Arquivo da tag: Copa do Mundo

[CAB] Saudações internacionalistas ao primeiro de maio, do luto à luta!

Saudações internacionalistas ao primeiro de maio, do luto à luta!

 Companheiras e companheiros da Federação Anarquista Uruguaia, a Coordenação Anarquista Brasileira vem, com esta mensagem, saudar o dia Internacional de Memória e Luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras.

O ano que se passou foi particularmente importante para nós, anarquistas e trabalhadores e trabalhadoras da Coordenação Anarquista Brasileira. Com ele, ressurgiram manifestações massivas que tomaram as cidades brasileiras de norte a sul. Essas manifestações encheram de esperança a luta popular e apontaram os limites de um projeto de dominação e de expansão do capital que oprime e massacra as/os de baixo. Esse projeto se apresenta hoje de maneira cruel, com seus efeitos nefastos. Mata trabalhadoras e jovens negros nas favelas e periferias, impõe o terror dos latifundiários no campo e contra os povos indígenas e quilombolas, e, ainda, reprime brutalmente os que resistem. É esse projeto que também implementa as remoções de ocupações urbanas em várias cidades brasileiras, que aumenta a exploração do trabalho e tenta vender a imagem de que o “Brasil é um gigante que vai bem”.

Porém, nós, os e as de baixo, sabemos que para os trabalhadores e trabalhadoras nada vai bem! Sabemos que os lucros da Copa do Mundo de futebol e das Olímpiadas, que serão realizados no Brasil, estão sendo produzidos sobre a exploração e repressão. E que os grandes empresários estão sendo beneficiados com o suor dos verdadeiros produtores da riqueza.

Cabe lembrar, nesta data, que os projetos de dominação no nosso continente não são novos. Nesse mês e nesse ano, a ditadura empresarial-militar (apoiada por alguns setores civis) implementada no Brasil com o golpe de 1964 fez exatos 50 anos. 50 anos em que a classe dominante, com a ação decisiva dos militares, colocou o Brasil numa noite escura que durou vinte e um anos. Somos filhos dessa história, que, em seu fio condutor, encontra a luta de lutadores e lutadoras em diversos momentos históricos de resistência.

 Conscientes do papel do anarquismo na luta popular e em nossa América do Sul, nós da Coordenação Anarquista Brasileira reforçamos aqui a solidariedade e os laços de organicidade com nossas companheiras e companheiros da FAU. Porque sabemos que a globalização do capital encontrará punhos forte e fechado da internacionalização de nossa luta. Para que não se repitam mais tragédias do capital.

Para que a memória dos Mártires de Chicago seja lembrada para sempre como um dia de luta!

Aos Mártires de Chicago e a todos e todas que se foram combatendo as ditaduras do capital de ontem e de hoje, fica nosso recado: NENHUM MINUTO DE SILÊNCIO, MAS TODA UMA VIDA DE LUTA!

Viva o Primeiro de Maio!

Viva o Internacionalismo dos Trabalhadores e das Trabalhadoras!

Viva a FAU!

Vivam os Mártires de Chicago!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

Saludos internacionalistas al Primero de Mayo, del luto a la lucha!

Compañeras y compañeros de la Federación Anarquista Uruguaya, la Coordinación Anarquista Brasilera viene, a través de este mensaje, saludar el dia Internacional de La Memória y de Lucha de los Trabajadores y Trabajadoras.

El año que se pasó fué particularmente importante para nosotros, anarquistas y trabajadores y trabajadoras de la Coordinación Anarquista Brasilera. Con el, manifestaciones masivas ha resurgido que tomaron las ciudades brasileras de norte a sur. Estas manifestaciones llenaron de esperanza a la lucha popular y señalaron los límites de un proyecto de dominación y de expansión del capital que oprime y masacra a los/las de abajo. Este proyecto se presenta hoy de una manera cruel, con sus efectos adversos. Mata a las trabajadoras y jóvenes negros en las favelas y periferias, impone el terror de los terratenientes en el campo y en contra los pueblos indígenas y quilombolas (afrodescendientes), y no más, reprime brutalmente a los que aún resisten. Es este el proyecto que también lleva a cabo el translado de ocupaciones urbanas en varias ciudades brasileras, que solo aumentan la explotación del trabajo y intenta vender la imagen de que “Brasil es un gigante que va bien”.

Sin embargo, nosotros, los y las de abajo, sabemos que para los trabajadores y trabajadoras nada va bien! Sabemos que los lucros de la Copa del Mundo de fútbol y los Juegos Olímpicos, que se celebrará en Brasil, se están produciendo sobre la explotación y la represión. Y que los grandes empresários se benefician con el sudor de los verdaderos productores de la riqueza.

Vale a pena recordar, en esta fecha, que los proyectos de dominación en nuestro continente no son nuevos. En este mes y neste año, la dictadura empresarial-militar (con el apoyo de algunos sectores civiles) implementada en Brasil con el golpe de 1964 hizo exactamente 50 años. 50 años en que la clase dominante, con la acción decisiva de los militares, puso Brasil en una noche oscura que duró veintiún años. Somos hijos de esta historia, que en su hilo, encuentra la lucha de las/los que pelean en diversos momentos historicos de resistencia.

Concientes del papel del anarquismo en la lucha popular y en nuestra Sudamérica, nosotros de la Coordinación Anarquista Brasilera reforzamos acá la solidaridad y los lazos de organicidad con nuestras compañeras y compañeros de la FAU. Porque sabemos que la globalización del capital encontrará puños fuertes y cerrados de la internacionalización de nuestra lucha. Para que no se repitan más tragedias del capital.

Para que la memoria de los Mártires de Chicago sea recordada para siempre como un día de lucha!

A los Mártires de Chicago y a todos y todas que se fueron combatiendo las dictaduras del capital de ayer y de hoy, queda nuestro mensaje: NINGÚN MINUTO DE SILENCIO, PERO TODA UNA VIDA DE LUCHA!

¡Viva el Primero de Mayo!

¡Viva el Internacionalismo de los Trabajadores y de las Trabajadoras!

¡Viva la FAU!

¡Vivan los Mártires de Chicago!

Coordinación Anarquista Brasilera (CAB)

[FARJ] Toda solidariedade aos perseguidos e perseguidas pelo terrorismo de Estado no Rio de Janeiro!

Retirado de: http://anarquismorj.wordpress.com/2013/10/12/toda-solidariedade-aos-perseguidos-e-perseguidas-pelo-terrorismo-de-estado-no-rio-de-janeiro/

Publicado em 12/10/2013

Nós da Federação Anarquista do Rio de Janeiro repudiamos veementemente os últimos atos de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro no Rio de Janeiro. Deixamos aqui registrada nossa solidariedade aos companheiros e companheiras da Frente Independente Popular, da Organização Anarquista Terra e Liberdade e todos os muitos companheiros e companheiras  (17 mandados) que amanheceram com intimações da Polícia Federal e da Polícia Civil batendo em suas portas.

Os mandados de busca e apreensão emitidos nesta sexta (11/10)  são claramente uma maneira de intimidar e ameaçar os lutadores e lutadoras, sejam eles membros de organizações políticas/movimentos sociais ou não, que estão sendo perseguidos por exercerem o direito legítimo de irem às ruas protestarem e exigir direitos coletivos. Cabe ressaltar a perseguição e à “caça às bruxas” ao anarquismo feita e promovida pelo governo do PT e de seus aliados no Rio Grande do Sul e em outros estados com apoio da mídia burguesa, sempre ávida por um “bode expiatório” para justificar a repressão a luta do povo.

É importante ressaltar que essas ameaças do Estado brasileiro não começaram agora e não vão parar nesse momento. Esse terrorismo de Estado permanente – hoje mais aguçado – é um exercício dos dominadores para a preparação da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Se não bastasse a repressão violenta do Estado brasileiro nas periferias, favelas e nas manifestações das categorias de trabalhadores, ainda utilizam a vergonhosa “Lei de Organização Criminosa” (que pune com 8 anos de prisão manifestantes e militantes) para tentar coibir futuros protestos e diminuir a luta popular.

Deixamos aqui registrado nossa solidariedade a todos os companheiros e companheiras que neste momento, sofrem a atuação terrorista do governo brasileiro. A perseguição do Partido dos Trabalhadores, seus aliados e do Estado brasileiro aos militantes no Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro só mostra a verdadeira face da democracia burguesa quando questionada.

Nossa resposta só pode ser solidariedade. Como foi feito com os companheiros do Black Bloc perseguidos, devemos continuar a ir às ruas exigir com todas as forças o fim da perseguição política e aprofundar nossas pautas sociais!

O grão de areia que modestamente podemos dar nesse momento é continuar fazendo o que sempre fizemos: organizar e construir movimentos populares fortes, autônomos e combativos. Massificar a luta e a organização popular para combater os opressores!

Lutar não é crime!
Basta de perseguição!
Abaixo o Terrorrismo de Estado!

FARJ – Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira

1380134_171539199701953_1009575287_n

[OASL] Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.

Related Link: http://www.anarquismosp.org*

Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil
category brazil/guyana/suriname/fguiana | a esquerda | entrevista author Tuesday June 25, 2013 01:46author by Organização Anarquista Socialismo Libertário – OASL Report this post to the editors

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

logo1.jpg

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.
Related Link: http://www.anarquismosp.org

[CAB] Protesto não é crime! Basta de criminalização aos movimentos sociais!

Nota da Coordenação Anarquista Brasileira

Nesse primeiro semestre houve diversas mobilizações de norte a sul do Brasil que enfrentaram a reação conservadora dos governos, do aparelho repressivo e da mídia. Desde as lutas em defesa do transporte público nas capitais, passando pelas greves nos canteiros de obras do PAC, até a resistência indígena dos povos originários, todas essas lutas foram alvos da criminalização do protesto que segue em curso no país sede da Copa do Mundo.

Vivemos um dos momentos mais agudos dos ataques das classes dominantes aos povos originários no Brasil. O capital internacional avança diariamente a passos largos, explorando os trabalhadores e as trabalhadoras na busca do lucro.

A Copa vem aí! E além de mega-eventos como este, temos os mega-empreendimentos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e da IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana). Com eles, a implementação de muitas das atuais políticas públicas urbanas, energéticas e rurais, manifestam-se na forma destes ataques, aprofundando ainda mais as feridas destes 500 anos de massacres!

Desapropriações e despejos estão a todo vapor e empreendimentos surgem num piscar de olhos. O dinheiro do povo, numa fração de segundos, desce pelo ralo do desperdício. Em várias cidades que sediarão (e mesmo as que não sediarão) a Copa, construções e mais construções são anunciadas. De licitação em licitação, as empreiteiras saem ganhando às custas do suor do povo, e os governos estaduais e municipais botam em funcionamento seu rolo compressor em benefício de grandes empresários e da especulação imobiliária.

Ao passo que avançam os grandes projetos para beneficiarem as elites, é parte desse processo também a criminalização do protesto e da pobreza com a repressão e perseguição daqueles que lutam contra as injustiças nesse país.

A luta pelo transporte público como ensaio de poder dos oprimidos da cidade.

Todos os anos, em distintas cidades de nosso país somos atacados logo nos primeiros meses pela patronal do transporte em conjunto com o poder público com escandalosos aumentos nos preços das passagens de ônibus. O precário transporte coletivo que envolve ônibus em péssimo estado (sem as devidas adaptações para deficientes físicos), linhas atrasadas e superlotadas, um regime de super exploração aos trabalhadores do setor aliado a uma tarifa exorbitante, fazem parte de uma série de desrespeitos impostos pelos de cima aos trabalhadores e oprimidos de norte a sul deste país.

Essa escandalosa situação tem levado sobretudo a juventude a se mobilizar e tomar as ruas contra os aumentos, pelo passe livre estudantil e para desempregados e por um outro modelo de transporte, que seja 100% público.Já se vai mais de uma década onde inúmeras capitais brasileiras começaram a ser literalmente sacudidas pelas lutas contra o aumento da tarifa de ônibus e pelo passe livre para estudantes e desempregados. Temos como exemplo mais recente as vitórias que se deram pela força das ruas em Porto Alegre/RS e Goiânia/GO. Longe de haver sido uma conquista exclusiva da atuação de um determinado partido, a revogação do aumento da tarifa é fruto da contundente decisão com que milhares de jovens, trabalhadores e desempregados, tomaram as ruas, ocuparam terminais, organizaram piquetes em garagens e mobilizaram seus amigos e companheiros nos locais de trabalho, estudo e moradia, na luta contra o aumento.

A redução da tarifa do transporte coletivo pela força das ruas é uma vitória moral do movimento popular liderado pela juventude combativa. Longe de terem sido mobilizações virtuais, essa reação é fruto de um árduo trabalho de inúmeros companheiros e companheiras, onde modestamente temos aportado nossa contribuição.

Outras lutas pela redução da tarifa multiplicam-se pelo Brasil e ao mesmo tempo a reação conservadora formada pelos governos, pela mídia e os empresários tentam legitimar a repressão e a criminalização dos lutadores sociais com dezenas de prisões durante os protestos e processos judiciais. Classe patronal, autoridades dirigentes do municípios e Estados, a imprensa monopolista, todos estão coordenados no mesmo plano: criminalizar os lutadores sociais, criar espantalhos, desencorajar a participação popular na luta pelo direito a cidade.

Não podemos aceitar a perseguição político-judicial dos companheiros de luta. Nossa mobilização tem que ser firme e decidida para não marchar pra trás e defender nessa hora nossos direitos de reunião, de associação e manifestação. A solidariedade com os processados deve ser uma palavra com a força de uma tonelada para a toda a esquerda combativa.

Diante disso nós reforçamos nossa atitude, a pauta do transporte público não é um caso de polícia, a questão social urgente e necessária que se acusa só pode ser resolvida por decisão política. E para fazer cumprir suas demandas o povo não pode confiar seus interesses ao poder burocrático dos conchavos de gabinete e às decisões tomadas a portas fechadas entre elites políticas e grupos econômicos dominantes.

A democracia de base é um mecanismo social que se representa na política pelas assembleias, pelas marchas e nas distintas formas de luta e organização de base dos setores populares.

Estamos unidos na defesa de um modelo de transporte coletivo 100% público, que liquide com o lucro dos patrões na exploração de nossos direitos, das liberdades públicas de acesso e mobilidade do conjunto do povo sobre a cidade. Para os anarquistas da CAB, o modelo público é um marco para acumular forças de mudança, avançar direitos e conquistar melhores serviços à revelia do controle dos capitais privados. Lutar para empoderar o povo e não se acomodar nas estruturas burocráticas do poder, que usurpa a força coletiva em direito público, mas em causa particular.

A resistência indígena diante do agronegócio e os mega-empreendimentos.

Diversas mobilizações dos povos indígenas marcaram o primeiro semestre deste ano, entre essas, a legítima ocupação do plenário da Câmara dos deputados por cerca de 300 indígenas, além dos diversos protestos por todo o Brasil na semana que registrava o dia internacional do meio ambiente, o 5 de junho. Há mais de uma centena de proposições legislativas contrárias aos direitos dos povos em tramitação na Câmara e no Senado. Dentre elas, destaca-se a PEC 215. PEC quer dizer, Proposta de Emenda à Constituição, pode ser apresentada pelo Presidente, pelo Senado ou por mais da metade das Assembleias Legislativas e, sendo aprovada, permite que se façam mudanças no texto da Constituição. Junto com a mudança do código florestal, esta PEC 215 significa mais um atentado da conservadora bancada ruralista contra o povo, apoiada por partidos como o PMDB, PP, DEM, PSD, PR, PSDB, PTB, PDT e PPS. Se for implementada, a proposta de emenda dará ao Congresso o direito e a responsabilidade de demarcar, ratificar e estabelecer critérios de regulamentação das terras indígenas e dos povos originários, atividade que até o momento é atribuição da FUNAI. Ou seja, vai dar às raposas total controle do galinheiro, pois no Congresso Nacional há forte presença da bancada ruralista, que quer tomar as terras indígenas para transformá-las em latifúndios à serviço do lucro desenfreado do agronegócio.

Dessa forma, a atual configuração da luta de classes e do capitalismo no Brasil, que afeta também os povos originários, pode ser entendida como um modelo marcado, em um de seus aspectos, pela força do agronegócio, baseado na monocultura latifundiária de exportação, que para expandir-se ataca a agricultura familiar, explora e expulsa os trabalhadores rurais e rouba as terras de povos indígenas. Este modelo concentra a renda, gera miséria, violência e pobreza em praticamente todas as regiões onde se instala. No campo e na cidade mata lentamente os trabalhadores que aplicam ou consomem os alimentos envenenados com agrotóxicos. Há também o encarecimento dos alimentos básicos (como arroz, feijão e trigo) que representam 70% do consumo do país, mas que ocupam apenas 30% das terras agricultáveis, por conta do avanço das monoculturas latifundiárias.

Mesmo com a desigual correlação de forças, os povos indígenas deram uma demonstração de resistência e ação direta, ocupando a casa legislativa e adiando a votação da vergonhosa PEC. A ação dos indígenas foi muito mais efetiva para barrar a votação da PEC 215 do que a inerte “disputa de hegemonia” dos parlamentares de esquerda que se opuseram ao projeto de votação.

De sul a norte do país a nossa força militante está vigilante e solidária à pauta dos povos originários. Desde os processos de resistência na Aldeia Maracanã no Rio de Janeiro, à vitoriosa luta dos Pitaguarys no Ceará e o apoio às mobilizações dos guaranis e kaingangs no Rio Grande do Sul, estamos ombro a ombro juntamente com os indígenas em defesa do território e contra os impactos do Plano IIRSA.

Solidariedade é mais que palavra escrita! Cercar de solidariedade os que lutam!

Com o avanço dos ataques das classes dominantes (nacional e internacional) e seus empreendimentos, serão ainda mais frequentes as ameaças aos povos originários e a todos aqueles que são oprimidos no campo e na cidade. Para prosseguirmos na organização e resistirmos aos megaeventos e ao avanço do agronegócio, é preciso acúmulo de força social para a auto-organização da classe trabalhadora e dos oprimidos do campo e da cidade. Nós, anarquistas federados politicamente nas organizações que compõem a CAB, modestamente reafirmamos nosso esforço, fortalecendo as organizações de base dos trabalhadores num projeto de federalismo e poder popular que não tem nas urnas ou na disputa de aparatos parlamentares seu horizonte estratégico.

Não formamos uma organização política para se fazer de intermediários burocráticos da pressão social, não buscamos o reconhecimento da mídia e das autoridades burguesas como interlocutores válidos. Nossa política aponta na construção de um povo forte. A ação direta como método de luta e a democracia de base como fator de participação decisiva do sujeito nas suas demandas são ferramentas para que cresça o poder popular, desde baixo. Nosso lugar é de impulso criador no interior das pautas do movimento social, no desenvolvimento de fatores ideológicos de mudança combativa, na construção de capacidade política pela união solidária dos oprimidos. O protesto social deve ter suas próprias perspectivas, não é escada para a carreira eleitoral.

É tarefa de agora rodear de solidariedade os companheiros perseguidos, não se intimidar e seguir firme em nossos propósitos, reivindicando com firmeza a legitimidade de nossa luta e dos métodos que temos utilizado. Esses são compromissos de primeira ordem àqueles que estão implicados nas lutas de todos os dias.

Coordenação Anarquista Brasileira
Junho de 2013

[CAB] Nota de Repúdio em solidariedade aos estudantes da UFMT

Constantemente é dito que não vivemos mais em uma ditadura, mas presenciamos o quanto isso é questionável. Durante todo período da ditadura militar no Brasil ocorreu todo tipo de prática repressiva inimaginável contra os movimentos sociais, talvez em maior proporção aos movimentos estudantis que naquele momento se colocavam de maneira mais radical contra a censura e aos ataques aplicados contra a liberdade de expressão. Estamos chegando aos quarenta e nove anos do golpe militar no Brasil, quase meio século do fim de uma ditadura que prendeu, torturou, violentou, assassinou e sumiu com os corpos de militantes da esquerda brasileira. Mesmo depois de quase meio século dessa barbáridade, voltamos a ver essas mesmas práticas repressivas sendo aplicadas contra os movimentos sociais.

Em Cuiabá, cidade do estado de Mato Grosso, presenciamos no dia seis de março uma brutal repressão contra estudantes que fizeram uma manifestação por melhorias na assistência estudantil e contra o fechamento de cinco casas destinadas para a moradia dos estudantes universitários da UFMT (Univesidade Federal de Mato Grosso). Os estudantes fecharam pacificamente a avenida Fernando Correa da Costa quando foram surpreendidos pela presença da ROTAM que foi chamada para realizar a dispersão e liberação da avenida que foi utilizada como ponto da manifestação, porém foi na avenida lateral ao campus universitário de Cuiabá conhecida como Alzira Zarur – avenida principal do bairro Boa Esperança, mesmo bairro onde um estudante da UFMT, natural de Guiné-Bissau, foi brutalmente assassinado pela policia militar do estado mato-grossensse – que os estudantes foram brutalmente espancados e presos. A prática de disperção utilizada foi tapas e socos, principalmente, nos rostos dos e das estudantes, disparos de balas de borracha a queima-roupa que atingiu também um pedreiro que trabalhava em uma obra próxima ao ato. Uma estudante tomou um tiro de bala de borracha na mão e com isso sofreu uma fratura e terá que passar por cirurgia. Outro estudante tomou um tiro na costela que fez com que o mesmo espelice sangue pela boca… sem contar as possíveis torturas que devem ter sido aplicadas aos estudantes detidos. Foi contabilizado através de informações de alguns participantes que dez pessoas ficaram feridas e seis foram presas.

Essa é a política ideológica da “Ordem e Progresso” e essa é a democracia na qual vivemos. Uma repressão, disfarçada de democracia, cada vez maior contra os movimentos sociais, uma repressão que vem crescendo cada vez mais dentro das periferias para a realização da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada em 2016.

Nós da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) também nos colocamos contra as políticas de mercado aplicadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), voltadas para a precarização e a privatização da educação pública, e, reivindicamos a ampliação e implementação de políticas efetivas de assistência estudantil que garantam o acesso e a permanência. Algumas das várias bandeiras defendidas pelo movimento estudantil.

Portanto, declaramos total repúdio a brutalidade exercida pelo corpo militar repressivo do de Cuiabá e a postura conivente da administração superior da UFMT.

Declaramos também nossa total solidariedade a todas e todos estudantes que foram feridos e presos!

Por uma Educação Pública e de Qualidade!

Pela Autonomia dos Movimentos Sociais!

Contra a Brutal Repressão aplicada pelo Estado contra os Movimentos Sociais
Combativos e Classistas!

A História são os pobres que as fazem, a Vitória está nas Mãos de
quem Peleia!

Não tá morto quem peleia!

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB

Coordenação Anarquista Brasileira