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No Batente #8 – Da Resistência à Esperança

Este é o oitavo número do jornal No Batente, órgão de informação e análise do Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC). Ficamos felizes por mais uma edição poder chegar aos companheiros e companheiras de luta!

Nesta edição, lançada em setembro/outubro de 2018, trazemos elementos sobre a farsa que são as eleições burguesas, criticamos a lógica e o papel do Poder JudiciárioPrisão e o Encarceramento em Massa, apresentamos alguns pontos importantes relacionados à atual Revolução Social no Curdistão e mais.

Leia o no BATENTE #8 clicando no link – NO BATENTE #8 – ou na imagem acima.

[CAB] 25 de julho – Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO!

“[…]. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe, gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre a outra.”

Ângela Davis.

Nós Negros e Negras e a condição de escravidão.

A estimativa é que, ao longo de 400 anos, tenham sido retirados da África 12,5 milhões de pessoas, em uma das maiores migrações forçadas da história. O Caribe e a América do Sul receberam 95% dos/as negros/as que chegaram às Américas. O Brasil recebeu quase a metade dos 11 milhões de pessoas escravizadas desembarcadas nas Américas.

O comércio da escravidão serviu como sustentáculo para a criação do capitalismo, quer pela acumulação de riquezas nas metrópoles – uma vez que o tráfico transatlântico foi o que gerou receitas para a criação das indústrias na Europa –, quer pelo próprio mercado da escravidão, que foi o negócio mais rentável nas Américas e que possibilitou a feitorização das colônias ameríndias para os séculos de exploração brutal e desenfreada das nossas “veias abertas”: as empresas negreiras eram altamente sofisticadas do ponto de vista empresarial, trabalhavam com altíssimas taxas de lucro – cerca de 20% líquidos por viagem*.

A colonização não teve apenas um sentido econômico central, possuiu também outros sentidos condicionantes, como o político e o social. Durante a colonização, houve um contato violento entre as culturas negras, indígenas e europeias, envolvidas em um projeto racista da elite brasileira, que investiu em um embranquecimento gradual e silencioso, mascarado de “democracia racial”. Moramos num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil, feito de três raças tristes como já disse Belchior, mas esse mito das três raças que geram pela harmonia delas uma nova etnia, a brasileira, não é mais do que pura mentira, esconde toda a violência que sofreram as raças subjugadas nesse processo de dominação. É desse mesmo mito que surge as pérolas que dizem: “no Brasil não existe racismo”, “eu não sou racista” e que não conseguem enxergar que mesmo não havendo uma política de diferenciação, como foi o aparthaid dos EUA e da África do Sul, a integração brasileira foi tão sangrenta quanto. A verdade é que a formação do povo brasileiro surgiu de um estupro colonial, sagrado e paternal: a supremacia branca através do poder do Estado provocou um genocídio do povo negro e indígena, explorando nosso povo para a produção de riquezas. A palavra “estupro” é fundamental na descrição: concebido com a intenção de intimidar e aterrorizar as mulheres, os proprietários de escravos encorajavam seu uso terrorista para colocar as mulheres negras em posição de inferioridade. Praticamente todas as narrativas sobre a escravidão no século XIX trazem relatos de violência sexual sofrida pelas mulheres nas mãos de senhores e feitores, a conjugação da supremacia branca e masculina. Os portugueses já eram um povo mestiço antes da chegada ao Brasil, devido seu contato histórico com sarracenos, árabes e africanos. Por isso, não detinham o medo de “poluir-se” como tinham os dominadores norte-americanos e sul-africanos. Logo, parte do projeto de embranquecimento das nossas elites vinham pela prática do estupro. Já a palavra “sagrado” coloca-se em questão, pois tudo isso foi feito com as bênçãos de uma igreja branca e patriarcal (papa), de imagem e semelhança de seus deuses brancos, na qual proliferava aos quatro ventos e em favor dos ricos, que negros e negras não tinham alma à serem salvas.

Com a abolição formal da escravidão, não houve a tão sonhada integração do negro à sociedade de classes, o que gerou criminalidade e encarceramento. A opção por imigrantes não foi só uma opção de trabalho, mas de branqueamento da população, em uma “segunda fase” do projeto das elites brancas. Vivemos em uma sociedade racista, que explora e maltrata nosso povo negro desde violências policiais nas periferias urbanas e nas comunidades quilombolas, a violências simbólicas e institucionais.

Violências de gênero, classe e raça.

O racismo brasileiro encontra na misoginia um mecanismo eficiente de opressão. O racismo institucional atinge as mulheres negras assustadoramente, tendo em vista que são as mais afetadas pelas desigualdades socioeconômicas de um país ainda escravocrata e que vive um retrocesso dos direitos conquistados com muita luta pelos/as de baixo. Todas as reformas, Propostas de Emenda Constitucional e Medidas Provisórias arquitetadas pelos de cima vêm para atingir todos/as os/as de baixo, mas que terão impacto diferenciado sobre grupos historicamente esquecidos como as mulheres negras que são as que menos terminam o Ensino Fundamental e Médio, tampouco o Ensino Superior. São também as que mais trabalham, porém com rendimento mínimo e em condições de subemprego. São as que menos recebem assistência do SUS (como menor tempo de atendimento, maior mortalidade infantil e por doença falciforme etc.), o saneamento básico não chega em todas as nossas comunidades, fazendo com que sejamos as mais atingidas por doenças. De acordo com o mapa da violência (2015) o homicídio das mulheres negras cresceu em 54,2%. Em relação a violência doméstica 58,86% são de mulheres negras. A mortalidade materna das mulheres negras também é a maior com 53,6% e são as que mais precisam abdicar de algum aspecto de nossas vidas para dar conta de todas as barreiras colocadas pela supremacia branca e patriarcal – seja o trabalho que se quer, o lazer que se gosta, a família unida, dentre tantos outros.

Nos centros penitenciários femininos, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2014, duas a cada três detidas eram negras (68%). Das detidas, 57% eram solteiras, 50% tinham o Ensino Fundamental Incompleto e 50% tinham entre 18 e 29 anos. O Brasil é o 5º maior com população carcerária feminina. Esse é só um retrato do extermínio e da criminalização da população pobre, negra e periférica que tem suas vidas ceifadas através do braço armado do Estado – a polícia. Ainda de acordo com o Infopen, o tráfico de drogas é o crime que mais prende mulheres no Brasil. Esse número chega a 68%, seguido por roubo (10%) e furto (9%).

A guerra às drogas justifica a morte do povo negro nas favelas. E são as mulheres negras que mais sofrem com o extermínio de seus filhos/as, tendo em vista que os pais abandonam as crianças mesmo até antes de nascer.

A mídia contribui para a sensualização do corpo da mulher negra, o que é determinante para os casos de estupros. Como exemplo típico, é a mulher negra e jovem (e por que não dizer, nordestina no caso do Brasil?) que é a mais objetificada no Carnaval. Sem falar nas propagandas de cerveja, carro e outras mercadorias que, para serem vendidas, têm seu valor adjetivado pelo corpo feminino, na maioria, corpo de mulheres negras. A mídia reforça e naturaliza a concepção de que “a carne mais barata do mercado é a negra” e serve para apreciação e uso pelo homem.

As mulheres negras também sofrem quando não podem manifestar sua espiritualidade, cultura e religiosidade. São inúmeras as violências contra a umbanda e o candomblé – religiões de matriz africana – além da criminalização. Em 2015, casos como o da menina Kaylane Campos, atingida com uma pedrada na cabeça, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas, e de um terreiro de candomblé que foi incendiado em Brasília nos mostra o quanto a intolerância aliada à supremacia branca e cristã produz racismo e violência, disseminando o ódio.

Negras Resistências

Cada mulher negra que se mantém caminhando e enfrenta o racismo e o machismo em sua rotina diária é um ícone de força e celebração da negritude.

Desde o início da escravização no Brasil as mulheres negras permanecem firmes em resistências. Quer por meio de ação direta, como faziam as nossas velhas pretas nas cozinhas dos brancos, quer por meio da resistência organizada nos quilombos. Em muitos casos, a resistência das mulheres negras envolvia ações mais sutis do que revoltas, fugas e sabotagens, incluía por exemplo aprender a ler e a escrever de forma clandestina, bem como repassar para as mais novas conhecimentos tidos como subversivos pelos senhores.

Atualmente, a organização em movimentos sociais mistos, porém auto-organizados por identidade de gênero ou racial, são nossas ferramentas de luta. Só a organização e a autodefesa das mulheres negras contra o machismo, a supremacia branca, o capitalismo e o Estado podem nos libertar. Temos ciência que a luta parlamentar não nos trará frutos de resistência, pelo contrário, fortalecerá as novas correntes de escravidão.

O silenciamento de Tereza de Benguela – mais uma mulher negra negligenciada pela história brasileira – representa uma forma de fazer história para a qual não podemos nos curvar. Uma história branca, machista e eurocêntrica, que entoa muitos feminismos, mas que não cabe nas nossas fileiras. Grita a necessidade de construirmos um feminismo nosso, não eurocêntrico, com nossas raízes indígenas e quilombolas.

Viva Dandara!

Viva Tereza de Benguela!

Viva Negra Bonifácia!

________________________

[1]                      * http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252011000100021&script=sci_arttext

[ORL] Toda mulher negra é um quilombo!

Retirado de: http://resistencialibertaria.org/2016/07/25/toda-mulher-negra-e-um-quilombo/

todamulhernegraéumquilombo

TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue e fome.

A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

Conceição Evaristo

Em julho de 1992, durante o I Encontro de Mulheres Latino-americanas e afro-caribenhas, instituiu-se o 25 de julho como o Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, em homenagem a Tereza de Benguela – uma mulher negra guerreira, líder do quilombo de Quariterê, em Mato Grosso. Enxergamos neste dia mais uma oportunidade de luta que se justifica pela realidade das mulheres negras na América Latina e no Caribe. Realidade expressa em indicadores socioeconômicos reveladores de desigualdade e decorrente de um longo período de subjugação, humilhação, extermínio, escravização do povo negro pela supremacia branca e patriarcal.

Violências de gênero, classe e raça.

O racismo brasileiro encontra na misoginia um mecanismo eficiente de opressão. A história do Brasil se construiu sobre alicerces de racismo e machismo, desde o estupro colonial – estupro de negras e indígenas escravizadas.

O racismo institucional nos atinge – mulheres negras – assustadoramente, tendo em vista que nós somos as mais afetadas pelas desigualdades socioeconômicas de um país ainda escravocrata. Nós, mulheres negras, somos as que menos terminam o Ensino Fundamental e Médio, tampouco o Ensino Superior.Somos as que mais trabalhamos, porém com rendimento mínimo e em condições de subemprego. Somos as que menos recebem assistência do SUS (como menor tempo de atendimento, maior mortalidade infantil e por doença falciforme etc.), em nossas comunidades não existe saneamento básico, fazendo com que sejamos as mais atingidas por doenças. E somos nós as que mais precisam abdicar de algum aspecto de nossas vidas para dar conta de todas as barreiras colocadas pela supremacia branca e patriarcal – seja o trabalho que se quer, o lazer que se gosta, a família unida, dentre tantos outros.

Nos centros penitenciários femininos, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2014, duas a cada três detidas eram negras (68%). Das detidas, 57% eram solteiras, 50% tinham o Ensino Fundamental Incompleto e 50% tinham entre 18 e 29 anos.O Brasil é o 5º maior com população carcerária feminina. Esse é só um retrato do extermínio e da criminalização da população pobre, negra e periférica que tem suas vidas ceifadas através do braço armado do Estado – policia.Ainda de acordo com o Infopen, o tráfico de drogas é o crime que mais prende mulheres no Brasil.Esse número chega a 68%, seguido por roubo (10%) e furto (9%).

A guerra às drogas justifica a morte do povo negro nas favelas. E são as mulheres negras que mais sofrem com o extermínio de seus filhos/as, tendo em vista que os pais abandonam as crianças mesmo até antes de nascer.

A mídia contribui para a sensualização do corpo da mulher negra, o que é determinante para os casos de estupros. Como exemplo típico, é a mulher negra e jovem (e por que não dizer, nordestina no caso do Brasil?)que é a mais objetificada no Carnaval. Sem falar nas propagandas de cerveja, carro e outras mercadorias que, para serem vendidas, têm seu valor adjetivado pelo corpo feminino, na maioria, corpo de mulheres negras.

A existência da exploração sexual de crianças e adolescentes e prostituição (nesta última, o exercício é realizado, em grande maioria, por mulheres negras) também reforça e naturaliza a concepção de que “a carne mais barata do mercado é a negra” e serve para apreciação e uso pelo homem – embora não critiquemos as profissionais do sexo que recorrem a essa atividade como fonte de renda.

As mulheres negras também sofrem quando não podem proferir sua espiritualidade, cultura e religiosidade. São inúmeras as violências contra a umbanda e o candomblé –religiões de matriz africanas- além da criminalização. Em 2015, casos como o da menina Kaylane Campos, atingida com uma pedrada na cabeça, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas, e de um terreiro de candomblé que foi incendiado em Brasília nos mostra o quanto a intolerância aliada à supremacia branca e cristã produz racismo e violência, disseminando o ódio.

Resistências Pretas

Cada mulher negra que se mantém caminhando e enfrenta o racismo e o machismo em sua rotina diária é um ícone de força e celebração da negritude.

Desde o início da escravização no Brasil, nós – mulheres negras – permanecemos firmes em resistências. Quer por meio de ação direta, como faziam as nossas velhas nas cozinhas dos brancos, quer por meio da resistência organizada nos quilombos.

Atualmente, a organização em movimentos sociais mistos, auto-organizados por identidade de gênero ou racial, são nossas ferramentas de luta. Só a organização e a autodefesa das mulheres negras contra o machismo, a supremacia branca, o capitalismo e o Estado podem nos libertar. Temos ciência que a luta parlamentar não nos trará frutos de resistência, pelo contrário, fortalecerão as novas correntes de escravidão.

O silenciamento de Tereza de Benguela – mais uma mulher negra negligenciada pela história brasileira – representa uma forma de fazer história para a qual não podemos nos curvar. Uma história branca, machista e eurocêntrica, que entoa muitos feminismos, mas que não cabe nas nossas fileiras. Grita a necessidade de construirmos um feminismo nosso, não eurocêntrico, com nossas raízes indígenas e quilombolas.

Viva Dandara!

Viva Tereza de Benguela!

Viva Negra Bonifácia!

Organização Resistência Libertária (ORL/CAB)

25 de julho de 2016

[Black Rose/EUA] Sobre justiceiro social e as necessidades dos movimentos sociais

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2016/07/18/black-rose-eua-sobre-justiceiro-social-e-as-necessidades-dos-movimentos-sociais/

Traduzimos uma breve opinião da organização anarquista dos Estados Unidos, Black Rose Anarchist Federation/Federación Anarquista Rosa Negra, sobre os recentes casos de assassinatos de policiais nos EUA após a morte de homens Negros pela polícia
Original: http://www.blackrosefed.org/vigilante-justice-blm/

Alton Sterling, assassinado pela polícia de Baton Rouge a queima-roupa pelo crime de vender CDs para alimentar a sua família. Trabalhador da educação Philando Castile, assassinado pela polícia de Minesota em frente à sua namorada e sua filha de quatro anos de idade; alvo da polícia porque ele tinha um nariz “largo”[1]. Michael Brown, assassinado na rua pela polícia de St. Louis por andar fora da calçada, descrito pelos seus assassinos como tendo um rosto “como o do demônio.” Tamir Rice de doze anos de idade, assassinado pela polícia de Cleveland enquanto brincava com um brinquedo em um playground. Sandra Bland, assassinada pela polícia do Texas, morreu na prisão, pra onde a polícia a levou por não usar seta pra mudar de faixa. Freddie Gray, assassinado pela polícia de Baltimore, que bateu tanto nele que sua coluna foi danificada desde o pescoço. Todo dia outra pessoa morta pela polícia e justiceiros. Trayvon Martin de 17 anos de idade parecia suspeito. Emmet Till de 14 anos de idade não foi respeitoso o suficiente em seu comportamento. Esses assassinatos vêem de décadas atrás, desde os linchamentos e pogroms da época do Jim Crow[2], entrando na escravidão, quando os predecessores da polícia moderna, as Patrulhas de Escravos, caçavam as pessoas que fugiam da escravidão e violentamente exerciam sua autoridade para controlar o movimento do povo Negro.

E apesar de contínuos protestos em massa, oficiais do estado e da cidade acreditam que a polícia “agiu apropriadamente,” seguiu o procedimento,” e agiu com “restrição e profissionalismo.” Sem responsabilizar ninguém. Sem justiça. Nenhuma mudança mais profunda que a superficial. A violência diária, sistêmica contra pobres e comunidades raciais continua sem debate. Então, será realmente “aleatório” quando o veterano do Exército Micah Johnson, aparentemente atuando sozinho, matou cinco policiais (um deles tinha tatuagens supremacistas branca) em Dallas em um protesto contra a violência policial ou quando ainda mais recentemente, um atirador matou três oficiais em Baton Rouge, onde a polícia militar tem assediado as pessoas na última semana?

Essa violência suicida antipolícia é a consequência trágica inevitável de um sistema violento que é impermeável às preocupações do povo que é alvo. Dada a natureza cruel desse sistema e a alienação profunda sob a qual as pessoas trabalham e vivem, é impressionante que atos suicidas como esses não aconteçam com mais frequência. Se as coisas não mudarem significantemente, nós podemos ter certeza que tais atos irão acontecer mais frequentemente.

Nós não celebramos ou encorajamos tais atos, mas reconhecemos que a raiva é justificada. A impotência e desesperança da qual esses atos surgem são cultivadas por instituições penais violentas e, mais ainda, pela injustiça política e ecônomica sistêmica pras quais tais instituições funcionam para proteger. Nós apontamos nossa raiva e condenação para cima, nunca para baixo, a hierarquia social. Nós condenamos os empresários, políticos, a mídia corporativa e oficiais de estado cujas políticas criam situações nas quais as pessoas se sentem tão impotentes que não veem outro jeito a não ser violência antissocial.

Para aqueles de nós que querem viver numa sociedade mais justa e menos violenta, não existe um tiro mágico como solução. Nenhum homem armado sozinho, sem um movimento de massas emancipatório maior, pode atirar por aí e nos tornar lives e numa socidade igualitária. O tipo de mudança revolucionária que nós lutamos requer organizar um movimento de pessoas de massa por demandas claras para mudar as relações sociais injustas que estão na raiz da violência policial. Dentro do movimento maior antipolícia e do Black Lives Matter, a demanda pelo desarmamento, retirada de recursos e a quebra da polícia é um começo de esperança que nós apoiamos, mas é apenas o começo. Enquanto anarquistas, as questões às quais nos apegamos têm a ver com o que é preciso mudar na estrutura da sociedade – social, economica e politicamente – para que a polícia se torne obsoleta, e como nós construímos um movimento de massas forte e consciente o suficiente para lutar por essas mudanças.

Por Tariq Khan, BRRN

[1] O policial que matou Philando Castile disse no rádio antes de parar o carro que Philando possuia um nariz largo que o lembrava de um assaltante de banco.

[2] As Leis de Jim Crow foram leis vigentes nos estados do Sul dos EUA que reforçavam a segregação racial e acabaram apenas em 1965.

[ORL] CONTRA O EXTERMÍNIO DE NEGRAS E NEGROS DA PERIFERIA E DE TODA POPULAÇÃO POBRE!

Retirado de: http://www.resistencialibertaria.org/index.php?option=com_content&view=article&id=159%3A2015-11-29-01-22-14&catid=99%3Anegras-e-negros&Itemid=56

oaorl

Boletim da Organização Resistência Libertária (ORL/CAB) | Novembro de 2015 | Fortaleza – Ceará

Contra o extermínio de Negras e Negros da Periferia e de toda População Pobre!

Não tem escolar, não tem lazer,
Só crack, arma, polícia pra te corromper,
O sistema é maquiavélico, estratégico, não erra,
arma todo esse cenário de guerra

Leandro Mc/FOME

Lutamos cotidianamente contra as estatísticas da morte de nosso povo, negro e pobre. E essas estatísticas trazem resultados alarmantes. Um desses resultados nos diz que um jovem negro no Brasil tem três vezes mais chance de ser assassinado do que um branco, sendo que 77% das vítimas de assassinatos são negros. A polícia brasileira é a que mais mata no planeta e os números apontam que seu principal alvo tem: cor/raça e classe social.

Para a maior parte da população, e principalmente para os programas policialescos e as forças repressoras do Estado, “bandido bom é bandido morto”. Mas, na realidade tal pena de morte só é aplicada a população negra e pobre, o que resulta num verdadeiro holocausto na periferia.

A polícia civil e militar, um dos braços armados do Estado, é uma instituição que tem forma, poder e uma articulação intrínseca com as estruturas da nossa sociedade (que é dividida em classes). Sua forma é hierárquica, sendo pautada cotidianamente pela repressão violenta, visando defender o Estado, o Capital, a supremacia branca e o patriarcado.

O Estado tem o monopólio da repressão através das forças armadas, mas também devemos considerar as relações de poder entre as forças armadas/militar e o Estado (expressão político-institucional), em um determinado momento. A esfera política/jurídica/militar traz um mar de relações corruptas e uma série de violências brutais para o nosso povo, negro e pobre.

Os Estados programam formas que possam encarcerar a população negra, pobre e lutadora. O controle social é um mecanismo utilizado pelo Estado que visa, exclusivamente, punir quem não ler na sua cartilha, quem não concorda com o seu “circo”. Manifestações radicalizadas que possam surgir contra o ajuste fiscal, direitos das mulheres e redução da maioridade penal estão seriamente ameaçadas. São exemplos de controle social: a Lei Antiterrorismo (de autoria do Poder Executivo, o projeto de lei segue como PL 2016/2015 na Câmara e PL 499/2013 no Senado), surge para tentar calar os setores mais combativos e revolucionários. O texto “antiterror” diz: “incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado”. Para se ter apenas um exemplo, o “incêndio” foi o mecanismo utilizado pela comunidade do São Miguel horas depois da chacina da Messejana na entrada do bairro, essa foi à arma que os populares tinham para chamar a atenção da sociedade sobre o caso. A defesa da propriedade privada e da ordem burguesa é clara na lei, de maneira que nada possa ameaçar este esquizofrênico sistema desigual, opressor e racista. A redução da maioridade penal também é um exemplo de controle social que tem no encarceramento a solução para um Estado cada vez mais militarizado.

A origem da polícia remonta ao período escravocrata tendo a função de capturar e matar negras e negros que foram escravizadas/os, defender a propriedade privada e o abominável sistema escravista, negando dessa forma, heranças culturais, corporeidade, sexualidade e um mundo afro.  Desde a invasão portuguesa “O estupro, o linchamento e o genocídio dos povos originais e do povo negro são elementos estruturantes da nossa realidade histórica.” (1)

Quantas Anastácias não foram capturadas e silenciadas com uma máscara de ferro, tendo sua ancestralidade negada e sua vida ceifada pelos horrores da exploração? Quantas Claúdias não foram arrastadas e mortas? De lá pra cá nunca existiu polícia cidadã ou polícia amiga, o que vemos é uma articulação repressora e exterminadora da polícia – civil e militar. Precisamos mudar radicalmente a sociedade e não fazer uso das ferramentas do opressor, pois “as ferramentas do mestre nunca vão desmantelar a casa-grande” (Audre Lorde).

Não podemos reformar a polícia nesta sociedade que é capitalista, racista e patriarcal. Se há um grupo de policiais que verdadeiramente é contra o tripé repressor de nossa sociedade eles devem sair da polícia, pois lá são e continuarão sendo cúmplices do extermínio do nosso povo.

O mesmo se aplica ao processo eleitoral, pois nenhuma eleição irá barrar o extermínio de negras e negros da periferia e de toda população pobre. A eleição como farsa, sempre teve o papel de eleger fantoches e supostos representantes. Obama nos Estados Unidos é só mais um exemplo de como esse processo é fraudulento e racista, pois a justiça, o governo Obama e as forças repressivas norte americana continuam encarcerando a população negra, condenando a prisão perpétua e levando milhares negras/os e latinas/os para o corredor da morte. O ex-pantera negra Mumia-Abu Jamal é só mais um exemplo.

A ditadura civil-militar teve seu fim na década de 1980? Há um regime ditatorial e autoritário vigente, a ditadura não cessou para a periferia e todas as classes populares. As práticas repressivas continuam e o extermínio não dá sinais de parar para periferia. Os anos de 1990 deram continuidade ao derramamento de sangue no chão. Só para citar dois exemplos, as forças do Estado estiveram envolvidas no massacre do Carandiru (1992) e da chacina da Candelária (1993). O projeto de Estado brasileiro sempre foi genocida e racista, vivemos na democracia da morte para o povo negro e pobre, em que o encarceramento e a pena de morte nos são oferecida pelo Estado.

A crescente militarização da sociedade é uma realidade. São mais UPPs, expansão massiva do Raio (Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas), supostas armas “não letais” para o conjunto da guarda municipal e gestão militar nas escolas, como é o caso de Goiás, em que o governador Marconi Perillo (PSDB) propôs em meados deste ano um projeto de militarização de algumas escolas, trazendo mudanças na estrutura organizativa da escola, implementando o código disciplinar militar e criando algumas taxas. (2)

Racismo institucional, chacina e sequestros já fazem parte de nosso cotidiano. Forjamento de flagrantes em homens e mulheres da periferia já é prática corriqueira. Tudo que difere do padrão vigente, que é excludente e preconceituoso, em termos de raça, classe, sexualidade, comportamento e idade, já são estigmatizados e considerados indesejados.

Quando não nos matam cotidianamente com vários tiros de diversos calibres, nos matam com a ausência dos serviços básicos sociais, nos matam com a humilhação diária e com a precarização de tudo que é considerado “público”. Portanto perguntamos: “Cadê o que tu prometeu pra minha favela, pra minha periferia não vejo nada nela” (Mc Frank/FOME). O Estado aprofunda a segregação, faz uso do racismo institucional para humilhar os jovens da periferia. A polícia vem realizando uma espécie de blitz nas vias de acesso aos bairros periféricos, em que os “suspeitos”, de maioria negra, são obrigados a descer do ônibus. O assédio policial humilha, criminaliza e estigmatiza a população periférica negra e pobre.

A ordem para o controle social é abater. Na chacina da Messejana (São Miguel, Lagoa Redonda e Curió), no último dia 11 de novembro, onze periféricos foram mortos, são eles: Patrício, 16; Allison, Jardel, Marcelo s. Mendes, Alef, Marcelo S. Pereira, Erick, todos tinham 17; Pedro, 18; Jandson, 19; Elenildo, 41; Valmir, 37. Todo o grupo de extermínio que praticou a ação estava encapuzado, os mesmos arrombaram portas, arrastaram as vítimas para fora de casa e executaram. Nenhuma das vitimas tinham passagem pelo polícia pelos ditos crimes graves. Sete outras vítimas foram lesionadas a bala e/ou lesão corporal no momento da chacina. Um dos projetos de controle social, do programa “Crack é possível vencer” (uma unidade fixa), a UPP de Fortaleza, situada no São Miguel, um dos locais da chacina, não viu nenhuma movimentação mesmo com todas as suas câmeras de segurança.

Outras chacinas também ocorreram nos últimos meses em outros Estados. Em Salvador, por exemplo, no dia 6 de fevereiro, 16 foram mortos na chacina do Cabula. A dita “segurança pública” da gestão de Rui Costa, do PT, executou sumariamente a juventude negra e pobre. Perseguir, capturar e executar sempre fez parte do código da polícia, seja ela civil ou militar.

A perseguição aos indígenas, quilombolas e periféricos, negras/os e pobres continua. No Ceará, diversas comunidades indígenas sofrem com o assédio policial nas áreas de retomadas. Os quilombolas do Cumbe, Aracati, foram despejados/as violentamente em agosto de 2013 pela PM/Cotar de uma área ocupada por eles/as para fins de recuperação ambiental, em um local que antes era um viveiro de camarão.

As mulheres negras também são as que mais sofrem. Números indicam que houve um aumento de 54% em termos de homicídios (mapa da violência, 2013) praticados contra a mulher negra, enquanto em relação a mulher branca houve uma queda de 9,8%. Outro gravíssimo problema é na unidade prisional feminina da região metropolitana de Fortaleza, Auri Moura Costa, o presídio hoje amontoa cerca de 700 mulheres e nos últimos cinco meses já foram registrados duas mortes (Ana Claúdia e Joelma de Souza).

O defasado sistema socioeducativo também abriga em sua maior parcela adolescentes negras e negros e pobres. Depois de um 2015 de muitas manifestações por parte dos jovens, por conta da superlotação, maus tratos e péssimas condições sanitárias, o pior ocorreu. O adolescente Márcio, 17, foi morto pelo BCPM no momento de uma manifestação no Centro “Socioeducativo” São Miguel e no C. “Socioeducativo” São Francisco, no dia 6 de novembro. O caso provavelmente será registrado comoauto de resistência, ou seja, resistência (do policial) seguida de morte. É uma forma de legalizar e legitimar a violência cometida pelas forças policiais, e sendo assim, quando registrado como auto de resistência, os homicídios realizados pelo braço armado do Estado acabam não sendo investigados. Algumas semanas depois da morte de Márcio, vários instrutores foram presos por conta de uma surra generalizada em um dos centros.

E os abusos continuam! O sequestro também faz parte do cardápio das forças policiais.  Foi o que ocorreu com o frentista João Paulo, 20, que não possui passagem pela polícia. Visto pela última vez no dia 30 de setembro na Av. Cônego de Castro, no Parque Santa Rosa, o mesmo aparece no referido dia em imagens de uma câmera de segurança sendo abordado por uma patrulha militar e sendo conduzido para um veículo de passeio. O grupo de sequestro e extorsão foi “preso” e é formado por três policiais da Força Tática de Apoio (FTA)/BPM de Maracanaú e um sargento da reserva da PM. João Paulo até agora não apareceu!

Nosso chão sagrado foi manchado de sangue e a luta cotidiana cobrará o extermínio da população negra e pobre

O que deve ser exterminado é o preconceito racial dentro de nós, o discurso racista da extrema- direita e até de alguns setores da esquerda. Tanto direita como parte da esquerda defendem um projeto político hegemônico branco/eurocêntrico. Alguns setores afirmam que não há o racismo e outros enxergam como uma questão secundária. Para nós, da Organização Resistência Libertária [ORL-CAB], o debate e prática da luta antirracista não é secundário. Acreditamos que devemos descolonizar a consciência e deixar a briga pelo poder centralizado do Estado de lado. Muitos setores não querem discutir privilégios e acreditam que estão fazendo seu papel ao buscarem colocar algum representante nas cadeiras do legislativo ou em alguma secretaria sobre a questão racial. O Estado enquanto instrumento político tem suas bases cimentadas no capitalismo, no patriarcalismo, no racismo, na heteronormatividade e outras mil e uma opressões.

A reforma será sempre parcial, nunca devendo mexer nem um milímetro nas bases do Estado. A luta antiautoritária negra (3) deve partir de baixo para cima, a partir de nossas experiências, vivências e práticas comunitárias em torno da igualdade entre os iguais e não de estruturas hierarquizadas, como o Estado, partidos e as relações econômicas.

Acreditamos na autoidentificação racial e entendemos que o reconhecimento enquanto negra e negro deve ser o combustível para o fortalecimento da luta específica, independente, autônoma e coletiva com os outros setores. Se nós não nos reconhecemos, o Estado, Polícia e todos os opressores nos reconhecem e nos discriminam. Não podemos aceitar essa máscara de ferro sutil e violenta, não devemos nos silenciar! O projeto capitalista, racista e machista nos retira tudo e sua consequência é sermos exterminadas/os, capturadas/os e levadas/os para os presídios, sistema “socioeducativos”, tráfico, exploração infantil e o turismo sexual. Qual a diferença entre a relação do senhor de engenho com as negras e os negros do período escravocrata com os dias de hoje?

Nós, negras e negros, temos muito a dizer sobre tudo e em todos os espaços, e não só sobre a questão negra, afrodescendente. É necessária a equidade racial em todos os lugares, mas sabemos dessa dificuldade, pois vivemos sob um projeto de limpeza social racista que nos quer ver mortas/os, trancafiadas/os e servindo de mercadoria sexual para o bel prazer do senhor. A real mudança desse quadro racista passa por nossas comunidades, nossos quilombos periféricos, seja na cidade ou no campo. Devemos refletir nossos problemas e pensar a partir de nossas possibilidades, não nos cabe fechar nossas consciências apenas as teorias eurocêntricas, sobretudo aquelas que pesam o histórico de dominação.

A luta antiautoritária negra não terá intermediação burocrática, já está se organizando na periferia e combaterá qualquer forma de subserviência. Nenhum partido nos forçará dar um passo atrás, a luta antirracista diz e dirá: Nenhum passo atrás! Reaja ou será mortx! (Campanha Reaja ou Será Mortx). Podemos até está no mesmo barco, mas nosso povo NEGRO continua sofrendo com o preconceito, discriminação e o racismo, mas estamos saindo dos porões dos navios negreiros para destruir os senhores que estão na parte superior dos vários “La Amistad”. (4)

Nós da Organização Resistência Libertária reafirmamos nosso compromisso com xs de baixo e o nosso repudio a todas as formas de opressões. Por isso dizemos não a redução da maioridade penal e não ao extermínio da juventude negra e pobre. Lutaremos para impedir que a marcha fúnebre prossiga!

Nosso sangue é NEGRO e VERMELHO e nosso corpo é sinônimo de Resistência!

Zumbi e Dandara somos nós!!!

(1) Coletivo Editorial Sunguilar. Anarquismo e Revolução Negra, 2015.

(2) Passa Palavra, Goiás: comunidade se mobiliza contra militarização de escola

(3) Lorenzo Kom ‘Boa Ervin. Falando de Racismo e libertação Negra

(4) Navio negreiro tomado por negros e negras no século XIX, no Oceano Atlântico

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[Rusga Libertária] QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL. (CASEY WILLIAMS)

Retirado de:                                        https://rusgalibertaria.wordpress.com/2015/02/23/quem-e-lucy-parsons-a-mitologizacao-e-a-re-apropriacao-de-uma-heroina-radical-casey-williams/

Estamos compartilhando aqui nosso primeiro trabalho de tradução. Queremos deixar claro que estamos passíveis de erros em alguns trechos, o material ainda passa por uma revisão mais minuciosa. Resolvemos publicar pelo tempo que ficamos pendentes em compartilhar esse material traduzido. Que fala um pouco da vida de uma importante anarquista norte-americana, Lucy Parsons. Estamos abertos para sugestões e revisões solidárias.

Forte Abraço e boa leitura!

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QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL.*

Casey Williams

 

*Anarcho-Syndicalist Review número 47, Verão, 2007. Colaborador: CREAGH Ronald. Por citar essa página: WILLIAMS, Casey. “Whose Lucy Parsons? The mythologizing and re-appropriation of a radical hero”. Edição: 23 de Dezembro de 2007. [Online].

 Parsons Lucy portrait

     Como uma anarquista radical, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos de sua vida a lutar pela classe trabalhadora norte-americana e pobre.1 Uma oradora habilidosa e escritora apaixonada, Parsons desempenhou um papel importante na história do radicalismo norte-americano, especialmente no movimento operário da década de 1880, e permaneceu uma força ativa até sua morte em 1942. A única pergunta da qual ela nunca se desviou foi “como levantar a humanidade da pobreza e desespero?”.2 Com essa questão impulsionando o trabalho de sua vida, Parsons foi ativa em uma infinidade de organizações radicais, incluindo o Socialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista), a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras) e a Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo). Paralelamente com seu longo envolvimento no movimento trabalhista norte-americano, estava sua solida visão de uma sociedade anarquista, filosofia que era a base de sua crítica às instituições econômicas e políticas opressivas dos Estados Unidos da América.

    Sua oposição ao capitalismo e ao autoritarismo estatal foi solidificada em 1887, quando seu marido, Albert Parsons, foi executado injustamente.3 Após a bomba e as execuções de 1886, na manifestação de Haymarket, Parsons dedicou os próximos cinquenta anos de sua vida aos desempregados e à classe trabalhadora norte-americana. De fato, o poder do caso Haymarket na formação da vida adulta de Parsons não pode ser subestimado. Os acontecimentos de 1886 e 1887 fixam uma animosidade inflexível entre Parsons e o Departamento de Polícia de Chicago. Durante a vida de Parsons, a polícia a perseguiu, suprimindo sistematicamente seu direito à liberdade de expressão, prendendo-a várias vezes sem justificação.

    Quase seis décadas após sua morte, a polícia de Chicago deu nova vida a este legado de animosidade mútua, lutando em uma proposta para nomear um parque da cidade de Lucy Parsons. Em março de 2004, quando o Chicago Park District (gerenciador de parques municipais) propôs nomear o lote 4712 da Avenida Belmont no lado noroeste da cidade “Parque Lucy Elis Gonzales Parsons”, Mark Donahue, presidente local da Ordem Fraternal da Polícia, atacou a proposta – descartando Parsons como uma anarquista “cujas raízes históricas viriam” apenas a partir da “defesa de seu marido.” Da perspectiva de Donahue, teria sido uma farsa nomear um dos parques de Chicago com o nome de uma mulher que “promoveu a derrubada do governo e o uso de dinamite.” Infelizmente, as autoridades da cidade não contrariaram as acusações de Donahue com os fatos históricos sobre a própria vida e as realizações de Parsons. Em vez disso, os funcionários do parque ressaltaram a importância dos esforços de Parsons em nome dos trabalhadores, das mulheres e dos afro-americanos. O prefeito de Chicago, Richard M. Daley, explicou, “Nós estamos homenageando Lucy Parsons”, não “seu marido”, porque “ela era muito bem vista entre os reformadores sociais por seus esforços para promover os direitos civis” e observou que teria sido injusto e sexista “culpar a mulher por causa das ações de seu marido.”4

    Claramente, tanto o prefeito Daley quanto o oficial Donahue não compreendem a história de sua cidade. No entanto, Donahue, pelo menos, estava disposto a reconhecer que Parsons era uma anarquista, em vez de rotulá-la como uma reformista de direitos civis. Como uma anarquista, Parsons rejeitava o conceito de direitos civis que pressupunham a cooperação e aceitação do estado capitalista para conceder privilégios que ela acreditava serem os direitos naturais. De fato, uma rápida revisão da história do caso Haymarket demonstra que nem as alegações da polícia nem da cidade eram completamente corretas.5 Embora Parsons fosse inocente de qualquer envolvimento no atentado de 1886, ela compartilhou uma visão anarquista da harmonia social que defendia a destruição do capitalismo por meio de atos revolucionários, e rejeitou o reformismo e os direitos civis como curativos. Assim, há uma grande discrepância entre as reais crenças e ações de Parsons e as mitologizadas ou comemoradas que são apresentadas pela Chicago Parks Distric. Como e por que esse abismo surgiu garante uma investigação mais aprofundada, com implicações não só sobre Lucy Parsons, mas sobre a própria memória histórica.

            As repostas a estas perguntas estão no cerne da motivação subjacente à proposta dos funcionários dos parques. A sugestão surgiu a partir de um esforço de toda a cidade para homenagear mais mulheres em um sistema em que apenas 27 dos 555 parques receberam nomes de mulheres.6 Assim, o parque proposto tinha menos a ver com o reconhecimento de Parsons do que com o desejo dos funcionários de criar um sistema de parques mais “politicamente correto”. No entanto, essa idealização encontrada na incorporação de Lucy Parsons à história pública também se reflete no trabalho acadêmico sobre Parsons. Muitas vezes, os historiadores que mencionam Parsons têm moldado a vida dela para atender suas inclinações políticas. Mais notavelmente, apenas a biógrafa de Parsons, Carolyn Ashbaugh, afirmou que Parsons não era uma anarquista e que se juntou ao Partido Comunista.7Fazendo isso, Ashbaugh havia reformulado Parsons de uma heroína anarquista em uma Marxista. A discrepância entre as próprias palavras de Parsons e a memória pública de Parsons pode ser atribuída, em grande parte, à reformulação histórica de Ashbaugh. A manipulação no trabalho de Ashbaugh já foi exposta com êxito.8 Ainda assim, tem havido pouco ou nenhuma análise sobre as ideias perdidas por essa manipulação do registro histórico.

Um Histórico Contestado

            Com poucos registros conservados, juntar o início da vida de Lucy Parsons tem sido difícil para os historiadores. Na verdade, é pouco provável que os fatos do início de sua vida sejam completamente conhecidos. Ashbaugh afirma que Parsons nasceu em março de 1853, perto de Waco no noroeste do Texas. De acordo com Albert Parsons, os dois se conheceram em 1869, enquanto ele estava vivendo uma vida perigosa como um republicano radical na pós-reconstrução do Texas. Ao viajar através do condado de Johnson como correspondente para o Houston Daily Telegraph, Albert conheceu Lucy no rancho de seu tio. Animadamente, Albert descreve-a como uma “encantadora jovem donzela hispano-indígena.”9 Muitas perguntas sobre o início da vida de Parsons ainda estão sem respostas. Por exemplo, de acordo com algumas fontes, os dois se casaram em 1871, enquanto outros datam o casamento em 1872. O casamento nunca foi confirmado por uma certidão de casamento ou outro documento oficial.10

A biografia de Ashbaugh desafia a descrição de Albert Parsons sobre Lucy, afirmando que ela era, na verdade, uma antiga escrava. De acordo com Ashbaugh, Parsons era uma escrava dos irmãos Gathings, que possuíam 62 escravos perto de Waco em 1860. Ashbaugh afirmou que Parsons foi provavelmente nomeada em homenagem à filha Philip Gathings, nascida em 1849; e afirma que Henry e Marie del Gather, que Parsons chamou de sua mãe e seu tio, eram de ficção. Além disso, Ashbaugh sugere que Albert não conheceu Lucy no rancho de seu tio. Em vez disso, ela concluiu que eles se conheceram em Waco, onde as defesas de Albert dos direitos políticos negros fizeram dele uma figura popular entre a população negra. Ashbaugh especula que, enquanto vivia em Waco como uma antiga escrava, Parsons testemunhou atrocidades da Ku Klux Klan, que cresceu no poder como Reconstrução e desmoronou. Entre os inúmeros acontecimentos violentos que ela pode ter presenciado, estão a castração de um menino Africano-Americano, em 1867, e o assassinato cometido pela Klan de 13 afro-americanos perto de Waco, em 1868.

Sem dúvida, a brutalidade racial que tomou conta do noroeste do Texas na década de 1860 influenciou profundamente a sensibilidade de Parsons e a aversão pela violência contra os oprimidos. No entanto, mesmo que Parsons não fosse, como Ashbaugh especula, uma antiga escrava, ela ainda teria testemunhado a violência racial. A degradação e opressão do povo negro levou Albert Parsons, que era um ex-soldado confederado, a iniciar seu próprio jornal/boletim, em 1868, The Spectator (O Espectador), para desafiar a Ku Klux Klan e políticas de reconstrução de apoio.11 Como testemunha e talvez vítima da brutal violência racial do sul, ainda é importante notar que os registros de escravos dos irmãos Gathings não incluem nomes e, portanto, não é possível identificar Parsons como uma antiga escrava.12

Ao longo de sua vida, Lucy Parsons insistiu que ela era de ascendência mexicana e americana nativa. De acordo com Parsons, sua mãe era mexicana e seu pai, John Waller, foi um índio Creek. A afirmação faz da herança mexicana e indígena de Parsons e sua negação apaixonada da ascendência Africana é facilmente documentada. Ao cobrir o julgamento de Haymarket, um repórter do Chicago Tribune observou que Parsons “opõe-se ao termo ‘mestiço’ como significado de que ela tem sangue negro nas veias. Ela diz que sua mãe era uma mexicana e seu pai um índio.”13 Em setembro de 1886, um antigo escravo que viveu em Waco acusou Parsons de abandonar a ele e a seu filho para viver em Chicago. Quando a acusação foi à primeira página do jornal em Chicago, Parsons arrastou um repórter do Herald até a cela do marido, onde Albert explicou que o homem em Waco tinha confundido Lucy com outra mulher, e que “Sra. Parsons não tem sangue Africano em suas veias.”14 A identificação com a ascendência indígena e mexicana de Lucy Parsons não era apenas para negar a herança escrava. Ao falar em Londres em 1888, Parsons explicou:

 Eu sou aquela cujos ancestrais são indígenas neste solo da América. Quando Colombo avistou pela primeira vez o continente ocidental, antepassados do meu pai estavam lá… Quando os anfitriões da conquista das Cortes se moviam sobre o México, antepassados da minha mãe estavam lá para repelir o invasor; de modo que eu represento o genuíno Americano.15

Parece que Parsons tinha orgulho de sua identidade étnica. No entanto, a identidade negra foi empurrada em cima de Parsons ao longo de sua vida. Parsons foi repetidamente referida nos jornais como uma Negress, Negro, escuro, colorido ou mulato. 16 Embora muitos desses termos tenham sido utilizados para identificar as pessoas de raça mista, a implicação subjacente era, como um repórter do Tribune colocou, “que pelo menos um de seus pais era um negro.”17 Assim, durante sua vida, havia uma discrepância entre a identidade racial que ela alegou e a identidade racial colocada sobre ela pela sociedade. A tradição ao ver Lucy Parsons como negra, apesar de suas próprias palavras, continua até hoje.

Ashbaugh sustentou que a auto identificação de Parsons como mexicana indígena foi uma tentativa de encobrir sua herança Africana.18 Há uma série de razões pelas quais Parsons poderia ter feito isso. Em primeiro lugar, o perigo físico simples de estar em um casamento inter-racial durante a década de 1880 poderia ter levado Parsons a negar uma ascendência Africana. Juntamente com sua proteção contra alguns dos perigos de ser negro, tal rejeição pode ter criado mais oportunidades para Parsons, especialmente em um movimento operário predominantemente branco. Contudo, não obstante a lógica por trás da reivindicação de Ashbaugh, permanece a especulação, devido, em grande parte, à falta de provas – contando o apoio principalmente de sua aparência física em fotos. Simplesmente, não existem provas suficientes para declarar definitivamente que Parsons “era negra”, como Ashbaugh faz. No entanto, muitos estudiosos, como Roxanne Dunbar-Ortiz, Marion Tinling e Robin D. G. Kelly, têm rotulado Parsons como uma mulher Africano-Americana.19 Muitas vezes, essa caracterização é uma tentativa de situar Parsons em uma narrativa maior, de negros heróis americanos.20

            A existência de tantas pessoas que veem Parsons como Africano-Americana, apesar de suas próprias palavras, incita-nos a perguntar não por que Lucy Parsons precisava não ser negra então, mas por que precisamos que ela seja negra hoje? No entanto, seja negro, índio ou mexicano, Lucy Parsons ainda era uma mulher de cor, nascida e criada em um estado extremamente violento e racialmente estratificado, Texas.

Encontrando o Anarquismo em Chicago

            Após sua chegada em Chicago em 1873, Lucy e Albert Parsons entraram em um mundo turbulento, caracterizado menos por tensão racial do que pelo capitalismo industrial e problemas trabalhistas. Depois da Guerra Civil, as principais indústrias, incluindo as empresas madeireiras e de gado, criaram raízes em Chicago, trazendo praticamente todas as linhas de transporte para a cidade e fazendo de Chicago o mais importante centro econômico do centro-oeste. A nova riqueza de Chicago a tornou um destino atraente para os americanos em todo o país e imigrantes do outro lado do mar. Durante a década de 1860, mais de 74,000 imigrantes europeus entraram na cidade, junto com milhares de americanos. O aumento da população rapidamente criou moradias superlotadas e pobres, que foram ofuscadas pelas mansões enormes e o opulento estilo de vida dos capitalistas industriais da cidade.

            O contraste entre a pobreza e a riqueza criou tensões de classe, e, em 1867, os trabalhadores da cidade iniciaram o primeiro movimento para a jornada de trabalho de oito horas. Fabricantes da cidade se recusaram a cumprir com as exigências do trabalho e, após cinco dias de greve, as autoridades brutalmente reprimiram a primeira greve de oito horas, marcando o início de uma longa história de repressão violenta do trabalho.

Quando Chicago entrou na década de 1870, as condições de vida e trabalho da cidade foram exacerbadas ainda mais. Em outubro de 1871, um grande incêndio destruiu Chicago. No rastro das chamas, 17.450 edifícios estavam em cinzas e 64 mil pessoas ficaram desabrigadas. A devastação do fogo foi seguida, em 1873, por uma grande depressão, que deixou milhares de pessoas em Chicago não só sem casas, mas também sem emprego. Os eventos associados com a greve de 8 horas, em 1867, combinada com a devastação do grande incêndio e a depressão criada em Chicago, criaram uma atmosfera de tensão e medo, tornando a cidade em um solo fértil para um movimento operário radical em expansão.21 Quando Lucy e Albert Parsons mudaram para o novo apartamento perto da rua Larrabee e avenida North, rapidamente tornaram-se imersos na cultura turbulenta do conflito de classes em Chicago.

            Depois de conseguir trabalho como tipógrafo do Chicago Times e aderir à União de Tipógrafos, Albert Parsons tornou-se rapidamente uma figura proeminente no movimento operário de Chicago. Em 1876, ingressou noSocial Democratic Party (Partido Social Democrata), onde ele dedicou um tempo considerável para as causas da classe trabalhadora e tornou-se um dos mais famosos oradores da língua Inglesa na cidade. Durante esse tempo, ambos, Lucy e Albert, estavam concentrados nas obras de Karl Marx, e por volta de 1877 eles estavam realizando reuniões em sua casa para o Working-Men’s Party (Partido dos Trabalhadores). Nesse momento, Lucy e Albert Parsons não eram anarquistas, mas defendiam uma “combinação de ação econômica e política para realizar a emancipação do trabalho.”22 Eles viam os sindicatos como ferramentas poderosas contra o calcanhar de ferro do capitalismo, mas ainda acreditavam “que, contanto que os trabalhadores vivessem em uma república, eles tinham esperança de ganhar o poder através do processo democrático.”23

            Várias experiências entre 1877 e 1880 direcionam Lucy e Albert Parsons a abraçar o anarquismo. Em 17 de julho de 1877, uma greve massiva começou em West Virginia, quando os engenheiros da estrada de ferro de Baltimore & Ohio reagiram contra o salário cortado, parando os trens e desencadeando uma enorme paralisação do trabalho que se espalhou no Ocidente, chegando a Chicago; onde, em 23 de julho, “uma onda de protestos tinha se espalhado para fora dos pátios ferroviários e fábricas, serrarias e olarias”, acumulando em uma grande marcha pela Market Street, em Chicago.24 Em reação, os principais empresários de Chicago abriram seus cofres para os líderes da cidade, que usaram o dinheiro para criar um enorme exército de 5.000 cidadãos comissionados. Então, em 27 de julho, uma combinação de soldados, policiais e civis armados, violentamente esmagaram os grevistas, deixando 30 homens mortos e um ar amargo de desconfiança e ódio entre as classes de Chicago.

Essa rápida militarização de cidadãos proeminentes da cidade demonstrou a poderosa influência que a classe capitalista teve sobre o governo. Lucy Parsons escreveria anos depois que “a grande greve da estrada de ferro de 1877″ ensinou-lhe que o “poder concentrado” do governo seria sempre “exercido no interesse de poucos e em detrimento de muitos.”25 Além disso, a sua crescente desconfiança com o poder governamental tornou-se uma questão pessoal durante a greve, quando Albert Parsons ficou cara a cara com o poder das lideranças industriais de Chicago. Um dia depois de fazer um discurso empolgante antes dos trabalhadores entrarem em greve, Albert Parsons foi demitido do Times. Em seguida, o Superintendente da Polícia Michael Hickey sequestrou rapidamente Albert e disse-lhe para deixar a cidade. Mais tarde, quando Albert Parsons tentou reunir-se com membros do sindicato no edifício Times, ele foi forçado a sair por dois homens armados que ameaçaram atirar na cabeça dele. Durante o dia da grande greve ferroviária, Albert Parsons foi demitido, com uma arma apontada para ele, dizendo que deixasse a cidade. Assim, a grande greve ferroviária tocou os Parsons de uma forma extremamente pessoal e serviu como catalisador para uma ideologia muito mais radical.

Nos anos seguintes da grande greve, o Working Men’s Party se fundiu com oSocialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista) e tentou várias vezes eleger os socialistas para alas da cidade. Mas, em uma eleição após a outra, os votos foram erradamente calculados ou as urnas foram descaradamente recheadas, levando muitos a perder toda a confiança na reforma eleitoral. Em uma carta a um jornal trabalhista, Lucy Parsons explicou que “as chamadas leis” não “valem o papel em que estão escritas”, porque os capitalistas tinham o poder de fazer o que eles queriam mesmo que “os produtores de toda a riqueza tivesse desejado o contrário.”26

            No início dos anos 1880, como as ações eleitorais repetidamente falharam e as greves e as manifestações foram reprimidas pela polícia, milícia e bandidos contratados, muitos socialistas de todo o mundo começaram a se concentrar na ação direta (muitas vezes chamada de “propaganda pela ação”) como um meio para inspirar as massas e trazer a revolução. Em 1882, Johann Most, conhecido agitador revolucionário e ex-parlamentar, falou em Chicago argumentando que os trabalhadores teriam de se armar e travar uma guerra contra seus governantes capitalistas. O movimento de Chicago, em particular, combinou união e trabalho de agitação com a defesa da autodefesa armada. Acreditando profundamente na necessidade de organização, Albert e outros militantes de Chicago se estabeleceram em Pittsburgh, em outubro de 1883, onde eles, Most e outros iriam fundar a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras).

A declaração de princípios da IWPA, ou o Manifesto Pittsburgh, é o trabalho mais importante surgido a partir da conferência de 1883. Ela também continua a ser uma excelente expressão da ideologia anarquista de Parsons. Informado pela oposição de Bakunin sobre a organização autoritária e teoria da mais-valia de Marx, o Manifesto Pittsburgh expressa a crença dos escritores na inutilidade da cédula, o seu apoio à insurreição armada, e o poder do sindicalismo revolucionário.27 O principal elemento anarquista do Manifesto era seu ponto de vista a respeito dos sindicatos, vistos tanto como “um instrumento de revolução social ” quanto como a fundação de uma ordem social baseada na organização cooperativa que surgiria com a destruição do capitalismo. A combinação do sindicalismo revolucionário e do anarquismo veio a ser conhecida como a “ideia Chicago”, e logo iria captar a atenção da classe trabalhadora da cidade.

O Manifesto Pittsburgh descreve o capitalismo como “injusto, insano e assassino.” Escolas, igrejas e imprensa estavam “na folha de pagamento e sobre direção das classes capitalistas” para manter os trabalhadores reprimidos. Com um sistema tão corrupto, os trabalhadores tinham de “organizar a revolta” e destruir o capitalismo por qualquer meio necessário. Depois de descrever a natureza exploradora do capitalismo, o Manifesto Pittsburgh conclui delineando seis metas para o IWPA:

Primeiro: Destruição da dominação de classe existente, por todos os meios, ou seja, por uma ação enérgica, implacável, revolucionária e instrumental.
Segundo: Estabelecimento de uma sociedade livre baseada na organização cooperativa de produção.
Terceiro: a livre troca de produtos equivalentes por e entre as organizações produtivas sem comércio e especulação financeira* (profit-mongery*: especulação financeira foi a melhor adaptação que escolhemos para dar sentido na tradução).
Quarta: Organização da educação em uma base secular, científica e igual para ambos os sexos.
Quinto: Direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou raça.
Seis: Regulamentação de todos os assuntos públicos por contratos livres entre as comunas e associações autônomas (independentes), fundamentada em uma base federalista.28

      Acreditava-se que esses objetivos poderiam ser alcançados através das federações de grupos autônomos das IWPAs. Um departamento de informações facilitaria a comunicação entre agrupamentos IWPA, mas não haveria nenhuma autoridade central ou comitê executivo; a existência de uma entidade que controlasse estaria em contradição com a visão que o movimento tinha de uma sociedade cooperativa.

      Os princípios do Manifesto Pittsburgh é o que melhor expressam a visão de mudança social radical ao longo da vida de Lucy Parsons. Anos mais tarde, escrevendo em um ensaio sobre o anarquismo, Parsons explicaria que “os sindicatos são padrões embrionários” das “comunidades cooperativas” vindouras.29 Parsons também voltou de novo e de novo à ideia de que o Estado era tão somente um agente da repressão e, por isso, tinha de ser destruído através da ação revolucionária. Além disso, os mecanismos específicos de transformação social nomeados no Manifesto eram as suas armas escolhidas. Para Parsons, a revolução só viria através da mobilização de massas, baseada na união de um movimento aberto ao poder da ação violenta. Esse protótipo do anarco-sindicalismo impulsionaria seu envolvimento com os Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo) em 1905, com a Syndicalist League of North America (Liga Sindicalista da América do Norte) em 1912, e com a Communist Party’s International Defense League (Liga Internacional de Defesa do Partido Comunista) em 1927. Assim, o Manifesto Pittsburgh pode ser visto como a primeira e mais concisa expressão da ideologia radical de Lucy Parsons. Após a convenção de Pittsburgh, Lucy e Albert Parsons rapidamente centraram suas atividades radicais no desenvolvimento da IWPA. Conforme numerosos agrupamentos iam se estabelecendo em todo o país, Albert assumiu a editoria do único jornal de língua Inglesa da associação, The Alarm. O jornal tornou-se, rapidamente, a base para os anarquistas de língua Inglesa no movimento operário de Chicago. Lucy Parsons, com Lizzie M. Swank, começou a ajudar Albert com a produção do jornal e, juntas, escreveram alguns de seus artigos mais contundentes. O mais conhecido artigo de Parsons no The Alarm foi “A Word to Tramps” (Uma palavra aos Desempregados). Aparecendo na primeira edição, “To Tramps”(Aos Desempregados) encorajou a “desempregados” e “deserdados” a “aprender o uso de explosivos” e, quando à beira do suicídio, fazer uma declaração revolucionária, tomando as “avenidas dos ricos” e dar fim às suas vidas enviando “à frente, o clarão vermelho da destruição” através do poder da dinamite.30 Através de artigos como “To Tramps” e seus discursos inflamados, ela rapidamente se tornou “uma das mulheres anarquistas mais ativas no país.” 31

            Parsons também ficou ocupada trabalhando como costureira e cuidando de seus dois filhos pequenos. No meio da luta pela emancipação dos trabalhadores, Lucy e Albert tinham começado uma família com o nascimento de Albert Richard Parsons, em 14 de setembro de 1879, e Lulu Eda Parsons em 20 de abril de 1881. Essa nova posição como uma mãe trabalhadora explica, em parte, o seu envolvimento na organização de mulheres costureiras para os “Knights of Labor” (Cavaleiros do Trabalho***). De fato, quando uma outra greve pela jornada de oito horas de trabalho varreu Chicago em maio de 1886, Lucy Parsons poderia ser regularmente encontrada em reuniões para organizar as mulheres costureiras de Chicago.

            Em 1 de maio de 1886, uma grande greve pela jornada de oito horas de trabalho engoliu Chicago. As tensões entre os grevistas e a polícia rapidamente se intensificaram, e, em 3 de maio, a polícia disparou e matou vários grevistas fora da fábrica McCormick. No dia seguinte, alguns dos organizadores anarquistas da cidade responderam à violência policial com um comício na praça Haymarket, onde haviam cerca de 2.000 trabalhadores reunidos pacificamente em protesto. Lucy e Albert Parsons passaram a primeira parte da noite em uma reunião para a união das mulheres costureiras, mas conseguiram participar do comício de Haymarket depois, trazendo seus filhos junto. Albert falou por 45 minutos sobre a história do movimento operário, tendo um grande esforço para evitar a retórica inflamatória.32 Por volta das dez horas, uma repentina tempestade forçou Lucy, Albert e seus filhos a deixarem a reunião. Nesse momento, o Capitão James Bonifeld e 170 policiais marcharam até a praça Haymarket, ordenando que os restantes dos manifestantes, cerca de 300, se dispersassem. Quando o último discursante contestou a ordem, citando a natureza pacífica da reunião, alguém jogou uma bomba na falange da polícia. Os oficiais responderam com uma cascata de balas, disparando em vários de seus próprios homens e deixando inúmeros trabalhadores mortos e feridos. Infelizmente, o número real de vítimas entre os manifestantes, juntamente com a identidade da pessoa que jogou a bomba, nunca foram definidos.33

            Na sequência do atentado, os líderes anarquistas de Chicago foram perseguidos por uma onda de repressão. Os dias seguintes foram marcados por prisões em massa. Em cinco de maio, sozinha, Lucy Parsons foi presa, pelo menos, três vezes sem justificativa, na tentativa de forçá-la a delatar o paradeiro do marido.34 Albert Parsons, antecipando a repressão, havia fugido da cidade na noite do atentado. No entanto, quando foi feita uma acusação de conspiração para cometer assassinato contra sete grandes anarquistas, Albert voltou para a cidade; e, no dia da abertura do julgamento, se entregou ao tribunal. Com pouca ou nenhuma evidência que pudesse relacionar os réus a pessoa que jogara a bomba e com poucas pistas reais sobre o mesmo, o chefe promotor Julius Grinnell alegou que os discursos e escritos dos réus nos jornais anarquistas, como no The Alarm, “tinham inspirado uma pessoa desconhecida a lançar a bomba, e que eram, portanto, responsáveis por conspiração.” As acusações de conspiração, embora com severa falta de provas, foram mais do que satisfatórias para o júri lotado e um juiz abertamente hostil; e, em agosto, condenaram um réu a 15 anos de prisão e os outros sete homens à morte.

As sentenças foram seguidas por vários meses de apelos que falharam, incluindo a recusa da Suprema Corte dos Estados Unidos para julgar o caso. Dias antes da execução, o governador de Illinois comutou duas das sentenças dos homens condenados, que puderam sobreviver; um outro homem, Louis Lingg, cometeu suicídio em sua cela. Finalmente, quatro homens – August Spies, George Engel, Adolph Fischer e Albert Parsons – foram enforcados em 11 de novembro de 1887. A bomba em Haymarket e o assassinato judicial de dirigentes anarquistas em Chicago lançaram uma sombra que assombrou o movimento sindical norte-americano. Além disso, a tragédia pessoal caiu sobre Lucy Parsons, consolidando sua dedicação aos movimentos radicais da classe trabalhadora; tal fato incidiu sobre ela como um novo dever, o de compartilhar com o mundo a história da bomba de Haymarket e o julgamento dos anarquistas.

História de Lucy Parsons em Haymarket

Imediatamente após as sentenças de morte serem proferidas, Parsons deixou Chicago em uma turnê nacional para gerar apoio e arrecadar fundos para a defesa. Falando em grande parte aos “sindicalistas conservadores”, Parsons acreditava que ela iria “iluminar o povo americano” sobre a “operação de assassinato judicial em Chicago.”35 Em fevereiro de 1887, Parsons havia abordado mais de 200.000 pessoas em dezesseis estados. A turnê e o apoio gerado por ela desempenharam um papel significativo na conquista de uma suspensão de execução da Suprema Corte do Estado de Illinois. Além disso, a turnê de palestras de Parsons chamou a atenção nacional, tanto para as injustiças do julgamento quanto para as ideias dos anarquistas. No entanto, o sucesso da turnê foi limitado pela falta de apoio dos dirigentes sindicais conservadores. Terence Powderly, grande trabalhador mestre no Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho), recusou-se a apoiar a defesa e falou contra os condenados, agravando ainda mais a tensão já existente dentro do movimento operário. Contudo, a comissão de defesa criada por Parsons e o uso de uma turnê para angariar o apoio público e financeiro iriam servir como importantes modelos para os futuros radicais. Em um nível pessoal, a turnê iria introduzir uma das características mais persistentes da vida de Parsons. De 1886 até sua morte em 1942, Parsons gostaria de voltar novamente e de novo para o seu compromisso de compartilhar sua história em primeira mão de Haymarket em suas audiências.

Através de livros publicados, discursos e escritos, Parsons dedicou 50 anos de sua vida não só para limpar o nome de seu marido, mas também para a preservação, educação e inspiração de outras gerações com a história do caso de Haymarket. Parsons compartilhou essa história, em grande parte, através de materiais publicados. Menos de um mês após as execuções, Parsons estava rodando propagandas de um livro de discursos de Albert em The Alarm.36 Em 1889, Lucy Parsons estava vendendo Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons), uma coletânea de ensaios sobre a história do movimento operário americano e os próprios escritos de Albert. Com o livro, Lucy se dispôs a criar uma obra que “não era apenas biográfica, mas histórica – um trabalho que pode ser invocado como uma autoridade” para o futuro.37 A dedicação de Parsons para garantir que essa história não seria esquecida se estendeu muito para o século XX. Em 1909, Parsons escreveu para Mother Earth (Mãe Terra), uma revista anarquista editada por Emma Goldman e Alexander Berkman, entre outros, pedindo, “quem iria perpetuar a memória de nossos companheiros mártires”, para ajudá-la a republicar seu outro texto, o Famous Speeches of our Martyrs (Discursos Famosos de nossos Mártires).38 Muitas vezes, quando falava no 1º de Maio ou 11 de Novembro, Parsons infundia a sua história com forte paixão, ao compartilhar a dor pessoal que sentiu quando ela e seus filhos foram presos e detidos durante a execução.39 Frente às audiências e publicações da IWW, ela contou as atrocidades de conspiradores capitalistas ao comparar o julgamento de Chicago com a acusação do líder do IWW, Bill Haywood, em 1907.40 Mais tarde, quando o socialista Eugene V. Debs e o sindicalista radical Tom Mooney foram presos, Parsons enviou para eles dois exemplares de Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons).41

            Lucy também tinha plena consciência de outras obras sobre Haymarket. Quando a obra ficcional de Frank Harris foi publicada em 1908, Parsons tinha 10.000 folhetos impressos e distribuídos para refutar as “declarações contidas nesse livro mentiroso.”42 Acreditando que a identidade do homem da bomba era “absolutamente desconhecida”, Parsons opôs-se a Harris nomear um bombista e também ao papel secundário de Albert desempenhado em The Bomb. Por outro lado, em 1937, Parsons elogiou oLabor Agitator: the Story of Albert R. Parsons de Alan Calmer (Agitador de Trabalho: a História de Albert R. Parsons, de Alan Calmer), chamando-o de “boa história do trabalho” que a atual “geração deve conhecer”.43

            Parsons se dedicou para compartilhar as radicais histórias de Haymarket, que estão profundamente disputadas. Um historiador precoce de Haymarket praticamente ignorou o papel de Parsons nos esforços de defesa e limitou sua vida para as notas finais.44 De acordo com Ashbaugh, na década de 1960, os editores da Radcliffe’s Notable American Women (Notáveis Mulheres Americanas de Radcliffe) não optaram por incluir Parsons, chamando-a de uma figura patética incapaz de escapar do passado e parar de chorar sobre injustiças.45 Aparentemente, de acordo com essas caracterizações, a defesa que Parsons fez de seu marido e a dedicação aos mártires da história de Haymarket a fez historicamente insignificante. Na verdade, a luta de Mark Donahue contra o parque Lucy Parsons atesta o fato de que essa ideia ainda está viva hoje.

            Na década de 1970, os historiadores revisionistas contra-atacaram essa demissão. Em sua biografia, Ashbaugh denunciou “a impressão de que Lucy Parsons dedicou sua vida a limpar o nome de seu marido” como completamente errada, retratando Parsons, ao invés disso, como uma revolucionária comunista, não uma esposa devotada. Mais recentemente, Gale Ahrens escreveu que seus “escritos e discursos sobre os acontecimentos em 1886-87… são uma parte relativamente pequena do trabalho de sua vida”, e que ela só estava tentando demonstrar a continuidade histórica entre Haymarket e julgamentos políticos posteriores.46 Ambos estão corretos ao considerar Parsons uma revolucionária em seu próprio direito. Entretanto, a história dos mártires de Haymarket não era uma pequena parte da vida de Parsons, mas, em vez disso, foi uma característica central de sua vida.

            Quase imediatamente após a bomba, as histórias populares do evento entraram na esfera pública. Na maioria das vezes, essas histórias serviram apenas para apoiar processos sensacionalistas que apregoavam concepções de anarquistas como perigosos subversivos. “O mais notável destas histórias é o capitão da polícia Michael” de Schaack, 1889, Anarchy and Anarchists, que retrata o julgamento de Haymarket como uma grande vitória para a lei e a ordem sobre terroristas anarquistas.47 Outra história inicial é a “Anarchy at an End: Lives, Trial, and Conviction of the Eight Chicago Anarchists” de 1886, que incide sobre os papéis heroicos do júri, acusação e juiz.48 Junto com outras histórias populares da época, esses livros disseminaram a interpretação do Estado capitalista a respeito dos eventos de Haymarket. Como contraponto à essas histórias conservadoras, Life of Albert Parsons segue um esquema semelhante ao texto de Schaack. Ambos começam com uma história do movimento operário muito antes da década de 1880 e, embora ambos sejam extremante subjetivos, eles tentam apresentar um quadro histórico para a compreensão dos acontecimentos de 1886.

Contudo, com o decorrer do tempo, Albert Parsons passou a ser o centro da história do caso Haymarket, crescendo no trabalho de Parsons. De fato, Parsons tomou um interesse particular na mitificação e criou um herói fora do legado de seu marido. Isso pode ser visto pela comparação das respostas que deu a Harris em The Bomb e as que deu a Calmer em Labor Agitator. Parsons, apaixonadamente, denunciou o The Bomb, porque ela acreditava que Harris tinha identificado erroneamente a pessoa da bomba, e porque o The Bombapresentou Albert Parsons como uma figura secundária.49 Por outro lado, Parsons elogiou o livro de Calmer, o que está diretamente ligado ao fato de que Albert toma o lugar central em Labor Agitator. Claramente, Parsons apoiou a narrativa que colocou seu marido na vanguarda dos acontecimentos, apesar de que sua importância no movimento operário era, em grande parte, devido ao fato de ser ele um dos seus poucos agitadores de língua Inglesa. Assim, Parsons era culpada de participar na transformação de si mesma em herói. No entanto, um reconhecimento dessa subjetividade não só reforça a centralidade do caso Haymarket em sua vida, mas também mostra que ela não era infalível. Parsons permitiu, por vezes, que suas lealdades pessoais moldassem sua interpretação no caso de Haymarket, ainda que não fosse patológica ou de grau obsessivo.

            Ainda assim, há uma justificativa para o calendário e a forma de apresentação encontrada na narrativa histórica de Parsons. Na maior parte das vezes, Parsons compartilha essa história quando participa de eventos apropriados – especialmente nos aniversários do dia da bomba ou da execução. Em seu jornal The Liberator (O Libertador) no IWW, impresso de 1905 a 1906, demonstra claramente isso. Em The Liberator, Parsons dedica amplo espaço para as questões da época, como o sindicalismo, a Guerra Russo-Japonesa e próximas eleições, economizando uma discussão detalhada sobre a questão de Haymarket para o dia 11 de novembro de 1905. Na memória do assunto, Parsons ofereceu sua narrativa de assassinato judicial, apoiando seu argumento com registros do tribunal do Condado de Cook.50Além da edição de aniversário, quase todos os artigos sobre Haymarket emThe Liberator foram acoplados a um artigo sobre a história internacional dos trabalhadores, refletindo sua consciência do lugar mais amplo de Haymarket na história.51

Da mesma forma, quando falava em eventos que não estavam diretamente relacionados com a Haymarket, Parsons geralmente reservaria sua discussão sobre Haymarket para o final, como uma pedra angular inspiradora. Seu discurso na convenção fundadora do IWW começou com uma exposição da opressão das mulheres trabalhadoras, em seguida, discutiu a solidariedade de classe e terminou com um histórico do caso de Haymarket. No entanto, na celebração do May Day (Dia do Trabalhador) em 1930, Parsons dedicou a totalidade do seu discurso a Haymarket, começando com “a grande greve” para “a jornada de oito horas” e terminando com as últimas palavras do mártir no tribunal.52 As diferenças entre os dois discursos destaca a racionalidade por trás das decisões de Parsons quando fala sobre a história de Haymarket.

Ao contar a história Haymarket para o público de trabalhadores, Parsons advertiu contra visões ingênuas da democracia americana. Juntamente com as lições da greve em 1877, o susto vermelho que se seguiu ao atentado ensinou Parsons, da forma mais pessoal, que o estado norte-americano poderia derramar um “reinado de terror” em cima do radicalismo, igual ao “cão de caça russo mais zeloso.”53 A história do caso Haymarket mostrou que o governo podia se mover rapidamente para esmagar indivíduos e movimentos. A incapacidade do comitê de defesa para impedir os assassinatos judiciais incutiu em Parsons a importância central de angariar apoio em massa para desafiar o poder do capitalismo sobre o Estado. Assim, o objetivo subjacente de compartilhar a história de Haymarket se estendeu para além de limpar o nome de seu marido, pois almeja, no fim das contas, usar as lições do caso para educar futuros radicais trabalhistas. As lições embutidas na história de Parsons foram evidentes aos militantes posteriores. Organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn explicou que Parsons “viajou de cidade em cidade, batendo nas portas de sindicatos locais e contando a história do julgamento de Haymarket” a fim de alertar os jovens sobre a “gravidade da luta adiante” e a possibilidade de que a “prisão e a morte” podem vir “antes da vitória.”54 A natureza perigosa do radicalismo do trabalho foi ilustrada pela explicação de Parsons em um discurso de que “a imprensa capitalista”, o “púlpito”, a polícia, um júri lotado, e “juízes preconceituosos” agiram conjuntamente para executar líderes anarquistas de Chicago.55 Assim, Parsons advertiu jovens radicais, usando a história do caso de Haymarket para mapear as estruturas de poder em um estado capitalista.

            Historiadores revisionistas que rejeitaram ou ignoraram a dedicação de Parsons à história de Haymarket também têm mascarado o fato de que Parsons havia fixado um significado alternativo para o caso Haymarket, que desafiou o significado criado por poderes institucionalizados. Através de interpretações históricas de tais historiadores, “comentaristas da grande mídia, porta-vozes do capital, e oficiais estaduais fundamentados na legitimação das instituições” transmitiram a “ideia dominante de que a violência do governo efetivamente protegeu” a América contra a “violência conspiratória e niilista de terroristas da classe trabalhadora”, como Albert Parsons.56 Em outras palavras, histórias como a de Schaack, que classificou os anarquistas como terroristas e subversivos estrangeiros, deram aos acontecimentos de Haymarket um significado simbólico que mais tarde justificou a criação de aparatos estatais repressivos, incluindo “esquadrões vermelhos” (red squads, unidades de inteligência policial especializadas em se infiltrar), legislação nativista, e agências de inteligência. Em oposição a essa caracterização dominante, Parsons retratou os anarquistas como mártires, em vez de terroristas, exibindo uma forte consciência desta luta pelo sentido. Praticamente, em todos os tempos, “a reunião Haymarket” foi referida historicamente como o “motim de Haymarket”; e Parsons teria, apaixonadamente, citado a natureza da reunião como “pacífica e tranquila”.57Parsons sabia que ela tinha que “cavar os fatos” de uma história de mentiras que haviam sido amontoadas sobre os mártires por aqueles que tentaram “encobrir [o] crime de enviar cinco líderes de trabalhadores para a forca.”58Além disso, o significado histórico alternativo que Parsons atribuiu também construiu as bases simbólicas de comemorações institucionais, como o May Day. Quando a dedicação de Parsons à interpretação histórica radical do caso Haymarket é jogada abaixo, obscurece-se o papel influente que ela desempenhou na fixação de um significado alternativo para o episódio da bomba na Haymarket.

            Ao reconhecer que Parsons passou grande parte de seu tempo compartilhando a história dos acontecimentos de Haymarket, é possível explorar a influência da narrativa pessoal sobre o radicalismo. Embora bem versado no pensamento radical, a capacidade de Parsons para moldar o significado dos eventos de 1886 não deriva de sua experiência intelectual. Em vez disso, a influência de Parsons está enraizada no uso de uma narrativa pessoal e sua posição como uma viúva do acusado e executado. Parsons explicou que ela tinha um “direito como mãe e como esposa de um dos [a] os homens sacrificados, para dizer o que quer”, que ela poderia “trazer a luz a incidir sobre” a judiciária “conspiração”.59 Apesar de sua falta de poder institucionalizado, ela poderia usar seu poder simbólico como uma viúva para impulsionar seu significado alternativo para a esfera pública por meio de palestras e livros, e, assim, combater as ideias sensacionalistas divulgadas pela imprensa mainstream (termo inglês que designa o pensamento ou gosto corrente da maioria da população). Assim como as histórias institucionais do episódio da bomba em Haymarket produziram poderosos sentimentos de medo no seio da sociedade, a narrativa de Parsons havia criado sentimentos apaixonados de raiva e revolta entre os radicais. Quando os historiadores ignoram que Parsons teria um compromisso de dizer a sua história alternativa do caso Haymarket, destroem também a oportunidade de ver o poder que a experiência pessoal pode ter na promoção de radicalismo na América, e em preencher as lacunas no registro histórico.

 

Raça e a Criação da Consciência de Classe

            A postura de Parsons sobre a opressão racial também é contestada bruscamente. Relacionado à sua celebração como uma ativista dos direitos civis, muitas vezes, é afirmado que Parsons foi uma forte porta-voz contra o racismo. A página inicial do site comemorativo LucyParsonsProject.org afirma que Parsons desafiou a discriminação racial. Na mesma linha, os funcionários dos parques de Chicago acreditavam que o parque proposto não reconhece apenas o ativismo operário de Parsons, mas também os seus esforços em nome dos afro-americanos.60 No entanto, essa celebração da militante como uma voz ativa contra a opressão racial não tem sido afirmada por acadêmicos. O historiador Robin D. G. Kelly argumenta que Parsons eloquentemente lutou contra a opressão da classe trabalhadora, mas “ignorou a raça”; argumenta, ainda, que, embora ela escrevesse sobre linchamentos de negros, Parsons visualizava a tamanha violência racial, principalmente, como uma extensão da opressão de classe. Kelly baseou seu argumento, em grande parte, em um artigo de 1886 no The Alarm, em que ela escreveu que a opressão não foi “lançada sobre o negro porque ele é negro”, mas porque “ele é pobre.”60 Kelly argumentou que Parsons praticou reducionismo de classe, e acredita que esse reducionismo é explicado pela sua incapacidade de operar fora “dos limites do pensamento ocidental socialista do século XIX.”62 Ashbaugh concorda, argumentando que Parsons “acreditava que a abolição do capitalismo produziria automaticamente igualdade racial.” Ashbaugh explica que a postura de Parsons (ou falta dela) sobre a opressão racial refletiu sua profunda internalização do racismo branco, o que tornou impossível para “ela analisar sua posição social em relação a tudo menos seu status de classe.”63 Essa análise contradiz claramente a imagem mitologizada de Parsons como “uma defensora ferrenha” para “os direitos dos afro-americanos.”64 Essa contradição é explicada, em parte, pelos questionamentos às visões que Kelly e Ashbaugh tinham de Parsons como uma reducionista de classe.

A historiadora feminista Roxanne Dunbar-Ortiz argumentou recentemente que Parsons, de fato, reconhece o racismo como uma força fora dos limites da opressão de classe, baseando-se em um artigo de 1892, em que Parsons protesta contra a violência racial, “sendo perpetuada no Sul contra os cidadãos pacíficos, simplesmente porque eles são negros.” Em resposta a esse racismo brutal, Parsons sugeriu que os afro-americanos tirassem o espírito de John Brown e “ajudassem a si mesmos” pelo aumento da autodefesa.65 Dunbar-Ortiz argumenta que a postura de Parsons sobre o racismo se estende além do “economicismo reducionista” e que sua “linguagem de autoconfiança e autodeterminação” foi um precursor para o radicalismo de “Malcolm X e os Panteras Negras”.66 A conexão feita aqui é bastante tênue. No entanto, ligando escritos de Parsons com as ideias do “movimento dos direitos civis durante a década de 1960”, Dunbar-Ortiz plantou as sementes para comemoração de Parsons como uma defensora dos direitos negros.

            Parsons, em 1930, trabalhou para a defesa dos Scottsboro Boys, através da International Labor Defense (ILD, Defesa Internacional do Trabalho), o que também é citado como evidência de seu ativismo negro. Argumenta-se que o seu trabalho em defesa dos oito homens negros, conhecidos como os “Scottsboro Boys”, em julgamento pelo suposto estupro de uma mulher branca, mostra “dedicação… para as lutas dos afro-americanos.” (www.lucyparsonsprojet.org/about_lucyparsons.html.) No entanto, na década de 1930, Parsons também estava trabalhando com o ILD para obter a liberdade do líder trabalhista Tom Mooney da prisão. Seus esforços em nome dos Scottsboro Boys parece refletir seu trabalho de longa data contra o assassinato judicial, mais do que uma dedicação específica para os afro-americanos.67 Na mesma linha, seu ensaio “Southern Lynchings” (Linchamentos no Sul) não fornece provas suficientes para demonstrar que a opressão dos afro-americanos era um foco central em sua obra. No entanto, o artigo demonstra que Parsons estava ciente do racismo, e não ignora a questão. De fato, “Southern Lynchings” sugere que, antes que Parsons passe a ser definitivamente marcada como uma reducionista de classe ou uma ativista pelos direitos dos Negros, é necessária mais investigação.

Uma exploração mais profunda em sua postura sobre o racismo pode começar com uma análise das alegações de Kelly e Ashbaugh a respeito do reducionismo em relação à dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe. Para reiterar, Kelly explicou a postura de Parsons sobre o racismo como um reflexo de seu confinamento ao pensamento socialista ocidental. Ao fazer isso, Kelly deu a entender que o trabalho de Parsons dentro do movimento operário apenas a distanciava da opressão racial, que ela era incapaz de ver o poder opressivo do racismo. Ashbaugh acreditava que o reducionismo de Parsons deveu-se ao fato de que ela internalizou o racismo, a tal ponto que ela “negou a sua própria ancestralidade negra” e, assim, ficou incapaz de ver tanto a sua própria “opressão como uma mulher negra” quanto o papel do racismo na sociedade em geral.68 Essas explicações são, em grande parte, especulativas e, paradoxalmente, apesar de Kelly e Ashbaugh chegarem a mesma conclusão, um raciocínio contradiz o outro. É difícil imaginar que uma mulher de cor viva, no início do século XX, não podia ver ou sentir o racismo. Além disso, juntamente com o “Southern Lynchings”, uma exploração de dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva demonstra que Parsons estava ciente do poder do racismo na sociedade em geral.

Ao longo da vida, Parsons se esforçou ativamente para construir uma identidade de classe comum entre todos os trabalhadores norte-americanos.69Muito antes do episódio da bomba de Haymarket, Parsons pediu às “massas para aprender que” os seus interesses estariam sempre em oposição à classe dominante.70 Parecia que a falta de apoio para a defesa dos líderes dosKnights of Labor, junto com divisões pré-existentes dentro do movimento operário e um medo geral de represálias, impediu o apoio unificado dos trabalhadores aos réus de Haymarket. Parsons se afastou das execuções, acreditando que só um movimento massivo baseado no interesse comum dos trabalhadores poderia desafiar com êxito o capitalismo. Assim, no sentido de incitar a formação de uma classe operária auto identificada na América, Parsons estava tentando fortalecer a única arma que ela acreditava realmente que poderia derrubar o capitalismo. Em 1907, depois que o líder da IWW, Bill Haywood, foi absolvido das acusações de conspiração para cometer assassinato, Parsons explicou que o sucesso da defesa foi porque “a classe operária era unida e ficou ombro a ombro”; e tornou-se consciência de classe ao reconhecer que a própria IWW, não só Haywood, era, na verdade, levada a julgamento.71

            Além disso, a sua visão de classe incluiu pessoas de todas as raças e etnias. Parsons abraçou organizações que se recusaram a participar de bode expiatório racial e rejeitavam políticas racialmente exclusivas. Em 1885, oIWPA declarou que não faria como outras organizações de trabalhadores tinham feito e “declarou o Chinês responsável pelas condições opressivas dos trabalhadores”, como o “IWPA nunca iria sentir que suas fileiras estavam completas se excluíssem trabalhadores de qualquer nacionalidade.”72 Parsons continuaria a defender um movimento trabalhista racial, inclusive, muito depois do desaparecimento das IWPAs. Falando antes do IWW, Parsons ressaltou a importância de formar uma solidariedade inclusiva entre os trabalhadores, lembrando o IWW que:

O fluxo vermelho que corre nas veias de toda a humanidade é idêntico… Não importa onde, seja nas planícies ensolaradas da China, ou no sol batendo nas colinas da África, ou nas margens distantes cobertas de neve do norte, ou na Rússia ou na América… todos eles pertencem à família humana e têm uma identidade de interesses.73

            Claramente, Parsons estava ciente que questões de raça dentro do movimento trabalhista americano poderiam ser poderosamente divisionistas. Na verdade, dialogando diretamente com problemas de racismo que assolaram o movimento operário, Parsons incentivou claramente o IWW a abraçar uma forma inclusiva da consciência de classe, não permitindo que a união fosse dividida em linhas raciais ou nacionais; assim como muitos outros sindicatos da época. Longe de ignorar raça, Parsons rejeitou a criação de organizações de trabalhadores exclusivamente raciais ou estratificados.

            Além disso, sua dedicação para forjar um movimento trabalhista racialmente inclusivo desafia a ideia de que ela havia internalizado o racismo. Em vez disso, ela reconheceu o poder de divisão do racismo e, junto com os outros fundadores do IWW, abraçou e incentivou a formação de uma consciência de classe racialmente inclusiva, que poderia atuar como um poderoso mecanismo contra o capitalismo.

            Explorar essa dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva na América pode servir como um ponto de partida para uma análise da sua postura de raça. Na verdade, em termos comemorativos, incluir nomes e as celebrações do parque que leva o nome Parsons pode de fato estimular o movimento operário americano a adotar mais práticas e políticas raciais inclusivas. Ainda assim, deve-se ressaltar que a dedicação de Parsons para forjar uma classe trabalhadora racialmente unificada, autoconsciente, estava enraizada em seu desejo de fortalecer a escolha das armas contra o capitalismo – um movimento de trabalhadores em massa. Na realidade, implícita dentro de sua postura de oposição, incluindo a sua crítica ao poder de divisão do racismo, Parsons tinha o desafio de ter sua própria concepção para América como uma sociedade sem classes.74

Criando a Heroína Mítica

 

            Grande parte da controvérsia sobre a vida de Parsons tem resultado da remodelação inadequada e da criação de um ícone histórico. A história de Parsons foi influenciada pelas afiliações políticas e objetivos daqueles que a gravaram, e por aqueles que foram empenhados em criar um herói em sincronia com suas inclinações políticas específicas ou suas necessidades. No entanto, são possíveis várias formas de comemoração ou homenagem para Parsons sem alterar ou ignorar suas próprias palavras. Parsons pode ser facilmente celebrada como uma figura fundamental na criação e preservação de uma história alternativa de Haymarket. Ela pode ser vista como um herói trabalhador que rompeu com a tradição e defendeu racialmente (e gênero) a unidade da classe trabalhadora dos Estados Unidos – uma posição geralmente radical para esse período. No entanto, não é dada atenção suficiente a como e por que essa manipulação é tão prevalecente na historiografia de Parsons. Uma série de fatores influenciam a reformulação do seu legado. Ao explorar como e por que Parsons tem sido rotulada como uma ativista negra, feminista e comunista, as raízes dessa manipulação podem ser resolvidas na íntegra.

Muitos dos problemas associados com a rotulação de Parsons como Africano-Americana já foram discutidos, mas a atratividade desse rótulo garante mais discussão. Em sua rotulação como negra, torna-se possível se envolver com ela em um nível mais familiar. A incapacidade dos Estados Unidos de reconhecer suas divisões de classe fez das identidades raciais e étnicas uma área mais familiar no discurso. É mais fácil rotular Parsons em questões afro-americanas e, em seguida, discutir questões que confrontam figuras negras na história americana. Por exemplo, quando se compara Parsons com uma famosa anarquista branca, Emma Goldman, Ashbaugh argumenta que “Goldman pudesse estudar na Europa e viajar em meios educados”, mas a “pele escura” de Parsons impediram-na de tais oportunidades.75 Contudo, o registro histórico refuta tal argumento. Parsons foi calorosamente recebida ao falar em Londres, em 1888, pelo menos, nos meios radicais; e sua visita à Inglaterra é considerada um fator chave para levar muitos socialistas ingleses a abraçar completamente o anarquismo.76 Sua popularidade na Europa durou décadas. Enquanto escrevia The Liberator, um camarada de Paris lembrou Parsons de que ela ainda estava “bem conhecida na Europa” e que qualquer conselho que pudesse oferecer sobre os perigos do sindicalismo iria “fazer uma boa impressão” nas alas radicais parisienses.77 Claramente, Parsons poderia viajar pela Europa. Assim, nem todas as restrições típicas das mulheres negras afetaram Parsons. Em vez disso, uma comparação de classe e culturas constituintes serviria como melhores mecanismos para a compreensão de diferentes experiências de Parsons e Emma Goldman na Europa. Além disso, essa comparação exigiria que a comunidade acadêmica participasse mais plenamente com Parsons em um nível de classe.

            O legado de Parsons também foi transformado em história de uma heroína feminista. Especialmente nas arenas de memória pública, Parsons é rotineiramente chamada de feminista.78 Ao longo de sua vida, ela abordou muitas questões que as mulheres enfrentam. Ela se enfureceu contra as práticas corrosivas que pressionavam as mulheres para absorver empregos domésticos e incentivou as mulheres a abraçar o controle da natalidade.79Como uma mãe trabalhadora, Parsons acreditava que falava em nome de todas as mulheres que trabalhavam quando participou da fundação do IWW.80No entanto, seus esforços em nome das mulheres sempre fizeram parte de sua dedicação à luta de classes.81 Seu interesse pela libertação feminina manteve-se focado em questões que lhe foram mais diretamente ligadas ao trabalho e ao capitalismo. Parsons respondeu às anarquistas que defendiam maior liberdade sexual das mulheres, salientando que a rejeição das relações sexuais e familiares tradicionais poderia aumentar a opressão das mulheres que trabalhavam por removê-los da rede de segurança econômica da família.82 No entanto, com os escritos dispersos de Parsons sobre questões femininas, como prova, os historiadores revisionistas têm usado com sucesso o rótulo feminista para combater a visão de Parsons como uma viúva apaixonada. Contudo, o rótulo feminista também é problemático. Pode ainda prejudicar a exploração de sua dedicação à história de Haymarket, tornando difícil esquadrinhar as maneiras pelas quais o poder de Parsons foi positivamente derivado de sua posição como mulher e viúva. Além disso, tal como os termos dos direitos civis, o rótulo feminista tende a ser usado de maneiras que fundem ideias de Parsons com as ideias e objetivos do movimento das mulheres de 1960. Ao invés de usar o termo feminista, pode ser mais simples afirmar que Parsons foi uma heroína para todos os trabalhadores.

            A ideia de que Parsons foi membro do Partido Comunista é a identidade mais contestada e sem fundamento já colocada a seu respeito. A imagem de Parsons como uma comunista é apenas a criação de Ashbaugh. Escrevendo em 1976, no final de uma era de intelectualismo marxista, Ashbaugh afirmou que Parsons perdeu a fé no anarquismo no início de 1930; e, como o Communist Party USA (Partido Comunista dos EUA) cresceu em proeminência, ela tornou-se ativa na International Labor Defense, um grupo da frente comunista. Em 1927, Parsons foi eleita para o Comitê Nacional do ILD e, de fato, trabalhou em uma série de casos, incluindo o caso Scottsboro.83 No entanto, Ashbaugh, dando, então, um salto de fé, alega que, em 1939, Parsons entrou oficialmente para o Partido Comunista, mas não forneceu qualquer evidência sólida para essa afirmação. O Partido não registra a adesão de Parsons, seja na literatura promocional ou em seus registros. Em vez disso, Ashbaugh usou um trabalho de Parsons com o ILD e seus discursos antes das audiências comunistas como prova de filiação. Já se observou que o trabalho de Parsons com o ILD foi, antes de tudo, uma continuidade de seus esforços na defesa dos líderes trabalhistas vítimas da repressão. Os discursos de Parsons antes das audiências comunistas não indicam necessariamente que era um membro do partido, mas que ela estendeu a mão para uma organização que considerava eficaz no tratamento das questões trabalhistas.

            A presença de Parsons na história do comunismo americano expõe uma das principais formas de manipulação da sua história. Na década de 1920, o movimento anarquista americano foi praticamente dizimado por políticas governamentais anti-radicais. Na década de 1930, o Partido Comunista dos EUA foi a organização mais proeminente com foco em questões trabalhistas. Desde o caso Haymarket, Parsons professava uma ideologia radical simples: apenas uma sólida organização baseada em classes e que tivesse a atenção das massas e aceitado a natureza violenta da luta de classes poderia trazer o ideal revolucionário de uma sociedade livre.84 Parsons passou a vida se movendo de organização para organização, a fim de apoiar a associação com o forte poder revolucionário. Ela explicou, em 1930, que tinha “visto muitos movimentos de vir e ir” e havia “pertencido a todos aqueles movimentos”, mas que sempre fora “uma anarquista, porque o anarquismo [transporta] o próprio germe da liberdade em seu ventre.”85 Uma pequena lista de organizações em que Parsons trabalhou inclui o Socialistic Labor Party (Partido Socialista Trabalho), o IWPA, o Socialist Party (Partido Socialista), o IWW, o Syndicalist League of North America (Liga dos Sindicalistas da América do Norte) e oILD. Parsons, em um fluido movimento de organização para organização, enfraquece a afirmação de Ashbaugh.86

            Em vez de reconhecer a vontade de Parsons para trabalhar com uma ampla gama de organizações da classe trabalhadora, Ashbaugh introduziu algo semelhante a uma competição sobre quem poderia reivindicar Parsons. Por exemplo, a história documental de Gale Ahrens foi uma tentativa de resgatar Parsons “para o movimento anarquista.”87 Ao fazê-lo, Ahrens fornece ao anarquismo outro herói, mas faz pouco para desmistificar o legado de Parsons. Ao enfatizar suas próprias afiliações políticas e não reconhecer a dedicação de Parsons à criação de uma sociedade livre, superando suas lealdades institucionais, historiadores abriram a porta para o legado de Parsons ser destorcido para a história de um mero reformador social.

Por fim, deve-se salientar que essa mitologização de Parsons resultou na desvalorização e expurgação de seu compromisso revolucionário. A adesão de Parsons à ideia de “propaganda pela ação” praticamente desapareceu do registro histórico.88 Lidar com a história de Parsons e o anarquismo de promoção da ação direta, às vezes violenta, tem sido uma tarefa difícil para a esquerda norte-americana. Além disso, em um mundo pós-11 de Setembro, o discurso em torno do surgimento e méritos da violência revolucionária tem sido quase que totalmente limitado a sua repulsa. Tornou-se difícil para comemorar publicamente Parsons, embora reconhecendo sua dedicação à “propaganda pela ação”. No entanto, sua vida pode servir como um caso de estudo para a compreensão da relação entre as experiências de repressão e de crença na necessidade ou inevitabilidade da violência como um mecanismo para a mudança. Tal exploração nos permitirá visualizar as crenças de Parsons não como uma anomalia a ser esquecida em uma outra vida louvável, mas como um elemento central de uma ideologia radical profundamente influenciada pela experiência pessoal da repressão.

O Parque Lucy Elk Gonzales Parsons

            Em 07 de março de 1942, Lucy Parsons morreu quando sua casa pegou fogo, pondo fim há mais de 70 anos de trabalho incansável em nome da classe trabalhadora da América. Parsons deixou para trás um longo histórico de contribuições influentes para o radicalismo americano, mas o fogo e a remoção e supressão de seus registros pessoais pelas autoridades estaduais contribuíram para ocultar o seu legado.89

            Historiadores e funcionários públicos ainda sepultaram a influência de Parsons, moldando sua vida para caber nos interesses políticos e culturais atuais. Essa reformulação histórica está na raiz da criação de uma imagem heroica de Parsons que contradiz muitas de suas próprias crenças. Através do esforço para ver a vida de Parsons dentro do contexto de seu próprio tempo e retornando para muitos dos registros históricos disponíveis, é possível lidar com essas contradições e deixar brilhar uma nova luz sobre suas contribuições para o radicalismo americano. Parsons foi claramente a figura mais formativa no sentido de garantir que a história do caso de Haymarket seria lembrado e não fosse distorcida por aqueles no poder. Parsons usou essa história para educar líderes trabalhistas jovens da América a respeito do poder repressivo do Estado, bem com infundir no movimento operário uma indignação apaixonada. Além disso, Parsons acrescentou ao ideal americano de justiça, promovendo políticas de trabalho racialmente inclusivas que ajudaram a fortalecer a compreensão tradicionalmente fraca de classe na América.

Em maio de 2004, o conselho do Chicago Park District’s aprovou a proposta do Parque Lucy Elis Gonzales Parsons. As contribuições de Parsons para o radicalismo americano certamente merecem ser comemoradas, e o Parque Lucy Elis Gonzales Parsons pode servir como um poderoso local para tal comemoração, apesar de os pressupostos historicamente imprecisos que levaram a sua criação. Rodeado por um número de fábricas, em um bairro operário intocado pela especulação imobiliária, o cenário do parque Parsons é bastante apropriado.90 O parque poderia facilmente servir como um ponto de encontro de diversos grupos para se unirem em torno de suas causas comuns. O parque também oferece uma oportunidade para Chicago e América começarem a abraçar plenamente a sua história radical. O passado da América está cheio de lutas pela liberdade econômica, e nossa sociedade não é nutrida através da limitação de nossa celebração histórica para o movimento dos direitos civis e de outras lutas que têm sido, muitas vezes, domadas em sua releitura.

Naturalmente, a verdadeira questão não é quem foi a heroica Lucy Parsons, mas como podemos aprender com sua luta e como sua história pode proporcionar uma melhor compreensão do radicalismo americano. Mais importante ainda, o Parque Parsons deve servir como um lembrete de que a história que encontramos em uma placa ou espremido em listas de heróis foi certamente influenciada pelo presente. A formação do legado de Parsons para atender às necessidades de um governo da cidade, relutante ou incapaz de celebrar diretamente sua história anarquista, nos ensina que histórias de banco de parque nunca devem ser vistos como a história completa, mas deve servir como ponto de partida para um estudo mais profundo.

A pesquisa sobre a vida de Parsons está apenas começando. Com uma compreensão de como e por que sua história tem sido deformada, existe uma oportunidade inestimável para cavar ainda mais os registros, em uma tentativa de desmistificar sua vida. Existem áreas inteiras de sua vida, especialmente na era da Primeira Guerra Mundial e na década de 1920, que estão em falta, a partir do registro histórico, e devem ser exploradas.

A história Lucy Parsons é mais ampla e mais complexa do que sua condensação em uma biografia ou do que um pequeno livro de fontes documentais pode capturar. Estudos sobre Parsons e o radicalismo em geral, não podem ser considerados finais – como ela mesma salientou:

“Nada é considerado tão verdadeiro ou tão certo, que as descobertas futuras não possam prová-lo falso.”91

 

__________________________

1 Sou grato a S. Kashdan que corrigiu e comunicou este artigo.

2 PARSONS, Lucy. “The Moving Inspiration of our Age,” The Agitator, 15 de Novembro de 1911, em Ahrens, ed. ____: Freedom, Equality and Solidarity(FES).p. 136.

3 Albert Parsons foi formalmente acusado e cúmplice por cometer assassinato. AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. p. 272.

4 “`Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7; “Daley Backs Plan to Name Park after Anarchist,” Chicago Sun-Times, 24 de Março 2004, 17. Tem sido muito aceito que Lucy e Albert Parsons não tiveram nenhum papel direto nos atentados de 1886. Para uma sinopse sobre a natureza injusta do julgamento veja, o perdão de Neebe, Fielden e Schwab do governador Altgeld; vindicação dos mártires de Chicago de 1887.

5 A melhor consideração do atentado é de Avrich, The Haymarket Tragedy.

6 “Park Plan Upsets Chicago Cops”, Chicago Tribune, 22 de Março 2004

7 De acordo com Ashbaugh, “Parsons afirmou ser uma ‘anarquista’, quando o título foi fixado nela pela imprensa burguesa”. PARSONS, Lucy. American Revolutionary. p. 201. Alguns historiadores têm o mesmo modo, buscou reformar visualizações dos Mártires para atender suas próprias predileções.

8 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist More Dangerous than a Thousand Rioters,”. p. 19-20.

Em: MCKEAN, Jacob. A Fury for Justice Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago. Tese sênior, 2006.

9 Albert Parsons, “Auto-Biography” em The Life of Albert Parsons, Lucy E. Parsons, ed., 9.

10 ASHBAUGH. Lucy Parsons. p. 268.

11 AVRICH. The Haymarket Tragedy. p. 9-10.

12 ASHBAUGH, Lucy Parsons. p. 267.

13 “The Mayor Testifies”, Chicago Tribune, 3 de Agosto 1886, p.1.

14 “Parsons Dusky Bride”, Chicago Herald, 18 de Setembro 1886, p. 1.

15 “Mrs. Lucy E. Parsons Her Fisrt Address in London at A Welcome Extended Her on Arrival”, The Alarm, 9 de Dezembro 1888, p. 1.

16 “Invoking the Law”, Chicago Times, 9 de Maio 1886, p. 2; “Lucy Parsons Talks”. New York Times, 16 de Outubro 1886, p. 5; “Their Last Night”, Los Angeles Times, 11 de Novembro 1887, p; 5; “Philadelphia Anarchists Mrs. Parsons Appealing for the Chicago Anarchists”, New York Times, 1 de Novembro 1886, p. 1; “Biographical Parsons”, Chicago Times, 7 de Maio 1886, p. 3. Deve ser notado que as descrições raciais de Parsons encontrados em jornais são quase sempre ligados a uma maior tentativa de demonizar ela. Por exemplo, o Chicago Times de 9 de maio de 1886 descreve o bronzeado mulato de Parsons é acompanhada pela acusação de que seus “lábios grossos, pequena, olhos brilhantes e expressão sinistra” eram prova de sua vontade de beber o sangue de crianças dos ricos.

17 “The Mayor Testifies”, Tribune, 3 de Agosto 1886.

18 De fato, “Lucy Parsons was Black” são as primeiras quatro palavras da biografia de Ashbaugh.

19 Roxanne Dunbar-Ortiz, “One Infallible, Unchageable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,” em FES, p. 169. Dunbar-Ortiz tenta preencher a lacuna, alegando que Parsons era de misto negro, do México, e ascendência indígena. Marion Tinling, Women Remembered: A guide to Landmarks of Women’s History in the United States (Greenwood Press, 1986, 479), refere-se a Parsons como “um negro de pele clara.” De acordo com ROBIN, D.G. Kelly. Freedom Dreams: the Black Radical Imagination. Beacon Press, 2002. p. 41. Parsons era “a mulher negra mais proeminente radical do final do século XIX”.

20 Ver, por exemplo, o site da African American Registry.

21 GREEN, James. Death in the Haymarket.

22 AVRICH. Haymarket Tragedy, p. 21-25.

23 GREEN, p. 85.

24 GREEN, p. 77.

25 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 29.

26 PARSONS, Lucy. “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor or the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Setembro de 1878, p. 40.

27 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 131.

28 “To the Workingmen of America”, The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 3.

29 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 32.

30 PARSONS, Lucy. “A Word to Tramps”. The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 1.

31 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 105.

32 De acordo com AVRICH (202), o discurso de Albert Parsons foi “surpreendentemente temperado” em comparação com seus discursos anteriores.

33 AVRICH. The Haymarket Tragedy, xi. **Jeffory A. **Clymer, America’s Culture of Terrorism, p. 33.

34 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”. 10 de Maio 1886, p. 53.

35 PARSONS, Lucy. “Challenging the Lying Monopolistic Press”, 11 de Outubro 1886, p. 56.

36 The Alarm, 17 de Dezembro 1887, p. 4.

37 PARSONS, Lucy. “Author’s Note”. In: The Life of Albert Parsons, p. xxx.

38 PARSONS. “To Lovers of Liberty”, Mãe Terra 4, n. 9 (Novembro 1909): 303; Lucy Parsons, ed., The Famous Speeches of Our Martyrs.

39 PARSONS. “November 11: Fifty Years Ago”. One Big Union Monthly, Novembro 1937, p. 165.

40 PARSONS, “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p. 85; “The Proposed Slaughter”,The Liberator, 4 de Março 1905, 1; “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p. 130.

41 PARSONS. “Letter to Tom Mooney”, 11 de Junho 1936, p. 162; Parsons para Eugene V. Debs, 12 de Março 1926, em: CONSTANTINE. J. Robert. Letters of Eugene. University of Illinois Press, 1990. p. 557-558.

42 PARSONS. “Letters to the Editor”. Freedom, Dezembro 1933, p. 6.

43 PARSONS. “Forward”. Em: CALMERS. Labor Agitator. International Publishers, 1937, p. 5

44 DAVID. The History of the Haymarket Affair, p. 476.

45 ASHBAUGH, p. 6.

46 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist, More Dangerous Than a Thousand Rioters,” p. 12.

47 SCHAACK. Anarchy and Anarchists.

48 Anarchy at an End

49 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 440.

50 PARSONS, Lucy. “The Great Conspiracy all Capitalist Lies”. The Liberator, 11 de Novembro de 1905, p. 1.

51 Por exemplo, em outubro 1905 Parsons escreveu vários artigos sobre “Mulheres Famosas na História”, que incluiu um longo artigo sobre revolucionária francesa. MICHEL, Louise. The Liberator, 29 de outubro de 1905, p. 1. The Liberator também demonstra que o interesse Parsons não se limitaram a história radical. Por exemplo, um recurso de longa duração foi “The Wonders of Science” da série, que se concentrou em questões científicas que variam de exploração da Antártica para Crater Lake de Oregon. The Liberator, 8 de outubro de 1905, 3; 10 de dezembro de 1906, 3.

52 PARSONS, Lucy. “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho de 1905, p 85; “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 155.

53 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”, p. 53.

54 FLYNN. I Speak My Own Piece, p. 70.

55 “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro de 1907, p. 129.

56 CLYMER. America’s Culture of Terrorism, p. 6. Para uma discussão mais ampla sobre como o significado do lance da bomba de Haymarket foi criado e utilizado pelo Estado, ver CLYMER, p. 33-68.

57 PARSONS, Lucy. “The Eleventh of November, 1887”, 1912, p. 141-142.

58 “November 11: Fifty Years Ago,”One Big Union Monthly, p. 163-164.

59 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p 85.

60 “Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7.

61 “The Negro: Let Him Leave Politics to the Politician and Prayers to the Preacher”. The Alarm, 3 de Abril 1886, 2.

62 KELLY. Freedom Dreams, p. 42.

63 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p. 66.

64 LOWNDES, Joe Lowndes. “Lucy Parsons (1853-1942): The Life of an Anarchist Labor Organizer”. Free Society 2:4, 1995, Internet.

65 “Southern Lynchings”. Freedom, 1892, p. 70.

66 “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons”, p 181.

67 Em 1934, Parsons explicou que ela “passou a trabalhar para a International Labor Defense, porque” ela “queria fazer algo para ajudar a defender as vítimas do capitalismo”, não fazendo qualquer referência ao racismo. Lucy Parsons para Carl Nold, 27 de Fevereiro 1934, p 161.

68 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 66.

69 Os artigos a seguir demonstram longa dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe através da educação dos trabalhadores em seus interesses comuns como produtções: “On the ’Harmony’ between Capital and Labor Or, the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Dezembro 1878, p 39-40. “The ’Scab’ a Result of Conditions.” Freedom, Agosto 1892, p 73; “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p 1; “Workers and the War.” The Agitator, 12 de Fevereiro, 1917, p 151.

70 “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor,” p. 40

71 PARSONS, Lucy. “The Haywood Trial and the Anarchist Trial.” The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p 129-130.

72 GRIFFIN. “Union of ’Black’ and ’Red.” The Alarm, 26 de Dezembro 1885, p 4.

73 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World,” 28 de Junho 1905, p 83

74 Parsons acreditava que um dos maiores problemas enfrentados pelos trabalhadores americanos era a crença generalizada de que “não havia classes” na América. Assim, ela se esforçou para educar os trabalhadores sobre seus interesses de classe, a fim de desmascarar concepções míticas da liberdade americana. Parsons, “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p. 1.

75 ASHBAUGH, p. 200.

76 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978, p 82. Para uma quente introdução ver “Mrs. Parsons in London.” The Alarm, 1 de Dezembro 1888, p. 2.

77 CUSAS, Lawrence. “Correspondence.” The Liberator, 10 September 1905, p 3.

78 Veja a LucyParsonsProject.org’s “About Lucy Parsons”, onde ela é chamada de “feminista proeminente” e “pioneira dos direitos civis.” Aparentemente Julia Bachrach, historiadora da Chicago Parks Division, considera Parsons uma sufragista, uma afirmação completamente anulada pela rejeição de longa data de Parson da política eleitoral. ROSENFELD, KATHRYN. “Looking for Lucy (in all the Wrong Places)”. Social Anarchism , 28 de Junho 2006,WorldWide Web

79 “Working Women.” The Socialist, 1 February 1879, p. 42-43; “The Women Question Again.” The Liberator, 3 de Outubro 1905, p 1.

80 “Speeches at the Founding Convention of the IWW,” 28 de Junho 1905, p. 79.

81 Por exemplo, Parsons estava disposto a defender a entrada das mulheres no mercado de trabalho apenas se as mulheres se recusassem a aceitar “salários mais baixos do que os humilhados pelos homens.” Se as mulheres aceitassem salários tão baixos ela acreditava que o trabalho das mulheres só seria um “prejuízo… [para] as suas colegas de trabalho.” “Woman: her Evolutionary Development.” The Liberator, 10 de Setembro 1905, p 2

82 Parsons destacou ainda que a discussão sobre a liberdade sexual feminina, referido na época como “variedade” sexual, foi dominada por homens. “Comrade Lucy Parsons Writes.” The Firebrand, 14 de Fevereiro 1897, p. 6. Dunbar-Ortiz situa Parsons dentro da história do feminismo americano, mas com cuidado articula a natureza baseada em classes de trabalho de Parsons para as mulheres. “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,”, p. 171-174.

83 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 251

84 Parsons refere-se a isso como “anarquismo de velha escola.” Em 1907, Parsons acreditava anarquistas tinham abandonado a ideia de uma “organização” construída de “membros” responsáveis por “pagar dívidas mensais e recolher fundos para propaganda”, destinada a grande ideal de uma sociedade livre. Ver “A Wise Move: on Anarchist Organization.” The Demonstrator, 6 de Novembro 1907, p. 131.

85 “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 156-157.

86 Paradoxalmente, Ashbaugh reconhece que Parsons não se importava, “sob cujos auspícios ela trabalhava”, enquanto ela trabalhava para a “classe trabalhadora”. No entanto Ashbaugh ainda indefensável declara-lhe um membro do Partido Comunista. PARSONS, Lucy, p. 256.

87 FLOOD, Andrew. “Review of Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity.” 5 de Maio 2005.

88 Por exemplo, em sua introdução biográfica, Ahrens dedica um único parágrafo para a crença de Parsons na violência revolucionária, dando amplo espaço para a participação de Parsons no Fórum da Sociedade de Antropologia de Chicago. “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist”, p. 13, 17-19.

89 Quando os amigos foram para recuperar a extensa biblioteca de Parsons do entulho foi dito pela polícia de Chicago que tinha sido tomada por um agente do FBI. No entanto, nenhuma agência já admitiu ter recebido a biblioteca de Parsons e seus papéis nunca foram encontrados. ASHBAUGH, p. 266.

90 ROSENFELD. “Looking for Lucy…,” Social Anarchism. p. 37.

91 “The Principles of Anarchism,” 1905, p. 30.

 Trabalhos Citados

AHRENS, Gale. Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity: Writings and Speeches, 1878-1937. Charles H. Kerr, 2004.

 Anarchy at an End. Lives, Trial and Conviction of the Eight Chicago Anarchists: How they Killed and What They Killed with: a History of the Most Deliberate Planned and Murderous Bomb Throwing of Ancient or Modern Times: the Eloquent and Stirring Speeches of the Attorneys for the Defense and Prosecution, with the Able Charge of Judge Gary to the Jury: Seven Dangling Nooses for the Dynamite Fiends. Hastings Library, California; Chicago: G.S. Baldwin, 1886. text-fiche.

 ASHBAUGH, Carolyn. Lucy Parsons: American Revolutionary. Charles H. Kerr, 1976.

 AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. Princeton University Press, 1984.

 CLYMER, Jeffory. A. America’s Culture of Terrorism: Violence, Capitalism, and the Written Word. University of North Carolina Press, 2003.

 DAVID, Henry. The History of the Haymarket Affair: A Study of the American Social-Revolutionary and Labor Movements. Russell and Russell, 1936.

 GREEN, James. Death in the Haymarket: a Story of Chicago, the First Labor Movement and the Bombing That Divided Gilded Age America. Pantheon, 2006.

 Governor Altgeld’s Pardon of Neebe, Fielden and Schwab; Vindication of the Chicago Martyrs of 1887: Parsons, Spies, Fisher; Engel and Ling. New York Labor News Co, 1906.

 FLYNN, Elizabeth Gurley. I Speak My Own Piece: Autobiography of “the Rebel Girl.” Masses and Mainstream, 1955.

 MCKEAN, Jacob. “A Fury for Justice: Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago.” Senior thesis, 2006.

 PARSONS, Lucy. Life of Albert Parsons with Brief History of the labor Movement in America. Chicago: by the author, 1889.

 _____. Twenty-fifth anniversary, eleventh of November, memorial edition. Souvenir ed. of the famous speeches of our martyrs delivered in court when asked if they had anything to say why sentence of death should not be passed upon them, Oct. 7, 8, and 9, 1886. Nov 11, 1887-1912. Chicago: by the author, 1912.

 ROEDIGER, Dave and Franklin Rosemont (eds.). Haymarket Scrapbook. Charles H. Kerr, 1986.

 SCHAACK, Michael J. Anarchy and Anarchists. A History of the Red Terror and the Social Revolution in America and Europe. Communism, Socialism, and Nihilism in Doctrine and in Deed. The Chicago Hay-market Conspiracy, and the Detection and Trial of the Conspirators. F.J. Schulte, 1889.

 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978

 Newspapers: The Alarm, 1885-88; Chicago Herald, 1886; Chicago Times, 1886; Chicago Tribune, 1886; The Liberator, 1905-06.

[FdCA – Itália] 12 de dezembro: Trabalhadores, não escravos – Que a Greve Geral seja realmente geral

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2014/12/17/fdca-12-de-dezembro-trabalhadores-nao-escravos-que-a-greve-geral-seja-realmente-geral/

Comunicado da Federação dos Comunistas Anarquistas (FdCA), organização anarquista da Itália, sobre a Greve Geral ocorrida dia 12 de dezembro

Comunicado original: http://www.fdca.it/sindacale/2014/12dicembre.htm

12 DE DEZEMBRO: TRABALHADORES, NÃO ESCRAVOS
QUE A GREVE GERAL SEJA REALMENTE GERAL

Depois de 2 meses de greves e manifestações que culminaram com a greve social do 14 de novembro, o ciclo de lutas contra o Jobs Act, lei de estabilidade, destrava-Itália e Boa escola, chegaram a um ponto importante com a greve do 12 de dezembro decretada pela Confederação Geral do Trabalho Italiana (CGIL) com a adesão da União Italiana do Trabalho (UIL). Mesmo levando em conta fatores condizentes como o confronto entre a direção do Partido Democrático e direção da CGIL, da resposta desta última à tentativa de deslegitimação do maior sindicato italiano por parte do governo, esta greve esta para assumir a importância de grandes acontecimentos históricos do proletariado italiano. De fato este é um dos períodos mais difíceis das ultimas décadas para os trabalhadores, aos quais o ataque do capital e do governo na Itália respondem às exigências do grande capital e da oligarquia financeira que detém o comando no mundo inteiro.

O domínio totalitário do mundo financeiro gerou um dos últimos ataques à condição de vida dos trabalhadores e as decisões do Governo Renzi estão aí para demonstrar a total fidelidade aos dogmas do liberalismo mais autoritário. O “Jobs Act” é mais um, e não último, dos ataques que a casta patronal está desencadeando contra os trabalhadores, com o cancelamento de direitos e conquistas em anos de lutas. A necessidade para os patrões de sufocar o trabalho de cada sindicato que não se curve às suas exigências de concorrência capitalista, a chantagem do posto de trabalho num mar de desempregados e de empregados pobres fazem com que se desencadeie em todos os lugares a guerra entre pobres, aquela concorrência entre explorados que é a verdadeira razão do nascimento das formas sindicais.

Por isso hoje a Greve Geral pode ser realmente Geral, que doa a Governo e Patrões, que revele finalmente o próprio objetivo político e cultural. Uma greve que não tenha nada de autorreferencial e que tenha que responder à violência do ataque às condições proletárias com forte hipoteca sobre a possibilidade dos trabalhadores de se organizarem coletivamente no futuro próximo, tem de ser uma greve que reivindique aquele mesmo direito de greve, que em vários lugares tenta-se fazer passar por um privilégio entre os tantos possuídos pelos trabalhadores.

Uma greve que tem de ser uma etapa de uma ação sindical européia, que ultrapasse as contradições itálicas para chegar ao coração do monstro, às políticas econômicas do Banco Central Europeu (BCE) e da oligarquia financeira que continua a nomear governos fiéis em toda Europa.

Uma jornada, aquela do dia 12, que deve encher-se pela oposição social às politicas liberais, às ilusões governistas sustentadas pela mídia sempre disposta à colaboração com a direita politica, sempre dispostos a inventá-la para o prazer de eleitores distraídos.

Para não cair nas alternativas da direita liberal é importante reconquistar as praças e ruas com uma oposição difusa, feita de comportamentos e de escolhas corajosas. Uma greve para ressaltar que a solidariedade de classe é para nós fundamental e que estamos dispostos sempre a reconstruí-la sobre as ruínas do enfrentamento com o capital, reagindo à crescente repressão que atinge os operários como aqueles que lutam pelo direito à moradia, à água, à saúde e à escola pública, os precários como aqueles que lutam contra as grandes obras inúteis e contra os tratados internacionais sobre as mercadorias.

Hoje está em jogo a sobrevivência da defesa coletiva dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras e não só, diante de escolhas políticas que tentam nos desarmar para segregar-nos num futuro de escravos, impotentes de reagir à violência das políticas dos patrões. Hoje na praça temos que estar em muitos se queremos mudar a marca de políticas autoritárias de uma Europa que procura seu espaço imperialista através da compressão social.

Nós comunistas-anarquistas e libertários, estaremos com aqueles que combatem este projeto. Se o espaço europeu é o nosso espaço mínimo, que seja território de solidariedade e de justiça social.

ALTERNATIVA LIBERTÁRIA/FdCA

Tradução: FARJ