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[BRRN] Nossas perspectivas e tarefas na Revolução de Rojava – Tradução

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2015/08/05/brrn-nossas-perspectivas-e-tarefas-na-revolucao-de-rojava-traducao/

Tradução da FARJ do texto da organização norte-americana Black Rose Anarchist Federation/ Federacion Anarquista Rosa Negra sobre a Revolução de Rojava, onde apontam as perspectivas que a organização possui de um ponto de vista anarquista, além de como pretendem se envolver com a revolução curda. A Black Rose / Rosa Negra enviou militantes para o local com a finalidade de entender melhor a conjuntura e ajudar na reconstrução de Kobane, que foi destruída pelo Estado Islâmico.

Original: Our Perspectives and Tasks on the Revolution in Rojava

Rojava-banner

Enquanto revolucionários na América do Norte, gostaríamos de apresentar as bases da nossa perspectiva política e, também, como nós, enquanto organização, concordamos em nos relacionar com os recentes acontecimentos e a luta que ocorre em Rojava no Oriente Médio.

Nossa Perspectiva

A Revolução de Rojava provavelmente obteve mais avanços rumo ao socialismo libertário do que qualquer outra luta de grande escala, pelo menos desde a insurreição Zapatista. Por apenas essa razão já é importante participar desta luta para sustentar seus elementos mais revolucionários e apoiar como um exemplo internacional do que a auto-organização das classes populares pode alcançar.

Ao mesmo tempo que temos muitas questões sobre a ideologia política do Partido dos Trabalhadores Curdo (PKK) e do Partido da União Democrática (PYD) (o que demandaria um artigo em separado e mais longo), o projeto especifico de confederalismo democrático (que é apenas uma parte da sua visão política de “modernidade democrática” e de reorganização da sociedade) tem posto as classes populares do Curdistão em movimento, construindo alternativas autônomas ao capitalismo, opressões e ao Estado. Em Rojava, e em alguns casos também em Bakur, norte do Curdistão, quando a repressão do Estado não proíbe, cooperativas de trabalho estão sendo formadas, terras estão sendo coletivizadas, coletivos de mulheres estão se espalhando, assembleias de comunidades estão tomando o poder, justiça restauradora está substituindo o sistema de tribunal, uma milícia democrática está defendendo a região e outros aspectos de autogestão estão sendo organizados. Isso não é tudo que há nesta luta – parte das terras e capital está planejado a ficar em mãos privadas, o PYD criou um novo Estado mínimo em vez de abolir o estado, conscrição forçada foi eventualmente implantada, políticos do PYD tem buscado influência em países ocidentais, investimentos corporativos estrangeiros estão sendo aspirados etc. Porém, apesar de muita coisa permanecer vaga sobre detalhes específicos do que está acontecendo no chão (até para muitas pessoas que estiveram em Rojava), é claro que grande parte da classe popular no Curdistão está envolvida em um processo revolucionário que nós deveríamos apoiar. Também é bastante claro que já que uma revolução democrática é baseada na vontade do povo, será apenas com uma formação política de longo prazo e organizando trabalhos entre as classes populares de Rojava que a revolução será generalizada para além da atual minoria ativa e continuará a tomar forma. Acreditamos que temos a responsabilidade de contribuir com esse processo e aprender com ele.

Black Rose / Rosa Negra vê a Revolução de Rojava como um grande movimento social com muitas forças sociais puxando e empurrando umas às outras. Estas forças sociais representam interesses de classe e visões politicas contraditórias. Enquanto a visão política de Abdullah Ocalan (líder do PKK) é a ideologia dominante dentro do movimento, essa visão é por vezes muito vaga e aberta a diferentes interpretações por diferentes forças sociais. Por exemplo, ativistas queer dentro do movimento levantaram a questão que a ideologia essencialmente feminista vinda das guerrilhas do PKK excluíam identidades queer e trans e isso deverá ser superado para o progresso da revolução. Outra contradição é que o programa econômico do socialismo democrático enfatizado por alguns no movimento irá inevitavelmente entrar em conflito com os interesses da elite conservadora dentro do movimento. Ao mesmo tempo que esperamos que o movimento tenha as ferramentas necessárias para continuar a receber críticas internas e fortalecer sua luta contra a opressão, veremos como conflitos sobre exploração de classes irão se desenvolver já que estão entre grupos com interesses materiais muito distintos. Em todos esses debates entre diferentes forças, os revolucionários terão que tomar partido, com objetivo de fortalecer nossas próprias políticas e as forças dos companheiros no Curdistão.

Nós apoiamos este movimento em Rojava e no resto do Curdistão como um dos mais fortes em relação ao feminismo, socialismo libertário e uma sociedade com democracia direta que o mundo viu nas últimas décadas. Para continuar avançando em direção a esses objetivos, as forças dentro do movimento que estão mais próximas destes objetivos políticos precisam se fortalecer e serem apoiadas pela esquerda internacional. Senão o movimento encarará a morte nas mãos dos seus inimigos militares ou a reintegração pelo capitalismo (no melhor dos casos capitalismo socialdemocrata). Os mesmos resultados virão a não ser que nós não aproveitemos a oportunidade de trazer para os nossos locais a luta revolucionária para atacar as bases do imperialismo norte-americano e do capitalismo global.

A esquerda, e os anarquistas especificamente, encaram muitas questões de como podemos fazer isso. Pelas nossas reuniões e observações no Curdistão, temos visto muitos modelos diferentes de como revolucionários – curdos, turcos e estrangeiros – estão se envolvendo na luta. Temos visto que a luta em Rojava e Bakur, apesar de sua natureza ampla, não pode ser separada da sua estrutura organizacional oficial do movimento – as diferentes interconexões políticas estruturais que juntas implementam a ideologia de Öcalan, como o PKK, HDP (Partido Democrático do Povo), PYD, DTK (Congresso Democrático da Sociedade), KCK (União das Comunidades Curdas) etc. Até onde sabemos, todo grupo de esquerda que se integrou seriamente ao movimento de libertação curdo – de stalinistas a anarquistas inssurrecionalistas a Apocu (seguidores do Öcalan) – o fizeram se aliando às estruturas oficiais de algum jeito. Porém, há alguns que fizeram essas alianças se dissolvendo por completo dentro delas, enquanto outros fizeram a aliança e mantiveram diferentes níveis de autonomia organizacional e política. Estes diferentes modelos apresentam um leque bastante complexo de opções de até onde revolucionários podem se envolver com as diferentes forças políticas e sociais dentro do movimento trabalhando com os companheiros do Curdistão. Tais opções devem ser avaliadas com cuidado baseado tanto na situação do Curdistão quanto na nossa situação, capacidade e objetivos políticos.

Apesar do grande apoio e interesse que a revolução de Rojava tem tido na esquerda dos EUA e Canadá, há pouco apoio organizado, apesar das últimas semanas terem visto um maior alcance de organização. Há grupos de solidariedade a Rojava em duas grandes cidades e um disperso suporte online. Nós vemos as razões para isso como, primeiramente, a natureza desorganizada e fragmentada da esquerda nos EUA e Canadá, em especial a esquerda libertária. Segundo, outro importante fator é a falta de uma grande comunidade curda nos EUA e a falta de conexão entre a América do Norte e a esquerda curda ou da região em volta. Acreditamos ser nossa responsabilidade ajudar a mudar essa situação e mobilizar a esquerda e movimentos sociais rumo ao envolvimento com a Revolução de Rojava, enquanto aprendemos com a nossa história de solidariedade com os Zapatistas e Palestinos.

Nossas Tarefas

Black Rose / Rosa Negra define como seus objetivos organizacionais o seguinte:

– Criar uma comissão interna para coordenar os esforços da organização e trabalhar com outros grupos de solidariedade para construir uma rede continental de suporte a Rojava. Uma rede maior pode ajudar a organizar protestos coordenados nos consulados Turcos pedindo o embargo para ser suspenso, coletar material de apoio para sessões legais do movimento de libertação curdo, construir relações diretas com o movimento, fazer formação política sobre Rojava e a política de autonomia e forçar o governo dos EUA a tirar o PKK da lista de organizações terroristas.

– Desenvolver um conjunto claro de princípios políticos a partir dos quais basear nosso trabalho e a partir deles, desenvolver nossos contatos no Curdistão e começar esforços para levantar fundos e material, para organização específica anarquista no Curdistão e para grupos mais amplos.

– Priorizar o intercâmbio de militantes entre os EUA e Curdistão, organizando turnês de palestras nos EUA e enviando companheiros/as para participar da reconstrução de Kobane.

– Promover a luta revolucionária de Rojava e fazer formação sobre, compartilhando relatos frequentes de atividades de solidariedade, noticiais e análises da situação no Curdistão. Além de traduzir material do Curdistão e enviar material de propaganda traduzido para distribuição aos nossos companheiros no Curdistão.

Tradução: FARJ

[CAB] Jornal Socialismo Libertário #30 – Julho/2015

Retirado de: https://anarquismo.noblogs.org/?p=242

soli jornal

RETOMAR OS VALORES E AS LUTAS DA CLASSE TRABALHADORA

O primeiro semestre de 2015 segue com as nefastas políticas do governo PT/PMDB garantindo o máximo lucro para o capital empresarial e financeiro (nacional e internacional), e com o ataque aos direitos do povo. Está claro que mulheres, negros, indígenas, pobres e camponeses estão excluídos destas políticas, tocadas pelo executivo junto a um congresso conservador e reacionário e um ministério que busca implementar as políticas de austeridade do sistema financeiro, do agronegócio e da precarização da classe trabalhadora, não restando mais nada do projeto petista de conciliação de classes.

Tudo isso reforça que não há, e nunca houve, possibilidade de disputa deste governo. Ou que o problema seja de “crise de direção” ou que o governo esteja politicamente em uma situação de “refém” para garantir a governabilidade. Pelo contrário, o PT tomou a decisão política de governar de tal forma, fazendo o povo sangrar e evidenciando mais uma vez que o mecanismo representativo não constrói poder popular nem transformação social.

Os recentes acordos bilaterais firmados com os Estados Unidos indicam mais uma guinada à direita do governo Dilma. Acreditando na necessidade destas políticas, o governo vem aplicando um receituário marcadamente neoliberal frente a uma conjuntura internacional que não possibilita mais as mesmas condições anteriores que alavancaram as políticas neodesenvolvimentistas nesses 12 anos de PT no governo. E as últimas quedas vertiginosas da bolsa da China, que chegaram até 30%, podem causar impactos na economia brasileira e selam o esgotamento da política neodesenvolvimentista.

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CORTAM NA CARNE DOS TRABALHADORES. QUEREM PRENDER OS JOVENS NEGROS E POBRES QUE NÃO SE AJUSTAM.

O governo segue a receita da austeridade. Já sofremos nos estados e municípios com as políticas de ajuste fiscal e graves cortes sociais, como na saúde e na educação. Fazendo o povo pagar uma conta cara para o lucro dos investidores internacionais. Dentro desse pacote, a ampliação das terceirizações (PL 4330) e o ataque a direitos como o seguro-desemprego e a aposentadoria (MPs 664 e 665) fazem a classe trabalhadora virar carne barata no capitalismo de mercado. O Programa de Proteção ao Emprego criado pelo governo Dilma em medida provisória é um plano de socorro aos patrões que autoriza redução salarial de até 30%. É um retrocesso brutal feito com a chancela das burocracias da CUT e da Força Sindical. O acordo coletivo específico entre empresa e trabalhador, previsto na MP, abre precedente pra flexibilização dos direitos trabalhistas. Para as mulheres a situação é ainda pior. Em nossa sociedade patriarcal e opressora a terceirização e a precarização no mundo do trabalho sempre foram uma realidade, com salários mais baixos e desigualdade de direitos em relação aos homens.

Em paralelo avançam uma série de iniciativas conservadoras e de ataque aos direitos humanos, como a redução da maioridade penal e a tentativa de excluir a temática de gênero do debate educacional. Os setores da direita do governo em conjunto com a oposição de direita tentam avançar as pautas conservadoras que aprofundam a criminalização e o extermínio dos/as pobres e fazem retroceder avanços importantes na luta contra as opressões de gênero e sexualidade. Os Povos indígenas também sofrem com a perda de seus territórios e o campesinato com a estagnação da reforma agrária e a falta de ações que garantam sua vida e permanência no campo. Com as pressões de bancadas como a ruralista, evangélica e da bala, estas pautas vem se materializando, contando com a ajuda da mídia burguesa que faz terrorismo e trabalha para naturalizar determinados valores conservadores na população.

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DE DENTRO E DE FORA DO GOVERNO A DIREITA LATE E MORDE O OSSO

Enquanto o governo Dilma evolui para a direita, os setores burgueses que não vestem a farda do governismo se alinham com as posições mais extremas e conservadoras para se distinguirem na turbulência da cena política. O conservadorismo ganha inserção e cresce na base da sociedade. O PT está jogado na vala comum da política burguesa, sujo até o pescoço na corrupção dos políticos e patrões, encurralado entre a barganha das oligarquias e o fogo oportunista da direita opositora. As hipóteses de cassação de mandato ou impeachment voltam a ameaçar e para todos os efeitos provocam a sangria da presidenta até as eleições de 2018. A crise do governismo faz palco de uma luta feroz de setores das classes dominantes e das elites dirigentes. Briga de cachorro grande para ver com quem fica com o osso e com quem se reparte o farelo.

A reforma política dirigida por Eduardo Cunha no congresso é um projeto em causa própria para lavar a cara dos políticos e patrões, parasitas dos recursos e bens públicos. Estão fora de pauta os mecanismos de participação e democracia direta dos de baixo. Outro elemento a se levar em consideração são as diversas iniciativas em curso de construção de frentes, campanhas e mobilizações por parte da esquerda. Em nenhum dos casos parece estar em jogo um processo que possibilite o acúmulo organizativo e ideológico das classes oprimidas para mudar a correlação de forças no país. A experiência tem mostrado que tais “frentes” tem sido movidas mais em um sentido pragmático eleitoral do que de mobilização popular concreta. Valores e práticas históricas da classe trabalhadora, como a greve geral e o piquete não devem ter seu sentido esvaziado como mero slogan ou visando a autopromoção política. Eles são fruto de mobilização social e sintomas de quando os trabalhadores sentem que tem força e que é preciso fazer ações para contrapor a opressão dos patrões e poderosos.

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PARA OS OPRIMIDOS A SAÍDA NÃO VEM DE CIMA. NUNCA VEIO.

Duros ataques nos direitos e condições de vida também produzem resistência, como foram as greves dos trabalhadores do setor público, estudantes e professores estaduais e federais do Paraná, duramente reprimidas pelo governo. Como as recentes greves nas mais de trinta instituições de ensino federais. E é essencial que as ações populares e mobilizações sejam dotadas de métodos que estimulem o protagonismo da base e sejam fruto da luta cotidiana. Ação direta, federalismo, autogestão e greve geral são valores históricos da classe trabalhadora e devem ter seu sentido ideológico retomado e reafirmado. É essencial que os organismos sociais como movimentos populares e sindicatos tenham autonomia política e tenham seus rumos decididos por suas bases, livres de práticas verticalizadas e burocratizantes.

Pela unidade de classe e mobilização do povo contra os ataques conservadores e dos poderosos! Punho fechado contra a redução da maioridade penal e contra a criminalização da pobreza! Repudiamos as atuais políticas de terceirização, flexibilização e precarização do trabalho! A greve é um direito e, assim como as manifestações e os protestos, não devem ser reprimidos nem criminalizados pelo Estado e pela mídia burguesa! Todo apoio às lutas e à articulação entre o povo do campo e da cidade. Contra as políticas de exclusão dos pobres das cidades e pelo acesso a um transporte digno, eficiente e sem catracas! Todo apoio às lutas da juventude, mulheres, negros, LGBTT e resistência contra todas as formas de opressão!

nem reducao nem terceirizacao

LUTAR, CRIAR PODER POPULAR!

soli jornalfim

[fAu – espanhol] Solidaridad con el pueblo Venezolano – Contra todas las formas imperiales, y más los yankis!

Retirado de:                               http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2015/03/25/solidaridad-con-el-pueblo-venezolano-contra-todas-las-formas-imperiales-y-mas-los-yankis/

No ha bastado un premio nobel de la paz ni las más artificiales aristas populistas para tapar o apenas maquillar el rostro aguerrido e incesante del imperialismo norteamericano. Obama, el hombre de la paz, no deja puerta entre abierta ni deja de prestar atención en América. La multifocalidad de control y atención de Estados Unidos sobre lo que acontece en el mundo no permite escape aparente a gran escala, aún con la concentrada dedicación político militar en medio oriente, Rusia, China.

Ha sido declarada Venezuela como enemiga de Estados Unidos mediante un decreto del propio Obama. Muchas preguntas surgirán buscando la retórica sobre cómo ese gobierno que ha incrustado su historia en guerras contra pueblos en todas partes del mundo, pueda cuestionar y salir como garante de un proceso de diálogo y todavía con el gobierno colombiano de aliado.

Claro que interesa el petróleo y la cuenca del Orinoco, claro que interesa mucho para norte américa controlar las nuevas alianzas que se tejen en el caribe con subsidios para países que el gobierno venezolano quiere promover como nuevos aliados comerciales. Claro que interesa todo lo que pueda significar un agotamiento de los recursos energéticos de China. Pero para llegar a eso se deben de nutrir de varias acciones. Acciones que van a orientarse hacia donde tienen los peores problemas: el campo de lo ideológico.

Lo han hecho con sabotajes de todo tipo y conspiraciones de cualquier alcance. Poco asombraría cuando hablamos de la presencia norte americana en América del Sur este hecho con la gravedad que reviste, y aún menos en Venezuela que mantiene en memoria no sólo el secuestro al ex presidente Hugo Chávez de entintada huella yankee, sino todo un largo recorrido de intromisión mediante agregados diplomáticos, culturales y militares de todo tipo, fundaciones y ONG truchas bancando la oposición, y los etcéteras más conspirativos y asesinos que estas historias ameritan.

Todo pareciera indicar que en esta etapa se han enriquecido mucho más las relaciones y acciones entre la derecha latinoamericana y EEUU. Hablamos de la derecha rancia latifundista y apoderada de los medios de comunicación; la derecha que no tolera ni permite el avance en materia de derechos humanos, la que inviste de impunidad todos los territorios en pasado y presente. Los aterrizadores de lo que fuera el neoliberalismo de comienzos de los años 90, son ellos los que crítican y buscan exterminar las asistencias sociales, las ínfimas políticas de atención en salud, la continuidad ultranza de las privatizaciones en su versión más radical. A ellos los ha tocado bastante la ley de medios en Argentina y la detención de los torturadores y genocidas del plan cóndor. A ellos les molesta y muchísimo las detracciones en la producción agropecuaria, que les toquen un solo centésimo aunque acumulen millones por día.

Y allí como si nada y sin recoger piolines sobre su pasado reciente y bien recordado Obama, el ejecutivo norte americano, no solo declara enemigo a Venezuela sino que se ofrece como garante a las negociaciones. Esas negociaciones entre partes del gobierno y la derecha de ribetes golpista y con observadores como EEUU y Colombia. No buscarán otra cosa que adelantar las elecciones nacionales o habilitar algún mecanismo desestabilizador, coleteo mediante y constante de los servicios de inteligencia CIA. Nada le vendrá mejor que intervenir desde allí, desde su propio seno donde la confrontación popular también sale a las calles.

Y hay algo que EEUU no quiere, y no es menor, hasta podríamos decir que es lo neurálgico del asunto en cuestión. ¿Sólo le interesa al poder de Obama una administración distinta del petróleo del Orinoco?, ¿Contra qué y quiénes deberá dar la batalla última y definitiva?. La preocupación sin duda desde el ángulo ideológico es la resistencia a la total dependencia yanqui que significan los diferentes bloques políticos formados en esta área. Bloques que aún desde una misma estructura capitalista quieren más independencia respecto a los yanquis. Eso es lo que precisamente molesta al gobierno de la Casa Blanca de Washington. Quieren disponer de su patio trasero a su antojo y en coherencia con su estrategia de gendarme mundial y de disponer de las riquezas de estos lugares sin resistencia de sus subordinados.

No podrán mientras el pueblo reivindique su soberanía y autodeterminación. Soberanía que no admite espacio para la ingerencia asesina de la historia negra de la CIA y las políticas imperiales norteamericanas. No hay lugar para ello con un pueblo fuerte, empoderado, con memoria. No hay sitio para la conformidad y sí para la resistencia. Así lo indican los medidores de opinión que hasta los que más se corresponden con CNN, New York, y Washington indican que existiría un rechazo casi total, unánime, en la población venezolana a una intervención colonialista norteamericana. Algo hay allí, algo se ha producido que se puede ver, algo ha dado contenido a tanto tiempo de opresión y saqueo.

Porque es un enemigo claro el imperialismo norteamericano, el que recuerdan nuestros pueblos desde la memoria inmediata hasta las anteriores. Y es bastante lo que en estos momentos se sale a defender en Venezuela, aunque las más rotundas críticas puedan decir que se trata de un puñado, un manojo de conquistas populares, a fuerza sí del movimiento popular. Ellas también en clave de empoderamiento de los de abajo y en los barrios obreros.

Basta de intervención norteamericana en América!.

Contra todo imperialismo, y más el norteamericano!.

Por procesos populares que apunten desde abajo a la construcción de un pueblo fuerte!.

Arriba los que luchan!!

federación Anarquista uruguaya

[Rusga Libertária] QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL. (CASEY WILLIAMS)

Retirado de:                                        https://rusgalibertaria.wordpress.com/2015/02/23/quem-e-lucy-parsons-a-mitologizacao-e-a-re-apropriacao-de-uma-heroina-radical-casey-williams/

Estamos compartilhando aqui nosso primeiro trabalho de tradução. Queremos deixar claro que estamos passíveis de erros em alguns trechos, o material ainda passa por uma revisão mais minuciosa. Resolvemos publicar pelo tempo que ficamos pendentes em compartilhar esse material traduzido. Que fala um pouco da vida de uma importante anarquista norte-americana, Lucy Parsons. Estamos abertos para sugestões e revisões solidárias.

Forte Abraço e boa leitura!

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QUEM É LUCY PARSONS? A MITOLOGIZAÇÃO E A RE-APROPRIAÇÃO DE UMA HEROÍNA RADICAL.*

Casey Williams

 

*Anarcho-Syndicalist Review número 47, Verão, 2007. Colaborador: CREAGH Ronald. Por citar essa página: WILLIAMS, Casey. “Whose Lucy Parsons? The mythologizing and re-appropriation of a radical hero”. Edição: 23 de Dezembro de 2007. [Online].

 Parsons Lucy portrait

     Como uma anarquista radical, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos de sua vida a lutar pela classe trabalhadora norte-americana e pobre.1 Uma oradora habilidosa e escritora apaixonada, Parsons desempenhou um papel importante na história do radicalismo norte-americano, especialmente no movimento operário da década de 1880, e permaneceu uma força ativa até sua morte em 1942. A única pergunta da qual ela nunca se desviou foi “como levantar a humanidade da pobreza e desespero?”.2 Com essa questão impulsionando o trabalho de sua vida, Parsons foi ativa em uma infinidade de organizações radicais, incluindo o Socialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista), a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras) e a Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo). Paralelamente com seu longo envolvimento no movimento trabalhista norte-americano, estava sua solida visão de uma sociedade anarquista, filosofia que era a base de sua crítica às instituições econômicas e políticas opressivas dos Estados Unidos da América.

    Sua oposição ao capitalismo e ao autoritarismo estatal foi solidificada em 1887, quando seu marido, Albert Parsons, foi executado injustamente.3 Após a bomba e as execuções de 1886, na manifestação de Haymarket, Parsons dedicou os próximos cinquenta anos de sua vida aos desempregados e à classe trabalhadora norte-americana. De fato, o poder do caso Haymarket na formação da vida adulta de Parsons não pode ser subestimado. Os acontecimentos de 1886 e 1887 fixam uma animosidade inflexível entre Parsons e o Departamento de Polícia de Chicago. Durante a vida de Parsons, a polícia a perseguiu, suprimindo sistematicamente seu direito à liberdade de expressão, prendendo-a várias vezes sem justificação.

    Quase seis décadas após sua morte, a polícia de Chicago deu nova vida a este legado de animosidade mútua, lutando em uma proposta para nomear um parque da cidade de Lucy Parsons. Em março de 2004, quando o Chicago Park District (gerenciador de parques municipais) propôs nomear o lote 4712 da Avenida Belmont no lado noroeste da cidade “Parque Lucy Elis Gonzales Parsons”, Mark Donahue, presidente local da Ordem Fraternal da Polícia, atacou a proposta – descartando Parsons como uma anarquista “cujas raízes históricas viriam” apenas a partir da “defesa de seu marido.” Da perspectiva de Donahue, teria sido uma farsa nomear um dos parques de Chicago com o nome de uma mulher que “promoveu a derrubada do governo e o uso de dinamite.” Infelizmente, as autoridades da cidade não contrariaram as acusações de Donahue com os fatos históricos sobre a própria vida e as realizações de Parsons. Em vez disso, os funcionários do parque ressaltaram a importância dos esforços de Parsons em nome dos trabalhadores, das mulheres e dos afro-americanos. O prefeito de Chicago, Richard M. Daley, explicou, “Nós estamos homenageando Lucy Parsons”, não “seu marido”, porque “ela era muito bem vista entre os reformadores sociais por seus esforços para promover os direitos civis” e observou que teria sido injusto e sexista “culpar a mulher por causa das ações de seu marido.”4

    Claramente, tanto o prefeito Daley quanto o oficial Donahue não compreendem a história de sua cidade. No entanto, Donahue, pelo menos, estava disposto a reconhecer que Parsons era uma anarquista, em vez de rotulá-la como uma reformista de direitos civis. Como uma anarquista, Parsons rejeitava o conceito de direitos civis que pressupunham a cooperação e aceitação do estado capitalista para conceder privilégios que ela acreditava serem os direitos naturais. De fato, uma rápida revisão da história do caso Haymarket demonstra que nem as alegações da polícia nem da cidade eram completamente corretas.5 Embora Parsons fosse inocente de qualquer envolvimento no atentado de 1886, ela compartilhou uma visão anarquista da harmonia social que defendia a destruição do capitalismo por meio de atos revolucionários, e rejeitou o reformismo e os direitos civis como curativos. Assim, há uma grande discrepância entre as reais crenças e ações de Parsons e as mitologizadas ou comemoradas que são apresentadas pela Chicago Parks Distric. Como e por que esse abismo surgiu garante uma investigação mais aprofundada, com implicações não só sobre Lucy Parsons, mas sobre a própria memória histórica.

            As repostas a estas perguntas estão no cerne da motivação subjacente à proposta dos funcionários dos parques. A sugestão surgiu a partir de um esforço de toda a cidade para homenagear mais mulheres em um sistema em que apenas 27 dos 555 parques receberam nomes de mulheres.6 Assim, o parque proposto tinha menos a ver com o reconhecimento de Parsons do que com o desejo dos funcionários de criar um sistema de parques mais “politicamente correto”. No entanto, essa idealização encontrada na incorporação de Lucy Parsons à história pública também se reflete no trabalho acadêmico sobre Parsons. Muitas vezes, os historiadores que mencionam Parsons têm moldado a vida dela para atender suas inclinações políticas. Mais notavelmente, apenas a biógrafa de Parsons, Carolyn Ashbaugh, afirmou que Parsons não era uma anarquista e que se juntou ao Partido Comunista.7Fazendo isso, Ashbaugh havia reformulado Parsons de uma heroína anarquista em uma Marxista. A discrepância entre as próprias palavras de Parsons e a memória pública de Parsons pode ser atribuída, em grande parte, à reformulação histórica de Ashbaugh. A manipulação no trabalho de Ashbaugh já foi exposta com êxito.8 Ainda assim, tem havido pouco ou nenhuma análise sobre as ideias perdidas por essa manipulação do registro histórico.

Um Histórico Contestado

            Com poucos registros conservados, juntar o início da vida de Lucy Parsons tem sido difícil para os historiadores. Na verdade, é pouco provável que os fatos do início de sua vida sejam completamente conhecidos. Ashbaugh afirma que Parsons nasceu em março de 1853, perto de Waco no noroeste do Texas. De acordo com Albert Parsons, os dois se conheceram em 1869, enquanto ele estava vivendo uma vida perigosa como um republicano radical na pós-reconstrução do Texas. Ao viajar através do condado de Johnson como correspondente para o Houston Daily Telegraph, Albert conheceu Lucy no rancho de seu tio. Animadamente, Albert descreve-a como uma “encantadora jovem donzela hispano-indígena.”9 Muitas perguntas sobre o início da vida de Parsons ainda estão sem respostas. Por exemplo, de acordo com algumas fontes, os dois se casaram em 1871, enquanto outros datam o casamento em 1872. O casamento nunca foi confirmado por uma certidão de casamento ou outro documento oficial.10

A biografia de Ashbaugh desafia a descrição de Albert Parsons sobre Lucy, afirmando que ela era, na verdade, uma antiga escrava. De acordo com Ashbaugh, Parsons era uma escrava dos irmãos Gathings, que possuíam 62 escravos perto de Waco em 1860. Ashbaugh afirmou que Parsons foi provavelmente nomeada em homenagem à filha Philip Gathings, nascida em 1849; e afirma que Henry e Marie del Gather, que Parsons chamou de sua mãe e seu tio, eram de ficção. Além disso, Ashbaugh sugere que Albert não conheceu Lucy no rancho de seu tio. Em vez disso, ela concluiu que eles se conheceram em Waco, onde as defesas de Albert dos direitos políticos negros fizeram dele uma figura popular entre a população negra. Ashbaugh especula que, enquanto vivia em Waco como uma antiga escrava, Parsons testemunhou atrocidades da Ku Klux Klan, que cresceu no poder como Reconstrução e desmoronou. Entre os inúmeros acontecimentos violentos que ela pode ter presenciado, estão a castração de um menino Africano-Americano, em 1867, e o assassinato cometido pela Klan de 13 afro-americanos perto de Waco, em 1868.

Sem dúvida, a brutalidade racial que tomou conta do noroeste do Texas na década de 1860 influenciou profundamente a sensibilidade de Parsons e a aversão pela violência contra os oprimidos. No entanto, mesmo que Parsons não fosse, como Ashbaugh especula, uma antiga escrava, ela ainda teria testemunhado a violência racial. A degradação e opressão do povo negro levou Albert Parsons, que era um ex-soldado confederado, a iniciar seu próprio jornal/boletim, em 1868, The Spectator (O Espectador), para desafiar a Ku Klux Klan e políticas de reconstrução de apoio.11 Como testemunha e talvez vítima da brutal violência racial do sul, ainda é importante notar que os registros de escravos dos irmãos Gathings não incluem nomes e, portanto, não é possível identificar Parsons como uma antiga escrava.12

Ao longo de sua vida, Lucy Parsons insistiu que ela era de ascendência mexicana e americana nativa. De acordo com Parsons, sua mãe era mexicana e seu pai, John Waller, foi um índio Creek. A afirmação faz da herança mexicana e indígena de Parsons e sua negação apaixonada da ascendência Africana é facilmente documentada. Ao cobrir o julgamento de Haymarket, um repórter do Chicago Tribune observou que Parsons “opõe-se ao termo ‘mestiço’ como significado de que ela tem sangue negro nas veias. Ela diz que sua mãe era uma mexicana e seu pai um índio.”13 Em setembro de 1886, um antigo escravo que viveu em Waco acusou Parsons de abandonar a ele e a seu filho para viver em Chicago. Quando a acusação foi à primeira página do jornal em Chicago, Parsons arrastou um repórter do Herald até a cela do marido, onde Albert explicou que o homem em Waco tinha confundido Lucy com outra mulher, e que “Sra. Parsons não tem sangue Africano em suas veias.”14 A identificação com a ascendência indígena e mexicana de Lucy Parsons não era apenas para negar a herança escrava. Ao falar em Londres em 1888, Parsons explicou:

 Eu sou aquela cujos ancestrais são indígenas neste solo da América. Quando Colombo avistou pela primeira vez o continente ocidental, antepassados do meu pai estavam lá… Quando os anfitriões da conquista das Cortes se moviam sobre o México, antepassados da minha mãe estavam lá para repelir o invasor; de modo que eu represento o genuíno Americano.15

Parece que Parsons tinha orgulho de sua identidade étnica. No entanto, a identidade negra foi empurrada em cima de Parsons ao longo de sua vida. Parsons foi repetidamente referida nos jornais como uma Negress, Negro, escuro, colorido ou mulato. 16 Embora muitos desses termos tenham sido utilizados para identificar as pessoas de raça mista, a implicação subjacente era, como um repórter do Tribune colocou, “que pelo menos um de seus pais era um negro.”17 Assim, durante sua vida, havia uma discrepância entre a identidade racial que ela alegou e a identidade racial colocada sobre ela pela sociedade. A tradição ao ver Lucy Parsons como negra, apesar de suas próprias palavras, continua até hoje.

Ashbaugh sustentou que a auto identificação de Parsons como mexicana indígena foi uma tentativa de encobrir sua herança Africana.18 Há uma série de razões pelas quais Parsons poderia ter feito isso. Em primeiro lugar, o perigo físico simples de estar em um casamento inter-racial durante a década de 1880 poderia ter levado Parsons a negar uma ascendência Africana. Juntamente com sua proteção contra alguns dos perigos de ser negro, tal rejeição pode ter criado mais oportunidades para Parsons, especialmente em um movimento operário predominantemente branco. Contudo, não obstante a lógica por trás da reivindicação de Ashbaugh, permanece a especulação, devido, em grande parte, à falta de provas – contando o apoio principalmente de sua aparência física em fotos. Simplesmente, não existem provas suficientes para declarar definitivamente que Parsons “era negra”, como Ashbaugh faz. No entanto, muitos estudiosos, como Roxanne Dunbar-Ortiz, Marion Tinling e Robin D. G. Kelly, têm rotulado Parsons como uma mulher Africano-Americana.19 Muitas vezes, essa caracterização é uma tentativa de situar Parsons em uma narrativa maior, de negros heróis americanos.20

            A existência de tantas pessoas que veem Parsons como Africano-Americana, apesar de suas próprias palavras, incita-nos a perguntar não por que Lucy Parsons precisava não ser negra então, mas por que precisamos que ela seja negra hoje? No entanto, seja negro, índio ou mexicano, Lucy Parsons ainda era uma mulher de cor, nascida e criada em um estado extremamente violento e racialmente estratificado, Texas.

Encontrando o Anarquismo em Chicago

            Após sua chegada em Chicago em 1873, Lucy e Albert Parsons entraram em um mundo turbulento, caracterizado menos por tensão racial do que pelo capitalismo industrial e problemas trabalhistas. Depois da Guerra Civil, as principais indústrias, incluindo as empresas madeireiras e de gado, criaram raízes em Chicago, trazendo praticamente todas as linhas de transporte para a cidade e fazendo de Chicago o mais importante centro econômico do centro-oeste. A nova riqueza de Chicago a tornou um destino atraente para os americanos em todo o país e imigrantes do outro lado do mar. Durante a década de 1860, mais de 74,000 imigrantes europeus entraram na cidade, junto com milhares de americanos. O aumento da população rapidamente criou moradias superlotadas e pobres, que foram ofuscadas pelas mansões enormes e o opulento estilo de vida dos capitalistas industriais da cidade.

            O contraste entre a pobreza e a riqueza criou tensões de classe, e, em 1867, os trabalhadores da cidade iniciaram o primeiro movimento para a jornada de trabalho de oito horas. Fabricantes da cidade se recusaram a cumprir com as exigências do trabalho e, após cinco dias de greve, as autoridades brutalmente reprimiram a primeira greve de oito horas, marcando o início de uma longa história de repressão violenta do trabalho.

Quando Chicago entrou na década de 1870, as condições de vida e trabalho da cidade foram exacerbadas ainda mais. Em outubro de 1871, um grande incêndio destruiu Chicago. No rastro das chamas, 17.450 edifícios estavam em cinzas e 64 mil pessoas ficaram desabrigadas. A devastação do fogo foi seguida, em 1873, por uma grande depressão, que deixou milhares de pessoas em Chicago não só sem casas, mas também sem emprego. Os eventos associados com a greve de 8 horas, em 1867, combinada com a devastação do grande incêndio e a depressão criada em Chicago, criaram uma atmosfera de tensão e medo, tornando a cidade em um solo fértil para um movimento operário radical em expansão.21 Quando Lucy e Albert Parsons mudaram para o novo apartamento perto da rua Larrabee e avenida North, rapidamente tornaram-se imersos na cultura turbulenta do conflito de classes em Chicago.

            Depois de conseguir trabalho como tipógrafo do Chicago Times e aderir à União de Tipógrafos, Albert Parsons tornou-se rapidamente uma figura proeminente no movimento operário de Chicago. Em 1876, ingressou noSocial Democratic Party (Partido Social Democrata), onde ele dedicou um tempo considerável para as causas da classe trabalhadora e tornou-se um dos mais famosos oradores da língua Inglesa na cidade. Durante esse tempo, ambos, Lucy e Albert, estavam concentrados nas obras de Karl Marx, e por volta de 1877 eles estavam realizando reuniões em sua casa para o Working-Men’s Party (Partido dos Trabalhadores). Nesse momento, Lucy e Albert Parsons não eram anarquistas, mas defendiam uma “combinação de ação econômica e política para realizar a emancipação do trabalho.”22 Eles viam os sindicatos como ferramentas poderosas contra o calcanhar de ferro do capitalismo, mas ainda acreditavam “que, contanto que os trabalhadores vivessem em uma república, eles tinham esperança de ganhar o poder através do processo democrático.”23

            Várias experiências entre 1877 e 1880 direcionam Lucy e Albert Parsons a abraçar o anarquismo. Em 17 de julho de 1877, uma greve massiva começou em West Virginia, quando os engenheiros da estrada de ferro de Baltimore & Ohio reagiram contra o salário cortado, parando os trens e desencadeando uma enorme paralisação do trabalho que se espalhou no Ocidente, chegando a Chicago; onde, em 23 de julho, “uma onda de protestos tinha se espalhado para fora dos pátios ferroviários e fábricas, serrarias e olarias”, acumulando em uma grande marcha pela Market Street, em Chicago.24 Em reação, os principais empresários de Chicago abriram seus cofres para os líderes da cidade, que usaram o dinheiro para criar um enorme exército de 5.000 cidadãos comissionados. Então, em 27 de julho, uma combinação de soldados, policiais e civis armados, violentamente esmagaram os grevistas, deixando 30 homens mortos e um ar amargo de desconfiança e ódio entre as classes de Chicago.

Essa rápida militarização de cidadãos proeminentes da cidade demonstrou a poderosa influência que a classe capitalista teve sobre o governo. Lucy Parsons escreveria anos depois que “a grande greve da estrada de ferro de 1877″ ensinou-lhe que o “poder concentrado” do governo seria sempre “exercido no interesse de poucos e em detrimento de muitos.”25 Além disso, a sua crescente desconfiança com o poder governamental tornou-se uma questão pessoal durante a greve, quando Albert Parsons ficou cara a cara com o poder das lideranças industriais de Chicago. Um dia depois de fazer um discurso empolgante antes dos trabalhadores entrarem em greve, Albert Parsons foi demitido do Times. Em seguida, o Superintendente da Polícia Michael Hickey sequestrou rapidamente Albert e disse-lhe para deixar a cidade. Mais tarde, quando Albert Parsons tentou reunir-se com membros do sindicato no edifício Times, ele foi forçado a sair por dois homens armados que ameaçaram atirar na cabeça dele. Durante o dia da grande greve ferroviária, Albert Parsons foi demitido, com uma arma apontada para ele, dizendo que deixasse a cidade. Assim, a grande greve ferroviária tocou os Parsons de uma forma extremamente pessoal e serviu como catalisador para uma ideologia muito mais radical.

Nos anos seguintes da grande greve, o Working Men’s Party se fundiu com oSocialist Labor Party (Partido Socialista Trabalhista) e tentou várias vezes eleger os socialistas para alas da cidade. Mas, em uma eleição após a outra, os votos foram erradamente calculados ou as urnas foram descaradamente recheadas, levando muitos a perder toda a confiança na reforma eleitoral. Em uma carta a um jornal trabalhista, Lucy Parsons explicou que “as chamadas leis” não “valem o papel em que estão escritas”, porque os capitalistas tinham o poder de fazer o que eles queriam mesmo que “os produtores de toda a riqueza tivesse desejado o contrário.”26

            No início dos anos 1880, como as ações eleitorais repetidamente falharam e as greves e as manifestações foram reprimidas pela polícia, milícia e bandidos contratados, muitos socialistas de todo o mundo começaram a se concentrar na ação direta (muitas vezes chamada de “propaganda pela ação”) como um meio para inspirar as massas e trazer a revolução. Em 1882, Johann Most, conhecido agitador revolucionário e ex-parlamentar, falou em Chicago argumentando que os trabalhadores teriam de se armar e travar uma guerra contra seus governantes capitalistas. O movimento de Chicago, em particular, combinou união e trabalho de agitação com a defesa da autodefesa armada. Acreditando profundamente na necessidade de organização, Albert e outros militantes de Chicago se estabeleceram em Pittsburgh, em outubro de 1883, onde eles, Most e outros iriam fundar a International Working People’s Association (Associação Internacional das Pessoas Trabalhadoras).

A declaração de princípios da IWPA, ou o Manifesto Pittsburgh, é o trabalho mais importante surgido a partir da conferência de 1883. Ela também continua a ser uma excelente expressão da ideologia anarquista de Parsons. Informado pela oposição de Bakunin sobre a organização autoritária e teoria da mais-valia de Marx, o Manifesto Pittsburgh expressa a crença dos escritores na inutilidade da cédula, o seu apoio à insurreição armada, e o poder do sindicalismo revolucionário.27 O principal elemento anarquista do Manifesto era seu ponto de vista a respeito dos sindicatos, vistos tanto como “um instrumento de revolução social ” quanto como a fundação de uma ordem social baseada na organização cooperativa que surgiria com a destruição do capitalismo. A combinação do sindicalismo revolucionário e do anarquismo veio a ser conhecida como a “ideia Chicago”, e logo iria captar a atenção da classe trabalhadora da cidade.

O Manifesto Pittsburgh descreve o capitalismo como “injusto, insano e assassino.” Escolas, igrejas e imprensa estavam “na folha de pagamento e sobre direção das classes capitalistas” para manter os trabalhadores reprimidos. Com um sistema tão corrupto, os trabalhadores tinham de “organizar a revolta” e destruir o capitalismo por qualquer meio necessário. Depois de descrever a natureza exploradora do capitalismo, o Manifesto Pittsburgh conclui delineando seis metas para o IWPA:

Primeiro: Destruição da dominação de classe existente, por todos os meios, ou seja, por uma ação enérgica, implacável, revolucionária e instrumental.
Segundo: Estabelecimento de uma sociedade livre baseada na organização cooperativa de produção.
Terceiro: a livre troca de produtos equivalentes por e entre as organizações produtivas sem comércio e especulação financeira* (profit-mongery*: especulação financeira foi a melhor adaptação que escolhemos para dar sentido na tradução).
Quarta: Organização da educação em uma base secular, científica e igual para ambos os sexos.
Quinto: Direitos iguais para todos, sem distinção de sexo ou raça.
Seis: Regulamentação de todos os assuntos públicos por contratos livres entre as comunas e associações autônomas (independentes), fundamentada em uma base federalista.28

      Acreditava-se que esses objetivos poderiam ser alcançados através das federações de grupos autônomos das IWPAs. Um departamento de informações facilitaria a comunicação entre agrupamentos IWPA, mas não haveria nenhuma autoridade central ou comitê executivo; a existência de uma entidade que controlasse estaria em contradição com a visão que o movimento tinha de uma sociedade cooperativa.

      Os princípios do Manifesto Pittsburgh é o que melhor expressam a visão de mudança social radical ao longo da vida de Lucy Parsons. Anos mais tarde, escrevendo em um ensaio sobre o anarquismo, Parsons explicaria que “os sindicatos são padrões embrionários” das “comunidades cooperativas” vindouras.29 Parsons também voltou de novo e de novo à ideia de que o Estado era tão somente um agente da repressão e, por isso, tinha de ser destruído através da ação revolucionária. Além disso, os mecanismos específicos de transformação social nomeados no Manifesto eram as suas armas escolhidas. Para Parsons, a revolução só viria através da mobilização de massas, baseada na união de um movimento aberto ao poder da ação violenta. Esse protótipo do anarco-sindicalismo impulsionaria seu envolvimento com os Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo) em 1905, com a Syndicalist League of North America (Liga Sindicalista da América do Norte) em 1912, e com a Communist Party’s International Defense League (Liga Internacional de Defesa do Partido Comunista) em 1927. Assim, o Manifesto Pittsburgh pode ser visto como a primeira e mais concisa expressão da ideologia radical de Lucy Parsons. Após a convenção de Pittsburgh, Lucy e Albert Parsons rapidamente centraram suas atividades radicais no desenvolvimento da IWPA. Conforme numerosos agrupamentos iam se estabelecendo em todo o país, Albert assumiu a editoria do único jornal de língua Inglesa da associação, The Alarm. O jornal tornou-se, rapidamente, a base para os anarquistas de língua Inglesa no movimento operário de Chicago. Lucy Parsons, com Lizzie M. Swank, começou a ajudar Albert com a produção do jornal e, juntas, escreveram alguns de seus artigos mais contundentes. O mais conhecido artigo de Parsons no The Alarm foi “A Word to Tramps” (Uma palavra aos Desempregados). Aparecendo na primeira edição, “To Tramps”(Aos Desempregados) encorajou a “desempregados” e “deserdados” a “aprender o uso de explosivos” e, quando à beira do suicídio, fazer uma declaração revolucionária, tomando as “avenidas dos ricos” e dar fim às suas vidas enviando “à frente, o clarão vermelho da destruição” através do poder da dinamite.30 Através de artigos como “To Tramps” e seus discursos inflamados, ela rapidamente se tornou “uma das mulheres anarquistas mais ativas no país.” 31

            Parsons também ficou ocupada trabalhando como costureira e cuidando de seus dois filhos pequenos. No meio da luta pela emancipação dos trabalhadores, Lucy e Albert tinham começado uma família com o nascimento de Albert Richard Parsons, em 14 de setembro de 1879, e Lulu Eda Parsons em 20 de abril de 1881. Essa nova posição como uma mãe trabalhadora explica, em parte, o seu envolvimento na organização de mulheres costureiras para os “Knights of Labor” (Cavaleiros do Trabalho***). De fato, quando uma outra greve pela jornada de oito horas de trabalho varreu Chicago em maio de 1886, Lucy Parsons poderia ser regularmente encontrada em reuniões para organizar as mulheres costureiras de Chicago.

            Em 1 de maio de 1886, uma grande greve pela jornada de oito horas de trabalho engoliu Chicago. As tensões entre os grevistas e a polícia rapidamente se intensificaram, e, em 3 de maio, a polícia disparou e matou vários grevistas fora da fábrica McCormick. No dia seguinte, alguns dos organizadores anarquistas da cidade responderam à violência policial com um comício na praça Haymarket, onde haviam cerca de 2.000 trabalhadores reunidos pacificamente em protesto. Lucy e Albert Parsons passaram a primeira parte da noite em uma reunião para a união das mulheres costureiras, mas conseguiram participar do comício de Haymarket depois, trazendo seus filhos junto. Albert falou por 45 minutos sobre a história do movimento operário, tendo um grande esforço para evitar a retórica inflamatória.32 Por volta das dez horas, uma repentina tempestade forçou Lucy, Albert e seus filhos a deixarem a reunião. Nesse momento, o Capitão James Bonifeld e 170 policiais marcharam até a praça Haymarket, ordenando que os restantes dos manifestantes, cerca de 300, se dispersassem. Quando o último discursante contestou a ordem, citando a natureza pacífica da reunião, alguém jogou uma bomba na falange da polícia. Os oficiais responderam com uma cascata de balas, disparando em vários de seus próprios homens e deixando inúmeros trabalhadores mortos e feridos. Infelizmente, o número real de vítimas entre os manifestantes, juntamente com a identidade da pessoa que jogou a bomba, nunca foram definidos.33

            Na sequência do atentado, os líderes anarquistas de Chicago foram perseguidos por uma onda de repressão. Os dias seguintes foram marcados por prisões em massa. Em cinco de maio, sozinha, Lucy Parsons foi presa, pelo menos, três vezes sem justificativa, na tentativa de forçá-la a delatar o paradeiro do marido.34 Albert Parsons, antecipando a repressão, havia fugido da cidade na noite do atentado. No entanto, quando foi feita uma acusação de conspiração para cometer assassinato contra sete grandes anarquistas, Albert voltou para a cidade; e, no dia da abertura do julgamento, se entregou ao tribunal. Com pouca ou nenhuma evidência que pudesse relacionar os réus a pessoa que jogara a bomba e com poucas pistas reais sobre o mesmo, o chefe promotor Julius Grinnell alegou que os discursos e escritos dos réus nos jornais anarquistas, como no The Alarm, “tinham inspirado uma pessoa desconhecida a lançar a bomba, e que eram, portanto, responsáveis por conspiração.” As acusações de conspiração, embora com severa falta de provas, foram mais do que satisfatórias para o júri lotado e um juiz abertamente hostil; e, em agosto, condenaram um réu a 15 anos de prisão e os outros sete homens à morte.

As sentenças foram seguidas por vários meses de apelos que falharam, incluindo a recusa da Suprema Corte dos Estados Unidos para julgar o caso. Dias antes da execução, o governador de Illinois comutou duas das sentenças dos homens condenados, que puderam sobreviver; um outro homem, Louis Lingg, cometeu suicídio em sua cela. Finalmente, quatro homens – August Spies, George Engel, Adolph Fischer e Albert Parsons – foram enforcados em 11 de novembro de 1887. A bomba em Haymarket e o assassinato judicial de dirigentes anarquistas em Chicago lançaram uma sombra que assombrou o movimento sindical norte-americano. Além disso, a tragédia pessoal caiu sobre Lucy Parsons, consolidando sua dedicação aos movimentos radicais da classe trabalhadora; tal fato incidiu sobre ela como um novo dever, o de compartilhar com o mundo a história da bomba de Haymarket e o julgamento dos anarquistas.

História de Lucy Parsons em Haymarket

Imediatamente após as sentenças de morte serem proferidas, Parsons deixou Chicago em uma turnê nacional para gerar apoio e arrecadar fundos para a defesa. Falando em grande parte aos “sindicalistas conservadores”, Parsons acreditava que ela iria “iluminar o povo americano” sobre a “operação de assassinato judicial em Chicago.”35 Em fevereiro de 1887, Parsons havia abordado mais de 200.000 pessoas em dezesseis estados. A turnê e o apoio gerado por ela desempenharam um papel significativo na conquista de uma suspensão de execução da Suprema Corte do Estado de Illinois. Além disso, a turnê de palestras de Parsons chamou a atenção nacional, tanto para as injustiças do julgamento quanto para as ideias dos anarquistas. No entanto, o sucesso da turnê foi limitado pela falta de apoio dos dirigentes sindicais conservadores. Terence Powderly, grande trabalhador mestre no Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho), recusou-se a apoiar a defesa e falou contra os condenados, agravando ainda mais a tensão já existente dentro do movimento operário. Contudo, a comissão de defesa criada por Parsons e o uso de uma turnê para angariar o apoio público e financeiro iriam servir como importantes modelos para os futuros radicais. Em um nível pessoal, a turnê iria introduzir uma das características mais persistentes da vida de Parsons. De 1886 até sua morte em 1942, Parsons gostaria de voltar novamente e de novo para o seu compromisso de compartilhar sua história em primeira mão de Haymarket em suas audiências.

Através de livros publicados, discursos e escritos, Parsons dedicou 50 anos de sua vida não só para limpar o nome de seu marido, mas também para a preservação, educação e inspiração de outras gerações com a história do caso de Haymarket. Parsons compartilhou essa história, em grande parte, através de materiais publicados. Menos de um mês após as execuções, Parsons estava rodando propagandas de um livro de discursos de Albert em The Alarm.36 Em 1889, Lucy Parsons estava vendendo Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons), uma coletânea de ensaios sobre a história do movimento operário americano e os próprios escritos de Albert. Com o livro, Lucy se dispôs a criar uma obra que “não era apenas biográfica, mas histórica – um trabalho que pode ser invocado como uma autoridade” para o futuro.37 A dedicação de Parsons para garantir que essa história não seria esquecida se estendeu muito para o século XX. Em 1909, Parsons escreveu para Mother Earth (Mãe Terra), uma revista anarquista editada por Emma Goldman e Alexander Berkman, entre outros, pedindo, “quem iria perpetuar a memória de nossos companheiros mártires”, para ajudá-la a republicar seu outro texto, o Famous Speeches of our Martyrs (Discursos Famosos de nossos Mártires).38 Muitas vezes, quando falava no 1º de Maio ou 11 de Novembro, Parsons infundia a sua história com forte paixão, ao compartilhar a dor pessoal que sentiu quando ela e seus filhos foram presos e detidos durante a execução.39 Frente às audiências e publicações da IWW, ela contou as atrocidades de conspiradores capitalistas ao comparar o julgamento de Chicago com a acusação do líder do IWW, Bill Haywood, em 1907.40 Mais tarde, quando o socialista Eugene V. Debs e o sindicalista radical Tom Mooney foram presos, Parsons enviou para eles dois exemplares de Life of Albert Parsons (Vida de Albert Parsons).41

            Lucy também tinha plena consciência de outras obras sobre Haymarket. Quando a obra ficcional de Frank Harris foi publicada em 1908, Parsons tinha 10.000 folhetos impressos e distribuídos para refutar as “declarações contidas nesse livro mentiroso.”42 Acreditando que a identidade do homem da bomba era “absolutamente desconhecida”, Parsons opôs-se a Harris nomear um bombista e também ao papel secundário de Albert desempenhado em The Bomb. Por outro lado, em 1937, Parsons elogiou oLabor Agitator: the Story of Albert R. Parsons de Alan Calmer (Agitador de Trabalho: a História de Albert R. Parsons, de Alan Calmer), chamando-o de “boa história do trabalho” que a atual “geração deve conhecer”.43

            Parsons se dedicou para compartilhar as radicais histórias de Haymarket, que estão profundamente disputadas. Um historiador precoce de Haymarket praticamente ignorou o papel de Parsons nos esforços de defesa e limitou sua vida para as notas finais.44 De acordo com Ashbaugh, na década de 1960, os editores da Radcliffe’s Notable American Women (Notáveis Mulheres Americanas de Radcliffe) não optaram por incluir Parsons, chamando-a de uma figura patética incapaz de escapar do passado e parar de chorar sobre injustiças.45 Aparentemente, de acordo com essas caracterizações, a defesa que Parsons fez de seu marido e a dedicação aos mártires da história de Haymarket a fez historicamente insignificante. Na verdade, a luta de Mark Donahue contra o parque Lucy Parsons atesta o fato de que essa ideia ainda está viva hoje.

            Na década de 1970, os historiadores revisionistas contra-atacaram essa demissão. Em sua biografia, Ashbaugh denunciou “a impressão de que Lucy Parsons dedicou sua vida a limpar o nome de seu marido” como completamente errada, retratando Parsons, ao invés disso, como uma revolucionária comunista, não uma esposa devotada. Mais recentemente, Gale Ahrens escreveu que seus “escritos e discursos sobre os acontecimentos em 1886-87… são uma parte relativamente pequena do trabalho de sua vida”, e que ela só estava tentando demonstrar a continuidade histórica entre Haymarket e julgamentos políticos posteriores.46 Ambos estão corretos ao considerar Parsons uma revolucionária em seu próprio direito. Entretanto, a história dos mártires de Haymarket não era uma pequena parte da vida de Parsons, mas, em vez disso, foi uma característica central de sua vida.

            Quase imediatamente após a bomba, as histórias populares do evento entraram na esfera pública. Na maioria das vezes, essas histórias serviram apenas para apoiar processos sensacionalistas que apregoavam concepções de anarquistas como perigosos subversivos. “O mais notável destas histórias é o capitão da polícia Michael” de Schaack, 1889, Anarchy and Anarchists, que retrata o julgamento de Haymarket como uma grande vitória para a lei e a ordem sobre terroristas anarquistas.47 Outra história inicial é a “Anarchy at an End: Lives, Trial, and Conviction of the Eight Chicago Anarchists” de 1886, que incide sobre os papéis heroicos do júri, acusação e juiz.48 Junto com outras histórias populares da época, esses livros disseminaram a interpretação do Estado capitalista a respeito dos eventos de Haymarket. Como contraponto à essas histórias conservadoras, Life of Albert Parsons segue um esquema semelhante ao texto de Schaack. Ambos começam com uma história do movimento operário muito antes da década de 1880 e, embora ambos sejam extremante subjetivos, eles tentam apresentar um quadro histórico para a compreensão dos acontecimentos de 1886.

Contudo, com o decorrer do tempo, Albert Parsons passou a ser o centro da história do caso Haymarket, crescendo no trabalho de Parsons. De fato, Parsons tomou um interesse particular na mitificação e criou um herói fora do legado de seu marido. Isso pode ser visto pela comparação das respostas que deu a Harris em The Bomb e as que deu a Calmer em Labor Agitator. Parsons, apaixonadamente, denunciou o The Bomb, porque ela acreditava que Harris tinha identificado erroneamente a pessoa da bomba, e porque o The Bombapresentou Albert Parsons como uma figura secundária.49 Por outro lado, Parsons elogiou o livro de Calmer, o que está diretamente ligado ao fato de que Albert toma o lugar central em Labor Agitator. Claramente, Parsons apoiou a narrativa que colocou seu marido na vanguarda dos acontecimentos, apesar de que sua importância no movimento operário era, em grande parte, devido ao fato de ser ele um dos seus poucos agitadores de língua Inglesa. Assim, Parsons era culpada de participar na transformação de si mesma em herói. No entanto, um reconhecimento dessa subjetividade não só reforça a centralidade do caso Haymarket em sua vida, mas também mostra que ela não era infalível. Parsons permitiu, por vezes, que suas lealdades pessoais moldassem sua interpretação no caso de Haymarket, ainda que não fosse patológica ou de grau obsessivo.

            Ainda assim, há uma justificativa para o calendário e a forma de apresentação encontrada na narrativa histórica de Parsons. Na maior parte das vezes, Parsons compartilha essa história quando participa de eventos apropriados – especialmente nos aniversários do dia da bomba ou da execução. Em seu jornal The Liberator (O Libertador) no IWW, impresso de 1905 a 1906, demonstra claramente isso. Em The Liberator, Parsons dedica amplo espaço para as questões da época, como o sindicalismo, a Guerra Russo-Japonesa e próximas eleições, economizando uma discussão detalhada sobre a questão de Haymarket para o dia 11 de novembro de 1905. Na memória do assunto, Parsons ofereceu sua narrativa de assassinato judicial, apoiando seu argumento com registros do tribunal do Condado de Cook.50Além da edição de aniversário, quase todos os artigos sobre Haymarket emThe Liberator foram acoplados a um artigo sobre a história internacional dos trabalhadores, refletindo sua consciência do lugar mais amplo de Haymarket na história.51

Da mesma forma, quando falava em eventos que não estavam diretamente relacionados com a Haymarket, Parsons geralmente reservaria sua discussão sobre Haymarket para o final, como uma pedra angular inspiradora. Seu discurso na convenção fundadora do IWW começou com uma exposição da opressão das mulheres trabalhadoras, em seguida, discutiu a solidariedade de classe e terminou com um histórico do caso de Haymarket. No entanto, na celebração do May Day (Dia do Trabalhador) em 1930, Parsons dedicou a totalidade do seu discurso a Haymarket, começando com “a grande greve” para “a jornada de oito horas” e terminando com as últimas palavras do mártir no tribunal.52 As diferenças entre os dois discursos destaca a racionalidade por trás das decisões de Parsons quando fala sobre a história de Haymarket.

Ao contar a história Haymarket para o público de trabalhadores, Parsons advertiu contra visões ingênuas da democracia americana. Juntamente com as lições da greve em 1877, o susto vermelho que se seguiu ao atentado ensinou Parsons, da forma mais pessoal, que o estado norte-americano poderia derramar um “reinado de terror” em cima do radicalismo, igual ao “cão de caça russo mais zeloso.”53 A história do caso Haymarket mostrou que o governo podia se mover rapidamente para esmagar indivíduos e movimentos. A incapacidade do comitê de defesa para impedir os assassinatos judiciais incutiu em Parsons a importância central de angariar apoio em massa para desafiar o poder do capitalismo sobre o Estado. Assim, o objetivo subjacente de compartilhar a história de Haymarket se estendeu para além de limpar o nome de seu marido, pois almeja, no fim das contas, usar as lições do caso para educar futuros radicais trabalhistas. As lições embutidas na história de Parsons foram evidentes aos militantes posteriores. Organizadora do IWW, Elizabeth Gurley Flynn explicou que Parsons “viajou de cidade em cidade, batendo nas portas de sindicatos locais e contando a história do julgamento de Haymarket” a fim de alertar os jovens sobre a “gravidade da luta adiante” e a possibilidade de que a “prisão e a morte” podem vir “antes da vitória.”54 A natureza perigosa do radicalismo do trabalho foi ilustrada pela explicação de Parsons em um discurso de que “a imprensa capitalista”, o “púlpito”, a polícia, um júri lotado, e “juízes preconceituosos” agiram conjuntamente para executar líderes anarquistas de Chicago.55 Assim, Parsons advertiu jovens radicais, usando a história do caso de Haymarket para mapear as estruturas de poder em um estado capitalista.

            Historiadores revisionistas que rejeitaram ou ignoraram a dedicação de Parsons à história de Haymarket também têm mascarado o fato de que Parsons havia fixado um significado alternativo para o caso Haymarket, que desafiou o significado criado por poderes institucionalizados. Através de interpretações históricas de tais historiadores, “comentaristas da grande mídia, porta-vozes do capital, e oficiais estaduais fundamentados na legitimação das instituições” transmitiram a “ideia dominante de que a violência do governo efetivamente protegeu” a América contra a “violência conspiratória e niilista de terroristas da classe trabalhadora”, como Albert Parsons.56 Em outras palavras, histórias como a de Schaack, que classificou os anarquistas como terroristas e subversivos estrangeiros, deram aos acontecimentos de Haymarket um significado simbólico que mais tarde justificou a criação de aparatos estatais repressivos, incluindo “esquadrões vermelhos” (red squads, unidades de inteligência policial especializadas em se infiltrar), legislação nativista, e agências de inteligência. Em oposição a essa caracterização dominante, Parsons retratou os anarquistas como mártires, em vez de terroristas, exibindo uma forte consciência desta luta pelo sentido. Praticamente, em todos os tempos, “a reunião Haymarket” foi referida historicamente como o “motim de Haymarket”; e Parsons teria, apaixonadamente, citado a natureza da reunião como “pacífica e tranquila”.57Parsons sabia que ela tinha que “cavar os fatos” de uma história de mentiras que haviam sido amontoadas sobre os mártires por aqueles que tentaram “encobrir [o] crime de enviar cinco líderes de trabalhadores para a forca.”58Além disso, o significado histórico alternativo que Parsons atribuiu também construiu as bases simbólicas de comemorações institucionais, como o May Day. Quando a dedicação de Parsons à interpretação histórica radical do caso Haymarket é jogada abaixo, obscurece-se o papel influente que ela desempenhou na fixação de um significado alternativo para o episódio da bomba na Haymarket.

            Ao reconhecer que Parsons passou grande parte de seu tempo compartilhando a história dos acontecimentos de Haymarket, é possível explorar a influência da narrativa pessoal sobre o radicalismo. Embora bem versado no pensamento radical, a capacidade de Parsons para moldar o significado dos eventos de 1886 não deriva de sua experiência intelectual. Em vez disso, a influência de Parsons está enraizada no uso de uma narrativa pessoal e sua posição como uma viúva do acusado e executado. Parsons explicou que ela tinha um “direito como mãe e como esposa de um dos [a] os homens sacrificados, para dizer o que quer”, que ela poderia “trazer a luz a incidir sobre” a judiciária “conspiração”.59 Apesar de sua falta de poder institucionalizado, ela poderia usar seu poder simbólico como uma viúva para impulsionar seu significado alternativo para a esfera pública por meio de palestras e livros, e, assim, combater as ideias sensacionalistas divulgadas pela imprensa mainstream (termo inglês que designa o pensamento ou gosto corrente da maioria da população). Assim como as histórias institucionais do episódio da bomba em Haymarket produziram poderosos sentimentos de medo no seio da sociedade, a narrativa de Parsons havia criado sentimentos apaixonados de raiva e revolta entre os radicais. Quando os historiadores ignoram que Parsons teria um compromisso de dizer a sua história alternativa do caso Haymarket, destroem também a oportunidade de ver o poder que a experiência pessoal pode ter na promoção de radicalismo na América, e em preencher as lacunas no registro histórico.

 

Raça e a Criação da Consciência de Classe

            A postura de Parsons sobre a opressão racial também é contestada bruscamente. Relacionado à sua celebração como uma ativista dos direitos civis, muitas vezes, é afirmado que Parsons foi uma forte porta-voz contra o racismo. A página inicial do site comemorativo LucyParsonsProject.org afirma que Parsons desafiou a discriminação racial. Na mesma linha, os funcionários dos parques de Chicago acreditavam que o parque proposto não reconhece apenas o ativismo operário de Parsons, mas também os seus esforços em nome dos afro-americanos.60 No entanto, essa celebração da militante como uma voz ativa contra a opressão racial não tem sido afirmada por acadêmicos. O historiador Robin D. G. Kelly argumenta que Parsons eloquentemente lutou contra a opressão da classe trabalhadora, mas “ignorou a raça”; argumenta, ainda, que, embora ela escrevesse sobre linchamentos de negros, Parsons visualizava a tamanha violência racial, principalmente, como uma extensão da opressão de classe. Kelly baseou seu argumento, em grande parte, em um artigo de 1886 no The Alarm, em que ela escreveu que a opressão não foi “lançada sobre o negro porque ele é negro”, mas porque “ele é pobre.”60 Kelly argumentou que Parsons praticou reducionismo de classe, e acredita que esse reducionismo é explicado pela sua incapacidade de operar fora “dos limites do pensamento ocidental socialista do século XIX.”62 Ashbaugh concorda, argumentando que Parsons “acreditava que a abolição do capitalismo produziria automaticamente igualdade racial.” Ashbaugh explica que a postura de Parsons (ou falta dela) sobre a opressão racial refletiu sua profunda internalização do racismo branco, o que tornou impossível para “ela analisar sua posição social em relação a tudo menos seu status de classe.”63 Essa análise contradiz claramente a imagem mitologizada de Parsons como “uma defensora ferrenha” para “os direitos dos afro-americanos.”64 Essa contradição é explicada, em parte, pelos questionamentos às visões que Kelly e Ashbaugh tinham de Parsons como uma reducionista de classe.

A historiadora feminista Roxanne Dunbar-Ortiz argumentou recentemente que Parsons, de fato, reconhece o racismo como uma força fora dos limites da opressão de classe, baseando-se em um artigo de 1892, em que Parsons protesta contra a violência racial, “sendo perpetuada no Sul contra os cidadãos pacíficos, simplesmente porque eles são negros.” Em resposta a esse racismo brutal, Parsons sugeriu que os afro-americanos tirassem o espírito de John Brown e “ajudassem a si mesmos” pelo aumento da autodefesa.65 Dunbar-Ortiz argumenta que a postura de Parsons sobre o racismo se estende além do “economicismo reducionista” e que sua “linguagem de autoconfiança e autodeterminação” foi um precursor para o radicalismo de “Malcolm X e os Panteras Negras”.66 A conexão feita aqui é bastante tênue. No entanto, ligando escritos de Parsons com as ideias do “movimento dos direitos civis durante a década de 1960”, Dunbar-Ortiz plantou as sementes para comemoração de Parsons como uma defensora dos direitos negros.

            Parsons, em 1930, trabalhou para a defesa dos Scottsboro Boys, através da International Labor Defense (ILD, Defesa Internacional do Trabalho), o que também é citado como evidência de seu ativismo negro. Argumenta-se que o seu trabalho em defesa dos oito homens negros, conhecidos como os “Scottsboro Boys”, em julgamento pelo suposto estupro de uma mulher branca, mostra “dedicação… para as lutas dos afro-americanos.” (www.lucyparsonsprojet.org/about_lucyparsons.html.) No entanto, na década de 1930, Parsons também estava trabalhando com o ILD para obter a liberdade do líder trabalhista Tom Mooney da prisão. Seus esforços em nome dos Scottsboro Boys parece refletir seu trabalho de longa data contra o assassinato judicial, mais do que uma dedicação específica para os afro-americanos.67 Na mesma linha, seu ensaio “Southern Lynchings” (Linchamentos no Sul) não fornece provas suficientes para demonstrar que a opressão dos afro-americanos era um foco central em sua obra. No entanto, o artigo demonstra que Parsons estava ciente do racismo, e não ignora a questão. De fato, “Southern Lynchings” sugere que, antes que Parsons passe a ser definitivamente marcada como uma reducionista de classe ou uma ativista pelos direitos dos Negros, é necessária mais investigação.

Uma exploração mais profunda em sua postura sobre o racismo pode começar com uma análise das alegações de Kelly e Ashbaugh a respeito do reducionismo em relação à dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe. Para reiterar, Kelly explicou a postura de Parsons sobre o racismo como um reflexo de seu confinamento ao pensamento socialista ocidental. Ao fazer isso, Kelly deu a entender que o trabalho de Parsons dentro do movimento operário apenas a distanciava da opressão racial, que ela era incapaz de ver o poder opressivo do racismo. Ashbaugh acreditava que o reducionismo de Parsons deveu-se ao fato de que ela internalizou o racismo, a tal ponto que ela “negou a sua própria ancestralidade negra” e, assim, ficou incapaz de ver tanto a sua própria “opressão como uma mulher negra” quanto o papel do racismo na sociedade em geral.68 Essas explicações são, em grande parte, especulativas e, paradoxalmente, apesar de Kelly e Ashbaugh chegarem a mesma conclusão, um raciocínio contradiz o outro. É difícil imaginar que uma mulher de cor viva, no início do século XX, não podia ver ou sentir o racismo. Além disso, juntamente com o “Southern Lynchings”, uma exploração de dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva demonstra que Parsons estava ciente do poder do racismo na sociedade em geral.

Ao longo da vida, Parsons se esforçou ativamente para construir uma identidade de classe comum entre todos os trabalhadores norte-americanos.69Muito antes do episódio da bomba de Haymarket, Parsons pediu às “massas para aprender que” os seus interesses estariam sempre em oposição à classe dominante.70 Parecia que a falta de apoio para a defesa dos líderes dosKnights of Labor, junto com divisões pré-existentes dentro do movimento operário e um medo geral de represálias, impediu o apoio unificado dos trabalhadores aos réus de Haymarket. Parsons se afastou das execuções, acreditando que só um movimento massivo baseado no interesse comum dos trabalhadores poderia desafiar com êxito o capitalismo. Assim, no sentido de incitar a formação de uma classe operária auto identificada na América, Parsons estava tentando fortalecer a única arma que ela acreditava realmente que poderia derrubar o capitalismo. Em 1907, depois que o líder da IWW, Bill Haywood, foi absolvido das acusações de conspiração para cometer assassinato, Parsons explicou que o sucesso da defesa foi porque “a classe operária era unida e ficou ombro a ombro”; e tornou-se consciência de classe ao reconhecer que a própria IWW, não só Haywood, era, na verdade, levada a julgamento.71

            Além disso, a sua visão de classe incluiu pessoas de todas as raças e etnias. Parsons abraçou organizações que se recusaram a participar de bode expiatório racial e rejeitavam políticas racialmente exclusivas. Em 1885, oIWPA declarou que não faria como outras organizações de trabalhadores tinham feito e “declarou o Chinês responsável pelas condições opressivas dos trabalhadores”, como o “IWPA nunca iria sentir que suas fileiras estavam completas se excluíssem trabalhadores de qualquer nacionalidade.”72 Parsons continuaria a defender um movimento trabalhista racial, inclusive, muito depois do desaparecimento das IWPAs. Falando antes do IWW, Parsons ressaltou a importância de formar uma solidariedade inclusiva entre os trabalhadores, lembrando o IWW que:

O fluxo vermelho que corre nas veias de toda a humanidade é idêntico… Não importa onde, seja nas planícies ensolaradas da China, ou no sol batendo nas colinas da África, ou nas margens distantes cobertas de neve do norte, ou na Rússia ou na América… todos eles pertencem à família humana e têm uma identidade de interesses.73

            Claramente, Parsons estava ciente que questões de raça dentro do movimento trabalhista americano poderiam ser poderosamente divisionistas. Na verdade, dialogando diretamente com problemas de racismo que assolaram o movimento operário, Parsons incentivou claramente o IWW a abraçar uma forma inclusiva da consciência de classe, não permitindo que a união fosse dividida em linhas raciais ou nacionais; assim como muitos outros sindicatos da época. Longe de ignorar raça, Parsons rejeitou a criação de organizações de trabalhadores exclusivamente raciais ou estratificados.

            Além disso, sua dedicação para forjar um movimento trabalhista racialmente inclusivo desafia a ideia de que ela havia internalizado o racismo. Em vez disso, ela reconheceu o poder de divisão do racismo e, junto com os outros fundadores do IWW, abraçou e incentivou a formação de uma consciência de classe racialmente inclusiva, que poderia atuar como um poderoso mecanismo contra o capitalismo.

            Explorar essa dedicação de Parsons para forjar uma consciência de classe racialmente inclusiva na América pode servir como um ponto de partida para uma análise da sua postura de raça. Na verdade, em termos comemorativos, incluir nomes e as celebrações do parque que leva o nome Parsons pode de fato estimular o movimento operário americano a adotar mais práticas e políticas raciais inclusivas. Ainda assim, deve-se ressaltar que a dedicação de Parsons para forjar uma classe trabalhadora racialmente unificada, autoconsciente, estava enraizada em seu desejo de fortalecer a escolha das armas contra o capitalismo – um movimento de trabalhadores em massa. Na realidade, implícita dentro de sua postura de oposição, incluindo a sua crítica ao poder de divisão do racismo, Parsons tinha o desafio de ter sua própria concepção para América como uma sociedade sem classes.74

Criando a Heroína Mítica

 

            Grande parte da controvérsia sobre a vida de Parsons tem resultado da remodelação inadequada e da criação de um ícone histórico. A história de Parsons foi influenciada pelas afiliações políticas e objetivos daqueles que a gravaram, e por aqueles que foram empenhados em criar um herói em sincronia com suas inclinações políticas específicas ou suas necessidades. No entanto, são possíveis várias formas de comemoração ou homenagem para Parsons sem alterar ou ignorar suas próprias palavras. Parsons pode ser facilmente celebrada como uma figura fundamental na criação e preservação de uma história alternativa de Haymarket. Ela pode ser vista como um herói trabalhador que rompeu com a tradição e defendeu racialmente (e gênero) a unidade da classe trabalhadora dos Estados Unidos – uma posição geralmente radical para esse período. No entanto, não é dada atenção suficiente a como e por que essa manipulação é tão prevalecente na historiografia de Parsons. Uma série de fatores influenciam a reformulação do seu legado. Ao explorar como e por que Parsons tem sido rotulada como uma ativista negra, feminista e comunista, as raízes dessa manipulação podem ser resolvidas na íntegra.

Muitos dos problemas associados com a rotulação de Parsons como Africano-Americana já foram discutidos, mas a atratividade desse rótulo garante mais discussão. Em sua rotulação como negra, torna-se possível se envolver com ela em um nível mais familiar. A incapacidade dos Estados Unidos de reconhecer suas divisões de classe fez das identidades raciais e étnicas uma área mais familiar no discurso. É mais fácil rotular Parsons em questões afro-americanas e, em seguida, discutir questões que confrontam figuras negras na história americana. Por exemplo, quando se compara Parsons com uma famosa anarquista branca, Emma Goldman, Ashbaugh argumenta que “Goldman pudesse estudar na Europa e viajar em meios educados”, mas a “pele escura” de Parsons impediram-na de tais oportunidades.75 Contudo, o registro histórico refuta tal argumento. Parsons foi calorosamente recebida ao falar em Londres, em 1888, pelo menos, nos meios radicais; e sua visita à Inglaterra é considerada um fator chave para levar muitos socialistas ingleses a abraçar completamente o anarquismo.76 Sua popularidade na Europa durou décadas. Enquanto escrevia The Liberator, um camarada de Paris lembrou Parsons de que ela ainda estava “bem conhecida na Europa” e que qualquer conselho que pudesse oferecer sobre os perigos do sindicalismo iria “fazer uma boa impressão” nas alas radicais parisienses.77 Claramente, Parsons poderia viajar pela Europa. Assim, nem todas as restrições típicas das mulheres negras afetaram Parsons. Em vez disso, uma comparação de classe e culturas constituintes serviria como melhores mecanismos para a compreensão de diferentes experiências de Parsons e Emma Goldman na Europa. Além disso, essa comparação exigiria que a comunidade acadêmica participasse mais plenamente com Parsons em um nível de classe.

            O legado de Parsons também foi transformado em história de uma heroína feminista. Especialmente nas arenas de memória pública, Parsons é rotineiramente chamada de feminista.78 Ao longo de sua vida, ela abordou muitas questões que as mulheres enfrentam. Ela se enfureceu contra as práticas corrosivas que pressionavam as mulheres para absorver empregos domésticos e incentivou as mulheres a abraçar o controle da natalidade.79Como uma mãe trabalhadora, Parsons acreditava que falava em nome de todas as mulheres que trabalhavam quando participou da fundação do IWW.80No entanto, seus esforços em nome das mulheres sempre fizeram parte de sua dedicação à luta de classes.81 Seu interesse pela libertação feminina manteve-se focado em questões que lhe foram mais diretamente ligadas ao trabalho e ao capitalismo. Parsons respondeu às anarquistas que defendiam maior liberdade sexual das mulheres, salientando que a rejeição das relações sexuais e familiares tradicionais poderia aumentar a opressão das mulheres que trabalhavam por removê-los da rede de segurança econômica da família.82 No entanto, com os escritos dispersos de Parsons sobre questões femininas, como prova, os historiadores revisionistas têm usado com sucesso o rótulo feminista para combater a visão de Parsons como uma viúva apaixonada. Contudo, o rótulo feminista também é problemático. Pode ainda prejudicar a exploração de sua dedicação à história de Haymarket, tornando difícil esquadrinhar as maneiras pelas quais o poder de Parsons foi positivamente derivado de sua posição como mulher e viúva. Além disso, tal como os termos dos direitos civis, o rótulo feminista tende a ser usado de maneiras que fundem ideias de Parsons com as ideias e objetivos do movimento das mulheres de 1960. Ao invés de usar o termo feminista, pode ser mais simples afirmar que Parsons foi uma heroína para todos os trabalhadores.

            A ideia de que Parsons foi membro do Partido Comunista é a identidade mais contestada e sem fundamento já colocada a seu respeito. A imagem de Parsons como uma comunista é apenas a criação de Ashbaugh. Escrevendo em 1976, no final de uma era de intelectualismo marxista, Ashbaugh afirmou que Parsons perdeu a fé no anarquismo no início de 1930; e, como o Communist Party USA (Partido Comunista dos EUA) cresceu em proeminência, ela tornou-se ativa na International Labor Defense, um grupo da frente comunista. Em 1927, Parsons foi eleita para o Comitê Nacional do ILD e, de fato, trabalhou em uma série de casos, incluindo o caso Scottsboro.83 No entanto, Ashbaugh, dando, então, um salto de fé, alega que, em 1939, Parsons entrou oficialmente para o Partido Comunista, mas não forneceu qualquer evidência sólida para essa afirmação. O Partido não registra a adesão de Parsons, seja na literatura promocional ou em seus registros. Em vez disso, Ashbaugh usou um trabalho de Parsons com o ILD e seus discursos antes das audiências comunistas como prova de filiação. Já se observou que o trabalho de Parsons com o ILD foi, antes de tudo, uma continuidade de seus esforços na defesa dos líderes trabalhistas vítimas da repressão. Os discursos de Parsons antes das audiências comunistas não indicam necessariamente que era um membro do partido, mas que ela estendeu a mão para uma organização que considerava eficaz no tratamento das questões trabalhistas.

            A presença de Parsons na história do comunismo americano expõe uma das principais formas de manipulação da sua história. Na década de 1920, o movimento anarquista americano foi praticamente dizimado por políticas governamentais anti-radicais. Na década de 1930, o Partido Comunista dos EUA foi a organização mais proeminente com foco em questões trabalhistas. Desde o caso Haymarket, Parsons professava uma ideologia radical simples: apenas uma sólida organização baseada em classes e que tivesse a atenção das massas e aceitado a natureza violenta da luta de classes poderia trazer o ideal revolucionário de uma sociedade livre.84 Parsons passou a vida se movendo de organização para organização, a fim de apoiar a associação com o forte poder revolucionário. Ela explicou, em 1930, que tinha “visto muitos movimentos de vir e ir” e havia “pertencido a todos aqueles movimentos”, mas que sempre fora “uma anarquista, porque o anarquismo [transporta] o próprio germe da liberdade em seu ventre.”85 Uma pequena lista de organizações em que Parsons trabalhou inclui o Socialistic Labor Party (Partido Socialista Trabalho), o IWPA, o Socialist Party (Partido Socialista), o IWW, o Syndicalist League of North America (Liga dos Sindicalistas da América do Norte) e oILD. Parsons, em um fluido movimento de organização para organização, enfraquece a afirmação de Ashbaugh.86

            Em vez de reconhecer a vontade de Parsons para trabalhar com uma ampla gama de organizações da classe trabalhadora, Ashbaugh introduziu algo semelhante a uma competição sobre quem poderia reivindicar Parsons. Por exemplo, a história documental de Gale Ahrens foi uma tentativa de resgatar Parsons “para o movimento anarquista.”87 Ao fazê-lo, Ahrens fornece ao anarquismo outro herói, mas faz pouco para desmistificar o legado de Parsons. Ao enfatizar suas próprias afiliações políticas e não reconhecer a dedicação de Parsons à criação de uma sociedade livre, superando suas lealdades institucionais, historiadores abriram a porta para o legado de Parsons ser destorcido para a história de um mero reformador social.

Por fim, deve-se salientar que essa mitologização de Parsons resultou na desvalorização e expurgação de seu compromisso revolucionário. A adesão de Parsons à ideia de “propaganda pela ação” praticamente desapareceu do registro histórico.88 Lidar com a história de Parsons e o anarquismo de promoção da ação direta, às vezes violenta, tem sido uma tarefa difícil para a esquerda norte-americana. Além disso, em um mundo pós-11 de Setembro, o discurso em torno do surgimento e méritos da violência revolucionária tem sido quase que totalmente limitado a sua repulsa. Tornou-se difícil para comemorar publicamente Parsons, embora reconhecendo sua dedicação à “propaganda pela ação”. No entanto, sua vida pode servir como um caso de estudo para a compreensão da relação entre as experiências de repressão e de crença na necessidade ou inevitabilidade da violência como um mecanismo para a mudança. Tal exploração nos permitirá visualizar as crenças de Parsons não como uma anomalia a ser esquecida em uma outra vida louvável, mas como um elemento central de uma ideologia radical profundamente influenciada pela experiência pessoal da repressão.

O Parque Lucy Elk Gonzales Parsons

            Em 07 de março de 1942, Lucy Parsons morreu quando sua casa pegou fogo, pondo fim há mais de 70 anos de trabalho incansável em nome da classe trabalhadora da América. Parsons deixou para trás um longo histórico de contribuições influentes para o radicalismo americano, mas o fogo e a remoção e supressão de seus registros pessoais pelas autoridades estaduais contribuíram para ocultar o seu legado.89

            Historiadores e funcionários públicos ainda sepultaram a influência de Parsons, moldando sua vida para caber nos interesses políticos e culturais atuais. Essa reformulação histórica está na raiz da criação de uma imagem heroica de Parsons que contradiz muitas de suas próprias crenças. Através do esforço para ver a vida de Parsons dentro do contexto de seu próprio tempo e retornando para muitos dos registros históricos disponíveis, é possível lidar com essas contradições e deixar brilhar uma nova luz sobre suas contribuições para o radicalismo americano. Parsons foi claramente a figura mais formativa no sentido de garantir que a história do caso de Haymarket seria lembrado e não fosse distorcida por aqueles no poder. Parsons usou essa história para educar líderes trabalhistas jovens da América a respeito do poder repressivo do Estado, bem com infundir no movimento operário uma indignação apaixonada. Além disso, Parsons acrescentou ao ideal americano de justiça, promovendo políticas de trabalho racialmente inclusivas que ajudaram a fortalecer a compreensão tradicionalmente fraca de classe na América.

Em maio de 2004, o conselho do Chicago Park District’s aprovou a proposta do Parque Lucy Elis Gonzales Parsons. As contribuições de Parsons para o radicalismo americano certamente merecem ser comemoradas, e o Parque Lucy Elis Gonzales Parsons pode servir como um poderoso local para tal comemoração, apesar de os pressupostos historicamente imprecisos que levaram a sua criação. Rodeado por um número de fábricas, em um bairro operário intocado pela especulação imobiliária, o cenário do parque Parsons é bastante apropriado.90 O parque poderia facilmente servir como um ponto de encontro de diversos grupos para se unirem em torno de suas causas comuns. O parque também oferece uma oportunidade para Chicago e América começarem a abraçar plenamente a sua história radical. O passado da América está cheio de lutas pela liberdade econômica, e nossa sociedade não é nutrida através da limitação de nossa celebração histórica para o movimento dos direitos civis e de outras lutas que têm sido, muitas vezes, domadas em sua releitura.

Naturalmente, a verdadeira questão não é quem foi a heroica Lucy Parsons, mas como podemos aprender com sua luta e como sua história pode proporcionar uma melhor compreensão do radicalismo americano. Mais importante ainda, o Parque Parsons deve servir como um lembrete de que a história que encontramos em uma placa ou espremido em listas de heróis foi certamente influenciada pelo presente. A formação do legado de Parsons para atender às necessidades de um governo da cidade, relutante ou incapaz de celebrar diretamente sua história anarquista, nos ensina que histórias de banco de parque nunca devem ser vistos como a história completa, mas deve servir como ponto de partida para um estudo mais profundo.

A pesquisa sobre a vida de Parsons está apenas começando. Com uma compreensão de como e por que sua história tem sido deformada, existe uma oportunidade inestimável para cavar ainda mais os registros, em uma tentativa de desmistificar sua vida. Existem áreas inteiras de sua vida, especialmente na era da Primeira Guerra Mundial e na década de 1920, que estão em falta, a partir do registro histórico, e devem ser exploradas.

A história Lucy Parsons é mais ampla e mais complexa do que sua condensação em uma biografia ou do que um pequeno livro de fontes documentais pode capturar. Estudos sobre Parsons e o radicalismo em geral, não podem ser considerados finais – como ela mesma salientou:

“Nada é considerado tão verdadeiro ou tão certo, que as descobertas futuras não possam prová-lo falso.”91

 

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1 Sou grato a S. Kashdan que corrigiu e comunicou este artigo.

2 PARSONS, Lucy. “The Moving Inspiration of our Age,” The Agitator, 15 de Novembro de 1911, em Ahrens, ed. ____: Freedom, Equality and Solidarity(FES).p. 136.

3 Albert Parsons foi formalmente acusado e cúmplice por cometer assassinato. AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. p. 272.

4 “`Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7; “Daley Backs Plan to Name Park after Anarchist,” Chicago Sun-Times, 24 de Março 2004, 17. Tem sido muito aceito que Lucy e Albert Parsons não tiveram nenhum papel direto nos atentados de 1886. Para uma sinopse sobre a natureza injusta do julgamento veja, o perdão de Neebe, Fielden e Schwab do governador Altgeld; vindicação dos mártires de Chicago de 1887.

5 A melhor consideração do atentado é de Avrich, The Haymarket Tragedy.

6 “Park Plan Upsets Chicago Cops”, Chicago Tribune, 22 de Março 2004

7 De acordo com Ashbaugh, “Parsons afirmou ser uma ‘anarquista’, quando o título foi fixado nela pela imprensa burguesa”. PARSONS, Lucy. American Revolutionary. p. 201. Alguns historiadores têm o mesmo modo, buscou reformar visualizações dos Mártires para atender suas próprias predileções.

8 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist More Dangerous than a Thousand Rioters,”. p. 19-20.

Em: MCKEAN, Jacob. A Fury for Justice Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago. Tese sênior, 2006.

9 Albert Parsons, “Auto-Biography” em The Life of Albert Parsons, Lucy E. Parsons, ed., 9.

10 ASHBAUGH. Lucy Parsons. p. 268.

11 AVRICH. The Haymarket Tragedy. p. 9-10.

12 ASHBAUGH, Lucy Parsons. p. 267.

13 “The Mayor Testifies”, Chicago Tribune, 3 de Agosto 1886, p.1.

14 “Parsons Dusky Bride”, Chicago Herald, 18 de Setembro 1886, p. 1.

15 “Mrs. Lucy E. Parsons Her Fisrt Address in London at A Welcome Extended Her on Arrival”, The Alarm, 9 de Dezembro 1888, p. 1.

16 “Invoking the Law”, Chicago Times, 9 de Maio 1886, p. 2; “Lucy Parsons Talks”. New York Times, 16 de Outubro 1886, p. 5; “Their Last Night”, Los Angeles Times, 11 de Novembro 1887, p; 5; “Philadelphia Anarchists Mrs. Parsons Appealing for the Chicago Anarchists”, New York Times, 1 de Novembro 1886, p. 1; “Biographical Parsons”, Chicago Times, 7 de Maio 1886, p. 3. Deve ser notado que as descrições raciais de Parsons encontrados em jornais são quase sempre ligados a uma maior tentativa de demonizar ela. Por exemplo, o Chicago Times de 9 de maio de 1886 descreve o bronzeado mulato de Parsons é acompanhada pela acusação de que seus “lábios grossos, pequena, olhos brilhantes e expressão sinistra” eram prova de sua vontade de beber o sangue de crianças dos ricos.

17 “The Mayor Testifies”, Tribune, 3 de Agosto 1886.

18 De fato, “Lucy Parsons was Black” são as primeiras quatro palavras da biografia de Ashbaugh.

19 Roxanne Dunbar-Ortiz, “One Infallible, Unchageable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,” em FES, p. 169. Dunbar-Ortiz tenta preencher a lacuna, alegando que Parsons era de misto negro, do México, e ascendência indígena. Marion Tinling, Women Remembered: A guide to Landmarks of Women’s History in the United States (Greenwood Press, 1986, 479), refere-se a Parsons como “um negro de pele clara.” De acordo com ROBIN, D.G. Kelly. Freedom Dreams: the Black Radical Imagination. Beacon Press, 2002. p. 41. Parsons era “a mulher negra mais proeminente radical do final do século XIX”.

20 Ver, por exemplo, o site da African American Registry.

21 GREEN, James. Death in the Haymarket.

22 AVRICH. Haymarket Tragedy, p. 21-25.

23 GREEN, p. 85.

24 GREEN, p. 77.

25 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 29.

26 PARSONS, Lucy. “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor or the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Setembro de 1878, p. 40.

27 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 131.

28 “To the Workingmen of America”, The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 3.

29 PARSONS, Lucy. “The Principles of Anarchism”, 1905, p. 32.

30 PARSONS, Lucy. “A Word to Tramps”. The Alarm, 4 de Outubro de 1884, p. 1.

31 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 105.

32 De acordo com AVRICH (202), o discurso de Albert Parsons foi “surpreendentemente temperado” em comparação com seus discursos anteriores.

33 AVRICH. The Haymarket Tragedy, xi. **Jeffory A. **Clymer, America’s Culture of Terrorism, p. 33.

34 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”. 10 de Maio 1886, p. 53.

35 PARSONS, Lucy. “Challenging the Lying Monopolistic Press”, 11 de Outubro 1886, p. 56.

36 The Alarm, 17 de Dezembro 1887, p. 4.

37 PARSONS, Lucy. “Author’s Note”. In: The Life of Albert Parsons, p. xxx.

38 PARSONS. “To Lovers of Liberty”, Mãe Terra 4, n. 9 (Novembro 1909): 303; Lucy Parsons, ed., The Famous Speeches of Our Martyrs.

39 PARSONS. “November 11: Fifty Years Ago”. One Big Union Monthly, Novembro 1937, p. 165.

40 PARSONS, “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p. 85; “The Proposed Slaughter”,The Liberator, 4 de Março 1905, 1; “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p. 130.

41 PARSONS. “Letter to Tom Mooney”, 11 de Junho 1936, p. 162; Parsons para Eugene V. Debs, 12 de Março 1926, em: CONSTANTINE. J. Robert. Letters of Eugene. University of Illinois Press, 1990. p. 557-558.

42 PARSONS. “Letters to the Editor”. Freedom, Dezembro 1933, p. 6.

43 PARSONS. “Forward”. Em: CALMERS. Labor Agitator. International Publishers, 1937, p. 5

44 DAVID. The History of the Haymarket Affair, p. 476.

45 ASHBAUGH, p. 6.

46 AHRENS, “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist, More Dangerous Than a Thousand Rioters,” p. 12.

47 SCHAACK. Anarchy and Anarchists.

48 Anarchy at an End

49 AVRICH. The Haymarket Tragedy, p. 440.

50 PARSONS, Lucy. “The Great Conspiracy all Capitalist Lies”. The Liberator, 11 de Novembro de 1905, p. 1.

51 Por exemplo, em outubro 1905 Parsons escreveu vários artigos sobre “Mulheres Famosas na História”, que incluiu um longo artigo sobre revolucionária francesa. MICHEL, Louise. The Liberator, 29 de outubro de 1905, p. 1. The Liberator também demonstra que o interesse Parsons não se limitaram a história radical. Por exemplo, um recurso de longa duração foi “The Wonders of Science” da série, que se concentrou em questões científicas que variam de exploração da Antártica para Crater Lake de Oregon. The Liberator, 8 de outubro de 1905, 3; 10 de dezembro de 1906, 3.

52 PARSONS, Lucy. “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho de 1905, p 85; “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 155.

53 PARSONS, Lucy. “The Haymarket Meeting: A Graphic Description of the Attack on that Peaceable Assembly”, p. 53.

54 FLYNN. I Speak My Own Piece, p. 70.

55 “The Haywood Trial and the Anarchist Trial”. The Demonstrator, 4 de Setembro de 1907, p. 129.

56 CLYMER. America’s Culture of Terrorism, p. 6. Para uma discussão mais ampla sobre como o significado do lance da bomba de Haymarket foi criado e utilizado pelo Estado, ver CLYMER, p. 33-68.

57 PARSONS, Lucy. “The Eleventh of November, 1887”, 1912, p. 141-142.

58 “November 11: Fifty Years Ago,”One Big Union Monthly, p. 163-164.

59 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World”, 28 de Junho 1905, p 85.

60 “Plan to Name Park after Anarchist Draws Fire,” Chicago Sun-Times, 22 de Março 2004, 7.

61 “The Negro: Let Him Leave Politics to the Politician and Prayers to the Preacher”. The Alarm, 3 de Abril 1886, 2.

62 KELLY. Freedom Dreams, p. 42.

63 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p. 66.

64 LOWNDES, Joe Lowndes. “Lucy Parsons (1853-1942): The Life of an Anarchist Labor Organizer”. Free Society 2:4, 1995, Internet.

65 “Southern Lynchings”. Freedom, 1892, p. 70.

66 “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons”, p 181.

67 Em 1934, Parsons explicou que ela “passou a trabalhar para a International Labor Defense, porque” ela “queria fazer algo para ajudar a defender as vítimas do capitalismo”, não fazendo qualquer referência ao racismo. Lucy Parsons para Carl Nold, 27 de Fevereiro 1934, p 161.

68 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 66.

69 Os artigos a seguir demonstram longa dedicação de Parsons para forjar a consciência de classe através da educação dos trabalhadores em seus interesses comuns como produtções: “On the ’Harmony’ between Capital and Labor Or, the Robber and the Robbed”. The Socialist, 7 de Dezembro 1878, p 39-40. “The ’Scab’ a Result of Conditions.” Freedom, Agosto 1892, p 73; “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p 1; “Workers and the War.” The Agitator, 12 de Fevereiro, 1917, p 151.

70 “On the ’Harmony’ Between Capital and Labor,” p. 40

71 PARSONS, Lucy. “The Haywood Trial and the Anarchist Trial.” The Demonstrator, 4 de Setembro 1907, p 129-130.

72 GRIFFIN. “Union of ’Black’ and ’Red.” The Alarm, 26 de Dezembro 1885, p 4.

73 “Speeches at the Founding Convention of the Industrial Workers of the World,” 28 de Junho 1905, p 83

74 Parsons acreditava que um dos maiores problemas enfrentados pelos trabalhadores americanos era a crença generalizada de que “não havia classes” na América. Assim, ela se esforçou para educar os trabalhadores sobre seus interesses de classe, a fim de desmascarar concepções míticas da liberdade americana. Parsons, “Are Class interests Identical? A Synopsis of the Aims and Objects of the Industrial Workers of the World.” The Liberator, 3 de Setembro 1905, p. 1.

75 ASHBAUGH, p. 200.

76 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978, p 82. Para uma quente introdução ver “Mrs. Parsons in London.” The Alarm, 1 de Dezembro 1888, p. 2.

77 CUSAS, Lawrence. “Correspondence.” The Liberator, 10 September 1905, p 3.

78 Veja a LucyParsonsProject.org’s “About Lucy Parsons”, onde ela é chamada de “feminista proeminente” e “pioneira dos direitos civis.” Aparentemente Julia Bachrach, historiadora da Chicago Parks Division, considera Parsons uma sufragista, uma afirmação completamente anulada pela rejeição de longa data de Parson da política eleitoral. ROSENFELD, KATHRYN. “Looking for Lucy (in all the Wrong Places)”. Social Anarchism , 28 de Junho 2006,WorldWide Web

79 “Working Women.” The Socialist, 1 February 1879, p. 42-43; “The Women Question Again.” The Liberator, 3 de Outubro 1905, p 1.

80 “Speeches at the Founding Convention of the IWW,” 28 de Junho 1905, p. 79.

81 Por exemplo, Parsons estava disposto a defender a entrada das mulheres no mercado de trabalho apenas se as mulheres se recusassem a aceitar “salários mais baixos do que os humilhados pelos homens.” Se as mulheres aceitassem salários tão baixos ela acreditava que o trabalho das mulheres só seria um “prejuízo… [para] as suas colegas de trabalho.” “Woman: her Evolutionary Development.” The Liberator, 10 de Setembro 1905, p 2

82 Parsons destacou ainda que a discussão sobre a liberdade sexual feminina, referido na época como “variedade” sexual, foi dominada por homens. “Comrade Lucy Parsons Writes.” The Firebrand, 14 de Fevereiro 1897, p. 6. Dunbar-Ortiz situa Parsons dentro da história do feminismo americano, mas com cuidado articula a natureza baseada em classes de trabalho de Parsons para as mulheres. “One Infallible, Unchangeable Motto: Freedom’ Reflections on the Anarchism of Lucy Parsons,”, p. 171-174.

83 ASHBAUGH. Lucy Parsons, p 251

84 Parsons refere-se a isso como “anarquismo de velha escola.” Em 1907, Parsons acreditava anarquistas tinham abandonado a ideia de uma “organização” construída de “membros” responsáveis por “pagar dívidas mensais e recolher fundos para propaganda”, destinada a grande ideal de uma sociedade livre. Ver “A Wise Move: on Anarchist Organization.” The Demonstrator, 6 de Novembro 1907, p. 131.

85 “I’ll be Damned if I Go back to Work under Those Conditions! A May Day Speech,” p. 156-157.

86 Paradoxalmente, Ashbaugh reconhece que Parsons não se importava, “sob cujos auspícios ela trabalhava”, enquanto ela trabalhava para a “classe trabalhadora”. No entanto Ashbaugh ainda indefensável declara-lhe um membro do Partido Comunista. PARSONS, Lucy, p. 256.

87 FLOOD, Andrew. “Review of Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity.” 5 de Maio 2005.

88 Por exemplo, em sua introdução biográfica, Ahrens dedica um único parágrafo para a crença de Parsons na violência revolucionária, dando amplo espaço para a participação de Parsons no Fórum da Sociedade de Antropologia de Chicago. “Lucy Parsons: Mystery Revolutionist”, p. 13, 17-19.

89 Quando os amigos foram para recuperar a extensa biblioteca de Parsons do entulho foi dito pela polícia de Chicago que tinha sido tomada por um agente do FBI. No entanto, nenhuma agência já admitiu ter recebido a biblioteca de Parsons e seus papéis nunca foram encontrados. ASHBAUGH, p. 266.

90 ROSENFELD. “Looking for Lucy…,” Social Anarchism. p. 37.

91 “The Principles of Anarchism,” 1905, p. 30.

 Trabalhos Citados

AHRENS, Gale. Lucy Parsons: Freedom, Equality and Solidarity: Writings and Speeches, 1878-1937. Charles H. Kerr, 2004.

 Anarchy at an End. Lives, Trial and Conviction of the Eight Chicago Anarchists: How they Killed and What They Killed with: a History of the Most Deliberate Planned and Murderous Bomb Throwing of Ancient or Modern Times: the Eloquent and Stirring Speeches of the Attorneys for the Defense and Prosecution, with the Able Charge of Judge Gary to the Jury: Seven Dangling Nooses for the Dynamite Fiends. Hastings Library, California; Chicago: G.S. Baldwin, 1886. text-fiche.

 ASHBAUGH, Carolyn. Lucy Parsons: American Revolutionary. Charles H. Kerr, 1976.

 AVRICH, Paul. The Haymarket Tragedy. Princeton University Press, 1984.

 CLYMER, Jeffory. A. America’s Culture of Terrorism: Violence, Capitalism, and the Written Word. University of North Carolina Press, 2003.

 DAVID, Henry. The History of the Haymarket Affair: A Study of the American Social-Revolutionary and Labor Movements. Russell and Russell, 1936.

 GREEN, James. Death in the Haymarket: a Story of Chicago, the First Labor Movement and the Bombing That Divided Gilded Age America. Pantheon, 2006.

 Governor Altgeld’s Pardon of Neebe, Fielden and Schwab; Vindication of the Chicago Martyrs of 1887: Parsons, Spies, Fisher; Engel and Ling. New York Labor News Co, 1906.

 FLYNN, Elizabeth Gurley. I Speak My Own Piece: Autobiography of “the Rebel Girl.” Masses and Mainstream, 1955.

 MCKEAN, Jacob. “A Fury for Justice: Lucy Parsons and the Revolutionary Anarchist Movement in Chicago.” Senior thesis, 2006.

 PARSONS, Lucy. Life of Albert Parsons with Brief History of the labor Movement in America. Chicago: by the author, 1889.

 _____. Twenty-fifth anniversary, eleventh of November, memorial edition. Souvenir ed. of the famous speeches of our martyrs delivered in court when asked if they had anything to say why sentence of death should not be passed upon them, Oct. 7, 8, and 9, 1886. Nov 11, 1887-1912. Chicago: by the author, 1912.

 ROEDIGER, Dave and Franklin Rosemont (eds.). Haymarket Scrapbook. Charles H. Kerr, 1986.

 SCHAACK, Michael J. Anarchy and Anarchists. A History of the Red Terror and the Social Revolution in America and Europe. Communism, Socialism, and Nihilism in Doctrine and in Deed. The Chicago Hay-market Conspiracy, and the Detection and Trial of the Conspirators. F.J. Schulte, 1889.

 QUAIL, John. The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. Paladin, 1978

 Newspapers: The Alarm, 1885-88; Chicago Herald, 1886; Chicago Times, 1886; Chicago Tribune, 1886; The Liberator, 1905-06.

1 ° de maio, do luto à luta, das origens aos dias atuais

Primeiro de maio é dia de luto e luta, não de festa!

Texto publicado na primeira edição de Opinião Anarquista  do CALC, distribuído  no primeiro encontro do CEL (Círculo de Estudos Libertários), no dia 01 de Maio de 2013.

1° de Maio: Lutar com os de “baixo” ou festejar com os de “cima”?

“Tenho sido tratado aqui como um assassino e só se me tem provado que sou anarquista. Pois repito que protesto contra essa bárbara pena, porque não me foi provado crime algum. Porém se tenho de ser enforcado por professar ideias anarquistas, por meu amor à igualdade, à liberdade, à fraternidade, então nada tenho a objetar. Se a morte é a pena correlativa à nossa ardente paixão pela liberdade à espécie humana eu digo bem alto: disponde de minha vida!”

(Adolph Fisher, um dos mártires de Chicago)

Breve histórico das origens do 1° de Maio no mundo:

A data do 1° de maio tem sua origem relacionada a eventos que ocorreram no ano de 1886, nos Estados Unidos da América, em Chicago. Naquele ano ocorreram em todo os E.U.A. manifestações que tinham em comum a luta pela jornada de 8 horas diárias de trabalho. Em Chicago 35.000 pessoas foram as ruas buscando tal reivindicação no em 1886, resultando desta manifestação 6 mortos e 4 feridos. No quatro de Maio, em meio a um meeting operário que ocorrera na Praça de Haymarket, uma bomba é “misteriosamente” arremessada na policia.

Sem conseguir encontrar um culpado a policia decide por prender anarquistas, destacados militantes do movimento operário. Foram presos: George Engel, Adolph Fisher, Louis Lingg, August Spies, Samuel Fielden, Oscar Neeb, Michael Schwab, Wilian Lessinger, Jhon Most. Mais tarde, antes que ocorresse o julgamento Albert Parsons, também procurado pelo caso, mas foragido, se entregaria em sinal de lealdade a seus companheiros. O julgamento ocorre no dia 28 de agosto de 1887, este segundo as pesquisadoras do movimento operário Cardoso e Araújo tinham como objetivo por parte das “(…) autoridades judiciárias norte-americanas viam neste julgamento a oportunidade de eliminar a influência do anarquismo entre os operários” (CARDOSO & ARAÚJO, 1986). Os resultados do julgamento são condenações a forca para Parsons, Fisher, Engel, Spies, prisão perpétua para Fielden, Schwab, 15 anos de reclusão para Neeb e a expulsão de Most dos E.U.A. Lingg havia suicidado-se no cárcere e Lessinger desapareceu no presídio no qual estava.

Em memória aos “mártires de Chicago”, como ficaram conhecidos os trabalhadores condenados por ocasião do “massacre da praça de Haymarket”, o Congresso da II AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), ocorrido no dia 11 de junho de 1889 declara o 1° de maio dia de luta pelas 8 horas. Tal congresso ainda contava com a militância anarquista em seus espaços (expulsos em 1896). Em 1890 os E.U.A. aprovam a jornada de 8 horas, em 1894 é revisado o julgamento dos “mártires de Chicago” que passam a ser considerados inocentes, graças à luta e organização dos trabalhadores americanos.

O 1° de Maio na Terra das  Araucárias

A primeira comemoração genuinamente operária do 1° de maio no Brasil se dá em Santos em 1892. No Paraná, a data inicialmente era comemorada como um “pacto” de classes, as autoridades e a mídia empresarial da época estimulavam a cordialidade dos trabalhadores, que deveriam receber a data como “presente” de seus patrões. Podemos ver na matéria publicada na mídia local de Curitiba no 1° de maio de 1900: “Aos operários paranaenses apresentamos no dia de hoje as expressões de nossas simpatia pelo modo pacífico e digno com que festejam e glorificam.” (Apud, Diário da Tarde, Curitiba, 1° de maio 1900). Nos anos subsequentes permaneceu o “bom comportamento” até que em 1907 a Liga dos Sapateiros chama uma passeata e atividades artísticas que memorassem o dia de “luto e luta” no Teatro Guaíra. A partir deste momento a data seria alvo de disputa por parte da classe trabalhadora e das elites, bem como seu direito de livre organização. Nesse mesmo ano é aprovado o artigo (n°1637) que possibilitava a expulsão de imigrantes. Nos anos posteriores teremos atos públicos da classe trabalhadora: em 1908 na Associação Curitibana dos Empregados do Comércio é fundada a Liga Operária 1° de maio e em 1909 ocorre o ato do 1° de maio na Sociedade Protetora do Operário, quando a data passa a ser motivo de mobilizações também em várias cidades do litoral impulsionada pelas manifestações da capital. Mais tarde em 1913 a data é motivo de uma manifestação massiva contra a carestia que força a prefeitura a negociar com uma comissão de operários, o dia passa a ser um momento de exercício da ação direta, tal elemento pode ser encontrado no 1° de maio de 1917, segundo Araujo e Cardoso um prenuncio da Greve Geral de 1917.

Frente a uma conjuntura de forte ascensão da organização da classe operária, ao mesmo tempo em que uma revolução proletária ocorre na Rússia, e intentos similares ocorrem no Brasil como a Insurreição de 1918 no Rio de Janeiro, o Estado por meio de seus governos cumpre seu papel de defensor das classes dominantes. O Presidente Arthur Bernardes criaria em 1923 a lei 5221 que possibilitava o fechamento de associações operárias, o que na verdade regularia uma prática, na medida em que a União Operária Paranaense, por exemplo, já havia sido fechada em 1920. Os anarquistas, principais animadores do movimento operário naquele momento, tem “atenção especial da repressão”, tendo uma lei que proíbe sua propaganda promulgada em 1921 a lei 4269. Os anos de 1929 e 1930 figuram como momentos de resistência onde vemos a data ser comemorada pelos operários de forma desvinculada das elites.

Em 1930 é eleito Getúlio Vargas, um populista que buscava selar o pacto de classes. Em 1931 cria o Ministério do Trabalho, trazendo consigo a lei de sindicalização, subordinando os sindicatos à outorga do estado, situação que permanece até hoje. Tal lei acaba por destruir a liberdade de organização dos trabalhadores. Como a repressão não bastava para apaziguar os ânimos das classes exploradas, em 1932 são aprovadas as primeiras leis trabalhistas, sob a tutela do “pai dos pobres”, que buscava com tais medidas apagar da história os anos de luta da classe operária, verdadeira responsável pela aprovação de tais leis. Para ter dimensão do período: se aprovava leis de proteção ao trabalho de um lado, e se proibiam os desfiles no 1°de maio do outro.

A repressão se intensificaria nos anos de governo Vargas, que terminaria como uma ditadura no período do Estado Novo (1937-1945). Este período faria por destruir todo movimento operário autônomo. Segue-se neste momento uma série de tentativas de vincular o 1° de maio a uma data cívica, festiva, como bem já se apontava em 1919 com a transformação desta em feriado, em 1943 é aprovada a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) nesta data, em mais um dos esforços de Vargas em demonstrar que a luta de classes não era necessária.

Tal tendência se consolidaria no movimento local, e mesmo nacional, que não conseguiria reagir nas décadas seguintes. Durante toda a década de 50 registram-se as “festas do trabalho”, com fito de memorar o pai dos pobres. Passariam longos anos assim, até que por volta dos anos 60, reapareceriam manifestações de rua de cunho reivindicatório. Mas tal movimento não amadureceria e em 1964 temos um segundo golpe de Estado, agora militar, regime que proibiria os sindicatos. De 1964 a 1968 vemos uma forte repressão ao movimento operário. O regime militar tornaria a data um momento cívico novamente, de festejos, práticas esportivas, de “ordem”, tudo menos luta. Nos fins dos anos 70 veríamos um esboço de reação do movimento de trabalhadores local, sucedem-se naquele ano muitas manifestações e greves por direitos democráticos.

Durante toda a década de 80 o movimento dos trabalhadores acumularia forças para derrubar a ditadura. No ano de 1983 as primeiras manifestações por eleições diretas ocorrem pelo Brasil, tendo Curitiba como um local de manifestações de massa em torno da pauta.

Tal movimento acumulou forças por todo o período da reabertura democrática, forjando as organizações da classe que seriam responsáveis por tocar as lutas das classes exploradas, dentre elas a CUT (Central Unica dos Trabalhadores). Esta desde cedo se identifica em muito com o projeto do PT (Partido dos Trabalhadores), pois este partido é formado pelos que estavam nas lutas por liberdade e direitos, e mais, impulsiona com sua militância tais organismos. Estes passam a ter ligações “umbilicais”. Durante toda a década de 90 o PT amadurece seu projeto eleitoral. A CUT segue como base de apoio de tal projeto, que culmina na vitória presidência de Lula em 2002. Isso nos coloca em uma conjuntura em que o movimento dos trabalhadores acaba por tornar-se suporte das candidaturas trabalhistas.

No atual momento é um partido de origem trabalhista que dirige o país. O Estado, todavia, não mudou seu caráter, continuando a atacar os direitos da classe trabalhadora. O que mudou com tudo isso foi a postura da classe e seus organismos, hoje totalmente envolvidos pela agenda do Estado. Se “ontem” eram os “representantes” das classes dominantes que reprimiam e cassavam os direitos dos trabalhadores, hoje são oriundos da classe trabalhadora aqueles que governam em prol da exploração. O último ataque é encabeçado por sindicalistas, aplaudido pelo governo e pelos patrões, que é a ACE (Acordo Coletivo Especial), que visa tornar lei os acordos sindicais (entre patronal e laboral). Tal lei faria por acabar com os direitos trabalhistas na prática, pois atualmente a imensa maioria dos sindicatos se encontra descolada da base em suas decisões, e que tem direções facilmente cooptáveis.

Em mais um 1° de maio estamos na eminência de mais ataques à classe trabalhadora. Por todo o século XX, as classes dominantes com apoio do Estado buscaram acabar com o movimento dos trabalhadores independente, combativo e revolucionário. Hoje o movimento se encontra na defensiva, e mais, a regra é a cooptação dos trabalhadores para projetos eleitoreiros, fazendo do movimento mera base de candidaturas “trabalhistas”, trazendo os trabalhadores para o hall da política burguesa (o Estado). Hoje aqueles que buscavam ser os “representantes” da classe são aqueles que gerenciam a exploração. O confronto ideológico entre a ideia de um 1° de maio dia da “Festa do trabalho” ou dia de “luto e luta”, é cada vez mais necessário, vide as grandes “festividades” financiadas por entidades sindicais, partidos políticos e Estado. É necessário recuperar não só o 1° de maio, mas o movimento dos trabalhadores para as mãos destes, afinal a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”.

Baixe a versão que foi impressa do Opinião Anarquista/CALC  n° 1 aqui Opinião Anarquista 1-1de maio 2013

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[CAZP] 1º de maio: Resistência e Luta!

 

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Retirado de: http://cazp.wordpress.com/2013/05/01/1o-de-maio-resistencia-e-luta/

A origem do primeiro de maio remonta às lutas operárias do século XIX, mais especificamente nos Estados Unidos, onde nos anos 80 desse mesmo século se desenvolvia uma grande articulação em diversas regiões para lutar pela jornada de oito horas de trabalho. Na época e até bem depois, eram comuns jornadas que ultrapassavam 15h diárias.

Este foi, portanto, mais um marco na batalha entre capital e trabalho: Aqueles que produzem a riqueza do mundo lutando contra aqueles que se apropriam do seu produto, a luta para que a maior parte do dia não fosse do patrão e sim do trabalhador, uma etapa na luta por uma nova sociedade. O lema era “oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso”. Hoje sabemos que se a sociedade fosse organizada segundo preceitos do socialismo libertário e todo mundo trabalhasse, precisaríamos dedicar bem menos do que 8h de trabalho diário.

Nesse sentido, foi estipulada a data de 1º de maio de 1886 como prazo para que os patrões concedessem a nova jornada de trabalho reivindicada. Assim, nessa data se iniciou um imenso movimento grevista, que se expandiu por diversas cidades dos EUA, particularmente na cidade industrial de Chicago. Lá havia forte presença de militância anarquista, que estava ativamente envolvida com a organização dessa e de outras lutas.

Nos dias seguintes, houve diversos confrontos com a polícia, o que resultou em alguns manifestantes mortos e presos. Quando, no dia 4 de maio, a polícia tentou acabar uma manifestação pacífica com o uso desproporcional de força bruta, houve uma explosão nas colunas da repressão e cerca de sete policiais morreram e 70 ficaram feridos. Até hoje não se confirmou a autoria do atentado, mas há fortes indícios indicando que foi a própria reação que implantou a bomba em suas fileiras para justificar publicamente o que se seguiu: De imediato, uma chacina, na qual foram assassinados quase 100 operários e uma brutal repressão com prisões de pessoas, muitas delas sem nenhum envolvimento com o movimento sindical. Essas pessoas foram barbaramente torturadas antes de se conferir qualquer participação delas em movimentos reivindicatórios.

Os militantes mais destacados, a sua maioria de imigrantes alemães e anarquistas, foram diretamente responsabilizados, sendo que a maioria nem mesmo estava no local no dia do atentado. Com certeza, foram colaboradores diretos das mobilizações e luta da classe operária no país que viviam, mas nada tinham a ver com a explosão. Destacam-se entre esses eles: Neebe, que foi condenado a 15 anos de prisão; Scheab e Fielden, que tiveram a pena reduzida para prisão perpétua depois de muita manifestação; Lingg, que se suicidou na prisão; e Spies, Parsons, Fischer e Engel, enforcados. Tempo depois, foi reconhecida oficialmente a inocência deles e os que ainda estavam presos foram libertados. Antes disso, a história já tinha causado comoção internacional em todo o movimento sindical mundo afora.

O primeiro de maio passa, então, a ser para diversos movimentos de trabalhadores como símbolo de luta da classe. É lembrado todo ano com manifestações em diversas localidades. Virou o dia do trabalhador, sendo reconhecido pela segunda internacional (a internacional dos partidos sociais democratas e a fins). Mais tarde, a classe dominante e seus governos passam a adotá-lo como feriado nacional em vários países, como uma maneira de cooptar o movimento sindical e se apropriar da história a modificando, pois passam a chama de dia do trabalho e não mais dia do trabalhador.

Essa marcante etapa da história de resistência do povo oprimido deve ser sempre lembrada em respeito a todos os que tombaram no caminho na busca por uma nova sociedade, mas sobre tudo para que possamos nos espelhar em seus exemplos na continuação dessa mesma batalha em nosso tempo.

Nós, anarquistas, sempre estivemos presentes na luta pera construção de uma nova sociedade, que para nós tem que ser pautada pela igualdade e liberdade. Assim como os anarquistas de Chicago, o movimento anarquista foi responsável pelo desenvolvimento de um sindicalismo combativo no Brasil, que chamamos de sindicalismo de intenção revolucionária. Este unia a luta pelas melhorias de condições sociais mais imediatas dos trabalhadores com a luta de transformação social, bem enraizada em toda a classe da época. A expressão desse tipo de sindicalismo foi marcante do final do século XIX até a década de 30 do século XX, não só no Brasil, como em outros países. Foram marcas dessa época a Confederação Operária Brasileira (COB) e Federação Operária Alagoana, parte desse processo e hegemonicamente influente nos trabalhadores de suas épocas.  A força política preponderante era dos anarquistas, que aliados ombro a ombro com os demais companheiros de classe, construíram diversas lutas. Trabalhavam como minoria ativa, eram da classe, estavam inseridos nela, e de maneira alguma na vanguarda, dirigindo-as de maneira autoritária.

Hoje vivemos tempos de grande desmobilização, e ideias como a do sindicalismo de intenção revolucionária não são mais hegemônicas em nossa sociedade. Em grande parte, os sindicatos estão burocratizados e atrelados ao patrão e seus governos. No entanto, nunca podemos esquecer que potencialmente a maioria da humanidade guarda dentro de si o espírito de sua própria libertação. Nós, os oprimidos, sempre seremos a maioria da humanidade em quanto durar o sistema de classes sociais e a profunda desigualdade existente nele.

Nós, anarquistas, militamos diuturnamente para o despertar da revolta da população. Para que essa revolta seja organizada, autogerida e que tenha um objetivo claro: o socialismo libertário. Muito falta por fazer e não podemos ter a certeza da vitória.

A luta dos trabalhadores também faz parte da luta dos povos oprimidos e nelas também nos inserimos. A reorganização do movimento sindical tem que partir do local de trabalho: por mais tortuoso que possa ser, o trabalhador tem que ser o protagonista do processo. As entidades sindicais são maiores que sua direção, mas para conseguirmos que elas tenham um caráter combativo e possam ir além do imediato, o fundamental é trazer o conjunto da classe para luta e não apenas mudarmos de direção. Boas diretorias sindicais serão consequência de um movimento forte e com capacidade de construir a luta e não apenas executá-la.

Nós do Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP), junto com a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), estamos inseridos na luta sindical e a construímos em diversas localidades, com muita humildade, sabendo o quanto falta para construir e almejando o resgate do sindicalismo de intenção revolucionária. Pertencemos a tradição de luta anarquista dos mártires de Chicago aos dias atuais.

 Neebe, Spies, Parsons, Fischer, Engel, Scheab, Fielden, Lingg e a todos os outros companheiros que tombaram pelo caminho: 
PRESENTE !!!