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SOLIDARIEDADE AO POVO EQUATORIANO EM RESISTÊNCIA AO PACOTE DE MEDIDAS E À REPRESSÃO DE LENIN MORENO

Nota da Federação Anarquista Uruguaia, Coordenação Anarquista Brasileira, Federação Anarquista de Rosário, Federação Anarquista Santiago e Roja Y Negra

Manifestamos nossa mais profunda solidariedade com o povo equatoriano, nesse momento mobilizado contra o pacote de medidas do presidente Lenin Moreno e suas políticas de ajustes e fome. Pudemos observar nos últimos meses como o regime de Moreno tem avançado sobre os setores populares, tentando atacar suas principais conquistas. Exemplo disso são das tentativas de aumento dos combustíveis (o que provocará aumento imediato dos produtos da cesta básica, o transporte e o custo de vida), e a proposta de uma reforma trabalhista antipopular, que expressa o aprofundamento de políticas de corte neoliberal.

A isso, devemos somar uma retomada de relações carnais com o imperialismo norteamericano e o reestabelecimento de apoio à organismos credores como o FMI, em uma economia já dolarizada há muitas décadas.

Mas os setores populares, sindicatos e organizações sociais e os povos originários de Equador, longe de ser espectadores do processo de desmantelamento, vem oferencendo resistência com atos e manifestações. Nos últimos dias, o descontentamento popular transbordou-se pelas ruas em manifestações com milhares de pessoas nas principais cidades, o que fez o Estado responder com a maior brutalidade, deixando cerca de 300 feridos, e colocando o país em Estado de sítio.

Se a situação é bastante crítica, e se vivem horas decisivas para o povo equatoriano, as organizações populares decidiram seguir nas ruas para resistir ao avanço da repressão – de tons ditatoriais – e rechaçar de maneira contundente o avanço neoliberal, fazendo frente ao avanço imperialista na região. A consigna que se repete nas ruas de Quito, Guayaquil ou Cuenca chama a se aprofundar a luta e a resistência contra as forças repressivas e o Estado equatoriano.

Desde nossas regiões, não podemos fazer outra coisa que somarmos a fazer resistência e pressão nesse sentido, indo inclusive nas embaixadas e consulados do Equador.

Viva a resistência do povo equatoriano!
Abaixo o pacote de Moreno!
Arriba los que luchan!!

Assinam:
*Federación Anarquista uruguaya – FAU (Uruguai)
*Coordenação Anarquista Brasileira – CAB (Brasil)
*Federacíon Anarquista de Rosario (Argentina)
*Federación Anarquista Santiago (Chile)
*Roja Y Negra (Argentina)

ANÁLISE DA CONJUNTURA LATINO-AMERICANA

ANÁLISE DA CONJUNTURA LATINO-AMERICANA

América Latina, terra indômita e rebelde, herdeira de séculos de lutas e resistências, onde a magia invade o realismo, lugar onde passamos por uma situação crítica em termos ecológicos, humanitários e sociais. Hoje presenciamos um momento crucial, em que as ameaças sobre nossos corpos e territórios são cada vez mais concretas e por isso a indecisão e as meias medidas devem ser combatidas com posições e propostas. É nosso dever histórico, como anarquistas, gerar espaços de debate e crítica onde possamos entender os dias de luta que se aproximam da gente. Além disso, é necessário apresentar novas categorias de análise para poder atingir de maneira muito mais certeira aqueles que hoje nos submetem.

Durante as últimas décadas, nossos territórios serviram como espaço para as disputas geopolíticas dos imperialismos: China, Estados Unidos, Rússia, Turquia, entre outros, estabeleceram seus interesses sobre os espaços que habitamos. Devido a isso, é necessário romper com a velha análise baseada na guerra fria, em que os interesses dos EUA se instalavam no continente sem nenhum contrapeso. Hoje existem muitos atores nessa disputa geopolítica. Não podemos cair na miopia e dirigir todas as nossas críticas somente aos EUA, que obviamente nessa disputa geopolítica tenta garantir esta área como seu “quintal”, como sempre quiseram que fosse. Porém, mesmo que eles tenham altos níveis de responsabilidade pela miséria em vastos territórios, eles não são os únicos que tentam aplicar uma política imperial.

Nos encontramos diante de um forte avanço da direita e da extrema direita por todos os lados da América Latina. É um fenômeno de escala mundial, já que diversos partidos com essas orientações estão crescendo eleitoralmente na Europa há três décadas: em países do ex bloco do leste, a extrema direita renasceu com inusitada força e em todo o resto do continente europeu diversas expressões direitistas ganham espaço. Nos EUA, Donald Trump é uma amostra desse fenômeno, com a particularidade de que isso tem efeitos, em sua política imperial, para a área latino-americana e o mundo.

No governo Obama, os EUA apoiaram e organizaram o Golpe de Estado em Honduras, em 2009, iniciando aos poucos essa guinada na direção de um maior controle sobre o que eles chamam de seu “quintal”. Esse golpe teve continuidade no golpe no Paraguai em 2012 e no “golpe brando” no Brasil em 2016. Esse ambiente facilitou a vitória eleitoral de Macri na Argentina em 2015 e de Duque na Colômbia em 2017. O único país onde o “progressismo” avançou foi o México, e isso é muito discutível.

A direita organizou seu “retorno” à frente dos governos. Em todos os países elaboraram fortes campanhas contra os “progressismos”, com foco na anticorrupção – na qual estão  envolvidos todos os setores políticos, como ficou evidente no Brasil com a Lava Jato – mas além disso se organizaram no nível latino-americano, sempre contando com o apoio imperial.

Os governos de Macri e Bolsonaro somaram apoio ao Grupo de Lima, esse conjunto de governos reacionários que vociferam “democracia” mundo afora mas aplicam políticas antipopulares e repressivas portas adentro. E particularmente no caso de Bolsonaro, que fala diretamente contra a democracia burguesa, instalando abertamente a ideia de governos ditatoriais.

Esse grupo de países é o que serviu de cobertura latino-americana para os intentos golpistas da direita venezuelana apoiada pelos EUA. Eles lidam abertamente com a possibilidade de uma invasão estadunidense sem rodeios, como nos velhos tempos, recorrendo aos mecanismos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

Essa guinada continental para a direita não é algo menor. O sistema capitalista, depois de uma feroz aplicação do neoliberalismo, permitiu diante de embates populares algumas “mudanças”, algumas melhoras, certo “afrouxamento” para aperfeiçoar a dominação e a espoliação constante das e dos debaixo. No período chamado “progressista” houve certas políticas sociais de contenção da pobreza,  com medidas diferentes em cada país. Havia como denominador comum permitir certa melhora na vida dos setores mais pobres da sociedade, só que administrando a pobreza: não geraram políticas de trabalho real, deixaram as pessoas pobres no lugar do assistencialismo, ou no máximo como mão de obra terceirizada e precária, com o próprio Estado terceirizando tarefas, enriquecendo empresas ou ONGs e gerando uma classe trabalhadora muito mais precária e sem direitos, amputada de suas instituições e de seus processos de luta.

O extrativismo, tanto dos governos “progressistas” de diversos tipos quanto dos liberais, o extrativismo como regime e dinâmica neocolonial imperante em toda a América Latina, só aprofundou o intercâmbio desigual entre territórios e a divisão internacional do trabalho como expressões históricas da luta de classes, intensificando a exploração de grandes volumes de natureza (commodities) para exportação. A reacomodação geopolítica elaborou novas estratégias para aumentar a circulação de mercadorias para os centros industriais, abrindo estradas em lugares antes nunca pensados, como a série de projetos da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA) e do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN), novos projetos de tratados de livre comércio como a Parceria Transpacífica (TPP-11, que inclui México, Peru e Chile como países latino-americanos), disputando os últimos bens naturais comunitários do planeta. Suas consequências trouxeram questões inerentes a essa dinâmica de exploração da natureza, abrindo importantes processos de desterritorialização através de migrações locais e globais, a perda da biodiversidade, o aumento da violência contra os corpos feminizados e racializados (mulheres e outras sexualidades – não binárias e trans), incluindo assassinatos de aluguel e, finalmente, os casos de corrupção que vimos no Caso Odebrecht, que envolve uma rede entre diferentes países.

Cabe mencionar que a hegemonia dos “progressismos” na década de 2000 intensificou o roubo e a espoliação de nossos territórios, já que seus programas com “ênfase social” se baseavam na extração de bens naturais e na venda para os países industrializados. Nesse sentido, os governos “progressistas” redistribuíram migalhas de uma época de bonança, de crescimento do preço internacional dos commodities.

Geraram algumas melhoras salariais e políticas sociais, porém não se tocou no fundamental do sistema. Essas políticas tinham como denominador comum elevar as condições de vida dos setores mais pobres da sociedade, funcionando simultaneamente como elemento de contenção social enquanto se construíram aparatos estatais repletos de uma casta política acomodada e parasitária, sem questionar o arrendamento da terra e o extrativismo como pilares econômicos do mal chamado “progresso”.

Ao mesmo tempo, as classes dominantes latino-americanas multiplicaram seus lucros e o abismo entre ricos e pobres aumentou. Só que os ricos não queriam perder o controle administrativo do Estado. É o Estado deles: parte de seu poder de classe está enraizado ali e se condensa em suas instituições. Eles não estavam dispostos a permitir que uns “recém-chegados” tirassem o controle do Estado deles por muito tempo. Alguns anos eles até podiam aguentar, enquanto arrumavam a casa depois do saque dos anos 90. Mas já estavam perdendo a paciência.

Isso significa que os governos “progressistas” são a saída necessária e que são a antítese da direita? NÃO. Em primeiro lugar, além de permitir um enriquecimento histórico das burguesias locais e multinacionais, os governos “progressistas” redistribuíram poucos recursos em um momento de crescimento do preço internacional das matérias primas. Quando terminou o “boom” voltaram as dificuldades econômicas e a crise. Só que eles não usaram esse “período de bonança” para investir em geração de trabalho em nível industrial, nem se elaborou nenhuma Reforma Agrária, nem a transformação radical dos serviços para a população etc. Os governos “progressistas” permitiram um desembarque de projetos de extração de bens naturais em grande escala no continente: grandes projetos de mineração, de exploração de petróleo, de plantação de soja e florestas para extrativismo, hidroelétricas… tudo em benefício do capital internacional, especialmente chinês nos últimos tempos. Tudo isso como parte do plano da IIRSA, plano de espoliação elaborado nos EUA. As linhas gerais do sistema não se modificaram, simplesmente se adequaram a uma nova etapa que, então, contando com certo consenso popular, tornava mais fácil implementar a fundo a política de espoliação.

A redistribuição da riqueza foi bastante limitada. Como dissemos, não se tocou no fundamental do sistema: a propriedade privada, nem uma maior redistribuição da riqueza nem as relações de poder. Mesmo assim, a burguesia e os setores mais conservadores não estavam mais dispostos a tolerar Lula, Cristina e Néstor Kirchner ou quem quer que não venha da “alta estirpe”. Um nítido ódio de classe percorre o continente e destila seu veneno sobre os povos.

Mas também nesse período se produziram dois processos que têm as suas peculiaridades nesse contexto: o venezuelano e o boliviano. Na Venezuela, impulsionadas em seu momento por Chávez, se criaram diversas “comunas” que, segundo dizem algumas notícias de jornal, têm hoje em dia um número considerável de povo envolvido e certo desenvolvimento em atividades econômicas, culturais e sociais, sem vinculação alguma com o Estado. Aconteceu ali uma ruptura comparando com o período anterior, em que até militares, burocratas e bolirricos (“bolivarianos ricos”) queriam controlar esse processo e encher os bolsos com o dinheiro que tinha sido investido nessa experiência.

Na Bolívia, há um “Estado plurinacional” dividido, porém, com influência do movimento indígena e camponês, aquele mesmo que protagonizou em 2000 e 2003 as insurreições da “guerra do gás” e a “guerra da água”, botando abaixo governos e colocando freios no neoliberalismo. Essa mobilização dá um caráter diferente aos processos históricos que os povos vivem. Temos que lembrar que, no período anterior, o continente foi sacudido por amplas mobilizações populares que derrubaram mais de um governo.

Mereceria um capítulo especial a situação da Colômbia em que, depois de assinados os “acordos de paz”, foram assassinados mais de 570 militantes sociais. Um setor das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) voltou à luta armada, o que demonstra que não existem garantias nem possibilidade de pacificação no país. Os paramilitares, grupos de narcotraficantes e o Exército continuam articulados aumentando a violência contra as e os debaixo. A Colômbia vive em guerra constante: no entanto, a mídia mostra seu governo como “democrático”, embora seja o país latino-americano que mais recebe apoio militar dos EUA e que é vital para seus interesses, até pela possibilidade de acirramento no conflito na fronteira com a Venezuela.

Nos últimos anos o movimento popular colombiano tem protagonizado importantes lutas, especialmente as organizações camponesas e indígenas, nas quais os processos de ocupação e recuperação de terras tem sido mais do que relevantes junto com as paralisações agrárias.

Hoje a direita ataca com tudo diretamente contra a vida. Prova disso são os incêndios na Amazônia, em que governos como o de Bolsonaro dão “carta branca” para destruir a natureza e promover o genocídio indígena em benefício do agronegócio. É uma expressão de um protofascismo agressivo ao extremo, que não poupa esforços para implementar o sistema capitalista. É o neoliberalismo imposto com total agressividade e aplicando a máxima do império britânico: “cagando pra todas as consequências”.

Um forte ajuste

A burguesia latino-americana precisa retomar a direção dos governos em todo o continente. Precisa disso para impor um ajuste maior, um ajuste duro como o que Macri impôs desde 2015. Mas temos que considerar que essa direita já contava com fortes bases de apoio: no Peru ela não perdeu o governo em nenhum momento, incluindo todos os escândalos de corrupção possíveis, na Colômbia a ultradireita controla o governo com Iván Duque (lá quem governa é o uribismo) e no Chile a já dissolvida “Conciliação” governou em uma lógica pinochetista e neoliberal. Plataforma de lançamento nada desprezível.

Muitas dessas guinadas vieram do próprio “progressismo” ou de seus aliados. Lenin Moreno no Equador era o sucessor de Rafael Correa e deu uma guinada importante em nível político tanto interno quanto na região. Michel Temer deu um “golpe brando” parlamentar sendo o vice-presidente do governo de Dilma Rousseff.

No Uruguai, diversas referências da Frente Ampla se descolam agora da Venezuela e qualificam o governo daquele país de “ditadura”, em sintonia com o Grupo de Lima e com a OEA. Alguns deles, como José Mujica, que até ontem recebia mãos cheias de dinheiro da Venezuela, hoje se mostra como ele é: um oportunista que muda de posição conforme sopra o vento. Agora a Venezuela não envia mais dinheiro por causa do bloqueio econômico e da crise que o país está vivendo, gerada e aprofundada entre outros mecanismos pela OEA, cujo secretário geral, Luis Almagro, foi colocado ali com grande ajuda do próprio Mujica. Se pode dizer que entre os “progressismos” se encontram personagens de toda laia, dignos de uma crônica das maiores infâmias da humanidade.

No Uruguai vai ter eleição em outubro-novembro, assim como na Argentina. A disputa é o grau de ajuste e de garrote: se a Frente Ampla conseguir seu quarto governo vai haver um ajuste e uma guinada à direita de menor grau do que se ganhar a oposição, porém a discussão é o grau do ajuste. E isso vai ser acompanhado de repressão, o que já se está vendo nas manifestações contra a instalação da terceira fábrica de papel do país, em que a polícia sai defendendo os interesses do capital multinacional em um governo “progressista”. E a direita simplesmente viria com o libreto neoliberal duro e puro.

As alianças feitas em muitos casos por ditos “partidos progressistas” são próprias de um filme de terror: o PT se aliou até com a direita mais rançosa e reacionária para conseguir votos no parlamento… comprando votos com dinheiro também, como se demonstrou nas tramas no Mensalão e da Lava Jato.

Mas é aqui que a direita coloca para funcionar à toda os mecanismos do sistema que, em outros momentos, não recebiam essa relevância: o sistema judicial foi utilizado como um dispositivo de poder sinalizador, por si, de corruptos e vários juízes são os novos “cavaleiros” da austeridade e da justiça. E neste exato momento se está demonstrando que a trama de corrupção é maior do que podemos imaginar e que o jogo da direita não mede esforços para tirar quem ela quiser do meio do caminho.

A direita quer o controle político total e retomar as negociações que permitem a condução do Estado: licitações, subornos, compras e negócios, vários dos quais ela nunca esteve ausente, mas a sua voracidade não tem limites. Há uma espécie de “genética” que lhe indica que, por mais que os governos “progressistas” governem para a direita, protejam seus negócios e seus interesses de classe, que contenham as pessoas pobres e reforcem o aparato repressivo, esses “progressistas” não vêm da estirpe dela, não são burgueses de linhagem pura. Para a burguesia, no fundo eles não são confiáveis, mesmo que tenham feito muito bem a tarefa. Tem aí um instinto de classe que essa burguesia industrial-rural-financeira-comercial latino-americana expressa, um evidente ódio de classe que ela lançou às ruas com força inusitada. Ela não quer perder nem uma pontinha de poder. Não está disposta sequer a tolerar medidas paliativas, para não falar de reformas a céu aberto como ocorreu em décadas passadas com os populismos ou os governos desenvolvimentistas ou liberal-reformistas. Essa burguesia é liberal de linhagem pura: em seu sangue circula o ódio às e aos debaixo e uma sede constante de converter o mundo todo em um negócio.

E para que esse negócio funcione é necessário mais e mais terror de Estado. Os ataques vêm de todos os lados, com reformas trabalhistas e de previdência, cortes de orçamento na educação, vista grossa para queimadas, desmatamento e assassinatos de indígenas e pobres. Por outro lado, a esquerda eleitoral segue com seu discurso institucionalista e desmobilizador das bases. No Brasil, as centrais sindicais chamam paralisações de um dia de “greve geral” e não parecem conseguir se dissociar do chamado “Lula livre”. No entanto, nossos esforços seguem sendo fomentar a organização pela base e apoiar lutas com ação direta, como as ocupações de indígenas na Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), contra as demissões em massa nesse órgão de saúde pública, e as greves e ocupações estudantis em universidades, como o exemplo da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) contra a intervenção federal que colocou ali um reitor bolsonarista em vez do reitor eleito pela comunidade acadêmica.

Enquanto os palácios estão formulando leis e projetos de crises, mais liberação econômica, menos direitos para as pessoas e mais lucros para os exploradores, a repressão nas ruas das cidades ataca o povo em revolta e trata de manter as pessoas em silêncio na base da bala.

No campo e florestas está a raiz de uma América Latina que não desfrutou da bonança da “esquerda” no governo. Não apenas as queimadas e o avanço ecocida dos latifundiários fazem vítimas, mas também o genocídio sistemático das populações rurais e nativas, cujos corpos continuam sendo acumulados como resultado direto do avanço da ultradireita no continente.

Argentina: garantir a governabilidade deles ou defender o nosso salário

Os números alcançados nas últimas eleições não evidenciaram nada além do que se está vivendo na rua, nos bairros, nos locais de trabalho. Inclusive nessa instância legitimadora do sistema – como é a democracia representativa – se expressou o desespero das massas populares diante do desmantelamento do país. Podemos começar argumentando que o cálculo errado – tanto das consultorias quanto da classe política – do resultado eleitoral tem relação com o pouco nível de conhecimento desses setores sobre o que se vive abaixo, sobre o rechaço dos setores populares em relação às assustadoras políticas de fome, desemprego e exclusão de Macri e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O panorama social, econômico e político que nós, oprimidos e oprimidas, estamos vivendo é cada vez mais complexo e urgente. Em um contexto de recessão, no meio de uma espiral inflacionária e um endividamento sem precedentes, o Peso argentino se desvalorizou 25% imediatamente após as eleições. Isso se transferiu logo para o preço da cesta básica e os combustíveis, em um deliberado lapso de tempo outorgado pelo governo nacional, antes de lançar dez medidas como incentivo em uma tentativa de enganar novamente as classes populares. O resultado: uma estrepitosa redução salarial. Porém, não é nossa intenção falar demais sobre os números para descrever a proporção do dano causado na última jogada especulativa dos setores financeiros e o governo.

Mas nós sabemos que esse período de ajuste que dura já quase uma década, aprofundado pelo macrismo em níveis descomunais, vai ir além do próprio “fim do ciclo” da coalisão Cambiemos. Entre os candidatos, no fundo, se discutem modalidades de ajuste. É por isso que é coerente a proposta de Alberto Fernández de levar o dólar a 60 pesos. Tampouco devemos desconhecer que nos encontramos já em um contexto de duro avanço neoliberal em toda a região, em um continente onde o imperialismo estadunidense tenta retomar o controle hegemônico.

Nesse cenário dramático, devemos analisar que nitidamente se explicitam duas saídas institucionais concretas no imediato. Uma é a que propõem os dirigentes da Frente de Todos, que consiste concretamente em não fazer nada, esperar sentados até dezembro, garantir o fluxo de votos e resguardar a governabilidade (mesmo que isso implique bancar as medidas antipopulares de Macri). Como temos dito, a crise social provocada pelo avanço neoliberal foi diretamente proporcional à crise de falta de participação política da classe oprimida durante um longo período. Devemos lembrar que estamos vindo de décadas de restrição vinda de cima contra a participação popular, através de mecanismos de cooptação, clientelismo e burocratização, quando não de deslegitimação e repressão dos protestos sociais. Esse “paradigma da não participação” pôde ser evidenciado lá no início de 2016 quando, em pleno conflito contra demissões no setor público e no frigorífico Cresta Roja, a cúpula kirchnerista ficava convidando para tomar mate nas praças (o chamado “resistindo com perseverança”). Definitivamente, esse exacerbado pedido a “não bater panelas” – tentando inclusive frear medidas de força nos sindicatos – não esconde nada além da preocupação com a porcentagem eleitoral, em detrimento de impedir maiores níveis de pobreza e desemprego para o povo.

A outra saída a esse golpe contra o bolso das e dos debaixo tem a ver com o que se propõe nos setores combativos do movimento operário e as organizações populares, como a possibilidade de uma resistência organizada na rua. Logo que ocorreu a desvalorização da moeda, pudemos ver a resposta de alguns desses setores, como a manifestação da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE-Capital) e a paralisação da Associação Gremial de Trabalhadores Metroviários e Ferroviários (Metrodelegados) da Cidade Autônoma de Buenos Aires, assim como os cortes de Empregados do Comércio em Rosário. O plano de luta estendido dos trabalhadores estatais em Chubut sem dúvidas é um exemplo de resistência organizada contra as foiçadas do governo. Os movimentos sociais, por causa da fome nos bairros, também organizaram refeições populares em todo o país, em um contexto de um operativo policial de grande envergadura.

Do ponto de vista do anarquismo organizado estamos conscientes que não existe um clima generalizado de efervescência popular e muito menos de rebeldia profunda. Tem luta, descontentamento e altas expressões de rechaço à situação social, porém sabemos bem que estamos longe de um “fora todos” e que os sindicatos e movimentos sociais carecem de um programa de classe representativo. No entanto, é evidente que o humor social não tem os mesmos tempos que o calendário eleitoral. É óbvio que a classe política em seu conjunto tem mais medo da ideia de uma explosão social do que da ideia de que haja mais 10% de pobres. Inclusive, diante da iminente vitória de Alberto Fernández, a dirigência kirchnerista prefere uma vitória com pouca margem e descrença social do que um transbordamento popular com a pressão nas ruas. Neste momento devemos ter cautela. Sabendo que existem setores populares que depositaram esperança no voto e em propostas eleitorais “progressistas” – e que anseiam como nós por uma sociedade sem exploração – é necessário conversar com esses setores e chamar para a resistência imediata através da mobilização popular. Transbordar e transcender a imposição de “soluções vindas de cima” é uma questão vital para devolver a confiança na própria força e na organização das e dos debaixo, para que se expresse com vigor essa resistência que dá mostras de existir. A resposta popular aos roubos do governo e do capital financeiro não pode se fazer esperar. Diante da alternativa de garantir a governabilidade deles ou defender nosso salário, sempre vamos optar pela segunda, buscando com que estejam presentes os métodos que fortalecem as e os debaixo.

Chile: o “modelo” neoliberal funciona…. para os de cima

Na região chilena o sistema de dominação administrado pelo bloco dominante recrudesceu e aprofundou sua política neoliberal. Nesses dois anos de governo Piñera se desmantelou o pouco ou nada de direitos sociais que a classe dominada possuía e, por sua vez, houve um recrudescimento da repressão contra os setores em luta.

No mundo do trabalho assalariado, os instrumentos de flexibilização trabalhista se fortaleceram. Expressão disso é o Estatuto Trabalhista Juvenil e a Iniciativa de Lei que buscou aumentar a precarização do trabalho com o falso discurso de redução de horas de exploração, anulando a possibilidade de negociação coletiva com a patronal e flexibilizando ainda mais as condições do trabalho. Por outro lado, a reforma tributária garante o resguardo das taxas de lucro para o empresariado local e as transnacionais, em um contexto de crise e desaceleração da economia, prejudicando consideravelmente as classes dominadas.

Nos territórios, a Lei de Integração Social consolidou o monopólio de acesso ao solo para o mundo imobiliário, erradicando as comunidades da produção e gestão da cidade e seus territórios, impossibilitando a realização concreta de projetos autogestionados e participativos. O extrativismo e a mercantilização da terra e da água, hoje, mantêm nossos territórios em uma grave situação ecológica, com uma crise hídrica cada dia mais complexa, expandindo as zonas de sacrifício e a alteração dos ecossistemas, como os casos da contaminação da água potável em Osorno, onde se visibiliza a mercantilização das fontes hídricas através das empresas sanitárias, a situação de Puchuncaví-Quintero que não foi resolvida, a morte da vida camponesa, da fauna e da flora em zonas devastadas pela seca, e as falsas saídas que apresenta o bloco dominante através da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 25) e os tratados econômicos como o TPP-11 e a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), que vêm para reforçar o ataque aos corpos e territórios.

Atualmente presenciamos um recrudescimento do aparato repressivo e a criminalização dos protestos sociais. A lei Aula Segura, a Agenda Curta Antiterrorista, a Lei Migrante são mostras nítidas de que o aparato estatal atualiza e aprofunda sua ferramenta de controle e disciplinamento, golpeando fortemente a classe oprimida: ambulantes, feirantes agrícolas, comunidades Mapuche em resistência e estudantes secundaristas. Somado a isso, o assassinato de lutadoras e lutadores sociais tais como Macarena Valdés, Camilo Catrillana, Alejandro Castro e os feminicídios cada dia mais frequentes em espaços públicos, a homo-lesbo-transfobia e o racismo nos evidenciam o Estado de Exceção permanente em que estamos habitamos.

Se abre um novo período de luta e resistência

Ninguém nunca deu nada de presente para os povos. Todos os tempos são de luta, todos os períodos têm as suas complexidades. Agora que a direita e a ultradireita estão retomando o controle dos governos e os “progressismos” dão guinadas nessa direção em maior ou menor grau (caso da rearticulação peronista na Argentina ou uma eventual vitória da Frente Ampla com minoria parlamentar no Uruguai, por exemplo), se abre uma nova etapa de lutas, de resistências variadas e complexas. Porque todos os governos virão para cortar direitos, com algum grau ou plano de ajuste. Já não existe crescimento para repartir, apenas miséria e garrote. Portanto, os governos e as classes dominantes vão graduar os níveis de ajuste e repressão: alguns serão mais intensos, outros mais suaves, e outros, descaradamente, com extrema violência de classe. Todos esses regimes têm e terão em comum a defesa do interesse das classes dominantes latino-americanas e estrangeiras.

É por isso mesmo que vão se intensificar os níveis de luta popular. O neoliberalismo traz resistência. Eles sabem, por isso apostam com força na milicada. Porém os povos também sabem, intuem e desejam uma sociedade diferente. Os povos sabem que toda essa exploração precisa de um freio, que é preciso frear tanta arbitrariedade. Aí está toda uma história de luta dos povos indígenas, quilombolas, trabalhadoras e trabalhadores da cidade e do campo, estudantes, e as diferentes expressões e níveis de ação direta que ocorreram no continente. Feitos históricos que apontam um caminho, lutas atuais, recentes, que convocam amplos setores do povo a continuar indo para a rua, para ocupar e recuperar terras, para defender a vida.

Esses tempos que estão vindo exigem de nós, militantes anarquistas organizadas/os politicamente, que intensifiquemos o esforço militante e tratemos de oferecer as ferramentas necessárias ao campo popular para resistir e avançar em uma perspectiva de longo prazo.

Um longo processo de luta nos convoca. Um longo caminho de anseios e esperanças, de experiências compartilhadas, de dores mas também de vitórias, de avanços. O Anarquismo Especifista tem muito a dizer e um papel a assumir na construção dessa sociedade diferente. Nas nossas organizações e espaços militantes tem lugar para todas as pessoas que buscam maiores níveis de militância e compromisso, para todas as pessoas que colocam o melhor de si a serviço da causa das e dos debaixo.

É nesse debaixo que o Socialismo vai encontrar militantes, construtores e construtoras. Podemos dizer que a única alternativa a esse mundo de barbárie é o Socialismo, e que o Socialismo será Libertário ou não será!!!

PELA CONSTRUÇÃO DE PODER POPULAR!!!

FORTALECER A RESISTÊNCIA!!

ARRIBA LAS Y LOS QUE LUCHAN!!

FEDERACIÓN ANARQUISTA URUGUAYA (FAU)

COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA (CAB)

FEDERACIÓN ANARQUISTA DE ROSÁRIO (FAR) – ARGENTINA

FEDERACIÓN ANARQUISTA DE SANTIAGO (FAS) – CHILE

GRUPO LIBERTARIO VÍA LIBRE – COLOMBIA

ROJA Y NEGRA ORGANIZACIÓN POLÍTICA ANARQUISTA (RYN OPA) – BUENOS AIRES, ARGENTINA

[CAB-FAU] Declaração da Federação Anarquista Uruguaia e da Coordenação Anarquista Brasileira sobre a situação na Venezuela

FEVEREIRO DE 2019
 A Venezuela está mais uma vez na mira e no centro dos debates. Declarações bombásticas de diversos atores sociais em todos os meios de comunicação condenando o governo de Maduro, alguns reconhecendo Guaidó como Presidente, outros se distanciando de ambos, como se tudo o que está em jogo na Venezuela, neste momento, fosse resolvido no reconhecimento ou não de um determinado governo. O assunto é muito mais profundo, e como já abordamos em outras ocasiões, tentaremos fazer aqui uma análise conjuntural específica cuja trama é muito mais complexa. Uma análise que realizamos com o máximo rigor possível, mas sempre amparados em nossa concepção anarquista e especifista, como parte dos povos latino-americanos que resistem às estruturas diárias do sistema capitalista e do imperialismo norte-americano, presente há quase dois séculos em nossa região.
Imperialismo que com seu monroísmo (programa da Doutrina Monroe) tem a pretensão de que a América Latina seja seu quintal. Em 10 de janeiro, Nicolás Maduro adentrou um novo período de seu governo. Nas semanas anteriores, o Grupo Lima (grupo criado e composto por 12 países da região com o único propósito de derrubar o governo de Maduro) empreendeu uma campanha ativa contra o que eles consideram ser um “ditador”, “usurpador”, “um governo ilegítimo”, com o objetivo de impedir um novo mandato de Maduro e do PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela).
Esta nova campanha veio acompanhada de uma importante atividade interna da oposição ao governo do PSUV, que incluía a autoproclamação do desconhecido Juan Guaidó como “presidente interino ou de transição”. Quem é Juan Guaidó? De onde veio? A mesma pergunta foi feita pela imprensa internacional que o apoiava, ou seja, grande  parte da mídia internacional apoia alguém desconhecido e ainda o “apresentam a sociedade”. Mas a agência estadounidense de notícias AP havia informado que Guaidó, viajou em meados de dezembro “silenciosamente” a Washington, Colômbia e Brasil para informar aos funcionários sobre a estratégia de oposição de manifestações massivas para que coincidira com o esperado juramento de Maduro para um segundo mandato em 10 de janeiro, segundo o ex-deputado de Caracas (fugido e exilado) Antonio Ledezma.
Esse mesmo Juan Guaidó é um deputado pertencente a um grupo de ultradireita da oposição, suposto presidente da Assembleia Nacional, que desde 2016 não funciona, não se reúne, devido a certos conflitos entre a oposição e o governo naquela época,  ao assumir uma maioria opositora na dita assembleia ou parlamento. Um conflito de poderes dentro do Estado, mas que agora a direita, articulando diretiva imperiais, utiliza para tentar dar um novo golpe de Estado.
Houve dos fatos políticos de relevância que ocorreram de forma quase simultânea e não foram coincidências, correspondiam a uma estratégia e acordos prévios, a auto-juramentação de Guaidó e o reconhecimento imediato dos Estados Unidos. O que chama a atenção nesta ocasião é que Juan Guaidó se tornou o líder da oposição da noite para o dia, com o total apoio do governo dos Estados Unidos, para desestabilizar novamente a situação política e social venezuelana, de modo a acabar com “a Revolução Bolivariana” e reintegrar os partidos da direita e da extrema direita novamente ao governo. Houve algum pequeno rearranjo no projeto que vinha se desenrolando. Os próprios operadores e cérebros políticos da direita venezuelana criticaram Guaidó por sua “amornada” nos primeiros momentos de sua aparição pública porque não decidira proclamar-se “presidente interino”, como fez em 23 de janeiro com total apoio dessa mesma direita e dos EUA. Toda direita vem incitando um golpe de estado de forma simples e direta. Golpe de Estado não tradicional e onde trata de combinar distintos elementos para consumá-lo, ao que se adiciona aqui a ameaça de intervenção militar.
Isso não é novo
Esse novo lado da direita venezuelana caminhava de mãos dadas com a mensagem do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, dando apoio às manifestações contra Maduro que começaram no dia 21 de janeiro e atingiram seu ápice no dia 23. Foram imensas mobilizações, que sem dúvida, conseguiram captar e canalizar o descontentamento e o desgaste da população com a “Revolução Bolivariana”. Mas isso não significa que tais mobilizações expressem diretamente os anseios e ambições das classes dominantes venezuelanas e da extrema direita. Esta situação ideológica e social é bastante complexa.
De fato, Guaidó é a “referência”, o peão colocado nesta situação pelos Estados Unidos, pelo motivo de não haver outro. Os principais representantes da direita estão extremamente desacreditados, seja em virtude de sua filiação de classe, como María Corina Machado, líder do Vente Venezuela y de Súmate/Vem Venezuela e Soma-te!, uma empresária e membro da “oligarquia” venezuelana, da qual o regime de Chávez expropriou algumas de suas importantes empresas, como as indústrias de alumínio; Leopoldo López, uma referência da extrema direita do partido Vontade Popular/Voluntad Popular fotografado depredando os bustos de “Che” Guevara ou Hernando Capriles, líder doPrimero Justicia/Justiça Primeiro, estão hoje desgastados e não podem exercer uma liderança eficaz. Por isso, a nomeação deste “peão” e sua lógica “incineração”, posta para levar adiante todo o trabalho sujo de que uma política imperial e seus aliados é capaz de realizar. O objetivo é tirar Maduro, estabelecer um governo de transição e apoiá-lo internacionalmente, tanto com os governos dessas latitudes como os da Europa. Ameaçando ao mesmo tempo com medidas militares. As empresas norte-americanas acompanham e participam de tudo isto, se preparando para o butim.  Em definitivo tratam de criar uma situação sem saída para a continuidade do governo bolivariano de Maduro.
Como recordamos, em geral, esta situação não é nova. Em abril de 2002, os Estados Unidos apoiaram um golpe de Estado contra Chávez, colocando Pedro Carmona no governo, presidente da patronal Fedecámaras. Um golpe de Estado sem sombra de dúvidas, com um claro sentido de classe. O golpe fracassou, Chávez retornou ao governo e promoveu com novos brios uma série de políticas sociais (“as Missões”) e de certo protagonismo do povo nas “comunas”, projeto impulsionado pelo Estado, mas que sem dúvida desencadeou uma importante participação das pessoas num certo período de tempo, criando cooperativas de produção, de consumo, organizando bairros inteiros numa forma limitada de autogestão mas de real e ativa participação em amplos planos sociais. Isso se realizou dentro da estrutura capitalista e conviveu com a burocracia estatal e o papel cada vez mais crescente do Exército, num processo contraditório, mas onde as pessoas começaram a ter um pouquinho de tudo aquilo que durante séculos lhes havia sido negado: uma alimentação decente, serviços sociais, certa dignidade e participação social e política. Com esta política social o governo Chávez contou com forte apoio popular.
Ainda estava fresco “o Caracaço” de 1989, essa imensa explosão popular contra a política neoliberal de Carlos Andrés Pérez, que gerou hiperinflação e fome, e a feroz repressão que se seguiu e que causou 3 mil mortes. Chávez aparece publicamente em 1992, numa tentativa de golpe de Estado que fracassou, sendo libertado anos depois e iniciando um movimento político que finalmente reuniu a esquerda venezuelana, incluindo vários ex-membros do movimento guerrilheiro dos anos 60. Um militar com um discurso nacionalista, guinando paulatinamente à esquerda, rodeado de pessoas e partidos de um amplo arco de esquerda… um desses atípicos experimentos políticos, realizados dentro da estrutura capitalista, que nos faziam recordar os “populismos” dos anos 40 e 50. A verdade é que esta política de reformas e certa redistribuição em direção ao povo estimulou o rechaço da burguesia venezuelana e da direita. Um claro instinto de classe – e de racismo – foi colocado sobre mesa: para a burguesia agora, os negros e mulatos, os índios, os pobres, os de baixo, ascendiam a “alguma coisa” e esse “algo” sempre ia ser superdimensionado por aqueles que têm poder e riqueza. Esse “algo”, ainda que não fosse muito, pertencia aos ricos, aos donos da Venezuela, e eles não estavam – nem estão – dispostos a perdê-lo.
Por isso veio o golpe de Carmona de 2002, o golpe da Fedecámaras [1], a Central dos Trabalhadores da Venezuela (uma central amarela financiada pelos Estados Unidos) e pelos partidos políticos tradicionais Copei e Ação democrática.
Fracassado o golpe de Estado, os EUA – todo o espectro da penetração imperial tendo a Central de Inteligência, a CIA na vanguarda – colocou suas mãos à obra com enormes recursos (centenas de milhões de dólares) para financiar novas organizações sociais opositoras com máscara inofensiva e partidos políticos de oposição (Vontade Popular – do qual Guaidó fazia parte -, Justiça Primeiro, dentre outros). Sem descuidar de tentar fortalecer os tradicionais partidos de direita. Ao mesmo tempo, através de seus mecanismos de armadilha e cínicos, financiaram diversas ONG’s e organizações que promovem “educação cidadã” e “direitos humanos”. A finalidade desse espectro imperial com o Comando Sul e a CIA na liderança foi e é debilitar o regime chavista para colocar o governo na direita. Os meios não importam. Se é pela via via eleitoral ou via desestabilização e golpe de Estado, não é relevante nem para os EUA nem para a oposição venezuelana. Eles não tem cuidado com o que sofre o povo, esses organismos fizeram correr rios de sangue e semearam fome por toda a sua vida sem mover uma palha para resolver essa situação. Seus discursos humanitários são para fazer eficaz sua miserável e assassina política que sempre recai sobre os de baixo.
A morte de Chávez foi um duro golpe para o regime, para a governabilidade bolivariana. Chávez tinha nomeado Maduro como seu “herdeiro”, sabendo que dentro do PSUV se intensificariam as lutas intestinas por cotas de poder e que a corrupção, a burocratização e a venalidade aumentariam, como de fato ocorreu. Não mexeram nas raízes do sistema e a lógica que circula pelo conjunto das relações de poder dominante estava cruelmente operando. A população não acompanhou Maduro com o mesmo entusiasmo, ele não era possuidor da agudeza política e o carisma de Chávez. Mas era um processo que tinha uma alta dose de “liderança carismática”, de certo “populismo do século XXI”, e encontrava ali sua fragilidade. Seguiam com uma política de moderadas reformas ao movimento popular, num contexto menos favorável. Diante os flancos que iam se abrindo e o grau do descontentamento popular, a direita e os EA recrudesceram seus ataques. Multiplicaram-se as diversas mobilizações no mesmo ano de 2013, logo depois da morte de Chávez. Utilizaram como ponta de lança o movimento estudantil, no qual um setor tinha forte infiltração da direita. Logo os partidos da oposição passaram por cima dos estudantes universitários e encabeçaram os protestos. Tornaram-se famosos os fascistas com roupagem democrática, Leopoldo López e Hernando Capriles.
As câmeras da imprensa internacional cumpriam seu papel mostrando como esses reacionários e golpistas foram presos e alguns deles mortos, mas não o que eles faziam, por exemplo, tacando fogo bestialmente num “chavista”. Além disso, foram assediados ou violentados trinta e cinco centros de saúde pública (Missão Barrio Adentro), dois hospitais, trinta e nova instalações da rede pública de distribuição de alimentos, dezoito meios de comunicação alternativos e comunitários.
Tampouco mostravam a resistência popular nas ruas, como da mesma forma não mostraram em 2002. Ficou evidenciado que as “guarimbas” [2] da oposição estavam organizadas e armadas com muito dinheiro fluindo dos diversos tentáculos da CIA como NED e IRI (planos de financiamento de várias organizações de direita), onde muitos deles posavam de defensores da liberdade, educação, direitos e humanidade. Internalizaram um cinismo cruel que merece o primeiro lugar de longe.
Desde então, a direita alternou mobilizações de rua (nem sempre massivas) e geralmente nos bairros dos esquálidos [3], nas zonas ricas de Caracas e em outras cidades com participação eleitoral. Mas as eleições, esse artifício liberal burguês, são úteis se derem o resultado que a burguesia quer. Como o chavismo se especializou em vencer eleições liberais burguesas, a burguesia venezuelana e norte-americana e a maioria das burguesias do mundo declaram que não são válidas as eleições, que na “Venezuela há uma ditadura” e que “Maduro é um usurpador”. Não ligam, e ocultam, que o próprio deputado Guaidó, agora “Presidente Interino”, foi eleito em comícios organizados pelo mesmo poder eleitoral que organizou as eleições presidenciais do 20 de maio do ano passado, que resultou na reeleição de Maduro. Nunca foi tanta verdade que as eleições só são válidas se vence quem os poderosos querem.
Esta é uma nova onda de ataques, mas foram vários, e em todos eles até o momento a direita e os EUA foram derrotados. No entanto, o regime de Maduro está erodindo, divisões aparecem em seu interior, vários grupos, indivíduos e setores populares manifestam seu descontentamento sem se voltarem, em sua maioria, para a direita; tudo num contexto em que o cerco econômico e a distribuição de alimentos e remédios pioraram nos últimos anos. Nenhum monopólio, como o do gigante dos negócios, Polar, foi atacado em suas estruturas tão importantes. Pode-se somar ainda a inoperância, a corrupção, a burocracia do próprio governo e o “mercado negro” que cresce nestas situações de desespero. Aparecendo “Boliv-ricos” [4] de última hora em alarmante quantidade.
Geopolítica e petróleo
A participação direta dos EUA, com algo novo nessa modalidade, na atual conjuntura da Venezuela é parte de sua estratégia política onde, claro, não está ausente a depredação e roubo das riquezas nas mãos das transnacionais que compõe a trama de poder imperial.
Todos sabem, os fatos estão na cara, que a política belicosa dos EUA, sua tendência geopolítica das últimas décadas é manter seu poderio mundial, que em determinados aspectos se vê ameaçado, o que se refletiu em muitos acontecimentos de sangue e fogo. Isso traz nas mãos perigos que podem ser de magnitude em nível geral. Um exemplo disso é sua política armamentista no que diz respeito a aumentar e tecnificar ainda mais seu potencial nuclear, a colocação de armas nucleares em lugares que significam rupturas de acordos anteriores no tempo que obrigam a potências como Rússia a respostas de alto perigo. O império norte-americano em oportunidades tendo como aliado a algum outro país, ou forças internas aliadas, fez toda uma cadeia de intervenções sangrentas, participando diretamente em vários casos e outros combinando essa intervenção com outras técnicas, como por exemplo, armar grupos com a intervenção de outros países para que fizessem parte de seu trabalho. Isso sem esquecer os milhares de mercenários, agrupados em empresas poderosas, que nesses eventos brutais aparecem, por vezes, com peso importante.
Para dizer brevemente, primeiro foi a Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia e depois foram Síria. Haviam aqui interesses mesclados, econômicos, políticos, de poder, de controle de áreas que o império considerava estrategicamente importante de acordo com os apetites de sua estrutura de poder e das competências com outros países como a China.
Mas toda essa macabra ação imperial não foi de fácil execução nem lhes trouxe  os benefícios esperados. Pelo contrário lhes significou um desgaste importante e reveses que não esperavam. Inclusive dificuldades em sua própria situação interna em nível de parte de sua população.
Os Estados Unidos não conseguiram determinados e importantes objetivos planejados e tiveram que entrar novamente no Iraque e Afeganistão. Em outra reviravolta atual se planeja abandonar novamente Afeganistão, sua guerra mais cara da história. É de mencionar sua ativa participação na destruição da Líbia, além de haver iniciado nova guerras na Síria e Ucrânia. Foi ficando claro que a incidência da facção armada militarista segue sendo, nos últimos tempos, um fato de primeira ordem no desenho de sua estratégia imperialista mundial. No interior do bloco imperialista com os EUA a frente aparecem tensões, interesses, que fazem que determinados poderes apostem em políticas distintas que contemplem apenas suas exigências parciais. Tal é o caso de muitas multinacionais e suas expressões ideológicas e políticas.
Se assinala o 11 de setembro como o momento à partir do qual a facção militarista trata de subordinar os interesses de muitas multinacionais à sua estratégia de guerra em nível dos inimigos no mundo. Nesta política do império aparece uma forma de intervenção do Estado que guarda relação com a nova constituição sistemática nesta “etapa” cruamente neoliberal chamada de controle social.
O que nos interessa enfatizar ainda que seja brevemente é algo que mais de um analista vêm afirmando. Que as prioridades, o desgaste imperial em suas aventuras mesquinhas e macabras de poder, a concentração que lhe exigiu essa estratégia, inicialmente no Oriente Médio e África, implicou nos fatos, por certo tempo, uma certa desatenção de seu “quintal”. Não é um abandono de sua política imperial sobre a área, mas sim estar menos em cima dos acontecimentos. Também se considerou com firmes fundamentos que a nova etapa que chegava a situação começaria a variar para mal do meio latino-americano. Vale dizer que a atenção imperial sobre a área aumentaria em grau de importância. Mas tendo em conta que durante esse tempo esse espaço foi bem aproveitado pelo seu inimigo principal: China. No dia de hoje já temos várias mostras de forte dedicação imperial a nossa área.
Vemos então, que dentro dessa estratégia geral que tem como inimigo principal a China e depois a Rússia, o objetivo primordial dos EUA hoje é retomar o controle, total do que considera seu “quintal”. Essa é a tarefa fundamental para eles e junto a isso vai de encontro a tomada de riquezas de nossos países latino-americano, o petróleo e minerais venezuelanos, por exemplo.
A Venezuela é literalmente um grande lago de petróleo. Conserva em seu território as maiores reservas de petróleo do planeta, com mais de 300 bilhões de barris, sendo a primeira reserva de petróleo do mundo. A segunda é a Arábia Saudita, mas como sua aliada “carnal”, os EUA não ousam invadir ou ataca-la de forma alguma, embora possua uma monarquia teocrática que financia o terrorismo salafista (como Estado Islâmico) ou seja o país do Oriente Médio com o nível mais alto de repressão contra as mulheres, a imprensa, etc. Ali os Estados Unidos não reivindicam a “democracia”. A casa de Saud – agora com Bin Salmán – são fiéis aliados da potência “democrática” do planeta, muito úteis a sua estratégia geral mundial.
Por razão desta estratégia mundial de poder, que abarca distintos contextos, Venezuela e Irã, entre outros países, estão na lista de “inimigos” dos Estados Unidos. Este pretende assumir o controle dessas diferentes áreas do mundo usando qualquer meio. Isso já foi feito na Líbia, de mãos dadas com a “democrata” Hillary Clinton e foi tentado na Síria. Os Estados Unidos não economizam em dizimar as populações, convertendo certos países para a mais absoluta miséria, transformando-os em “Estados falidos”, como feito na Líbia ou no Iraque.  Países que os EUA considere que prejudicam sua estratégia, que se aliam com inimigos, chineses e russos, que difundem ideias e constituição de organismos que dão às costas ao seu projeto necessitam ser destruídos. O Brasil no BRIC (que o integram China e Rússia) não era de seu agrado. Esse governo de tantas boas relações com os de cima igualmente não lhe servia. Também via como um perigo um governo como o venezuelano que falava de socialismo, anti-imperialismo, que promovia novas instituições: ALBA, CELAC, UNASUR, Petrocaribe e que promovia resistência a assinar os Tratados de Livre Comércio. Simplesmente pelo que representa esse grau de autonomia, em função de seus interesses políticos, econômicos e sociais, os EUA tinha que destruí-lo de qualquer maneira.
Por mais que o governo venezuelano não tenha mexido no núcleo duro do sistema, de que não construíra nada que se parecesse com o socialismo – ainda que  mencionasse isso constantemente – isso não importava, importavam eram os efeitos que esse discurso podia ocasionar. Na lógica dos EUA era um inimigo que tinha que ser destruído e basta. Nesse acionar operam hoje com mais afinco. De fato, o recrudescimento das sanções econômicas contra a Venezuela em dias passados, teve como eixe as ações de Citgo, a empresa petroleira venezuelana nos EUA, filial de PDVSA. Por essas sanções, EUA bloqueia 7 bilhões de dólares e 11 bilhões de dólares em exportações petroleiras para 2019. Isso somado corresponde aproximadamente a um terço do PIB do Uruguai. CITGO além disso possui três refinarias, 48 terminais de armazenamento e 6 mil estações de serviço nos EUA, um capital nada desprezível, mas onde se vende e distribui combustível a um custo menor que as petroleiras norte-americanas comandas pelos Rockefellers, Bush etc. A Citgo também é afogada em questões de crédito de nível internacional.
Foi justamente através do petróleo, em alta neste momento, que o regime  chavista pôde financiar as políticas sociais (“as Missões”) e uma certa redistribuição de renda nos anos do governo Chávez; como contrapartida desse petróleo a altos valores no mercado mundial, a Venezuela aprofundou sua dependência econômica e não se industrializou. Mas isso lhe permitiu uma política internacional de apoio aos países latino-americanos, criando o Petrocaribe. Cuba e várias Antilhas se beneficiaram dessa política de petróleo barato e de laços diplomáticos mais estreitos. Foi essa mesma política e aliança que possibilitou a derrota dos EUA e do Grupo Lima na OEA nos últimos dias. Mas foi essa política que também motivou os Estados Unidos a apoiarem e darem um golpe em Honduras contra o governo de Zelaya, porque estava timidamente se aproximando da política externa venezuelana. Os EUA não podem permitir que um de seus “peões” saia do tabuleiro. Honduras foi a base militar dos “contras” nicaraguense nos anos 80 e de todas as contra-insurgências daqueles anos. Foi também dali que partiu o golpe contra a “Revolução Guatemalteca” de Arbenz em 1954. Acrescentamos que os EUA também motivou, juntamente com a Arábia Saudita, a política de baixar os preços internacionais do petróleo para reduzir as possibilidades da Venezuela e do Irã e de suas respectivas políticas externas.
Um longo histórico de agressões
Com os meios de comunicação dando tudo de si para formar opinião e criar subjetividade contra a Venezuela, os EUA se apresentam como defensor de determinados valores que sempre atropelou, inclusive dos valores de sua própria democracia burguesa que foram ignorados quando lhe foi conveniente e que hoje já pouco dão valor. Diante esta saraivada que promove a amnésia é conveniente recordar algumas coisas que ocorreram em diferentes momentos e que são representativas acerca do qual é o verdadeiro rosto do império.
Nossa América Latina é um território que suportou as mais sangrentas agressões do imperialismo norte-americano. E nossos povos têm sofrido e suportado as consequências dessas agressões. Essa história criminal é longa, mas mencionemos algumas das mais notórias. Invasão ao México em 1845 e declaração de guerra. Resultado: o México perde metade de seu território, que atualmente é a área de petróleo dos Estados Unidos.
Cuba e Porto Rico em 1898. Através da “Emenda Platt” (emenda acrescentada pelos EUA na Constituição Cubana), a ilha se convertia numa colônia americana. Ali dominaram os interesses das empresas açucareiras, da banca e o jogo ianque, assim como a prostituição. Nesse momento, a Revolução Cubana cortou essas negociações e tal relação colonial. No entanto, Porto Rico permanece sob o pleno domínio da águia norte-americana.
Mas em ambos os casos, como na Nicarágua (invadida já em 1855), os Estados Unidos aplicam o mesmo esquema: apoio a governos “fantoches”, constantes fraudes eleitorais e golpes de Estado. Se necessário, em última análise, desembarque dos fuzileiros navais. Invasão. Contra ela lutou dignamente Augusto César Sandino na Nicarágua junto à sua guerrilha popular.
Em 1914, a invasão e saqueamento do Haiti. Anteriormente, em 1903, os EUA outorgaram-se o direito de inventar um país: o Panamá. Ele financiou e apoiou um “movimento de independência” naquela área que era da Colômbia. Ou seja, os EUA retirou parte da Colômbia para construir ali o famoso Canal Interoceânico, que era o território dos Estados Unidos, guardado por seus fuzileiros navais. É por isso que Omar Torrijos, que negociou com os Estados Unidos o retorno do Canal às mãos panamenhas, foi assassinado em um atentado em 1981.
Geograficamente mais próximo, o apoio direto da CIA e da Embaixada dos Estados Unidos ao golpe de Estado Pinochet no Chile em 1973, muito bem documentado. Da mesma forma, sua participação ativa no Plano Condor que assassinou e sumiu com dezenas de milhares de companheiros no Cone-Sul. O apoio dos EUA a inúmeros golpes na Argentina, no Brasil, na Bolívia e no Paraguai de Stroessner, seu apoio ao golpe de 1973 no Uruguai. A invasão a Granada em 1983.
A invasão dos fuzileiros navais ao Panamá novamente em 1989, para “libertar” esse país de Noriega, um cruel ditador. Naturalmente, o que os americanos não estavam dispostos a admitir era que Noriega era “seu homem” no Panamá. Trabalhou para a CIA e a DEA, mas ocorreu a ele “sobressair-se” aos Yankees no tráfico de cocaína da Colômbia via Panamá para os EUA, que não iriam perdoar esse “pecado” e assim o governo americano “disciplinou” o povo panamenho. Eles arrasaram o país e deixaram 3.000 assassinados.
Exemplos não faltam. Milhares de crimes. As faixas vermelhas de sua bandeira são de sangue, de povos assassinados por seus interesses mesquinhos. Para os interesses de uma burguesia que acredita ser a proprietária do mundo. Além disso, o plano de agressão contra a Venezuela, em seus primórdios, foi muito semelhante ao utilizado no Chile em 1973. Nesta última etapa, eles ajustaram “detalhes” de relevancia, seguem utilizando diversas formas de pressão, algunas grotescas mesmo para os valores burgueses mais além disso, agora ameaçam  descaradamente invadir o país sem grandes dissimulações.
O cenário internacional
O cenário internacional tem muita influência na crise venezuelana. Maduro antes de assumir seu novo mandato foi para a Rússia para se reunir com Putin para garantir seu apoio em todos os terrenos. O papel da China também é importante. Tanto a Rússia quanto a China têm investimentos significativos na Venezuela e na América Latina em geral. Isso faz com que esta região esteja no quadro das disputas inter-imperialistas do mundiais.
Mas há alguma verdade no fato de que terminou a “unipolaridade” pós-Guerra Fria terminou. Os EUA já não podem impor sua plena vontade ao mundo, mesmo que mantenham um poder militar esmagador. Neste período, o último caso foi a Líbia. Na Síria, já sentiram o freio da Rússia não só no campo diplomático, mas também no campo militar e nas alianças muito hábeis que o governo russo implantou, e da China no campo diplomático. Na Venezuela, o mesmo acontece, mas somente na “zona de influência” direta dos Estados Unidos, além dessa enorme quantidade de petróleo próximo.  Isso expressa de maneira clara que não está disposto a tolerar ese freio.
Dizíamos que os EUA perderam o voto na OEA graças a uma política venezuelana de longo prazo. Quanto tempo dura esse apoio das pequenas Antilhas? Os Estados Unidos invadirão algum destes pequenos países? Há algo que aparece de maneira destacada e queremos mencionar: que foi o asqueroso papel do progressismo de Mujica e “palanqueado” por este no terreno internacional e colocado na Secretaria Geral da OEA.
Ou Almargo tem duas caras, ou serve a quem lhe dá “trabalho” ou estamos frente a uma infiltração de mais alto nível, digna das melhores novelas de espionagem. Os serviços secretos venezuelanos e cubanos assinalaram que já suspeitavam desde a época do governo Mujica que Almagro trabalhava para a CIA. Não sabemos se isto é verdade. O certo é que agora certamente isso acontece, e o faz diretamente para Trump. Pelo visto, se não fez antes foi porque não lhe deram oportunidade, é uma figura repugnante, asquerosa e rasteira.
E é justamente no cenário internacional que se desenrola boa parte do conflito, porque os EUA não podem permitir que um país em sua “zona de influência” consiga realizar uma política exterior independente e acima, tente ordenar de outra forma seu “quintal”.
Tempos muito complexos virão
Enquanto os EUA e Almagro a frente da OEA e do Grupo Lima falam de uma invasão à Venezuela, nada dizem contra outros regimes que sem dúvida nada tem de democráticos e isto não é coincidência. Não dizem nada sobre o governo hondurenho, eleito por comprovada fraude eleitoral, depois de um golpe de estado que depôs Zelaya em 2009 e reordenara a situação interna, com uma feroz repressão ao povo, com os mortos e desaparecidos. Esse povo que hoje emigra desesperado.
Nada dizem do “golpe suave” de Temer e o ascenso proto-fascista de Bolsonaro já que claro, isso é de seu próprio interesse. Uma criação norte-americana oportuna para estes tempos. Um dos elementos necessários para desencadear essa nova onda golpista e intervencionista na Venezuela era o necessário apoio do governo brasileiro e de um governo “forte”, é claro. O secretário de defesa dos EUA, Jim Mattis esteve em fins de 2018 no Brasil com o propósito de conter a influência chinesa no Brasil. O mesmo se pode falar da Colômbia. Com as FARC já entregues ao jogo eleitoral burguês, os EUA pode utilizar a seu prazer o exército colombiano e os paramilitares. Neste tempo de “paz” assassinaram centenas de militantes sociais e alguns ex-guerrilheiros. Se torna relevante aqui neste caso o papel do ELN (Exército de Libertação Nacional de cunho camilista-guevarista [5], que vendo como ocorria realmente este processo, se participou das conversações, não aceitou ao fim este programa de “paz”. Finalmente não abandona as armas, retoma operativos militares, não se rende e está tratando de resistir no marco de sua específica concepção e aumentou sua presença na fronteira colombiana-venezuelana. Eventualmente pode se estar gerando um conflito regional se Brasil e Colômbia intervém, ficando aprisionado o mesmo ELN.
O mesmo pode ser dito da Colômbia. Com as FARC já comprometidas com o jogo eleitoral burguês, os EUA podem usar o exército colombiano e os paramilitares para seu próprio prazer. Neste caso, o papel do ELN (Exército de Libertação Nacional) de cunho camilista-guevarista, que não se entrega e está tratando de resistir, aumentando sua presença na fronteira colombo-venezuelana. Um conflito regional pode estar se formando se o Brasil e a Colômbia intervirem, ficando preso nele também o ELN.
Por agora, EUA não poupa recursos em submergir a Venezuela no caos, com vistas a retomar o controle desse governo e seu petróleo. Importa-lhes destruir esse pequeno polo que ainda dentro do capitalismo se apresenta como antagônico, tirando do meio os apoios de Rússia, China e Irã. Em nada lhe interessam as consequências que pode sofrer o povo venezuelano. Só lhes importa mencioná-lo para usar o povo em seus planos macabros. Mas toda essa intervenção imperial aberta coloca aos povos latino-americanos frente a um cenário de maior e decidida luta. Uma intervenção como a que vêm ocorrendo, agressiva e descarada os EUA no continente deve aumentar a resposta popular: mobilizações de rua massivas, amplo rechaço popular. Coordenação de ações dos verdadeiros e independentes movimentos sociais anti-imperialistas. Responder o atropelo brutal e aberto do imperialismo e seus aliados, ao capitalismo neoliberal, com o avanço popular, dos de baixo, num processo de povo forte.  No caso de se dar uma intervenção direta, o fundamental é o povo combativo na rua repudiando com força os assassinos. Se ocorrer essa intervenção direta, que tanto deseja os EUA e Trump e que não consolidaram pois seguem explorando outras vias que conduzam ao mesmo objetivo, em virtude de cálculos dos feitos políticos e sociais que isso pode provocar em perspectiva de médio prazo. Estão apostando tudo hoje em tirar as pessoas da rua para desestabilizar e tratar de capturar uma parte das Forças Armadas, para não deixar saídas e pôr seus candidatos servis no governo.
Sim, este é o novo capitalismo de que nos falam. Os estudiosos nos avisam que estamos numa etapa do capitalismo cuja composição sofreu modificações em relação ao período histórico anterior. Mas os novos elementos que compõe sua estrutura atual mantém fidelidade com o núcleo duro do sistema. A etapa chamada muito generosamente de “Estado de bem estar” ficou para tras e certas funções de contenção que realizaba esse Estado também. Igualmente  já está quase sem peso, a própria fantasia de democracia inventada pela burguesía para afirmar seu poder. Chegou como novo um capitalismo neoliberal cru e duro.
No entanto, o que não oferece dúvidas é que a trama mais polida, os dispositivos mais efetivos que o sistema capitalista foi tecendo neste último século não contradizem premissas fundamentais do que historicamente se conhece do sistema. Os mecanismos, dispositivos e instituições que foram polindo ou produzindo o capitalismo para sua manutenção e reprodução cumprem as funções que foram assinaladas, mais ajustado e tendo presente experiências vividas e desenvolvimentos tecnológicos. Mas a crua exploração e opressão estão aí e mais fortes que nunca.
Seu rosto de hoje é mais cruel, brutal e com meios tecnológicos mais efetivos para tratar de inserir populações, para fazer sentir como necessários os supérfluos consumos variados, para destruir mais decididamente a natureza e produzir grandes populações “excluídas”. Fica mais claro do que nunca, não existe possibilidade de um processo de ruptura, nem sequer reformas fortes, usando os meios que o sistema oferece: sua lógica, seu “sentido comum”, seus dispositivos, seus mecanismos eleitorais e instituições que lhe são próprias.
Obviamente então, esta “etapa” do capitalismo não é idêntica a anterior. Tem seus problemas específicos que constituem todo um desafio a uma proposta que tente processar uma mudança profunda. Aceitar esse desafio e ir formulando respostas sociais é nossa razão de ser. Produzindo e com disposição a corrigir, linhas de trabalho teórico-político devemos estar em ação social permanente. Não se trata de sentar e esperar momentos mais “favoráveis”, em toda circunstância deve haver uma estratégia coerente e tática funcionando.
Em alguns momentos que são de menor intensidade organizando-se para eventos próximos previsíveis, ajustando a organização interna em seus diferentes planos, em outros momentos de maior intensidade executando ações, aplicando previsões e lendo os acontecimentos para que as respostas sejam mais fecundas. A dinâmica assinalada nos diz a gritos, neste mundo capitalista, o poder que vem de cima não é popular. Se o povo não exerce o poder, e ao contrário desenvolve participação ativa num processo orientado para isso, com as práticas próprias que podem possibilitá-lo, criadoras de uma nova subjetividade, independentes da lógica e dinâmica do sistema não há avanço possível para novas relações sociais. O Poder Popular se cria todos os dias se exercendo nas diferentes lutas sociais que se apresentam.
A América Latina está num momento em que se avança a direita ligada ao imperialismo yanquee e suas multinacionais. É tarefa dos povos resistir, fortalecer os organismos populares que permitam fazer frente a qualquer agressão, tentativa de desestabilização da direita e aumento da miséria dos de baixo. Nessa tarefa de combate ir criando ao mesmo tempo um povo forte e independente que contenha os gérmens de um autêntico Poder Popular.
Os povos encontrarão seu próprio caminho e o povo venezuelano assediado hoje, e todos os de baixo, tem dado distintas mostras de combatividade exemplares, de aprendizagem social através de seu sacrifício e luta e de possuir desejos que não morreram.
Está claro, o único que cabe a todos os filhos desta terra, é a condenação unânime e absoluta de qualquer tipo de ingerência, de qualquer intervenção econômica, diplomática ou militar em nosso continente. Pela sua história e o que representam, os EUA nunca podem ser bem vindos, se vêm é para esfomear ou massacrar o povo venezuelano. Para aumentar a opressão e miséria de nossa gente, os de baixo, na América Latina. E como sempre amanhã isso ocorrerá com outro de nossos povos se os EUA se sentir afetado no mínimo de seus interesses. Contra isso é primordial que a resistência esteja presente em todos os terrenos, fortalecendo a luta e os organismos populares.
Na América Latina nem Yankees nem gusanos [6]!
Poder popular pela base!
PELA AUTODETERMINAÇÃO LIVRE DOS POVOS !!!
FORA YANQUIS ASSASSINOS DA AMÉRICA LATINA !!!
PELO O SOCIALISMO E PELA LIBERDADE!
AVANTE OS QUE LUTAM! ARRIBA LOS QUE LUCHAN!
FEDERAÇÃO ANARQUISTA URUGUAIA (FAU)
COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA (CAB)
Notas da tradução
[1] Fedecámaras é um acrônimo para Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), principal organização de associações patronais da Venezuela, composta por empresários de todos os setores econômicos deste país. São 14 os setores econômicos associados: comércio e serviços, indústria, construção, turismo, finanças, seguros, agricultura, pecuária, mineração, energia, transportes, telecomunicações, imobiliário e mídia.
[2] Guarimbas são ações de fechamento de ruas realizadas pela direita venezuelana em diversos pontos de um determinado local. Tais ações se caracterizam por serem realizadas por centenas de barricadas contendo um número pequeno de manifestantes em cada uma destas, tendo como objetivo bloquear uma grande área. Tais ações foram utilizadas sistematicamente nas manifestações golpistas.
[3] Esquálidos é o apelido dado a direita e a extrema-direita venezuelana.
[4] Boli-ricos é uma expressão utilizada para se referir a certa burocracia/apoio ao governo bolivariano que enriqueceu durante o período dos governos Chávez e Maduro.
[5] O texto se refere a duas referências da luta armada latino-americana: Ernesto “Che” Guevara e o padre guerrilheiro Camilo Torres.
[6] Gusanos é o apelido dado aos cubanos de direita e alinhados com o imperialismo yanquee.

[Curitiba] – 8º Encontro do CEL- Especifismo

 Especifismo: Organização Política Anarquista na América do Sul

O CEL é um dos grupos de estudos articulados pelo Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC) no estado do Paraná. Em 2018, em virtude de outras atividades militantes, não tivemos os oito encontros habituais, mas estamos retornando nesse mês de novembro para nosso último encontro do ano!

Quando: dia 27 de novembro, terça-feira.
Onde: PRÉDIO HISTÓRICO DA UFPR, SALA 205 DE PSICOLOGIA.

O Especifismo: a Organização Política Anarquista na América do Sul

Buscaremos a compreensão desta expressão política própria dos anarquistas na América do Sul, que representa grande parte do esforço político organizativo anarquista no presente, do qual o CALC se filia.

– A organização política anarquista – Federação Anarquista Uruguaia (FAU)

– O que é o especifismo e como ele se desenvolveu nos primeiros tempos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU)? – Juan Carlos Mechoso, militante fundador da FAU, Trechos da entrevista A Estratégia do Especifismo.

– Especifismo – Verbete do “Dicionário da Anarkia”.

– Especifismo organização anarquista – Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

– Elementos para uma reconstituição histórica de nossa corrente – Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) / Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Baixe aqui: https://coletivoanarquistalutadeclasse.files.wordpress.com/…

Para mais informações sobre os textos e temas que discutimos durante o ano, visite: https://anarquismopr.org/grupos-de-estudos-libertarios/

Venha participar!

[CURITIBA] 8º ENCONTRO DO CÍRCULO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS (CEL) – TERÇA (28/11/2017)

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O Especifismo: a organização política anarquista na América do Sul

O CEL-Curitiba é um dos grupos de estudos articulados pelo Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC) no estado do Paraná. Os encontros ocorrem nas últimas terças-feiras do mês, sempre às 18:30, no Campus Santos Andrade da UFPR.

Buscaremos estudar neste módulo as distintas formas de organização política que os anarquistas adotaram ao longo da história. Daremos destaque para o especifismo – expressão política própria dos anarquistas na América do Sul, que representa grande parte do esforço político organizativo anarquista no presente, e do qual o CALC faz parte.

Os textos base são:

  • Tática e disciplina do partido revolucionário – Mikhail Bakunin
  • A plataforma organizacional dos comunistas libertários – Dielo Trouda
  • A organização política anarquista – Federação Anarquista Uruguaia (FAU)
  • O que é o especifismo e como ele se desenvolveu nos primeiros tempos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU)? – Juan Carlos Mechoso, militante fundador da FAU, Trechos da entrevista A Estratégia do Especifismo.
  • Especifismo – Verbete do “Dicionário da Anarkia”.
  • Especifismo organização anarquista – Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)
  • Elementos para uma reconstituição histórica de nossa corrente – Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) / Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Baixe aqui: CEL VIII

Evento no Facebook:                                                                 https://www.facebook.com/events/128775954471439

Para mais informações sobre os textos e temas que discutimos durante o ano, visite:             https://coletivoanarquistalutadeclasse.wordpress.com/grupos-de-estudos-libertarios/

E a Livraria Alberto “Pocho” Mechoso estará presente também! https://anarquismopr.org/livrariapocho/ e facebook.com/livrariapocho/

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[CAB] Revista Socialismo Libertário 3 – O que é Anarquismo?

Já está disponível para leitura digital o terceiro e mais recente número da revista da Coordenação Anarquista Brasileira, a revista Socialismo Libertário, que tem como tema central “O que é Anarquismo?”. Para baixar a revista em .pdf, clique aqui. Para ler os textos online em separado, clique nos títulos de cada texto abaixo.
Este terceiro número da revista Socialismo Libertário discute o tema anarquismo e estratégia. Ele envolve questões que nós, da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), temos debatido com afinco no último período, tanto internamente nas organizações, como entre as próprias organizações, que se articulam de norte a sul do país.
Os três textos aqui apresentados constituem o resultado deste debate e os consensos estabelecidos que, a partir de então, incorporam-se como parte de nossas linhas teórica, ideológica e estratégica.
“O que é Anarquismo” estabelece os marcos para conceituar nosso entendimento desta ideologia, que possui praticamente 150 anos de existência e impacto histórico e contemporâneo nas lutas de trabalhadoras e trabalhadores em todo o mundo.
“Objetivos Finalistas: revolução social e socialismo libertário” especifica, com algum detalhe, nossa perspectiva política de futuro, nosso projeto revolucionário e socialista, que vemos como o horizonte de nossa militância cotidiana.
“Para uma Teoria da Estratégia” apresenta alguns fundamentos teóricos com os quais temos trabalhado, definindo a noção de estratégia e diversos conceitos relacionados, num quadro mais amplo das relações de poder e das classes sociais.
Complementa esta edição da revista uma breve homenagem aos 80 da Revolução Espanhola que, juntamente com outros marcos históricos – como os 60 anos da Federação Anarquista Uruguaia, os 110 anos do primeiro Congresso Operário Brasileiro, os 90 anos da Plataforma Organizacional – e contemporâneos – dentre os quais destacamos o crescimento orgânico que tivemos no último período –, nos motivam permanentemente a continuar nossa luta.
Arriba lxs que luchan! Lutar, criar, poder popular!
Rumo à organização nacional!
Coordenação Anarquista Brasileira
Dezembro de 2016

Jornadas Anarquistas 2017, Montevidéu – Uruguai

Na tarde do dia 13 de fevereiro, a Federação Anarquista Uruguaia recebeu delegações de distintos lugares para uma mesa redonda entre organizações políticas, desde a concepção especifista que marca nossos modos de atuar e organizar. O propósito desta reunião internacional, que dá sequência a edição de Porto Alegre (Brasil) em 2015, foi o de ampliar em nossa região do mundo o debate sobre os elementos da etapa sistêmica e o que traz de específico a atual conjuntura histórica. Trocar informações, experiências e análises para a atuação social política do anarquismo organizado hoje, com os problemas e matizes que nos apresentam o tempo em que lutamos e resistimos.

Já faz tempo que importantes problemas teóricos, metodológicos e também políticos estão colocados e exigindo uma atualização de acordo com a nova situação que nos toca viver” diz um documento apresentado ao plenário.

O socialismo esteve presente e fazendo propostas no marco deste período histórico de tantas mudanças. Muitas são as experiências que tem colhido, não poucos são seus fracassos também. Quantos de seus paradigmas caíram junto e concepções inteiras tem demonstrado na prática que não conduziam ao propósito enunciado. Toda uma concepção autoritária, de instalação do socialismo por cima, tem ido pro ralo. Nem por isso o socialismo caiu. Segue sendo o antagonista do sistema vigente.

O acento posto pelo socialismo libertário na capacidade de resistência dos povos, no saber que sua experiência social constrói, a solidariedade tantas vezes praticada, são hoje mais necessários do que nunca. Não é a ciência, nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a ‘história’ em si e nem o progresso os que trarão mudanças que a humanidade e os pobres do mundo necessitam, hoje talvez mais pobres do que nunca .”

O documento aponta em seus parágrafos finais: “Colocando a bom serviço a técnica, a ciência e as teorias mais atualizadas e fecundas, as organizações de combate, políticas e sociais inseridas profundamente no processo em curso, com suas aspirações éticas e firme vontade resistente, terão que fazer o novo sulco deste tempo. (…) Que não arrotem vitórias prematuras os inimigos e os capituladores. Não haverá fim da resistência e da esperança

Em seu conjunto participaram delegações da FAU (Uruguai), Federação Anarquista de Rosário (Argentina), Via Libre (Colômbia), Federação Comunista Libertária e Comunidades Organizadas (Chile), FARPA, CALC, FARJ, FAG, Org. Maria Ieda (pela CAB Brasil), OSL (Suíça), Alternativa Libertária e Coordenação de Grupos Anarquistas (França).

Adiantamos sinteticamente que o acordo geral que chegamos aponta neste momento ao nosso desenvolvimento teórico-político articulado com o aumento da incidência libertária nas dinâmicas de luta e resistência da cena social política.

Reproduzimos abaixo recortes do texto que foi considerado durante a plenária e que tematizam o acionar do sistema em nossa época e aparecem categorias de análise para nossa produção teórica.

Estaremos publicando em breve o texto integral.

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Neoliberalismo no econômico, no ideológico e nas relações sociais

As mudanças que trouxe todo o processo de um período histórico, o que tem sido chamado de “reforma neoliberal”, ou simplesmente “neoliberalismo”, incluiu o que já é mais que conhecido: mercantilização dos serviços de saúde, pensões e seguros, as transformações substantivas do sistema educativo, as privatizações de empresas públicas, a introdução nas instituições estatais de modalidades de gestão próprias do setor privado, os mecanismos de flexibilização laboral e de contratações, etc. Junto a isso a injeção no ideológico social de uma “cultura de empresa”. Não é um processo de mudança que pode ser explicado só através do econômico, intervém nele, simultânea e constantemente fatores de outra ordem como: o político, ideológico, cultural, judicial e mudanças de racionalidade geral.

Dita mudança produziu como efeito uma grande fragmentação no campo social, especialmente no âmbito dos oprimidos e explorados. Um profundo individualismo, um processo massivo de individualização, que mudou boa parte do caráter das relações, tentou instalar outras modalidades que tem como centro a instabilidade e a fluidez. Onde o sentimento de pertencer a coletivos e comunidades sociais é deslocado com intenções de faze-los desaparecer.

Com razão que tem sido dito que estamos ante uma situação social histórica onde domina o mundo um sistema ecocida e genocida que está levando a humanidade à beira do precipício. Junto com uma política de exacerbação do consumo, que se designa como consumismo, vai uma destruição brutal da natureza, do ecosistema.

Biopolítica que mata e/ou deixa morrer

As perspectivas, no marco do sistema dominante, não são nada boas, são macabras. Sua política, sua forma de produção não mudam os rumos, fazem parte substancial de sua eistência. Sua depredação da natureza, sua exploração humana e a criação de miséria e “população sobrante” seguirão como suas dependentes.

É a presença de uma nova biopolítica onde hoje se combinam fazer morrer e deixar morrer, mais do que fazer viver.

Por estratégias de poder mundial temos: guerras de intervenção com massacres de populações, milhares de assassinatos de civis, destruição de hospitais, sequestros e assassinatos de prisioneiros, cadeias clandestinas em diferentes países para a tortura brutal e o assassinato, os ataques com drones tão “cirúrgicos” e “precisos” que deixam centenas de civis assassinados. Enormes populações desses “estados falidos” que depois de seu destroço ficam a deriva, mergulhados na fome e no desespero. Essas enormes populações de imigrantes vivendo em barracos até militarmente controlados e sem o mais elementar pra sobreviver. Multidões a nível mundial estimadas pelo poder como material sobrante que não importa nada, que pode se deixar que morra. Vão produzindo um enorme contingente humano que está expulso de todo direito, está preso para fora e sua vida não vale nada. Pois a lógica operante é: não são necessários para a produção e não tem capacidade de consumo.

A resistência que se manifesta dia a dia

As mudanças sistêmicas referidas estão aí, abarcando todo o tecido social. (…) mas isso ocorre no marco de um processo permanente de tensões sociais. De rebeldias, enfrentamentos, insatisfações, fortes resistências.

Ainda que a Resistência existe ao extenso e largo do poder dominante e tem múltiplas expressões regionais, não tem que ser necessariamente algo atomizado. Pelo contrário, distintos nós resistentes, agrupamentos, estendem frequentemente laços entre si e compõem em tais circunstâncias forças sociais que originam mudanças conjunturais. Como modo de exemplo tomemos a militância comum de camponeses, indígenas, feministas, ecologistas e grupos de DDHH ou levantamentos populares compostos por uma gama de resistências como na chamada Primavera Árabe ou no movimento Indignados da Espanha. Muitos processos de subjetivação em meio de tensões que são unidos por laços solidários. Processos subjetivos, engendrados em confrontações, que podem ser políticos e com propostas próprias em determinadas circunstâncias.

As resistências, por tanto, não são marginais senão ativas no centro de uma sociedade que se abre em redes; existem, nos fatos, os militantes do mundo dos oprimidos capazes de viver a miséria do mundo até o final com rebeldia e liberdade, de identificar e enfrentar as novas formas de exploração, dominação e sujeição.

Nossas reflexões e a atualidade

Nos anima então uma o propósito interessado de refletir sobre enfoques teóricos que possam resultar efetivos estrategicamente para confrontar-se com formações empíricas, favorecendo assim uma concepção de de teoria social não divorciada de uma prática de ação política com intenções de ruptura. Ao mesmo tempo, se tenta buscar uma alternativa conceitual frente aos numerosos problemas que hoje proliferam, e que em vez de tomar seriamente a pluralidade e a contingência de um mundo social que tem se transformado, por suposto sem tocar no núcleo duro do sistema mundo capitalista, termina ignorando as significativas variações existentes na vida coletiva contemporânea, gerando assim estancamentos e certas fossilizações no âmbito teórico-político com suas consequências no campo da ação social-política.

Por exemplo, esta nova configuração sistêmica traz consigo, além de uma nova racionalização, uma nova forma de Estado. Constituído em um processo, já tem elementos diferentes do Estado chamado de bem estar social. Mantém sim, mas dentro de outra articulação, o caráter repressivo das demandas de autonomia dos indivíduos e os coletivos, seu papel de contenedor dos conflitos sociais, seu monopólio da força repressiva. Em qualquer caso a dinâmica e determinadas críticas das classes detentoras do poder dominante coincidiram na necessidade de dar uma virada de página e de superar (reformando a fundo) a racionalidade welfarista (Estado de bem estar) em curso. Criou assim, em enunciados “teóricos” e nos fatos uma nova racionalidade, para a atual situação do sistema em seu conjunto como para o Estado que o integra. Não interessa um Estado não interventor, mas que sua intervenção seja de determinada maneira. Seja salvando bancos falidos depois de grandes roubos; fazendo espaço e apoiando o capital financeiro; criando forte controle sobre populações jogadas na miséria e descontentes; ou criando estados de exceção para zonas estimadas por eles perigosas no seio de países “democráticos”.

Para um conjunto dessas práticas, um dos discursos de verdade, uma ideologia operativa, será o da segurança da população, Ela vai cumprindo macabras funções ao mesmo tempo que pretexta levar a democracia e defender direitos fundamentais no terreno exterior, a países e regiões, com essas frequentes e criminais ocupações ou destruição de países que suas estratégias geopolíticas de poder indicam.

Uma nova ordem interior respaldada por um sistema de informação geral, “uma espécie de mobilização permanentes dos conhecimentos do Estado sobre os indivíduos”. Isto implica uma nova modalidade de relação entre o saber, a informática e o poder: não se trata exatamente da informação e do saber ao mesmo tempo global e individualizante da era das disciplinas, mas de um saber abarcador, massivo, que quer captar os grandes movimentos de conjunto. Importam especialmente territórios, “zonas vermelhas”.

Outro aspecto para que esta nova ordem interior funcione, é procurar a constituição de um “consenso” que possa significar uma certa regulação feita efetiva pelo mesmo povo oprimido que faça que “a ordem se autoengendre, se perpetue, se autocontrole”.

Para isso além dos mecanismos e dispositivos do sistema intervirão organizações e expressões sociais “amigas” que se desenvolvem no campo popular e que nos fatos já estão integradas no sistema. Que pensam com a mesma lógica.

A nova estratégia de governo e novo Estado neoliberal consiste em garantir os fluxos (financeiros, humanos, tecnológicos, etc.) e maximizar a proteção em áreas de circulação massiva. Nesse sentido, se identificam zonas chave para a segurança e a economia (centros comerciais, aeroportos, jurisdições fronteiriças, etc) e logo se calculam os custos e benefícios do investimento em dispositivos de vigilância, que traçarão a linha divisória entre zonas seguras e zonas desprotegidas. O fim é “poder determinar em cada momento quem se desloca, de onde vem, aonde vai, o que ele faz ali onde está, e se efetivamente tem acesso a rede em que se desloca e se tem ou não proibição”.

[CURITIBA] 8º ENCONTRO DO CÍRCULO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS (CEL) – NA PRÓXIMA TERÇA (06/12/2016)!

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                                       O Especifismo                                                       a organização política anarquista na América do Sul

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Na próxima terça-feira, 06 de dezembro de 2016, o CALC articulará seu grupo de estudos em Curitiba. Faremos o CEL no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná, às 18:30, na sala 205 da Psicologia.  DEVIDO AO ADIAMENTO DA SEMANA PASSADA, MOTIVADO POR MANIFESTAÇÃO CONTRA PEC 55, FAREMOS O ÚLTIMO ENCONTRO NA PRIMEIRA TERÇA DE DEZEMBRO.

Buscaremos a compreensão desta expressão política própria dos anarquistas na América do Sul, que representa grande parte do esforço político organizativo anarquista no presente, do qual o CALC se filia.

Os textos base são:

– A organização política anarquista – Federação Anarquista Uruguaia (FAU)

– O que é o especifismo e como ele se desenvolveu nos primeiros tempos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU)? – Juan Carlos Mechoso, militante fundador da FAU, Trechos da entrevista A Estratégia do Especifismo.

– Especifismo – Verbete do “Dicionário da Anarkia”.

– Especifismo organização anarquista – Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

– Elementos para uma reconstituição histórica de nossa corrente – Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) / Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Baixe aqui: CEL VIII

Evento no Facebook:                                                                 https://www.facebook.com/events/196037937524045/           

Para mais informações sobre os textos e temas que discutimos durante o ano, visite:             https://coletivoanarquistalutadeclasse.wordpress.com/grupos-de-estudos-libertarios/

E a Livraria Alberto “Pocho” Mechoso estará presente também! https://anarquismopr.org/livrariapocho/ e facebook.com/livrariapocho/

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[RL] 10 ANOS DE RUSGA LIBERTÁRIA: 10 ANOS CONSTRUINDO O ANARQUISMO ORGANIZADO EM MATO GROSSO

As reticências, as meias-verdades, os pensamentos castrados, as complacentes atenuações e concessões de uma diplomacia covarde não são os elementos dos quais se formam as grandes coisas: elas fazem-se, apenas, com corações elevados, um espírito justo e firme, um objetivo claramente determinado e uma grande coragem. Empreendemos uma grande coisa, […], elevemo-nos à altura de nossa empreitada: grande ou ridícula, não existe meio-termo, e para que ela seja grande é preciso, pelo menos, que por nossa audácia e por nossa sinceridade tornemo-nos também grandes.

Em 18 de novembro de 1918, os anarquistas realizaram uma insurreição no Rio de Janeiro; as primeiras três décadas do século XX, no Brasil, o anarquismo esteve vivo e combativo conjuntamente às lutas operárias, educacionais e campesinas – do campo à cidade, envolvidos na intenção de construção do Socialismo Libertário, da Revolução Social. São 98 anos desde a Insurreição Anarquista, noventa e oito anos que não deixa ser apagado nossa memória de luta, organização, rebeldia, solidariedade, apoio mútuo, fraternidade, internacionalismo e Ação Direta! Mesmo não sendo a data de nossa fundação, é uma data que faz parte da nossa história, da história de mulheres e homens que se colocaram em sagacidade nas lutas por um mundo melhor, uma nova sociedade; da Rússia ao México, dos Estados Unidos à Espanha, do Japão à Coreia… do Uruguai ao Brasil. O anarquismo esteve presente em todos os continentes, sendo na construção do sindicalismo revolucionário, da luta camponesa, da luta pela libertação e emancipação das/os oprimidas/os – Na Luta Contra o Estado!

E foi através dessas experiências prática e teórica, em mais de 150 anos de anarquismo militante, que se deu as primeiras intenções de construção de uma organização especificamente de anarquistas, em terras mato-grossenses. Construção iniciada através de companheiros e companheiras que já se articulavam com outras organizações do Brasil, em meados da década de noventa, até a concretização do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) – instância organizativa que foi destinada para o amadurecimento de linhas táticas e estratégicas, teóricas e práticas, de intervenção nos movimentos sociais e construção de ferramentas que possibilitasse o avanço das lutas populares com corte de classe libertário – que percorreu 10 anos de existência, até a fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB).

Pelo Grupo de Estudos e Ações Libertárias (GEAL), foram aplicados os primeiros germes formativos, em Mato Grosso, para se avançar na perspectiva de construção de uma organização especificamente anarquista; ali foi possível trocar reflexões, afinar nortes programáticos e chegar no ponto X da concretização da Rusga Libertária – entre os últimos meses de 2005 e 2006. Hoje, dez anos depois, também optamos por percorrer com tranquilidade/firmeza/ética/estilo militante/compromisso e humildade os passos para o enraizamento da crença em nosso projeto político ideológico, um projeto enraizado ao nosso próprio projeto de vida: Organizativo, Libertário, Solidário, Internacionalista e Revolucionário! Dez anos percorridos através de avanços, estagnações, embates, amadurecimentos, crítica, autocrítica, humildade – para chegar na nossa maturidade ideológica e programática.

10 anos caminhando com passos firmes, humilde, porém convicto do que queremos!

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E foi com imensa satisfação que recebemos saudações de organizações irmãs do Brasil, da América Latina e da África do Sul. Essas saudações foram lidas e introjetadas em toda nossa militância como um adicional de ânimo e determinação para que possamos comemorar mais 10 anos de existência…

Agradecemos a todas e todos que se fizeram presentes nesse momento de alegria e reafirmação do nosso projeto de luta por uma nova sociedade!

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América Latina

Federacion Anarquista de Rosario (FAR)

Companheiros/as da Rusga Libertaria:
Orgulha-nos tremendamente este importante evento para o anarquismo brasileiro. Este é um passo-chave nesta etapa da construção da CAB e tambem na consolidação das praticas libertarias no histórico Caa Guazú guaraní, hoje mais conhecido como Mato Grosso.
Sem dúvida, isto contribui para as bases da sustentabilidade regional do anarquismo especifista. Como mostram eles é vital a premissa organizacional aos níveis sociais e político-ideológico, marcando um caminho a seguir para a militancia matogrossense e deixando à vista a capacidade, compromisso e necessidade do momento de envolver-nos em as lutas sociais do nosso povo, ombro a ombro com os nossos irmãos de classe.
Os 2500 km que nos separam não são em absoluta distância para pensar em conjunto a estratégia regional de resistência contra o avanço das classes opresoras da região, que via eleições ou golpes institucionais vieram para completar o programa de ajuste selvagem para os de baixo.
Nos só desejamos longa vida ao anarquismo organizado no Mato Grosso.
Contra la clase dominante, anarquismo militante!
Viva la Rusga!!!
Arriba lxs que luchan!!!
FAR – Federación Anarquista de Rosario (Argentina)

***

Federacion Anarquista Uruguaya (fAu)

Salu compañeras y compañeros de Rusga Libertaria.

Desde Uruguay queremos saludar y celebrar a la distancia los 10 años de organizacion y lucha anarquista en Mato Grosso.

Ha sido un buen tiempo de construccion anarquista de la organización en sus diferentes etapas que debe ser capital de una mirada profunda para arraigar aun mas nuestra perspectiva libertaria y alternativa de lucha de clase.

Recordamos los primeros años cuando nuestros hermanos y hermanas de la FAG nos informaban sobre el trabajo alli y las potencialidades concretas. Hoy con cierto orgullo tambien les damos nuestro saludo.

Vamos a dar la lucha desde abajo, sin caer ni meternos solos en los
corrales de rama del sistema y los juegos electorales.

Por una alternativa de lucha de los de abajo!

Por el socialismo libertario! // Arriba los 10 años del FAO! // Arriba la CAB! // Arriba los que luchan!

federacion Anarquista uruguaya

África do Sul

Frente Anarco-comunista Zabalaza (ZACF)

Companheiros e companheiras,

Em nome da Frente Anarco-comunista Zabalaza (ZACF) da África do Sul lhes mandamos saudações solidários aos/às companheiros/as da Rusga Libertária no seu decimo aniversario.

Sabemos que dever ter sido um largo e difícil caminho a construir sua organização e desenvolver sua prática política para chegar em este ponto histórico num país e contexto bastante desigual aonde o anarquismo, mesmo que tendo uma história larga e de nobreza no Brasil, ainda não voltou a ser muito bem conhecido nem recebido por as classes oprimidas desde a perda do seu vector social no século anterior.

Sabemos também que o Brasil, como muitos países incluso o nosso, está voltando cada vez mais num país autoritário aonde o governo e a classe dominante pouco se toleram ideologias, grupos políticos ou movimentos sociais que defendem a igualdade e transformação social e aonde o espaço democrático para fazer crítica do sistema, levantar as nossas propostas, lutar e desenvolver alternativas libertárias se fica cada vez menor.

Mesmo assim, temos visto de longe como o trabalho de base consistente e paciente das organizações especifistas brasileiras, organizados na Coordenação Anarquista Brasileira, há começado a dar frutinhas, e nos parece que o anarquismo está começando a surgir mais uma vez como uma referência e ferramenta de luta nas lutas populares e sociais que nos parece que estão explorando no Brasil – das lutas de 2013 contra o aumento da tarefa e contra a absurdidade da Copa do Mundo até a onda de ocupações escolares do ano passado até agora.

Da Turquia aos Estados Unidos, da Argentina ao Brasil, a extrema direita, o fascismo e o autoritarismo discriminador, de uma forma ou outra, estão crescendo. Mais de trinta anos do neoliberalismo há enfraquecida as organizações populares da resistência e há f eito que as classes oprimidas se quedam divididos e confusos, sem confiança e esperança na luta nem solidariedade de classe. A esquerda autoritária, pragmática e oportunista não tem nada pra oferecer as classes oprimidas. Só a luta de classe, desde abaixo e por fora do estado, nos salvará. Só o anarquismo nos mostra uma saída deste sistema tão deplorável. Se as classes oprimidas não se organizam e levantam para dar fim à esse mundo capitalista, ou as bombas de guerra imperialista ou as alterações climáticas o fará.

Agora, mais que nunca, o mundo e os povos se necessitam o anarquismo. Agora, mais que nunca, nós temos que organizar, temos que defender as nossas ideias, demostrar que a nossa alternativa libertaria tem valor e nos oferece uma chama de esperança num mundo escuro e absurdo.

Respeitamos e apreciamos o compromisso e trabalho, tanto social e de base quanto político, de cada um/a de vocês em construir um anarquismo organizado e um povo forte no Mato Grosso e no Brasil mesmo. Em construir um mundo novo e libertário.

Nós lhes desejamos mais uma década de resistência libertária e organização especifista.

Viva Rusga Libertaria!! Viva CAB!! // Arriba lxs que luchan!!

***

Brasil

Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN) – SC

Saudação do Coletivo Anarquista Bandeira Negra aos 10 anos da Rusga Libertária

Desde que a militância anarquista se organizou em Santa Catarina, fazendo do CABN nossa ferramenta de construção de um novo mundo nos idos de 2011, contamos com um forte laço de rebeldias, sonhos e muita luta em Mato Grosso, laço que não se afrouxa pela longa distância que nos separa. Maior que a distância é nossa convicção na importância de derrubar esse sistema injusto. Convicção também de que a mais ampla solidariedade entre os povos oprimidos será decisiva para essa tarefa!

Saudamos o momento em que a Rusga Libertária alcança seus dez anos e desejamos muito debate solidário, acúmulo e ainda mais força para as lutas que virão. Quando a labuta cotidiana na resistência ficar pesada, lembrem que aqui no Sul também estamos dedicando os mais honestos esforços pela revolução.

Pelo socialismo e a liberdade!

Coletivo Anarquista Bandeira Negra,

novembro de 2016

***

Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA) – MG

Belo Horizonte, Minas Gerais, 18 de novembro de 2016.

Estimadas e estimados companheiras e companheiros da organização Rusga Libertária,

O Coletivo Mineiro Popular Anarquista, organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, saúda os 10 anos da Rusga Libertária, irmã de coordenação nacional e peleja anarquista na região mato-grossense.

Fundada em 18 de novembro de 2006, propositalmente neste dia para prestar justa homenagem à tentativa de insurreição anarquista realizada no Rio de Janeiro em 1918 (homenagem que endossamos e fazemos questão de ressaltar, a propósito), desde então a Rusga Libertária exerceu papel destacado na consolidação de nossa ideologia em âmbito nacional, vivenciando, construindo e fortalecendo os espaços de construção de nossa militância no país, como o antigo Fórum do Anarquismo Organizado, fundado em 2002, e a atual Coordenação Anarquista Brasileira, fundada em 2012.

Foi resultado dos esforços militantes das e dos companheiros da Rusga Libertária (junto a companheiros gaúchos, cariocas, alagoanos e outros), que o anarquismo especifista se expandiu para todas as regiões do país, de norte ao sul, com organizações anarquistas especifistas consolidadas em 12 estados, sendo o COMPA um exemplo direto disso.

Por sua determinação, por sua história de luta, firmeza, postura e de fazer valer a nossa bandeira nos espaços onde estamos presentes, prestigiamos essa organização irmã com a qual pactuamos as tarefas maiores de construir a nossa organização nacional, de trazer o anarquismo à luz da classe trabalhadora como uma alternativa real de luta e de nova sociedade, e também de fazer a revolução social.

Forte abraço, companheiras e companheiros, não tá morto quem peleia! Seguimos juntas e juntos a enraizar anarquismo em nossas lutas e em nossa classe!

Viva a Rusga Libertária!
Viva a CAB!
Viva o anarquismo!

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Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC) – PR

Saudações do CALC aos dez anos da Rusga Libertária/CAB!

O Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), organização anarquista especifista localizada no estado do Paraná, saúda e comemora uma década de construção da Rusga Libertária em terras mato-grossenses! Compomos desde 2012 a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) em conjunto com a organização-irmã Rusga Libertária e, neste momento, contamos com outras 10 organizações anarquistas especifistas espalhadas pelo Brasil.

Alegramo-nos em saber que os/as companheiros/as mato-grossenses têm se empenhado na tarefa árdua e cotidiana de construção de uma alternativa política frente as burocracias dos movimentos sociais, num contexto estadual em que reina o poderio dos latifundiários da soja e do agronegócio em geral.

Numa conjuntura nacional de lutas cada vez mais acirradas, com destaque neste momento para a luta contra a MP 746 (Reforma do Ensino Médio) e PEC 241 (55) – com direito a muita ação direta (ocupações, atos de rua e mais), é necessário continuarmos a construção de novos referenciais políticos. Somente nessa intensa peleia, com muito esforço organizativo nas escolas, bairros, favelas campos, florestas e locais de trabalho, conseguiremos construir um outro horizonte que rompa com as estruturas do capitalismo, do Estado e de qualquer dominação.

Ao mesmo tempo, passamos por um momento de aumento da repressão e criminalização à pobreza e aos movimentos sociais. Com os marcantes casos de Rafael Braga e da invasão à Escola Nacional Florestan Fernandes, destacando também o contínuo genocídio do povo negro e dos povos originários. Só nos resta a solidariedade entre a classe oprimida para resistirmos e avançarmos.

A cada modesto passo que damos, a cada ano que completamos de luta e organização, ficamos mais fortalecidos. Com muita convicção e firmeza, a partir de raízes históricas bem sólidas, seguimos na construção de uma matriz ideológica anarquista latino-americana, ampliando nossa atuação e amadurecendo nossas organizações.

Continuamos juntos, lado a lado. Partilhamos das mesmas concepções, princípios, estratégias, táticas, leituras da realidade. Nossa convicção e sentimento de pertencimento a algo maior aumenta nossas chances de vitória sobre os vários tipos de dominação. Seguimos construindo uma outra sociedade, fundada em outros valores, uma sociedade de socialismo e liberdade!

Saudações aos/às anarquistas especifistas do Mato Grosso! Seguimos sabendo que só a luta popular decide! Toda força para o nosso projeto de construção de uma sociedade justa e igualitária!

Lutar! Criar Poder Popular!

Viva o Anarquismo no Centro-Oeste!

Viva a Rusga Libertária! Viva a CAB!

CALC, Novembro de 2016.

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Federação Anarquista Cabana (FACA) – PA

Companheiros e companheiras da Rusga Libertária!

A Federação Anarquista Cabana – FACA saúda com grande entusiasmo e profundo respeito o aniversário de 10 anos da Rusga Libertária – CAB. Organização coirmã que tanto inspira nossa prática militante. Falamos isto não como simples palavra ou mero devaneio.  Nossos parabéns se pautam na construção teórica e prática de um socialismo libertário com nossa face. Com a cara negra e índia. Na sua relação profunda com a natureza de nosso continente latino americano e também de nossa grande região Amazônica.

Nossa realidade comum, marcada pela lógica perversa de uma colonialidade do ser, do saber e do poder nos colocou no mesmo campo de batalha. E mais do que isso. Apresentou o grande desafio da construção de um anarquismo militante, inserido e atuante nas lutas de nosso povo. Da grande, emancipada e autônoma Abya Yala até a realidade Centro Oeste brasileiro. Na tarefa de construção da resistência cabocla, negra e indígena contra a escravidão e a invasão de nossas terras.

Nosso espírito cabano, desde as partes mais setentrionais do Brasil, deseja que estes dez anos se multipliquem. Que se ampliem. Que nosso esforço comum de construção de uma organização em nível nacional se efetive e que nossas forças se enraízem onde se tenha uma luta contra a exploração econômica e a opressão de todas as ordens. No alvorecer de um dia onde celebraremos a autodeterminação, a auto-organização e a autogestão material e simbólica do viver. Isto tudo acompanhado de uma solidariedade plena e orgânica.

 Em nossa concepção libertária de socialismo, não existe “lutar para o povo” e sim lutar com o povo, como militantes populares. Justamente por sermos filhas e filhos do povo brasileiro, queremos participar da nossa libertação, caso contrário, não existe luta libertária possível. Não acreditamos em benevolência da classe dominante, por isso, sabemos que a nova sociedade somente nascerá das entranhas da classe trabalhadora. Este é o grande o exemplo e legado que a Rusga nos dá neste seu aniversário.

Hoje, como ontem, a nossa luta é no campo e na cidade, na floresta e no cerrado, na caatinga e nos pampas. A construção de nossa corrente é internacional. Mas, sobretudo, latino americana. Que viva o anarquismo especifista. E que viva a RUSGA LIBERTÁRIA!                                               @ Secretariado da FACA

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Federação Anarquista Gaúcha (FAG) – RS

Desde o sul do Brasil enviamos a toda Rusga Libertária nosso grande abraço de comemoração pelos seus 10 anos de luta. São 10 anos construindo o anarquismo no país. Que todas e todos saibam que nos sentimos parte desta construção, nos sentimos comemorando com vocês também este momento.

É importante que se diga que vivemos momentos difíceis para os de baixo, não que já tenha sido fácil algum dia, mas temos vários desafios à mais nesta infeliz conjuntura de retiradas de direitos e de repressão. Reafirmar nossa convicção libertária está na ordem do dia. Demarcar nosso campo ideológico, dar batalha de ideias, se enraizar mais e mais no trabalho de base são ações compartilhadas entre nós e servem de ânimo para a árdua jornada de luta que não termina amanhã e tampouco começou hoje.

Hoje, dia 18 de Novembro também vamos comemorar nossos 21 anos de FAG, mas o punho erguido e o grito de Arriba los que luchán é para Rusga Libertária!!!

Vida longa a Rusga Libertária!

Vida longa a CAB!

Viva a Anarquia!

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Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) – RJ

Nós, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) saudamos os dez anos de nossa organização-irmã Rusga Libertária (RL), integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) e com presença no estado de Mato Grosso. Nosso país de extensões continentais nos impõe uma tarefa árdua que recebemos com toda dignidade: fincar raízes de luta e rebeldia em todo território brasileiro. Retomar e fazer crescer a influência do anarquismo organizado, modestamente é um trabalho que vem sendo feito por nossa coordenação e com ela, a organização Rusga Libertária, com afinco e determinação.

São 10 anos de luta e construção da proposta anarquista no estado de Mato Grosso, mas a história de resistência é muito mais antiga, o levante do rusguentos, resgatado pela organização especifica local, surgiu de um contexto de indignação dos explorados que responderam com ação direta abrindo caminho para na sequência de outras revoltas como a Farroupilha (RS), Cabanagem (PA), Sabinada (BA), Balaiada (MA) dentre tantos capítulos do poder popular e se mistura com as lutas indígenas tocadas contra a implantação do criminosos Estado-nacional brasileiro. Temos em nossas veias as memórias e as lições de resistência indígena, a luta popular de base e a federação das que lutam cotidianamente contra os desmandos do capital em todas as regiões desse país chamado Brasil. Temos em Rusga Libertária, uma aliada fiel da revolta popular e do anarquismo de nossa corrente.

Organização que se dedicou com afinco na construção anarquista brasileira que tem seu salto qualitativo no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) e depois Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), saudamos os esforços da militância anarquista organizada no estado de Mato Grosso.

Que cresça a revolta e a luta popular! Que cresça a força das e dos de baixo contra os desmandos dos latifundiários e capitalistas!

Viva a Rusga Libertária (RL)!
Viva a Coordenação Anarquista Brasileira!

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Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) – SP

Saudação OASL

É com grande entusiasmo que saudamos e comemoramos os 10 anos de organização da Rusga Libertária, organização que sempre andou ombro a ombro com os de baixo no Estado do Mato Grosso.

Nessa década a Rusga fez parte do bom combate contra as classes dominantes e tem contribuído com modéstia mas decisivamente para o fortalecimento do Anarquismo no Brasil e para a construção do Poder Popular nesse país e no mundo.

Por isso nesse dia tão importante aos anarquistas brasileiros, que não atoa também é aniversário de nossa organização, saudamos esses 10 anos que nossas e nossos companheiros tem dedicado ao socialismo e a liberdade, que venham muitos mais!

Viva a Rusga Libertária!
Viva a Anarquia!
Via a CAB!
Lutar! Criar! Poder Popular!

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Organização Resistência Libertária (ORL) – CE

É com imensa alegria e satisfação que nós da Organização Resistência Libertária [ORL/CE], integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, viemos saudar aos 10 anos da Rusga Libertária. Em Mato Grosso, Estado em que o capitalismo finca as cercas do agronegócio e o Estado impõe os Bandeirantes como identidade colonial, acreditamos na firmeza e na resistência da nossa organização irmã na luta contra o latifúndio, contra o genocídio dos povos originários e do povo preto, contra a precarização da vida urbana e pelo fim da violência contra a mulher, da homofobia e da transfobia. Mais que isso, acreditamos na Rusga Libertária como semente da anarquia no Centro-Oeste do Brasil. Em tempos de avanço do conservadorismo, retrocessos dos direitos sociais e de expansão do projeto neoliberal, ter uma organização irmã resistindo e lutando ombro a ombro desde baixo nos dá fortalecimento para também continuarmos na luta contra o capitalismo e construindo o socialismo libertário. Desde a CAB, marchamos com o preto do luto e o vermelho da luta, contra a dominação supremacista e a exploração sangrenta que atinge o povo oprimido. Viva os 10 anos da Rusga, Viva a organização anarquista cuiabana e uma veia da luta internacionalista!!

Enraizar o Anarquismo no Centro-Oeste do Brasil!!!

Viva a Rusga Libertária!

Viva a Coordenação Anarquista Brasileira!

10 anos Rusga Libertária e 3° Encontro Regional Centro-oeste/Sudeste da CAB
10 anos Rusga Libertária e 3° Encontro Regional Centro-oeste/Sudeste da CAB

[CURITIBA] 8º ENCONTRO DO CÍRCULO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS (CEL) – NA PRÓXIMA TERÇA (29/11/2016)!

                                       O Especifismo                                                       a organização política anarquista na América do Sul

o-especifismo

Na próxima terça-feira, 29 de novembro de 2016, o CALC articulará seu grupo de estudos em Curitiba. Faremos o CEL no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná, às 18:30, na sala 205 da Psicologia.

Buscaremos a compreensão desta expressão política própria dos anarquistas na América do Sul, que representa grande parte do esforço político organizativo anarquista no presente, do qual o CALC se filia.

Os textos base são:

– A organização política anarquista – Federação Anarquista Uruguaia (FAU)

– O que é o especifismo e como ele se desenvolveu nos primeiros tempos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU)? – Juan Carlos Mechoso, militante fundador da FAU, Trechos da entrevista A Estratégia do Especifismo.

– Especifismo – Verbete do “Dicionário da Anarkia”.

– Especifismo organização anarquista – Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

– Elementos para uma reconstituição histórica de nossa corrente – Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) / Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Baixe aqui: CEL VIII

Evento no Facebook:                                                                 https://www.facebook.com/events/1904487779782733/           

Para mais informações sobre os textos e temas que discutimos durante o ano, visite:             https://coletivoanarquistalutadeclasse.wordpress.com/grupos-de-estudos-libertarios/

E a Livraria Alberto “Pocho” Mechoso estará presente também! https://anarquismopr.org/livrariapocho/ e facebook.com/livrariapocho/

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Venha participar!