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[FARJ] A Greve Geral como Ferramenta de Luta da Classe Trabalhadora Ontem e Hoje

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2017/04/27/a-greve-geral-como-ferramenta-de-luta-da-classe-trabalhadora-ontem-e-hoje/

O ano de 2017 simbólico para a memória os trabalhadores brasileiros, pois comemoramos 100 anos da nossa primeira grande greve geral. Ao mesmo tempo, vivemos um momento político duríssimo para a classe trabalhadora, com o atual governo atacando os direitos mais básicos, que foram conquistados com décadas de luta e resistência. Desmantelam os direitos trabalhistas, destroem a previdência, regularizam a terceirização e vendem nossas riquezas, privatizando diversas empresas.

É nesse contexto que as grandes centrais sindicais propõem uma “greve geral” para o dia 28 de abril. Refletindo sobre a trajetória de luta do movimento operário, nos perguntamos: a proposta dessas centrais é realmente construir uma Greve Geral? A paralisação do dia 28 será suficiente para enfrentar todo o retrocesso imposto pelo atual governo e pelas grandes empresas? Qual a nossa concepção de greve geral?

Greve Geral de 1917: análise do passado e reflexão sobre o presente

A experiência da grande greve geral de 1917 marcou a história da classe trabalhadora e do anarquismo no Brasil. Construída a partir do acúmulo de anos de mobilização e organização do movimento operário, desde a grande greve de 1903, passando pelo 1º Congresso Operário Brasileiro de 1906 e o 2º Congresso em 1913, foi a grande greve de 1917 que marcou a memória das lutadoras e lutadores.

Naquele período, grandes greves aconteciam em diferentes partes do mundo, protagonizadas em esmagadora maioria pelo sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo, ambos com participação determinante dos/as anarquistas. Tanto o sindicalismo revolucionário quanto o anarco-sindicalismo eram estratégias da ideologia anarquista para o movimento de massas. No caso do sindicalismo revolucionário brasileiro, este defendia a neutralidade sindical, o que não significava ficar alheio ao que se passava no país e no mundo, mas sim, não tornar os sindicatos um palanque ou parlamento eleitoral. Se organizavam de maneira federalista, o que hoje chamaríamos de tomar decisões “pela base”, respeitando as instâncias e assembleias de base dos trabalhadores e construindo as decisões, sempre de baixo para cima, sem burocracia sindical. Defendiam a solidariedade de classe entre os trabalhadores e a greve geral, entendendo a organização e articulação entre as categorias como um pré-requisito para um movimento grevista não ser derrotado pelo seu isolamento. Adotavam a sabotagem e o boicote contra patrões e fura-greves, e batalharam para construir uma cultura operária libertária e rebelde, mediante centros culturais, bibliotecas populares, festivais, peças teatrais e jornais. Esse componente cultural servia para formar e atrair mais trabalhadores para a discussão dos seus problemas.

No Brasil, o sindicalismo revolucionário era a estratégia sindical mais forte nos sindicatos e também a mais defendida pelo anarquismo. Em 1906, esta corrente foi hegemônica na fundação da primeira central sindical do país, a Confederação Operária Brasileira (COB). Desde o início do ano de 1917, os sindicalistas revolucionários e anarquistas da então Capital Federal, organizados na Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ), se mobilizavam contra os altos preços dos alimentos (“carestia de vida”), situação que se agravava devido à 1ª Guerra Mundial.
Em junho de 1917, uma greve no setor têxtil em São Paulo se expandiu para outras categorias, havendo inclusive a formação de um um Comitê de Defesa Proletária. O crescimento do movimento grevista provocou combates entre operários e policiais, causando a morte do jovem sapateiro anarquista José Martinez no dia 9 de julho, que serviu de estopim para o início da greve geral. Três dias depois, dezenas de milhares de trabalhadores/as aderiram à greve, armazéns foram saqueados e barricadas montadas nas ruas dos bairros operários.

O movimento, apesar da forte repressão policial, obteve algumas conquistas, tais como aumento de salário em 20%, a não-demissão dos grevistas, libertação dos presos durante a greve, fiscalização do trabalho infantil e a defesa dos direitos das mulheres nas fábricas, que sofriam diversas violências pelos contra-mestres e patrões.

Em agosto de 1917 estourou no Rio de Janeiro uma greve têxtil com forte protagonismo das mulheres, que se tornou uma insurreição quando soldados do Exército passaram para o lado dos grevistas e enfrentaram a polícia, resultando em um civil e dois soldados rebeldes mortos.

A Revolução Russa, que contou com forte participação anarquista nos seus primeiros anos, animava os grevistas brasileiros a lutarem por seus direitos e, em 1918, trabalhadores e trabalhadoras acirrariam a luta pela conquista das oito horas de trabalho. Em Niterói/RJ, uma greve que começou na Companhia Cantareira e da Viação Fluminense, acabou com protesto e combates de rua, com relatos de algumas deserções nas fileiras militares que foram reprimir os trabalhadores. Os trabalhadores também formaram um comite revolucionário clandestino em 18 de novembro de 1918 para organizar a greve e a insurreição. As fábricas de tecido do Rio de Janeiro, Niterói, Petrópolis e Magé paralisaram suas atividades, havendo enfrentamentos entre manifestantes e policiais. A delegacia policial de São Cristóvão foi ocupada e duas torres da Light explodidas. Longe de ser uma insurreição descolada das massas, esse evento foi realizado com a organização e a luta de aproximadamente 100 mil grevistas.

Esse contexto de avanço das lutas sindicais se estenderia até 1924, contando com diversas greves gerais e setoriais, além de grandes manifestações de rua. É nesse cenário que diversos direitos trabalhistas foram conquistados. Em 1919, grande parte das categorias de trabalhadores alcançam as oito horas de trabalho, pauta histórica do movimento operário em todo o mundo. Nesse mesmo ano, foi aprovado o Código Sanitário, que além de garantir condições mínimas de trabalho para todos, proibiu o trabalho infantil para menores de 14 anos e o trabalho feminino noturno. Essa lei também previu a primeira licença maternidade do país: 30 dias de folga para as trabalhadoras antes e depois do parto. Todas essas conquistas foram, evidentemente, pautas do movimento operário desde as greves de 1917.

A repressão estatal nessas primeiras décadas do século XX produziu milhares de presos, centenas de deportados e dezenas de mortos, a maioria destes anarquistas. Apesar de golpeada pelo governo da época a mando dos patrões, a grande greve geral de 1917 deixou importantes lições para a classe trabalhadora brasileira: apenas a luta garante direitos.

A luta pela defesa de nossos direitos hoje

Vivemos em um momento emblemático para a luta da classe trabalhadora. O atual governo nos golpeia a cada momento com um novo ataque aos nossos direitos. Diante deste cenário nefasto, urge a necessidade de mobilização e organização dos trabalhadores e trabalhadoras para enfrentar esse retrocesso.

Há tempos os setores de esquerda clamam pela necessidade de uma Greve Geral, que seja capaz de reunir os diversos setores da classe trabalhadora e concentrar uma força social capaz de pressionar o governo e os patrões. Depois de tanto silêncio e indiferença, as direções das maiores centrais sindicais do país reuniram-se e lançaram a proposta de uma suposta “greve geral” para o dia 28 de abril.

Em primeiro lugar, apoiamos e defendemos a necessidade de uma greve geral e de protestos que façam a classe dominante recuar em seus ataques.

Em segundo lugar, achamos que esta proposta não representa bem uma Greve Geral. Podemos chamá-la por seu nome: paralisação. Em terceiro lugar, entendemos que tal paralisação é completamente insuficiente para enfrentar os desafios que se colocam à nossa frente. Um dia de paralisação não é capaz de parar a produção do país nem de acumular força social para construir a necessária resistência. Além disso, o fato mais indigesto – mas não surpreendente – é a tentativa de transformar a paralisação em grandes showmícios, despolitizando completamente o evento e tornando nossa ação inofensiva às classes dominantes.

Dessa forma, as burocracias sindicais pisam na luta dos trabalhadores e cospem em sua memória de luta, esvaziando o significado de suas ferramentas de resistência e desmobilizando qualquer possibilidade de enfrentamento. A irresponsabilidade desses atos é ainda mais profunda quando temos em mente o peso que esse retrocesso significará para todos os trabalhadores.

No entanto, como dissemos, esses fatos não nos surpreendem. Não é de hoje que as centrais sindicais burocratizadas cumprem esse papel nefasto. Inclusive, não temos motivos para duvidar das recentes delações, feitas por grandes empresários, que acusam os dirigentes de grandes centrais sindicais de receberem dinheiro para encerrar greves e desmobilizar os trabalhadores (CUT, Força Sindical etc). Na prática, sabemos que esse é o principal papel histórico do sindicalismo reformista: amaciar a luta de clases e instalar gestores sindicais que serão os políticos e os burocrata do sistema de dominação de amanhã.

A saída é por baixo e pela esquerda

Olhando para a história do movimento operário no Brasil, aprendemos que o avanço das lutas dos trabalhadores, a massificação dos movimentos e a construção de uma Greve Geral não é algo que ocorre da noite para o dia: é fruto de muito trabalho de base, de mobilização e organização da classe trabalhadora. A questão é que as burocracias sindicais, velhas conhecidas dos patrões e governos, não parecem ter qualquer interesse em realizar essa construção e querem construir uma base social para garantir as eleições de 2018 e de seu “messias” Luis Inácio Lula da Silva.

Resta aos setores autônomos, às oposições de esquerda anti-capitalista e organizações revolucionárias que não possuem rabo preso com o patronato, com governos ou com as próximas eleições, trabalharem para massificar as lutas. E isso significa abandonar a cultura ativista do “fazer o que aparece” ou “quando dá”. Abandonar a cultura política de apenas “ir nos atos”, mas encarar um protesto e uma greve como resultado de um trabalho anterior que é feito todos os dias. Sabemos que como força política minoritária, o anarquismo – e de maneira mais ampla a esquerda anticapitalista não-eleitoral – para se apresentar como alternativa deve conseguir acumular força social à partir das lutas do presente. Por isso, nós da FARJ modestamente defendemos a construção cotidiana de movimentos populares/estudantis/sindicais (do campo e da cidade). É a partir da base, que os trabalhadores podem defender seus direitos e lutar pelos seus interesses. É na atuação nos bairros/favelas/ocupações, nos sindicatos, universidades e escolas do campo e da cidade que construímos força social para começar a mudar essa realidade e caminhamos em direção ao poder popular.

Ir às ruas contra o golpe nos direitos!
Só a luta popular decide!
Organizar o povo, ocupar as ruas! Ação direta que derruba o Capital!

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[SIMCA-RS] Pedido de solidariedade ao Sindicato dos Municipários de Cachoeirinha

PEDIDO DE SOLIDARIEDADE

SINDICATO DOS MUNICIPÁRIOS DE CACHOEIRINHA (SIMCA)
Sindicato de Luta, Classista e Combativo

Sede: Avenida Flores da Cunha, nº. 903/ Sala 1202, Cachoeirinha/RS
Telefones: (51) 3470-6902 / (51) 3438-6655
E-mail: simcacachoeirinha@gmail.com
Facebook: facebook.com/SindicatoDosMunicipariosDeCachoeirinhars/
Depósitos ou transferências: Banrisul (041), Agência: 0152, Conta corrente: 06.151720.0-6, CNPJ: 93075026/0001-80

O SIMCA é, sem dúvida, um exemplo de sindicato classista e de luta de base no Brasil. Foi fundado no dia 20 de junho de 1989 e nestes 28 anos tem sido protagonista de lutas memoráveis, tanto em seu local de inserção, quanto nos diversos momentos em que prestou solidariedade de classe à luta de outros movimentos sociais. Os municipários(as) de Cachoeirinha têm sido exemplo na organização e mobilização para a luta, não se conformando nem se calando frente as arbitrariedades e autoritarismos inerentes a exploração no trabalho; têm combatido de frente os desmandos de chefias e governos, bem como as injustiças impostas pelos “de cima”.

O SIMCA sempre manteve uma linha classista e combativa pautada pelos princípios da AÇÃO DIRETA, DEMOCRACIA DE BASE, INDEPENDÊNCIA E SOLIDARIEDADE DE CLASSE.

Parte da premissa de que os sindicatos devem resgatar seu papel fundamental na organização dos trabalhadores(as) e colocar a Classe em movimento na luta contra o capital, tomando como princípio que a construção desta luta não deve focar-se somente em sua categoria, ou apenas na sua Entidade. É por isso que buscam atuar junto à outros(as) lutadores do povo, tomando parte e fortalecendo as lutas da classe trabalhadora. É atuando com firmeza política e ideológica desde o seu local que buscam construir e compartilhar experiências que possam servir de referência para a luta e para a ação de outros sindicatos e movimentos sociais, avançando como Classe na conquista de direitos.

Neste momento o SIMCA vive a sua mais expressiva experiência de luta nesses 28 anos de história. Uma greve de mais de 40 dias que entra na sétima semana de luta incansável pela manutenção e defesa dos direitos conquistados pelos(as) trabalhadores(as) de Cachoeirinha e contra as políticas de cortes e ajustes do governo municipal. Essa greve não é histórica apenas para Cachoeirinha, mas também se torna referência em nível estadual e nacional ao fazer frente e dar combate a um modelo de austeridade que tenta se impor como hegemônico e cortar direitos historicamente conquistados com muita luta pelos(as) trabalhadores(as) brasileiros de todas as categorias e segmentos.

Depois de semanas de mobilização direta – tanto entre trabalhadores(as), como junto as comunidades que utilizam os serviços públicos – enfrentando toda sorte de perseguições e repressões por parte do governo municipal, a luta exemplar que conta com ampla adesão da base da categoria e com o apoio massivo da população do município colocou o governo em uma situação insustentável, fazendo com que este começasse a demonstrar enfraquecimento na sua postura – até então – irredutível. Na última quinta-feira, dia 13/04, cerca de trezentos municipários(as) foram à capital do estado do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – para um ato político-cultural naquele que era o 39º dia da greve. A categoria e apoiadores(as) concentraram-se em vigília durante toda a tarde até o início da noite enquanto ocorria uma reunião de negociação que contrariava os interesses do governo. Subordinada ao Ministério do Trabalho, o Setor de Mediação da Superintendência Regional do Trabalho conduziu a reunião.

Conforme encaminhado pelo Comando de Greve (um Comando de base com estrutura federalista formado a partir de representantes por local de trabalho), a comissão de negociação do SIMCA posicionou-se em defesa das contrapropostas de alteração das leis do “pacotaço” de cortes e ajustes imposto pelo governo. O resultado dessa reunião foi uma proposta do governo de “suspensão” dos “pacotes” aprovados por 60 dias, em contra partida ao fim da greve.
A resistência da categoria é decisiva na greve. A sexta semana de greve já era avaliada pela categoria como decisiva para o movimento. Nos debates realizados em assembléia, no comando de greve e nas plenárias de mobilização, estava nítido o esgotamento por parte do governo que tentava de todas as formas desmobilizar a categoria. Fazendo uma breve memória da greve, diversas táticas foram utilizadas pelo governo ao longo desses últimos quarenta dias:

1ª semana de greve: logo no primeiro dia de greve há um factoide na mídia que tenta associar o movimento a um episódio de arrombamento do gabinete do prefeito. Na versão veiculada na mídia, portanto, a greve inicia sob suspeita e já há indícios da tentativa de criminalização que estava por vir. O governo convocou o sindicato para negociação no terceiro e no quinto dia de greve. A comissão do SIMCA sustentou a defesa da revogação do pacote e sugeriu que emergencialmente fossem evitados os efeitos das leis de impacto imediato, no entanto, o governo formalizou proposta no dia 10/03 apenas prometendo compensações no futuro.

2ª semana de greve: o movimento de greve ganha o apoio da comunidade que se mobiliza e passa a cobrar a responsabilidade diretamente ao prefeito. Na luta é revogada a portaria que reduzia o atendimento na educação infantil. Trabalhadores(as) da saúde aderem massivamente à greve. A mobilização de rua reúne mais de mil manifestantes na Avenida Flores da Cunha. Os 38 dias da vitoriosa greve dos municipários de Florianópolis tem o testemunho de carne e osso diante da categoria. No dia 16 de março o movimento ultrapassa a ponte e oitocentos municipários(as) lotam o Auditório Dante Barone na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul na Audiência Pública sobre a retirada de direitos dos servidores públicos municipais de Cachoeirinha.

3ª semana de greve: As denúncias da audiência pública são entregues no Ministério Público. O governo intensifica as medidas de criminalização sobre o movimento de greve. As legítimas manifestações na via pública escrachando vereadores, prefeito e vice, são tratadas pelo governo como atos criminosos. A secretaria de educação, por sua vez, ameaça institucionalmente as escolas e faz chantagem com pedido de listas de grevistas. O movimento de greve responde com força ao assedio moral e ocupa a sede da Secretaria de Educação. A ação direta arranca uma nova negociação com o governo. Porém, na condução da reunião que ocorre dois dias depois, o governo eleva o tom da criminalização e pela voz da Secretaria de Segurança é anunciada a repressão ao movimento.

4ª semana de greve: Tem início a greve de fome em frente à prefeitura e a mobilização passa a ser por 24h ininterruptas. Enquanto isso, o prefeito almoça com os empresários em busca de apoio. Após as duas últimas semanas de mobilização terem sido praticamente silenciadas pela mídia, desta vez o movimento ganha repercussão estadual. Não contentes com a proporção que tomou a greve, a provocação vinda do governo passa a ser mais ousada: prefeito e secretário de segurança acusam o movimento de greve de vinculação com os arrombamentos na prefeitura e um CC vinculado à secretaria de governança faz provocações aos servidores em greve de fome tentando forjar um conflito. A sessão ordinária na câmara adia a votação do projeto que reduz o vale alimentação após a pressão da categoria. No dia seguinte o comando de greve ocupa o legislativo. No dia 30 de Março a repressão brutal sobre o movimento deixa um saldo de 30 feridos e 3 detidos, registrando a maior covardia da história de Cachoeirinha. No dia 31 de março de 2017, mais de duas mil pessoas tomam a Avenida Flores da Cunha em repúdio ao massacre. Ministério do Trabalho e Ministério Público Estadual acolhem as denúncias da violação dos direitos nessa semana.

5ª semana de greve: a greve dos municipários(as) de Cachoeirinha chega a sua condição irrenunciável, conforme declaração lida em um mês completado do movimento:
http://www.diariocachoeirinha.com.br/_conteudo/2017/04/noticias/regiao/2092803-servidores-divulgam-documento-sobre-a-greve.html
O governo apela para o corte do ponto para tentar desmobilizar o movimento. A repercussão da greve ganha dimensão nacional com diversas manifestações de apoio que passaram a chegar de todo o país. A denúncia da repressão sobre o movimento de greve chega à comissão de cidadania e direitos humanos da Assembleia Legislativa para que a covardia não fique impune. As mobilizações de rua avançam no plano tático e o acesso à cidade é trancado com a tomada da ponte que dá acesso ao município. Medidas de solidariedade são encaminhadas pela plenária de mobilização para garantir a permanência na luta após o corte do ponto. A análise política coloca o movimento na encruzilhada entre a consagração e a tragédia: http://www.ihu.unisinos.br/566491-a-tragedia-de-saco-e-vanzetti-e-a-greve-dos-municiparios-de-cachoeirinha-licoes-e-fantasmas-ressurgindo

6ª semana de greve: a convocação do sindicato já anunciava: “Semana decisiva para a vitória da categoria!” O distrito industrial da cidade amanhece com um piquete grevista em frente ao Centro das Indústrias de Cachoeirinha para dar o recado aos patrões que arrotavam com o prefeito o apoio ao ajuste. Nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, dia 10/04, o governo convoca o sindicato para uma negociação que ocorre no dia seguinte e o prefeito pela primeira vez comparece na reunião. A expectativa da categoria é frustrada quando desrespeitosamente é apresentada a mesma proposta rejeitada há um mês pela categoria no dia 10/03. A comissão de negociação do SIMCA se retira e é referendada pela categoria a posição de voltar a negociar somente com a intermediação que ocorreria na quinta. Nas ruas é dada a resposta com uma forte mobilização que mais uma vez tomava a avenida principal da cidade. No Rio Grande do Sul, a greve ganha a solidariedade da mobilização dos servidores públicos estaduais em luta contra o governo Sartori, e diversas categorias de municipários(as) da região metropolitana colocam o tema na ordem do dia nas assembleias.

Municipários(as) são vitoriosos(as), mas o ajuste ainda não foi derrotado! Todos(as) estão conscientes da heróica resistência que mulheres e homens municipários(as) tem travado contra o injusto ajuste fiscal que ataca os direitos. O golpe que corta na carne dos(as) trabalhadores(as) é o mesmo promovido em todo o país pelos governos e patrões. O sentimento de pertencimento com a greve dos(as) municipários(as) vai além dos mais de 3 mil trabalhadores(as) implicados nessa peleia. O suor e o sangue que vem sendo derramado nessa greve é de toda a classe oprimida. Para muito além do debate sobre a aceitação ou não da proposta de trégua vinda do governo, os e as municipárias(os) de Cachoeirinha estão cientes do dever e da responsabilidade que assumiram em sustentar uma resistência conjuntamente com a classe oprimida deste país contra o golpe nos direitos.

É a partir desse entendimento, de que a luta não termina com um possível fim do movimento paredista nesse momento, que se solicita SOLIDARIEDADE à essa Luta, seja com ampla divulgação, seja através de aporte material/financeiro. A máxima “NÃO TÁ MORTO QUEM PELEIA” nunca foi tão condizente com o momento que está sendo vivido. Portanto:

TODA SOLIDARIEDADE AO SIMCA E AOS MUNICIPÁRIOS(AS) DE CACHOEIRINHA!
NÃO TEM HISTÓRIA, É GREVE ATÉ A VITÓRIA!
LUTAR, CRIAR, PODER POPULAR!

[CABN] CEL – Joinville: Anarquismo e Sindicalismo

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/cel-joinville-anarquismo-e-sindicalismo/

No atual cenário político e social, o Estado e o capitalismo promovem ataques contra os direitos do/as trabalhadores/as empregados/as e desempregados/as. Em diferentes cidades brasileiras greves tomaram as ruas, muitas vezes longe da burocracia sindical, inclusive pautando nas ruas a ação direta.

Frente ao cenário, como as organizações políticas anarquistas podem se envolver na luta? Quais as contribuições que o anarquismo tem a oferecer a resistência dos/as trabalhadores/as? Como adotar um método diferente da esquerda autoritária e vanguardista? Em torno das perguntas que o Coletivo Anarquista Bandeira Negra, integrante da Coordenação Anarquista Brasileira, chama o Círculo de Estudos Libertários com o tema “Anarquismo e sindicalismo”.

Os textos sugeridos para o debate são:

“Sindicalismo e Ação Direta”, da Coordenação Anarquista Brasileira, disponível aqui:http://anarquismo.noblogs.org/?p=110.

“O lugar das greves na experiência histórica da classe trabalhadora”, por Edgard Silva, militante da Federação Anarquista Gaúcha, disponível aqui: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=1139.

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O CEL acontece no dia 09 de julho (qui), às 19h, no Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Bráz, na Rua Dr. Plácido Olímpio de Oliveira, 660, Anita Garibaldi, Joinville.

Todas e todos convidados!

[CABN] Boletim CABN set/2014

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/boletim-cabn-set2014/

Salve companheiras e companheiros!

Neste boletim de setembro: eleições, sindicalismo, especifismo, próximas atividades e lutas

Eleições

A Coordenação Anarquista Brasileira lançou um material de análise e posição sobre o período eleitoral, apontando que “a saída à esquerda não é nas urnas, é nas ruas!”. Confira aqui:
http://www.cabn.libertar.org/cab-elementos-da-conjuntura-eleitoral-2014/

Sindicalismo

A Frente Sindical da Coordenação Anarquista Brasileira também publicou texto sobre a conjuntura sindical, os métodos anarquistas da ação direta e do protagonismo das bases, e um pouco da história anarquista no sindicalismo e na estratégia da Greve Geral. Leia aqui:
http://www.cabn.libertar.org/cab-sindicalismo-e-acao-direta/

Especifismo

Um importante material teórico foi traduzido para o português, uma entrevista com Juan Carlos Mechoso, membro-fundador da Federação Anarquista Uruguaia. A entrevista aborda distintos temas relevantes para a corrente especifista do anarquismo, que inspira a CAB e é desenvolvida há mais de 50 anos no Uruguai e outros locais da América Latina. Leia aqui:
http://www.cabn.libertar.org/a-estrategia-do-especifismo-entrevista-com-juan-carlos-mechoso/

Próximas atividades e lutas

Aproveitamos esse espaço para divulgar algumas lutas e atividades políticas que apoiamos nos locais onde estamos inseridos.

Em Florianópolis, nesse sábado (04/10) acontecerá um ensaio aberto da Bateria do Movimento Passe Livre, importante preparação para embalar as próximas mobilizações e atos de rua. Mais informações aqui:
https://mplfloripa.wordpress.com/2014/10/02/sabado-ensaio-aberto-da-bateria/

Também em Florianópolis, há um processo de mobilização contra a implementação da EBSERH, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, no Hospital Universitário da UFSC. Nesta terça-feira (07/10), haverá uma reunião do Conselho Universitário que deve tratar do tema, conquista da mobilização ocorrida semana passada, articulada entre diversas entidades estudantis, sindicais e populares. Mais informações aqui:
https://www.facebook.com/pages/EBSERH-Aqui-N%C3%A3o-Passar%C3%A1-Por-um-HU-100-P%C3%BAblico/493525984088253

Em Joinville, nesse sábado (04/10), haverá reunião do Coletivo Feminista Mulher na Madrugada. Mais informações aqui:
https://www.facebook.com/events/364967006994054/?fref=ts

Também em Joinville estão sendo articuladas novas atividades da Campanha Protesto Não É Crime, que logo serão divulgadas pelo site e pelo facebook.

Saudações libertárias!

Coletivo Anarquista Bandeira Negra, integrante da Coordenação Anarquista Brasileira

ca-bn@riseup.net | http://cabn.libertar.org

Para entrar em nossa lista de notícias, envie um e-mail para ca-bn@riseup.net

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[CAB] ELEMENTOS DA CONJUNTURA ELEITORAL 2014

Eleições: A saída à esquerda não é nas urnas, mas nas Ruas!
Elementos da conjuntura eleitoral – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

O contexto de eleições em nosso país precisa ser analisado a partir de alguns elementos da conjuntura brasileira que procuraremos apontar na presente análise. São aspectos que acreditamos relevantes e em certa medida condicionantes de uma compreensão mais rigorosa das eleições e de algumas conclusões libertárias que no final apontaremos.

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Quando o “Ganha, ganha”, pode se tornar o “Ganha, perde”

O Partido dos Trabalhadores já governa o país há 12 anos, desde 2002. Sua fórmula tem sido a de fortalecer o financiamento aos grandes capitalistas “tupiniquins”, bem como a expansão do crédito pessoal, que por tabela fortalece o mercado consumidor. O governo busca fortalecer os grandes capitalistas e, de quebra, cria empregos e melhora as condições de consumo da massa trabalhadora. Para completar temos ainda programas sociais que atendem a massa, a exemplo do Bolsa Família – “36 milhões de brasileiros foram tirados da extrema pobreza” (DILMA, 2014) e o Mais Médicos – que segundo o governo cobriu 50 milhões de pessoas desassistidas. Toda esta forma de governar tem sido sintetizadas por nossa corrente, no bojo da CAB, como o neodesenvolvimentismo, porque representa uma nova busca pelo desenvolvimento de alguns setores da economia como sua inserção na economia internacional por meio da injeção de recursos públicos (isto é mais intervenção que no período neoliberal), todavia com certa repaginação, pois não podemos comparar essas com as políticas desenvolvimentistas de outrora, afinal o Estado entra mais como financiador do que como agente direto do desenvolvimento, nesse sentido privatizações e parcerias público privadas vigentes da época neoliberal se mantém, quando muito ganham outra roupagem.
O que temos visto, nos últimos anos, são sintomas de certo “cansaço” deste modelo de desenvolvimento e crescimento. Falamos de alguns sinais desse esgotamento em nosso último documento:
“Em relação ao desenvolvimento capitalista, o PT atingiu alguns índices que permitem certa estabilidade e crescimento, como os 4,6% de desemprego, que permitem certa fluidez à economia; afinal, o consumo de massas é um de seus carros-chefes. Todavia, a não distribuição real de renda, ou seja, a socialização da miséria, gera índices de endividamento preocupantes, que prometem desacelerar o consumo de massas e o mercado imobiliário, com um grande risco desse endividamento se tornar inadimplência. As grandes obras e os megaeventos têm prazo de validade, e, quando finalizados, prometem desacelerar ainda mais a economia. O agronegócio, como apontado, está sujeito ao mercado internacional e, por isso, sensível às oscilações econômicas externas. Resta saber, também, até que ponto os bancos públicos suportarão manter o crédito no mercado, sem que o Estado se endivide ou tenha suas contas pressionadas, em especial no que tange aos programas sociais.
Como vemos, temos um modelo econômico que está distante de uma perspectiva transformadora; ele não pode ser assim caracterizado sequer em uma perspectiva reformista. Mesmo no que diz respeito ao equilíbrio capitalista, ele parece estar sustentado em “bases” instáveis, sujeitas a desequilíbrios. ”(CAB, 2014)

Sem ser taxativos e sem buscar fazer do alarmismo e catastrofismo elementos da análise, temos de ficar atentos a alguns movimentos do capitalismo brasileiro, pois certos sintomas de desaceleração e certa instabilidade econômica despontam na realidade, e sabemos os impactos que têm na conjuntura política do País.

O próprio governo de turno (Dilma-PT) , e seu programa eleitoral apontam que seu pilar é, e continuara o mesmo
(…)A competitividade produtiva será atingida por meio dos investimentos em produção e consumo de massa, investimentos em infraestrutura social e econômica, na construção de um Brasil sem Burocracia e nas áreas de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, construindo uma sociedade do conhecimento.”(DILMA, 2014)

Deste modo, não podemos ser otimistas, no sentido de esperar algo diferente nos próximos anos, a despeito de certa desaceleração da economia, teremos mais do mesmo. O próprio governo admite que o PIB que tinha a expectativa de crescimento de 2,5%, deve crescer no máximo 1,8%, o mercado e instituições financeiras apontam para 1,5% (os mais pessimistas instrumentos financeiros 0,52%), sendo que o PIB teve um crescimento de 1,03% no período da crise mundial (2009), como vemos estamos com nossa economia com taxas muito próximas do período de recessão. Claro que esta é uma tendência global, a Economia mundial deve ter expansão de 2,8% este ano. Mais pessimismo se aponta com a dita “recessão técnica”, que aponta para encolhimento da economia do Brasil no primeiro trimestre de 2014, de menos 0,6%. A expectativa de crescimento do Banco Mundial para os países em desenvolvimento em 2014 foi reduzida para 4,8%, ante uma expansão de 5,3% esperada no relatório divulgado pelo órgão em janeiro. Todavia, há de se destacar que dos BRICS o Brasil é melhor somente que a Rússia, nesse sentido passa a ter um desempenho econômico fraco mesmo quando comparado com países de mesmo perfil.
Com todos estes resultados preocupantes, o que vemos nas campanhas, e no próprio programa do PT, é a reafirmação do que foi feito e alguns “avanços” que serão feitos na mesma direção. Parece que viveremos do passado nestas eleições, afinal seus principais adversários são o PSDB, que representa o que de pior temos na política, e o PSB, uma “terceira via” que não traz nada de novo e já aponta que governará em prol do capital. Deste modo não podemos esperar mudanças vindo destes setores, ao menos mudanças positivas no que se refere a população e a economia do País. Assim, o processo eleitoral tem pouco a oferecer nesta área, de um lado o PT que promete reeditar aquilo que vemos patinar, do outro aqueles que governaram o País por anos, e tem governado alguns Estados (exemplo do Paraná, estado que Richa quebrou literalmente, o Estado está sem empréstimos federais e sequer tem dinheiro para abastecer carros oficiais).
Os principais setores da economia nacional sofrem para crescer. O setor automobilístico enfrenta significativa recessão, a produção de veículos é a principal queda na indústria, aponta IBGE no mês de maio de 2013. Em comparação com maio de 2013, setor de automotores recuou 20,1%. A produção industrial registrou terceira queda seguida em maio, com -0,6%. A venda de veículos no primeiro semestre de 2014 caiu 7,33% em relação ao ano passado, aparecendo como pior resultado desde 2010. O varejo tem desacelerado, e dos 8,4% do ano de 2012 (crescimento foi de 2004 a 2012), tem como estimativa para 2014 4%, segundo Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). No setor imobiliário vemos significativa desaceleração este ano também, se em 2013 o financiamento imobiliário aumentou 34% em relação ao período anterior, este ano vemos acrescidos no setor meros 7%, a estimativa de crescimento é de 15% (menos da metade), de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). Se o consumo de massa é um dos pilares para o crescimento, tudo indica que está em um processo de decadência, pois os principais setores se encontram em franca desaceleração, deste modo entramos em um momento de enfraquecimento da economia. Tal queda nas taxas de crescimento são reflexos dos índices de endividamento da população, pois na medida em que o crescimento e aquecimento do mercado é fruto da expansão de crédito, e não dos ganhos reais, a tendência que se confirma é o endividamento das famílias. Segundo Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, a situação em 2013 era a seguinte: 63% da população brasileira possui algum tipo de dívida e 20% de contas atrasadas; 76% destas pessoas têm dívidas no cartão de crédito e o juro médio desse tipo de conta, no Brasil, atualmente se encontra no patamar dos 130%. A inadimplência ainda era baixa, fechou 2013 em 2,33%. Recentemente, um dado no mínimo preocupante revelou que 57 milhões de brasileiros já se encontram inadimplentes, destes 60% dos endividados têm contas atrasadas que superam toda a renda mensal. Outro dado aponta que 53% das pessoas com dívidas possuem até duas contas não pagas no prazo. É necessário observar que este número representa que, do total da população brasileira com 18 anos ou mais (144 milhões de pessoas), cerca de 40% estão inadimplentes. Um cenário de crise não se estabelece devido ao desemprego baixo que gira, de acordo com dados do IBGE entre 4,6% e cerca 5%, que garantem um cenário de pleno emprego.
Como podemos explicar esta desaceleração? Bom já havíamos apontado em uma análise anterior que este modelo de crescimento não era sustentável, em seu sentido de gerar um ciclo de crescimento. Pois nota-se que desde que o PT assumiu, colocou em curso seu projeto neodesenvolvimentista, baseando-se no aumento da oferta de crédito e não da distribuição de renda, o que logicamente leva a população ao endividamento, estagnando, ou ao menos diminuindo a capacidade de crescimento. Anteriormente já havíamos levantado dados recentes que apontam a situação do aumento dos salários no Brasil

“No que tange ao ganho real nos salários, este é muito pequeno no atual cenário. Apesar de que 84,5% das categorias que são monitoradas pelo DIEESE tiveram aumentos acima do INPC, apenas 0,6% receberam aumentos acima de 5%. A maior fatia recebeu entre 0,01% e 1%, somando 34,8% destes 84,5%. Nesta mesma pesquisa, constata-se que 64% tiveram um aumento da ordem de 0,01% a 2% acima do INPC. Em 2012 houve a maior taxa de aumentos acima de 5% do INPC. Isso atesta que o aumento no consumo se deu com a ampliação do crédito e corrobora a afirmação de que não há uma distribuição de renda significativa no país.” (CAB, 2014)

No que se refere o panorama da distribuição de renda encontramos também um quadro não muito positivo:

Enquanto isso, a maior parte da população brasileira continua vivendo com menos de um salário mínimo: trabalhadores com 15 anos ou mais de idade que ganham menos de um salário mínimo somam 26,080 milhões, isso representa que 43% da famílias brasileiras apresentam uma renda per capita inferior à um salário mínimo. (2)
Estes dois elementos quando se defrontam, demonstram a crueldade da realidade brasileira: enquanto 124 pessoas concentram mais de 12% do PIB, 26 milhões de trabalhadores vivem com menos de um salário mínimo por mês.
Mas para manter a aparência de “país rico”, o governo e a mídia disseminam o conceito de “classe média” como se houvesse mesmo, na prática, esse segmento que se diferencia dos pobres e miseráveis. Para o governo, essa “classe média’ abrange a população com renda per capita de R$ 291 até R$ 1019, ou seja, mais da metade da população brasileira pertence à classe média. Mas na prática, o que isso significa? O governo está mesmo redistribuindo a riqueza? Sim e não. Esta renda média está muito abaixo daquilo que o DIEESE aponta como necessário para se ter acesso aos direitos fundamentais, a instituição estipula que o salário mínimo brasileiro deveria ser de 2.621,70 R$ (2013). Percebe-se que, na realidade, o que acontece é que o governo redistribui a miséria. Segundo o IPEA, a pobreza reduziu no brasil de 32,4% para 22,6%, incluindo mais essa parcela da população na classe média, mas os mais ricos continuam da mesma forma, acumulando. Vejam: 1% da população mundial detém 43%da riqueza do globo, e 43% detém 2% da riqueza. (Banco Credit Suisse); apenas 6% dos brasileiros detém meios de produção próprios (IPEA); ou ainda: 1% dosproprietarios de terra brasileiros detém 45% da terra, 90% dos proprietários detém 20%(INCRA). Assim o que aparece como distribuição de riqueza nas afirmações do governo, na verdade se configura como uma dispersão da renda dos mais pobres, enquanto a acumulação dos mais ricos mantém os mesmos padrões, ou mesmo se intensifica, afinal com o crescimento da economia brasileira não contemplando a desconcentração de riqueza, acaba por estes segmentos se afastarem cada vez mais, afinal o crescimento dos mais ricos é assombrosamente maior. (CALC, 2013)

Como vemos, para além da distribuição de riqueza relacionada à população mais pobre, por meio de programas sociais (cujo o carro chefe é o bolsa família), não existe uma desconcentração real de riqueza, o que impede um ciclo contínuo de crescimento.
Em contra partida, os setores dominantes sentem a desaceleração, com um crescimento menor e com menores lucros (menores porque não batem recordes). Entre os bancos vemos na lista de maiores lucros, o Banco do Brasil, um banco público com lucro líquido de R$ 15,75 bilhões em 2013, ficando em primeiro lugar. O que demonstra que a oferta de crédito ainda é responsabilidade do Estado. Na sequência vem o O Itaú Unibanco com lucro líquido contábil de R$ 15,696 bilhões, acima do resultado de R$ 13,594 bilhões registrado um ano antes. Em terceira posição está o Bradesco, com um lucro líquido contábil de R$ 12,011 bilhões em 2013, valor acima dos R$ 11,381 bilhões obtidos no ano anterior. Não à toa vemos a pressão para o aumento da taxa Selic, a taxa básica de juros, pois como vemos tais bancos garantem um bom percentual de seus lucros no Brasil. O Santander, quarto nesta mesma lista, garante quase ¼ de seu lucro somente no Brasil. As classes oprimidas veem seu poder de compra diminuir com seu endividamento e com a inflação corroendo-as. A resposta para conter a inflação tem sido aumentar a taxa de juros, assim de um lado ou de outro quem “perde” é a população (com a alta da inflação ou com a alta dos juros), afinal investir no aumento da oferta não é do interesse dos grandes capitais financeiros. Pois no mesmo momento que governo declarou a diminuição do crescimento do PIB, alertou para um aumento na estimativa da inflação para o ano. Mesmo com desaceleração em junho, ainda batia o teto (de 6,5%) atingindo um acumulado de 6,52% nos últimos 12 meses. Em julho sofre ligeira desaceleração e se manteve por pouco, mas ainda acima do teto 6,51%.
Como vimos o governo continua apontando como modelo de crescimento a expansão de programas sociais, infraestrutura e a tal “competitividade produtiva”. Não vemos nenhum apontamento que o governo ira radicalizar na política de distribuição de renda ou ainda no investimento em setores estratégicos para fortalecer a indústria nacional realmente. O que vemos é que temo uma equação complexa a resolver, como manter o crescimento no consumo sem aumentos reais na renda? Como ampliar ainda mais o consumo e frear a inflação, se para conter a inflação o governo aumentou a taxa de juros para frear um pouco a procura? E mais como modernizar a indústria e o parque produtivo sem investimentos massivos na área ciência e tecnologia (o ápice de investimento é no ciência sem fronteiras, e não na montagem de equipamento em de C & T em solo nacional)? Como segurar capitais sem um disciplinamento dos mesmos (isto é, regulação, pois não há nacionalismo que faça capitalistas segurar o dinheiro em nossa economia)?
É inviável pensar em como atrair mais capitais produtivos para o País com uma taxa de juros de 11%, que favorece o capital financeiro, não à toa a venda de títulos públicos (títulos de dívida) bateu o recorde de R$ 57,97 bilhões. Não à toa a dívida pública volta a crescer 3,4%, chegando aos 2,12 trilhões. Não à toa vemos que as previsões para indústria são de encolhimento de 0,67% (pesquisa Fócus) neste ano de 2014 (a três meses a indústria encolhe). Entre os BRICS deixamos de ser a 4º economia com mais investimentos para passar a ser a 7º.
Qual solução apresenta o Governo? Por óbvio o aumento do crédito, a exemplo inverso do crescimento econômico os desembolsos do BNDES sobem 35% no 1º bimestre. No período, desembolsos chegaram a R$ 28,5 bilhões. Desembolsos para o setor de infraestrutura tiveram aumento de 82%, não à toa vemos que estes são os setores que mais financiam campanhas eleitorais. Não por acaso as contas do governo têm pior resultado para o 1º semestre em 14 anos.
Em junho, houve déficit de R$ 1,94 bilhão, pior resultado desde 1997. A arrecadação tem o pior crescimento desde 2009, isso resultado de desonerações fiscais, em especial a automóveis e eletros. Outro caminho encontrado pela presidente, e citado em seu programa como mais uma solução para o crescimento, são as parcerias público privadas, onde o governo entra com o financiamento (via BNDES), e o setor privado com a “gestão eficiente”, e é claro o lucro, tudo em prol do desenvolvimento. Entraram na onda da privatização portos, aeroportos, rodoferrovias, rodovias e Hospitais. Todas estas medidas para buscar manter as classes dominantes satisfeitas, e por outro lado impedir que as classes dominadas enfrentem o desemprego e achatamento ainda maior em sua capacidade de consumo.
Como vemos a economia enfrenta turbulência, e as classes dominantes ainda continuam a expandir seus ganhos, já ganharam mais, mas continuam ganhando. As classes dominadas vem perdendo o acesso a uma das únicas conquistas que obtiveram junto a este governo: o consumo. Têm percebido pouco a pouco perda de seu poder de compra, afinal endividados não tem condições de contrair mais despesas. Perdem com a alta da inflação, perdem com a alta dos juros, perdem quando o Estado se endivida e investe menos em áreas sociais, o mesmo ocorre quando o Estado arrecada menos, de um jeito ou de outro perde, e paga as contas do neodesenvolvimentismo. Tais aspectos não poderiam deixar de influenciar o panorama político. Afinal quando a política do “ganha-ganha” não é possível, sabemos quem tem de “perder”.

Acabou a festa do crescimento, acabaram os amigos…

Vemos junto das condições de instabilidade econômica, despontar os primeiros questionamentos a cerca do governo. O consenso de classes forjado pelo PT em seus 12 anos de governo, parece se abalar frente a incapacidade de manter um cenário de crescimento econômico. Se este governo já teve avaliações positivas acima de 60%, chegando a 68% em Dezembro de 2010, e mesmo em março de 2013 ainda contava 63% de aprovação, atualmente sua avaliação caiu a quase metade disso, pois em 4 meses a aprovação ao governo caiu nove pontos, de 43% para 34%. Ainda segundo a mesma pesquisa do Ibope (abril) a desaprovação à maneira de Dilma governar subiu de 43% para 48%. Segundo pesquisa do mesmo instituto realizada em julho, gostariam que o/a presidente mudasse totalmente o governo do país: 29%; mantivesse só alguns programas, mas mudasse muita coisa: 41%; fizesse poucas mudanças e desse continuidade para muita coisa: 18%;
desse total continuidade ao governo atual: 10%; e não sabe / não respondeu: 2%. Essa desaprovação ao governo Dilma, que possui influência indireta nas eleições, não consegue, contudo, ser captada por Aécio, mas por Marina, uma suposta alternativa, que como veremos não pode ser encarada como uma “saída”
Como dito, os problemas para reprodução do ciclo de crescimento, e a desconfiança na política do governo já tem seus resultados eleitorais, que se não retiram a estabilidade do governo, fazem o consenso em torno do PT ser atingido. Percebe-se o quão frágil são as conquistas petistas, que garantiram crescimento aos de cima, e acesso ao consumo e emprego (de baixa qualidade diga-se) aos debaixo, que ao demonstrar seus primeiros sinais de cansaço devido o modelo de desenvolvimento adotado, já mostra que aquilo que era tão consensual, talvez não o fosse tanto assim. São os frutos da engenharia do pacto social montada em todos esses anos de governo petista que, ao priorizar e fazer de centro de sua estratégia conchavos e alianças com os setores dominantes acabou deixando de lado a mobilização e organização dos de baixo, enterrando de vez qualquer perspectiva de transformação Socialista.

Sem crescimento econômico: debandada dos de cima… Sem garantia de Direitos: Insatisfação dos de baixo!

Como apontamos, a diminuição na taxa de crescimento aliada a fatores de coerência ideológica tem gerado tensionamentos por parte dos setores dominantes ao governo petista. Muitos deles feitos por meio da mídia, que ataca o PT e busca ampliar o clima de instabilidade, buscando favorecer a “oposição” ao governo, que agora promete modernizar a base produtiva com uma reforma tributaria, isto é sempre menos Estado, no que tange a gestão da economia e direitos, afinal não estão falando de uma reforma tributaria para implementar impostos progressivos. Mesmo a direita entrou na onda de criticar a copa (como alguns apontavam o General Figueiredo não fez a copa), e contrastando os estádios com serviço público.
Como apontamos anteriormente também, se não houve uma mudança radical na distribuição de riqueza também não houve atendimento à população no que tange aos serviços fundamentais. Se observarmos os principais serviços de atendimento a população: educação, saúde, transporte e saneamento, os mesmos não passaram por mudanças significativas, esperadas de um partido reformista. Nem podia ser diferente, se olharmos o orçamento de 2014, 42% são destinados à dívida pública. Somando isso à Lei de Responsabilidade Fiscal, torna-se difícil discutir qualquer mudança, ou reforma que seja. Não surpreende a privatização estar em uma crescente. Vemos recentemente esta noticia: Fusão da Anhanguera e Kroton cria a 17ª maior empresa da Bovespa
“Nova empresa passa a ter valor de mercado de mais de R$ 24 bilhões. Associação cria empresa com quase 1 milhão de alunos.”
(…)
De acordo com o CFM, do investimento federal total de R$ 47,3 bilhões em 2013, os R$ 3,9 bilhões da saúde representam 8,2%. Esse percentual, segundo a entidade, é menor que as fatias destinadas aos ministérios de Transportes (23,3%), Defesa (18,6%), Educação (16%) e Integração Nacional (9,3%).

Como pode-se notar a educação no Brasil continua a ser um negócio, e o aumento do investimento público se dá no setor privado. No ensino superior, por exemplo, veio por meio do PROUNI, que não é nada mais que a privatização de vagas públicas (estima-se que cada vaga no PROUNI custa cerca de 3 nas Universidades públicas). Ainda quando vamos olhar em como se encontra a educação, nos defrontamos com o seguinte panorama

Quando tocamos a situação das universidades, temos uma situação ainda mais crítica no que tange à administração do serviço por parte do poder público. Apenas 11% da população entre 25 e 64 anos de idade atingiu esse patamar educacional, quando o recomendável para nações desenvolvidas é, pelo menos, 31%. Atualmente, ao menos 74% dos estudantes do ensino superior têm de recorrer ao ensino privado, pois as instituições de ensino superior privado correspondem à maior parte deste serviço no Brasil. São 2.112 instituições privadas para 304 públicas. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Segundo pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa, os níveis de alfabetização e alfabetização funcional melhoram seu desempenho de acordo com a renda. Percebe-se que o produtivismo imposto à educação brasileira por órgãos internacionais nos anos de neoliberalismo ferrenho, combinado com a falta de atenção naquilo que tange às políticas de bem-estar social (em que renda é somente um elemento) e com uma universalização que não representou aumento suficiente em verbas (por consequência em ganho estrutural e pessoal), gerou uma estrutura sobrecarregada (salas lotadas) com número pequeno de professores, acabando por se converter em uma educação massificada de péssima qualidade. Nosso país não somente tem uma educação de péssima qualidade, como, por conta da expansão via universidades privadas, é incapaz de promover o desenvolvimento tecnológico, pois as privadas não investem em pesquisa e possuem um frágil sistema de produção de conhecimento. O Brasil é responsável por meros 2,7% da produção científica no mundo, o que é pouco para uma das maiores economias mundiais. Não é à toa que somente quatro universidades brasileiras estão entre as 100 mais bem avaliadas dos BRICS. Nessa área, a privatização se estende a todos os níveis, do básico ao superior, seja por meio da privatização de receitas, da estrutura pública ou pela liberalização que transforma um direito em mercadoria.
No recém aprovado PNE (Plano Nacional de Educaçao), grande parte da discussão ficou em torno de orçamento, os famosos 10% do PIB, e 100% do Pré-Sal. Se estas discussões são importantes, não podemos esquecer de pensar na qualidade e gestão da educação, justamente o que mais preocupa no PNE que preve a privatização do sistema de educação de cima a baixo, desde a educação infantil até a pós graduação.
Na Saúde não temos melhores situações em pesquisa recente, realizada pelo TCU aponta que 64% dos Hospitais encontra sempre superlotados, 81% das unidades tem falta de médicos, e 73% das instalações são inadequadas. Em pesquisa ainda deste ano (2014), constatou-se algo que não soa nada estranho frente a este panorama, 93% da população se encontra insatisfeita com o SUS e convênios privados. Recentemente ainda encontrávamos o seguinte cenário

Segundo pesquisa de 2011, cerca de 70% da população se encontra insatisfeita com os serviços prestados pelo SUS. Esse número se refere àqueles que, frequentemente, buscam o serviço. A principal reclamação é de falta de médicos, seguida da demora em agendar consulta ou exame na rede pública (IPEA), que podem chegar, segundo algumas fontes, a 9 meses. Segundo outra pesquisa, cerca de 60% da população usa somente o SUS, enquanto outros 30% combinam o uso do SUS com a saúde privada. Na prática, cerca de 90% da população depende dos serviços do SUS. Ele não obtém aumento real em sua suplementação desde 1994, pois, a inflação no setor de saúde acumulada na última década, de 83,3%, acabou por absorver os 32% de aumento em subsídios no setor. Vemos o atual governo romper somente na retórica com a antiga política privatizante, impondo-a por meio de medidas mascaradas, como no caso das empresas públicas de direito privado (como a EBSERH), que abrem espaço para as privatizações (hospitais de porta dupla) e promovem a mercantilização da saúde (não só no sentido comercial, mas também de submetê-la à lógica da administração empresarial em detrimento do bem-estar. Em nível estadual temos as suas equivalentes, as Organizações Sociais (OSs). Somente apontando esses dados preliminares, sem nos determos à fundo nas estatísticas relacionadas à saúde pública brasileira, é notável que a sua situação é catastrófica.
Ainda no que se refere o saneamento básico, tema diretamente ligado a Saúde Pública, dos 100 maiores municípios, 34 não tem plano de saneamento estima-se que 35,5 milhões de pessoas não acessam o saneamento básico.
No que se refere aos transportes, dos 50 bilhões adicionados por Dilma no orçamento para área, parece que pouco se investiu em transporte para a população. Acabou que a única conquista real da população foi a redução da tarifa nas mais de 100 cidades, e algumas cidades que passaram a garantir o passe livre por meio da força das ruas. Em geral o transporte continua na mão das velhas máfias do transporte, mais do que isso, esse orçamento suplementar caiu na mão de velhas oligarquias. O Cade realizou denuncia de cartéis nas obras de metro em São Paulo, Distrito federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Como vemos a situação continua igual ou mesmo pior.
Tais dados revelam a realidade de um Brasil que ocupa a posição de 46° lugar em novo índice que mede a qualidade de vida. O Indicador global IPS avaliou ‘progresso social’ em 132 países. Brasil foi o melhor dos Brics, mas foi superado por outros latinos. O país mais bem-sucedido da região foi a Costa Rica, que apareceu em 25° lugar. Em seguida, vieram Uruguai (26°), Chile (30°), Panamá (38°) e Argentina (42°). Como vemos não necessariamente “País Rico é País sem Pobreza” pois, mesmo em índices de instituições burguesas, aparecemos atrás no que tange a qualidade de vida de países com economias muito menores.

Igual não é, mas também não cai muito longe…

Parte da esquerda desqualifica seu próprio debate apontando que o PT segue a mesma cartilha neoliberal do PSDB. Entendemos que tais afirmativas, para além de serem de certo modo inverdades, desqualificam a esquerda que acaba por afirmar que a realidade promovida pelo PSDB, de privatizações estrito senso, e menos participação do Estado na economia são idênticas por parte do governo PT. Não se pode comparar o atual governo ao período do PSDB, quando somente de 95 a 2000 o desemprego cresceu 155,5%, e o investimento público na geração de emprego declinou 32,2 %. Soma-se que em 2000 o desemprego batia os alarmantes 15%, dos quais hoje estamos distantes. A política de protagonismo econômico do Brasil frente a economia mundial também é um diferencial. O Banco do Brics é um de seus últimos exemplos. A lógica ainda é a lógica capitalista, por óbvio, em especial porque o multilateralismo brasileiro pouco leva em conta as alianças políticas, mas o pragmatismo econômico (basta ver que Rússia e China estão longe de serem países democráticos), e visa em especial criar zonas de influência do imperialismo brasileiro.
Todavia vemos que a lógica privatizante permaneceu (agora sob a égide das PPPs), e que o investimento público, como demonstramos, não atingiu aquilo que espera-se de um governo reformista. Deste modo destacar diferenças não significa capitular ao “melhorismo” do PT, nem mesmo defendê-lo, mas compreender uma reconfiguração dos inimigos de classe. Ou seja, não há como negar que o governo PT se preocupou, de alguma forma, em favorecer a parcela mais precarizada da população brasileira, porém, sempre com políticas dualistas, onde os pobres ganham um pouco e os ricos ganham mais. Exemplo disso são os programas sociais que o governo PT desenvolveu durante sua gestão, como o Minha Casa Minha Vida ou o Minha Casa Melhor que, claramente, são políticas de estímulo ao consumo que visam aquecer o mercado.
Outro tema que vem aproximando o PT do PSDB é a forma como vem sendo tratados os movimentos sociais. Pois a repressão aos mesmos se tornou uma constante, como a judicialização da luta política. Os casos de São Paulo (2 presos) e do Rio de Janeiro (23 indiciados) são exemplares, e, se não são de responsabilidade direta do PT, são realizados com sua benção. Não é raro a guarda nacional e o exército serem acionados para combater movimentos. E mais, o PT foi um dos partidos que mais se esforçou por aprovar o projeto de lei que visava conter os protestos, aderindo mesmo ao projeto da bancada do PDT para acelerar a criação de dispositivos legais para reprimir manifestações. Cabe mencionar que o próprio exército vem sendo mobilizado para investigar manifestantes, algo que desde a ditadura não se via. Parece que estamos a relembrar a onda de terror e medo de investigações massivas, que chegam a absurdos para condenar militantes. A própria anistia internacional interveio no tema dos protestos relacionados à Copa, apontando que o Brasil vinha infringindo o direito a livre manifestação. Isto parece um contrassenso em um governo que tem sua presidente saída dos quadros da luta contra a ditadura, e mais absurdo quando vemos o cinismo da mesma: “Na minha época eramos presos por fazer política”. Tem se tornado lugar comum, os movimentos sociais serem tornados caso de polícia, e temos visto o mesmo tipo de montagem de “farsas” contra movimentos, dignos das épocas mais reacionárias de nosso país, botijões da gás que viram explosivos, livros de determinadas ideologias (em especial anarquistas) que se tornam prova de crimes (como na invasão do Ateneu Batalha da Várzea), mais recentemente ainda camisas, bandanas e suvenires de banda se tornaram prova de crime.
Para criminalizar o protesto, o PT e o PSDB vem contando com o apoio da mesma mídia que o PT acusa de golpista (e realmente o é até hoje, o wikileaks recentemente revelou documentos que revelam ligações de agentes da Globo e Folha de São Paulo a cônsules americanos). Mídia que os governistas apontam como sua principal oposição. Todavia há de se lembrar que se as concessões continuam na mão dos oligopólios da informação, é com a anuência do PT. Governos como o de Chaves e Kichiner revisaram tais concessões. Todos estes processos de criminalização buscam silenciar aqueles que denunciam o “bem estar” tupiniquim, criado por um governo que concede muito aos de cima, e que cede pouco aos de baixo, que precisa se comparar o tempo todo àquilo que existe de pior na política institucional para se situar a esquerda. Não tem existido deste modo menor constrangimento por parte do governo do PT na montagem e sustentação de farsas (é o caso de Tarso no RS) contra os movimentos sociais e na intensificação da repressão e organização de uma máquina de repressão aos movimentos sociais. A criação de bodes expiatórios como mascarados, black blocs, “fascistas” etc., se mostra como a faceta de farsas criadas para abafar as vozes descontentes, afinal a população deve aceitar resignada que o melhor que podemos alcançar em matéria de mudança social é o PT, e que qualquer oposição fortalece a oposição tucana, isto, claro, na visão do governismo. Estas farsas, que sim podem ser aproximadas (guardadas as proporções) aos tempos tucanos, e mesmo dos “anos de chumbo”, de alguma maneira obtiveram êxito em certo esvaziamento das ruas. Porém se a mídia consegue cumprir o papel de confundir, e busca esvaziar as ruas elegendo novos inimigos para colocar no lugar das classes dominantes, criando um antagonismo entre população e militantes/ativistas, estabelecendo as urnas como lócus da política, por outro vemos que o descontentamento e concordância com a necessidade de mudança não muda. Temos de observar ainda que em matéria de direitos humanos, este governo já firmou seu pacto com os setores mais conservadores, demonstrando que não podemos esperar nem as tímidas mudanças sociais que ensaiou o Uruguai, onde se descriminalizou o aborto e o uso da maconha, e mais deixando voltar a tona pautas de direita como internação compulsória para usuários de drogas e a malfadada “cura gay”. O PT é conivente com tais absurdos, pois nos bastidores Dilma já acalmou alguns dos setores mais conservadores da sociedade, (a exemplo de seu “pacto” com os neopentecostais) comprando seu apoio ao trancar pautas relacionadas a liberdades civis e direitos Humanos.
Já não nos defrontamos com o momento em que 8 em 10 brasileiros apoiavam as manifestações (Datafolha, 2013), que dois milhões saíram as ruas, em um contexto onde ocorreu uma manifestação a cada 3 dias na paulista (CET, 2014), não podemos dizer que a população está “acomodada” com a situação. Em uma recente pesquisa mostrou-se que se 73% dos paulistas vêm mais prejuízos do que ganhos nas manifestações, ainda sim 52% dos mesmos apoia as mesmas (Datafolha, 2014), cabe destacar a que pesquisa foi realizada no primeiro dia da greve de ônibus. De São Paulo, Estado mais rico em pesquisas do tipo, vemos que com o início da Copa caem 61%, mas que por outro lado temos 14,5% mais manifestações que em 2013 no primeiro semestre. O que podemos apurar disso, é que se as manifestações estão menores, se tornaram frequentes e parte do cotidiano, o “senso comum” já as compreende como parte da vida política, e isso podemos entender como uma mudança ideológica significativa na consciência dos brasileiros. Se a massa saiu às ruas, os velhos movimentos ganharam nova força em uma conjuntura ideológica mais favorável, vimos greves massivas, sem teto, etc. Por outro lado vemos uma confusão instaurada pelos meios de comunicação, endossadas por nossas personalidades políticas, que demonstram que se não existe uma homogeneidade entre PT e PSDB, as classes que os mesmos representam (ambos disputam a capacidade de representar as classes dominantes) tem uma mesma preocupação, assim passam a existir muitos pontos de contato, talvez o principal é de que os poderosos não gostam da organização e luta dos de baixo, e que seu trato é o mesmo, cooptar quem se pode cooptar, reprimir quem não concordar. Não é à toa que o candidato à presidência do reacionário PSDB (que tem em seu seio desde narcotraficantes, a membros da Opus Dei) não tem problema algum em colocar: “Política e administração pública é você copiar as coisas que dão certos e aprimorá-las. […] Não tenho o menor constrangimento de mantê-los e aprimorá-los [os programas socias do PT]“. Como vemos escolhemos no máximo com qual “molho” vamos ao fogo. O problema é da democracia burguesa, e não dos partidos em questão, salvaguardadas as diferenças, ambos terão que manter a “ordem”, sem ao mesmo tempo alterar nada de fato, pois não se pode distribuir direitos sem mexer na concentração de riqueza. Isso ficou claro nos dividendos políticos gerados na “sala de cima” da política pelo junho de 2013: mais repressão, fortalecimento do aparato militar, farsas e mentiras da mídia encomendadas por estes senhores e senhoras e claro mais recursos públicos paras as quadrilhas que se associam ao poder público.

Uma “Nova Velha” Alternativa

A “fatalidade” da queda do avião de Campos, abriu espaço a uma “nova” e ao mesmo tempo velha conhecida do eleitorado, Marina Silva. Dirigente da Rede Sustentabilidade, sigla que não foi legalizada, como herdeira natural de Campos assume a cabeça da chapa liderada pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro – cujo socialismo resistiu somente na sigla). A fraqueza do PSB e seu programa fica eminente, na medida em que cede sua sigla a uma “forasteira” no partido (afinal Marina apenas aluga a sigla por seu partido, a Rede, estar ilegal) na eminência do sucesso eleitoral. Isso tanto procede, que quando o chefe da campanha de Campos padece, tão logo o PSB anuncia Marina como nova candidata a presidência.
Não podemos deixar de lembrar que Marina, é uma velha novidade, na medida em que fez parte do atual governo. Mas as semelhanças com o passado, não param por ai. Se temos como “velhas” alternativas o PT de Dilma (mesmo lugar da onde saiu Marina) e o PSDB de Aécio, e como novidade a Marina da Rede (travestida de PSB), nos bastidores da política, a realidade é a mesma. Marina tem como grande financiador o maior banco privado do País: o Itaú. Conta com Neca Setúbal como sua estrategista, nada mais nada menos que a herdeira da rede bancária. Como já discutimos, sem enfrentar o capital financeiro que morde boa parte dos recursos orçamentários do país (com a arrolagem da dívida pública), fica difícil pensar em mudanças quaisquer. Quando tem-se o capital financeiro pagando a conta de uma candidatura, é eminente que esta candidatura em nada rompera com o status quo.
Outra mostra de que Marina é mais do mesmo fica por conta de sua prontidão em abrir mão de compromissos históricos seus e de sua legenda (no caso a Rede e não o PSB), que são com a ecologia e a tal sustentabilidade (conceito tão disputado que sem uma longa discussão pouco define, atualmente). Marina já se dispôs a apoiar e financiar o setor do agronegócio (supostamente seus inimigos históricos na pauta ambiental). Se aquilo que era o “coração” do programa de seu partido já se esvaiu na eminência de uma vitória eleitoral, no caso a suposta “intransigência” da ambientalista na defesa do meio ambiente, não podemos esperar que aquilo que está em um segundo plano resista. Deste modo temos uma terceira via que renuncia seu “programa” na primeira oportunidade, que flexibiliza aquilo que lhe é mais caro em nome do pragmatismo eleitoral. Diante de poucas certezas “programáticas” de Marina, a suposta Terceira Via: também representa a vitória do Capital. Entendemos que esses 3 projetos (PT, PSDB e PSB/REDE) representam variações administrativas no marco do Estado e que seguirão ajustados às relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro. Não podemos nos deixar iludir pelas falsas alternativas; a SAÍDA À ESQUERDA É SÓ UMA.

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As Ruas são a Única Saída à Esquerda

Junho de 2013 nos mostrou que existe certo descontentamento com o governo atual, principalmente pelos setores médios da população. Porém, a esquerda combativa (leia-se esta, a esquerda que luta por fora do poder burguês) tem tido imensas dificuldades de aglomerar todo este descontentamento em termos de organização e construção programática dos de baixo. Nesse sentido veremos setores oportunistas “surfando na onda”, da necessidade de mudança, chamando às “urnas” que são o “verdadeiro” lugar da cidadania (Marina Silva tão prontamente tomou este posto). Mesmo assim, observamos uma disposição da população para com a luta e ação direta, que a muito não víamos. Quando se trata da juventude, aquela parcela da população escolarizada (os dados mostram que em junho a maioria era de universitários), com um perfil etário que não viu as mazelas do PSDB, mas que também não viu o PT em seus áureos anos de combate, tem aparecido com disposição para exigir mais, e isso o próprio PT admite em seu programa para 2014. Segundo a Pesquisa Agenda Brasil Juventude, nove em dez jovens acreditam que podem mudar o mundo, 83% entendem que a política é importante, e destes 45 % ( a resposta mais escolhida) dos jovens entendem “a participação e mobilização nas ruas e ações diretas” são o mais importante, seguido de 44% para “atuação em associações ou coletivos que se organizam por alguma causa”, em terceiro “atuação em conselhos, conferências, audiências públicas ou outros canais de participação deste tipo”, com 35%. Podemos ver que as “ruas” vencem na pesquisa, todavia os instrumentos da Política Nacional de Participação Social, ainda ocupam um bom espaço, assim sendo a cooptação e manipulação da participação popular ainda estão voga, em franca disputa com os movimentos sociais independentes, afinal esta foi uma das últimas cartadas de Dilma para tentar capitalizar a revolta das ruas, a institucionalização do PNPP. Sabemos que este é mais um engodo, não porque discordamos da participação popular, mas porque sabemos que na ordem do dia não serão colocados o orçamento, a dívida pública, mas sim a reforma política, que nada irá alterar, afinal as eleições e nossos representantes são uma das facetas do poder burguês. As relações de poder que garantem os privilégios e dominação das classes dominantes não serão alteradas pelas eleições. Nesse sentido, antes mesmo das eleições começarem, podemos ter uma certeza: as classes dominantes vencerão, e as classes oprimidas perderão, perder com governos que já tem pactuados seus acordos com as elites, os donos do poder, perder quando manipulados se enganarem e verem o poder neste processo, e assim se deixando cooptar pelo processo que somente legitima a Ditadura Burguesa com a áurea de democrática. A única vitória possível pelos oprimidos virá de sua organização e luta, pois mesmo as reformas não virão de uma mágica varinha de condão do Estado, mas pela capacidade de pressão que tem as classes oprimidas. É essa força que faz mesmo o reacionário PSDB aceitar programas sociais (afinal é temperatura da luta de classes que faz a política ceder, e não a benevolência ou consciência subjetiva destes senhores). Nesse ponto concordam PT e PSDB, bem como a classe dominante, o poder não pode se reorganizar, tampouco se democratizar, com reforma ou sem reforma política as eleições ainda serão uma encenação, o “espetáculo democrático”, pois os temas estratégicos para a população somente podem aparecer na ordem do dia por meio de sua ação direta. Junho é uma pequena mostra disso, se arrefecendo o espírito de luta na massa, as pautas das ruas saíram de cena ou fizeram uma metamorfose, se tornando interessantes a burguesia (voltemos ao caso da suplementação orçamentária ao transporte, cujo o dinheiro vem caindo nas mão dos velhos cartéis). PT e PSDB não são iguais, mas ambos são partidos da ordem burguesa que disputam a gestão do aparelho, não um projeto de sociedade. A esquerda “revolucionária” que participa das eleições sequer tem força para disputar o aparelho, e serve como mera legitimação do processo, emprestando-o ares de plural e democrático. As mudanças que se ensaiaram vieram todas das ruas, e somente aí se apresenta uma saída à esquerda para o processo. Seus programas recheados de “boas intenções”, como eles mesmo sabem, sequer tem chances nas eleições minoritárias, menos ainda nas disputas em torno do poder executivo, elucidando mais uma vez que não há “milagre” que substitua o trabalho e a organização de base, demonstrando que sua incansável propaganda (12 anos o PSOL, e 20 anos do PSTU) pouco renderam eleitoralmente ou organicamente. Sequer são capazes de criar um campo de unidade da esquerda, apresentando nas eleições uma esquerda que é minúscula e fragmentada, e que muito pouco pode definir na atual política brasileira.
O terreno ainda é fértil ao nosso campo, que ganha mais espaço público que em outros tempos. Não ao acaso nos tornamos o bode expiatório mais atingido pelas farsas policiais. A população, em especial a juventude, está aberta para discutir uma nova política. Uma “Outra Campanha” nunca esteve tão em voga, afinal o consenso dos Partidos da ordem atual em torno da necessidade de pactuar as classes sociais, e de gerir a miséria capitalista da forma mais “humana” possível, fazem com que as massas olhe com ceticismo o processo eleitoral. Acreditamos que a única saída à esquerda possível é a organização dos de baixo e sua luta direta nas ruas. Apostamos na construção de processos de massas, sem “imposição” de programas “revolucionários” de cima. Afinal vanguardas descoladas não radicalizaram os de baixo por osmose, pois estes constroem seu espírito reivindicativo no dia a dia dos conflitos e das mobilizações.
As Ruas ainda jogam peso no imaginário daqueles que fizeram sua experiência de luta em 2013. O protagonismo político exercido pela população, na opinião dos anarquistas, sempre teve como lócus as manifestações e ações diretas em geral. Diante da realidade, que nos ofereceu uma recente revolta de massas no Brasil, este elemento das Ruas se mantém vivo no imaginário coletivo. Tanto o é que todos os candidatos da extrema esquerda a extrema direita reivindicam o legado de junho. O TRE tenta capitalizar nas urnas a “vontade de mudança”, tentando estabelecer uma disputa de “urnas” versus “ruas”, tentando definir que o lugar da política e da decisão, tem dia, hora e local marcado, estes definidos pelas classes dominantes, que já venceram antes do “gongo soar”.
Para nós Socialistas Libertários, a política dos de baixo não se faz nas urnas, mas no cotidiano do protagonismo de classe e da ação direta. Falar disso no atual momento não significa mais remeter a abstrações ou ao passado “dos anos dourados dos movimentos de massa”, mas remeter a algo que evoca no imaginário coletivo um real exercício do poder do povo. Sem sermos ingênuos acreditando que só ir as ruas basta, sabemos que a falta de organização de base fragiliza os processos de mobilização e facilitam as tentativas de controle pelos dominantes. Deste modo, nossa aposta é nas Ruas como espaço privilegiado da ação política, mas também é a aposta na organização horizontal e de base que fortalece a ação direta, com uma agenda popular que delibera, encaminha e executa seu programa: um programa dos de baixo, que não delega poder a nenhum político de plantão. Ou se vota com os de cima, ou se organiza e se luta com os de baixo!

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Coordenação Anarquista Brasileira – CAB
Setembro de 2014

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[CAB] SINDICALISMO E AÇÃO DIRETA

Trabalhadores (as) decidindo os rumos da luta

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No primeiro semestre de 2014, a luta de diversas categoriais de trabalhadores (as) ganharam as ruas para o desespero de patrões e governos. O contra-ataque dos poderosos teve a ajuda da grande mídia, que tentou criminalizar os protestos e desmobilizar os lutadores. Isso ocorreu antes, durante e depois da Copa do Mundo, momento em que os noticiários buscavam legitimar as ações violentas dos aparelhos repressivos do Estado e seus governantes. Na sequência, vieram também as perseguições políticas e prisões de dezenas de manifestantes de forma autoritária, violando os meios democráticos e direitos humanos.

Mas é inegável que as lutas destes/as trabalhadores/as tomaram grandes proporções, e pode-se identificar nelas uma prática comum, que tem sido bastante rara atualmente no sindicalismo brasileiro. Foram greves construídas nos locais de trabalho, independente das direções sindicais – por vezes tendo até mesmo que enfrentá-las. Conquistaram vitórias, totais ou parciais, que os antigos diretores sindicais, muitos deles fazendo o jogo dos governos e patrões, diziam não ser possível conquistar. Esses movimentos inspiraram diversos outros, em menores proporções e nem sempre com o mesmo grau de avanço, mas com uma importância enorme na tentativa de renovar a maneira de fazer a luta sindical no Brasil.

Essa prática pode ser identificada principalmente no protagonismo, na ação direta das bases decidindo sobre os rumos das greves frente à burocracia e à centralização das direções sindicais personalizadas e por correntes sindicais partidarizadas. Estas últimas, por outro lado, são práticas sindicais viciadas, que em geral não dão conta das urgências da classe trabalhadora, nem constroem espaços com autonomia política e participação direta dos/as trabalhadores/as.

Assim, experiências de autonomia, luta e solidariedade de classe emergem pelo país, seja no exemplo dos operários em protesto nas grandes obras de infra-estrutura do PAC (principalmente no norte e nordeste do país), os garis no Rio de Janeiro, os rodoviários em Porto Alegre, ou os metroviários de São Paulo. Demonstraram, na prática, que a luta começa desde baixo, e não raras vezes sem a tutela ou mesmo contra as direções sindicais. Em uma clara demonstração de que quem deve ter o controle das lutas é o conjunto da base e não um grupo de dirigentes “iluminados”.

Ações que também têm em comum a retomada de alguns importantes valores das várias lutas históricas das classes exploradas e oprimidas em todo mundo:

Ação Direta: os métodos de lutas para fazer avançar as reivindicações tiveram um repertório bastante diversificado desde as greves. São exemplos disso os piquetes, ocupações, sabotagens e mobilizações que paralisaram a circulação e o funcionamento de serviços essenciais. A Ação Direta é o uso de todos os meios necessários para potencializar as lutas protagonizadas pelos/as trabalhadores/as. Significa não entregar na mão de outros o poder de decisão sobre os assuntos do cotidiano. Ao contrario, é o coletivo a exercer esse poder de forma direta, sem intermediários ou representantes.

Protagonismo de Base: há uma disposição da base dos trabalhadores em fazer avançar a luta sindical e muitas vezes combatendo a postura burocrata da própria direção dos sindicatos. Assim foi o exemplo das lutas sindicais nesse período, impulsionadas pela base das categorias. Esse é o ingrediente de um sindicalismo forte, com controle dos/as trabalhadores/as através da democracia direta. Combatendo a cultura autoritária e anti-democrática presente nos sindicatos, inclusive em muitos daqueles dirigidos por agrupações que se colocam à esquerda na composição política.

Na medida em que os/as trabalhadores/as se organizam e avançam, a reação do Estado e governos têm sido a de criminalizar a greve e o protesto, reprimindo as lutas legítimas e propagando a mentira através da mídia burguesa, a grande aliada dos patrões e poderosos. Denunciamos aqui a cumplicidade entre essa hegemônica mídia capitalista, os governos e os fortes grupos econômicos que controlam o país.

É com entusiasmo que vemos as retomadas desta combatividade nas lutas sindicais pelo país, pois tomar o protagonismo de nossas lutas é fundamental. Os sindicatos são instrumentos importantes que podem potencializar a luta sindical. Contudo, quando estão tomados pela burocracia partidária, ou engessados pela patronal, deixam de ser um meio de luta e viram um meio de vida para os oportunistas. Pessoas que se dizem representantes dos/as trabalhadores/as, mas que se encastelam na estrutura sindical. Subordinam as urgências dos trabalhadores aos seus interesses, ou aos de seu partido, distanciando-se da realidade dos trabalhadores.

É no acúmulo das nossas forças e pelo nosso poder de mobilização que podemos enfrentar, inclusive, as injustas decisões judiciais a serviço de governos e patrões. É também pela nossa força coletiva que podemos alcançar as vitórias que almejamos. Que não percamos nossos desejos por mudanças! Que cada luta, cada piquete, cada greve, com suas derrotas e vitórias, possa fortalecer a ideia de que um novo mundo é possível.

Dentro desse processo de radicalização das lutas, é necessário ter como retomada de objetivo o Sindicalismo Revolucionário. Concepção de luta sindical defendida por Mikhail Bakunin, que o ano de 2014 comemoramos os 200 anos de seu nascimento, além de ter sido apontado como um “suspeito em potencial” de estimular as lutas e ter envolvimento com elas, na capital carioca.

Os 200 Anos de Bakunin

Em 2014, relembramos os 200 anos do nascimento do revolucionário e anarquista russo Mikhail Bakunin. Militante exemplar, sua vida se confundiu com a luta dos trabalhadores de sua época, principalmente dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Junto com outros companheiros, também foi responsável pela constituição do anarquismo como força socialmente engajada na luta pela liberdade e igualdade. Em 1868, Bakunin ajudou a fundar a Aliança da Democracia Socialista, organização clandestina e a primeira especificamente anarquista da história, que atuou dentro da AIT.

Sendo a AIT o espaço que aglutinou e impulsionou as lutas dos trabalhadores nesse período, é importante pontuar que foram os acúmulos das correntes anti-autoritárias da Internacional que tiveram maior influência no movimento operário de nosso continente latino americano. Após o Congresso de Haya, da Primeira Internacional, as concepções estatista e federalista se separam em meio a fortes polêmicas e seguem caminhos distintos. E é a corrente libertária do socialismo (federalista e anarquista) que vai impulsionar a continuidade da AIT, e é em 1872, em Saint-Imier na Suíça, que Bakunin e os federalistas fundavam a Internacional conhecida mais tarde como anti-autoritária.

As seções e federações vinculadas à Internacional que foram se formando em toda a América Latina contavam com orientações gerais bastante precisas e com autonomia para o seu desenvolvimento, dando continuidade às propostas federalistas e de sindicalismo revolucionário de Bakunin. Ele entendia o sindicalismo como um meio e não um fim em si. E o papel dos anarquistas deveria ser colocar combustível nos processos de mobilização da classe e organizar as lutas junto com os/as trabalhadores/as. Fazendo a propaganda da causa onde quer que se encontrassem os operários. Foi de fato na ação, e a partir das táticas consagradas pela experiência, que os contornos de uma doutrina sindical mais radical foi tomando forma, tornando-se a expressão histórica deste período.

A genealogia da Greve Geral

A idéia de greve geral foi lançada pelo Congresso da Internacional realizado em Bruxelas, em setembro de 1868. Na ocasião, era uma ferramenta com o objetivo de lutar contra a guerra naquele período. Mas foi em 1869 que Bakunin, de forma pioneira, analisou todas as possíveis consequências e potencialidades da Greve Geral:

“Quando as greves ampliam-se, comunicam-se pouco a pouco, é que elas estão bem perto de se tornar uma greve geral; e uma greve geral, com as ideias de liberação que reinam hoje no proletariado, só pode resultar em um grande cataclismo que provocaria uma mudança radical na sociedade. Ainda não estamos nesse ponto, sem dúvida, mas tudo nos leva a isso.”

Bakunin traz assim importantes contribuições a esta concepção da greve como ferramenta de mobilização de força dos/as trabalhadores/as, e que “já indicam uma certa força coletiva, um certo entendimento entre os operários”. Como prática da luta reivindicativa e de formação na prática, a Greve Geral deve também encarnar a solidariedade entre os setores da classe oprimida, pois “as necessidades da luta levam os trabalhadores a apoiarem-se, de um país a outro, de uma profissão a outra”.

Coordenação Anarquista Brasileira – frente sindical