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[CABN] 142 anos da Comuna de Paris: Louise Michel e o protagonismo feminino na luta pela liberdade

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=907

A Comuna de Paris completa hoje 142 anos. Foi no dia 18 de março de 1871 que se iniciou a constituição da primeira experiência histórica de autogoverno operário e popular, a qual durou cerca de quarenta dias, resistindo ante as tropas francesas e alemãs que executaram mais de 20 mil rebeldes até o esmagamento da Comuna, que até então contava entre suas realizações:

  1. O trabalho noturno foi abolido;

  2. Oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas;

  3. Residências vazias foram desapropriadas e ocupadas;

  4. Em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias;

  5. Todas os descontos em salário foram abolidos;

  6. A jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas;

  7. Os sindicatos foram legalizados;

  8. Instituiu-se a igualdade entre os sexos;

  9. Projetou-se a autogestão das fábricas (mas não foi possível implantá-la);

  10. O monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos;

  11. Testamentos, adoções e a contratação de advogados se tornaram gratuitos;

  12. O casamento se tornou gratuito e simplificado;

  13. A pena de morte foi abolida;

  14. O cargo de juiz se tornou eletivo;

  15. O calendário revolucionário foi novamente adotado;

  16. O Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado;

  17. A educação se tornou gratuita, secular, e compulsória. Escolas noturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto;

  18. Imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram adotadas nas Igrejas;

  19. A Igreja de Brea, erguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848, foi demolida. O confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também;

  20. A Bandeira Vermelha foi adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade;

  21. O internacionalismo foi posto em prática: o fato de ser estrangeiro se tornou irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, poloneses, húngaros;

  22. Instituiu-se um escritório central de imprensa;

  23. Emitiu-se um apelo à Associação Internacional dos Trabalhadores;

  24. O serviço militar obrigatório e o exército regular foram abolidos;

  25. Todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos;

  26. Havia um plano para a rotação de trabalhadores;

  27. Considerou-se instituir uma Escola Nacional de Serviço Público, da qual a atual ENA francesa é uma cópia;

  28. Os artistas passaram a autogestionar os teatros e editoras;

  29. O salário dos professores foi duplicado.

Das barricadas levantadas no dia 18 de março de 1871, a Comuna de Paris provou para todo o movimento operário que o processo de ruptura revolucionária pela luta de classes pôde posicionar um universo de valores e ideologias do socialismo concretamente. As classes oprimidas e exploradas não chegaram ao poder do Estado constituindo-o, pelo contrário, o destruíram, através do projeto da construção federalista de poder, o “poder popular”. Não partindo da continuidade das reformas políticas francesas como muitos afirmam, mas do acúmulo prático e teórico que as classes trabalhadoras souberam aproveitar, implementando as longas experiências das greves operárias e da recente Associação Internacional dos Trabalhadores. Pela defesa intransigente da concepção da autogestão social, a vitória alcançada a muito custo foi justamente o avanço histórico de demonstrar que a tutela do Estado pode desmoronar quando as classes oprimidas organizam-se de baixo para cima, destruindo os grilhões que impediam sua emancipação.

A derrota da Comuna não está firmada sob o critério da impossibilidade do povo se auto-organizar. A repressão e o fortalecimento das nações capitalistas se articulam e se readequam gradativamente conforme existe o risco de superação da própria ordem capitalista. A Comuna de Paris representa a afirmação de levar adiante a primazia do internacionalismo e das realizações históricas da classe trabalhadora. Dentre estas realizações, é fundamental destacar a importância da luta das mulheres. Como no 08 de março a mídia sempre acaba simbolizando esta data de forma comemorativa, superficialmente, o resgate da história das lutas pela emancipação feminina está mais do que contido no episódio revolucionário da Comuna de Paris. Em homenagem às combatentes anônimas e conhecidas, relembramos artigo que a Federação Anarquista Gaúcha trouxe a público, que denota o protagonismo do passado estendendo-se até o presente.Barricade18March1871

De Mary Wollstonecraft a Louise Michel, e de Lucy Parsons a Elena Quinteros, este reconhecimento cumpre a tentativa de romper com as visões e práticas, ainda em vigência, do patriarcado nas relações no campo da esquerda. A questão de gênero tem avançado em visibilidade social, mas ainda sabemos que falta elementos materiais concretos de mudança. Este texto fala destas verdadeiras lutadoras do povo, como Louise Michel, filha de servente, professora, criadora do grupo “O direito da mulher”, formado por socialistas e feministas, e das milícias, onde comandou batalhões de mulheres à frente das barricadas na Comuna. Guerreira e libertária, defendeu a independência da colônia francesa da Nova Caledônia quando esteve lá deportada. Em “Memórias da Comuna”, de 1898, Louise Michel defendia o feminismo libertário e classista, vindo a conhecer na década de 1890, Malatesta, Emma Goldmam, Kropotkin e Pietro Gori. Em 1905, ano das primeiras experiências federalistas na Rússia, é enterrada envolta pelo estandarte da Comuna de Paris.

Em 1902, Louise Michel escreveu:

Aqui o inverno não tem onde amarrar-se,
Aqui as fragas sempre são verdes (…)

Aqui, em cadeias expira:
O presídio é pior que a morte.
Nos nossos corações sobrevive a esperança,
E se vemos a França novamente,
será para seguir combatendo! (…)

No ar paira a Liberdade!
A batalha nos chama
O clamor do deserdado!…
… A alvorada caçou a sombra espessa,
E o mundo novo se ergue

***

COM A PALAVRA E O EXEMPLO: LOUISE MICHEL

Por Federação Anarquista Gaúcha

louise-michel

Não se pode matar a ideia a tiros de canhão nem amarrá-la

Quando a Comuna foi derrotada, as tropas de Versailles massacraram gente durante 8 dias seguidos. Dizem que o batalhão feminino de Louise Michel “peleou como demônio”. Os soldados assassinaram a maioria delas a sangue frio quando já estavam desarmadas. Em geral, foram assassinados mais de 20 mil comuneiros, outros 43 mil foram presos e 5 mil deportados. Louise Michel escapou, mas se entregou porque a chantagearam com a detenção de sua mãe. Compareceu ante o Quarto Conselho de Guerra e disse: “Já que ao que parece todo coração que late pela liberdade só tem direito a receber uma pequena porção de chumbo, solicito a parte que me toca. Se me deixarem viva, não deixarei de clamar pela vingança e denunciarei os assassinos…

Declarações de Louise Michel em seu juízo

Ah, certamente, senhor advogado geral, a você resulta estranho que uma mulher ouse defender a bandeira negra. Porque temos resguardado a manifestação sob a bandeira negra? Porque esta bandeira é a das greves e indica que o operário não tem pão.

O povo morre de fome, pois bem, eu tenho tomado a bandeira negra para dizer que o povo não tinha trabalho e comida. Este é meu crime, o julguem como queiram.

Se existem tantos anarquistas, é porque muita gente está enojada da triste comédia, que faz tanto tempo, nos mostram os governos.

Resumindo, o povo não tem nem pão nem trabalho, e não temos em perspectiva mais que a guerra. E nós queremos a paz da humanidade e a união dos povos. Estes são os crimes que temos cometido. Cada um busca seu caminho, nós buscamos o nosso e pensamos que o dia em que reinar a liberdade e a igualdade, o gênero humano será feliz.”

Sobre o direito das mulheres

“Eu admito que o homem também sofre nesta sociedade maldita, mas nenhuma tristeza podeser comparada com a da mulher. Na rua ela é a mercadoria. Nos conventos, onde se ocultacomo em uma tumba, a ignorância a ata, e as regras ascendem em sua máquina comoengrenagens e pulverizam seu coração e seu cérebro. No mundo se dobra sobre amortificação. Em sua casa, suas tarefas a esmagam. E os homens querem mantê-la assim. Elesnão querem que ela usurpe sua função ou seus títulos.

Nas reuniões do grupo dos Direitos das Mulheres, e em outras reuniões, os homens maisavançados aplaudiram a ideia da igualdade. Notei – eu  tinha visto antes, e vi mais tarde –que os homens, suas declarações não obstante, ainda que parecessem nos ajudar, sempre seconformavam com as aparências… me convenci que nós as mulheres simplesmente devemostomar nosso lugar sem pedir permissão por isso.

Saúdo a todas aquelas valentes mulheres da vanguarda que foram de grupo em grupo; oComitê de Vigilância, a sociedade das Vítimas da Guerra, e mais tarde a Liga de Mulheres. Ovelho mundo deveria temer o dia em que aquelas mulheres finalmente decidam que  tiveramo bastante. Aquelas mulheres não fraquejarão. A força se refugia nelas. Tomem cuidado comelas… Tomem cuidado com as mulheres quando se cansem de tudo o que as rodeia e selevantem contra o velho mundo. Nesse dia um novo mundo começará.

Sobre o poder

Talvez seria melhor para o povo se todos nós que dirigimos a luta agora caiamos em batalha,para que depois da vitória não fiquem mais Estados maiores gerais. Assim o povo poderiacompreender que quando todo mundo junto comparte o poder, então o poder é justo eesplêndido

Quem informará os crimes que o poder comete, e a forma monstruosa em que o poder transforma os homens?”

Informações e fragmentos tomados do artigo de Victoria Aldunate Morales publicado em Kaos em la Red.

Tradução: EC – Federação Anarquista Gaúcha


Um poema de amor e despedida

Les Œillets Rouges (Os Cravos Rubros)

Quando ao negro cemitério eu for, 
Irmão,
 coloque sobre sua irmã, 
Como
 uma última esperança, 
Alguns
 ‘cravos’ rubros em flor.

Do Império nos últimos dias
Quando as pessoas acordavam,
Seus sorrisos eram rubros cravos
Nos dizendo que tudo renasceria.

Hoje, florescerão nas sombras
de negras e tristes prisões.
Vão e desabrochem junto ao preso sombrio
E lhe diga o quanto sinceramente o amamos.

Digam que, pelo tempo que é rápido,
Tudo pertence ao que está por vir
Que o dominador vil e pálido
Também pode morrer como o dominado.

Louise Michel

 

Retirado de: http://vermelhoenegro.org/blog/2010/03/06/com-a-palavra-e-o-exemplo-louise-michel/

[CAB] Um pouco de nossa concepção de anarquismo: desmistificando estereótipos e esclarecendo equívocos

Em Julho do presente ano foi realizado o 1º Congresso da Coordenação Anarquista Brasileira (ConCAB), no marco de 10 anos de construção de um Anarquismo organizado especificamente e inserido nas lutas de nosso povo. O Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), instância que ao longo dessa década reuniu diversas Organizações Anarquistas Especifistas de todo o Brasil para discutir temas que permitissem o necessário acúmulo e os indispensáveis acordos para que pudéssemos avançar na tarefa de construção de uma Organização Anarquista a nível Nacional, cumpriu sua função inicial e, desde o 1º CONCAB, deixou de ser um Fórum para se tornar uma Coordenação. Uma nova etapa foi, portanto, aberta para a militância especifista brasileira: constituir um espaço de coordenação em que participam 9 Organizações Anarquistas de diferentes Estados, de base Federalista e que vá construindo – a partir de práticas concretas e na medida em que vai ampliando sua base de acordos – unidade estratégica e maior organicidade para intensificar a inserção social no seio de nosso povo. Nesse sentido, são mais de 10 anos de resgate do Anarquismo enquanto corrente libertária do Socialismo, organizada politicamente e inserida socialmente. É o resgate da já antiga mas atualíssima máxima que diz que a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, porém aliada também a histórica prática da organização do anarquismo enquanto partido, como foi a Aliança da Democracia Socialista de parte da Ala Federalista e Anti-autoritária da 1ª Internacional (Bakunin, Guillaume, Malatesta, Cafiero e outros) e também da nossa irmã Federação Anarquista Uruguaia, que se manteve atuante no período da ditadura militar uruguaia, mantendo inserção social operária, estudantil e organizando um aparato armado que combateu o regime sanguinário que manchou de sangue nossa América Latina.

No entanto, nossa rica história que se confunde com a história da classe trabalhadora é muitas vezes atacada ou desmerecida: muitas vezes trata-se do simples desconhecimento ou a reprodução de discursos simplificadores e reducionistas, porém, muitas vezes se trata da má fé, do preconceito e da necessidade de construção política na base da calúnia, auto-promoção e mentiras. Recentemente, o último texto que tivemos contato e que faz referência aos “anarquistas” nestes moldes é uma nota lançada pelo PSTU de Curitiba, intitulada “Nossas diferenças com a corrente Luta Socialista (LS)/Outros Outubros Virão”, na qual é analisado a postura desse grupo citado no título da nota nas eleições ao DCE da UFPR e junto a eles o Coletivo Quebrando Muros (que possui militância anarquista do Coletivo Anarquista Luta de Classes – CALC, organização integrante da CAB). Independente do que motiva este e outros discursos, julgamos conveniente vir a público para dar nossa posição sobre o estereótipo do “anarquista” mais uma vez reproduzido à custa da verdade. Assim, nos posicionamos nacionalmente não para entrarmos na briga de quem é mais revolucionário ou possui a verdadeira interpretação do período em que vivemos, mas sim porque julgamos necessário esclarecer o que consideramos equívocos, desconhecimentos e incoerências.Nossa implicação enquanto CAB se dá por um conjunto de motivos que normalmente são veiculados em materiais como o que nos referimos acima: generalização e estereotipação do anarquismo; acusação de que somos uma seita esquerdista e que não teríamos nenhuma responsabilidade; de que somos anti-partidários; de que seriamos sectários e intransigentes, possuidores, portanto, da difamação e do ataque como única forma de construção militante possível; que fazemos alianças somente com quem pensa da mesma forma que nós; que possuimos em nossa história apenas o anarco-sindicalismo como expressão política e organizativa e, ainda mais, que atacamos toda e qualquer entidade sindical, estudantil e popular como sendo burocrática e desnecessária à luta. Também assinalam normalmente que hoje nós, “seita anarquista”, estaríamos limitados em geral a seitas estudantis mais ou menos marginais e sem inserção real na classe trabalhadora. Daremos nossa posição sobre tudo que até agora reproduzimos.Primeiramente, nós Coordenação Anarquista Brasileira fazemos parte de uma tradição político-organizativa chamada de Especifismo. Especifismo porque fazemos a defesa enquanto Anarquistas da necessidade de nos organizarmos politicamente enquanto tais. Essa necessidade se expressa por meio de uma Organização Política Anarquista, Federalista e de Quadros, com critérios de ingresso, formação militante, dotada de um Programa Mínimo, Estratégia de Curto e Longo Prazo e Objetivo Finalista. Não somos, portanto, uma seita. Somos sim, no interior da história do Socialismo, um Partido, tal como dizia o italiano Errico Malatesta:

“Nós, os socialistas-anarquistas, existimos como partido separado, como programa substancialmente constante, desde 1867, quando Bakunin fundou a Aliança; e fomos nós os fundadores e a alma do rumo antiautoritário da ‘Associação Internacional dos Trabalhadores.”

O Especifismo tem sua expressão “inicial” na América Latina com a FAU (Federação Anarquista Uruguaia), fundada em 1956 e que reuniu em sua formação velhos militantes anarco-sindicalistas que se organizavam na FORU (Federación Obrera Regional Uruguaia); velhos combatentes da Revolução Espanhola; jovens militantes sindicais e estudantis do país e alguns remanescentes que conviveram com o grupo de anarquistas expropriadores que realizaram diversas ações na região do Rio da Prata. A FAU era defensora da organização especifica do Anarquismo, por meio de uma Estrutura Organizacional que vinculasse organicamente seus militantes sob uma Declaração de Princípios e Elementos de Estratégia e que pudesse desenvolver em seu interior tarefas correspondentes a análises de conjuntura, capacitação político-militar (projetando ai o desenvolvimento de um aparato armado que se concretizou e foi chamado de OPR-33 – Organización Popular Revolucionária 33 Orientales) e é claro, inserção social no movimento de massas. A FAU ao longo de sua existência (se mantém atuante ainda hoje) cumpriu importante papel na construção da CNT (Convención Nacional de Trabajadores), participando através de sindicatos de base ou da própria direção da entidade; na construção da ROE (Resistência Obreiro Estudiantil), agrupação de Tendência que reuniu boa parte da militância de base classista e combativa (anarquistas, marxistas, leninistas, etc.) que se opunham a direção do PCU que era majoritário no movimento popular; e desenvolveu, num primeiro momento junto ao MLN-T (através da Coordinadora) e depois por um trabalho próprio, ações de expropriação de bancos, seqüestros de patrões e figuras ligadas à ditadura e apoios às mobilizações populares. Nós da CAB compartilhamos dessa tradição porque foi através dela que no início dos anos 90, quando do debate de reorganização do anarquismo, se iniciou a construção de Organizações Específicas Anarquistas que até hoje trabalham para seu crescimento e maior inserção. Portanto, não somos Anarco-Sindicalistas ou Anarco-Estudantis, porque não fazemos a defesa de sindicatos ou entidades estudantis anarquistas, mas sim da necessidade de nos organizarmos politicamente para intervirmos no Movimento Sindical e Estudantil.

Dessa forma, não somos contrários à existência de entidades “representativas”, sejam elas locais, estaduais ou nacionais, assim como não somos, por princípios, contrários à disputa das direções. No entanto, não temos como calculo político apenas a suposta exigibilidade da luta de classes da disputa das direções dos Movimentos para que eles sejam de fato revolucionárias, porque não apostamos nossas fichas de que a direção (o sentido) de um determinado movimento social seja resultado direto do grupo político que o dirige. Não negamos a influência que este grupo possa exercer, mas não fazemos dela a condição para o sucesso das lutas. Se somos partidários de uma proposta combativa, achamos sim necessário uma Organização Política preparada para intervir e dar conta de certas tarefas que os Movimentos Populares não poderiam dar conta, não achamos, porém, que esta Organização seja uma Vanguarda ou Direção Revolucionária porque mais capacitada para sintetizar os desejos da classe num socialismo pretensamente “científico”. Por isso, em nossa percepção, a disputa de entidades está condicionada a capacidade que possuímos de intervenção e de fomento da organização das Classes Oprimidas, papel que estas entidades devem cumprir, assim como a própria análise do cenário vivido em cada Frente Social. Caso contrário, a ocupação de uma entidade torna-se apenas um rito burocrático que não dá protagonismo a nossa classe e tampouco acumula força social para um projeto radical.Dessa forma, não somos espontaneístas, achando que a organização popular virá por ela mesma. Ao contrário do que alguns dizem, seguimos contribuindo com o fortalecimento dessa organização, com esforços modestos mas firmes, no movimento popular, sindical, estudantil e rural em diversos estados deste país. Apostamos na necessidade de uma Organização Política trabalhar consciente e intencionalmente no desenvolvimento da participação e organização popular, seja ela sindical, estudantil, comunitária etc., mas sempre considerando que o decisivo para as lutas, para o acúmulo necessário a um sentido revolucionário que realmente coloque em xeque o sistema de dominação capitalista —  e o Estado enquanto peça fundamental desse sistema de dominação  —  é a Força Social expressa na Organização das Classes Oprimidas através de seus próprios instrumentos de organização, de defesa e de ataque dos nossos inimigos de classe. Nossa concepção, historicamente tem se confrontado com a ideologia do Socialismo Estatista, justamente por acreditar que a destruição do Estado depende do avanço da organização das classes oprimidas e da forja de um sujeito revolucionário que aponte nesse sentido.

“Os velhos socialistas falavam de construir uma nova civilização. Durruti disse que levamos um mundo novo em nossos corações. Fazem alusão a valores, a uma nova forma de vida, de novas relações sociais. Se algo ensina a história é que isto não se produz de cima, requer construir um novo sujeito social. E para esta construção é fundamental a participação ativa, transformadora desse sujeito. Se não tem tomado contato com novas, ainda que sejam incipientes relações sociais, esse sujeito social não pode ter outros referentes que os conhecidos e os que tende a reproduzir. É construindo força social e tomando ativa participação nela que se podem formar embriões da nova civilização ou do “homem novo”, de outro sujeito. Digamos que este é o tema de como se transforma a consciência, para usar a linguagem clássica. Pelo que tem se visto a economia por si não transforma a consciência. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência.”“Outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá como arte de magia, deve ser o fruto de práticas que internalizem outras questões que chocam com o dominante. A participação efetiva, a autogestão, a ação direta, a forma federal de funcionamento realmente democrático, a solidariedade e apoio mútuo, necessitam de mecanismos, organizações, práticas regulares para seu desenvolvimento.”(Documento Teórico Wellington Gallarza e Malvina Tavares – acordo teórico FAU-FAG)

Esse é o nosso objetivo finalista: a construção de uma nova sociedade a partir de um processo revolucionário que destrua o sistema de dominação ao passo que constrói os mecanismos de gestão e de condução política e econômica dessa nova sociedade. Resulta disso nossa defesa do Poder Popular, enquanto um período de transição em meio a um processo revolucionário que consolide novas relações, instituições e mecanismos do próprio povo. Para isso precisamos, hoje, de um Programa Mínimo que faça a mediação entre a realidade vivida tal qual ela é e o nosso Objetivo Finalista. Nas palavras do também italiano Camilo Berneri

“A política é cálculo e criação de forças que realizam a aproximação da realidade ao sistema ideal mediante fórmulas de agitação, de polarização e de sistematização que sejam agitadoras, atraentes e lógicas num dado momento social e político. Um anarquismo atualizado, consciente das suas próprias forças de combatividade e de construção, e das forças adversas, romântico no coração e realista no cérebro, pleno de entusiasmo e capaz de contemporizar, generoso e hábil em condicionar o seu apoio, capaz, em suma, de economizar as suas forças[…]”.

Isso é o Anarquismo para nós da CAB e, por isso escrevemos esse texto de esclarecimento, debate franco e posicionamento político.Temos consciência, enquanto minoria ativa, das inúmeras deficiências e obstáculo que precisamos enfrentar e que enfrentaremos. No entanto, também temos consciência de nossa sinceridade, modéstia e firmeza naquilo que nos propomos. Ao longo desses mais de 10 anos de idas e vindas e de passos dados para amadurecer nosso projeto, temos participado em maior ou menor grau de diversas lutas, construções, embates na América Latina e no Mundo e, independente das divergências com outras tradições do Socialismo exigimos respeito. Estamos juntos e lado a lado na luta pelo Socialismo e pela Liberdade e daí não nos retiraremos.

Saudações Anarquistas e Revolucionárias!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

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[CURITIBA] Encontro mensal Círculo de Estudos Libertários, Domingo, dia 28 de Outubro

 

O Círculo de Estudos Libertários chama para as suas já tradicionais reuniões nas manhãs dos últimos domingos do mês.Nesta sessão daremos continuidade ao programa de estudo da FARJ/OASL com o módulo
MÓDULO 6 CURSO 13.
Baixe aqui: site http://farj.org/ , em textos e formação- programa formação FARJ/ OASL, ATENÇÃO SOMENTE O CURSO: Curso 13: Coletivismo e Anarco-Comunismo

Mikhail Bakunin. “Tática e Disciplina do Partido Revolucionário”.
Errico Malatesta “A Organização I” / “A Organização II”
Luigi Fabbri. “A Organização Anarquista -” Excertos”.
Camillo Berneri. “Consciência de Partido”Em pauta, a pedido dxs participantes e visto como necessidade também pelos membros do CALC a (re) organização do espaço do CEL.Quando: Domingo, 28 de OUTUBRO, a partir das 09:30hOnde: Rua Presidente Faria,515, Pensionato Novo Lar.
Círculo de Estudos Libertários

[FARJ] A Organização Específica Anarquista…

…como consequência do acúmulo organizativo e vontade de construção do poder popular

retirado de: http://www.anarkismo.net/article/23100

A organização específica anarquista como consequência do acúmulo organizativo e vontade de construção do poder popular. Texto teórico da FARJ apresentado no debate sobre especifismo e poder popular do I CONCAB.

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Malatesta identifica a necessidade da luta econômica e política como dois dos elementos necessários para o avanço rumo a emancipação do povo oprimido. Quanto às lutas econômicas, considerando nosso contexto atual, podemos entender também as diferentes mobilizações e reivindicações, não apenas no âmbito das relações de trabalho, mas também aquelas que abarcam as questões que tocam as demais necessidades do povo. Desemprego, moradia, saneamento, saúde, educação, cultura, entre outros, podem ser entendidos também como conseqüências de um sistema organizado, como é o capitalismo, no sentido de explorar e dominar o povo para garantir suas necessidades econômicas e políticas e perpetuar o estado atual das coisas.

Assim, partindo de Malatesta, entendemos esta luta pelas demandas cotidianas, como um dos elementos de extrema importância na construção do poder popular, e consequentemente de um sujeito revolucionário que não é dado a priori, mas também é construído na luta diária. Essa luta se traduz nos locais de moradia, de trabalho, e no caso da luta camponesa, no espaço onde as duas situações podem se encontrar.

Mas a luta cotidiana, ou econômica, também tem seus limites. “Então a força dos trabalhadores se choca com a dos patrões, assim como contra o governo, que é seu órgão político e armado de defesa. Então a luta econômica se torna política.”

Podemos entender deste modo, a organização política como uma conseqüência, e uma necessidade do avanço desta luta cotidiana. A organização política anarquista, que aqui representamos com nossas organizações irmãs, não substitui a luta popular, mas ajuda a potencializá-la. Não é uma organização de eleitos auto-proclamados, mas pretende como minoria ativa, apoiar a auto-organização da classe sob uma perspectiva revolucionária e ajudar a construir um projeto de poder popular que não forme novos dominadores em seu movimento.

A construção do poder popular passa por esta dinâmica. A opção, por parte do povo, de um projeto de organização de classe autônomo, organizando-se diante de um sistema muito bem estruturado para nos dominar e explorar, prova, nas lutas cotidianas, ser uma opção viável de libertação.

“Os trabalhadores não poderão jamais se emancipar enquanto não encontrarem na união a força moral, a força econômica e a força física necessárias para desmantelar a força organizada dos opressores”. Essas palavras malatestianas articulam um tripé impossível de ser desfeito aos que pretendem a transformação radical da sociedade.

O acúmulo organizativo que vamos construindo, passo a passo, deve ser generoso em suas perspectivas. Não se deve limitar-se apenas à solução das necessidades materiais. Sabemos que os elementos simbólicos, culturais e religiosos transpassam todas estas questões materiais. Pensar a solução dessas demandas sem levar em conta os laços que constituem todo um “tecido social”, destroçado pelo capitalismo, é limitar as possibilidades do nosso projeto. Assim como esperar que o sistema se desestruture pacificamente, sem a mobilização e a luta avançada da classe, é uma ingenuidade desfeita pela análise histórica de matriz libertária.

A organização política influencia e é influenciada pelo povo e suas organizações de base.

“À vontade de crer, oponho a vontade de saber, que deixa aberto diante de nós o campo ilimitado da pesquisa e do descobrimento.” Malatesta

Podemos entender que, muito mais do que certezas, ou aplicação de fórmulas, a construção do poder popular implica em saber ouvir e conhecer não só os problemas e as demandas do local de atuação da militância, mas reconhecer, valorizar e estimular as iniciativas populares de organização. Querer antecipar a consciência libertária da classe com ações e formas forçadas, deslocadas de certos contextos, é sinal de impaciência política e compromete um real acúmulo coletivo. É cair no erro de atuar sempre ideologicamente, reproduzindo o que seria uma “forma revolucionária”, em vez de trabalhar com as ferramentas teóricas construídas e pautadas nos princípios ideológicos. Prática que acaba levando ao sectarismo ou à intolerância que logo classifica de “alienados” aqueles que não pensam e agem daquela “forma” que se crê ser a mais correta.

Considerar que a organização política já possui todas as respostas antecipadamente é reproduzir erros antigos de orientações ideológicas exógenas ao anarquismo. A organização política não está pronta. Tem de preferir dar dois passos com a classe, do que mil isolada entre seus iguais. Esta prática deve ser compreendida como um exercício permanente de organização, algo que os sindicalistas revolucionários e os anarquistas chamavam de “ginástica revolucionária”. Este movimento, que permanece como um projeto em construção, edifica-se junto às classe que deseja fortalecer, e não isolada, em suas próprias reflexões. Aprender é escutar. Mas não basta simplesmente estar nos movimentos e viver à reboque deles; é preciso estar lá com um programa e uma estratégia bem definidas, para não desperdiçar e fragmentar as energias militantes.

É na base que construímos o federalismo de matriz libertária, valorizando a delegação enquanto responsabilidade coletiva. Nossos esforços militantes devem ser medidos de acordo com este parâmetro. Pois o poder popular é aquele que se enraiza de baixo para cima, “pela base e à esquerda”, como dizem os zapatistas. Neste sentido, a atuação de nossos/as militantes no sindicalismo, no movimento estudantil, popular e camponês deve procurar construir a casa pela sua fundação, sem ignorar que a complexidade das lutas implica na mediação da política com a realidade.

Por um estilo militante de trabalho social e político

Entendido como o modo específico de realização da política aplicada pelo/a militante, e que se traduz diretamente em sua relação com o trabalho e a inserção social, o estilo militante é a coerência do/a militante e do conjunto da militância com os princípios, métodos e a linha política de uma organização. Sabemos que não há nenhum/a militante que reúna todas as qualidades exigidas por uma organização, e que nesta convivem vários temperamentos e singularidades. Mas há elementos básicos que são necessários. Espera-se que o militante seja um bom organizador, que tenha responsabilidade coletiva e comprometimento com as tarefas exigidas (internas – da organização, e externas – dos movimentos sociais). Que seja ético, camarada, que escute os seus/suas companheiros/as de luta e que, nos trabalhos sociais, principalmente, saiba que ele/a é o “rosto” da organização. Que não se comporte autoritariamente ou de forma vaidosa/excêntrica, e que lide com o povo e com seus companheiros com respeito e sinceridade. Que fale a linguagem que o povo compreenda. Que não faça “terra arrasada” nas assembléias e atividades públicas, como se estivesse num combate de “foices” ou esgrima, onde se deve abater o adversário ao invés de contribuir com o coletivo.

Se a utopia do socialismo libertário que queremos ajudar a forjar se faz com uma longa caminhada, os valores que criam os novos sujeitos constituem-se no presente e são inegociáveis. Espera-se que os/as militantes não reproduzam no seu cotidiano formas de opressão – mesmo que sutis –, tampouco de domínio e exploração para com os outros/as companheiros/as de luta e trabalhadores. Sabemos o quão difícil é abandonar valores próprios da cultura burguesa (alguns anteriores a esta) em que vivemos, e fomos cotidianamente formatados (sexismo, machismo, homofobia, competição, racismo, preconceito, etc). Este não é um processo simples, nem imediato, e tampouco se tem a ilusão que uma transformação total e absoluta é possível, como se houvesse um interruptor disponível que possamos acionar. Sabemos que estamos falando de pessoas de carne e osso, mas é preciso sempre pautar a ligação estreita que pretendemos dar, entre a utopia e a ética.

A organização requer apenas o mínimo de autocrítica e lucidez, ao compreender as suscetibilidades que nos formam sob o sistema de dominação que vivemos e a abertura do militante para sua conversão ao projeto libertário. Um programa libertário muito bem formulado dentro dos movimentos e espaços sociais que atuamos pode naufragar completamente se nos comportamos da mesma forma que nossos inimigos de classe ou reproduzimos comportamentos políticos e sociais que condenamos no outro. Não se convence ninguém sem exemplos ou comportamentos aproximados e apropriados à nossa ética libertária, que deve estar refletida em nossas práticas. O ditado popular, identificando a contradição usual entre discurso e ação no seio da sociedade burguesa, já o diz: “Uma ação vale mais do que mil palavras”. Não importa a capacidade de uma organização traduzir racionalmente seus projetos e programas políticos (panfletos, livros, discursos), se seus militantes não conseguem convencer pelos exemplos, sua adesão e coerência ética ao projeto político que pretendem realizar. Obviamente isto não é um projeto simples, mas é importante que seja um horizonte dos que pretendem interferir politicamente na realidade.

A importância da vontade, dos elementos subjetivos e da intenção política no trabalho de base
“O Anarquismo como método para realizar a anarquia por meio da liberdade.” Malatesta

No trabalho cotidiano, ao estimular a organização popular, pode-se identificar uma dimensão mais objetiva da nossa política, que está relacionada às propostas concretas e a um método de se organizar autônomo e independente. Há no entanto uma dimensão subjetiva, intuitiva, que costura todo o trabalho social que fazemos e reforça a importância política de se estar organizado. Esta dimensão reforça e constrói aspectos identitários. Ideal Peres, num dos momentos de rearticulação dos militantes anarquistas cariocas dizia-nos que era preciso “explodir bombas nos corações dos trabalhadores”. Referia-se à necessidade de compartilhar os sentidos, signos e significados da utopia no próprio cotidiano militante e assim transformar, pelas conquistas sociais e políticas, mentes e corações.

Deste modo, nossa vontade de transformação e nossas intenções conformam um imaginário social e político de matriz revolucionária. Pensar nesse imaginário apenas como um modelo acabado e definido (uma ideologia mais ou menos consciente) já prescrito nos livros e brochuras é ignorar toda uma tradição popular que se assenta na resistência histórica da classe. Seguindo a analogia de Neno Vasco, se a ideologia anarquista se pretende o “fermento do bolo” e já o sabemos que a vontade de comer (necessidades materiais) está posta na ordem (capitalista) do dia, lembremos que a “feitura do bolo” é atravessada por práticas de resistência que não podem ser reduzidas apenas ao algoritmo de uma receita. Esses elementos imaginários da classe (símbolos, significados, ícones, representações) estão arraigados na cultura popular e são manejados eficientemente por nossos inimigos, que nesse sentido também propõe e mobilizam ideologicamente alguns milhares ou milhões. Longe de reduzir as questões da transformação radical às oposições dualistas já consagradas pelos debates clássicos (subjetivo x objetivo, material x ideal, etc.) do campo do socialismo, propomos articular esses três elementos. À partir da luta e da auto-organização da classe para resolução de suas necessidades materiais, nos esforçarmos para enraizar a ideologia política operacionalizada pela organização específica anarquista com os elementos imaginários da resistência da classe. Uma tarefa gigantesca, que só pode colher seus frutos, com o esforço coletivo e consciente dos que acreditam na transformação social por uma matriz libertária.

* Texto elaborado em ocasião do Congresso de Fundação da Coordenação Anarquista Brasileira.

[Nordeste] DECLARAÇÃO DO II ENCONTRO DO ANARQUISMO ESPECIFISTA DO NORDESTE

DECLARAÇÃO DO II ENCONTRO DO ANARQUISMO ESPECIFISTA DO NORDESTE

Está dado mais um passo no avanço do Anarquismo Especifista no Nordeste do Brasil. Reunidos em Recife, nos empenhamos em aprofundar o debate sobre o especifismo e estruturação dos agrupamentos políticos em nossa região, com vistas ao nosso fortalecimento e consolidação.

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FORTALECER REGIONALMENTE O ANARQUISMO
DECLARAÇÃO DO II ENCONTRO DO ANARQUISMO ESPECIFISTA DO NORDESTE

Está dado mais um passo no avanço do Anarquismo Especifista no Nordeste do Brasil. Reunidos em Recife, nos empenhamos em aprofundar o debate sobre o especifismo e estruturação dos agrupamentos políticos em nossa região, com vistas ao nosso fortalecimento e consolidação.

Compreendemos que o especifismo está para além de um simples modelo organizativo e significa também o início de uma construção teórica própria dentro do anarquismo. Mesmo que hoje ainda não exista em nosso interior uma teoria comum, já possuímos uma prática política próxima, a qual certamente terá influencia em nosso desenvolvimento teórico unitário.

Dialogamos com clássicos, a exemplo de Bakunin e Malatesta, bem como com a experiência mais recente desenvolvida pelos camaradas da Federação Anarquista Uruguaia (FAU) desde a década de 1950. E, assim, procuramos avançar em construir elementos para nossas formulações próprias em termos teóricos e organizativos a fim de aperfeiçoar nossa prática política e fincar as raízes de nossa ideologia.

Neste desafio, destacamos a importância da minoria ativa como princípio do especifismo. Ou seja, de o anarquismo se articular cada vez mais para fermentar as lutas no seio dos movimentos sociais, visando a construção de posturas mais combativas e horizontais. Em uma expressão: criar um povo forte.

Na luta pela construção do poder popular, assumimos o “poder” enquanto a capacidade de fazer e não a possibilidade de oprimir. É preciso fazer a dissociação entre as noções de “poder” e “domínio”, entendendo domínio como a atitude de usar a força do povo contra ele próprio. Esta concepção é resultado de nossa ideologia e teoria; e influencia nossa estratégia.

Atentos à necessidade de consolidação e expansão do especifismo, nosso encontro faz parte do esforço histórico de alinhamento regional para fortalecer a coordenação nacional das lutas. Neste espírito, saudamos o Fórum do Anarquismo Organizado e outras organizações especifistas na batalha por construir a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), a ser fundada em junho deste ano.

LUTA, CRIAR, PODER POPULAR!
VIVA A ANARQUIA!

Assinam esta declaração:

– Coletivo Anarquista Núcleo Negro (NN) – Pernambuco
– Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP) – Alagoas
– Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE) – Alagoas
– Organização Resistência Libertária (ORL) – Ceará


Reunidos no II Encontro do Anarquismo Especifista do Nordeste
Recife – Pernambuco – Brasil, nos dias 06, 07 e 08 de abril de 2012

Sítios:
Coletivo Anarquista Núcleo Negro (NN) – Pernambuco
http://www.nucleonegro.wordpress.com/
Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP) – Alagoas
http://www.cazp.wordpress.com/
Organização Resistência Libertária (ORL) – Ceará
http://www.resistencialibertaria.org/

“A 10 años del levantamiento de diciembre de 2001 los y las Anarquistas nucleados en FACA seguimos organizados y luchando para Que se vayan todos!”

Retirado: http://www.vermelhoenegro.co.cc/2011/12/10-anos-del-levantamiento-de-diciembre.html

“Debemos trabajar activando entre los no organizados y quizás imposibles de organizar, para despertar en ellos el espíritu de rebelión y el deseo y la esperanza de una vida libre y feliz.”

Errico Malatesta


Se cumple ya una década de una de las más importantes rebeliones populares de la región. Nos referimos a la situación vivida en el año 2001 donde la gente en las calles coreaba el “que se vayan todos, que no quede ni uno solo”. Aquel fue un momento bisagra tomando en cuenta la historia de resistencia previa –que ya llevaba más de 5 años de visibilidad- y el desenlace de las luchas sociales que continuaron hasta la actualidad. La importancia del 19 y 20 de diciembre en si, no se debe solo al quiebre que se hizo de la institucionalidad argentina sacando a un gobierno que, con poca legitimidad, se intentaba mostrar como cambio a la par que practicaba una profunda continuidad de las políticas neoliberales del menemismo. Tampoco la importancia de esta explosión popular en las calles tuvo que ver exclusivamente con haber forzado la renuncia de 4 presidentes en una semana. Sin embargo todo esto no fue menor.

Que se vayan todos ayer y hoy!!

Nos acordamos mucho de aquel 2001 en estos momentos en que el capitalismo y el Estado no solo no han podido darle respuesta a las necesidades de la humanidad en su conjunto sino que se las han ingeniado para hundirla cada vez mas y sumirla en una miseria sin precedentes. Sectores de la población movilizado en Europa y EEUU han tomado las calles para protestar y enfrentarse a los responsables de la crisis, entre ellos banqueros, políticos, empresarios y gurúes de la economía. Todos ellos claros funcionarios de los diferentes estados y poderes económicos asociados para el vaciamiento. En estos casos se ha llegado a invocar el espíritu del 2001 argentino con el fin de enfrentar a un “modelo” caduco. En medio oriente y norte de África la protesta popular apuntó a echar regímenes dictatoriales aunque todavía todas estas movilizaciones populares, no han podido presentar al momento, propuestas organizativas de base que atenten contra el orden establecido.

Se puede visualizar, tanto hoy como ayer, una tendencia general que se viene dando con distintas variantes, pero con ciertos lineamientos comunes como clave de época, y que tiene que ver con la crisis de instituciones en general y de la ruptura del imaginario social con respecto a estas.

Crisis y ruptura que abarca al estado, a los sindicatos corrompidos, a los partidos y políticos del sistema, inclusive a los de la izquierda tradicional, y a sus distintos criterios políticos y organizacionales.

Y si bien ponemos la lupa sobre las consecuencias de la rebelión del 2001 por su magnitud, estas devienen del análisis, como decíamos mas arriba, de todo un cúmulo de procesos anteriores y por tendencias, que si bien con diferencias, se pueden ver en otros procesos de la región. Y esto se demuestra, de un tiempo a esta parte, en que toda vez que parte de la población se inclina hacia los asuntos públicos o de su interés, lo hace autoorganizada y/o movilizada, con desprecio hacia la clase política, aunque se trate del que vaya primero en las encuestas… Lo hace con el imaginario social del 19/20.

Hace 10 años, en este país estábamos la mayoría de la clase oprimida enfrentándonos a los mismos sectores dominantes que hoy oprimen con sus políticas de manera casi calcada en otros lugares del mundo. Estábamos en un contexto latinoamericano de levantamientos como el de Chiapas, luchas por la defensa de recursos como en Bolivia, expropiación de tierras como las de los Sin Tierra en Brasil y puebladas indígenas como las de Ecuador. En ese momento las asambleas vecinales, las tomas de fábrica y el movimiento piquetero entre otros sectores, nos incluíamos en esta gesta latinoamericana combativa y pudimos decir basta en las calles. Sin embargo la falta de un mayor entramado entre los movimientos sociales y una falta de unidad de los mismos, la mezquindad y la nublada visión política de algunos, como la falta de prefiguración concreta de alternativas de sostenimiento de la vida social desde otros paradigmas, hicieron eclosión en el instante en que hubo que improvisar el enfrentamiento y la suplantación de la vieja sociedad. Si por un lado era bienvenida la idea de acabar por completo con las instituciones vigentes no hubo prácticas ni experiencias que hayan dado la posibilidad de tirar abajo el aparato del estado y el capitalismo.

Tensión abierta entre lo viejo y lo nuevo

Lamentablemente la tensión entre lo viejo que no termina de morir y lo nuevo que no termina de nacer, no ha producido por el momento una síntesis favorable para los de abajo. Pero la tensión sigue…

Con la apresurada salida de Eduardo Duhalde del gobierno luego de la masacre de Avellaneda en donde bajo su responsabilidad fueron asesinados dos hijos de nuestro pueblo como Maximiliano Kosteki y Darío Santillán y el advenimiento del Kirchnerismo como proceso, podemos decir que se cierra una de las situaciones mas extraordinarias de efervescencia popular pos dictadura. El reordenamiento institucional y económico, operado por los K, seguido de una retórica antineoliberal en sintonía con otros procesos latinoamericanos, vino a romper con algunas lógicas derivadas de procesos anteriores aunque mantiene en esencia, determinadas características del régimen de dominación más general.

El estado y la clase dominante pudieron en pocos años darse una lavada de cara con un modelo económico extractivo-exportador que minimizaría las consecuencias de la crisis local y la actual crisis internacional, que todavía sigue latente y promete dar nuevos coletazos. Las prácticas de políticas clientelares y prebendarias del duhaldismo y el menemismo fueron reapropiadas por los K posibilitándoles armar una duradera alianza con sectores poderosos de la economía, gobernadores de provincias feudales, “barones” del conurbano bonaerense y burócratas sindicales.

Las políticas llevadas a cabo por el kirchnerismo hicieron estructural la exclusión de sectores populares como los desocupados cada vez más marginados en los barrios, trabajadores tercerizados y precarizados siempre en riesgo a ser despedidos, campesinos del norte corridos por la policía de los grandes terratenientes, y pueblos originarios aun sin tierra entre otros.

A su vez, combinando inteligentemente cooptación de parte de referentes y sectores en lucha y disciplinamiento y deslegitimación de aquellos que seguimos en la pelea, fue configurando un nuevo escenario hegemónico, donde la fragmentación (de la cual los que luchamos por una transformación radical de la sociedad también tenemos que hacernos responsables) es la constante en estos tiempos que corren.

Pero donde hay dominación hay resistencia y por eso, a pesar del aparente avasallamiento de toda la parafernalia efectista de este ultimo proceso, por lo bajo y desde abajo se siguen tejiendo experiencias de construcción y lucha autónomas que recrean y profundizan el espíritu del 19/20 y de la cual los y las anarquistas y con cada vez mas ímpetu vamos formando parte. Y aquí, aparece nuevamente la clave de la ruptura del imaginario social, que si bien hoy se podría ver un tanto desdibujada por la situación de normalidad institucional y de relación de fuerzas desfavorable para la clase oprimida, esta ahí latente y sigue marcando el contexto. Y esto es así porque no es un dato que pueda verse en términos estrictamente políticos, es decir en tiempos de resolución cortos, sino mas bien culturales, de largo alcance y mayor profundidad y consecuencia social.

Así las cosas, podemos ver el vacío que se abre todavía inmenso entre la vieja institucionalidad todavía viva y nuestras construcciones sociales todavía embrionarias. Unas y otras responden a una misma situación y tironean dentro de una brecha que todavía sigue abierta…

El pueblo organizado puede solo!!

Hoy más que nunca al igual que hace 10 años la organización de base y asamblearia se muestra como un camino posible para ir construyendo un poder propio de la clase oprimida y explotada que redunde en una ruptura revolucionaria con desenlace popular y en la posibilidad de sostenimiento de otra forma de coordinación de la vida social. Hoy cuando ya pasó una década de aquel levantamiento aún estamos disputándonos con los de arriba proyectos de sociedad antagónicos.

Los y las anarquistas organizados en FACA, creemos que tenemos que sostener este proyecto de ruptura revolucionaria a través de un arduo trabajo de base participando e impulsando organizaciones populares democráticas y combativas dando todos los días esa disputa con el poder dominante en los escenarios y con los métodos acordes a nuestra estrategia de lucha y construcción de nuevas realidades sociales. Sin jefes ni partidos dirigentes y con independencia de clase y autonomía, reafirmamos que el camino consiste en la destrucción del Estado en tanto especial ámbito institucional de dominación, que produce y reproduce éstas relaciones, y en la supresión de las formas gubernamentales que constituyen un poder que expropia y aliena la capacidad de decisión de la vida social del conjunto de la población. Desde nuestra posición de un anarquismo de intensión social y revolucionaria pensamos que las prácticas organizativas de base actuales, son el embrión de un poder propio de la clase oprimida. Representan la puesta en práctica de una praxis prefigurativa libertaria que combatiendo al Estado pueda ser alternativa de organización social desde abajo.

La lección de hace diez años nos muestra el lugar donde tenemos que estar los y las anarquistas cuando el pueblo diga basta! Esos lugares no son otros que el barrio, los espacios de estudio y trabajo, el campo y cualquier lugar en donde se padezca la injusticia de un sistema de dominación estatal y capitalista, aportando propuestas, proyección, capacidad organizativa, de articulación y lucha con horizonte transformador. Solo así podremos darle características libertarias a un nuevo proceso que intente en un próximo capítulo de nuestra historia que el “Que se vayan todos” sea acompañado por nuestra experiencia como pueblo de hacernos cargo del futuro de nuestras vidas.

Abajo el Estado!

Arriba lxs que luchan!

Viva la Anarquía!

[CURITIBA] Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

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Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Curitiba 23-24 de julho de 2011

FORMAÇÃO REGIONAL DO FAO EM CURITIBA

Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

Marcado pelo clima de solidariedade e pela calorosa recepção, todos os presentes puderam discutir durante dois dias distintos temas em torno do anarquismo que, por meio da dinâmica adotada, puderam apreender e debater significativamente, o que certamente acrescenta muito ao processo nacional brasileiro que o FAO vem buscando impulsionar desde 2002 quando foi fundado.

A formação teve uma agenda densa, com distintos temas que tinham por objetivo fortalecer teoricamente o conjunto da militância. Foi trabalhada em cinco eixos fundamentais: A formação política da corrente libertária (uma leitura do anarquismo), história social de processos revolucionários com participação anarquista, teoria da organização política anarquista, marco teórico e categorias de análise (método de análise) e via estratégica e poder popular. O eixo propaganda de intervenção foi tratado apenas brevemente.

Descrevemos muito sinteticamente os temas tratados para dar uma idéia ao leitor do conteúdo da formação.

Vale reforçar que a formação foi ministrada pela FAG e que, por isso, o conteúdo reflete a sua elaboração teórica, que tem muitas similaridades e algumas diferenças em relação a outras organizações que compõem o FAO. Nesse sentido, todo o conteúdo é de sua responsabilidade e queremos que ele contribua para o debate e o fortalecimento de nossa corrente.

Temos todo interesse de fortalecer o processo organizativo nas regiões e – no caso específico dessa formação conduzida pela FAG – de impulsionar, além do próprio Rio Grande do Sul, os estados de Santa Catarina, Paraná. Havendo interesse de aproximação nessas regiões, não deixe de nos escrever. Outras organizações do Brasil encarregam-se no momento de outras regiões; por isso, se houver interesse de militantes de outras regiões, entre em contato e daremos o encaminhamento necessário. Pedimos aos interessados que entrem em contato pelo e-mail fagsorg@riseup.net.

A FORMAÇÃO POLÍTICA DA CORRENTE LIBERTÁRIA (UMA LEITURA DO ANARQUISMO)
“Nós, os socialistas-anarquistas, existimos como partido separado,
como programa substancialmente constante, desde 1868,
quando Bakunin fundou a Aliança; e fomos nós os
fundadores e a alma do rumo antiautoritário da
‘Associação Internacional dos Trabalhadores’”
Errico Malatesta

Nesse tema, buscaram-se respostas às questões: O que é o anarquismo? Quando ele surgiu? Quais são suas principais correntes estratégicas-táticas?.

Contrapôs-se a definição do anarquismo como um fenômeno ahistórico, que o inscreve no campo das práticas e discursos de uma ética humanista e libertária, independente das condições sociais e históricas. Afirmou-se, distintamente, que foi na segunda metade do século XIX, quando o capitalismo industrial se desenvolvia na Europa e as primeiras grandes lutas da classe operária tinham lugar, que a ideologia anarquista nasceu e ganhou expressão em práticas políticas de oposição ao socialismo legalista, estatista ou reformista. O anarquismo é a corrente libertária do socialismo, forjada historicamente na luta de classes como crítica, proposta e ação revolucionária.

O anarquismo ganhou variantes estratégicas na sua dinâmica, agregou elementos de discurso para pensar novas circunstâncias histórico-concretas e incorporou/desenvolveu modos específicos de organizar e expressar o socialismo e a liberdade nos conflitos sociais segundo seu tempo e lugar. É a referência histórica de um tronco de princípios e fundamentos que marcam a continuidade dessa tradição revolucionária na luta contra o capitalismo e os modelos de dominação.

O desenvolvimento de suas principais correntes estratégicas-táticas se deu por algumas escolas, organizações e por alguns autores do campo popular e socialista: o mutualismo operário e o socialismo de P.-J. Proudhon; Bakunin, a Aliança da Democracia Socialista e sua atuação na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT ou Primeira Internacional); o comunismo anarquista de Kropotkin e Malatesta; a propaganda pelo fato e o “individualismo tático” (não confundir com o individualismo de matriz individualista como o de Godwin, Stirner etc.); o sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo.

HISTÓRIA SOCIAL DE PROCESSOS REVOLUCIONÁRIOS COM PARTICIPAÇÃO ANARQUISTA

Os anarquistas têm protagonismo numa rica história social em que a guerra social, a revolução e o projeto constituíram lutas libertárias contra a ordem burguesa. A formação teve por objetivo a discussão, com alguma profundidade sobre alguns desses episódios da história social: Primeira Internacional, Comuna de Paris, o sindicalismo revolucionário no Brasil, Revolução Mexicana, Revolução Russa e Revolução Espanhola.

O espírito que permeou a discussão era o seguinte: buscar compreender os principais fatos do episódio revolucionário, avaliando quais foram seus aspectos positivos e negativos. Em suma, buscar aprender com esses processos e tirar deles lições que poderiam fortalecer as posições anarquistas em todos os sentidos e evitar que se cometam erros similares aos que foram cometidos no passado. Pontua-se abaixo alguns aspectos desses processos.

Primeira Internacional
A Associação Internacional dos Trabalhadores é a organização histórica do movimento operário revolucionário fundada em 1864 por inspiração do mutualismo proudhoniano e dos sindicalistas ingleses. A experiência dos internacionais dura até 1872, quando Bakunin, J. Guillaume, companheiros da ala federalista, são expulsos por um congresso fraudulento formado por uma maioria de aliados de Marx. As posições da ala federalista na Primeira Internacional lança as bases do que viria a se chamar sindicalismo revolucionário: solidariedade operária, independência de classe, táticas de ação direta.

Comuna de Paris
Uma insurreição popular toma conta da cidade de Paris, com apoio da Guarda Nacional e expulsa as autoridades. A Comuna de Paris é criada em 18 de março de 1871. A Comuna era constituída pelo comitê central de uma federação de delegados de bairro, com mandatos revogáveis e remuneração igual a dos operários. Louise Michel foi uma ativa militante da Comuna, junto de outros, tornando-se anarquista durante o processo de luta.

Sindicalismo revolucionário e luta libertária no Brasil
No Brasil, a atuação anarquista vai se dar, sobretudo, no impulso e na organização dos primeiros sindicatos de resistência e em grupos para a propaganda e a articulação na luta operária. Com o anarquismo, o movimento operário ganha definição classista, táticas de greve, sabotagem, forma uma cultura de resistência com imprensa, escolas, teatro. É realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, em 1906, de orientação sindicalista revolucionária, que funda a Confederação Operária Brasileira (COB). Lutas contra a carestia de vida, greves por redução de jornada, baixos salários, direitos sociais são heranças dessa época.

Magonistas e zapatistas na Revolução Mexicana
Em confronto com a ditadura do governo oligárquico de Porfírio Diaz, o latifúndio e os capitalistas estrangeiros, é desatada a revolução em 20 de novembro de 1910, tendo como precursora as agitações do Partido Liberal Mexicano (PLM). As forças liberais burguesas ocuparam a cena dos acontecimentos para chegar ao poder por uma revolução política. Uma disputa violenta entre coalizões e partidos se sucedeu até 1920. Os anarquistas do PLM e Ricardo F. Magón lançaram sua guerrilha do norte por uma revolução social. O exército camponês de Emiliano Zapata lutou por uma reforma agrária radical e fez do Estado de Morelos ao sul uma zona de municipalismo autônomo zapatista.

Revolução Russa e o poder dos sovietes
Pelo fim da guerra, contra a fome e a miséria que dilacerava o povo se levantou a luta revolucionária contra o Império dos czares russo. Em outubro de 1917 a revolução socialista colocou as fábricas na mão dos operários, deu a terra aos camponeses e liquidou os restos do sistema feudal. Socialistas e anarquistas faziam frente única até a que o partido comunista monopoliza o poder estatal e a sua burocracia usurpa o poder dos sovietes. O exército makhnovista da Ucrânia e os marinheiros de Kronstadt defendem até a morte os sovietes como órgãos de poder popular revolucionário.

Guerra e Revolução Espanhola
Quando as tropas reacionárias do general Franco se sublevam em 18 de julho de 1936 colidem imediata-mente com a radicalização do proletariado. Se abre uma guerra em toda a Espanha que para os anarquistas será a vez de aplicar seus planos de revolução social. O anarquismo mobilizava a maior força social de todo o país. Tinha na Confederación Nacional del Trabajo (CNT) cerca de 2 milhões de trabalhadores organizados pelo anarco-sindicalismo. A revolução espanhola fez coletivizações agrícolas no campo e socialização de cadeias produtivas na indústria e serviços públicos.

TEORIA DA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ANARQUISTA
“Possuir a capacidade política é ter consciência de si
como membro de uma coletividade,
afirmar a idéia que daí resulta e perseguir sua realização.”
P.-J. Proudhon

“O anarquismo é o viajante que toma as ruas da história
e luta com os homens tais como são e constrói
com as pedras que lhe proporciona sua época.”
Camillo Berneri

A tema da teoria da organização política foi tratado a partir de cinco eixos principais: prática política, organização específica, estratégia e tática, ação de massas e luta avançada. Serão pontuados alguns aspectos em relação aos eixos.

Prática política
A teoria aponta para a elaboração de conceitos e de um método para pensar e conhecer rigorosamente a realidade social e histórica. A análise profunda e rigorosa de uma situação concreta será um trabalho teórico o mais científico possível. A ideologia é composta de elementos de natureza não científica, que contribuem para dinamizar a ação. A expressão de motivações, a proposta de objetivos, de aspirações, de metas ideais, isso pertence ao campo da ideologia. Uma prática política eficaz exige o conhecimento da realidade (teoria), a postulação harmônica com ela de valores objetivos de transformação (ideologia) e meios políticos concretos para conquistá-la (prática política).

Organização específica anarquista
Para distinguir seu programa e não diluir sua bandeira na massa das forças sociais os anarquistas formam uma organização específica para a prática política. Por suas finalidades revolucionárias, a organização só reúne uma minoria ativa para poder atuar na luta pública e fora dela. A organização é uma federação de militantes com unidade ideológica e estratégico-tática, com democracia interna e uma disciplina consciente para suas realizações. O anarquismo organizado não substitui nem representa as organizações sindicais e populares. Dentro dessa concepção, não é um partido para tomar o poder, mas para ajudar a desenvolver capacidade política nas massas para construir poder popular.

Estratégia e tática
A atividade de uma organização política supõe uma previsão do devir possível dos acontecimentos durante um lapso mais ou menos prolongado, previsão que inclui a linha de ação a adotar pela organização frente a esses acontecimentos de maneira a influir sobre eles no sentido mais eficaz e adequado. Uma linha estratégica é, habitualmente, válida enquanto perdura a situação geral a qual corresponde. As opções táticas, na medida em que respondem a problemas mais precisos, concretos e imediatos, podem ser mais variadas, mais flexíveis. Sem dúvida não podem estar em contradição com a estratégia.

Ação de massas
A organização das forças populares, dos movimentos e organizações das classes oprimidas é parte fundamental da estratégia anarquista. Estar organizado socialmente e inserido nas lutas é um critério para atuar como força política. A classe trabalhadora e os movimentos sociais devem se organizar com independência de governos, partidos e patrões. A luta de massas é um espaço para fazer unidade em defesa dos interesses de classe. O anarquismo deve atuar como fermento moral e intelectual, levando seus métodos de luta e organização como um anticorpo de luta permanente contra a burocracia, o centralismo autoritário e a colaboracionismo. O lugar das ideologias na frente social não é o de protagonismo imediato, de partidarização, mas circulação de idéias, métodos e valores a partir das situações concretas que formam as experiências da luta.

Luta avançada
O problema da violência, como categoria da política, é fundamental num processo revolucionário que procure abater as estruturas de poder do capitalismo. A luta avançada é uma parte decisiva da prática política de uma organização revolucionária que atua também, com uma estratégia articulada e global, no nível das lutas populares. A luta revolucionária por objetivos socialistas deve contar com o protagonismo de um setor importante das massas e por isso não dispensa o trabalho político e ideológico no interior dos seus movimentos. A organização de uma força militante como elemento de choque e recurso técnico prévio da radicalização das lutas contra o poder burguês é uma exigência para uma estratégia vitoriosa de revolução social.

MARCO TEÓRICO E CATEGORIAS DE ANÁLISE (MÉTODO DE ANÁLISE)

Para o trabalho de análise, com a utilização de um método determinado, houve a necessidade de distinguir, como colocado, as categorias de ideologia e estratégia. A formação pontuou: O socialismo é uma aspiração, uma esperança dos povos e das classes oprimidas (ideologia). Mas precisa ter sua elaboração teórica, vinculada ao terreno do saber, dos estudos e da análise social rigorosa (teoria). Isso implica, portanto, ter claro quais são os elementos mais fixos que constituem a ideologia, e quais são os elementos teóricos, que funcionarão como uma caixa de ferramentas e que terão por objetivo proporcionar elementos para que se possa conhecer; nesse sentido, as ferramentas teóricas não têm, necessariamente, de ser anarquistas, ainda que se deva ter em conta a relação entre ideologia e teoria, ferramentas que devem proporcionar elementos para uma compreensão adequada do sistema, das formações sociais, da conjuntura. Nesse sentido, a teoria busca conhecer e a ideologia transformar.

Capitalismo como sistema de dominação
O capitalismo é um sistema. Sistema é um conceito para discernir o “núcleo duro”, a configuração dos elementos constitutivos que fundam e dão sentido a uma totalidade social. O capitalismo constitui um sistema de dominação que tem por constituição fundamental alguns elementos: Propriedade privada; exploração; disciplinamento dos corpos; a modalidade de representação, administração e justiça; um sistema coercitivo e repressivo; a existência de classes sociais; exclusão social. Esse sistema de dominação está formado por uma estrutura global formada por distintas esferas, entre elas: estrutura econômica; estrutura política-jurídica-militar; estrutura ideológica-cultural (idéias, representações, comportamentos, modo de informação, tecnologias de poder a ela unidas). Estrutura é o conjunto de elementos de uma organização social e suas relações, presentes no sistema de dominação. O capitalismo, concebido globalmente como sistema de dominação, possui agentes que impulsionam essa dominação em todas as esferas. Por exemplo: Política: organizações internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC, União Européia, OTAN, etc); Economia: empresas transnacionais, bancos; Ideológico: conglomerados de mídia.

Interdependência das esferas
O método apresentado na formação baseia-se na interdependência das esferas e, portanto, entende o sistema como um todo no qual uma esfera influencia, sustenta e torna as outras dependentes. O sistema de dominação (capitalismo) é constituído por uma estrutura global formada por distintas esferas, estrutura esta que não têm determinação outra a não ser a interdependência. As distintas esferas da estrutura tem autonomia relativa, com elementos específicos que constituem no seu interior outras esferas menores. A dominância de uma estrutura sobre a outra não se estabelece a priori, é produto das análises respectivas. O sistema de dominação é dinâmico e atravessa várias etapas históricas mantendo elementos estruturais que o reproduzem de distintas maneiras.

Poder, dominação, resistência e as distintas esferas da sociedade
A estruturação da sociedade está baseada em última análise nas relações de poder e dominação, relações fundamentais que atravessam todas as esferas e configuram modos de articulação da estrutura global com seu característico núcleo duro. O poder circula por todo o corpo social, pelas diferentes esferas estruturadas. Vale dizer por todas as relações sociais. O poder está nas relações sociais, nos diferentes campos das relações sociais e o aparelho de Estado estaria contendo com toda sua dimensão, circulando pelo seu interior,certa síntese de poder dominante. Sendo assim, o poder não reside nas estruturas nem nas instituições, mas no campo das relações sociais. E não somente no político, mas também no econômico, ideológico, jurídico e todas as instituições do sistema. Teríamos assim poder no econômico, jurídico-político-militar, ideológico-cultural. Nesse sentido, há resistências nas distintas esferas que podem ser maiores ou menores, mais ou menos ameaçadoras ao sistema de dominação.

Poder e Estado
As instituições, os aparelhos, as estruturas não são amorfas, estão sempre penetradas pelo poder. Articulada a estrutura de produção, por exemplo, está o poder, as classes e as lutas. O aparelho de Estado contém certa síntese de poder dominante que circula no seu interior. Não se pode definir o Estado como o conjunto da sociedade e nem equiparar Estado e poder. O Estado é o lugar de “condensação” de diversos poderes, um lugar específico que tem sua própria “autonomia relativa” e que é capaz de manter e reproduzir privilégios de diferentes ordens. Sua dinâmica é centralizadora, apta só para dominação, sua função é repressora e controladora. Os conceitos básicos para o Estado o definem como monopólio da força repressiva organizada, da “justiça”, estrutura de privilégios, centralizadora, anuladora do que não controla.

Formações sociais e conjuntura
As formações sociais concretas são o campo da análise descritiva de sociedades históricas onde o sistema de dominação tem determinação em estado prático. O grupo de acontecimentos que marcam um momento específico das formações sociais e suas estruturas fundamentais formam a conjuntura.

Ideologia e sujeito
Determinados momentos históricos produzem com peso um conjunto articulado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos distintos sujeitos sociais. Um conjunto articulado de caráter imaginário, que toma a forma de “certezas” defendidas pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes. Isto é o que chamamos de ideologia (não confundir a ideologia da sociedade que se fala aqui com a ideologia anarquista, tratada anteriormente). Ideologia não é falsa consciência. O sujeito real não está representado na figura do “eu”, na consciência, mas é constituído na estrutura do inconsciente, isto é, nas formações ideológicas em que ele se reconhece. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. É construindo força social e tomando ativa participação nela que se podem formar embriões da nova civilização ou do “homem novo”, de outro sujeito. Digamos que este é o tema de como se transforma a consciência, para usar a linguagem clássica. Pelo que tem se visto a economia por si não transforma a consciência. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. O que está no centro da história não é o homem, mas as lutas de poder e economia. Os fazedores de história seriam especialmente classes (grandes coletivos) operando como forças sociais.

VIA ESTRATÉGICA E PODER POPULAR
“O socialismo sem liberdade é a escravidão e a brutalidade;
a liberdade sem socialismo é a injustiça e o privilégio.”
Mikhail Bakunin

O anarquismo postula no processo de lutas uma ruptura revolucionária com a ordem porque é condição para fazer um caminho de construção final de uma sociedade socialista e libertária. O processo revolucionário, na mesma medida que desarticula as estruturas de dominação, abre caminhos para a construção do poder popular, concebido como o poder revolucionário protagonizado pelas organizações populares. Onde o político e o social adquirem uma nova articulação que o assegure. A viabilidade desta concepção do poder popular está vinculada com uma definição determinada da ruptura revolucionária. Dela dependem tanto o curso que possa seguir o processo revolucionário como as características concretas do confronto com as forças repressivas do Estado. Vamos conceber a ruptura nos termos de uma insurreição popular. Essa opção implica uma maior, mais ampla e mais decisiva participação das organizações populares. A construção do poder popular requer a preparação das organizações populares destinadas ao seu exercício. Não se trata de dar o nome de “poder popular” as velhas e conhecidas formas de ação política e representação que excluem o povo de toda instância de decisão fundamental. Criar ou recriar, fortalecer e consolidar as organizações operárias e populares e defender seu protagonismo é ir fecundando, passo a passo, um socialismo com liberdade. Importa muito como se orienta e concretiza o trabalho político e social permanentemente. É próprio da estrutura política especial do Estado a separação entre sociedade e poder, povo e política, sua reprodução institucional e pelo discurso de uma autoridade superior atribuída de impessoalidade que regula a vida social. Uma estratégia de poder popular deve levar em conta a necessidade uma nova estruturação político-social que descanse no protagonismo das organizações populares e articule o poder em torno da participação das bases nas decisões fundamentais do processo político da sociedade. A revolução que queremos é uma revolução socialista e libertária, portanto delimita desde o princípio amigos e inimigos. Uma revolução anticapitalista e antiautoritária aponta inconfundivelmente ao desaparecimento das relações de dominação e, assim, contra a sobrevivência de todas as classes e camadas dominantes. É uma revolução que pretende o desaparecimento da burguesia como classe, o desaparecimento de latifundiários e capitalistas, castas militares e hierarquias estatais. A revolução socialista e libertária só pode encontrar combatentes nas classes oprimidas. A frente de classes oprimidas a que nos referimos se constitui como uma rede de relações permanente, ligada programaticamente, da multiplicidade de organizações de base capazes de expressar na luta os interesses imediatos destes setores sociais e de desenvolvê-los e aprofundá-los no sentido de metas e orientações do tipo transformador e socialista.

A CONSTRUÇÃO DO ANARQUISMO DE BASE ESPECIFISTA NO BRASIL

A formação realizada em Curitiba, conforme avaliação do FAO, foi uma experiência muito relevante. Realizada pela FAG anteriormente para seu conjunto de militantes, pôde ser aperfeiçoada e estendida a um coletivo mais amplo. Essa atividade de formação evidenciou a necessidade de construção de um material próprio de formação, capaz de potencializar aquilo que se convencionou chamar de anarquismo especifista no Brasil.

O momento parece bastante propício. O FAO constitui um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista. O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma verdadeira organização anarquista no Brasil, de caráter especifista. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já. Fazem parte do FAO hoje, cinco organizações pelo Brasil: Federação Anarquista Gaúcha (FAG), do Rio Grande do Sul; Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP), de Alagoas; Rusga Libertária, do Mato Grosso; Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), do Rio de Janeiro e a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo. Encontram-se em processo de aproximação organizações e grupos dos seguintes estados: Santa Catarina, Paraná, Ceará, Pernambuco, além de individualidades em outros estados. Portanto, esse momento tão importante para o anarquismo especifista que avança lutando e organizando, forjando as bases para uma unidade que permita constituir uma organização nacional.

Temos abertamente a intenção de fortalecer os estados em que estamos presentes e de conseguir aproximar a militância de outros estados, afim de fortalecer esse processo organizativo. Se você se interessa pelas nossas propostas, não deixe de entrar em contato!

Não tá morto quem peleia!
Arriba los que luchan!

Militância envolvida no Primeiro Curso de Formação Política da Região Sul
Fórum do Anarquismo Organizado – Brasil

http://www.vermelhoenegro.org

Declaração de Princípios e Intenções (FAO)
http://www.anarkismo.net/article/17346

Julho de 2011

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É Publicada a Carta de Apresentação do Coletivo Anarquista Luta de Classe!

 

CARTA DE APRESENTAÇÃO DO COLETIVO ANARQUISTA LUTA DE CLASSE

“Como nosso Partido não é composto de politicastros nem de caçadores de cargos, senão proletários que não têm outra ambição além de se verem livres da escravidão do salário, agora que a oportunidade se apresenta, vai direto a seu objetivo: a emancipação econômica da classe trabalhadora por meio da expropriação da terra e da maquinaria.”[1]

(Ricardo Flores Magón 1874 – 1922)

 Saúde companheir@s! Essa é a Carta de Apresentação do Coletivo Anarquista Luta de Classe – CALC – formado a partir do ano de 2008. Ela fala dos nossos objetivos, princípios, atividades, com referência no Anarquismo Social e Organizado. Desde 2008 iniciamos um trabalho de propaganda e revenda de livros, distribuindo jornais e periódicos, apoiando as editoras libertárias e a Cooperativa de Distribuição Faísca, procurando levar “nossa banca” para atividades dos movimentos sociais, como assembléias, plenárias ou seminários, além dos espaços da Universidade Pública, onde nos encontramos trabalhando uma semana por mês, sempre no decorrer do período letivo. Compreendendo a importância da teoria e da prática anarquista, tanto para as ciências engajadas, quanto para a luta de emancipação dos explorados, escolhemos revender os títulos e obras que, traduzidos e editados por outros companheiros e organizações, estão disponíveis para venda. Além da propaganda, temos como objetivos a geração de renda, o apoio aos movimentos sociais, a formação de um grupo estudos e a constituição de uma organização anarquista local.

Nosso grupo defende:

[…] o anarquismo como uma ideologia que fornece orientação para a ação no sentido de substituir o capitalismo, o Estado e suas instituições, pelo socialismo libertário – sistema baseado na autogestão e no federalismo –, sem quaisquer pretensões científicas ou proféticas. Como outras ideologias, o anarquismo possui história e contexto específicos. Ele não nasce de intelectuais ou pensadores descolados da prática, que buscavam apenas a reflexão abstrata. O anarquismo tem sua história desenvolvida no seio das grandes lutas de classe do século XIX, quando é teorizado por Proudhon, e toma corpo em meio à Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), com a atuação de Bakunin, Guillaume, Reclus e outros que defendiam o socialismo revolucionário, em oposição ao socialismo reformista, legalista ou estatista. Esta tendência da AIT foi futuramente conhecida por “federalista” ou “antiautoritária” e teve sua continuidade na militância de Kropotkin, Malatesta e outros.”[2].

Por isso buscamos um retorno organizado às lutas sociais, esperando que outros companheiros e companheiras da cidade de Curitiba e do Paraná venham se juntar a nós. Assim, acreditamos que será possível retomarmos o caráter social e classista que o anarquismo sempre portou, pois se continuarmos desorganizados ideologicamente não constituiremos uma força política capaz de intervir na dinâmica das lutas sociais, o que só interessa aos nossos adversários e inimigos de classe.

O Anarquismo Social não é uma proposta abstrata, e sim um projeto político que parte de uma realidade concreta, que é a luta de classes. Para tanto, trabalha com princípios do Socialismo Libertário que estão presentes na nossa tradição, e que, se constituem enquanto guias para uma prática política coerente com nossos objetivos finalistas, animando internamente as federações e grupos ácratas. São eles: a Liberdade e a Ética, o Classismo e o Internacionalismo, a Ação Direta e a Democracia Direta, a Ecologia e o Apoio Mútuo, o Federalismo e a Autogestão, a Prática Política e a Inserção Social.

Atuando como grupo orgânico identificado com o Anarquismo Social, o CALC defende a necessidade da organização anarquista enquanto ferramenta de emancipação dos explorados. Entendemos que a organização anarquista específica: “[…} não substitui a organização das classes exploradas, mas proporciona aos anarquistas a chance de se colocar a serviço delas”[3]. Para potencializar nossa prática política devemos consolidar uma unidade teórica e tática, trabalhos sociais junto aos explorados, além de formar militantes com responsabilidade, compromisso e auto-disciplina. Porque entendemos como fundamental a organização e a responsabilidade por parte do grupo e de seus militantes, o que não se confunde com hierarquia e autoritarismo. Ao contrário, o grupo orgânico é: […] o agrupamento de indivíduos anarquistas que, por meio de suas próprias vontades e do livre acordo, trabalham juntos com objetivos bem determinados. […] Esta organização é fundamentada em acordos fraternais, tanto para seu funcionamento interno, quanto para sua atuação externa, não havendo em seu seio relações de dominação, exploração ou mesmo alienação, o que a constitui uma organização libertária.”[4].

Queremos somar aos esforços que tenham como horizonte político um projeto classista e socialista libertário, entrando em acordo e trabalhando junto às demais organizações políticas anarquistas, assim também como os movimentos sociais combativos e autônomos. Só dessa forma poderemos mudar a atual relação de forças, ombro a ombro, lado a lado, construindo a organização popular, sem sectarismo, com identidade ideológica, mas sem se colocar a frente das classes exploradas nas lutas sociais que elas devem protagonizar. Como já havia dito Malatesta, nós anarquistas: “[…] não podemos emancipar o povo, queremos que o povo se emancipe. Não acreditamos no bem que vem do alto e se impõe pela força; queremos que o novo modo de vida social surja das vísceras do povo […].”[5]. E com esse entendimento que reivindicamos o Anarquismo Social e Organizado, definindo assim nosso campo de militância.


[1] Retirado do livro publicado pela Editora Imaginário, com alguns escritos de Ricardo Flores Magón.

[2] Retirado do livro “Anarquismo Social e Organização” – página 18. O livro é de autoria da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, tendo sido publicado pela Editora Faísca no ano de 2009.

[3] Idem – páginas 131 e 132.

[4] Idem – página 128.

[5] Idem – página 194.

CALC assina Declaração de Princípios e Intenções do FAO

Declaração de Princípios e Intenções do Fórum do Anarquismo Organizado
Declaração de princípios e intenções do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), aprovada no Encontro Nacional de 2010, ocorido em Porto Alegre.
O Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) é um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista.
O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma organização anarquista no Brasil. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já.
No Encontro Nacional de 2010, realizado em Porto Alegre, os grupos e organizações presentes entenderam que era o momento de aprofundar a organicidade e prosseguir em relação aos objetivos previamente estabelecidos.
Por isso, após intensas discussões, deliberamos que deveríamos dar um salto qualitativo e ir além dos dois eixos propostos anteriormente: a organização e a inserção social. Entendendo que eles já estão incorporados em nossos grupos e organizações e que a questão da organização e da inserção social não são mais tão polêmicas nos meios anarquistas – e a atuação dos grupos e organizações e do próprio FAO contribuíram significativamente para isso –, decidimos dar mais um passo para a construção de uma organização de âmbito nacional, que sempre foi um de nossos objetivos.
O passo seguinte é, para nós, aprofundar a organicidade, e foi assim que decidimos adotar o especifismo, como forma de organização anarquista para os grupos e organizações do FAO, estabelecendo princípios políticos e ideológicos que definem, em nossa concepção, tanto o anarquismo, como essa opção organizativa. Com esse objetivo, o Encontro Nacional reformulou a definição do FAO (ainda que ele continue sendo um fórum), estabeleceu seus princípios, assim como a estratégia a ser defendida, e reviu seus compromissos. Abaixo seguem as resoluções do Encontro em torno desses temas.
DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS E INTENÇÕESFÓRUM DO ANARQUISMO ORGANIZADOUm processo em construção
O Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) existe desde 2002 e, até 2010, foi um espaço de articulação entre indivíduos, grupos e organizações anarquistas, que concordavam com dois eixos fundamentais: a organização e a inserção social. Foram esses dois eixos nos deram fundamentos teóricos e práticos nesses oito anos; lutar para organizar e organizar para lutar foram as consignas utilizadas para agregar a militância e nortear nossos grupos e organizações.
Lutar para Organizar!


“Nós já o repetimos: sem organização, livre ou imposta,
não pode existir sociedade; sem organização consciente
e desejada, não pode haver nem liberdade, nem garantia de que
os interesses daqueles que vivem em sociedade sejam respeitados.
E quem não se organiza, quem não procura a cooperação dos outros
e não oferece a sua, em condições de reciprocidade
e de solidariedade, põe-se necessariamente em estado
de inferioridade e permanece uma engrenagem inconsciente
no mecanismo social que outros acionam a seu modo, e em sua vantagem.”

Errico Malatesta

A questão da organização é muito antiga no meio anarquista. Há mais de cem anos Malatesta já abordava o tema. Por mais que nos pareça uma questão simples, ainda há muita confusão a respeito e tem muita gente que sinceramente pensa que anarquismo é contra qualquer forma de organização, que organização seria burocracia, autoritarismo, etc. Isso é compreensível, afinal de contas, os modelos de organização concretos que as pessoas conheceram (como os partidos autoritários, centralizados e eleitoreiros) não animam ninguém a pensar no tema. Mas é necessário romper com isso, perceber que esta foi apenas “uma” forma de organização e não “a” forma.

O anarquismo sempre teve outras formas de organização, horizontais, participativas e federativas; basta olharmos Bakunin, Malatesta, Makhno, a Federação Anarquista Ibérica, a Federação Anarquista Uruguaia, os anarquistas sindicalistas, etc. Já é hora da necessidade de nos organizarmos superar o medo de nos burocratizarmos. Discutir organização hoje em dia não é somente uma questão de retomar a história do anarquismo, mas, sobretudo uma necessidade real. Diante de um sistema articulado, bem informado e com capacidade operativa, não podemos ficar atomizados.

“Permanecer isolado, agindo ou querendo agir cada um por sua conta, sem se entender com os outros, sem preparar-se, sem enfeixar as fracas forças dos isolados, significa condenar-se à fraqueza, desperdiçar sua energia em pequenos atos ineficazes, perder rapidamente a fé no objetivo e cair na completa inanição.” (Malatesta, 1897)

Além disso, a organização multiplica nossas forças, nos permite a prevenção e defesa diante da repressão – por sinal, cada vez mais forte – e torna real a solidariedade tantas vezes apenas escrita e falada. Sabemos que existem vários/as anarquistas contrários à idéia de organização, em sua maioria anarquistas individualistas. Não são mais ou menos anarquistas do que nós por isso, apenas anarquistas de outro tipo, de outra concepção. Que eles sigam seu caminho. Nós seguiremos o nosso com todo direito de fazê-lo. Porque pensamos que para enfrentar este sistema capitalista é preciso estar organizados.

Organizar para lutar! Inserção e militância social
“(…) favorecer as organizações populares de todo tipo
é a conseqüência lógica de nossas idéias fundamentais
e, assim, deveria fazer parte integrante de nosso programa.”
Errico Malatesta


O anarquismo é composto por uma diversidade de correntes, isso é uma verdade. Mas também é verdade que nem todas elas se dispõem a trabalhar junto à nossa classe, ao nosso povo. Historicamente, tivemos momentos de presença anarquista muito forte na Ucrânia com a makhnovitschina, na Revolução Espanhola, na Revolução Mexicana, com o sindicalismo revolucionário por toda a América Latina, isso para não falar de inúmeras outras experiências. Em todos estes casos, que são referência – ao menos teórica – para todos os anarquistas, existiram anarquistas organizados, com postura classista e com atuação social decidida. Pode-se afirmar que em todos os casos onde o anarquismo foi expressivo havia inserção e militância social.

Vivemos uma época em que a miséria se aprofunda cada vez mais, o abismo entre as classes é maior hoje do que há cem anos atrás. 85% da população mundial é pobre ou miserável. Somente no Brasil existem 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria. As manifestações desta miséria são brutais e estão aí para quem quiser ver.

Não perdemos a capacidade de nos indignar, de nos revoltar diante destas agressões permanentes, “não ficaremos na nossa” ou “cada um na sua”, até porque sofremos diretamente com tudo isso. Pensamos que o anarquismo tem algo a dizer sobre esta realidade. Pensamos que o anarquismo tem propostas e que ele vive nesta realidade e não fechado em ambientes seguros e distantes do mundo concreto.

Os anarquistas têm exercido diversas formas de atuação. Muitos mantêm relações entre si, publicam boletins, promovem encontros libertários, colocam páginas na internet, editam livros, criam canais de informação alternativos, etc. Tudo isso é importante e necessário. Mas será que temos dado a devida atenção a um tipo de militância que é a fundamental: a atuação social junto aos movimentos populares, nos bairros, escolas, universidades, espaços de trabalho, etc? Felizmente existem anarquistas que já fazem isso de várias formas, mas sinceramente pensamos que é pouco, e não falamos isso sobre os outros anarquistas, nos incluímos entre aqueles que precisam melhorar e aprofundar a inserção e militância social. Pensamos que todas as atividades de contatos, publicações, encontros, livros se enriqueceriam muito se estivessem articuladas com uma atuação social por parte dos anarquistas. Há diversos grupos e organizações anarquistas que têm buscado se inserir socialmente há vários anos. Existem diversas experiências de atuação social acumuladas nos últimos anos, do movimento sem-teto ao movimento estudantil, dos bairros de periferia ao trabalho sindical, nas lutas contra o neoliberalismo, anarquistas têm estado presentes e isso nos permite discutir melhor o tema.

Por isso tudo pensamos que é fundamental discutir como os anarquistas podem atuar socialmente, que relações se estabelecem entre os anarquistas e os movimentos sociais, que tipos de atuação seriam mais ou menos interessantes, etc. Sobretudo pensamos que os anarquistas não farão a revolução sozinhos, e que se não tivermos uma militância nas lutas de nossa classe, não teremos chance alguma.

O Encontro Nacional de 2010 e o salto qualitativo

No Encontro Nacional de 2010, realizado em Porto Alegre, os grupos e organizações presentes entenderam que era o momento de aprofundar a organicidade e prosseguir em relação aos objetivos previamente estabelecidos.

Por isso, após intensas discussões, deliberamos que deveríamos dar um salto qualitativo e ir além dos dois eixos propostos anteriormente: a organização e a inserção social. Entendendo que eles já estão incorporados em nossos grupos e organizações e que a questão da organização e da inserção social não são mais tão polêmicas nos meios anarquistas – e a atuação dos grupos e organizações e do próprio FAO contribuíram significativamente para isso –, decidimos dar mais um passo para a construção de uma organização de âmbito nacional, que sempre foi um de nossos objetivos.

O passo seguinte é, para nós, aprofundar a organicidade, e foi assim que decidimos adotar o especifismo, como forma de organização anarquista para os grupos e organizações do FAO, estabelecendo princípios políticos e ideológicos que definem, em nossa concepção, tanto o anarquismo, como essa opção organizativa. Com esse objetivo, o Encontro Nacional reformulou a definição do FAO (ainda que ele continue sendo um fórum), estabeleceu seus princípios, assim como a estratégia a ser defendida, e reviu seus compromissos. Abaixo seguem as resoluções do Encontro em torno desses temas.

O que é o FAO?

O Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) é um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista.

O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma organização anarquista no Brasil. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já.

Nossa concepção organizativa do anarquismo

Todos os grupos e organizações do FAO, assim como aqueles interessados em ser membros, devem concordar, defender e aplicar esta concepção de anarquismo, que consideramos o mínimo necessário para o início dos trabalhos conjuntos. O anarquismo defendido pelo FAO é compreendido a partir dos princípios políticos e ideológicos e pela sua estratégia geral colocados a seguir.

Princípios políticos e ideológicos

A compreensão, a defesa e/ou a aplicação dos seguintes pontos:

a) Do anarquismo como ideologia e, assim, como um sistema de idéias, motivações e aspirações que possuem necessariamente uma conexão com a ação no sentido de transformação social, a prática política.

b) De um anarquismo em permanente contato com a luta de classes dos movimentos populares de nosso tempo e funcionando como ferramenta de luta e não como pura filosofia ou em pequenos grupos isolados e sectários.

c) De um conceito de classe que inclui todas as parcelas de explorados, dominados e oprimidos da nossa sociedade.

d) Da necessidade do anarquismo retomar seu protagonismo social e de buscar os melhores espaços de trabalho.

e) Da revolução social e do socialismo libertário como objetivos finalistas de longo prazo.

f) Da organização como algo imprescindível e contrária ao individualismo e ao espontaneísmo.

g) Da organização específica anarquista como fator imprescindível para a atuação nas mais diversas manifestações da luta de classes. Ou seja, a separação entre os níveis político (da organização específica anarquista) e social (dos movimentos sociais, sindicatos, etc.).

h) Da organização anarquista como uma organização de minoria ativa, diferindo-se esta da vanguarda autoritária por não se considerar superior às organizações do nível social. O nível político é complementar ao nível social e vice-versa.

i) De que a principal atividade da organização anarquista é o trabalho/inserção social em meio às manifestações de luta do povo.

j) De que a ética é um pilar fundamental da organização anarquista e que ela norteia toda a sua prática.

k) Da necessidade de propaganda e de ela ter de ser realizada nos terrenos férteis.

l) Da lógica dos círculos concêntricos de funcionamento, dando corpo a uma forma de organização em que o compromisso está diretamente associado com o poder de deliberação. Da mesma maneira, uma organização que proporcione uma interação eficiente com os movimentos populares.

m) De que a organização deve possuir critérios claros de entrada e posições bem determinadas para todos que queiram ajudar (níveis de apoio /colaborador).

n) Da autogestão e do federalismo para a tomada de decisões e articulações necessárias, utilizando a democracia direta.

o) A busca permanente do consenso, mas, não sendo possível, a adoção da votação como método decisório.

p) Do trabalho com unidade teórica, ideológica e programática (estratégica / de ação). A organização constrói coletivamente uma linha teórica e ideológica e da mesma forma, determina e segue com rigor os caminhos definidos, todos remando o barco no mesmo sentido, rumo aos objetivos estabelecidos.

q) Do compromisso militante e da responsabilidade coletiva. Uma organização com membros responsáveis, que não é complacente com a falta de compromisso e a irresponsabilidade. Da mesma forma, a defesa de um modelo em que os militantes sejam responsáveis pela organização, assim como a organização seja responsável pelos militantes.

r) Os militantes que compõem a organização têm, necessariamente, de estar inseridos em um trabalho social, bem como se ocupar de atividades internas da organização (secretarias, etc.)

Estratégia geral

A estratégia geral do anarquismo que defendemos baseia-se nos movimentos populares, em sua organização, acúmulo de força, e na aplicação de formas de luta avançada, visando chegar à revolução e ao socialismo libertário. Processo este que se dá conjuntamente com a organização específica anarquista que, funcionando como fermento/motor, atua conjuntamente com os movimentos populares e proporciona as condições de transformação. Estes dois níveis (dos movimentos populares e da organização anarquista) podem ainda ser complementados por um terceiro, o da tendência, que agrega um setor afim dos movimentos populares.

Essa estratégia, portanto, tem por objetivo criar e participar de movimentos populares defendendo determinadas concepções metodológicas e programáticas em seu seio, de forma que possam apontar para um objetivo de tipo finalista, que se consolida na construção da nova sociedade.

Compromissos do FAO

1. Estimular e realizar o debate sobre o anarquismo especifista no Brasil, apontando para necessidade de construir uma organização anarquista de âmbito nacional.

2. Apoiar a formação de grupos anarquistas organizados, apontando para sua organicidade.

3. Trabalhar pela aproximação, articulação prática e unificação destes grupos e organizações no âmbito estadual ou regional num primeiro momento.

4. Trabalhar, na medida das possibilidades reais, com os diferentes níveis da luta revolucionária anarquista: trabalho de propaganda, trabalho teórico e, o mais importante deles, o trabalho social, nas frentes e áreas escolhidas.

5. Lutar pela construção de uma organização anarquista brasileira dotada de projeto político comum, com peso sócio-político e presença nacional mais ampla possível.

6. Estabelecer relações fraternas e solidárias com organizações anarquistas internacionais, sobretudo as latino-americanas, cuja realidade nos é mais próxima.

Construindo um Grupo Anarquista Organizado (GAO)

No Brasil todo, existem centenas e talvez milhares de pessoas que se identificam e são simpáticas ao anarquismo. Uma força potencial que muitas vezes não é efetiva devido à dispersão em que os anarquistas se encontram. Não fundaremos uma organização anarquista num passe de mágica, antes disso é preciso que existam grupos anarquistas organizados (GAO) e coordenados entre si. O grupo anarquista organizado é a semente da organização anarquista.

O FAO se dispõe a apoiar os indivíduos anarquistas que sentem o sangue ferver diante das injustiças e que estão cansados de nada ou pouco poder fazer ou permanecerem isolados. Propomos um caminho para iniciar um grupo anarquista organizado (GAO):

Número de pessoas. Identifique pessoas que você conhece, que podem ser afins ao projeto. Chame uma reunião para debater a construção de um grupo, apoiada na leitura do material. Quanto mais gente melhor, mas não é preciso esperar para se formar um grupo. Com três pessoas é possível começá-lo, sempre trabalhando para mais gente ingressar.

Identidade do GAO. Com a proposta prosperando, o GAO já pode ter nome, bandeira e simbologia, para que seja reconhecido por outras pessoas.

Divisão de tarefas básicas. Os trabalhos internos regulares podem ser divididos entre os militantes. Isso evita que alguns fiquem sobrecarregados e outros com poucas tarefas, tornando a participação mais horizontal. Sugerimos algumas funções para um grupo a partir de cinco pessoas (grupos menores ou maiores se adaptam a sua realidade).


a) companheiro de organização: encarregado de relatar os acordos e decisões das reuniões, repassá-los aos demais, montar um calendário, convocar as reuniões, organizar os materiais internos do grupo;

b) companheiro de propaganda: encarregado de pensar e propor políticas de comunicação e materiais de propaganda do grupo. Ex: boletim, site, panfletos;

c) companheiro de finanças: faz a tesouraria do grupo, arrecada as contribuições periódicas dos militantes, pensa formas de arrecadar grana e estrutura para o grupo;

d) companheiro de relações: cuida das cartas, caixa postal, e-mails, conversas com outros grupos anarquistas, de esquerda e/ou movimentos populares;
e) companheiro de formação política: encarregado do debate de formação interno do grupo, levanta temas, pesquisa e separa materiais, procura cursos, ajuda os demais em sua formação política, etc;

Esta divisão não é rígida. O companheiro de propaganda coordena o boletim, por exemplo, mas nada impede que os demais dêem idéias, escrevam, ajudem, etc. O mesmo vale para as demais funções.
Reunião

. É fundamental que sejam regulares, pois é a única forma do grupo debater e planejar suas ações coletivamente. Pode ser semanal ou quinzenal, de preferência em local fixo, onde o grupo esteja tranqüilo e sem interferências de fora.Comunicação do grupo

. Abrir uma caixa postal para correspondência, um e-mail para internet e publicar um boletim, mesmo que seja uma modesta folha frente e verso xerocada, é um ótimo começo e permite que o grupo seja conhecido pelas pessoas. Outro material importante é escrever uma declaração de princípios do grupo.Método decisório

. É busca do consenso, com todos participando de forma igualitária do debate. Quando não se chegar ao consenso e a questão exigir decisão, vota-se o ponto e o grupo todo acata o que foi decidido. A posição minoritária e sua argumentação deverão constar em ata para avaliação posterior.Tarefas básicas de cada militante

. Uma função interna (organização, finanças, propaganda, relações e formação política); uma militância externa, social em alguma frente (falaremos disso mais adiante); participar das reuniões e contribuir com o grupo.Avançando de Grupo para Organização

Este salto de qualidade pode se dar de duas maneiras:

I) Com o crescimento do GAO

Nos estados e regiões onde não existem outros grupos anarquistas ou então quando os demais grupos anarquistas forem avessos à proposta de organização e atuação social, a única forma de se constituir uma organização é através do crescimento do GAO, cujo objetivo é sempre avançar.

Alguns elementos servem para averiguar a maturidade: crescimento numérico (mais ou menos 20 militantes regulares), regularidade, afinidade e confiança desenvolvida na militância, expansão das frentes de inserção social, melhoria da formação política, etc.

Com isso tudo o GAO pode dar um salto qualitativo, subdividindo-se em núcleos, criando um conselho que reúna delegados destes núcleos e ampliando sua esfera de ação. É fundamental que a passagem de GAO para organização reflita um avanço real e não apenas os desejos da militância. Ser um grupo de fato, apenas com nome ou sigla de organização ou federação é propaganda enganosa, um voluntarismo sem base real que facilmente cai no ridículo. A transição de grupo para organização anarquista é um processo, entretanto, os grupos se definem autonomamente. A transição implica uma diferença qualitativa no processo de construção, mas não hierárquica.

II) Pela aproximação, articulação prática e unificação entre diferentes grupos anarquistas organizados

Nos estados e regiões onde existem dois ou mais grupos anarquistas, a proposta é que se trave contato com os demais indivíduos e grupos anarquistas conversando sobre a proposta do FAO. Falamos aqui de regiões próximas, que não necessariamente precisam ser no mesmo estado, apenas próximas. Ex: Goiás e Distrito Federal, grupos situados nas fronteiras entre 2 estados, etc.

Estes contatos e conversas podem avançar mais ou menos. Alguns podem rejeitar categoricamente nosso projeto, outros mostrarem interesse e ao mesmo tempo dúvidas e críticas parciais. Com estes últimos deve-se avançar no diálogo e se possível criar um FAO estadual ou regional que reúna estes grupos, tire tarefas práticas conjuntas, debata o projeto e trabalhe pela unificação.

Para se inserir e militar socialmente

Todos os militantes do GAO devem ter sua militância junto aos movimentos sociais. As tarefas internas já mencionadas são importantes, mas não bastam e não podem servir de desculpa para o militante “fugir” da militância social. Queremos com isso evitar que alguns fiquem apenas com questões internas ou mais “agradáveis” e outros com a militância social, o que pode dar origem a “burocratas informais”.

É importante que o grupo avalie e concentre suas forças para que o trabalho social dê resultados e se evite assumir mais tarefas de inserção do que aquelas que pode sustentar. Isso torna necessária a escolha de algum(ns) segmento(s) prioritários para a inserção social. Quando dizemos prioritários, não se trata de imaginar este ou aquele segmento é por excelência destinado a realizar a revolução social, mas sim concentrar forças em algum trabalho que avaliamos ter mais potencial de transformação.

No entanto, com crescimento e amadurecimento devemos buscar incidir nos mais amplos segmentos. A intenção é que o GAO discuta o tipo de trabalho a ser realizado, verificando o que é mais viável (no bairro, numa escola, universidade, fábrica, ocupação, etc.) em função da realidade de cada um. É sempre recomendável iniciar um trabalho de inserção em bases onde os militantes estejam naturalmente dentro, ou seja mais fácil de se inserirem. Também levar em conta a necessidade deste trabalho ser contínuo e num local geográfico fixo. É importante que esteja claro desde o primeiro momento, qual frente de atuação é mais importante e mais se adapta as características das pessoas que compõe o grupo.

Alguns exemplos de frentes e áreas onde atuar As frentes são espaços de atuação onde a nossa militância se realiza. Por exemplo: movimento estudantil, movimento sindical ou de trabalhadores, movimentos sem-teto, rádios comunitárias, bairros de periferia em associações, comitês de luta, etc. Na frente comunitária podemos trabalhar com questões como moradia, saúde, alimentação, água, luz, saneamento básico, transporte, ecologia social, comunicação, cultura, educação, direitos humanos, racismo, gênero, etc. Tudo dependerá da demanda específica de cada local e do nosso projeto político.

Neste texto, nos limitamos a discutir, de forma geral, a inserção e militância social, pois seria impossível descrever, mesmo em linhas gerais, uma proposta de atuação para a cada uma delas. Há muito material produzido pelos membros do FAO sobre estas várias frentes, experiências a compartilhar e apoio para quem está se envolvendo. Materiais e informações sobre a atuação de cada frente específica pode ser obtido entrando em contato com os membros do FAO.

Quer conhecer mais? Quer participar?

Se você leu este material e se interessou, não importa que você seja apenas um indivíduo ou pertença a algum grupo ou organização; não importa se você já é um anarquista declarado ou alguém que se interessou por anarquismo apenas recentemente; entre em contato conosco.

Você com certeza pode ser importante para luta e tem muito a contribuir!

O projeto anarquista para nós está acima de questões pontuais ou pessoais. O FAO já está caminhando, mas não está pronto e acabado, e jamais fechado a quem possa se interessar. Sabemos e somos os maiores interessados em corrigir erros, aprimorar o projeto e incorporar novas contribuições, mais gente na discussão.

Se você tem dúvidas, discorda em parte do que foi exposto até aqui, te convidamos a dialogar, a nos conhecer melhor. Em síntese, a postura do FAO é construtiva, aberta ao diálogo e contra o sectarismo. Acreditamos que somente nestas bases poderemos criar condições para a construção de uma verdadeira organização anarquista, que não seja uma mera sigla ou um gueto.


Fórum do Anarquismo Organizado, 2010
http://www.vermelhoenegro.org
 

Assinam esta declaração os grupos e organizações que hoje compõem o Fórum do Anarquismo Organizado:

Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (AL)
cazp.wordpress.com
Caixa Postal 136
CEP: 57020-970
Maceió-AL

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (RJ)
http://www.farj.org
Caixa Postal 14576
CEP: 22412-970
Rio de Janeiro-RJ

Federação Anarquista Gaúcha (RS)
http://www.vermelhoenegro.org/fag/

Rusga Libertária (MT)
http://rusgalibertaria.blogspot.com

Vermelho e Negro (BA)
http://vermelhoenegrofao.wordpress.com
Caixa Postal 280
CEP 44001-970
Feira de Santana-BA

Outras organizações anarquistas do Brasil que nos apóiam e com quem mantemos relações fraternas e solidárias:

Coletivo Para Além do Estado e do Mercado (PAEM) (MS)
http://www.coletivopaem.blogspot.com
Caixa Postal 17
CEP 79804-970
Dourados-MS

Federação Anarquista de São Paulo (FASP) (SP)
http://www.anarquismosp.org
Caixa Postal 52552
CEP 08010-971
São Paulo-SP

Organização Resistência Libertária (ORL) (CE)
http://www.resistencialibertaria.org
Caixa Postal 12155
Fortaleza-CE

Pró Coletivo Anarquista Organizado de Joinville (SC)
http://pro-cao.blogspot.com/

Coletivo Anarquista Luta de Classes (Curitiba)
Caixa Postal 272
CEP 80010-010
Curitiba-PR

Contato da Secretaria Nacional do FAO: secfao@riseup.net