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Jornadas Anarquistas 2017, Montevidéu – Uruguai

Na tarde do dia 13 de fevereiro, a Federação Anarquista Uruguaia recebeu delegações de distintos lugares para uma mesa redonda entre organizações políticas, desde a concepção especifista que marca nossos modos de atuar e organizar. O propósito desta reunião internacional, que dá sequência a edição de Porto Alegre (Brasil) em 2015, foi o de ampliar em nossa região do mundo o debate sobre os elementos da etapa sistêmica e o que traz de específico a atual conjuntura histórica. Trocar informações, experiências e análises para a atuação social política do anarquismo organizado hoje, com os problemas e matizes que nos apresentam o tempo em que lutamos e resistimos.

Já faz tempo que importantes problemas teóricos, metodológicos e também políticos estão colocados e exigindo uma atualização de acordo com a nova situação que nos toca viver” diz um documento apresentado ao plenário.

O socialismo esteve presente e fazendo propostas no marco deste período histórico de tantas mudanças. Muitas são as experiências que tem colhido, não poucos são seus fracassos também. Quantos de seus paradigmas caíram junto e concepções inteiras tem demonstrado na prática que não conduziam ao propósito enunciado. Toda uma concepção autoritária, de instalação do socialismo por cima, tem ido pro ralo. Nem por isso o socialismo caiu. Segue sendo o antagonista do sistema vigente.

O acento posto pelo socialismo libertário na capacidade de resistência dos povos, no saber que sua experiência social constrói, a solidariedade tantas vezes praticada, são hoje mais necessários do que nunca. Não é a ciência, nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a ‘história’ em si e nem o progresso os que trarão mudanças que a humanidade e os pobres do mundo necessitam, hoje talvez mais pobres do que nunca .”

O documento aponta em seus parágrafos finais: “Colocando a bom serviço a técnica, a ciência e as teorias mais atualizadas e fecundas, as organizações de combate, políticas e sociais inseridas profundamente no processo em curso, com suas aspirações éticas e firme vontade resistente, terão que fazer o novo sulco deste tempo. (…) Que não arrotem vitórias prematuras os inimigos e os capituladores. Não haverá fim da resistência e da esperança

Em seu conjunto participaram delegações da FAU (Uruguai), Federação Anarquista de Rosário (Argentina), Via Libre (Colômbia), Federação Comunista Libertária e Comunidades Organizadas (Chile), FARPA, CALC, FARJ, FAG, Org. Maria Ieda (pela CAB Brasil), OSL (Suíça), Alternativa Libertária e Coordenação de Grupos Anarquistas (França).

Adiantamos sinteticamente que o acordo geral que chegamos aponta neste momento ao nosso desenvolvimento teórico-político articulado com o aumento da incidência libertária nas dinâmicas de luta e resistência da cena social política.

Reproduzimos abaixo recortes do texto que foi considerado durante a plenária e que tematizam o acionar do sistema em nossa época e aparecem categorias de análise para nossa produção teórica.

Estaremos publicando em breve o texto integral.

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Neoliberalismo no econômico, no ideológico e nas relações sociais

As mudanças que trouxe todo o processo de um período histórico, o que tem sido chamado de “reforma neoliberal”, ou simplesmente “neoliberalismo”, incluiu o que já é mais que conhecido: mercantilização dos serviços de saúde, pensões e seguros, as transformações substantivas do sistema educativo, as privatizações de empresas públicas, a introdução nas instituições estatais de modalidades de gestão próprias do setor privado, os mecanismos de flexibilização laboral e de contratações, etc. Junto a isso a injeção no ideológico social de uma “cultura de empresa”. Não é um processo de mudança que pode ser explicado só através do econômico, intervém nele, simultânea e constantemente fatores de outra ordem como: o político, ideológico, cultural, judicial e mudanças de racionalidade geral.

Dita mudança produziu como efeito uma grande fragmentação no campo social, especialmente no âmbito dos oprimidos e explorados. Um profundo individualismo, um processo massivo de individualização, que mudou boa parte do caráter das relações, tentou instalar outras modalidades que tem como centro a instabilidade e a fluidez. Onde o sentimento de pertencer a coletivos e comunidades sociais é deslocado com intenções de faze-los desaparecer.

Com razão que tem sido dito que estamos ante uma situação social histórica onde domina o mundo um sistema ecocida e genocida que está levando a humanidade à beira do precipício. Junto com uma política de exacerbação do consumo, que se designa como consumismo, vai uma destruição brutal da natureza, do ecosistema.

Biopolítica que mata e/ou deixa morrer

As perspectivas, no marco do sistema dominante, não são nada boas, são macabras. Sua política, sua forma de produção não mudam os rumos, fazem parte substancial de sua eistência. Sua depredação da natureza, sua exploração humana e a criação de miséria e “população sobrante” seguirão como suas dependentes.

É a presença de uma nova biopolítica onde hoje se combinam fazer morrer e deixar morrer, mais do que fazer viver.

Por estratégias de poder mundial temos: guerras de intervenção com massacres de populações, milhares de assassinatos de civis, destruição de hospitais, sequestros e assassinatos de prisioneiros, cadeias clandestinas em diferentes países para a tortura brutal e o assassinato, os ataques com drones tão “cirúrgicos” e “precisos” que deixam centenas de civis assassinados. Enormes populações desses “estados falidos” que depois de seu destroço ficam a deriva, mergulhados na fome e no desespero. Essas enormes populações de imigrantes vivendo em barracos até militarmente controlados e sem o mais elementar pra sobreviver. Multidões a nível mundial estimadas pelo poder como material sobrante que não importa nada, que pode se deixar que morra. Vão produzindo um enorme contingente humano que está expulso de todo direito, está preso para fora e sua vida não vale nada. Pois a lógica operante é: não são necessários para a produção e não tem capacidade de consumo.

A resistência que se manifesta dia a dia

As mudanças sistêmicas referidas estão aí, abarcando todo o tecido social. (…) mas isso ocorre no marco de um processo permanente de tensões sociais. De rebeldias, enfrentamentos, insatisfações, fortes resistências.

Ainda que a Resistência existe ao extenso e largo do poder dominante e tem múltiplas expressões regionais, não tem que ser necessariamente algo atomizado. Pelo contrário, distintos nós resistentes, agrupamentos, estendem frequentemente laços entre si e compõem em tais circunstâncias forças sociais que originam mudanças conjunturais. Como modo de exemplo tomemos a militância comum de camponeses, indígenas, feministas, ecologistas e grupos de DDHH ou levantamentos populares compostos por uma gama de resistências como na chamada Primavera Árabe ou no movimento Indignados da Espanha. Muitos processos de subjetivação em meio de tensões que são unidos por laços solidários. Processos subjetivos, engendrados em confrontações, que podem ser políticos e com propostas próprias em determinadas circunstâncias.

As resistências, por tanto, não são marginais senão ativas no centro de uma sociedade que se abre em redes; existem, nos fatos, os militantes do mundo dos oprimidos capazes de viver a miséria do mundo até o final com rebeldia e liberdade, de identificar e enfrentar as novas formas de exploração, dominação e sujeição.

Nossas reflexões e a atualidade

Nos anima então uma o propósito interessado de refletir sobre enfoques teóricos que possam resultar efetivos estrategicamente para confrontar-se com formações empíricas, favorecendo assim uma concepção de de teoria social não divorciada de uma prática de ação política com intenções de ruptura. Ao mesmo tempo, se tenta buscar uma alternativa conceitual frente aos numerosos problemas que hoje proliferam, e que em vez de tomar seriamente a pluralidade e a contingência de um mundo social que tem se transformado, por suposto sem tocar no núcleo duro do sistema mundo capitalista, termina ignorando as significativas variações existentes na vida coletiva contemporânea, gerando assim estancamentos e certas fossilizações no âmbito teórico-político com suas consequências no campo da ação social-política.

Por exemplo, esta nova configuração sistêmica traz consigo, além de uma nova racionalização, uma nova forma de Estado. Constituído em um processo, já tem elementos diferentes do Estado chamado de bem estar social. Mantém sim, mas dentro de outra articulação, o caráter repressivo das demandas de autonomia dos indivíduos e os coletivos, seu papel de contenedor dos conflitos sociais, seu monopólio da força repressiva. Em qualquer caso a dinâmica e determinadas críticas das classes detentoras do poder dominante coincidiram na necessidade de dar uma virada de página e de superar (reformando a fundo) a racionalidade welfarista (Estado de bem estar) em curso. Criou assim, em enunciados “teóricos” e nos fatos uma nova racionalidade, para a atual situação do sistema em seu conjunto como para o Estado que o integra. Não interessa um Estado não interventor, mas que sua intervenção seja de determinada maneira. Seja salvando bancos falidos depois de grandes roubos; fazendo espaço e apoiando o capital financeiro; criando forte controle sobre populações jogadas na miséria e descontentes; ou criando estados de exceção para zonas estimadas por eles perigosas no seio de países “democráticos”.

Para um conjunto dessas práticas, um dos discursos de verdade, uma ideologia operativa, será o da segurança da população, Ela vai cumprindo macabras funções ao mesmo tempo que pretexta levar a democracia e defender direitos fundamentais no terreno exterior, a países e regiões, com essas frequentes e criminais ocupações ou destruição de países que suas estratégias geopolíticas de poder indicam.

Uma nova ordem interior respaldada por um sistema de informação geral, “uma espécie de mobilização permanentes dos conhecimentos do Estado sobre os indivíduos”. Isto implica uma nova modalidade de relação entre o saber, a informática e o poder: não se trata exatamente da informação e do saber ao mesmo tempo global e individualizante da era das disciplinas, mas de um saber abarcador, massivo, que quer captar os grandes movimentos de conjunto. Importam especialmente territórios, “zonas vermelhas”.

Outro aspecto para que esta nova ordem interior funcione, é procurar a constituição de um “consenso” que possa significar uma certa regulação feita efetiva pelo mesmo povo oprimido que faça que “a ordem se autoengendre, se perpetue, se autocontrole”.

Para isso além dos mecanismos e dispositivos do sistema intervirão organizações e expressões sociais “amigas” que se desenvolvem no campo popular e que nos fatos já estão integradas no sistema. Que pensam com a mesma lógica.

A nova estratégia de governo e novo Estado neoliberal consiste em garantir os fluxos (financeiros, humanos, tecnológicos, etc.) e maximizar a proteção em áreas de circulação massiva. Nesse sentido, se identificam zonas chave para a segurança e a economia (centros comerciais, aeroportos, jurisdições fronteiriças, etc) e logo se calculam os custos e benefícios do investimento em dispositivos de vigilância, que traçarão a linha divisória entre zonas seguras e zonas desprotegidas. O fim é “poder determinar em cada momento quem se desloca, de onde vem, aonde vai, o que ele faz ali onde está, e se efetivamente tem acesso a rede em que se desloca e se tem ou não proibição”.

[RL] 10 ANOS DE RUSGA LIBERTÁRIA: 10 ANOS CONSTRUINDO O ANARQUISMO ORGANIZADO EM MATO GROSSO

As reticências, as meias-verdades, os pensamentos castrados, as complacentes atenuações e concessões de uma diplomacia covarde não são os elementos dos quais se formam as grandes coisas: elas fazem-se, apenas, com corações elevados, um espírito justo e firme, um objetivo claramente determinado e uma grande coragem. Empreendemos uma grande coisa, […], elevemo-nos à altura de nossa empreitada: grande ou ridícula, não existe meio-termo, e para que ela seja grande é preciso, pelo menos, que por nossa audácia e por nossa sinceridade tornemo-nos também grandes.

Em 18 de novembro de 1918, os anarquistas realizaram uma insurreição no Rio de Janeiro; as primeiras três décadas do século XX, no Brasil, o anarquismo esteve vivo e combativo conjuntamente às lutas operárias, educacionais e campesinas – do campo à cidade, envolvidos na intenção de construção do Socialismo Libertário, da Revolução Social. São 98 anos desde a Insurreição Anarquista, noventa e oito anos que não deixa ser apagado nossa memória de luta, organização, rebeldia, solidariedade, apoio mútuo, fraternidade, internacionalismo e Ação Direta! Mesmo não sendo a data de nossa fundação, é uma data que faz parte da nossa história, da história de mulheres e homens que se colocaram em sagacidade nas lutas por um mundo melhor, uma nova sociedade; da Rússia ao México, dos Estados Unidos à Espanha, do Japão à Coreia… do Uruguai ao Brasil. O anarquismo esteve presente em todos os continentes, sendo na construção do sindicalismo revolucionário, da luta camponesa, da luta pela libertação e emancipação das/os oprimidas/os – Na Luta Contra o Estado!

E foi através dessas experiências prática e teórica, em mais de 150 anos de anarquismo militante, que se deu as primeiras intenções de construção de uma organização especificamente de anarquistas, em terras mato-grossenses. Construção iniciada através de companheiros e companheiras que já se articulavam com outras organizações do Brasil, em meados da década de noventa, até a concretização do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) – instância organizativa que foi destinada para o amadurecimento de linhas táticas e estratégicas, teóricas e práticas, de intervenção nos movimentos sociais e construção de ferramentas que possibilitasse o avanço das lutas populares com corte de classe libertário – que percorreu 10 anos de existência, até a fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB).

Pelo Grupo de Estudos e Ações Libertárias (GEAL), foram aplicados os primeiros germes formativos, em Mato Grosso, para se avançar na perspectiva de construção de uma organização especificamente anarquista; ali foi possível trocar reflexões, afinar nortes programáticos e chegar no ponto X da concretização da Rusga Libertária – entre os últimos meses de 2005 e 2006. Hoje, dez anos depois, também optamos por percorrer com tranquilidade/firmeza/ética/estilo militante/compromisso e humildade os passos para o enraizamento da crença em nosso projeto político ideológico, um projeto enraizado ao nosso próprio projeto de vida: Organizativo, Libertário, Solidário, Internacionalista e Revolucionário! Dez anos percorridos através de avanços, estagnações, embates, amadurecimentos, crítica, autocrítica, humildade – para chegar na nossa maturidade ideológica e programática.

10 anos caminhando com passos firmes, humilde, porém convicto do que queremos!

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E foi com imensa satisfação que recebemos saudações de organizações irmãs do Brasil, da América Latina e da África do Sul. Essas saudações foram lidas e introjetadas em toda nossa militância como um adicional de ânimo e determinação para que possamos comemorar mais 10 anos de existência…

Agradecemos a todas e todos que se fizeram presentes nesse momento de alegria e reafirmação do nosso projeto de luta por uma nova sociedade!

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América Latina

Federacion Anarquista de Rosario (FAR)

Companheiros/as da Rusga Libertaria:
Orgulha-nos tremendamente este importante evento para o anarquismo brasileiro. Este é um passo-chave nesta etapa da construção da CAB e tambem na consolidação das praticas libertarias no histórico Caa Guazú guaraní, hoje mais conhecido como Mato Grosso.
Sem dúvida, isto contribui para as bases da sustentabilidade regional do anarquismo especifista. Como mostram eles é vital a premissa organizacional aos níveis sociais e político-ideológico, marcando um caminho a seguir para a militancia matogrossense e deixando à vista a capacidade, compromisso e necessidade do momento de envolver-nos em as lutas sociais do nosso povo, ombro a ombro com os nossos irmãos de classe.
Os 2500 km que nos separam não são em absoluta distância para pensar em conjunto a estratégia regional de resistência contra o avanço das classes opresoras da região, que via eleições ou golpes institucionais vieram para completar o programa de ajuste selvagem para os de baixo.
Nos só desejamos longa vida ao anarquismo organizado no Mato Grosso.
Contra la clase dominante, anarquismo militante!
Viva la Rusga!!!
Arriba lxs que luchan!!!
FAR – Federación Anarquista de Rosario (Argentina)

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Federacion Anarquista Uruguaya (fAu)

Salu compañeras y compañeros de Rusga Libertaria.

Desde Uruguay queremos saludar y celebrar a la distancia los 10 años de organizacion y lucha anarquista en Mato Grosso.

Ha sido un buen tiempo de construccion anarquista de la organización en sus diferentes etapas que debe ser capital de una mirada profunda para arraigar aun mas nuestra perspectiva libertaria y alternativa de lucha de clase.

Recordamos los primeros años cuando nuestros hermanos y hermanas de la FAG nos informaban sobre el trabajo alli y las potencialidades concretas. Hoy con cierto orgullo tambien les damos nuestro saludo.

Vamos a dar la lucha desde abajo, sin caer ni meternos solos en los
corrales de rama del sistema y los juegos electorales.

Por una alternativa de lucha de los de abajo!

Por el socialismo libertario! // Arriba los 10 años del FAO! // Arriba la CAB! // Arriba los que luchan!

federacion Anarquista uruguaya

África do Sul

Frente Anarco-comunista Zabalaza (ZACF)

Companheiros e companheiras,

Em nome da Frente Anarco-comunista Zabalaza (ZACF) da África do Sul lhes mandamos saudações solidários aos/às companheiros/as da Rusga Libertária no seu decimo aniversario.

Sabemos que dever ter sido um largo e difícil caminho a construir sua organização e desenvolver sua prática política para chegar em este ponto histórico num país e contexto bastante desigual aonde o anarquismo, mesmo que tendo uma história larga e de nobreza no Brasil, ainda não voltou a ser muito bem conhecido nem recebido por as classes oprimidas desde a perda do seu vector social no século anterior.

Sabemos também que o Brasil, como muitos países incluso o nosso, está voltando cada vez mais num país autoritário aonde o governo e a classe dominante pouco se toleram ideologias, grupos políticos ou movimentos sociais que defendem a igualdade e transformação social e aonde o espaço democrático para fazer crítica do sistema, levantar as nossas propostas, lutar e desenvolver alternativas libertárias se fica cada vez menor.

Mesmo assim, temos visto de longe como o trabalho de base consistente e paciente das organizações especifistas brasileiras, organizados na Coordenação Anarquista Brasileira, há começado a dar frutinhas, e nos parece que o anarquismo está começando a surgir mais uma vez como uma referência e ferramenta de luta nas lutas populares e sociais que nos parece que estão explorando no Brasil – das lutas de 2013 contra o aumento da tarefa e contra a absurdidade da Copa do Mundo até a onda de ocupações escolares do ano passado até agora.

Da Turquia aos Estados Unidos, da Argentina ao Brasil, a extrema direita, o fascismo e o autoritarismo discriminador, de uma forma ou outra, estão crescendo. Mais de trinta anos do neoliberalismo há enfraquecida as organizações populares da resistência e há f eito que as classes oprimidas se quedam divididos e confusos, sem confiança e esperança na luta nem solidariedade de classe. A esquerda autoritária, pragmática e oportunista não tem nada pra oferecer as classes oprimidas. Só a luta de classe, desde abaixo e por fora do estado, nos salvará. Só o anarquismo nos mostra uma saída deste sistema tão deplorável. Se as classes oprimidas não se organizam e levantam para dar fim à esse mundo capitalista, ou as bombas de guerra imperialista ou as alterações climáticas o fará.

Agora, mais que nunca, o mundo e os povos se necessitam o anarquismo. Agora, mais que nunca, nós temos que organizar, temos que defender as nossas ideias, demostrar que a nossa alternativa libertaria tem valor e nos oferece uma chama de esperança num mundo escuro e absurdo.

Respeitamos e apreciamos o compromisso e trabalho, tanto social e de base quanto político, de cada um/a de vocês em construir um anarquismo organizado e um povo forte no Mato Grosso e no Brasil mesmo. Em construir um mundo novo e libertário.

Nós lhes desejamos mais uma década de resistência libertária e organização especifista.

Viva Rusga Libertaria!! Viva CAB!! // Arriba lxs que luchan!!

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Brasil

Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN) – SC

Saudação do Coletivo Anarquista Bandeira Negra aos 10 anos da Rusga Libertária

Desde que a militância anarquista se organizou em Santa Catarina, fazendo do CABN nossa ferramenta de construção de um novo mundo nos idos de 2011, contamos com um forte laço de rebeldias, sonhos e muita luta em Mato Grosso, laço que não se afrouxa pela longa distância que nos separa. Maior que a distância é nossa convicção na importância de derrubar esse sistema injusto. Convicção também de que a mais ampla solidariedade entre os povos oprimidos será decisiva para essa tarefa!

Saudamos o momento em que a Rusga Libertária alcança seus dez anos e desejamos muito debate solidário, acúmulo e ainda mais força para as lutas que virão. Quando a labuta cotidiana na resistência ficar pesada, lembrem que aqui no Sul também estamos dedicando os mais honestos esforços pela revolução.

Pelo socialismo e a liberdade!

Coletivo Anarquista Bandeira Negra,

novembro de 2016

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Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA) – MG

Belo Horizonte, Minas Gerais, 18 de novembro de 2016.

Estimadas e estimados companheiras e companheiros da organização Rusga Libertária,

O Coletivo Mineiro Popular Anarquista, organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, saúda os 10 anos da Rusga Libertária, irmã de coordenação nacional e peleja anarquista na região mato-grossense.

Fundada em 18 de novembro de 2006, propositalmente neste dia para prestar justa homenagem à tentativa de insurreição anarquista realizada no Rio de Janeiro em 1918 (homenagem que endossamos e fazemos questão de ressaltar, a propósito), desde então a Rusga Libertária exerceu papel destacado na consolidação de nossa ideologia em âmbito nacional, vivenciando, construindo e fortalecendo os espaços de construção de nossa militância no país, como o antigo Fórum do Anarquismo Organizado, fundado em 2002, e a atual Coordenação Anarquista Brasileira, fundada em 2012.

Foi resultado dos esforços militantes das e dos companheiros da Rusga Libertária (junto a companheiros gaúchos, cariocas, alagoanos e outros), que o anarquismo especifista se expandiu para todas as regiões do país, de norte ao sul, com organizações anarquistas especifistas consolidadas em 12 estados, sendo o COMPA um exemplo direto disso.

Por sua determinação, por sua história de luta, firmeza, postura e de fazer valer a nossa bandeira nos espaços onde estamos presentes, prestigiamos essa organização irmã com a qual pactuamos as tarefas maiores de construir a nossa organização nacional, de trazer o anarquismo à luz da classe trabalhadora como uma alternativa real de luta e de nova sociedade, e também de fazer a revolução social.

Forte abraço, companheiras e companheiros, não tá morto quem peleia! Seguimos juntas e juntos a enraizar anarquismo em nossas lutas e em nossa classe!

Viva a Rusga Libertária!
Viva a CAB!
Viva o anarquismo!

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Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC) – PR

Saudações do CALC aos dez anos da Rusga Libertária/CAB!

O Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), organização anarquista especifista localizada no estado do Paraná, saúda e comemora uma década de construção da Rusga Libertária em terras mato-grossenses! Compomos desde 2012 a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) em conjunto com a organização-irmã Rusga Libertária e, neste momento, contamos com outras 10 organizações anarquistas especifistas espalhadas pelo Brasil.

Alegramo-nos em saber que os/as companheiros/as mato-grossenses têm se empenhado na tarefa árdua e cotidiana de construção de uma alternativa política frente as burocracias dos movimentos sociais, num contexto estadual em que reina o poderio dos latifundiários da soja e do agronegócio em geral.

Numa conjuntura nacional de lutas cada vez mais acirradas, com destaque neste momento para a luta contra a MP 746 (Reforma do Ensino Médio) e PEC 241 (55) – com direito a muita ação direta (ocupações, atos de rua e mais), é necessário continuarmos a construção de novos referenciais políticos. Somente nessa intensa peleia, com muito esforço organizativo nas escolas, bairros, favelas campos, florestas e locais de trabalho, conseguiremos construir um outro horizonte que rompa com as estruturas do capitalismo, do Estado e de qualquer dominação.

Ao mesmo tempo, passamos por um momento de aumento da repressão e criminalização à pobreza e aos movimentos sociais. Com os marcantes casos de Rafael Braga e da invasão à Escola Nacional Florestan Fernandes, destacando também o contínuo genocídio do povo negro e dos povos originários. Só nos resta a solidariedade entre a classe oprimida para resistirmos e avançarmos.

A cada modesto passo que damos, a cada ano que completamos de luta e organização, ficamos mais fortalecidos. Com muita convicção e firmeza, a partir de raízes históricas bem sólidas, seguimos na construção de uma matriz ideológica anarquista latino-americana, ampliando nossa atuação e amadurecendo nossas organizações.

Continuamos juntos, lado a lado. Partilhamos das mesmas concepções, princípios, estratégias, táticas, leituras da realidade. Nossa convicção e sentimento de pertencimento a algo maior aumenta nossas chances de vitória sobre os vários tipos de dominação. Seguimos construindo uma outra sociedade, fundada em outros valores, uma sociedade de socialismo e liberdade!

Saudações aos/às anarquistas especifistas do Mato Grosso! Seguimos sabendo que só a luta popular decide! Toda força para o nosso projeto de construção de uma sociedade justa e igualitária!

Lutar! Criar Poder Popular!

Viva o Anarquismo no Centro-Oeste!

Viva a Rusga Libertária! Viva a CAB!

CALC, Novembro de 2016.

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Federação Anarquista Cabana (FACA) – PA

Companheiros e companheiras da Rusga Libertária!

A Federação Anarquista Cabana – FACA saúda com grande entusiasmo e profundo respeito o aniversário de 10 anos da Rusga Libertária – CAB. Organização coirmã que tanto inspira nossa prática militante. Falamos isto não como simples palavra ou mero devaneio.  Nossos parabéns se pautam na construção teórica e prática de um socialismo libertário com nossa face. Com a cara negra e índia. Na sua relação profunda com a natureza de nosso continente latino americano e também de nossa grande região Amazônica.

Nossa realidade comum, marcada pela lógica perversa de uma colonialidade do ser, do saber e do poder nos colocou no mesmo campo de batalha. E mais do que isso. Apresentou o grande desafio da construção de um anarquismo militante, inserido e atuante nas lutas de nosso povo. Da grande, emancipada e autônoma Abya Yala até a realidade Centro Oeste brasileiro. Na tarefa de construção da resistência cabocla, negra e indígena contra a escravidão e a invasão de nossas terras.

Nosso espírito cabano, desde as partes mais setentrionais do Brasil, deseja que estes dez anos se multipliquem. Que se ampliem. Que nosso esforço comum de construção de uma organização em nível nacional se efetive e que nossas forças se enraízem onde se tenha uma luta contra a exploração econômica e a opressão de todas as ordens. No alvorecer de um dia onde celebraremos a autodeterminação, a auto-organização e a autogestão material e simbólica do viver. Isto tudo acompanhado de uma solidariedade plena e orgânica.

 Em nossa concepção libertária de socialismo, não existe “lutar para o povo” e sim lutar com o povo, como militantes populares. Justamente por sermos filhas e filhos do povo brasileiro, queremos participar da nossa libertação, caso contrário, não existe luta libertária possível. Não acreditamos em benevolência da classe dominante, por isso, sabemos que a nova sociedade somente nascerá das entranhas da classe trabalhadora. Este é o grande o exemplo e legado que a Rusga nos dá neste seu aniversário.

Hoje, como ontem, a nossa luta é no campo e na cidade, na floresta e no cerrado, na caatinga e nos pampas. A construção de nossa corrente é internacional. Mas, sobretudo, latino americana. Que viva o anarquismo especifista. E que viva a RUSGA LIBERTÁRIA!                                               @ Secretariado da FACA

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Federação Anarquista Gaúcha (FAG) – RS

Desde o sul do Brasil enviamos a toda Rusga Libertária nosso grande abraço de comemoração pelos seus 10 anos de luta. São 10 anos construindo o anarquismo no país. Que todas e todos saibam que nos sentimos parte desta construção, nos sentimos comemorando com vocês também este momento.

É importante que se diga que vivemos momentos difíceis para os de baixo, não que já tenha sido fácil algum dia, mas temos vários desafios à mais nesta infeliz conjuntura de retiradas de direitos e de repressão. Reafirmar nossa convicção libertária está na ordem do dia. Demarcar nosso campo ideológico, dar batalha de ideias, se enraizar mais e mais no trabalho de base são ações compartilhadas entre nós e servem de ânimo para a árdua jornada de luta que não termina amanhã e tampouco começou hoje.

Hoje, dia 18 de Novembro também vamos comemorar nossos 21 anos de FAG, mas o punho erguido e o grito de Arriba los que luchán é para Rusga Libertária!!!

Vida longa a Rusga Libertária!

Vida longa a CAB!

Viva a Anarquia!

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Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) – RJ

Nós, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) saudamos os dez anos de nossa organização-irmã Rusga Libertária (RL), integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) e com presença no estado de Mato Grosso. Nosso país de extensões continentais nos impõe uma tarefa árdua que recebemos com toda dignidade: fincar raízes de luta e rebeldia em todo território brasileiro. Retomar e fazer crescer a influência do anarquismo organizado, modestamente é um trabalho que vem sendo feito por nossa coordenação e com ela, a organização Rusga Libertária, com afinco e determinação.

São 10 anos de luta e construção da proposta anarquista no estado de Mato Grosso, mas a história de resistência é muito mais antiga, o levante do rusguentos, resgatado pela organização especifica local, surgiu de um contexto de indignação dos explorados que responderam com ação direta abrindo caminho para na sequência de outras revoltas como a Farroupilha (RS), Cabanagem (PA), Sabinada (BA), Balaiada (MA) dentre tantos capítulos do poder popular e se mistura com as lutas indígenas tocadas contra a implantação do criminosos Estado-nacional brasileiro. Temos em nossas veias as memórias e as lições de resistência indígena, a luta popular de base e a federação das que lutam cotidianamente contra os desmandos do capital em todas as regiões desse país chamado Brasil. Temos em Rusga Libertária, uma aliada fiel da revolta popular e do anarquismo de nossa corrente.

Organização que se dedicou com afinco na construção anarquista brasileira que tem seu salto qualitativo no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) e depois Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), saudamos os esforços da militância anarquista organizada no estado de Mato Grosso.

Que cresça a revolta e a luta popular! Que cresça a força das e dos de baixo contra os desmandos dos latifundiários e capitalistas!

Viva a Rusga Libertária (RL)!
Viva a Coordenação Anarquista Brasileira!

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Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) – SP

Saudação OASL

É com grande entusiasmo que saudamos e comemoramos os 10 anos de organização da Rusga Libertária, organização que sempre andou ombro a ombro com os de baixo no Estado do Mato Grosso.

Nessa década a Rusga fez parte do bom combate contra as classes dominantes e tem contribuído com modéstia mas decisivamente para o fortalecimento do Anarquismo no Brasil e para a construção do Poder Popular nesse país e no mundo.

Por isso nesse dia tão importante aos anarquistas brasileiros, que não atoa também é aniversário de nossa organização, saudamos esses 10 anos que nossas e nossos companheiros tem dedicado ao socialismo e a liberdade, que venham muitos mais!

Viva a Rusga Libertária!
Viva a Anarquia!
Via a CAB!
Lutar! Criar! Poder Popular!

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Organização Resistência Libertária (ORL) – CE

É com imensa alegria e satisfação que nós da Organização Resistência Libertária [ORL/CE], integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, viemos saudar aos 10 anos da Rusga Libertária. Em Mato Grosso, Estado em que o capitalismo finca as cercas do agronegócio e o Estado impõe os Bandeirantes como identidade colonial, acreditamos na firmeza e na resistência da nossa organização irmã na luta contra o latifúndio, contra o genocídio dos povos originários e do povo preto, contra a precarização da vida urbana e pelo fim da violência contra a mulher, da homofobia e da transfobia. Mais que isso, acreditamos na Rusga Libertária como semente da anarquia no Centro-Oeste do Brasil. Em tempos de avanço do conservadorismo, retrocessos dos direitos sociais e de expansão do projeto neoliberal, ter uma organização irmã resistindo e lutando ombro a ombro desde baixo nos dá fortalecimento para também continuarmos na luta contra o capitalismo e construindo o socialismo libertário. Desde a CAB, marchamos com o preto do luto e o vermelho da luta, contra a dominação supremacista e a exploração sangrenta que atinge o povo oprimido. Viva os 10 anos da Rusga, Viva a organização anarquista cuiabana e uma veia da luta internacionalista!!

Enraizar o Anarquismo no Centro-Oeste do Brasil!!!

Viva a Rusga Libertária!

Viva a Coordenação Anarquista Brasileira!

10 anos Rusga Libertária e 3° Encontro Regional Centro-oeste/Sudeste da CAB
10 anos Rusga Libertária e 3° Encontro Regional Centro-oeste/Sudeste da CAB

[FAG] CARTA DE OPINIÃO. Quando a tragédia e a farsa contracenam no mesmo palco.

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/09/07/carta-de-opiniao-quando-a-tragedia-e-a-farsa-contracenam-no-mesmo-palco/

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Na insólita tarde de 31 de agosto, o senado brasileiro, liderado pelo presidente do STF, foi o palco privilegiado do desfecho de uma briga de poder que terminou selada pelo abraço da tragédia com a farsa.

O voto pelo impeachment é um golpe parlamentar movido pelas lutas de poder das elites dirigentes e classes dominantes. Uma manobra vigarista e reacionária, feita com o ardil das oligarquias políticas, a vigília do judiciário e a neurótica agitação dos oligopólios da comunicação. O voto em separado, esse que desaprovou a cassação dos direitos políticos da presidente, é a combinação entre uma mea culpa diante do cadáver, condolências envergonhadas do PMDB por uma lado, e voto indireto em causa própria, corporativo, de Renan Calheiros e seus comparsas prevenindo o imprevisível futuro.

O PT foi humilhado pela regra dolorosa e implacável dos jogos do poder. O impeachment foi um golpe de força do parlamento burguês, um juízo político ao gosto, cozinhado na panela de pressão do bando reacionário que polarizou as federações patronais, oligopólios da mídia, setores do mais diverso espectro conservador (uma aliança que envolveu de ardentes defensores da escola austríaca, até integralistas e monarquistas), políticos e judiciais e a mobilização das ruas lideradas pela classe média ressentida.

Tragédia de um governo ajoelhado pelas elites dirigentes e setores dominantes que montou sua defesa com as convicções de que fazia em 2015 o maior ajuste da história do país. Assim afirmou eloquentemente Cardoso, advogado da defesa e repetiu a exaustão, ao longo de 13 horas, a presidente Dilma na segunda-feira.

O que foi posto ao plenário do senado, tomando os solenes termos que prendiam o objeto do julgamento, era sobretudo esse odioso ajuste anti-povo que corta na carne dos de baixo. O governo Dilma, o PT e seus aliados quiseram fazer passar sua qualidade de partido do ajuste e da responsabilidade fiscal. Diga-se de passagem, uma lei de arrocho público, neoliberal, dos anos FHC, que faz do governo de turno um gerente autorizado dos interesses rentistas da dívida pública. Portanto, a peça de defesa da presidente era provar, pra além de toda ladainha de pedaladas, decretos de crédito, etc, que fez ajuste e cortou fundo, como reclama o “mercado”. A tarefa fora confiada a um Chicago Boy no ano de 2015, o ministro-banqueiro Joaquim Levy, um eminente aluno disciplinado na usina ideológica do neoliberalismo.

A tragédia para a esquerda não é, como pode parecer simplesmente, a deposição de um governo eleito pelo voto popular e no qual muitos eleitores confiavam a execução de uma política “menos pior” de austeridade ou até mesmo uma hipotética “virada à esquerda”. Não é o golpe de timão por dentro da democracia burguesa que elegeu Dilma Roussef  e o PT o que faz a tragédia. Também passa longe de um hipotético castigo do sistema de dominação sobre os “opositores irredutíveis” que acalentam o sonho de um reformismo por dentro da máquina. O trágico é como um projeto político que foi construído no calor das lutas operárias e populares da transição controlada para a nova república terminou em tal estágio. É como, em outras palavras, a democracia burguesa e as relações de poder que encarnam os aparelhos institucionais, fizeram do PT um partido do ajuste e um sócio da corrupção sistêmica. Não foi debaixo do pau de uma ditadura que se modelou toda uma geração de lutas e esforços, foi por dentro das estruturas, na posição de sujeito partícipe e entusiasta do regime liberal da democracia burguesa.

Resistir ao golpe nos direitos!

Temos que reconhecer que a farsa que teve desfecho neste golpe foi montada em cima dessa trágica história de capitulações, ainda que a “oportunidade” dos vigaristas seja o resultado de uma combinação de fatores. Mas se trata de identificar o como joga forte em tudo isso a crença liberal no “estado de direito” e seus mecanismos de representação como terreno de disputa do movimento dos trabalhadores e das causas populares.

Governar o sistema dominante é, antes de tudo, fazer arranjos com estruturas de poder que não obedecem o voto. Assim ensinam mais uma vez toda a farra do sistema financeiro e das grandes corporações privadas que jogaram o mundo no austericídio desde 2008. A recessão mundial que tocou o país e afoga na crise os setores populares com o ajuste fiscal fez pedaços do pacto social que alçou o PT como gestor do crescimento capitalista brasileiro. E a crise, como sabemos, é um discurso violento da propriedade contra os direitos sociais e os bens comuns, mas também um modo de governo de choque que descarta as técnicas políticas de colaboração de classes, ou do “diálogo” como preferem alguns.

Para as rebeldias que vem de baixo, ao movimento dos trabalhadores e todo o conjunto das classes oprimidas, não há nada para imitar ou repetir da estratégia que está inapelavelmente jogada na vala comum. Com muita intuição deixou avisada a corrente libertária, já nos primeiros ensejos do movimento operário internacional: a frente dos oprimidos deve buscar os elementos de força em si mesma. Construir pedra sobre pedra a sua capacidade política por uma confederação de rebeldias que seja acumulação combativa da democracia das organizações de base, da rede de apoio mútuo das lutas, da ação de classe intransigente contra as estruturas que exploram e oprimem.

O populismo trabalhista de Jango ou o petismo ajustado na Real Politik brasileira são muito persuasivos. A colaboração de classes que fez a cama da reação na ditadura agora o faz em democracia burguesa. Um profundo choque de ordem é planejado desde as salas das federações patronais, salas de redação e corredores palacianos. Aplicar a maior ofensiva contra as relações de trabalho e os bens comuns da últimas décadas é o desejo das hienas conspiradoras, a começar pela reforma da previdência, o congelamento dos gastos público e a liberalização geral da terceirização, fazendo uma transição da gestão da barbárie à barbárie às secas.

Nada disso passa em silêncio. Uma vasta onda de indignação vem varrendo o país contra as medidas de ajuste do governo Temer, encontrando-se e massificando-se nos atos que convocam a saída do presidente e a convocação de novas eleições. Espaço amplo e diverso, essas grandes manifestações em um início tiveram grande intervenção dirigente do petismo, mas com o desfecho de agosto consumam-se como atos onde a revolta já transborda a cadeira de força social-democrata e adquire o devido verniz classista de reconhecer de que do que se trata é de um golpe direcionado à classe, contra seus direitos históricos e suas limitadas liberdades de luta e organização.

Urge a necessidade de seguir massificando e radicalizando as convocações pelo Fora Temer enquanto ofensiva tática para derrotar o ajuste fiscal. Mas isso não basta. Junho resgatou o valor da tática da revolta popular como golpe que esgarça o inimigo em um rápido lampejo de tempo, mas também nos demonstrou que essa tática tem seus limites, a saber, a falta de maior expressão de organizações de base dos de baixo. Seguir na árdua tarefa de reorganizar a classe onde ela vive, estuda e trabalha deve ser o grande horizonte estratégico para fazer frente aos duros tempos que aguardam a nossa classe. É dessa acumulação que forjaremos uma alternativa política. O poder não se toma do monte dos aparelhos de disciplina e controle do sistema dominante. O nosso poder coletivo, o poder popular, se cria pelas relações sociais que gestamos pela luta e organização popular de baixo pra cima.

[FAG] Nota da FAG sobre o vídeo de Jair Bolsonaro, que identifica nossa militância de forma criminalizadora

Nota da FAG sobre o vídeo de Jair Bolsonaro, que identifica nossa militância de forma criminalizadora, exibido no dia 29 de abril de 2016, titulado como “O Brasil precisa saber a verdade”.

(https://www.youtube.com/watch?v=ytstUHk8rg4).

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O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra tem lugar eterno na galeria das grandes infâmias, daquelas que o poder dominante perdoa e deixa impune, mas que a memória dos oprimidos não esquece jamais. O deputado Jair Bolsonaro é penas mais que merece destaque na galeria dos grandes estúpidos. Em mais uma de suas façanhas, em video do dia 29 de abril, depois de cortejar pela milésima vez a política truculenta do milico torturador que atuou a soldo da ditadura civil-militar, passou a exibir imagens de companheiras e companheiros, nomes, suas organizações e a atacá-los indiscriminadamente por associação com o PT. A campanha de atacar a esquerda classista pela vidraça do PT ajustado e jogado na vala comum dos partidos burgueses é evidente. Dessa orquestra não se furtam as organizações patronais, os oligopólios da mídia e a direita liberal que goza de mais aparelho organizativo e expressão eleitoral do que os “palhaços da corte”.

Nós somos uma organização política anarquista que não se envergonha de suas convicções socialistas e que faz solidariedade resoluta com todos/as que lutaram e lutam ainda hoje por liberdade, igualdade e por uma mudança social de fundo. Somos uma corrente libertária que luta contra a sociedade dividida por classes e todas as opressões. Essa marca não nos acovarda. Ainda que com nossas diferenças ideológicas, não somos mesquinhos e sectários para ignorar o valor humano dos homens e mulheres que fizeram resistência à ditadura e entregaram a vida por esta luta. O que queremos afirmar aqui novamente é que o que está em franca decomposição é uma concepção que partiu do reformismo, lavou seu programa para governar e quando tocou sua vez como gestor do capitalismo brasileiro foi rendida pelas relações de poder que dominam as instituições. Isso no mínimo nos diz que as instituições burguesas não são neutras, que não são uma máquina que funcionam ao gosto dos seus pilotos. Pra vencer o sistema dominante as classes oprimidas devem preparar suas organizações de luta separadas da política das oligarquias, como núcleos de democracia de base de um poder popular, articulado de baixo pra cima.

A ultra-direita são as bestas-feras que o sistema põe na cena pública pra latir e acuar os desavisados. Os estúpidos são postos a marchar na frente ladrando com a intolerância facínora para que a norma finalmente possa governar pela dominação das classes de sempre. Jair Bolsonaro, nesse momento da crise política que temos no Brasil, é expressão raivosa e patética de um sistema de poder muito mais complexo que opera nos nossos dias. As estruturas de dominação de um regime de morte dos opositores políticos durante a ditadura foram remanejadas pela democracia liberal burguesa como instituições de punição seletiva sobre a pobreza, vetores de racismo e violência sobre os direitos das mulheres e a livre orientação sexual.

Porque não devemos permitir que mentalidades como a do Bolsonaro se criem.

O discurso de ódio proferido, inúmeras vezes, por este sujeito, que declara homenagens ao coronel torturador e assassino Brilhante Ustra, não pode ficar sem reposta. Estas homenagens causam a todas e todos lutadores sociais, principalmente aos familiares ou vitimas do regime de terror da Ditadura Militar, repulsa, indignação e no mínimo devem ser denunciadas. Não é possível aceitar esta ideologia se espalhando, imbuída de formas e discursos excludentes e discriminatórios. Como organizações políticas e sociais, com intenções revolucionárias, precisamos dar combate ideológico sim, as ideias autoritárias que propaga esta besta. Jair Bolsonaro é símbolo de mais um parasita da fé alheia, que em nome de um Deus defende torturadores, machismos, racismos, intolerâncias das mais diversas origens e o faz publicamente, sem nenhum pudor. A isto se chama “Bolsomito”. São ideias como a do Comissário Jair B. que dão origens a grupos e ações de intolerância, de comportamentos fascitoides. É importante que se diga, que este asno intolerante, defensor das garras de ferro do aparato militar, só ganha visibilidade publica, a partir de uma entrevista feita pela asquerosa revista Veja, onde ele revela planos de explodir dinamites dentro do seu quartel militar, assim sendo, além de ser um imbecil defensor de torturador, o Bolsonaro é mais um dos que ele mesmo acusa, radical, porém é um radical (saudoso) do assassino esquadrão militar. Veja o link(http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/capitao-bolsonaro-a-historia-esquecida/).

Ele tem como seus aliados os grandes empresários, banqueiros, ruralistas e reacionários, como já dissemos antes. No entanto, seu mandato também “surfa” na “onda” Apolítica, gerada pela pilantragem da democracia burguesa, formadora de opiniões, manipuladora das pessoas distanciadas de qualquer analise mais rigorosa do sistema. Como dizemos, em suma, o “senso comum, é as ideias comuns, das classes que dominam. No caso brasileiro em questão, uma parte não menos importante de pessoas, tende a se inclinar para posições mais conservadoras, dependendo inclusive, quase que exclusivamente, para onde soprem os ventos da mídia dominante (neste caso não precisamos nem argumentar muito sobre a cobertura da rede Globo e outros grandes meios (sonegadores), que são fervorosos propagandistas de uma agenda de ajustes, privatizações e criminalização dos movimentos populares.

Esta afronta direitosa, que vem se materializando cada vez mais, é consequência da conjuntura caótica do país , de como se encontra boa parte da esquerda, que estão maneadas por anos de acomodação entre interesses de classes, cooptação, burocracias cristalizadas, ao invés de trabalho de base. O governo do PT, e suas alianças com a oligarquia da política brasileira, conseguiu o “êxito” de acumular mais derrotas do que conquistas para os setores mais desfavorecidos do país. As desigualdades sociais continuam alarmantes, o neo desenvolvimentismo foi a genial alavanca para o fortalecimentos dos grupos tradicionais ou não de direitas. Os mais ricos sempre foram os mais beneficiados, aqui não existe punição aos atores e financiadores da ditadura militar, o PT, este que de esquerda não tem nada, ao contrário do que afirma o estúpido (nunca é demais reafirmar) Bolsonaro, não é vitima do golpismo institucional, ele foi validador com a sua conciliação de classes que gera o que está acontecendo. Mesmo assim, com todos os ventos difíceis que estamos vivendo, temos construído e acompanhado com animo diversas lutas de resistência fora das burocracias sindicais e governistas. Estamos convictos que a saída contra a agenda conservadora de retirada de direitos, vai se forjar desde a base, também pela militância anarquista a nível nacional, em conjunto com todos os grupos que prezem pela independência de classe.

O vídeo do estúpido Bolsonaro, do qual aqui denunciamos a intencionalidade criminalizadora, acusa abusivamente à resistência política e social no Brasil, contra a infame ditadura militar, como “terrorista”. Irônico que estas acusações venham, justo de um sujeito como o Bolsonaro, que foi preso por planejar explosões, na época em que era militar contra o próprio Exército.

Militantes políticos do sul do país, mais precisamente de Porto Alegre, são expostos com seus nomes e suas organizações. Consideramos isso um ataque contra nossa liberdade de associação, ou é crime estar organizado politicamente? Mas, claro que as bestas-feras como Bolsonaro, não cessaram até reconstituir regime de terror no país, porém é importante lembrar este personagem que nossas ideias são à prova de balas, nossos anseios por liberdade não se dobram, que nossas ganas por um mundo mais justo são mais forte que do que suas afrontas. Estamos dispostos a lutar, em conjunto com os demais setores combativos do país, contra qualquer agenda consevadora-fundamentalista.

Não, aqui o fascismo não passará sem luta.

Apesar da forçada tentativa de nos aproximar do PT, este vídeo apenas reafirma que o poder ideológico do sistema quer apontar alvos para expor e combater, neste caso, nossa militância.

Reafirmamos que o petismo ajustado ao poder econômico, sócio da corrupção sistêmica e colaborador dos opressores é encorajador do golpismo e das bestas-feras da ultra direita.
Não se ajusta e nem se dobra quem peleia!

Toda solidariedade aos demais militantes e as suas organizações que foram expostos de forma indevida e condenatória!
Pela memória, verdade e justiça, contra os crimes da Ditadura Militar!
Bolsonaro e a corja de fascistas não Passarão!

Federação Anarquista Gaúcha.
3 de Maio de 2016.

[FAG] Nosso feminismo será classista e de base, ou não será!

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/03/06/nosso-feminismo-sera-classista-e-de-base-ou-nao-sera/

Opinião das mulheres anarquistas da FAG lido na ocasião do Ato Político Anarquista celebrativo ao 8 de março, dia Internacional da mulher trabalhadora.

12745681_1155973071080916_3155340972329807896_nPor ocasião do 8 de Março, data importante para as mulheres de todos os povos do mundo, nós, mulheres da Federação Anarquista Gaúcha, convidamos a todas e todos, no dia de hoje, a se somar nesta modesta, porém convicta opinião de luta contra as mais diversas opressões, especialmente contra as violências que decorrem das ideias machistas e patriarcais. Nossa presente contribuição não pretende ser totalizante nem abarcar toda a diversidade de opressões que sofrem os diferentes grupos dentro do que definimos por “mulher”, porém, uma coisa queremos demarcar: nossa luta e nossa vida se dedica às mulheres do povo, às mulheres oprimidas, pois delas nascemos, delas somos parte e por elas estamos dispostas a viver e morrer. Assim, conscientes de nossa insuficiência, queremos apresentar alguns debates e construções que temos feito na medida em que o protagonismo feminino vem aumentando a cada dia em nossa Organização e em nossas Frentes de Luta.

Sabemos que a situação social e política das mulheres no país é muito dificil, ainda mais para as mulheres pobres e negras das periferias de todo o Brasil. Vivemos momentos de ataques graves à dignidade das mulheres compostos por medidas de leis e questões culturais que reforçam a mentalidade machista de que a mulher é um sujeito social menos respeitável e que sua condição na sociedade ainda é a de ser responsável pelas tarefas domésticas, mão de obra mais barata e um corpo passivel das mais cruéis agressões em nome da “honra” masculina.

Queremos, nas linhas que seguem, trazer alguns apontamentos sobre a condição das mulheres oprimidas, aquelas que são trabalhadoras, desempregadas, negras, indígenas, mulheres do povo. Nesse sentido, esta carta de opinião tem como objetivo fundamental nos impulsionar para uma das mais importantes lutas que precisamos fazer: a luta contra o capitalismo, que tem como elementos estruturantes o Estado, o patriarcado, o racismo e a opressão de classe.

Nossa posição como mulheres anarquistas, que lutamos diariamente contra todas as formas de opressão, vai muito além de um discurso meramente comportamental e ou estético; busca entender que dentro das mais variadas opressões de gênero que existem na sociedade as mulheres de Baixo são mais atingidas pela ação violenta do Estado-patriarcal. Não é por acaso que o maior índice de violências de gênero ocorrem nas periferias e que em termos de acesso a direitos básicos, como educação, saúde, creche, moradia, são as pobres e negras as menos atendidas.

Nossa luta não se resume a demandas por direitos, porém, entendemos essas demandas como uma parte importante de todo um processo de luta, por garantirem, em um primeiro momento, dignidade e autonomia para as oprimidas. No entanto, a luta pela libertação das mulheres é muito maior do que isso. Nesse sentido, é importante pensar desde um ponto de vista que provoque mudanças nas pequenas pequenas coisas, desde a vida diária, no aspecto ideológico-cultural, nas microrrelações, se queremos e nos comprometemos a mudar as coisas de fato. A ideia de que a mulher hoje está em condições de igualdade com o homem continua sendo uma farsa, que mascara toda a violência a que somos submetidas, porque não trabalhamos em condições iguais, não somos educadas a buscar nosso valor; ao contrário, é muito forte o disciplinamento de nossos corpos, por meios institucionais e culturais, para continuarmos sendo as sujeitas-assujeitadas da sociedade, mesmo sendo nós, mulheres, mais da metade da população mundial.

Sobre as politicas contrárias as mulheres e a autonomia de seus corpos

Nos últimos meses, vimos com indignação um fortalecimento de discursos contra as mulheres por parte dos setores fundamentalistas, assim como são ferozmente propostas, dentro dos marcos instituicionais, leis graves que nos atacam vitalmente, além de colaborarem para que o pesamento machista seja mantido e incentivado. Dentro dessas medidas, podemos destacar algumas leis que tramitam e que infelizmente não ganham mais adversários do que nós, as mulheres. São leis como o Estatuto do Nascituro (Projeto de Lei 478/2007), do qual destacamos as atrocidades que o Estatuto propõe: aborto como crime hediondo, em qualquer caso- inclusive em quando apresenta risco de vida para a mulher- bolsa-estupro, entre outros. Por que aprovar uma lei como esta? Para manter o corpo da mulher sob controle, obviamente.

O aborto no Brasil é tratado como um grande tabu e ainda é hegemônica a opinião de que isso é um “crime contra a natureza”, mesmo sabendo que milhares de brasileiras fazem abortos todos os dias. A hipocrisia é a regra do discurso hegemônico, porque sabemos que as que mais morrem por conta de abortos inseguros são mulheres pobres que não encontram outras maneiras, a não ser as mais arriscadas, para fazer este procedimento.

As mulheres das classes médias-altas fazem aborto em clínicas seguras, pagam bem, quando não viajam para outros paises para fazerem em clínicas luxuosas. No entanto o que se coloca nesse debate está para além de um discurso meramente moral: é uma questão de saúde e de garantia de vida para as mulheres pobres! Ou se acredita que é uma decisão fácil fazer um aborto? Para tomar uma decisão como essa, a mulher entende que não pode cuidar de uma vida a mais, por questões econômicas, emocionais, por insegurança, por medo, mas nunca por ousadia ou por esporte. Afinal, se não decidimos sobre nossos corpos, sobre o que mais decidimos mesmo? Mas, com isso, não se pode esquecer que assim como a mulher tem que ter direito para decidir se vai abortar, também deveria ter direito para decidir ter um filho em condições de dignidade, sem  sofrer com a fome, a violencia obstétrica, a violência doméstica dentre tantas outras.

A gravidade do Estatuto do Nascituro está quando afirma que, mesmo que fique grávida do homem que a estuprou, a mulher seja obrigada a ter esta gestação, com “auxílio” de uma “bolsa macabra” de míseros reais por parte do governo…O estupro é um ato de profundo desrespeito à moral e ao corpo da mulher. É uma arma de terror. O estupro é o mecanismo mais vil e covarde que o homem encontra pra provar sua força e poder sobre as mulheres e é terrivel pensar que o RS seja um dos estados que mais tem os maiores índices de estupro no país. O limite entre os assédios de rua até o estupro é muito tênue e é inaceitável as hipócritas justificativas que não justificam nada:  “roupas inadequadas”, “sozinha em espaços públicos”, “se a mulher bebeu é porque quer ser abusada”, “se ela está com raiva é porque falta um pênís”, etc…

No Brasil, 850 mil mulheres abortam por ano e a cada dois dias uma mulher pobre morre por aborto clandestino. De acordo com algumas pesquisas, mais de 8,7 milhões de brasileiras com idade entre 18 e 49 anos já fizeram ao menos um aborto na vida. Destes, 1,1 milhão de abortos foram provocados. No Brasil o aborto tem cor e renda sim. No Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes maior que o de mulheres com superior completo (5%).

O mapa de terror contra as mulheres no Brasil chamado Feminicidio

A violência contras as mulheres é corriqueira e aceita como um costume, já que o homem tem, moralmente, um status social mais importante que a mulher. As agressões contra as mulheres deixam rastros de sangue, medos e traumas desde de sempre, em meninas, jovens e mulheres das mais diferentes idades. Os abusos contra crianças não estão deslocados desta engenharia machista, de domínio em relação ao sexo feminino e à infância. O Brasil é o 5° país no mundo que mais mata mulheres, 3 a cada 5 mulheres declara já ter sido agredida, mais de 50% dos casos acontecem dentro de casa, 70% dos casos de violências cometidos contra mulheres acontecem semanalmente, mais de 70% destes casos é cometido pelo “parceiro” ou “ex parceiro”. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos de mulheres registrados no Brasil – ou seja, aproximadamente 13 homicídios femininos diários. Esses dados indicam que, diariamente, vivemos uma guerra civil contras as mulheres brasileiras.

Racismo e violência: homicídio de negras aumenta 54% em 10 anos

A taxa de assassinatos de mulheres negras no Brasil aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. As mulheres negras são mais de 60% das vítimas de feminicídio, exatamente porque não contam com assistência adequada e estão mais vulneráveis aos abusos das próprias autoridades.Isso só comprova que as mulheres negras entre as demais são as que mais sofrem com a gravidade da violência machista, por conta de uma sociedade com fortes rasgos racistas e preconceituosos.

O problema do racismo na nossa sociedade afeta as mulheres negras das mais variadas formas, porque também o genocídio da juventude negra é sofrimento direto para milhares de mães negras. Não é à  toa que as filas de hospitais e de presídios estão cheias delas, pois seus filhos, irmãos, sobrinhos, enfim, são os mais vulneráveis à violência policial, não importando se estão ou não envolvidos em algum ato ilícito. Só o fato de serem negros, jovens e pobres já os coloca na linha de tiro diariamente.

No mundo do trabalho, são as negras as mais marginalizadas, e também no ensino superior, no acesso à saúde e  à moradia digna. O racismo e o machismo são elementos estruturantes na sociedade brasileira, são elementos de coerção e desigualdades que precisam urgentemente acabar!

O Feminismo vem, ao longo das décadas, tentando englobar todas as mulheres em uma única característica em comum: o gênero. Porém, ao supor que todas passam pelos mesmos problemas e desejam as mesmas coisas, o Feminismo que não enxerga as especificidades de cada grupo feminino acaba atuando sob omissão, muitas vezes deliberada. As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo.

A luta das feministas negras é uma batalha contínua. Isso, por si, levanta a importante reflexão sobre a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com outros indivíduos do seu próprio gênero.

Em 2013, a PEC 66 foi aprovada, transformando em lei a reivindicação de empregadas domésticas, que há décadas lutavam por direitos trabalhistas. Não por acaso, as mulheres negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%). Porém, a realidade ainda permanece distante do desejado. As funcionárias que exigem seus direitos muitas vezes acabam despedidas e, sob ameaças e assédio moral, é difícil efetivar a conquista.

Com relação ao aborto, as mulheres negras também integram a parcela de maiores vítimas da ilegalidade. Por causa das complicações geradas por abortos clandestinos, as mulheres negras morrem em números altíssimos e também estão mais vulneráveis ao indiciamento criminal, caso sobrevivam.

A violência obstétrica também é um marco na vida das mães negras e pobres. Negligenciadas nas filas do SUS, elas são colocadas em segundo plano para que mulheres brancas – consideradas mais frágeis e sensíveis – sejam priorizadas, independente da ordem de chegada.

Resumir pautas e fazer reivindicações genéricas ainda é um vício dos movimentos sociais. Nos posicionamos contrárias à homogeinização das lutas, pois a diversidade e a heterogeneidade de sujeitos das classes oprimidas é capaz de produzir muito mais união e potencial de transformação. Reconhecendo e respeitando as diferenças e características subjetivas das mulheres do povo, é possível contemplar as necessidades urgentes de cada categoria. A diversidade sexual, as variáveis nas identidades de gênero, de trabalho, de moradia, de urbano x rural x floresta, de escolaridade, de raça e etnia, entre outras especificidades que compõe o espectro das classes oprimidas estão se transformando em abordagens prioritárias que exigem conscientização imediata.

O caminho para as conquitas por parte das mulheres de Baixo será com organização de base ou não será

Somos anarquistas especifistas e por isso entendemos a necessidade de estarmos organizadas para poder lutar contra o patrão, Estado e também contras as demais opressões. Sem organização de base, democracia direta e  com trabalho continuo não teremos êxitos nas nossas peleias. Precisamos estar enraizadas no terreno fértil das lutas sociais, semeando organização e rebeldia.

O feminismo, do nosso ponto de vista, tem que abandonar os debates isolados dentro das universidades, dos divisionismos conceituais, que acabam por fazer discurso apenas no aspecto comportamental, sem colocar a questão de classe como um dos elemntos que caminha junto na luta das mulheres. Nós também entendemos que a luta das mulheres tem que estar alinhada a uma estratégia classista, sem colaboração com os governos e ações de Estado. O Estado nunca foi, não é e nunca será aliado das mulheres oprimidas; o Estado-Patriarcal é nosso maior inimigo ideológico, por isso que a luta das mulheres tem que estar fortemente organizada fora das estruturas governamentais e submersa nas diferentes esferas da vida das pessoas, nas suas comunidades, locais de trabalho e estudo, buscando alternativas a curto e longo prazo para a auto-organização das mulheres. Isso implica também em pensarmos a nossa autodefesa, assim como de nossas comunidades que sofrem diariamente pela violência de Estado. Também é importante estarmos unidas para as lutas mais imediatas que são fundamentais para as mulheres do povo, como a questão das creches, acesso à saúde, trabalho, estudo. Isso tudo construído em uma marco estratégico maior, de construção de poder popular, de baixo para cima, que lute pelas mudanças do “hoje e do amanhã”. Convocamos as mulheres oprimidas à sua auto organização, sem abandonar os movimentos mistos, lutando ombro a ombro, com os companheiros que são convictos de que a mudança desta sociedade precisa levar a liberdade da mulher a sério e dentro de um marco programático. Nosso feminismo será classista e de base ou não será!

O exemplo das mulheres de Curdas e os desafios da solidariedade internacional

Uma revolução social está em marcha no Curdistão e coloca no cerne da questão política o protagonismo das mulheres, com o lema “se as mulheres não forem livres, a sociedade também não será” caminha a causa do Confederalismo Democrático. A luta das mulheres Curdas hoje também nos inspira, não só por defender o protagonismo das mulheres, mas por pensar uma revolução social e um novo projeto de sociedade de baixo para cima, construindo, apesar da guerra, uma radical democracia de base e solidariedade entre os povos oprimidos daquela região. Hoje, mais do que nunca, são as mulheres curdas que combatem o pensamento autoritário, assassino e patriarcal do Estado Islâmico e o genocídio que promove o Estado Turco. Porém, mais do que pegar em armas, as companheiras do Curdistão estão armadas de ideias: ideias de liberdade, solidariedade e de transformação radical da sociedade. Mais do que inspiração, são exemplos de que a mudança é possível em meio ao caos do sistema capitalista e patriarcal. Vibramos a cada conquista dos povos em luta no Curdistão, nossa solidariedade é mais do que palavra escrita. Também somos daquelas e daqueles que não confiam nem um pouco em revoluções que adorem o Estado, por isso, as companheiras Curdas, assim como seu povo, tem um lugar especial no coração e na estratégia política das e dos anarquistas.

“É aqui e agora que a construção de um novo homem e uma nova mulher se faz necessário, não só para pensar o futuro, mas para transformar o importante presente de resistência, pois aí sim o futuro diferente será. Com as mais difíceis mudanças, que são aquelas que fazemos dentro de cada uma e de cada um de nós… Esta é a prefiguração dos valores Anarquistas e de uma sociedade livre da qual estamos dispostas a lutar até o fim. Não o nosso fim, mas o fim deste injusto e terrível sistema! Não é só por nós, é por aquelas que já se foram e por todas as que virão e que continuarão a luta depois de nós.”

Em memória de todas as lutadoras, em memória de Berta Cácere, militante indígena de Honduras assassinada por ter coragem de lutar!

MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS!!!

MULHER, TE ORGANIZA E LUTA!

[FAG] As frentes, a unidade e os anarquistas

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/01/11/as-frentes-a-unidade-e-os-anarquistas/

Por Neto (militante da Federação Anarquista Gaúcha)
Janeiro de 2016

womenworkersMuito se fala sobre as opções disponíveis para que o conjunto da esquerda de intenção revolucionária, ou mesmo a de intenção reformista, possa contribuir de uma maneira mais efetiva na criação de uma conjuntura mais favorável para o enfrentamento das classes oprimidas à retirada de direitos, intensificação da criminalização ao protesto e a pobreza, aumento do custo de vida e ao sucateamento dos serviços públicos que os de cima vêm colocando sobre nossas costas.

Enquanto anarquistas organizados politicamente e nos reconhecendo como parte de uma esquerda de intenção revolucionária que toma como trincheira de luta o interior dos movimentos sociais, sindicais, estudantis e populares – desde baixo e à esquerda – gostaríamos de compartilhar a nossa opinião sobre algumas dessas opções e o que consideramos como alternativas a esse contexto de ofensiva dos de cima e resistência dos de baixo.

A importância da unidade

A matriz socialista da qual extraímos muitos ensinamentos em mais de 100 anos de luta e organização e dentro da qual nos forjamos como corrente libertária e anti-autoritária, ainda no âmbito dos debates e polêmicas da 1º Internacional dos Trabalhadores, muito tem a dizer sobre o valor e a importância da unidade. Muita polêmica e propaganda foram feitas por centenas de militantes anarquistas na defesa de idéias e práticas caras à nossa concepção organizativa, ética e política. É certo que houve um esforço sistemático de nossos adversários e inimigos (de esquerda e de direita) para encobrir esse pedaço da história do socialismo e que, conseqüentemente, o teor dessas polêmicas seja amplamente desconhecido pela maioria da militância da esquerda. Mas o esforço sistemático da geração de anarquistas dos anos 80, 90 e 2000 em retomar a inserção social, a organização política e a crítica anarquista das relações de poder e dominação, está ai para desmistificar e acabar com a ignorância com relação a nossa ideologia.

asambleaA unidade foi e continua sendo de extrema importância para nós. Mas qual unidade? Que unidade precisamos no atual contexto e, que unidade é condição imprescindível para avançar estrategicamente? A nosso ver, unidade de baixo pra cima, materializada na articulação entre instâncias organizativas e de mobilização de base. Unidade que se expresse em um programa mínimo de reivindicações e que tenha como projeção lutas reivindicativas concretas. Mas e o lugar dos partidos (não eleitorais) nessa unidade? Em segundo plano e como minorias ativas, como impulsores e motores dessa unidade. Alguns poderão dizer que isso não está no horizonte das possibilidades imediatas. A estes respondemos que sim, sabemos que estamos falando de um horizonte estratégico. Mas como a esquerda parece estar desacostumada a colocar horizontes estratégicos naquilo que faz!

Mas para nós esse horizonte é condição para sairmos do lamaçal em que nos encontramos. De imediato, apostamos num esforço de criação de espaços de articulação inter e multisetoriais a partir dos locais em que temos inserção. Pois é essa experiência de organização por local de trabalho, estudo e moradia – não apenas a mobilização – que será pedagógica no sentido da politização, da construção de uma alternativa concreta que escape da armadilha do dirigentismo vanguardista, das esperanças em governos de turno e das burocracias que emperram sistematicamente a disposição pra luta.

As frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular

poder-popular-mulherSeria possível dizer que as frentes Povo Sem Medo e a Brasil Popular são embriões desse espaço de unidade desde a base a que nos referimos anteriormente? Do nosso ponto de vista elas projetam publicamente a fauna partidária da esquerda mais ou menos eleitoral, seus métodos de ação e estilo militante e, portanto, não.

Enquanto militantes organizados, não temos e não tivemos problemas em nos colocar junto e ao lado nos processos de luta (em unidade) com diversos partidos e organizações políticas que participam de ambas construções. Mas o fizemos a partir de outros critérios. O sectarismo não faz parte da nossa concepção, assim como não faz parte a ideia de partido único, de vanguarda auto-esclarecida e de construção de uma ditadura, seja ela burguesa ou proletária.

Achamos que os partidos e organizações ideológicas, assim como as organizações político-sociais, possuem um lugar importante no interior das lutas. Por isso nos organizamos politicamente enquanto anarquistas e tomamos o lugar que nos corresponde. No entanto, entendemos que a unidade permitida pelas duas frentes não dá conta dos esforços que precisam ser despendidos pra criar participação e organização de base, pois esta é uma unidade por cima, entre dirigentes, entre a “vanguarda”, e que não é capaz de produzir ideologia de transformação, de confiança nas próprias forças das classes oprimidas.

São frentes que reproduzem os mesmos vícios que as direções sindicais – conscientemente ou não – acabam reproduzindo no cotidiano das lutas sindicais, estudantis e populares. A prática consequente e necessária para impulsionar a unidade entre os de baixo e a partir de suas iniciativas, inclusive para construir sólidas alianças políticas que ampliam o escopo de ação nesse sentido, acaba ficando em segundo plano. Tudo em nome de uma conjuntura que em boa medida se gestou pelo “deixa pra depois” no que toca a participação organizada, independente e autônoma das classes oprimidas no terreno político que lhes é próprio: a rua, o bairro, a fábrica, a escola, o campo e a floresta. Tudo em nome da política como a disputa no parlamento, feita por profissionais, seja com vistas a administrar ou a tomar o Estado. Tudo em nome do “meu programa é mais revolucionário que o seu”, enquanto os diretamente atingidos pelos ataques dos de cima sequer opinam sobre qual o programa deve ser construído e levantado.

É por isso que escolhemos o nosso caminho e apostamos em uma construção tático-estratégica que construa Poder Popular. Certamente estaremos ombro a ombro nas peleias com uma centena de companheiros e companheiras que escolhem outros meios que não os nossos e, assim como nós, não podem ser acusados de sectarismo. Que os diversos esforços possam confluir para forjar povo forte e que a correlação de forças muda ao nosso favor. Mas para isso estamos certos que não há atalhos e caminhos curtos.

[FAG] Carta de opinião da FAG | A saída não vem de cima!

Retirado de:                                                                                                                https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2015/12/17/carta-de-opiniao-da-fag-a-saida-nao-vem-de-cima/

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A situação política e econômica do país encontra-se num momento delicado. A aceitação do pedido de Impeachment contra Dilma Rousseff (PT) por parte do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) abre margem para diferentes e divergentes posições. A polarização entre os que defendem o governo Dilma Rousseff e os que defendem seu Impeachment precisa ser questionada. E seu questionamento deve ser feito através da afirmação e da construção de uma saída alternativa, de uma terceira posição, própria e característica dos de baixo, daqueles e daquelas que independente do desenrolar dos fatos, terão seus direitos sociais, suas condições de trabalho e a dignidade de suas vidas destroçadas e dificultadas ainda mais.

A saída não vem de cima!

Desde a eleição de Dilma Rousseff à presidência da república, e mesmo antes, as classes oprimidas vêm sofrendo duras penas com a retirada de direitos trabalhistas, ajuste fiscal que corta verbas da saúde e educação e com projetos de austeridade que encarecem o custo de vida. Tudo ao contrário do que prometia Dilma em sua campanha eleitoral. Na verdade, Dilma se elegeu com margem apertada com o verso de que não tocaria nos direitos dos trabalhadores. Imediatamente aplica as receitas de ajuste fiscal defendidas pelo seu adversário Aécio Neves (PSDB). Um verdadeiro estelionato eleitoral que indica, mais uma vez, o caráter nefasto da democracia representativa burguesa e a falsa representação dos interesses populares.

Mas os setores da direita na oposição, representantes diretos das ideias conservadoras e neoliberais de pura cepa, não contentes com o modo petista-peemedebista de governar (através do pacto de classes que dá pouco aos pobres para dar muito aos ricos)  decidiram que é hora de governar diretamente, descartando de uma vez por todas o PT junto com o verniz social e popular que lhe é atribuído. Na visão de uma fração das classes dominantes, o PT já não serve a seus interesses, mesmo que essa seja uma reclamação de barriga cheia já que em mais de 12 anos de governo Petista lucraram e se privilegiaram como nunca.

Essa briga de cachorro grande, de vizinhos de um mesmo condomínio é, assim, uma luta feroz entre as elites dirigentes pela máquina do poder político para aprofundar ainda mais os ataques aos direitos dos de baixo que já vem pela mão do PT. Não se trata de luta de classes, em que os interesses dos trabalhadores são defendidos contra os interesses dos patrões. Essa polarização entre “impeachment e governo” não representa os nossos interesses enquanto oprimidas/os. A luta de classes não vai sair de cena para deixar lugar a essa falsa polarização.

A guerra de nervos do impeachment e a democracia que deve ser defendida

As investigações das várias operações em curso (Zelotes, Lava Jato, etc.) indicam o que há tempos nós anarquistas da FAG procuramos afimar: a corrupção é algo estrutural e sistêmico que atinge a todos, entre partidos da ordem, bancos, empresários e patronais. Aliado a essa corrupção sistêmica, se encontra um modo suprapartidário de governar que não toca nos privilégios das oligarquias, no poder dos grupos econômicos e financeiros e no regime ideológico das práticas institucionais. Quem governa pelo sistema, pelo sistema é governado! Nesse sistema, todos são sócios na corrupção e na impunidade. Uma mão lava a outra. Todos têm sua vez. Quem não pactua com esse esquema não governa.

É nesses termos que encaramos o corrupto Eduardo Cunha (PMDB), investigado por corrupção e lavagem de dinheiro, assim como encaramos os corruptos de todos os partidos da ordem em conluio com os patrões e os banqueiros.

Portanto, a democracia que aí está, não foi criada para garantir os interesses e as vontades do povo. Seu funcionamento expressa muito bem isso em cada estelionato eleitoral, em cada manobra regimental, em cada lobby patronal, no racismo institucional cotidiano que condena sem julgamento a juventude negra das periferias, nos conchavos de toda ordem, nas redes subterrâneas que roubam e desviam recursos públicos e em cada fuzil que diariamente extermina o povo negro e indígena em todo o Brasil. A lista não termina aqui.

O impeachment é, portanto, uma carta a mais no jogo que vai mudar algumas peças para manter tudo como está. Pois as regras do jogo não vão ser alteradas e o Estado Democrático de Direito, que é mais de direito para alguns do que pra todos, vai continuar reproduzindo privilégios e práticas que excluem os oprimidos de toda e qualquer decisão fundamental sobre nossas vidas. Pois o núcleo duro da dominação capitalista continuará intacto. Porque os mais de 13 anos de governo “progressista” não representaram a vontade de mudanças estruturais e sim uma variável de administração, um modo de operar a máquina que ao final não põe em causa as suas engrenagens, não questionam as suas regras de funcionamento.

A democracia que deve ser defendida nesse momento, na nossa visão, é a democracia direta e de base dos lutadores sociais, das assembléias populares, dos conselhos e plebiscitos na vida pública, nas ocupações de escola e nas lutas sociais que defendem direitos e que na prática exercitam um modo próprio de gerir seus interesses, de tomar decisões sobre os assuntos que nos afetam diretamente, de fazer política desde baixo enquanto povo oprimido. Será pela luta popular e sem recuar um centímetro que defenderemos os direitos sociais e as liberdades de reunião, associação e de manifestação, buscando ampliá-las e aprofundá-las para além da ilusão oferecida pela democracia representativa. Não cederemos um passo para a judicialização da política pois queremos um Povo Forte que faça da política a gestão direta dos bens comuns.

O que fazer então nesse momento?

Nós anarquistas da FAG nos posicionamos por uma terceira posição que afirma a independência de classe dos trabalhadores contra o ajuste econômico, a democracia direta e de base em oposição ao sistema corrupto da representação da política burguesa e a generalização das lutas pelas ruas, greves e ocupações fora dos controles burocráticos e dos cálculos eleitoreiros. Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

ocupaA ocupação das escolas estaduais pelos estudantes secundaristas em São Paulo contra o projeto de reorganização escolar que fez recuar o governo Geraldo Alckmin (PSDB) suspendendo a reforma que previa o fechamento de 94 escolas é para nós um exemplo do que deve ser feito nesse momento. Talvez seja, depois das reduções das tarifas de ônibus que provocaram as jornadas de junho de 2013, a maior conquista da luta social contra o ajuste nesta conjuntura. Uma conquista parcial certamente, mas que gerou moral rebelde de peleia, calçada em outras práticas, que produz outros sentidos e que não se deixa capturar pela polarização das elites. Não há saída no curto prazo que passe por fora da luta direta dos oprimidos. Buscar atalhos nesse momento é cair novamente na armadilha do pragmatismo que não vai levar a lugar nenhum. A saída não vem de cima, da política feita por profissionais, mas deve vir de baixo, da política feita com ação direta e democracia de base por parte de todas as classes oprimidas.

 Outra ideologia, outra cultura política, que faça caminho pra nova geração de lutas rebeldes que defende seu trabalho, território, direitos sociais, saúde, educação e radicaliza a democracia pela auto-organização. Que não joga mais sua sorte e suas esperanças no esquema trapaceiro dos partidos da ordem e semeia núcleos de poder popular como fatores de resistência.

A radicalidade de uma alternativa está no plano das práticas e a produção de força social de uma resistência combativa vem de baixo, dos lugares vitais do cotidiano de trabalho, estudo e comunidade. A unidade que pode forjar uma terceira posição tem que pulsar dessas dinâmicas e da união dos organismos de democracia de base das classes oprimidas. Para nós, estes são os fatores que podem mudar a correlação de forçar nessa etapa.

Por uma terceira posição: independência de classe e unidade pelas lutas!

Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

Democracia direta e de base com Assembléias, Conselhos e Plebiscistos na vida pública!

 Generalizar as lutas para mudar a correlação de forças!

 Federação Anarquista Gaúcha – FAG

[FAG] A saída não vem de cima! Nem com o bando reacionário do impeachment, nem com o governo do PT e o ajuste que castiga o povo!

Retirado de: http://anarquismo.noblogs.org/?p=384

opinião

Federação Anarquista Gaúcha (FAG)
Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)
Dezembro de 2015

Frente a esse cenário de luta feroz das elites dirigentes pela máquina do poder político e o rebento das idéias liberais e conservadoras na sociedade, nossa atitude é a de ir por uma terceira posição. Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

A luta de classes não cederá a cena para o jogo de uma polarização que não representa os interesses dos setores oprimidos. Mas digamos em posição de alerta e com palavras muito francas, que o decisivo, o fator de resistência desta etapa que pode mudar a correlação de forças não é a “mágica” dos acordos de cúpula de partidos de esquerda e aparelhos sindicais da oposição. O verbo radical que concorre no alto de um carro de som e grita mais alto não dobra nenhum poder. É um rito inútil e cada vez mais rechaçado. A radicalidade de uma alternativa está no plano das práticas e a produção de força social de uma resistência combativa vem de baixo, dos lugares vitais do cotidiano de trabalho, estudo e comunidade. A unidade que pode forjar uma terceira posição tem que pulsar dessas dinâmicas e da união dos organismos de democracia de base das classes oprimidas.

 É hora de reafirmar a independência de classe dos trabalhadores contra o ajuste econômico; É hora de se opor ao sistema corrupto de representação da política burguesa com a democracia direta e de base das assembléias populares, conselhos e plebiscitos na vida pública; É hora de generalizar a luta pelas ruas, greves e ocupações fora dos controles burocráticos e dos cálculos eleitoreiros.

Outra ideologia, outra cultura política, que faça caminho pra nova geração de lutas rebeldes que defende seu trabalho, território, direitos sociais, saúde, educação e radicaliza a democracia pela auto-organização. Que não joga mais sua sorte e suas esperanças no esquema trapaceiro dos partidos da ordem e semeia núcleos de poder popular como fatores de resistência.

Antes da conjuntura instalada pela guerra de nervos do impeachment no congresso, nossa organização política já vinha posicionando idéias e leituras sobre a evolução da crise e apontando as táticas para atuar no processo social-político que vive o país. Achamos oportuno trazer para o debate e o conhecimento de nossos leitores e simpatizantes uma seleção com recortes deste material de análise.

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Eleições nacionais 2014

(…) nós não fazemos vista grossa com o que tem de específico e singular os candidatos e os partidos da democracia burguesa. Mas a rigor está fora do panorama das eleições presidenciais um projeto reformista, por esquerda, no sentido clássico. O que pode ser captado são variáveis de administração, modos de operar a máquina que ao final não põem em causa as suas engrenagens, não questionam as suas regras de funcionamento.

Os governos Tucanos foram a mão pesada do neoliberalismo no Brasil. Dirigiram o ingresso violento do país nos circuitos ideológicos e econômicos do mercado capitalista globalizado. Privatizações de bens públicos, arrocho salarial, recorte de direitos sociais, desemprego de massas e desmonte dos serviços públicos foram os seus expedientes. Em que pese toda rejeição popular suscitada a direita logrou impor no fundamental os seus estabilizadores da ordem. O que se chama pelo nome de estabilidade econômica é, antes de tudo, a produção de um consenso conservador que tomou de assalto o discurso político e fez recuar posições de esquerda até o ponto de fazer o seu setor majoritário renunciar as pautas mais caras da classe trabalhadora e se integrar ao poder como uma peça funcional.

O PT governista, a escalada do Partido dos Trabalhadores no parlamento e finalmente no governo central é uma história de capitulação ao sistema. Que não começa quando o Lula chega Lá. Toma definições no curso de um processo que faz da política parlamentar e da carreira burocrática-institucional a sua escada. Que se consuma em 2002, com a declaração de fé da “carta ao povo brasileiro” feita ao pé da bandeira da ordem e do progresso capitalista.

Este período recente de 12 anos tem elementos de distinção com o que vinha dando os dois mandatos do governo FHC. O PT cria governabilidade com uma política de alianças que atrai e divide setores oligárquicos da direita. Foi empurrado pra vala comum dos conchavos, lobis, propinas, caixa dois entre tantos esquemas de desvios de verbas públicas e favorecimentos de negócios privados. Na sociedade faz um arranjo de pacto social que faz chegar mecanismos de governo sobre as duas pontas da estrutura de classes. Faz política de crescimento dos ganhos do sistema financeiro e dos grandes capitais e ao lado disso atende com programas sociais os mais pobres que estavam desassistidos de políticas públicas, faz inclusão de mercado dos setores populares. Está fora de causa o combate as estruturas de concentração da riqueza e do poder. Medidas que atuem nessa direção, taxação das grandes fortunas, redução da jornada de trabalho sem perdas salariais, etc…

O governismo petista conduz ideologicamente a um desarme do projeto independente, das organizações e lutas das classes oprimidas. Quebra a unidade de classe e planta confusão, ambições e valores que formam um perfil técnico-burocrático absolutamente estranho aos valores militantes da esquerda de intenção revolucionária. Faz do sindicalismo oficialista aparelhos de transmissão da vontade do governo e cogestores de fundos de pensão.

Recessão, carestia e ajuste econômico

Depois de ganhar as eleições por um fio, o governo Dilma desmonta a tática de marketing por esquerda (pra não perder eleitores desiludidos), e chama os quadros do sistema financeiro, da patronal e do agronegócio para afiar a faca do ajuste fiscal e do tarifaço contra o povo.

A promessa do capitalismo brasileiro, que vinha crescendo pela mão de uma desapropriação violenta dos bens comuns, pela dominação dos capitais do agronegócio, mineradoras e empreiteiras, quebra a cara com a queda do preço das “commodities” e da desaceleração do capitalismo chinês. As idéias triunfalistas de um país de classe média, puxado pelo consumo e o endividamento de massas, pelos empregos precários e a inclusão dos pobres, como sujeito flexível do mercado mostram sua fragilidade e já entram em desencanto em amplas camadas de trabalhadores do país.

A classe operária vive de novo as demissões na indústria e na construção civil. Só no ramo de autopeças a patronal prega mais uma chantagem, exigindo infinitos incentivos fiscais e flexibilização de direitos, ameaçando em caso contrário com 30 mil demissões ao longo do ano. A falta de água e luz cria calamidade nas periferias urbanas e o preço das contas de energia, da alimentação e dos serviços aumentam mais que a renda dos trabalhadores. A mudança de regras do seguro-desemprego e o acesso a benefícios previdenciários cortam direitos e colocam sobretudo uma classe trabalhadora jovem e localizada em empregos precários (terceirizações, telemarketing, construção) em uma situação de maior vulnerabilidade e risco. Agora as patronais sanguessugas podem demitir hoje e recontratar amanhã para se livrar dos encargos e assim engordar ainda mais seus lucros.

Os impostos castigam o consumo dos setores populares e médios, enquanto aliviam os ricos, donos de empresas e grandes fortunas. Em contrapartida a saúde e a educação pública seguem sucateadas, o transporte coletivo é péssimo, a justiça criminaliza a pobreza e a polícia é racista e mortal nas vilas, favelas e subúrbios.

Os precarizados, a massa dos trabalhadores brasileiros, alçados como modelo do regime de trabalho flexível e super-explorador, sujeitos de uma rotina de pesados sacrifícios, dão sinais de cansaço e irritação.

A patronal, não satisfeita com os inúmeros incentivos vindos dos governos, quer mais trabalho precário e pressiona o governo pela lei de terceirizações.

 Petrolão, HSBC, sonegadores. Sistema corrupto e criminal.

A operação Lava Jato da Polícia Federal trouxe à superfície um esquema bilionário de saque e espoliação dos recursos da Petrobrás, um trapaceiro “toma lá da cá”, operado por políticos e empresários pra financiar campanhas eleitorais e privilegiar negócios privados. No entanto, nem só de “Lava Jato” e “Petrolão” se alimenta esse artifício estrutural na política brasileira, a corrupção. Recentemente, o chamado    “escândalo” do HSBC tem revelado uma complexa rede internacional de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal em paraísos fiscais na Suíça, administrados pelo próprio banco. Entre os implicados brasileiros encontramos os principais conglomerados de comunicação, como a rede globo, bandeirantes, o grupo folha e abril. Daí que esse caso não é motivo de alarde nos chantagistas telejornais de grande audiência.

A Lava Jato não faz nenhuma descoberta extraordinária. Ela volta a pôr em evidência ummodo suprapartidário de governar que não toca nos privilégios das oligarquias, no poder dos grupos econômicos e financeiros e no regime ideológico das práticas institucionais. Trata-se de corrupção sistêmica. Quem governa com o sistema, pelo sistema é governado, já dissemos outra vez.

Os partidos, os políticos, as burocracias, as empreiteiras, os bancos e os lobistas corporativos são todos sócios na corrupção e na impunidade. Uma mão lava a outra. Todos tem seu turno. Quem não pactua não governa.

Na concepção liberal burguesa, a representação sempre foi um mecanismo legitimador da usurpação das forças coletivas e dos bens comuns pela vontade das minorias. Por isso que para defender a Petrobras e o patrimônio público a luta dos trabalhadores e do povo deve superar o controle burocrático estatal. Tem que ser uma luta para avançar na gestão direta do patrimônio público, pela mão das organizações operárias e populares.

Direita, governismo e reação.

O agravante desse escândalo é que o PT, do mensalão de 2005 somado ao trambique com as empreiteiras na Petrobras, se afunda de vez na vala comum da política burguesa. (…)um PT domesticado pelo poder conservador das instituições e que cultiva entre os seus aliados, funcionários e políticos de carreira, um patrimônio formado pelos valores, as técnicas, os discursos e a bagagem ideológico-cultural da direita, daqueles que tomam o lado das injustiças e desigualdades da ordem burguesa.

O governismo vive os piores dias na sua carreira de partido da ordem. Enquanto o PT evolui na direção do centro e da direita, governa entre tropeços e come na mão das oligarquias. Outro setor da direita, de partidos como o PSDB e DEM que figuram como oposição, pra não perder o bonde, se reagrupam e fazem barulho aliados com as posições mais conservadoras e ultra-reacionárias.

Os grupos monopolistas que controlam a mídia, em que pese terem sido favorecidos por verbas publicitárias, desonerações fiscais pelo governo e vista grossa pelas suas diversas sonegações fiscais, engrossam o caldo do oportunismo. Por um lado empurra as “verdades” da direita, travestidas de um discurso econômico “técnico” e pretensamente objetivo que defende a fatalidade do ajuste fiscal. Por outro, surfa no discurso da corrupção para quebrar a moral de toda esquerda classista pela vidraça do PT.

O antipetismo se manifestou massivamente nas ruas de todo o país (…) Convocado por grupos da direita, partidos e formações liberais-conservadoras, as grandes mídias e seus “intelectuais”, setores evangélicos fundamentalistas e a fuzilaria ultra-reacionária de saudosistas do golpe de 64. Por sua vez, essa convocatória também foi capaz de sensibilizar parte expressiva dos trabalhadores, justamente indignados com os intermináveis casos de corrupção, pela estafante vida nas grandes cidades e o aumento no custo de vida. Hoje estes setores da direita já ensaiam uma qualificada disputa pelos rumos do descontentamento popular. É preciso que se diga, sem meias palavras, que foram encorajados pela capitulação dos sucessivos governos petistas, que se ajoelham aos agiotas do sistema financeiro, sentam no colo das velhas raposas da oligarquia lideradas pelo PMDB e se atola no balcão de negócios do Planalto, do Congresso e das estatais.

Lastro ideológico do PT.

O projeto histórico da frente de centro-esquerda liderada pelo PT, depois de alcançado seu objetivo de chegar à presidência da república, deixou plantada uma desorientação que não é fácil de medir. O avanço da direita na aliança governista e na oposição das ruas, assim como o sentimento confuso de setores populares entre fogo cruzado nos dão hoje uma amostra do lastro político-ideológico dessa trajetória.

A experiência do PT, na busca e na conquista do governo, integrando-se nas instituições e nas regras do jogo, trouxe uma mudança importante na cultura e nos valores da esquerda. Aqueles sonhos e esperanças que foram mobilizados e produziam um sujeito de cambio que lutava em todas as frentes do povo para transformar o país e construir socialismo, foram esmorecendo. Muitos militantes do trabalho de base viraram os arrivistas de gabinete, ratos de aparelho. Quando muito, os teimosos foram simplesmente ignorados e substituídos pelos técnicos de gestão ou funcionários burocráticos da máquina. Sindicatos e movimentos sociais trocaram a independência da classe trabalhadora por cargos e ministérios, se fizeram gestores de fundos de pensão, assessores empresariais e linhas auxiliares do governo. Um processo que não se iniciou com a conquista da presidência, encontrando raízes ainda na década de 1980.

Essa subjetividade muito afeita a disputa de cargos e direções do aparelho, que põe o partido antes das lutas da classe, também fez escola entre a esquerda que não foi a reboque.

As relações de poder que encontram nessa conjuntura o suporte das idéias e os movimentos da direita tem haver, em grande parte, com esse processo histórico de desarticulação de forças sociais que amarga o campo classista. A colaboração de classes, a burocracia e o governismo desarmaram as organizações sindicais e populares, dividiram as lutas e as atrelaram ao estado. Formaram uma ideologia que reproduz as práticas das instituições burguesas, que faz do povo um sujeito que espera pelo que vem de cima.

Burocracia, reformismo e via eleitoral.

[Os controles sobre as bases radicalizadas] é uma medida envergonhada das burocracias atreladas ao aparelho de estado para não aprofundar a crise do governismo em Brasília. Tem ideias fortes embutidas nessa concepção, que pagam alto tributo ao pior do reformismo. Para a burocracia sindical o excesso de luta desestabiliza e faz a cama para o inimigo deitar. Nós pensamos tudo o contrário. Que a luta de classes, pela ação direta dos trabalhadores e a união dos organismos de democracia de base, é o fator de resistência que muda a correlação de forças.A ação de greves, piquetes, ocupações e solidariedade de classe produz ideologia de um povo forte e peleador que não anda a reboque das saídas tramadas por cima pelas classes dominantes. Pra não deixar dúvidas: a falta de luta pelo calor das bases e as táticas de ação direta desarma e consome as forças no burocratismo ou na corrente conservadora.

Mas a força do movimento faz trincheira lá onde a burocracia não controla. O palco dos intermediários não dobrará o governo pelos artistas da negociação, nem tampouco o verbo radical do proselitismo auxiliar. A radicalidade de uma greve só pode achar terreno no piquete decisivo que paralisa o funcionamento da máquina, no corte de rua que faz a cidade parar. A greve será greve pela mão dos comandos de mobilização regionais, pelas zonas e os bairros, onde os trabalhadores do setor público se unam com os moradores da periferia, criem organismos de democracia de base nas comunidades para que participem os setores populares. Façam espaço solidário pra que a luta seja tomada pelo povo como luta pelas demandas populares por educação, saúde, mais serviços públicos.

A via eleitoral é bloqueada pelos poderes econômicos e os mecanismos conservadores do Estado para fazer reformas que atinjam as estruturas dominantes. As legendas de esquerda são coadjuvantes que emprestam verniz liberal-democrático ao Estado de direito das oligarquias e os proprietários.

As eleições não tem decisão estratégica sobre as pautas que motivaram os conflitos socais que tem vazão nesta etapa aberta da luta de classes. Os fatores conservadores do sistema deixam uma margem muito pequena para as manobras dos governos de turno. Na formação histórica do Brasil e pela sua liderança no continente eles pesam ainda mais. O que está em disputa são gradações do modelo de gestão de um sistema dominado globalmente pelo capitalismo financeiro. O reformismo está fora de causa. Governar é, em primeiro lugar, fazer arranjos com as estruturas de poder que não obedecem o voto.

O Estado não é uma máquina neutra que põe em funcionamento suas instituições ao gosto dos seus pilotos de turno. Na concepção liberal burguesa a representação sempre foi um mecanismo legitimador da usurpação das forças coletivas e bens comuns pela vontade das minorias. O Estado é o poder político das classes dominantes, o Estado oligárquico de direito, onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, como diz o ditado popular.

[FAG] 20 anos a enraizar anarquismo

Retirado de: anarquismo.noblogs.org/?p=366

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Entre os dias 20, 21, 22 e 23 de novembro a FAG/CAB realizaram um conjunto de atividades programadas para as comemorações do 20° aniversario de vida militante desta organização política anarquista. Foram momentos de fraternidade libertária, de debates e cultura política, afirmação da concepção especifista para as lutas de classe e dos povos oprimidos. Onde o emotivo também fez sua presença. Brindaram gerações que não tem visto cansados seus esforços. Trocaram experiências, aportes e solidariedades delegações de distintas partes do Brasil, América Latina, Europa e Estados Unidos.

Um plenário sindical de militantes da CAB tomou lugar para fazer planos e afiar as ferramentas de luta no movimento dos trabalhadores. As companheiras fizeram seu debate no dia 22. Como contexto geral uma feira libertária em praça pública com charlas diversas, livros e materiais de propaganda, teatro e música popular. Dia 23 uma reunião internacional de delegações para firmar pactos de apoio mútuo, discutir elementos de concepção para um anarquismo forte politicamente e inserto nas lutas sociais, gerar internacionalismo desde as conjunturas concretas e as estruturas do poder que tocam nossos povos.

O Ato Público se fez num teatro cheio no coração do centro de Porto Alegre. Entre os oradores a FAU, a FAR, o cancioneiro popular libertário e “rompidiomas” de Chito de Melo. Por fim a palavra de CAB e FAG. Ambiente muito concentrado no que era exprimido pelos oradores e com uma emoção que não disfarçava as alegrias e as recordações do caminho percorrido até aqui. Cartas de adesões vindas de muitos lugares, sopros de generosa saudação a este momento tão especial. Saúdos em própria voz de Alternativa Libertária da França, Alternativa Libertária/FdCA da Itália, Federação Anarquista Rosa Negra dos Estados Unidos, Grupo Via Libre da Colômbia, núcleo sul do Congresso Comunista Libertário do Chile. No encerramento do Ato, um desfecho simbólico marcado de lenços vermelho e negros ao som de A Internacional.

Aqui reproduzimos os textos de apoio dos oradores do ATO:

DISCURSO DA COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA – CAB

ATO 20 ANOS DA FAG
Porto Alegre, 21 de novembro de 2015.

A CAB faz sua saudação a este Ato Público que se realiza quando cumpre 20 anos a nossa Federação Anarquista Gaúcha.

Não se trata de uma trajetória militante isolada num canto do país, digamos de passagem. São 20 anos percebidos dentro das coordenadas de uma construção nacional e de um vivo e incansável trabalho pra fortalecer a resistência libertária num marco regional latino-americano. Internacionalismo que se faz desde o pedaço de mundo que nos toca atuar, que não ignora, em nome de um cosmopolitismo de propaganda, o complexo e específico processo histórico-cultural que nos conforma como região. Projeto onde cooperaram muitas mãos, culturas e sotaques brasileiros, do qual a FAG é uma das expressões.

A Coordenação Anarquista Brasileira pretende ser uma ferramenta de união militante, escola de lutas e capacidade política para atuar em contextos históricos concretos. Nos reconhecemos como parte somada na caminhada das rebeldias que vem de baixo, das lutas insurgentes contra as relações de dominação, os dispositivos e estruturas opressivas que atravessam nossa formação social. O Anarquismo não é a “planta exótica” que sugeriu o discurso do poder quando se referia ao brasileiro como um povo dócil, estranho aos conflitos. Antes que um setor do movimento operário levantasse a ideologia anarquista como sua bandeira de combate anti-sistema, aqui deixaram seu caudal de resistência e liberdade as lutas indígenas, quilombolas e populares contra o escravismo-colonial.

A formação da ordem burguesa, do mercado capitalista, do Estado nacional e das ideias, valores e crenças que produzem a norma onde se reconhece o “povo brasileiro”, foram construídos pela guerra social sancionada pelos vencedores. Tem o sangue rebelde que peleou batalhas contra o genocídio, a escravidão, o saque e a violência colonialista, a propriedade da terra, o racismo de estado até chegar nas formas da exploração do trabalho assalariado no regime das fábricas.

Mais que comemorar os 20 anos de vida da FAG, o Anarquismo brasileiro comemora 20 anos de um projeto militante que faz luta e organização com as classes oprimidas e com as cores de nosso povo. História peleada que não começa com a gente e também não termina conosco. Jornada que tem seus passos, tropeços, provas e ajustes e que na modéstia e com firmeza afia ferramentas para um posto de combate libertário. Criar um mundo novo que tem que ser peleado hoje, com meios que se articulam ao cotidiano, inseparável das noções de um imaginário radical carregado de socialismo e liberdade.

Esse lugar no mundo, com tantas riquezas naturais e culturais, de formação mestiça, contrasta com desigualdades brutais que reservam os privilégios e o poder político e econômico para uma fração das classes dominantes associadas com a estrutura do imperialismo. Sociedade marcada por estruturas de dominação que operam pelas classes, pelo racismo e por toda sorte de violências que segregam e oprimem. Dispositivos de poder que classificam na vida cotidiana os sujeitos de direitos, selecionados pela competição perversa do mercado, e os sujeitos de exceção governados pelo Estado penal. Pesa forte na nossa formação social uma ideologia que normaliza tanta miséria e injustiça, dor e tragédia de setores populares jogados ao azar, convivendo ao lado de tanta ganância, soberba e impunidade ostentada pelos de cima.

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Compas:

A narrativa triunfalista do crescimento econômico, do pacto social feito com os capitais com vocação “desenvolvimentista” pra fazer crescer o bolo nacional e ajeitar um lado pros mais pobres, veio abaixo. A locomotiva da desapropriação de bens e produção de commodities minerais e agrícolas para o mercado freiou com a desaceleração da China. Todo o frenesi das mega-obras e da especulação imobiliária foi desmanchado pós-copa pelo escândalos de propinas e os esquemas que sangraram a Petrobras para o benefício do empresariado e das campanhas eleitorais. O novo setor dos trabalhadores integrados, pela lógica financeira, no mercado de consumo, vê subitamente as dívidas, o aumento dos preços e o desemprego cobrarem caro pela fantasia de “nova classe média” que vendeu o governo. O que se chamou entre analistas de distintas lentes de neo-desenvolvimentismo foi um vôo de galinha que mal começou bater as asas e despencou.

O cenário recessivo mundial toca o país. Desde o começo do ano está em cena um ajuste violento contra o povo, representado por um pacote de medidas que corta direitos adquiridos dos trabalhadores, aumenta os preços administrados pelo Estado que atingem o custo de vida das massas e arrocha o orçamento público e do seguro social para pagar os juros dos agiotas da dívida pública.

O sistema financeiro reforça seus controles sobre os gastos públicos. Seus quadros ocupam setores privilegiados na máquina do Estado, constituindo uma equipe blindada junto a Joaquim Levy, formada nas idéias da escola de Chicago. O cassino global especula com a fome dos povos ao converter alimentos em commodities no mercado capitalista e ao torná-los derivados financeiros. Os juros adotados pelo COPOM causa um impacto bilionário na dívida pública, gerando lucros fantásticos ao capitalismo rentista e dando a essas corporações um poder privado sobre os recursos nacionais. As montadoras transnacionais usam de milhares de demissões e do expediente das férias coletivas para ajustar seus planos ao novo cenário. A patronal força por mais flexibilização do trabalho com a lei das terceirizações. O Programa de Proteção do Emprego ofusca uma bandeira histórica do movimento operário condicionando a redução de jornada com redução de salários, financiados com fundos do FAT- Fundo de Amparo ao Trabalhador.

Como dissemos: uma conjuntura de deterioração acelerada do modelo de pacto social e de políticas residuais de ajuda social dos setores populares integrados pelo mercado de crédito e pelo consumo e do modelo de geração de empregos precários vinculados ao regime flexível das obras e serviços.

O desfecho do segundo turno das eleições presidenciais de novembro de 2014 ligaram o alerta para um escandaloso estelionato eleitoral em curso manobrado pelo governo reeleito. Foram enterrados os votos do “menos pior” ou a esperança das regiões mais pobres de que os direitos, o trabalho e condições de vida não seriam castigados pela recessão. O segundo mandato de Dilma, ao longo do ano, afundou o modelo de controle social que vinha se corroendo pelo tempo junto com a calamidade da situação internacional e evoluiu, violentamente, para as pautas da austeridade, das barganhas da direita alugada e a precarização dos direitos trabalhistas reclamados pela ofensiva patronal.

Ao lado do desengano dos seus eleitores, agrega-se o impacto no imaginário social dos escândalos das redes de corrupção que as investigações da Policia Federal com a operação Lava Jato tem apurado. O espólio e o saque de recursos da Petrobrás pelas redes do poder político e econômico colocam em evidência conexões corruptas que capturam banqueiros, políticos de todas as cores e empresários que controlam os capitais que festejaram como ninguém o crescimento atribuído aos melhores anos da administração do PT. A rigor, estão todos de rabo preso. Esse é o sistema corrupto e criminal dos de cima, assim funciona suas estruturas fundamentais e assim agem seus operadores privilegiados. No entanto, é o PT em particular que recebe os holofotes por ser a autoridade máxima na gestão da máquina. A “corrupção” representada sob um viés moralista possibilita o oportunismo da direita opositora. Também é o artifício de pressão das oligarquias aliadas ao governismo. Por sua vez, os monopólios informativos tiram partido dessa situação para livrar uma luta ideológica implacável contra toda cultura de esquerda, atacando movimentos populares, direitos sociais, trabalhistas e bens públicos.

O discurso da estabilidade dos últimos vinte anos, produtor de sentido das relações do sujeito com o governo e as instituições e enquanto técnica de controle da vida das massas, sofre uma pressão desestabilizadora. Foi a prática do PT no governo de coalizão junto do PMDB que afundou este modelo. Em princípio foi o refresco, foi o fator político de um pacto de classes que desarmou o antagonismo social ao sistema. Agora é o fator detonador que frustrou as expectativas que vinham por esquerda, e ao se acomodar às estruturas de poder, jogou água no moinho da direita. Cooptou as utopias de parte da esquerda do Fora FHC e dos Fóruns Sociais Mundiais capturando pelas instituições de Estado a força social dos de baixo, desorganizou e fragmentou a classe trabalhadora e os setores oprimidos. Por correlação deu lugar, voz, gabinetes, verbas e lugar pro coro reacionário gritar em massa na ruas e jogar na confusão setores populares.

A tragédia é que as decepções, os fracassos e as capitulações ao modus operandi do sistema ativaram um recalque coletivo que conduz a um rebaixamento das expectativas gerais da sociedade com a política. Deixa lastro ideológico para os discursos de ódio que fazem aparecer rebentos de fascismo na classe média ou de fundamentalismos religiosos entre os populares.

Mensalão, petrolão, cortes de direitos sociais, privatização de infraestrutura e reservas, “Plano de Desinvestimento da Petrobras”, jogam definitivamente o PT na vala comum da política burguesa e produzem uma dilatação confusa e ambígua dos sentidos de esquerda e direita. A cena política privilegia as luzes e as sombras de um discurso polarizador que seleciona e narra os acontecimentos conforme uma lógica binária que exclui o desejo e os interesses das maiorias. Temos uma disputa mais feroz entre setores das elites dirigentes e as classes dominantes pela direção da máquina do Estado. Não é rigorosamente uma luta de classes, onde se enfrentam setores populares contra a burguesia e seus conexos. É uma luta de poder entre vizinhos do mesmo condomínio particular, que jogam seus efeitos de subjetivação no povo ao qual se reserva historicamente, quando muito, a área de serviços.

Os setores populares do país vêm sentindo cada vez mais os efeitos dessa conjuntura de aumento do custo de vida, de recortes nos benefícios sociais, falta de água e luz, desemprego, crise urbana e ambiental. A deterioração do governismo e do sistema político está agravando o desencanto com o modelo capitalista brasileiro. A insatisfação cresce por todos os lados e em alguns momentos chega a derramar pra fora dos velhos recipientes, das normas e das regras que o sistema reserva para sua canalização.

As jornadas de junho de 2013 puseram a insatisfação social e distintas e as vezes controversas demandas de setores populares e médios nas ruas. Abriram um espaço de indeterminação na política nacional ao fugir das regras dos conchavos oligárquicos, dos lobbies corporativos e os acordões entre partidos que formam o expediente normal da governabilidade. Por alguns momentos, correram por fora do jogo do poder capturado pelas instituições burguesas, formas sociais de protesto, de rechaço e saturação do sistema que escaparam do monopólio oficial da luta política, romperam o preto no branco e fizeram vazão de um imaginário social que é irredutível a polarização das elites.

Nos rastros do alegórico discurso de melhoria na condição de vida dos brasileiros apresentados nos programas de propaganda da gestão Petista vem à tona a dor dos povos desterrados, das mães que choram os filhos vítimas do racismo da cadeia e do extermínio, os moradores despejados de suas casas, os atingidos pela sanha predadora das empreiteiras e mineradoras, os trabalhadores estafados pelo regime de exploração, a juventude revoltada com seus horizontes negados.

Há poucos dias atrás fomos golpeados com a notícia da maior tragédia sócio-ambiental da história recente do Brasil. Ainda neste mês, 5 de novembro de 2015, o distrito de Bento Rodrigues em Mariana, interior de Minas Gerais, foi literalmente soterrado de lama tóxica depois do rompimento de duas barragens de rejeitos operada pela mineradora Samarco, propriedade das empresas Vale e BHP. As imagens são espantosas. Um povoado inteiro arrasado, dezenas de mortos e desaparecidos, entre elas crianças, cerca de 700 famílias desabrigadas, destruição da infraestrutura de bens e serviços públicos, contaminação irreparável do meio ambiente, e danos a toda a bacia do rio doce que abastecia a região, da terra cultivada pelos trabalhadores do campo. Afetando também cidades do Espirito Santo segundo estimativas de técnicos cerca de 3.000 km2 no litoral norte e uns 7.000 km2 no litoral ao sul, atingindo três Unidades de Conservação marinhas do território capixaba. Os estudos preliminares indicam alta concentração de metais pesados no meio ambiente, pois amostras de água coletada, por exemplo, apontam um índice de 1 milhão e trezentos mil por cento acima do tolerável.

Os rastros de morte que avançaram de Mariana ao Espírito Santo pra nada se referem a uma fatalidade natural. Tragédia que tem a marca tóxica e repugnante de seus proprietários. Do arranjo burocrático-corporativo que viola as licenças ambientais, que desrespeita a vida e os bens comuns para o deleite dos seus acionistas. O poder voraz e assassino do capitalismo extrativista escreve mais uma página da ação predadora e ecocida do sistema.

Em outro lugar do país, região centro oeste, estado do Mato Grosso do Sul, ao crescimento da produção da carne, da soja e da cana as cadeias do agronegócio fazem prospecção de negócios com a invasão violenta dos territórios indígenas Guarani e Kaiowá, Terena e Kadiwéu. O discurso de ódio das oligarquias se traduz em um repertório de ações atrozes sobre esses povos. Assassinatos e emboscadas, pulverização de veneno sobre as terras e águas da aldeia, cerco armado sobre os locais de conflito, mortes de crianças por fome e inanição. Em fins de agosto Semião Vilharva, kaiowá, foi assassinado com uma bala na cabeça de calibre 22 em mais um ataque de pistoleiros a soldo do ruralismo. A policia e a justiça são coniventes, aparelhos articulados na mesma estrutura do poder dominante.

Nos últimos 12 anos foram assassinados 390 indígenas no estado e 586 se suicidaram. Contabilidade sinistra do genocídio, produção de commodities para o mercado global com o sangue de um massacre covarde e implacável sobre os povos originários. Fatura da classe ruralista e da especulação financeira sobre a fome dos povos pelo modelo mortal e imundo do agronegócio.

No nordeste brasileiro, no último dia 12 de novembro, a chacina da Messejana, periferia de Fortaleza, deixou 11 mortos e vários feridos. Destes 10 jovens e metade menores de idade. Os moradores contam que policiais fardados agiram durante a madrugada, invadindo casas e arrastando as vítimas. Execução sumária da policia que dizem ter sido motivada por represália a morte de um soldado, durante assalto. No princípio do ano os policiais da Rondesp da Bahia, depois de executarem 12 jovens na chacina da Cabula em Salvador, foram estupidamente agraciados pelo governo estadual e ganharam a impunidade da justiça.

Em Osasco, mês de agosto, a chacina acabou com a vida de 19 pessoas. Noite de terror na periferia paulista acossada pela fúria sanguinária do grupo de extermínio da policia militar. Por regra geral, pobres e negros são o alvo.

Das mais de 56 mil mortes por homicídio no Brasil divulgada pelo Mapa da Violência de 2014 mais da metade são de jovens e destes 77% são jovens negros. O sistema prisional tem cerca de 600 mil presos e destes maioria jovem e quase 70% são negros. A polícia militar do RJ responde por 15% dos assassinatos do estado. O extermínio da juventude negra volta a apontar o Estado como uma máquina de matar, arrebentar, punir e prender os de baixo.

Em fins de outubro uma mobilização de mais de 5 mil companheiras ganhou a Cinelândia no Rio de Janeiro para dar luta contra um projeto de lei que corre no congresso nacional para modificar o atendimento de mulheres vítimas de violência sexual. O projeto de autoria do presidente da câmara Eduardo Cunha ataca os direitos femininos e criminaliza o aborto da gestação que resulta do estupro. O protesto se espalhou em várias capitais do país. A violência contra mulheres em 2013 registrou uma média de 13 homicídios por dia. A cada 1 hora e 50 minutos uma mulher é assassinada nesse país, a quinta posição do feminicídio mundial. Entre as negras um aumento de 54% dos homicídios em 10 anos. Números que certamente não podem mensurar todo o universo de violências sexuais e simbólicas a que estão sujeitas. Essas micro relações do poder reproduzem e conservam uma ordem sociocultural que oprime debaixo do patriarcado mais da metade da sociedade.

O capitalismo brasileiro tem avançado a passos largos para a terceirização e junto com ela o trabalho precário e mais vulnerável ao poder dos patrões, o aumento dos acidentes de trabalho. De cada 10 acidentes 8 são de terceirizados. Acrescenta-se jornadas esticadas por horas extras, salários baixos e repressão da organização de classe nos locais de trabalho. Violências de classe que estão codificadas nas técnicas e nos modos de gestão da força produtiva dos trabalhadores, poder que mata, mutila e invalida. O discurso da economia dominando como valor supremo, que faz da tragédia operária de todos os dias mola propulsora do crescimento capitalista.

Extrativismo depredador do meio ambiente, dos modos de vida e parasita dos bens comuns. Genocídio indígena. Encarceramento e extermínio da juventude e do povo negro. Violência estrutural sobre as mulheres. Regime de precarização dos trabalhadores. Ajustes que cortam fundo na carne do povo. Lei antiterrorismo que amordaça a ação direta popular e faz a “segurança jurídica” dos abutres do sistema capitalista. A formação social brasileira produz sujeitos historicamente (des)qualificados como bucha de canhão. Toda uma produção subjetiva que age nas relações sociais e que funciona pela rotina das instituições, naturaliza a tragédia social e sofrimento dos de baixo e faz dos privilégios e das posições de controle na hierarquia social um prêmio pra quem “merece”. A democracia que promete o sistema é a verdade cruel e traçante de quem joga nas regras do seu mecanismo de seleção. Os direitos para quem tem o mérito de tê-los. Punição para quem não aceita, de uma ou outra forma, o jogo da injustiça e a brutalidade: os desajustados, os indesejáveis.

O Brasil não tem saída a curto prazo que não venha pela mão dos concertos que vem de cima, do palco do sistema corrupto da democracia burguesa, do golpe do ajuste na carne do povo que cobram as classes dominantes. Tampouco das velhas fórmulas de frente popular das burocracias do sindicalismo e dos movimentos sociais atados ao governismo. Mas a luta de classes e dos povos oprimidos terá vazão com ou sem o PT e qualquer especulação que possamos fazer sobre o futuro do governo da república. As estruturas do poder dominante o ajoelharam e o fizeram jogar nas suas regras, como um partido da ordem, um personagem que se equivale com todos os outros no balcão de negócios da moeda podre do sistema.

O ajuste do Governo Dilma tem previsão de um corte de 32 bilhões em 2016 que atinge a saúde, a educação, moradia, programas sociais e os trabalhadores dos setores públicos. No congresso nacional, avançam as pautas de restrição de direitos das mulheres e da livre orientação sexual, violação dos territórios indígenas e quilombolas, desmonte da legislação ambiental para as mineradoras, a infame Lei Anti-terrorismo cobrada pelo sistema financeiro. Estados e municípios sangram o orçamento dos serviços públicos para pagar a dívidas infames.

E o povo reage!!!! Os petroleiros pelejam com greve contra a venda de ativos da Petrobrás e o leilão de campos de exploração ao capital transnacional.
Em São paulo até o momento mais de 70 escolas foram ocupadas por estudantes e professores contra a reforma do ensino do governo do PSDB que fecha 94 escolas e atinge a educação de cerca de 300 mil alunos.

Os trabalhadores da Usiminas fazem luta pelas táticas de ação direta ao plano de 8 mil demissões anunciado pela empresa.
Em Cubatão a resistência operária e a disposição de não ceder os empregos e enfrentar a patronal pela greve foi severamente reprimida pela polícia e coagida a volta ao trabalho.

As marchas contra o genocídio do povo negro ganham expressão em várias partes do país.

Os sem teto ocupam terrenos e prédios.

Camponeses, indígenas e quilombolas lutam sem trégua pela terra e contra o complexo do agronegócio, das mineradoras e as mega-obras de infraestrutura e energia como o da Belo Monte.
Teimosos das famílias de pescadores tradicionais e dos pequenos agricultores do 5o distrito de São João da Barra no RJ que resistem as remoções que beneficiariam o complexo logístico do Porto do Açu terminal do maior mineroduto do mundo que rouba minério de ferro do solo da cidade Conceição do Mato Dentro MG, rasgando a vida de 33 municípios em mineiros e fluminenses desembocando matéria-prima pro capital transnacional.

A CAB não faz aposta no quanto pior melhor da mesma forma que não cai na armadilha do menos pior. Nossa concepção anarquista parte das resistências que produz esse drama cotidiano, encontra seus modos de ser no antagonismo ao sistema, como ideologia que conjuga liberdade, justiça e apoio mútuo na experiência diária desses combates. Toma a ferramenta da organização política em articulação com as dinâmicas das lutas sociais, aprende, elabora e se une com elas. Não faz exercício diletante no alto da torre vigilante dos princípios puros e estáticos. Desafiado a arriscar suas críticas, propostas e ações no interior dos problemas que tocam os oprimidos, as classes trabalhadoras e os setores populares, a autodeterminação dos povos, os direitos étnicos-culturais, das mulheres e da diversidade sexual, a ecologia social e a defesa dos bens comuns.

Como já dissemos: somos partidários de um programa de lutas pra construir um povo forte, que não troque sua independência de classe por cargos, favores ou razões governistas. Como pequena mas resoluta forças de combate ao lado dos oprimidos continuaremos como sempre nas lutas que vem de baixo, fora do governo e da colaboração com os patrões. E vamos construir resistência junto com quem luta por soluções práticas, sem renunciar nossa intenção libertária e socialista, com o sentimento de que nada podemos esperar que não seja de nós mesmos.

Ir tecendo pelas práticas da democracia de base e o federalismo, por dentro do sindicalismo classista e dos movimentos populares, a rede de solidariedade que seja vetor de uma frente dos oprimidos. Desenvolver a musculatura de um povo forte pela ação direta popular. Gerar a cultura e os valores de um mundo novo pelo exercício das formas de poder popular que vem de baixo.

Contra o ajuste econômico e
a criminalização do protesto e da pobreza.
A rebeldia não se ajusta.
Sempre com os que lutam.
Lutar e criar Poder Popular.

DISCURSO DA FAG

Boa noite companheiros e companheiras

Estas últimas semanas têm sido muito especiais para nós anarquistas da FAG. Receber companheiros e companheiras de distintas partes do Brasil, da América Latina e do mundo para juntos celebrarmos um pedacinho dessa rica história do anarquismo, nos enche de alegria! Aqui encerramos um ciclo para começarmos um novo. Um ciclo de maior organização; de maior firmeza em nossos vínculos e em nossos laços de fraternidade e solidariedade; de reafirmar a luta, o protagonismo popular e a transformação revolucionária das nossas relações e da nossa sociedade como os únicos caminhos fecundos para romper definitivamente as amarras desse sistema sanguinário que nos oprime todos os dias.
São 20 anos de construção anarquista nacional. São 20 anos de FAG, de OSL, de FAO, de CAB, de FARPA, de Rusga Libertária, de CALC, de FARJ, de CABN, de ORL, de FACA, de OASL e de muitos outros que com seus esforços vem forjando anarquismo militante, classista, com raízes na história de combate do nosso povo. Duas décadas cultivando raízes anarquistas para que floresça bela e forte o poder do povo, o Poder Popular.

Na ocasião do Ato Público de 10 anos da FAG dizíamos:

“Nascemos porque morreram homens como Mikail Bakunin, Errico Malatesta, Nestor Makhno, Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares. Nascemos porque morreram mulheres como Espertirina Martins, Malvina Tavares, Anastácia, Anita Garibaldi e tantos outros e outras anônimas ou não que morreram defendendo a justiça e a liberdade.

Nascemos pelas mesmas mãos que o anarquista Djalma Feterman usou para atirar uma bomba disfarçada de buquê de flores, que carregava a também anarquista Espertirina Martins com seus 15 anos de idade, na carga de cavalaria da Brigada Militar durante a Guerra dos Braços Cruzados em 1917.

Nascemos pelas mesmas mãos que pegaram em armas no Uruguai, enfrentaram a ditadura, foram torturados e presos, porém, não desistiram: já completaram meio século e foram decisivos para a formação da FAG neste canto do Brasil: assim foi o apoio generoso da FAU, presente conosco hoje e sempre.

Nascemos e renascemos todos os dias pelas mesmas mãos das pessoas simples, gente humilde, que nas suas mãos, carregam as marcas de ser parte dos de Baixo.

Dizem por ai que pobre vive de teimoso. Foi por teimosia que a FAG nasceu. É por teimosia que continuamos vivos e lutando e vamos completar mais dez anos insistindo em dizer que é somente o povo organizado e em luta que vai conseguir conquistar tudo o que precisa e quer.”

E aqui estamos companheiros e companheiras, 10 anos depois, cumprindo e dando continuidade a um Compromisso, a uma Idéia, a uma Prática: O SOCIALISMO COM LIBERDADE!!!

Não tem sido tarefa fácil. Nossa busca tem sido sempre a de fazer do anarquismo uma ferramenta atual e à altura das diferentes conjunturas que nos toca viver e atuar. Uma ferramenta dinâmica, que nos permita ampliar coletivamente as forças que individualmente seriam muito limitadas; um anarquismo militante e organizado que construa junto, ao lado dos de baixo, propostas concretas contra os ataques dos de cima. Um anarquismo prático, dotado de táticas e de um programa mínimo e, ao mesmo tempo, uma anarquismo finalista, dotado de um programa estratégico e de longo prazo. No fim e ao cabo, um anarquismo político que contra e por fora do Estado solucione o problema do Poder, do que colocar no lugar das instituições burocráticas, centralistas e autoritárias do Sistema de Dominação Capitalista.

Um anarquismo Federalista, Autogestionário, que produza com suas práticas, métodos, críticas e experiências, uma ideologia de transformação. Sem vanguardismos, ditaduras ditas proletárias, vocação pra partido único. Pois não se trata de fazer da Política a tarefa de conduzir um Estado, seja ele qual for, em nome das classes oprimidas para daí impor a nossa vontade enquanto povo às classes dominantes. Trata-se de fazer da Política a tarefa de construir um Povo Forte, com seus instrumentos, instituições, ferramentas que vão gestando o novo na medida em que vão golpeando e destruindo o velho. Colocaremos no lugar do Estado e de seus aparatos as instituições das classes oprimidas, construídas desde baixo, articuladas e coordenadas entre si.

Como já escrevemos em outro momento,

É certo que o trânsito até uma sociedade distinta deve ser feito dentro deste sistema. Mas a experiência vivida indica que existem meios, orientações, uso de instrumentos, de instituições e formas de organização de atividades sociais que devem ser dispensados se queremos ir conformando forças sociais capazes de produzir verdadeiras mudanças nas formas da organização social. É imprescindível outro enfoque se queremos ir construindo uma sociedade distinta. Não parece ser boa estratégia escolher aquelas vias, aqueles lugares e trajetos que tem dono e o poder de imprimir seu selo ao que ali entra. Quantas organizações políticas, quantos lutadores cheios de ideais e sonhos terminaram pensando com a lógica do sistema e vendo como inimigos a seus queridos companheiros de ontem.

Outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá como arte de magia, deve ser o fruto de práticas que internalizem outras questões que chocam com o dominante. A participação efetiva, a autogestão, a ação direta, a forma federal de funcionamento realmente democrático, a solidariedade e apoio mútuo, necessitam de mecanismos, organizações, práticas regulares para seu desenvolvimento. E só se produzida no povo é que a mudança se tornará uma realidade.

Uma estratégia que tenha em seu interior um mundo distinto que vai emergindo desde o seio de outro que lhe é antagônico. O famoso “usar todos os meios” pode ser uma maneira efetiva de assegurar que não se construa nenhuma estratégia antagônica portadora dos elementos de desestruturação do sistema vigente.

Relacionado a isso, está a necessidade de forjar um inconfundível estilo de trabalho.

Um estilo de trabalho também é elemento da produção ideológica, se define como um modo especial do fazer político-social em todos os seus atos, no discurso, no comportamento de grupo, nas relações entre companheiros e com a sociedade, nos planos de ação, etc.. A ideologia libertária se materializa, é produzida e reproduzida, entre outras coisas, nessa forma estimulada de representar seus valores, sua ética e aspirações nas práticas de todos os dias. Assim, o estilo de trabalho que marcamos nos processos de luta e organização, em uma boa medida, vai dizer quem somos pelo que fazemos, como fazemos, com que coerência ideológica estão formados nossos atos de organização militante.
Reconhecer entre iguais a dignidade do outro, como irmãos na luta e no projeto para mudar a sociedade, sempre será a base da estrutura e das normas jurídicas que constituem um pacto federativo. A fraternidade que permeia um projeto militante dá o vínculo moral fundamental para formação das relações de confiança. E a política, como apontam as investigações teóricas que temos estudado, tem suas razões e suas sem razões. Não é só feita de escolhas racionais, tem boas doses de conteúdo sensível, está atravessada pelas formações ideológicas que constituem o sujeito.

Está em jogo uma pedagogia do exemplo, a forja de referências a partir daquilo que fazemos, pelos valores que veiculamos em nossas práticas, e nas nossas ações diárias.

O estilo pra promover nessa perspectiva deve produzir: iniciativa pras tarefas, responsabilidade plena com os mandatos coletivos, resoluta solidariedade, pedagogia do exemplo, liderança moral, maturidade para crítica, exigência fraterna, preocupação formativa.

São esses alguns dos desafios a que nos propomos todos os dias ao participarmos do movimento sindical, do movimento estudantil, na militância nos bairros, vilas e favelas; nas lutas urbanas, contra as violências de gênero e raça; no campo e na floresta e em toda ação de solidariedade aos enfrentamentos da diversidade dos sujeitos que compõe as classes oprimidas. UNIR O DISPERSO, ORGANIZAR O DESORGANIZADO, SOLIDARIEDADE É MAIS DO QUE PALAVRA ESCRITA, RODEAR DE SOLIDARIEDADE OS QUE LUTAM, são algumas consignas que expressam bem de que transformação social estamos falando.

Porque é mais importante para nós CRIAR UM POVO FORTE do que UM PARTIDO FORTE. Uma nova articulação entre o POLÍTICO e o SOCIAL, como dois planos de ação simultânea e devidamente articulados. Mas cada um com sua independência relativa, com sua própria especificidade. Somos assim partidários de um trabalho simultâneo, dentro de um mesmo projeto: da organização política libertária e do trabalho em todo o campo social.

Esse é o nosso especifismo, essas são as bases da nossa construção.

E que Base precisamos para esses tempos difíceis em que estamos vivendo. Já vivemos épocas difíceis, pois quem não se lembra do ataque aos profesores, aos catadores e aos sem terra no governo Yeda do PSDB, em que o sempre presente Elton Brum da Silva foi assassinado com um tiro de calibre 12 pelas costas pela Brigada Militar? Ano em que tivemos nossa sede pública invadida e companheiros procesados. Quem não se lembra dos 10 mil gaseificados, das balas de borracha, das pauladas, da violência psicológica e da nova invasão de nossa sede pública assim como de casas de outros lutadores sociais na jornada de lutas de 2013 durante e sob as ordens do governo Tarso Genro do PT? Ano em que companheiros foram procesados, presos e criminalizados em processos judiciais políticos e ideológicos.

2013 merece nossa consideração a parte, pois foi um ano intenso e atípico para nossa militância. Participamos desde o inicio das jornadas de luta por um transporte 100% público em Porto Alegre. Construímos juntos e em unidade com outros setores da esquerda o Bloco de Lutas pelo transporte público e fizemos días memoráveis lado a lado de milhares de lutadores. Não poderia ser diferente. Assim, Porto Alegre formou parte de um processo nacional de lutas que brindou novos elementos para nossa análise. Diziamos na ocasião de nosso 6º Congresso:

“O povo fez dias de luta no país que se fizeram irreprimíveis em junho. A luta por um transporte público coletivo, que é organizada por militantes de esquerda de um movimento social que leva anos, e a indignação com relação aos altos gastos na Copa das Confederações em detrimento de outras áreas como saúde, educação, etc.; deu vez a um turbilhão de demandas que latejavam na vida neurótica, precária e estafante dos setores médios e populares. Grande parte da geração jovem e combativa que forma as mobilizações de massa dessa hora cresceu nos últimos 10 anos de governos do PT e encarna a expressão conflitiva e saturada do seu modelo capitalista de crescimento econômico.

Traz na bagagem a confusão e as incertezas que se gestam numa nova experiência com a política, com um imaginário nos protestos que sacodem o mundo, muito apoiada aos modos de interação e reconhecimento social que produzem as novas tecnologias de comunicação. O povo em conceito amplo não opõe classe contra classe e joga na cena dos acontecimentos uma disputa de ideias, de valores e projeto social para atuar criticamente, com uma concepção classista em dia com a formação social brasileira dos tempos que vivemos. Contudo, não temos dúvidas que o movimento que vem debaixo é o terreno mais fértil para fazer luta de classes, construir democracia direta e desenvolver músculos para uma estratégia de poder popular.

Na gestação dessa nova correlação de forças a luta contra o aumento das tarifas do transporte coletivo é a expressão mais articulada de uma avalanche de sentimentos e demandas reprimidas que extrapolam os controles dominantes da sociedade brasileira.

As chamadas jornadas de junho e julho foram, portanto, expressão do descontentamento com o quadro acima descrito. Indicam, por sua composição, magnitude e mesmo pelas formas com que foram convocadas em algumas cidades, mudanças e elementos a tomar em consideração na hora de concebermos uma estratégia própria daqui pra frente.”

Levando em consideração estes e outros elementos, procuramos caracterizar o período (a etapa) em que estávamos entrando como uma ETAPA DE RESISTÊNCIA COM VIÉS COMBATIVO. Por este conceito, sem referência com velhos esquemas que sugerem um traçado reto e linear do processo social-histórico, quisemos representar um cenário político para os fatores de cambio social e os elementos característicos de uma correlação de forças na sociedade.

“A luta das classes oprimidas e do projeto socialista passa uma etapa de refluxo, de restruturação dos meios organizativos, de ações dispersas e fragmentárias que não alcançam formar um conjunto com elementos ideológicos e programáticos que façam um antagonismo forte ao sistema. Uma parte importante dos setores populares, das organizações e sindicatos, embarcam nas velhas promessas do crescimento econômico e se curvam para as ideias do neodesenvolvimentismo. Há uma crise de movimento social, de organizações de base, de forças acumuladas pela luta que superem atos espontâneos e alcancem a ação federada. Estão seriamente ajuizadas pela história recente as estratégias de esquerda que buscam mudanças sociais por dentro das instituições funcionais as relações do poder dominante. O tempo é de divisão de águas, ajuste de lentes para pensar as condições e possibilidades da relação de forças do momento. Exige capacidade de inserção de um projeto finalista revolucionário no interior dos problemas e conflitos deste presente histórico. Trabalho de base entre as demandas populares que não são absorvidas pelos controles do modelo capitalista, na direção de um povo forte, de práticas de ruptura que favoreçam a construção histórica de um sujeito antagonista as estruturas do capitalismo.”

Neste sentido concreto e operativo que aplicamos esta categoria para fazer baliza de condições e possibilidades de nossa prática política. Contudo, tinham emergência na cena dos acontecimentos históricos, ventos novos que nos provocaram uma leitura mais matizada, elementos conflitivos com certo peso ideológico que indicavam abertura para um passo diferente. Percebíamos a possibilidade de uma acumulação de forças combativas que até então estava fora de nosso panorama.

Deriva daí nossa aposta estratégica expressa no conceito de intersetorial dos combativos:

“vamos operar nesta etapa com uma proposta militante para ligar o espectro das lutas sociais que confrontam com o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa mínimo de soluções populares. Ajudar na forja de unidade de baixo pra cima, criar um povo forte que imponha na cena nacional uma nova correlação de forças pra aplicar um projeto de transformação social.

Nessa linha atravessa o trabalho metódico e determinado de radicar nossas posições libertárias em organizações de base, em sindicatos, coletivos e movimentos sociais que serão nosso vetor social. Mas vai além. Implica fazer uma costura com outros setores sociais e políticos que atuam também onde não alcançamos, não pisamos, pra formar um campo de alianças dentro de princípios e acordos que fortaleçam uma posição de força para a independência de classe. Que favoreça, concorra e apoie a gestação de uma nova estrutura de massas, catalizadora do poder social das classes oprimidas, articulada pelas bases, que não se integre nas vias burocráticas dos controles institucionais burgueses.”
Desde então muita água rolou. Entramos no ano de 2015 e novos elementos se apresentaram na conjuntura do RS. O eleito ao governo estadual, o gringo José Ivo Sartori do PMDB, veio para aprofundar os ataques aos direitos e condições de vida dos de baixo. Aprovou um pacote de medidas que cortou fundo na carne do povo oprimido em benefício da manutenção dos privilégios e lucros de governos e patrões. Parcelou salários do funcionalismo estadual, quis extinguir orgãos públicos fundamentais à pesquisa e preservação ambientais e cortou verbas de áreas imprescindíveis aos trabalhadores como as de saúde e educação. Sem falar na sua brigada militar que segue matando a juventude negra e pobre nas periferias.

“Ao lado do ajuste que saca dinheiro dos hospitais e postos de saúde, das escolas, programas sociais, da ampliação do espaço comum e da rede de serviços públicos que aumentam bem estar e condições de vida do povo, é martelada diariamente, sobretudo pela voz do grupo RBS, a bandeira da segurança. O grupo de comunicação que é bom pagador de propina pra sonegação fiscal, dono de um patrimônio que figura na lista seleta das elites gaúchas, avaliza o ajuste e faz campanha de terror e medo pra reclamar mais segurança. Aí está! Segurança é um discurso que dá sentido e faz funcionar um poder de controle e vigilância que institui a paz para a vida normal do sistema e dos bem nascidos e que instala a guerra que pune e criminaliza a pobreza. A segurança que ecoa fundo nas preocupações das elites e da classe média é a que sempre reforça a violência policial sobre as “classes perigosas”.

“Faltam recursos porque os capitalistas reservam os privilégios e os lucros para suas propriedades e estouram as contas públicas nas costas do povo. Todo um sistema de pilhagem que funciona pelo mecanismo da dívida pública, que espreme o patrimônio construído pelos trabalhadores, que desmonta e privatiza bens públicos e produz um discurso econômico liberalóide de déficit e responsabilidade fiscal. Os partidos de governo se sucedem sempre dentro desta ordem: uma camisa de forças do sistema que todos vestem. O PT subscreveu os contratos com o Banco Mundial durante o governo Yeda Crusius que ampliou o poder do sistema financeiro sobre o controle dos gastos públicos. Na sua vez no Piratini, Tarso Genro teve que amargar a pena de devedor do Piso Nacional do magistério.”

Um contexto em que frente aos ataques dos de cima, houve luta e resistência dos de baixo.

“Uma série de setores sociais dão fôlego a seus processos de mobilização e indicam a disposição de luta para dar combate a lógica imposta pelos de cima que precariza a vida do povo. Diversas mobilizações e ações de rua que no nosso entendimento contribuem para o fortalecimento da organização, capacidade de enfrentamento e acúmulo de forças dos de baixo para o próximo período. Experiências como as greves em curso, os piquetes, as manifestações de rua, o diálogo com a população e os cortes da via pública em todo o Estado são ensaios de um processo que não termina aqui.”

Infelizmente, as burocracias sindicais fizeram de tudo para frear os ânimos e conduzir as rebeldias populares para a arena institucional de seus partidos da ordem. O desespero e a indignação dos trabalhadores frente a essa política de austeridade não encontraram eco e canais adequados para a promoção de uma luta sem trégua que alterasse a correlação de forças em seu favor. Acelerar pisando no freio e manter o controle e a ordem das ações de base das categorias foram e são marcas de uma concepção sindical burocratizada e verticalizada que não se movimenta no sentido de organizar e dar impulso a disposição de luta da base.

A mobilização do funcionalismo público estadual, em especial os trabalhadores em educação gaúchos, é um exemplo emblemático dos resultados nefastos de tal concepção sindical. Deslegitimar e isolar as iniciativas combativas de setores de base; apostar numa greve unificada com setores da repressão; fazer da categoria base de apoio a politicagem de seus deputados na Assembléia Legislativa; promover fragmentadas paralisações para fingir que faz pressão nos políticos de turno ao invés de promover, organizar e favorecer uma greve por tempo indeterminado com a solidariedade e participação dos estudantes e das comunidades para dar uma resposta a altura dos desmandos do governo; são alguns dos feitos responsáveis pela desmobilização de uma categoria que há anos não se mobilizava como se mobilizou.

E como não seria diferente…

“Nessa conjuntura, a criminalização veio forte. Por lutar, rodoviários da Carris em solidariedade a paralisação estadual do dia 03/08 foram demitidos, e os servidores municipais da Assistência Social e da Saúde de São Leopoldo-RS sofreram processo de criminalização judicial. Esses são nítidos exemplos de perseguição política e sindical e é emblemático o caso da Carris em que os demitidos são militantes sindicais que tiveram seu direito ao trabalho anulado.

E ainda sobre o aparato repressivo

Duas prisões na capital durante uma Manifestação de trabalhadores da Educação vinculados ao Cpers. Além desse fato, cabe destacar a intimidação realizada pela “segurança” nos piquetes no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) e o assassinato, pelas costas, de um jovem negro no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre. Esses são nítidos indícios de que a repressão nunca estará ao lado dos trabalhadores e dos de baixo e que seu papel é de repressão aos que lutam e de extermínio da juventude negra e pobre das periferias.
“Nem com os que mandam por cima, nem com os que reprimem por baixo!” diziamos.

Nacionalmente, uma conjuntura de intensificação nos ataques aos direitos dos trabalhadores, do golpe dos ajuste fiscal que corta na carne e no bolso dos de baixo para manter os privilégios e os lucros dos de cima, de aumento da violencia contra as mulheres, em especial as mulheres negras, de retrocesso nos processos de demarcação das terras indígenas e quilombolas; de aumento da criminalização da pobreza e do protesto; de cortes de verbas na educação e de forte investida de setores conservadores contra uma educação transformadora; de lei dita “anti-terrorista” mas que na verdade é uma lei contra os movimentos sociais. Tudo isso no marco de um lastro político e ideológico de desarme organizativo das classes oprimidas deixados por 12 anos de governo petista. Esses são alguns dos elementos atuais que precisamos ter em conta na hora de atuar.

Um novo ciclo também parece se abrir na politicagem e nas disputas entre vizinhos de um mesmo condominio, o dos de cima. Uma nova descontinuidade que vai reelaborar elementos gestados no pasado recente para manter a dominação político, económica e ideológica de sempre. Assim, afiar os nossos instrumentos para uma conjuntura e quem sabe uma etapa mais peleada para os de baixo é demanda permanente. Nossa FAG e nossa CAB estará ai! Assim como estarão ai nossa FAU, nossa FAR e todos os nossos companheiros e companheiras que de cima a baixo de nossa América Latina e de todos os outros continentes vem construindo processos de luta e organização.

São curdos, africanos, norte americanos, mapuches, kaingang, chilenos, uruguaios, argentinos, brasileiros, quechuas, palestinos, gregos, guaranis, espanhóis, zapatistas, entre tantos outros povos, os que lutam, se erguem contra as opressões, forjam exemplos, inscrevem pelas suas práticas, referências! É sobre todos que a criminalização se coloca. É assim, uma luta que deve ser feita em conjunto e a partir da diversidade de lutas, de combate as opressões e dominações que cada segmento dos de baixo levanta!

É porque não esquecemos os milhares de Eltons, de Claúdias, de Amarildos, de Zumbis, de Dandaras, de Elenas, de Pochos, de Idilios, de Espertirinas, de Hebers, de Louises, de Lucys, de Polidoros, de Domingos, de Emmas, de Marias Lacerdas e de tantos outros homens e mulheres inscritos em nossa memória com seus exemplos de luta e resistência que ESTAMOS AQUÍ!

E AQUÍ ESTAREMOS ATÉ O FIM DESSE SISTEMA DESUMANO E CRUEL CHAMADO CAPITALISMO!

QUE VENHAM MAIS 20, 30, 50, 100 ANOS A ENRAIZAR ANARQUISMO!!!

NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA!

VIVA A FAG, VIVA A CAB!

VIVA A ANARQUIA!!!

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[FAG] 20 ANOS DA FAG | Discurso da FAG lido no Ato Público

Retirado de:              https://www.facebook.com/FederacaoAnarquistaGaucha/posts/1104931392851751:0

Boa noite companheiros e companheiras

Estas últimas semanas têm sido muito especiais para nós anarquistas da FAG. Receber companheiros e companheiras de distintas partes do Brasil, da América Latina e do mundo para juntos celebrarmos um pedacinho dessa rica história do anarquismo, nos enche de alegria! Aqui encerramos um ciclo para começarmos um novo. Um ciclo de maior organização; de maior firmeza em nossos vínculos e em nossos laços de fraternidade e solidariedade; de reafirmar a luta, o protagonismo popular e a transformação revolucionária das nossas relações e da nossa sociedade como os únicos caminhos fecundos para romper definitivamente as amarras desse sistema sanguinário que nos oprime todos os dias.

São 20 anos de construção anarquista nacional. São 20 anos de FAG, de OSL, de FAO, de CAB, de FARPA, de Rusga Libertária, de CALC, de FARJ, de CABN, de ORL, de FACA, de OASL e de muitos outros que com seus esforços vem forjando anarquismo militante, classista, com raízes na história de combate do nosso povo. Duas décadas cultivando raízes anarquistas para que floresça bela e forte o poder do povo, o Poder Popular.

Na ocasião do Ato Público de 10 anos da FAG dizíamos:

“Nascemos porque morreram homens como Mikail Bakunin, Errico Malatesta, Nestor Makhno, Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares. Nascemos porque morreram mulheres como Espertirina Martins, Malvina Tavares, Anastácia, Anita Garibaldi e tantos outros e outras anônimas ou não que morreram defendendo a justiça e a liberdade.

Nascemos pelas mesmas mãos que o anarquista Djalma Feterman usou para atirar uma bomba disfarçada de buquê de flores, que carregava a também anarquista Espertirina Martins com seus 15 anos de idade, na carga de cavalaria da Brigada Militar durante a Guerra dos Braços Cruzados em 1917.

Nascemos pelas mesmas mãos que pegaram em armas no Uruguai, enfrentaram a ditadura, foram torturados e presos, porém, não desistiram: já completaram meio século e foram decisivos para a formação da FAG neste canto do Brasil: assim foi o apoio generoso da FAU, presente conosco hoje e sempre.
Nascemos e renascemos todos os dias pelas mesmas mãos das pessoas simples, gente humilde, que nas suas mãos, carregam as marcas de ser parte dos de Baixo.

Dizem por ai que pobre vive de teimoso. Foi por teimosia que a FAG nasceu. É por teimosia que continuamos vivos e lutando e vamos completar mais dez anos insistindo em dizer que é somente o povo organizado e em luta que vai conseguir conquistar tudo o que precisa e quer.”

E aqui estamos companheiros e companheiras, 10 anos depois, cumprindo e dando continuidade a um Compromisso, a uma Idéia, a uma Prática: O SOCIALISMO COM LIBERDADE!!!

Não tem sido tarefa fácil. Nossa busca tem sido sempre a de fazer do anarquismo uma ferramenta atual e à altura das diferentes conjunturas que nos toca viver e atuar. Uma ferramenta dinâmica, que nos permita ampliar coletivamente as forças que individualmente seriam muito limitadas; um anarquismo militante e organizado que construa junto, ao lado dos de baixo, propostas concretas contra os ataques dos de cima. Um anarquismo prático, dotado de táticas e de um programa mínimo e, ao mesmo tempo, uma anarquismo finalista, dotado de um programa estratégico e de longo prazo. No fim e ao cabo, um anarquismo político que contra e por fora do Estado solucione o problema do Poder, do que colocar no lugar das instituições burocráticas, centralistas e autoritárias do Sistema de Dominação Capitalista.

Um anarquismo Federalista, Autogestionário, que produza com suas práticas, métodos, críticas e experiências, uma ideologia de transformação. Sem vanguardismos, ditaduras ditas proletárias, vocação pra partido único. Pois não se trata de fazer da Política a tarefa de conduzir um Estado, seja ele qual for, em nome das classes oprimidas para daí impor a nossa vontade enquanto povo às classes dominantes. Trata-se de fazer da Política a tarefa de construir um Povo Forte, com seus instrumentos, instituições, ferramentas que vão gestando o novo na medida em que vão golpeando e destruindo o velho. Colocaremos no lugar do Estado e de seus aparatos as instituições das classes oprimidas, construídas desde baixo, articuladas e coordenadas entre si.

Como já escrevemos em outro momento,

“É certo que o trânsito até uma sociedade distinta deve ser feito dentro deste sistema. Mas a experiência vivida indica que existem meios, orientações, uso de instrumentos, de instituições e formas de organização de atividades sociais que devem ser dispensados se queremos ir conformando forças sociais capazes de produzir verdadeiras mudanças nas formas da organização social. É imprescindível outro enfoque se queremos ir construindo uma sociedade distinta. Não parece ser boa estratégia escolher aquelas vias, aqueles lugares e trajetos que tem dono e o poder de imprimir seu selo ao que ali entra.

Quantas organizações políticas, quantos lutadores cheios de ideais e sonhos terminaram pensando com a lógica do sistema e vendo como inimigos a seus queridos companheiros de ontem.
Outro sujeito histórico não virá do nada, não aparecerá como arte de magia, deve ser o fruto de práticas que internalizem outras questões que chocam com o dominante. A participação efetiva, a autogestão, a ação direta, a forma federal de funcionamento realmente democrático, a solidariedade e apoio mútuo, necessitam de mecanismos, organizações, práticas regulares para seu desenvolvimento. E só se produzida no povo é que a mudança se tornará uma realidade.

Uma estratégia que tenha em seu interior um mundo distinto que vai emergindo desde o seio de outro que lhe é antagônico. O famoso “usar todos os meios” pode ser uma maneira efetiva de assegurar que não se construa nenhuma estratégia antagônica portadora dos elementos de desestruturação do sistema vigente.
Relacionado a isso, está a necessidade de forjar um inconfundível estilo de trabalho.

Um estilo de trabalho também é elemento da produção ideológica, se define como um modo especial do fazer político-social em todos os seus atos, no discurso, no comportamento de grupo, nas relações entre companheiros e com a sociedade, nos planos de ação, etc.. A ideologia libertária se materializa, é produzida e reproduzida, entre outras coisas, nessa forma estimulada de representar seus valores, sua ética e aspirações nas práticas de todos os dias. Assim, o estilo de trabalho que marcamos nos processos de luta e organização, em uma boa medida, vai dizer quem somos pelo que fazemos, como fazemos, com que coerência ideológica estão formados nossos atos de organização militante.

Reconhecer entre iguais a dignidade do outro, como irmãos na luta e no projeto para mudar a sociedade, sempre será a base da estrutura e das normas jurídicas que constituem um pacto federativo. A fraternidade que permeia um projeto militante dá o vínculo moral fundamental para formação das relações de confiança. E a política, como apontam as investigações teóricas que temos estudado, tem suas razões e suas sem razões. Não é só feita de escolhas racionais, tem boas doses de conteúdo sensível, está atravessada pelas formações ideológicas que constituem o sujeito.

Está em jogo uma pedagogia do exemplo, a forja de referências a partir daquilo que fazemos, pelos valores que veiculamos em nossas práticas, e nas nossas ações diárias.

O estilo pra promover nessa perspectiva deve produzir: iniciativa pras tarefas, responsabilidade plena com os mandatos coletivos, resoluta solidariedade, pedagogia do exemplo, liderança moral, maturidade para crítica, exigência fraterna, preocupação formativa.

São esses alguns dos desafios a que nos propomos todos os dias ao participarmos do movimento sindical, do movimento estudantil, na militância nos bairros, vilas e favelas; nas lutas urbanas, contra as violências de gênero e raça; no campo e na floresta e em toda ação de solidariedade aos enfrentamentos da diversidade dos sujeitos que compõe as classes oprimidas. UNIR O DISPERSO, ORGANIZAR O DESORGANIZADO, SOLIDARIEDADE É MAIS DO QUE PALAVRA ESCRITA, RODEAR DE SOLIDARIEDADE OS QUE LUTAM, são algumas consignas que expressam bem de que transformação social estamos falando.

Porque é mais importante para nós CRIAR UM POVO FORTE do que UM PARTIDO FORTE. Uma nova articulação entre o POLÍTICO e o SOCIAL, como dois planos de ação simultânea e devidamente articulados. Mas cada um com sua independência relativa, com sua própria especificidade. Somos assim partidários de um trabalho simultâneo, dentro de um mesmo projeto: da organização política libertária e do trabalho em todo o campo social.

Esse é o nosso especifismo, essas são as bases da nossa construção.

E que Base precisamos para esses tempos difíceis em que estamos vivendo. Já vivemos épocas difíceis, pois quem não se lembra do ataque aos profesores, aos catadores e aos sem terra no governo Yeda do PSDB, em que o sempre presente Elton Brum da Silva foi assassinado com um tiro de calibre 12 pelas costas pela Brigada Militar? Ano em que tivemos nossa sede pública invadida e companheiros procesados. Quem não se lembra dos 10 mil gaseificados, das balas de borracha, das pauladas, da violência psicológica e da nova invasão de nossa sede pública assim como de casas de outros lutadores sociais na jornada de lutas de 2013 durante e sob as ordens do governo Tarso Genro do PT? Ano em que companheiros foram procesados, presos e criminalizados em processos judiciais políticos e ideológicos.

2013 merece nossa consideração a parte, pois foi um ano intenso e atípico para nossa militância. Participamos desde o inicio das jornadas de luta por um transporte 100% público em Porto Alegre. Construímos juntos e em unidade com outros setores da esquerda o Bloco de Lutas pelo transporte público e fizemos días memoráveis lado a lado de milhares de lutadores. Não poderia ser diferente. Assim, Porto Alegre formou parte de um processo nacional de lutas que brindou novos elementos para nossa análise. Diziamos na ocasião de nosso 6º Congresso:

“O povo fez dias de luta no país que se fizeram irreprimíveis em junho. A luta por um transporte público coletivo, que é organizada por militantes de esquerda de um movimento social que leva anos, e a indignação com relação aos altos gastos na Copa das Confederações em detrimento de outras áreas como saúde, educação, etc.; deu vez a um turbilhão de demandas que latejavam na vida neurótica, precária e estafante dos setores médios e populares. Grande parte da geração jovem e combativa que forma as mobilizações de massa dessa hora cresceu nos últimos 10 anos de governos do PT e encarna a expressão conflitiva e saturada do seu modelo capitalista de crescimento econômico.

Traz na bagagem a confusão e as incertezas que se gestam numa nova experiência com a política, com um imaginário nos protestos que sacodem o mundo, muito apoiada aos modos de interação e reconhecimento social que produzem as novas tecnologias de comunicação. O povo em conceito amplo não opõe classe contra classe e joga na cena dos acontecimentos uma disputa de ideias, de valores e projeto social para atuar criticamente, com uma concepção classista em dia com a formação social brasileira dos tempos que vivemos. Contudo, não temos dúvidas que o movimento que vem debaixo é o terreno mais fértil para fazer luta de classes, construir democracia direta e desenvolver músculos para uma estratégia de poder popular.

Na gestação dessa nova correlação de forças a luta contra o aumento das tarifas do transporte coletivo é a expressão mais articulada de uma avalanche de sentimentos e demandas reprimidas que extrapolam os controles dominantes da sociedade brasileira.

As chamadas jornadas de junho e julho foram, portanto, expressão do descontentamento com o quadro acima descrito. Indicam, por sua composição, magnitude e mesmo pelas formas com que foram convocadas em algumas cidades, mudanças e elementos a tomar em consideração na hora de concebermos uma estratégia própria daqui pra frente.”

Levando em consideração estes e outros elementos, procuramos caracterizar o período (a etapa) em que estávamos entrando como uma ETAPA DE RESISTÊNCIA COM VIÉS COMBATIVO. Por este conceito, sem referência com velhos esquemas que sugerem um traçado reto e linear do processo social-histórico, quisemos representar um cenário político para os fatores de cambio social e os elementos característicos de uma correlação de forças na sociedade.

“A luta das classes oprimidas e do projeto socialista passa uma etapa de refluxo, de restruturação dos meios organizativos, de ações dispersas e fragmentárias que não alcançam formar um conjunto com elementos ideológicos e programáticos que façam um antagonismo forte ao sistema. Uma parte importante dos setores populares, das organizações e sindicatos, embarcam nas velhas promessas do crescimento econômico e se curvam para as ideias do neodesenvolvimentismo. Há uma crise de movimento social, de organizações de base, de forças acumuladas pela luta que superem atos espontâneos e alcancem a ação federada. Estão seriamente ajuizadas pela história recente as estratégias de esquerda que buscam mudanças sociais por dentro das instituições funcionais as relações do poder dominante. O tempo é de divisão de águas, ajuste de lentes para pensar as condições e possibilidades da relação de forças do momento. Exige capacidade de inserção de um projeto finalista revolucionário no interior dos problemas e conflitos deste presente histórico. Trabalho de base entre as demandas populares que não são absorvidas pelos controles do modelo capitalista, na direção de um povo forte, de práticas de ruptura que favoreçam a construção histórica de um sujeito antagonista as estruturas do capitalismo.”

Neste sentido concreto e operativo que aplicamos esta categoria para fazer baliza de condições e possibilidades de nossa prática política. Contudo, tinham emergência na cena dos acontecimentos históricos, ventos novos que nos provocaram uma leitura mais matizada, elementos conflitivos com certo peso ideológico que indicavam abertura para um passo diferente. Percebíamos a possibilidade de uma acumulação de forças combativas que até então estava fora de nosso panorama.
Deriva daí nossa aposta estratégica expressa no conceito de intersetorial dos combativos:

“vamos operar nesta etapa com uma proposta militante para ligar o espectro das lutas sociais que confrontam com o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa mínimo de soluções populares. Ajudar na forja de unidade de baixo pra cima, criar um povo forte que imponha na cena nacional uma nova correlação de forças pra aplicar um projeto de transformação social.

Nessa linha atravessa o trabalho metódico e determinado de radicar nossas posições libertárias em organizações de base, em sindicatos, coletivos e movimentos sociais que serão nosso vetor social. Mas vai além. Implica fazer uma costura com outros setores sociais e políticos que atuam também onde não alcançamos, não pisamos, pra formar um campo de alianças dentro de princípios e acordos que fortaleçam uma posição de força para a independência de classe. Que favoreça, concorra e apoie a gestação de uma nova estrutura de massas, catalizadora do poder social das classes oprimidas, articulada pelas bases, que não se integre nas vias burocráticas dos controles institucionais burgueses.”

Desde então muita água rolou. Entramos no ano de 2015 e novos elementos se apresentaram na conjuntura do RS. O eleito ao governo estadual, o gringo José Ivo Sartori do PMDB, veio para aprofundar os ataques aos direitos e condições de vida dos de baixo. Aprovou um pacote de medidas que cortou fundo na carne do povo oprimido em benefício da manutenção dos privilégios e lucros de governos e patrões. Parcelou salários do funcionalismo estadual, quis extinguir orgãos públicos fundamentais à pesquisa e preservação ambientais e cortou verbas de áreas imprescindíveis aos trabalhadores como as de saúde e educação. Sem falar na sua brigada militar que segue matando a juventude negra e pobre nas periferias.

“Ao lado do ajuste que saca dinheiro dos hospitais e postos de saúde, das escolas, programas sociais, da ampliação do espaço comum e da rede de serviços públicos que aumentam bem estar e condições de vida do povo, é martelada diariamente, sobretudo pela voz do grupo RBS, a bandeira da segurança. O grupo de comunicação que é bom pagador de propina pra sonegação fiscal, dono de um patrimônio que figura na lista seleta das elites gaúchas, avaliza o ajuste e faz campanha de terror e medo pra reclamar mais segurança. Aí está! Segurança é um discurso que dá sentido e faz funcionar um poder de controle e vigilância que institui a paz para a vida normal do sistema e dos bem nascidos e que instala a guerra que pune e criminaliza a pobreza. A segurança que ecoa fundo nas preocupações das elites e da classe média é a que sempre reforça a violência policial sobre as “classes perigosas”.

“Faltam recursos porque os capitalistas reservam os privilégios e os lucros para suas propriedades e estouram as contas públicas nas costas do povo. Todo um sistema de pilhagem que funciona pelo mecanismo da dívida pública, que espreme o patrimônio construído pelos trabalhadores, que desmonta e privatiza bens públicos e produz um discurso econômico liberalóide de déficit e responsabilidade fiscal. Os partidos de governo se sucedem sempre dentro desta ordem: uma camisa de forças do sistema que todos vestem. O PT subscreveu os contratos com o Banco Mundial durante o governo Yeda Crusius que ampliou o poder do sistema financeiro sobre o controle dos gastos públicos. Na sua vez no Piratini, Tarso Genro teve que amargar a pena de devedor do Piso Nacional do magistério.”

Um contexto em que frente aos ataques dos de cima, houve luta e resistência dos de baixo.

“Uma série de setores sociais dão fôlego a seus processos de mobilização e indicam a disposição de luta para dar combate a lógica imposta pelos de cima que precariza a vida do povo. Diversas mobilizações e ações de rua que no nosso entendimento contribuem para o fortalecimento da organização, capacidade de enfrentamento e acúmulo de forças dos de baixo para o próximo período. Experiências como as greves em curso, os piquetes, as manifestações de rua, o diálogo com a população e os cortes da via pública em todo o Estado são ensaios de um processo que não termina aqui.”

Infelizmente, as burocracias sindicais fizeram de tudo para frear os ânimos e conduzir as rebeldias populares para a arena institucional de seus partidos da ordem. O desespero e a indignação dos trabalhadores frente a essa política de austeridade não encontraram eco e canais adequados para a promoção de uma luta sem trégua que alterasse a correlação de forças em seu favor. Acelerar pisando no freio e manter o controle e a ordem das ações de base das categorias foram e são marcas de uma concepção sindical burocratizada e verticalizada que não se movimenta no sentido de organizar e dar impulso a disposição de luta da base.

A mobilização do funcionalismo público estadual, em especial os trabalhadores em educação gaúchos, é um exemplo emblemático dos resultados nefastos de tal concepção sindical. Deslegitimar e isolar as iniciativas combativas de setores de base; apostar numa greve unificada com setores da repressão; fazer da categoria base de apoio a politicagem de seus deputados na Assembléia Legislativa; promover fragmentadas paralisações para fingir que faz pressão nos políticos de turno ao invés de promover, organizar e favorecer uma greve por tempo indeterminado com a solidariedade e participação dos estudantes e das comunidades para dar uma resposta a altura dos desmandos do governo; são alguns dos feitos responsáveis pela desmobilização de uma categoria que há anos não se mobilizava como se mobilizou.

E como não seria diferente…

“Nessa conjuntura, a criminalização veio forte. Por lutar, rodoviários da Carris em solidariedade a paralisação estadual do dia 03/08 foram demitidos, e os servidores municipais da Assistência Social e da Saúde de São Leopoldo-RS sofreram processo de criminalização judicial. Esses são nítidos exemplos de perseguição política e sindical e é emblemático o caso da Carris em que os demitidos são militantes sindicais que tiveram seu direito ao trabalho anulado.

E ainda sobre o aparato repressivo,

Duas prisões na capital durante uma Manifestação de trabalhadores da Educação vinculados ao Cpers. Além desse fato, cabe destacar a intimidação realizada pela “segurança” nos piquetes no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) e o assassinato, pelas costas, de um jovem negro no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre. Esses são nítidos indícios de que a repressão nunca estará ao lado dos trabalhadores e dos de baixo e que seu papel é de repressão aos que lutam e de extermínio da juventude negra e pobre das periferias.

“Nem com os que mandam por cima, nem com os que reprimem por baixo!” diziamos.

Nacionalmente, uma conjuntura de intensificação nos ataques aos direitos dos trabalhadores, do golpe dos ajuste fiscal que corta na carne e no bolso dos de baixo para manter os privilégios e os lucros dos de cima, de aumento da violencia contra as mulheres, em especial as mulheres negras, de retrocesso nos processos de demarcação das terras indígenas e quilombolas; de aumento da criminalização da pobreza e do protesto; de cortes de verbas na educação e de forte investida de setores conservadores contra uma educação transformadora; de lei dita “anti-terrorista” mas que na verdade é uma lei contra os movimentos sociais. Tudo isso no marco de um lastro político e ideológico de desarme organizativo das classes oprimidas deixados por 12 anos de governo petista. Esses são alguns dos elementos atuais que precisamos ter em conta na hora de atuar.

Um novo ciclo também parece se abrir na politicagem e nas disputas entre vizinhos de um mesmo condominio, o dos de cima. Uma nova descontinuidade que vai reelaborar elementos gestados no pasado recente para manter a dominação político, económica e ideológica de sempre. Assim, afiar os nossos instrumentos para uma conjuntura e quem sabe uma etapa mais peleada para os de baixo é demanda permanente. Nossa FAG e nossa CAB estará ai! Assim como estarão ai nossa FAU, nossa FAR e todos os nossos companheiros e companheiras que de cima a baixo de nossa América Latina e de todos os outros continentes vem construindo processos de luta e organização.

São curdos, africanos, norte americanos, mapuches, kaingang, chilenos, uruguaios, argentinos, brasileiros, quechuas, palestinos, gregos, guaranis, espanhóis, zapatistas, entre tantos outros povos, os que lutam, se erguem contra as opressões, forjam exemplos, inscrevem pelas suas práticas, referências! É sobre todos que a criminalização se coloca. É assim, uma luta que deve ser feita em conjunto e a partir da diversidade de lutas, de combate as opressões e dominações que cada segmento dos de baixo levanta!

É porque não esquecemos os milhares de Eltons, de Claúdias, de Amarildos, de Zumbis, de Dandaras, de Elenas, de Pochos, de Idilios, de Espertirinas, de Hebers, de Louises, de Lucys, de Polidoros, de Domingos, de Emmas, de Marias Lacerdas e de tantos outros homens e mulheres inscritos em nossa memória com seus exemplos de luta e resistência que ESTAMOS AQUÍ!
E AQUÍ ESTAREMOS ATÉ O FIM DESSE SISTEMA DESUMANO E CRUEL CHAMADO CAPITALISMO!

QUE VENHAM MAIS 20, 30, 50, 100 ANOS A ENRAIZAR ANARQUISMO!!!

NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA!

VIVA A FAG, VIVA A CAB!

VIVA A ANARQUIA!!!