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[CAB] – A Luta contra o aumento das passagens e o Anarquismo

O contexto da nossa luta
Nesse primeiro semestre houve diversas mobilizações de norte a sul do Brasil que enfrentaram a reação conservadora dos governos, do aparelho repressivo e da mídia. Desde as lutas em defesa do transporte público nas capitais, passando pelas greves nos canteiros de obras do PAC, até a resistência indígena dos povos originários, todas essa lutas foram alvos da criminalização do protesto que segue em curso no país sede da Copa do Mundo. Vivemos um dos momentos mais agudos da luta de classes no Brasil. O capital internacional avança diariamente a passos largos, explorando os trabalhadores e as trabalhadoras na busca do lucro.
Resistência dos/as oprimido/as x Violência do Opressores
Uma consequência dessa lógica do capitalismo se expressa no transporte. Somos diariamente violentados. Esperamos em intermináveis filas, viajamos horas em transportes superlotados e sem manutenção, correndo risco de vida. Sofremos com o a violência da ganância, do descaso, da roubalheira, das máfias das empresas de transporte público, ajudadas pelos governantes a lucrarem cada vez mais. Mas quando o povo vai para as ruas reclamar contra esta injustiça o que acontece? É violentado! Tropas de choque, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, bombas, balas de borracha à queima roupa que podem cegar ou até matar. Todo um aparato de guerra é usado contra o povo, e dezenas de manifestantes são presos e feridos pela polícia. Tanto a truculência da polícia e o descaso do poder público para o social, quanto o desrespeito que os empresários do transporte público nos fazem passar diariamente, todas estas são formas de violência contra o povo. E todas as formas que o povo usa para se defender contra esta violência são legítimas. Toda forma de resistência, ainda que com táticas distintas é legítima. A violência em todos os atos SEMPRE começou com a polícia, a fiel defensora das elites e da burguesia. Polícia, que curiosamente foi apoiada em sua última greve por legendas políticas de esquerda que hoje caluniam o anarquismo para “encontrar” um bode expiatório que divida a nossa luta.
Lutar não é crime
O povo, organizado nos movimentos sociais, manifestando-se por justiça, não pode ser criminalizado, agredido ou preso. Devemos ter cuidado com a estratégia dos poderes dominantes de criminalizarem “individualmente” militantes e ativistas que lutam contra o aumento da passagem.  Muitos já estão com processos nas costas por lutarem. Lutar não é crime! Não podemos deixar que nossos companheiros/as sejam criminalizados/as! Essa criminalização deve ser denunciada! Essa é a verdadeira face da democracia burguesa, escondida de dois em dois anos nas urnas e propagandas eleitorais mas que mostra suas garras quando surge a resistência! Não podemos reforçar dentro das nossas fileiras o discurso de criminalização daqueles que lutam tentando encontrar bodes expiatórios no nosso movimento. Todos/as aqueles/as que saem às ruas para se opor a máfia dos transportes são ilegais por natureza, pois enfrentam a burguesia e o Estado de “direito/a”.
Nossa concepção de anarquismo
Nós anarquistas organizados politicamente na Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) participamos modestamente de diversas mobilizações e cerramos fileiras com trabalhadores e militantes em diversos estados do país. A CAB é uma instância que reuniu diversas Organizações Anarquistas Especifistas de todo o Brasil para articular a luta e construir no futuro uma Organização Anarquista em nível Nacional. É constituída por 9 Organizações de diferentes Estados, de base Federalista que constrói – a partir de práticas concretas – unidade estratégica e maior organicidade para intensificar a inserção social no seio de nosso povo. Nesse sentido, são mais de 10 anos de resgate do Anarquismo enquanto corrente libertária do Socialismo, organizada politicamente e inserida socialmente. A CAB é formada por uma diversidade de sujeitos sociais que acreditam na já antiga mas atualíssima máxima que diz que a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, porém aliada também a histórica prática da organização do anarquismo enquanto partido, como foi a Aliança da Democracia Socialista de parte da Ala Federalista e Anti-autoritária da 1ª Internacional (Bakunin, Guillaume, Malatesta, Cafiero e outros) e também da nossa irmã Federação Anarquista Uruguaia, que se manteve atuante durante a ditadura militar uruguaia enfrentando esta com inserção popular/estudantil e com um aparato armado.
No entanto, nossa rica história que se confunde com a história da classe trabalhadora é muitas vezes atacada, desmerecida ou deturpada: muitas vezes trata-se do simples desconhecimento ou a reprodução de discursos simplificadores e reducionistas, porém, muitas vezes se trata da má fé, do preconceito e da necessidade de construção política na base da calúnia, auto-promoção e mentiras. Não nos surpreendemos quando estes ataques partem da mídia corporativa/burguesa, que tenta sempre criminalizar e estereotipar aqueles que lutam. Mas quando vem das fileiras de nós trabalhadores, devemos nos posicionar de maneira firme para combater o sectarismo que sempre divide a luta popular. Recentemente, o  último texto que tivemos contato e que faz referência aos “anarquistas” nestes moldes é uma nota lançada pelo setor de juventude do PSTU em meio a luta contra o aumento das passagens. Assim, nos posicionamos nacionalmente não para entrarmos na briga de quem é mais revolucionário ou possui a verdadeira interpretação do período em que vivemos, mas sim porque julgamos necessário combater as calúnias e evitar a confusão em nossas fileiras.
Nossa implicação enquanto CAB se dá por um conjunto de motivos que normalmente são veiculados em materiais como o que nos referimos acima: generalização e estereotipação do anarquismo; acusação de que somos uma seita esquerdista e que não teríamos nenhuma responsabilidade; de que somos anti-partidários; de que seriamos sectários e intransigentes, que fazemos alianças somente com quem pensa da mesma forma que nós; que atacamos toda e qualquer entidade sindical, estudantil e popular como sendo burocrática e desnecessária à luta e o pior, dizer que nós anarquistas classistas e revolucionários somos apenas liberais/pequeno-burgueses que defendem a luta “individual” como estratégia de luta.
Nós da CAB fazemos parte de uma tradição político-organizativa (anarquismo “especifista”) que nasceu no seio dos trabalhadores. Tem esse nome porque retoma princípios básicos do anarquismo e reafirma a necessidade de nos organizarmos politicamente enquanto militantes anarquistas e socialmente nos movimentos populares. Essa necessidade política se expressa por meio de uma Organização Política Anarquista, Federalista e de Quadros, com critérios de ingresso, formação militante, dotada de um Programa Mínimo, Estratégia de Curto e Longo Prazo e Objetivo Finalista. Não apostamos portanto, na luta “individual” e desorganizada como estratégia de vitória mas sim no acúmulo de força social nos movimentos populares. Dessa forma, não somos espontaneístas, achando que a organização popular virá por ela mesma. Ao contrário do que alguns dizem, seguimos contribuindo com o fortalecimento dessa organização, com esforços modestos mas firmes, no movimento popular, sindical, estudantil e camponês em diversos estados deste país.
 Cabe também sublinhar que não temos a pretensão de como organização política anarquista e classista “representar” a totalidade dos anarquistas fora da nossa coordenação, assim como não exigimos a determinados partidos marxistas que respondam pela totalidade dos marxistas. Somos parte de uma organização política anarquista classista que trabalha com princípios em comum, critérios de ingresso, estratégia militante e unidade teórica/ideológica. Neste sentido, rejeitamos a associação preconceituosa de qualquer um que vincule de modo quase que automático o anarquismo a desorganização, sendo que não há nenhum elemento histórico que embase esta afirmação. Respeitamos, ainda que com diferenças, as distintas formas de associação, sejam elas partidárias, independentes ou de outras bandeiras políticas que venham se somar a luta. Mas rejeitamos quaisquer tentativas de dividir o movimento internamente. O sectarismo venha de onde vier é danoso e divide a classe.
Mesmo com as diferenças de prática política e ideológicas, acreditamos que o respeito mútuo entre os setores da esquerda é algo que fortalece a luta. Devemos saber o momento de fechar o punho contra o capital. Por isso exigimos o respeito pelas contribuições históricas do anarquismo, enquanto corrente libertária do socialismo, na luta junto ao movimentos dos trabalhadores, como no campo do sindicalismo revolucionário e camponês, e atualmente com nossa modesta e consequente atuação e contribuição em diferentes campos de luta social (agrária, sindical, estudantil, comunitária).
A unidade da luta
Consideramos que a unidade na luta e a organização pela base são os principais caminhos para derrotar a máfia dos transportes, construído com a unidade de diversos setores da esquerda numa bandeira em comum: a derrota da máfia dos transportes e a luta contra o reajuste pela força das ruas. Tendo isso em vista, nós da CAB integramos, construímos e respeitamos todos os espaços de deliberação coletiva que organizaram as lutas contra o aumento da passagem em diversos estados. Ao contrário da calúnia circulada pelo PSTU sobre o anarquismo não somos espontaneístas e tampouco desrespeitamos a disciplina coletiva.
Cabe ressaltar que a luta não pode ser capturada por um partido, domesticada por uma legenda, por que a luta é uma tarefa da classe. A luta também não é “apolítica” e desorganizada. Porque nela nos formamos, aprendemos com os erros, crescemos e acumulamos força para o dia seguinte. Defendemos uma unidade construída sem sectarismos e com respeito às diferentes forças da esquerda. Fazer uma luta apartidária é diferente de fazer luta anti-partido. Isso significa respeitar as legendas/bandeiras que atuam no interior da mobilização popular, unindo as diferentes forças políticas por pautas em comum.
A verdade que incomoda: um movimento que não foi capturado
O que mais incomoda algumas legendas políticas é o fato deste movimento social, que saiu as ruas para enfrentar o governo e os patrões, não ter sido capturado por nenhuma vanguarda “esclarecida” ou partido político. É propício lembrar que alguns desses partidos que hoje condenam do alto de sua arrogância as fraquezas desse movimento popular/estudantil diziam algum tempo atrás informalmente por seus militantes “que não haviam condições objetivas para se fazer essa luta”. Felizmente eles foram contrariados e até mesmo, arrastados pela vontade da luta popular que moveu milhares. Esse movimento, apesar de compartilhar muitos princípios comuns ao nosso setor libertário e também com táticas de luta da classe trabalhadora não pode ser claramente identificada a nenhuma ideologia política apesar de em seu interior conter diferentes ideologias da esquerda. O movimento também não surgiu de nenhum partido político, apesar de ter sido construído com esforço de muitos militantes de partidos, o que deve ser valorizado. Isso não significa que este movimento não tenha problemas. Mas como diria um histórico companheiro da esquerda é “melhor dar um passo com mil do que mil passos com um” e vamos seguir trabalhando para construir e organizar melhor a luta contra o aumento das passagens junto com outros setores políticos sem a pretensão de nos tornarmos “os donos do movimento”.
Temos consciência das inúmeras deficiências e obstáculos que precisamos enfrentar e que enfrentaremos dentro dessa luta. No entanto, também temos consciência de nossa sinceridade, modéstia e firmeza naquilo que nos propomos. Nos últimos 10 anos temos participado em maior ou menor grau de diversas lutas, construções, embates na América Latina e no Mundo e, independente das divergências com outras tradições do Socialismo exigimos respeito. Estamos juntos e lado a lado na luta pelo Socialismo e pela Liberdade e daqui não nos retiraremos. Seguiremos na luta contra o aumento do transporte em diferentes Estados à despeito da calúnia da mídia burguesa e de infelizmente, alguns setores políticos.
Derrotar o aumento pela organização popular coletiva/de base e pela força das ruas!!! Lutar, criar, poder popular!
 
Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

[CAB] Protesto não é crime! Basta de criminalização aos movimentos sociais!

Nota da Coordenação Anarquista Brasileira

Nesse primeiro semestre houve diversas mobilizações de norte a sul do Brasil que enfrentaram a reação conservadora dos governos, do aparelho repressivo e da mídia. Desde as lutas em defesa do transporte público nas capitais, passando pelas greves nos canteiros de obras do PAC, até a resistência indígena dos povos originários, todas essas lutas foram alvos da criminalização do protesto que segue em curso no país sede da Copa do Mundo.

Vivemos um dos momentos mais agudos dos ataques das classes dominantes aos povos originários no Brasil. O capital internacional avança diariamente a passos largos, explorando os trabalhadores e as trabalhadoras na busca do lucro.

A Copa vem aí! E além de mega-eventos como este, temos os mega-empreendimentos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e da IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana). Com eles, a implementação de muitas das atuais políticas públicas urbanas, energéticas e rurais, manifestam-se na forma destes ataques, aprofundando ainda mais as feridas destes 500 anos de massacres!

Desapropriações e despejos estão a todo vapor e empreendimentos surgem num piscar de olhos. O dinheiro do povo, numa fração de segundos, desce pelo ralo do desperdício. Em várias cidades que sediarão (e mesmo as que não sediarão) a Copa, construções e mais construções são anunciadas. De licitação em licitação, as empreiteiras saem ganhando às custas do suor do povo, e os governos estaduais e municipais botam em funcionamento seu rolo compressor em benefício de grandes empresários e da especulação imobiliária.

Ao passo que avançam os grandes projetos para beneficiarem as elites, é parte desse processo também a criminalização do protesto e da pobreza com a repressão e perseguição daqueles que lutam contra as injustiças nesse país.

A luta pelo transporte público como ensaio de poder dos oprimidos da cidade.

Todos os anos, em distintas cidades de nosso país somos atacados logo nos primeiros meses pela patronal do transporte em conjunto com o poder público com escandalosos aumentos nos preços das passagens de ônibus. O precário transporte coletivo que envolve ônibus em péssimo estado (sem as devidas adaptações para deficientes físicos), linhas atrasadas e superlotadas, um regime de super exploração aos trabalhadores do setor aliado a uma tarifa exorbitante, fazem parte de uma série de desrespeitos impostos pelos de cima aos trabalhadores e oprimidos de norte a sul deste país.

Essa escandalosa situação tem levado sobretudo a juventude a se mobilizar e tomar as ruas contra os aumentos, pelo passe livre estudantil e para desempregados e por um outro modelo de transporte, que seja 100% público.Já se vai mais de uma década onde inúmeras capitais brasileiras começaram a ser literalmente sacudidas pelas lutas contra o aumento da tarifa de ônibus e pelo passe livre para estudantes e desempregados. Temos como exemplo mais recente as vitórias que se deram pela força das ruas em Porto Alegre/RS e Goiânia/GO. Longe de haver sido uma conquista exclusiva da atuação de um determinado partido, a revogação do aumento da tarifa é fruto da contundente decisão com que milhares de jovens, trabalhadores e desempregados, tomaram as ruas, ocuparam terminais, organizaram piquetes em garagens e mobilizaram seus amigos e companheiros nos locais de trabalho, estudo e moradia, na luta contra o aumento.

A redução da tarifa do transporte coletivo pela força das ruas é uma vitória moral do movimento popular liderado pela juventude combativa. Longe de terem sido mobilizações virtuais, essa reação é fruto de um árduo trabalho de inúmeros companheiros e companheiras, onde modestamente temos aportado nossa contribuição.

Outras lutas pela redução da tarifa multiplicam-se pelo Brasil e ao mesmo tempo a reação conservadora formada pelos governos, pela mídia e os empresários tentam legitimar a repressão e a criminalização dos lutadores sociais com dezenas de prisões durante os protestos e processos judiciais. Classe patronal, autoridades dirigentes do municípios e Estados, a imprensa monopolista, todos estão coordenados no mesmo plano: criminalizar os lutadores sociais, criar espantalhos, desencorajar a participação popular na luta pelo direito a cidade.

Não podemos aceitar a perseguição político-judicial dos companheiros de luta. Nossa mobilização tem que ser firme e decidida para não marchar pra trás e defender nessa hora nossos direitos de reunião, de associação e manifestação. A solidariedade com os processados deve ser uma palavra com a força de uma tonelada para a toda a esquerda combativa.

Diante disso nós reforçamos nossa atitude, a pauta do transporte público não é um caso de polícia, a questão social urgente e necessária que se acusa só pode ser resolvida por decisão política. E para fazer cumprir suas demandas o povo não pode confiar seus interesses ao poder burocrático dos conchavos de gabinete e às decisões tomadas a portas fechadas entre elites políticas e grupos econômicos dominantes.

A democracia de base é um mecanismo social que se representa na política pelas assembleias, pelas marchas e nas distintas formas de luta e organização de base dos setores populares.

Estamos unidos na defesa de um modelo de transporte coletivo 100% público, que liquide com o lucro dos patrões na exploração de nossos direitos, das liberdades públicas de acesso e mobilidade do conjunto do povo sobre a cidade. Para os anarquistas da CAB, o modelo público é um marco para acumular forças de mudança, avançar direitos e conquistar melhores serviços à revelia do controle dos capitais privados. Lutar para empoderar o povo e não se acomodar nas estruturas burocráticas do poder, que usurpa a força coletiva em direito público, mas em causa particular.

A resistência indígena diante do agronegócio e os mega-empreendimentos.

Diversas mobilizações dos povos indígenas marcaram o primeiro semestre deste ano, entre essas, a legítima ocupação do plenário da Câmara dos deputados por cerca de 300 indígenas, além dos diversos protestos por todo o Brasil na semana que registrava o dia internacional do meio ambiente, o 5 de junho. Há mais de uma centena de proposições legislativas contrárias aos direitos dos povos em tramitação na Câmara e no Senado. Dentre elas, destaca-se a PEC 215. PEC quer dizer, Proposta de Emenda à Constituição, pode ser apresentada pelo Presidente, pelo Senado ou por mais da metade das Assembleias Legislativas e, sendo aprovada, permite que se façam mudanças no texto da Constituição. Junto com a mudança do código florestal, esta PEC 215 significa mais um atentado da conservadora bancada ruralista contra o povo, apoiada por partidos como o PMDB, PP, DEM, PSD, PR, PSDB, PTB, PDT e PPS. Se for implementada, a proposta de emenda dará ao Congresso o direito e a responsabilidade de demarcar, ratificar e estabelecer critérios de regulamentação das terras indígenas e dos povos originários, atividade que até o momento é atribuição da FUNAI. Ou seja, vai dar às raposas total controle do galinheiro, pois no Congresso Nacional há forte presença da bancada ruralista, que quer tomar as terras indígenas para transformá-las em latifúndios à serviço do lucro desenfreado do agronegócio.

Dessa forma, a atual configuração da luta de classes e do capitalismo no Brasil, que afeta também os povos originários, pode ser entendida como um modelo marcado, em um de seus aspectos, pela força do agronegócio, baseado na monocultura latifundiária de exportação, que para expandir-se ataca a agricultura familiar, explora e expulsa os trabalhadores rurais e rouba as terras de povos indígenas. Este modelo concentra a renda, gera miséria, violência e pobreza em praticamente todas as regiões onde se instala. No campo e na cidade mata lentamente os trabalhadores que aplicam ou consomem os alimentos envenenados com agrotóxicos. Há também o encarecimento dos alimentos básicos (como arroz, feijão e trigo) que representam 70% do consumo do país, mas que ocupam apenas 30% das terras agricultáveis, por conta do avanço das monoculturas latifundiárias.

Mesmo com a desigual correlação de forças, os povos indígenas deram uma demonstração de resistência e ação direta, ocupando a casa legislativa e adiando a votação da vergonhosa PEC. A ação dos indígenas foi muito mais efetiva para barrar a votação da PEC 215 do que a inerte “disputa de hegemonia” dos parlamentares de esquerda que se opuseram ao projeto de votação.

De sul a norte do país a nossa força militante está vigilante e solidária à pauta dos povos originários. Desde os processos de resistência na Aldeia Maracanã no Rio de Janeiro, à vitoriosa luta dos Pitaguarys no Ceará e o apoio às mobilizações dos guaranis e kaingangs no Rio Grande do Sul, estamos ombro a ombro juntamente com os indígenas em defesa do território e contra os impactos do Plano IIRSA.

Solidariedade é mais que palavra escrita! Cercar de solidariedade os que lutam!

Com o avanço dos ataques das classes dominantes (nacional e internacional) e seus empreendimentos, serão ainda mais frequentes as ameaças aos povos originários e a todos aqueles que são oprimidos no campo e na cidade. Para prosseguirmos na organização e resistirmos aos megaeventos e ao avanço do agronegócio, é preciso acúmulo de força social para a auto-organização da classe trabalhadora e dos oprimidos do campo e da cidade. Nós, anarquistas federados politicamente nas organizações que compõem a CAB, modestamente reafirmamos nosso esforço, fortalecendo as organizações de base dos trabalhadores num projeto de federalismo e poder popular que não tem nas urnas ou na disputa de aparatos parlamentares seu horizonte estratégico.

Não formamos uma organização política para se fazer de intermediários burocráticos da pressão social, não buscamos o reconhecimento da mídia e das autoridades burguesas como interlocutores válidos. Nossa política aponta na construção de um povo forte. A ação direta como método de luta e a democracia de base como fator de participação decisiva do sujeito nas suas demandas são ferramentas para que cresça o poder popular, desde baixo. Nosso lugar é de impulso criador no interior das pautas do movimento social, no desenvolvimento de fatores ideológicos de mudança combativa, na construção de capacidade política pela união solidária dos oprimidos. O protesto social deve ter suas próprias perspectivas, não é escada para a carreira eleitoral.

É tarefa de agora rodear de solidariedade os companheiros perseguidos, não se intimidar e seguir firme em nossos propósitos, reivindicando com firmeza a legitimidade de nossa luta e dos métodos que temos utilizado. Esses são compromissos de primeira ordem àqueles que estão implicados nas lutas de todos os dias.

Coordenação Anarquista Brasileira
Junho de 2013

Opinião Anarquista #2: Vencer o aumento das tarifas nas ruas, vencer o reformismo nos movimentos sociais!

A população de pelo menos 28 cidades do Brasil saiu às ruas nas ultimas semanas para lutar contra os abusos das classes dominantes, que se expressa, agora, em aumentos na tarifa do transporte público. Esse movimento é fruto de uma insatisfação popular que já vem se desenvolvendo à muito tempo, gerada pela forma como o Estado vem se organizando e mostrando seu verdadeiro caráter de classe: está junto com os empresários e não com xs trabalhadorxs.

Essa insatisfação popular não é resultado de um aumento de 0,20$, 0,30$ ou 0,35$ no valor da tarifa do ônibus, mas sim o acúmulo de uma série de ataques do Estado às condições de vida dos/as trabalhadores/as, tais como o acesso precário à saúde, o transporte coletivo precarizado (tanto para os usuários como nas condições de trabalhado para os/as próprios/as funcionários/as do transporte – motoristas e cobradores/as), a mídia que manipula as informações em benefício do Estado e das classes dominantes, criminalizando os/as trabalhadoros/as, a pobreza e os movimentos sociais.

 

É por isso que o povo foi pra rua, pra mostrar sua insatisfação e responder à violência do Estado, da qual é vítima diariamente em todos os espaços de sua vida. É por isso também que esse movimento não para de crescer e tem um potencial transformador, pois ele é o acúmulo de um descontentamento histórico das classes exploradas desse país.

Apresentação1

Os exemplos de luta que estamos observando nas maiores cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, principalmente, são um dos combustíveis que nos move nesta luta, pois mostra que a luta do povo não é local, nem regional, nem uma luta isolada dos outros problemas sociais, mas é uma expressão da crise dessa forma de sociedade em que vivemos, onde pequenos grupos de indivíduos se beneficiam com a exploração e exclusão da grande maioria da população.

Diante disso vemos qual é a reação imediata da classe dominante ao levantamento do povo: enviar a polícia, legitimar a repressão com o discurso do “exagero” e do “vandalismo”, intentando assim criminalizar o movimento social frente ao resto da classe trabalhadora. Os mais de 300 manifestantes presos em São Paulo são um claro exemplo disso. Porém pensemos na violência do próprio Estado: trabalhadores/as que deixa de usar o transporte público por não ter dinheiro da para pagar pelas altas tarifas (estima-se que 37 milhões de trabalhadores deixam de usar o transporte público por não poder pagar); subsídios às empresas de transporte, retirados dos impostos que os/as próprios/as trabalhadores/as pagam; desocupações para responder aos interesses da especulação imobiliária; violência da polícia, impedindo que nos manifestemos, prendendo e espancando aqueles que buscam lutar por melhoras em sua precária condição de vida.  É preciso entender que ao legitimar o discurso do pacifismo, estamos legitimando o discurso das classes dominantes, que exigem para si (o Estado seu fiel defensor) o monopólio da violência. O Estado existe para proteger o status quo, para manter a exploração e dominação dos/as trabalhadoros/as. A Luta de Classes não é pacífica.

A burguesia não irá ceder pelo problema moral de milhares de pessoas estarem nas ruas protestando. Ela irá ceder por receber prejuízos dos atos do movimento. Portanto, as manifestações precisam causar alguma forma de prejuízo a burguesia para que suas reivindicações sejam atendidas pelo Estado.

O fato de alguns grupos políticos tentarem manchar o real caráter deste movimento popular classificando-o como “violento” só expressa o medo destes sobre a capacidade transformadora desse movimento. É muito claro que quem deseja participar da ordem vigente irá criticar quem deseja revolucioná-la, pois apresenta um perigo ao seu objetivo de substituir a direção do Estado.

Portanto, sem medo das críticas daqueles que somente desejam neste movimento capitalizar força política para participação desta ordem, ou seja, participar da democracia burguesa, que buscam neste movimento angariar adeptos as suas campanhas, e mesmo se construir como “salvadores”, que em troca de seu voto oferecerão mundos e fundos, para depois trair a vontade do povo, devemos seguir, assim como em diversas capitais do Brasil, a exemplo de Goiânia e Porto Alegre, onde pela via da Ação Direta se revogaram os aumentos. Essa é a forma de pela qual conseguiremos barrar o aumento, bem como a forma pela qual ousamos transformar as bases da sociedade. REVOGAR O AUMENTO DO BUZÃO PELA FORÇA DAS RUAS!

CALC, 17 de junho de 2013

Baixe a versão impressa:Opinião Anarquista 2- 17.06.13

 

 

[FARJ] Lutar contra o aumento pela força das ruas!

Retirado de: http://farj.org/

Publicado em 14/06/2013

Cerca de 10000 manifestantes ocuparam as ruas do centro do Rio de Janeiro na quinta-feira para lutar contra o aumento da passagem! Como sempre a polícia agiu com truculência contra os manifestantes. A ação direta pautou a manifestação. Houve manifestações em todo o país.

Segue o panfleto feito pela FARJ e distribuído na manifestação. Lutar contra o aumento pela força das ruas!!!

[FARJ] Ato contra o aumento das passagens ocupa as ruas do centro e é reprimido pela Polícia Militar

Retirado:http://anarquismorj.wordpress.com/2013/06/09/ato-contra-o-aumento-das-passagens-ocupa-as-ruas-do-centro-e-e-reprimido-pela-policia-militar/

Cerca de 500 manifestantes ocuparam a Avenida Presidente Vargas em direção a Central do Brasil na noite de quinta-feira. A concentração do ato começou às 17h na Candelária e partiu em direção a Central gritando diversas palavras de ordem contra o vergonhoso aumento das passagens de ônibus.

As vias públicas foram interrompidas durante o trajeto diversas vezes (Av. Presidente Vargas). Cabe ressaltar que o ato não pediu nenhuma autorização  para ser feito! E assim deve ser sempre! O povo não precisa de autorização para ocupar um espaço que é seu: a rua!

Nós da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), organização integrante daCoordenação Anarquista Brasileira (CAB) somamos modestamente nossas forças neste ato, levando nossa bandeira rubro-negra junto com a bandeira negra da tendência combativa e autônoma Organização Popular (OP) e distribuindo nossos jornais LIBERA. O fim do ato foi reprimido com tiros de balas de borracha e gás lacrimogênio pela tropa de choque que como de costume protegeu os interesses de patrões e políticos. Não vamos mais ter ilusões com os “trabalhadores” de farda, termo enganoso que coloca do mesmo lado opressores e oprimidos. A manifestação se reagrupou dentro do saguão da Central do Brasil e depois foi se dispersando. Várias pessoas foram feridas e algumas presas, mas a luta continua e amanhã vai ser maior!!! Em breve mais notícias e análises em nosso site.