguismo e a traição de classe.

A organizar os diversos setores que compõem a classe trabalhadora, construindo movimentos sociais e fortalecendo seu protagonismo popular, pautando sua autonomia e combatividade! Apenas o avanço do poder popular será capaz de tanto dar resposta ao avanço da onda conservadora que toma o país, quanto resistir aos retrocessos impostos pelo governo.

Uma só classe, uma só luta!

Derrotar a direita golpista e avançar na luta contra o pacto de classes!

Pelo socialismo e pela liberdade!!!

cab

COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA – CAB

[FARJ] Libera #166

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2015/12/19/libera-166/

O ano acabou? Para a luta e o anarquismo não! Saiu o último número do ano do nosso jornal, o Libera, de número 166. Firme e forte na divulgação de um programa anarquista para as lutas e na propaganda da nossa ideologia nas luta de classes! Nesta edição, o editorial traz uma análise sobre o  “Avanço conservador e o papel do Estado”. Também há um relato e análise do congresso nacional do MPA e a necessidade de construir uma intervenção independente e autônoma nos movimentos camponeses. Temos também um texto teórico sobre a contribuição de Bakunin ao debate da organização política anarquista. do militante anarquista e um relato sobre a luta de base nos Correios.  O Libera também conta com o famoso Bar-Restaurante Lixo da História que ganhou dois novos integrantes e relatos de atividades que nossa organização se envolveu.

Recomendamos também que leiam a análise da CAB, lançada após a impressão do Libera sobre a polarização governismo x impeachment em seu site.

Você pode conseguir o Libera fisicamente com nossos militantes e apoiadores e na Biblioteca Social Fábio Luz. Caso deseje receber um número grande para distribuir, entre em contato conosco.
O Libera #166 pode ser baixado clicando na figura abaixo ou aqui.

Errata: Onde se lê no editorial na página 2 “Mas ele nuca (sic) foi” ler “Mas ele não é”.

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[CAB] Declaração do III Encontro Regional Sul da Coordenação Anarquista Brasileira – 2015

Nos dias 4 e 5 de julho, reunimos em Curitiba delegações do Coletivo Anarquista Luta de Classe (Paraná), Coletivo Anarquista Bandeira Negra (Santa Catarina) e Federação Anarquista Gaúcha (Rio Grande do Sul) para tratar da conjuntura atual, a coordenação de nossas frentes de atuação sindical, estudantil e comunitária, e também as campanhas da CAB para o próximo período.

Conforme indicado na análise do último jornal Socialismo Libertário, o momento é de crescente retirada de direitos sociais, com ajuste fiscal e aumento do custo de vida para os de baixo, que vem junto ao projeto de expandir as terceirizações que implicam mais precarização e insegurança à classe trabalhadora. O neodesenvolvimentismo do PT chegou a um limite e as tímidas políticas sociais dão lugar a novas políticas de desmonte e corte de verbas nos serviços públicos. Pautas conservadoras ganham força no debate nacional, acarretando em mais criminalização da pobreza e também fomentando o preconceito racial, de classe e a desigualdade de gênero, como são o caso da proposta de redução da maioridade penal e as terceirizações.

Neste contexto, é fundamental resgatar princípios e práticas que são patrimônio da esquerda e muito caros para nossa corrente libertária, como as formas combativas de luta através de greves, piquetes e ação direta, sempre com o protagonismo e mobilização das bases. Apesar da conjuntura de ataques, há importantes lutas de resistência em curso, que precisam de força e apoio. O momento exige a superação das direções pelegas e burocratas que tomam sindicatos e movimentos propondo soluções de gabinete e o fortalecimento de suas candidaturas ao invés da ação direta popular. Resgatar as práticas e princípios de luta da esquerda é também romper com o afastamento da política, vista como mercado de negócios e cartas marcadas que abrem espaço para o conservadorismo.

É momento de seguir com a organização e mobilização em nossos locais de trabalho, estudo e moradia, acumulando forças e fomentando a luta e a solidariedade no seio de nossa classe, além de promover o intercâmbio de experiências e acúmulos de nossas frentes de trabalho. O anarquismo especifista no sul do Brasil, através da Coordenação Anarquista Brasileira, não exige nem mais nem menos que seu posto na luta, sempre junto aos setores oprimidos, construindo um povo forte.

Não tá morto quem peleia!

Lutar, Criar Poder Popular!

cab

[CAB] Jornal Socialismo Libertário #30 – Julho/2015

Retirado de: https://anarquismo.noblogs.org/?p=242

soli jornal

RETOMAR OS VALORES E AS LUTAS DA CLASSE TRABALHADORA

O primeiro semestre de 2015 segue com as nefastas políticas do governo PT/PMDB garantindo o máximo lucro para o capital empresarial e financeiro (nacional e internacional), e com o ataque aos direitos do povo. Está claro que mulheres, negros, indígenas, pobres e camponeses estão excluídos destas políticas, tocadas pelo executivo junto a um congresso conservador e reacionário e um ministério que busca implementar as políticas de austeridade do sistema financeiro, do agronegócio e da precarização da classe trabalhadora, não restando mais nada do projeto petista de conciliação de classes.

Tudo isso reforça que não há, e nunca houve, possibilidade de disputa deste governo. Ou que o problema seja de “crise de direção” ou que o governo esteja politicamente em uma situação de “refém” para garantir a governabilidade. Pelo contrário, o PT tomou a decisão política de governar de tal forma, fazendo o povo sangrar e evidenciando mais uma vez que o mecanismo representativo não constrói poder popular nem transformação social.

Os recentes acordos bilaterais firmados com os Estados Unidos indicam mais uma guinada à direita do governo Dilma. Acreditando na necessidade destas políticas, o governo vem aplicando um receituário marcadamente neoliberal frente a uma conjuntura internacional que não possibilita mais as mesmas condições anteriores que alavancaram as políticas neodesenvolvimentistas nesses 12 anos de PT no governo. E as últimas quedas vertiginosas da bolsa da China, que chegaram até 30%, podem causar impactos na economia brasileira e selam o esgotamento da política neodesenvolvimentista.

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CORTAM NA CARNE DOS TRABALHADORES. QUEREM PRENDER OS JOVENS NEGROS E POBRES QUE NÃO SE AJUSTAM.

O governo segue a receita da austeridade. Já sofremos nos estados e municípios com as políticas de ajuste fiscal e graves cortes sociais, como na saúde e na educação. Fazendo o povo pagar uma conta cara para o lucro dos investidores internacionais. Dentro desse pacote, a ampliação das terceirizações (PL 4330) e o ataque a direitos como o seguro-desemprego e a aposentadoria (MPs 664 e 665) fazem a classe trabalhadora virar carne barata no capitalismo de mercado. O Programa de Proteção ao Emprego criado pelo governo Dilma em medida provisória é um plano de socorro aos patrões que autoriza redução salarial de até 30%. É um retrocesso brutal feito com a chancela das burocracias da CUT e da Força Sindical. O acordo coletivo específico entre empresa e trabalhador, previsto na MP, abre precedente pra flexibilização dos direitos trabalhistas. Para as mulheres a situação é ainda pior. Em nossa sociedade patriarcal e opressora a terceirização e a precarização no mundo do trabalho sempre foram uma realidade, com salários mais baixos e desigualdade de direitos em relação aos homens.

Em paralelo avançam uma série de iniciativas conservadoras e de ataque aos direitos humanos, como a redução da maioridade penal e a tentativa de excluir a temática de gênero do debate educacional. Os setores da direita do governo em conjunto com a oposição de direita tentam avançar as pautas conservadoras que aprofundam a criminalização e o extermínio dos/as pobres e fazem retroceder avanços importantes na luta contra as opressões de gênero e sexualidade. Os Povos indígenas também sofrem com a perda de seus territórios e o campesinato com a estagnação da reforma agrária e a falta de ações que garantam sua vida e permanência no campo. Com as pressões de bancadas como a ruralista, evangélica e da bala, estas pautas vem se materializando, contando com a ajuda da mídia burguesa que faz terrorismo e trabalha para naturalizar determinados valores conservadores na população.

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DE DENTRO E DE FORA DO GOVERNO A DIREITA LATE E MORDE O OSSO

Enquanto o governo Dilma evolui para a direita, os setores burgueses que não vestem a farda do governismo se alinham com as posições mais extremas e conservadoras para se distinguirem na turbulência da cena política. O conservadorismo ganha inserção e cresce na base da sociedade. O PT está jogado na vala comum da política burguesa, sujo até o pescoço na corrupção dos políticos e patrões, encurralado entre a barganha das oligarquias e o fogo oportunista da direita opositora. As hipóteses de cassação de mandato ou impeachment voltam a ameaçar e para todos os efeitos provocam a sangria da presidenta até as eleições de 2018. A crise do governismo faz palco de uma luta feroz de setores das classes dominantes e das elites dirigentes. Briga de cachorro grande para ver com quem fica com o osso e com quem se reparte o farelo.

A reforma política dirigida por Eduardo Cunha no congresso é um projeto em causa própria para lavar a cara dos políticos e patrões, parasitas dos recursos e bens públicos. Estão fora de pauta os mecanismos de participação e democracia direta dos de baixo. Outro elemento a se levar em consideração são as diversas iniciativas em curso de construção de frentes, campanhas e mobilizações por parte da esquerda. Em nenhum dos casos parece estar em jogo um processo que possibilite o acúmulo organizativo e ideológico das classes oprimidas para mudar a correlação de forças no país. A experiência tem mostrado que tais “frentes” tem sido movidas mais em um sentido pragmático eleitoral do que de mobilização popular concreta. Valores e práticas históricas da classe trabalhadora, como a greve geral e o piquete não devem ter seu sentido esvaziado como mero slogan ou visando a autopromoção política. Eles são fruto de mobilização social e sintomas de quando os trabalhadores sentem que tem força e que é preciso fazer ações para contrapor a opressão dos patrões e poderosos.

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PARA OS OPRIMIDOS A SAÍDA NÃO VEM DE CIMA. NUNCA VEIO.

Duros ataques nos direitos e condições de vida também produzem resistência, como foram as greves dos trabalhadores do setor público, estudantes e professores estaduais e federais do Paraná, duramente reprimidas pelo governo. Como as recentes greves nas mais de trinta instituições de ensino federais. E é essencial que as ações populares e mobilizações sejam dotadas de métodos que estimulem o protagonismo da base e sejam fruto da luta cotidiana. Ação direta, federalismo, autogestão e greve geral são valores históricos da classe trabalhadora e devem ter seu sentido ideológico retomado e reafirmado. É essencial que os organismos sociais como movimentos populares e sindicatos tenham autonomia política e tenham seus rumos decididos por suas bases, livres de práticas verticalizadas e burocratizantes.

Pela unidade de classe e mobilização do povo contra os ataques conservadores e dos poderosos! Punho fechado contra a redução da maioridade penal e contra a criminalização da pobreza! Repudiamos as atuais políticas de terceirização, flexibilização e precarização do trabalho! A greve é um direito e, assim como as manifestações e os protestos, não devem ser reprimidos nem criminalizados pelo Estado e pela mídia burguesa! Todo apoio às lutas e à articulação entre o povo do campo e da cidade. Contra as políticas de exclusão dos pobres das cidades e pelo acesso a um transporte digno, eficiente e sem catracas! Todo apoio às lutas da juventude, mulheres, negros, LGBTT e resistência contra todas as formas de opressão!

nem reducao nem terceirizacao

LUTAR, CRIAR PODER POPULAR!

soli jornalfim

Eleições Municipais 2012: O consenso conservador em Curitiba

Balanço das eleições em Curitiba CALC (Coletivo Anarquista Luta de Classe):

O consenso conservador em Curitiba

Curitiba hoje é a 17° cidade mais desigual do mundo e a 5° do país. Comparada as cidades da Europa e famosa por ser a “cidade modelo”, ela esconde por trás deste slogan todas as mazelas dos grandes centros urbanos: violência em altos níveis, falta de serviços básicos ou acesso precário a eles, além da especulação imobiliária (quase 10% dos imóveis da cidade estão vazios) que afeta as condições de vida e moradia de milhares de curitibanos.

Entre os candidatos do primeiro turno temos velhos conhecidos vindos das elites locais. Luciano Ducci, herdeiro político de Beto Richa (filho de proeminente político da região), do mesmo grupo que há algumas décadas vem administrando a cidade, afinadíssimo com os interesses do capital. Como “oposição” temos Gustavo Fruet (até bem pouco tempo do PSDB de Richa), filho de outro político da região da época da reabertura, agora no PDT, com uma suspeita aliança de ocasião com o PT. Temos para reforçar o time das “figurinhas carimbadas” Rafael Greca, prefeito na “era de ouro” de Curitiba, quando a cidade era “exemplo” de urbanismo (leia-se urbanismo e exclusão social) onde foi sucessor e continuador dos projetos de Lerner e “sua turma” (grupo do qual hoje Richa e Ducci são os “continuadores” oficiais), grupo que vem dando as cartas na cidade há algum tempo e que fez da Curitiba a “cidade modelo”, hoje em uma suspeita oposição.

Dos quatro candidatos com maior número de votos, três eram, foram, ou são (fica difícil saber até que ponto romperam um dia…) do grupo que domina a política local e que governa há anos para as classes dominantes, todos ou são provenientes das elites, ou mantém estreitos laços com elas. Por “fora” a “verdadeira alternativa” (ao menos com chance real de vencer as eleições), temos Ratinho Jr., o mais votado no primeiro turno. Se não é vinculado às elites locais e de família já tradicional na política, é filho de um grande comunicador, latifundiário, dono de empresas de telecomunicações, e outros tantos negócios. Com toda certeza este ultimo também não é um candidato que vem das camadas populares, mas sim é mandatário das classes dominantes tanto como os outros, apenas busca “disfarçar-se” por trás da “popular” personalidade de seu pai, Ratinho pai. Esse candidato busca confundir seus eleitores reivindicando-se de uma família de trabalhadores (afinal seu pai é mais um dos exemplos daqueles que “venceram” na vida e que se construíram com “seu” trabalho, como se fosse possível enriquecer com seu próprio trabalho).             Olhando para os possíveis prefeitos da cidade, não se tinha chance nenhuma de a burguesia perder o poder político da cidade (nem poderia ser diferente), entre os quatro possíveis para chegar ao segundo turno (é certo que Greca sempre esteve bem pouco cotado), três vem do grupo que há anos controla a cidade. Longe de ser surpreendente, isso somente afirma que as eleições são uma teatralização da escolha e da democracia, sequer passando perto de alterar os grupos de poder e o status quo, mostrando que nada ou muito pouco pode mudar para os de “baixo” através delas. Não são mais que disputas personalistas do aparato do Estado, de busca por um lugar privilegiado e cativo em meio às classes dominantes.

No espectro das diferenças entre estes candidatos, programaticamente percebemos que são pouco perceptíveis. Há muito o PSDB de Curitiba aprendeu com o PT como adentrar os movimentos populares e colocá-los dentro do Estado. Sua política em Curitiba abarcou certos elementos propostos pelos gestores petistas no que tange a participação. Na gestão de Richa foram pouco mais de 200 audiências públicas, na de Ducci (2 anos apenas) foram mais nove. Isto coloca o PT(agora aliado ao PDT) em difícil situação, já que alguns dos bairros onde tinha vinculação histórica são cooptados. E mais, o PSDB aporta essa proposta mostrando claramente que não tem nenhum problema (e é até mesmo conveniente, pois promove a conciliação de classe) para a burguesia em colocar a classe trabalhadora para ajudar a gerir suas mazelas junto ao Estado, que esta política participativa pode ser bancada pelos partidos burgueses stricto senso, assim de certa forma roubando a originalidade do projeto petista de gestão, cabe citar que Ducci chega a aportar até mesmo a economia solidaria e o cooperativismo . Fruet em sua campanha não conseguem ir além de propostas em torno da transparência (mesmo nas privatizações) e ética, negando bandeiras históricas dos trabalhadores/as como as não privatizações.  Talvez algumas singelas diferenças que vemos entre as candidaturas de PDT/PT e PSB/PPS (com massivo apoio de PSDB) estão no que tange um discurso privatizante mais explicito de Ducci que se mostra um apologeta da entrada do privado nos serviços públicos via “concessões”, gerindo de maneira neoliberal. Fruet ainda se diferencia de uma linha extremamente conservadora (ao menos no discurso) no debate da segurança pública, pois Ducci trata a criminalidade simplesmente como “caso de policia”, sua política é inequívoca nesse sentido vide a implementação das UPSs(Unidade Paraná Seguro, claramente inspiradas nas UPPs do RJ). O candidato do PDT encara a problemática tratando-a como de ordem social a relacionado a desigualdade social e a concentração de renda.

Já Ratinho Jr. sequer apresenta um programa, sua politica é baseada meramente no marketing político. Observamos um conservadorismo extremo quando aborda as problemáticas das drogas e criminalidade “evocando” as autoridades religiosas para o auxiliarem na moralização da cidade. Manifestou-se também, publicamente, contra o casamento entre homossexuais, o que gerou uma certa comoção do público LGBT no intento de deslegitimá-lo e boicotar sua candidatura. Em suas propostas formalizadas articula demandas das classes mais populares, ao mesmo tempo que carrega o velho conservadorismo e as “parcerias” com o setor privado, elencando a necessidade de estabelecer mais vínculos entre prefeitura e FIEP.

Greca traz a campanha mais agressiva, enfatizando os problemas gerados pelo sobrecarregamento do sistema público de serviços de Curitiba e recordando com “saudosismo” a “maravilha” que eram os serviços em seus gloriosos tempos de “Curitiba modelo”, omitindo que os problemas que a população de Curitiba enfrenta são decorrentes do modelo de cidade que ele mesmo ajudou a consolidar, afinal Richa e Ducci são seus sucessores

Naqueles que disputaram “para valer” o primeiro turno encontramos um mesmo consenso conservador, seja no que se refere a uma “idílica” história de Curitiba que deve ser retomada, um projeto que deve “retomar os trilhos” para que voltemos a ser a cidade “modelo”, que avancemos de cidade “ecológica” para “sustentável”, ou no “manter as conquistas de Curitiba”, mostra que nenhum destes candidatos tem um compromisso, a menos que discursivo, em transformar a situação da classe trabalhadora, pois defendem a “velha” Curitiba, que afasta a pobreza (inclusive isto é marca de seu planejamento) e que se molda aos interesses do capital de todas as ordens imobiliárias, industrial, automobilístico, etc.

Outro componente de destaque é a postura que as esquerdas diretamente vinculadas ao Estado tomam nestas eleições. Sua degeneração chegou a um nível em que nem mais dissimulam o pragmatismo político na disputa pelo poder. PT e PC do B aliados históricos, agora frente a frente no segundo turno, o primeiro com Fruet o segundo com Ratinho, ambas candidaturas dissociadas de qualquer movimento de base, e inclusive imposta as suas bases no caso do PT. Fica eminente que no caso da disputa do Estado, o que era meio vira fim, a tática vira estratégia, e em troca do poder, da “máquina”, vale tudo. Assim auferindo o maior pragmatismo político, cada um aposta num “cavalo” diferente e que vença o “melhor”.

Na “margem esquerda” das eleições encontramos PSOL e PSTU, ambos partidos que reivindicam-se revolucionários. O programa do Prefeito Avanilson, candidato do PSTU, é bastante coerente no que diz respeito as condições sócio econômicas de Curitiba, apresentando uma tese marxista sobre Estado contemporâneo. Apresenta uma proposta classista, porém resume os problemas do Estado aos seus gestores e a corrupção, referindo-se aquela velha história da “crise de direção” e propõe-se, é claro, à gerir a máquina de forma socialista. O programa do PSOL sequer existe, lança sua candidatura apenas com consignas e, através destas, traz propostas bastante mediadas na tentativa de conquistar apoio da “classe média” (comumentemente se denominam setores mais abastados da classe trabalhadora, ou seja maior inserção no consumo como uma classe, discordamos de tal definição, mas entendemos a quem se refere). Para isso, acaba abandonando a perspectiva classista, seu programa socialista vai mais no sentido da conciliação de classes e de resolver os problemas do capital no capital do que de rompimento com as suas contradições e exploração dos trabalhadores. O abandono chega a tal ponto que algumas candidaturas se dirigem inclusive ao pequeno empresariado, sintomático para um partido que se propunha socialista.

E com o fim do primeiro turno, resta ao curitibanos escolher entre Ratinho Jr. e Gustavo Fruet, ou seja, manter a velha elite, ou trocá-la por uma nova. No fim das contas sabemos para quem o novo prefeito irá governar, independente de qual seja eleito. E mais uma vez, através das eleições, burguesia legitima seu domínio e exploração sobre os trabalhadores.

 

Bartolomeu Nascimento