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[FAG] 100 anos da Greve Geral de 1917

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/08/03/100-anos-da-greve-geral-de-1917-2/

A seguir, o texto de memória histórica lido durante o Ato da FAG  em celebração do centenário da Greve Geral de 1917 no Brasil realizado na última sexta-feira, dia 28 de Julho no Teatro da Cia de Artes em Porto Alegre, RS.

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

Com a fraternidade libertária que nos é de costume, estendemos a mão para todos e todas que se fazem presentes neste momento especial em que comemoramos o centenário da greve geral operária de 1917 no Brasil. De princípio fica avisado que não é nosso propósito falar ou pintar um passado puro e irretocável, de sujeitos perfeitos e histórias impecáveis. Alguém já disse e vale muito para as nossas circunstâncias: a inteligência precisa estar armada de memória, não para fazer exercício diletante, MAS PARA CONSTRUIR NO PRESENTE, COM SEDE DE JUSTIÇA SOCIAL E COM VONTADE MAIS TENAZ E POTENTE, UMA SOCIEDADE LIVRE E EQUÂNIME.

O que nos motiva nesse momento é recordar um pedaço de história tingida de sonho e rebeldia dos oprimidos, dessa longa história negra e vermelha, de muitas cores que matizam mais de 500 anos de opressões, lutas e resistências. Nossa melhor homenagem para com todas e todos que nos antecederam é seguir peleando, criando resistência libertária com o coração pulsando um mundo novo, abrindo caminho pelo passo da luta e da organização.

Por regra geral, o esquecimento, a desfiguração, o extravio da memória são armas usadas pelos opressores de ontem e hoje, para liquidar o exemplo que nos encoraja e que transmite saberes e experiências das lutas sociais passadas. A formação e o desenvolvimento das grandes cidades – isso que se chama na língua dominante por progresso capitalista –, foi montado por cima de dores e tragédias, da luta irreprimível dos povos e das “classes perigosas” para o triunfo da prosperidade burguesa.

“(…) de manhã, antes do sol ruborizar o polido horizonte, os becos, as pocilgas infestas e imundas despejam uma multidão de trabalhadores – homens, mulheres e crianças, que pelas ruas escusas e lamacentas, desfilam rotos, andrajosos, mal dormidos e mal alimentados, com os músculos das faces contraídos pela dor, pela fome, pela miséria! Que desfilam todos silenciosamente como fantasmas que a cova não quis guardar, que seguem todos pacificamente como carneiros ao matadouro; os homens encolhidos, cabisbaixos, como que vergados sob o enorme jugo da miséria que os aniquila; as mulheres de semblantes tristes, tangidos pela mágoa e pelo sofrimento, levando para a fábrica saudades dos filhinhos que tiveram que abandonar em casa, chorando, por não encontrarem o alimento suficiente (…); as crianças com as faces ainda umedecidas pelas lágrimas que dolorosamente verteram ao abandonar os cacos que lhes serviam de brinquedos e as flores apanhadas na rua, para ir ao tugúrio, onde as máquinas e engrenagens produzem infernal barulho e permanecem ali durante doze intermináveis longas horas, para ir à fábrica onde seus olhos não poderão ver o sol, onde seus franzinos pulmões não encontrarão ar puro, e onde não poderão brincar com as borboletas e as flores…”

Dolorosa e amarga descrição do cotidiano da classe trabalhadora que faz o companheiro Zenon de Almeida, em conferência pública ao sindicato dos sapateiros em 1914.

SIM! ENQUANTO UNS SEGUEM PARA AS BASTILHAS MODERNAS COM UM MAGRO CAFÉ NO ESTÔMAGO, SEM SABER NEM MESMO SE TERÃO COM QUE ALMOÇAR OU JANTAR, OS OUTROS SEGUEM CHEIOS ATÉ A INDIGESTÃO, PENSANDO QUAIS AS PÍLULAS QUE SERÃO MELHORES PARA RESTITUIR O APETITE.

HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS SEGUEM MACABROS PARA O EXAUSTIVO TRABALHO, TRABALHO BESTIAL (…) ENQUANTO OS RICOS PROCURAM O REPOUSO DEPOIS DE UMA NOITE DE AFRODISÍACA ORGIA (…) ESBANJAM O TRABALHO DE MIL BRAÇOS.

A questão social feita bandeira de combate dos miseráveis foi parar nas garras da polícia desde sempre, sobretudo quando o povo se levanta e reclama pela justiça e pela liberdade que o capitalismo lhe nega sistematicamente. Esse, por sua vez, ataca feroz como estrutura de dominação e de violência sistêmica que lhe é tão particular.

A industrialização brasileira e o crescimento da urbanização se deram de forma lenta e se desenvolveram sobre o sangue negro do escravismo-colonial que possibilitou a acumulação gerada pela atividade produtiva agrária.

A concentração da indústria no século XIX se dava em torno do eixo Rio-São Paulo e, em menor escala em Porto Alegre. Já contando com a mão de obra super explorada de negros (antes e depois da Lei Áurea em 1888), a política racista das elites brasileiras incentivou a imigração de europeus para que os postos de trabalho fossem ocupados por brancos. O contingente operário passou a ser formado também por muito imigrantes, italianos, espanhois e portugueses, que trouxeram consigo as experiências e valores do socialismo libertário. As lutas em curso no país já neste período – século XIX –, não foram, no entanto, resultado de uma “importação” pura e simples da experiência que trouxeram os imigrantes. O imaginário da resistência negra e indígena encontrava-se com o horizonte do anarquismo em meio ao tardio desenvolvimento do capitalismo brasileiro dentro de uma nova forma de exploração humana em condições históricas e de formação social específicas.

Organizando, impulsionando e avançando pela luta de classes, o anarquismo criou meios para geração de valores diferentes daqueles vividos pelas classes dominantes. Como movimento de massas, encarnou com todas suas consequências a máxima: “a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”. O que se vulgarizou como “infância do socialismo” foi, nada mais, nada menos, que as curvas de uma experiência histórica genuína de independência de classe. O Anarquismo faz vetor de uma cultura política feita a pulmão debaixo do fogo inimigo, que rompeu com o colaboracionismo de classe da formação social-democrata que já trazia germes de burocratização e separou o fazer da luta operária dos valores e das instituições do mundo burguês. O incansável trabalho organizativo e de propaganda revolucionária dos libertários gerou instrumentos de luta e conquista econômica no movimento operário (os sindicatos classistas), de educação libertária e popular (as escolas racionalistas e as universidades do povo), de cultura de classe (os ateneus operários, bibliotecas sindicais, grupos de teatro social, bandas e liras operárias, atividades de lazer e recreação para toda família trabalhadora), de literatura socialista (com a publicação e distribuição em massa de livros como A conquista do pão, O salário, No Café, Germinal) de informação (os periódicos operários) e de defesa (os grupos de autodefesa e sabotagem).

Em 1906 é realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, onde converge o caudal de forças sociais nucleadas em cenário urbano pelas organizações de resistência. É fundada a Confederação Operária Brasileira (COB) e o jornal “A Voz do Trabalhador”, seu órgão de comunicação.

O sindicalismo revolucionário, já esboçado pela posição de Bakunin e a ala federalista da Primeira Internacional décadas antes, era estratégia para as organizações operárias: nenhuma expectativa nas estruturas do poder do Estado, nenhuma ilusão com as disputas por cargos. A chamada “neutralidade política” nada mais era que a convicção de se manter fora das esferas da política burguesa, e o reforço da importância de manter os sindicatos abertos a todos operários e suas famílias sem adoção de critério de distinção ideológica ou religiosa. Evitava-se, assim, tanto o risco da burocratização e da conciliação de classes, quanto os perigos da disputa interna entre trabalhadores devido a doutrinas ou programas políticos. Defende-se a organização das mulheres, a priorização da luta pelas 8 horas de jornada de trabalho e decide-se pela criação de escolas laicas para os sócios das associações operárias e seus filhos. A ação direta foi adotada como tática do movimento sindical, fortalecendo a concepção de que o protagonismo é de quem vive do trabalho e da luta, não de intermediários de partidos políticos ou chefes de Estado.

O sindicalismo revolucionário como estratégia sindical se confirma pelas teses aprovadas no primeiro Congresso de 1906, quando este:

“aconselha o proletariado a organizar-se em sociedades de resistência econômica, agrupamento essencial e, sem abandonar a defesa, pela ação direta, dos rudimentares direitos políticos de que necessitam as organizações econômicas e, pôr fora do sindicato, à luta política especial de um partido e as rivalidades que resultariam da adoção, pela associação de resistência, de uma doutrina política ou religiosa, ou de um programa eleitoral.” E ainda: “O Congresso considera como único método de organização compatível com o irreprimível espírito de liberdade e com as imperiosas necessidades de ação e educação operária, o método federativo, a mais larga autonomia do indivíduo no sindicato, do sindicato na federação e da federação na confederação e como unicamente admissíveis simples delegações de função sem autoridade.”

Ao unir-se nas associações operárias de resistência – que, a partir de então, no Brasil, passariam a se chamar sindicatos – para lutar, utilizando como métodos a ação direta, a independência e o federalismo, estava em curso uma luta sindicalista de intenção revolucionária. O projeto libertário atribuía dupla função ao sindicato: a luta coletiva e solidária de defesa operária e conquistas imediatas e a acumulação de forças e capacidade política para a autogestão socialista dos meios de produção.

O sindicalismo, ainda que focado em conquistas por dentro do sistema capitalista, era o movimento capaz de preparar a classe trabalhadora para as grandes lutas pelo socialismo e pela liberdade. Ainda hoje, entende-se que é a partir da vida de todos os dias, dos sofrimentos e reivindicações e laços cotidianos que se criam as condições para embates mais amplos e profundos. É com um povo forte, produzido por militância diária, com organizações de base e na luta por direitos e liberdades que se avança rumo ao Poder Popular.

A conjuntura econômica, produzida no contexto prévio à Primeira Guerra, viu ao mesmo tempo o aumento do operariado com a industrialização, os baixos salários, o desemprego com o crescimento das cidades e a carestia da vida. Esses foram os temas de luta no 1º de Maio de 1917 pelo país.

No início de Junho de 1917, operárias da fábrica têxtil Crespi, no bairro da Mooca em São Paulo, paralisam suas atividades reivindicando aumento de salário e redução da jornada de trabalho. É preciso lembrar: a grande greve de 1917 teve impulso com a luta de mulheres. A fábrica havia praticamente dobrado seus lucros em dois anos com aumentos contínuos da jornada de trabalho sem aumento de salário. Além disso, uma motivação é a revolta das trabalhadoras contra o assédio sexual por parte de supervisores. Outras mobilizações já haviam ocorrido contra supervisores em virtude da violência contra as mulheres. As operárias, em sua tripla jornada, também eram aquelas que acompanhavam a perda de poder aquisitivo, pois tinham o controle dos gastos familiares, o que impulsionava também a luta contra a carestia.

A participação das mulheres anarquistas no movimento operário, muitas trabalhadoras têxteis, é decisiva, antes, durante e depois da greve geral de 1917. Militantes como Isabel Cerruti, Maria de Lourdes Nogueira, Branca Nery, Alzira Werkauzer, Elvira Boni e Angelina Soares demonstraram que a luta pela emancipação da humanidade contra o capitalismo passava pela emancipação das mulheres.

No final de Junho, a greve das operárias da Crespi já contava com a solidariedade da adesão de 1.500 operárias e operários da fábrica Ipiranga, também têxtil. Greve que se espalha por outros ramos, como móveis e atinge também a indústria de bebidas Antarctica.

Em Julho, a greve seguia se generalizando por toda a cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país, com batalhas nas ruas. Como as fábricas possuíam pouco ou nenhum estoque, a paralisação das atividades causava impacto quase imediato no comércio, ou seja, no dia a dia da cidade.

Uma unidade de cavalaria da polícia de São Paulo reprime violentamente uma manifestação no dia 9 de Julho. Nesta ação, é assassinado pelas forças da repressão, com um tiro no estômago, o sapateiro espanhol anarquista José Martinez, com apenas 21 anos de idade.

Este episódio causou a ampliação da greve pelo estado e pelo país. Em Campinas tivemos o confronto em uma linha férrea que ficou conhecido como “O massacre da Porteira do Capivara”, onde 16 foram feridos e 3 foram mortos pela polícia. Em sua maioria, os manifestantes eram ferroviários e metalúrgicos, entre eles Armando Gomes, operário negro que impulsionava as ligas operárias de bairros e era também a principal liderança da organização negra, a Liga Humanitária Homens de Cor.

O funeral do jovem operário Martinez, ocorrido no dia 11 de julho, foi o grande estopim da explosão de solidariedade, que se transformou na principal arma de luta dos grevistas contra as baionetas e os sabres da polícia. Uma enorme manifestação popular, com bandeiras negras e vermelhas, refletia a dor e a sede de justiça proletária. As barreiras impostas pelo policiamento eram rompidas pela multidão que seguia impetuosa até o cemitério. Como de praxe, este funeral – transformado em ato político –, resultou em forte repressão por parte da polícia e das tropas do exército, uma vez que alguns batalhões recusaram-se a intervir. Encorajadas pela mobilização, várias entidades de classe de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Sul vão se juntando ao movimento grevista.

Depois de ter enterrado a primeira vítima da greve, o Comitê de Defesa Proletária, núcleo articulador dos diversos setores em São Paulo, reuniu-se, clandestinamente, na noite de 11 de julho, com representantes de trinta e seis associações operárias e de várias comissões de grevistas com o objetivo de agrupar num único Documento/memorando, as reivindicações comuns a todas as categorias profissionais, previamente discutidas nas suas respectivas agremiações. Com os comércios fechados e os transportes parados, os governos se viam impotentes diante da ação operária insurgente. A repressão apenas fortalece a luta e a greve segue firme, com piquetes e sabotagens em fábricas e passeatas pelas ruas.

No Rio Grande do Sul, segundo o companheiro gráfico Polidoro Santos o anarquismo registra atividades desde fim do século XIX. Ao calor da greve generalizada dos 21 dias, em 1906, os trabalhadores anarquistas agrupados na União Operária Internacional (UOI) e, através do jornal A Luta, fizeram ativa propaganda de um sindicalismo de ação direta, formado por organizações de resistência da classe operária, com independência política de governos, partidos e patrões.

A partir de 1909 o sindicalismo classista que praticavam os libertários se integra na Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). As ligações com associações do interior eram mais esporádicas e a FORGS congregava, sobretudo, organizações operárias de Porto Alegre, tendo sede no Ateneu Operário da rua Santo Antônio. Teve atividade contínua pelo menos de 1909 até 1927.

Em 1917 os primeiros incidentes se dão quando em Santa Maria um grupo de ferroviários da Viação Férrea do Rio Grade do Sul se apossa de uma locomotiva e percorre a linha de Marcelino Ramos propagandeando a greve. No dia 29 de julho circularia amplamente um protesto que denunciava a exploração dos trabalhadores pela administração da ferrovia.

A assembléia dos operários dos canteiros, pedreiros e carpinteiros, onde o anarquismo radicava uma posição forte, bem como a agitação da UOI (União Operária Internacional) por uma reunião geral de todas categorias na FORGS, no domingo 29 de julho, deram o estalo para a greve geral em Porto Alegre. Mais de 500 trabalhadores se reuniram para aprovar a declaração de greve, nomear um comando que se chamou Liga de Defesa Popular (LDP) e demarcar uma pauta de reivindicações. A FORGS dirigida em 1917 pelo socialismo reformista foi empurrada para a Greve Geral a contra gosto de seus dirigentes.

A pauta de reivindicações versava sobre pontos que atendiam sentidas demandas populares, como o preço dos alimentos, moradia e transporte coletivo, bem como questões classistas de luta contra a patronal, como a redução da jornada de trabalho para 8 horas, o aumento de 25% sobre os salários e a regulamentação do trabalho de mulheres e crianças.

No dia 30, boletins da FORGS e do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Classes Anexas, distribuídos e afixados em postes no Campo do Bomfim, convocam os trabalhadores para uma concentração pública na Praça da Alfândega para o dia seguinte. A LDP (Liga de Defesa Popular) havia preparado um comício para publicizar a greve no dia 31 de julho.

Ao meio-dia os ferroviários do Rio grande do Sul se declaram em greve, o que já condicionou a paralisação do alto comércio neste dia. Na tarde do dia 31 já estavam em greve as estações de Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Bagé, Gravataí, Passo Fundo, Couto, Cacequi e Rio Pardo. O inspetor da Viação Férrea promete despedir todos os grevistas, passa a admitir funcionários não especializados e solicita a imediata intervenção das tropas militares.

Uma hora antes do comício já era intenso o movimento de populares na praça da Alfândega, em Porto Alegre. Meia hora depois chegava o policiamento, com mais de 120 homens da BM (brigada militar), Piquete da Chefatura de Polícia, Escolta Presidencial, Polícias Administrativa e Judiciária.

O comício foi aberto por Luiz Derivi e contava com a participação de cerca de 4.000 a 5.000 pessoas e forte reforço policial. Cecílio Vilar dá o tom logo a seguir:

“o momento não é para conciliações, é de luta. A luta mais justificável, a luta pela vida. Os operários devem se erguer como um só homem, para sair as ruas e conquistar o pão que nos está sendo roubado e a fim de protestar contra a exploração de que é vítima a classe trabalhadora”.

Entre 31 e 4 de agosto a vida urbana em Porto Alegre foi completamente alterada. Participaram da greve pedreiros, padeiros, trapicheiros e estivadores, trabalhadores da Cia (companhia) Força e Luz, operários têxteis, carroceiros, caixeiros, choferes, tipógrafos, entre outros. Estimativas apontam para cerca de 30.000 grevistas em Porto Alegre.

No dia da deflagração da greve se reuniu a União dos Condutores de Veículos, decidindo a adesão da categoria. Estes trabalhadores passariam a controlar o tráfego na capital. No dia 1º de agosto o diretor da Santa Casa dirige-se à FORGS para solicitar providências no sentido de manter o fornecimento de gêneros à casa de saúde. Foram fornecidos ao diretor dois salvo-condutos, assim como ao Hospício São Pedro e Asilo da mendicidade, e estaria livre a venda de gêneros as residências onde houvesse doentes. No salvo-conduto, em cujo topo lia-se “Justiça”, em vermelho constava também: “O portador do presente tem plena autorização da Liga de Defesa Popular (LDP) para conduzir carne verde e outros artigos destinados aos doentes da Santa Casa”. Sem o documento não havia circulação de carroças.

No dia 2 de agosto se dá uma ocupação militar da estação de Santa Maria. Em represália, os grevistas arrancam trilhos, derrubam pontes e bloqueiam a via com dormentes e postes telegráficos em vários pontos do estado. Alguns trens passam a circular guarnecidos por tropas. Em Passo Fundo há violentos choques entre ferroviários e forças militares.

Neste mesmo dia é convocada uma manifestação pública para pressionar o governo, cujos locais de concentração seriam a FORGS e a Praça dos Navegantes. A manifestação se dirigiu ao palácio do governo estadual, onde uma comissão da LDP (Liga de Defesa Popular), composta pelos anarquistas Luiz Derivi, Cecílio Vilar e Zenon de Almeida é recebida pelas autoridades. Borges de Medeiros declara que decretaria medidas de controle da exportação e atenderia a questão de horas de trabalho e salários para os empregados do estado. A comissão saiu do palácio e comunicou aos já estimados 5000 manifestantes os intentos do governo estadual e municipal. Após as promessas de Borges a greve não declinou e tampouco se tornou mais “pacífica”.

A partir daí aumenta a pressão pelo fim da greve tanto pela imprensa como pela polícia. No dia 3 o Chefe de Polícia ameaçou a proibir os meetings e as reuniões em praças públicas, e a partir da tarde são proibidos os “ajuntamentos”. A cidade se assemelhava a uma praça de guerra e em todos os recantos suspeitos havia pelotões de infantaria e patrulhas de cavalaria cruzavam com freqüência. Nessas condições, sem possibilidade de manifestações, a greve se reduziria ao confronto patrão-empregado. Durante todo o dia 4 são feitas reuniões na sede da FORGS avaliando a situação, e às 23h a LDP (Liga de Defesa Popular) publica um boletim anunciando o fim da greve e comprometendo-se a apoiar as categorias que ainda se mantivessem paralisadas. Manter-se-ão ainda paralisados estivadores, padeiros, alfaiates, sapateiros, chapeleiros, pedreiros e carpinteiros, calceteiros e canteiros, operários de fábricas de móveis e operários de fábricas de meias.

No dia 5 de agosto chega ao fim a greve dos ferroviários, diante da violenta intervenção das tropas federais, e sem nenhuma reivindicação conquistada devido a intransigência da direção da Viação Férrea, controlada na época por uma concessionária belga.

Também haveria greves importantes em Pelotas, Rio Grande, Passo Fundo, Santa Cruz, Montenegro, Bagé e outros centros.

Em relação a totalidade das reivindicações, pode-se dizer que houve vitória parcial dos trabalhadores. Muitos militantes anarquistas tiveram que sair de Porto Alegre devido às perseguições resultantes de sua atuação na greve, sobretudo após os movimentos que vieram em seguida em 18 e 19.

PORTANTO, COMPAS: “É PRECISO QUE NOS REVOLTEMOS, LUTANDO SEMPRE”, tal como declarou Zenon aos compas sapateiros, na conferência que já fizemos memória.

QUE IMPORTA QUE A AURORA SEJA RUBORIZADA PELO CLARÃO DO INCÊNDIO!” avisou Spartacus do Sul.

QUE IMPORTA QUE NA MADRUGADA DESSE DIA A TEMPESTADE SEJA TEMPESTADE DE SANGUE! O SOL É MAIS BRILHANTE DEPOIS DO VENDAVAL.

HOMEM LIVRE, MULHER LIVRE, SOBRE A TERRA LIVRE!

À LUTA E À ORGANIZAÇÃO!

Com Espertirina, Eulina e as valentes irmãs Martins, Djalma Fetterman, Reinaldo Geyer, Nino e a ação direta que respondeu aos carrascos e algozes do movimento operário. Com a pedagogia libertária de Dorvalina, a agitação de classe e feminina de Alzira, a luta incansável de Luiz Derivi entre os pedreiros, de Polidoro Santos e o grupo solidários dos gráficos, a convicção libertária e classista de Orlando Martins.

Conosco ficam os exemplos de uma vida rebelde que não se amansa, que não se dobra ao opressor. Para armar o cotidiano social-político e nossas práticas de resistência com aqueles valores de solidariedade, liberdade e justiça que dão sentido para palavra COMPA. Para não ceder nossa vontade libertária e se acomodar ao mundo miserável, dominador e opressivo que tanto repudiamos.

Esse é o sentido e o valor da memória que aqui reclamamos em alta voz. Sempre com os que lutam e os que não vendem sua independência por confortos e privilégios da máquina de picar carne do sistema capitalista. Com o socialismo e a liberdade no coração que não teme as ruínas e que leva um mundo novo por onde passa e naquilo que faz.

NÃO SE AJUSTA QUEM PELEIA.

VIVA A ANARQUIA!!!!

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Todo apoio à luta das trabalhadoras e trabalhadores municipais de Curitiba!

A Prefeitura Municipal e Câmara dos Vereadores de Curitiba estão tentando aprovar um pacote de medidas que retira direitos e privilegia empresários a qualquer custo. Mas o movimento de luta da classe oprimida não está deixando isso acontecer!

Algumas das principais medidas são: congelamento de salários e planos de carreira dos servidores municipais; saque de mais de R$600 milhões no fundo de previdência dos servidores; limite de gastos com pessoal e aumento de gastos com cargos comissionados; “renegociação” de dívidas com empresários.

Mas o povo organizado não está deixando barato! Fazem semanas que as trabalhadoras e trabalhadores, a partir da ação direta, conseguem barrar a votação destas medidas! Na terça-feira (13/06) ocorreu a primeira ocupação que garantiu que a votação fosse suspensa e ontem, 20/06, mais uma mobilização histórica fez com que a votação fosse novamente suspensa – agora para a segunda, 26/06.

Mesmo com repressão policial, foi possível mais uma ocupação da Câmara Municipal e a pressão do povo organizado deu resultado!

RETIRA O PACOTAÇO!
SEGUNDA VAI SER MAIOR!
TODA SOLIDARIEDADE À LUTA DOS SERVIDORES MUNICIPAIS!

“Com organização e ação direta, os trabalhadores e trabalhadoras barraram mais uma tentativa de votação do pacotaço!

Mesmo com violência policial, servidores e servidoras municipais ocuparam a Câmara Municipal de Curitiba e fizeram uma mobilização para entrar na história da cidade.

20 de junho de 2017 foi marcado por muita luta, ação direta do povo, repressão policial e solidariedade de classe em Curitiba!

Segunda-feira (26/06) tem mais!
LUTAR! CRIAR PODER POPULAR!
RETIRA O PACOTAÇO!”

 

COM OU SEM TEMER, A ÚNICA SAÍDA É LUTAR NAS RUAS PARA BARRAR AS REFORMAS!

Mais uma denúncia: “Temer compra o silêncio de Cunha!”. Os políticos e os poderosos se devoram, mas querem que o povo continue pagando pela crise! Com esse ou outro governo, os problemas para as/os de baixo irão continuar e os ataques aos direitos sociais, fazendo o povo trabalhar até a morte, sem saúde e nem educação – pois, são pautas e interesses dos grandes empresários e das políticas neoliberais dos partidos de turno. Roubando e matando os indígenas, matando negras e negros, mulheres, camponeses e pobres.

Por isso é urgente que as mobilizações se massifiquem cada vez mais, somente com o povo nas ruas se conseguirá barrar a reforma trabalhista e a reforma da previdência.

Para Barrar a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência… Contra os Ajustes e a Repressão…
LUTA, ORGANIZAÇÃO E GREVE GERAL PELA BASE!

[CAB] Convocatória para greve geral, sexta-feira, 28 de abril

Sexta-feira (28) é dia nacional de mobilização contra as políticas de ajuste fiscal e de corte nos direitos sociais do governo Temer e dos patrões. Ocorrerão paralisações, marchas e uma série de demonstrações de força por parte do conjunto da classe oprimida, em particular os trabalhadores, em todo o território nacional. Sabemos que a efetividade das ações dependerá do grau de participação de base na preparação e organização de cada uma dessas iniciativas. A força real está na ação direta – a greve, o piquete, o corte de via pública, a marcha – dos oprimidos e das oprimidas nos locais de trabalho, estudo e moradia, e não na convocatória feita pelas cúpulas das centrais sindicais acostumadas a rotinas burocráticas, negociações de gabinete e lobby parlamentar.

Modestamente, nós da CAB tomaremos um posto de luta nesse dia, lado a lado com nossos companheiros e companheiras de categoria, de escola, de universidade e de quebrada. Cerraremos fileiras com todos aqueles e aquelas dispostos a lutar nesse dia, independente de sua Organização política, mas tomamos como critério a independência e a solidariedade de classe. Deixamos claro que nossa luta não passa pela construção de alternativas eleitorais e que a organização da nossa classe não será condicionada ou subordinada a qualquer intenção nesse sentido.

Acreditamos na greve geral como arma das e dos trabalhadores rafafrente aos desmandos dos governos e dos patrões e entendemos o dia 28 como uma medida concreta nessa direção. O momento não é de “atos-show” ou de iniciativas “simbólicas” como as que algumas centrais sindicais estão preparando em algumas localidades. É preciso nos colocar em movimento, em ofensiva, pois de recuo em recuo não construiremos greve geral alguma e não responderemos a altura dos ataques que as classes dominantes estão nos impondo.

Por um 28 de abril de paralisação real e pela base!
Contra o ajuste e a repressão, luta e organização!
Pela liberdade de Rafael Braga!

[CURITIBA] 1º ENCONTRO DO CÍRCULO DE ESTUDOS LIBERTÁRIOS (CEL) – NA PRÓXIMA TERÇA (04/04/2017)!

O que é Anarquismo

Na próxima terça-feira, 04 de abril, o CALC articulará seu grupo de estudos em Curitiba. Faremos o CEL no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná, às 18:30, na sala 201 da Psicologia.

Assim como no ano de 2016, estaremos nos encontrando na última terça-feira de cada mês, discutindo vários temas relevantes para os movimentos sociais, para a esquerda e para o anarquismo. Mas, excepcionalmente, faremos o 1º CEL-Curitiba na próxima terça-feira, 04 de abril de 2017.

Neste primeiro encontro buscamos apresentar qual são nossos objetivos e a dinâmica que pensamos para o grupo de estudos durante o ano. Além disso, a partir da discussão baseada no texto e nesta primeira temática, “O que é o Anarquismo”,  pretendemos dar um panorama geral sobre quais princípios, ideias e conceitos são fundamentais ao anarquismo e discutir um pouco sobre como esta ideologia se formou e esteve presente na história.

– O que é Anarquismo? – Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), Revista Socialismo Libertário, nº 3.

Baixe aqui: CEL 01 – O que é anarquismo?

Evento no Facebook:                                                                         https://www.facebook.com/events/1469898106400558

Para mais informações sobre os textos e temas que discutiremos durante o ano, visite:             https://coletivoanarquistalutadeclasse.wordpress.com/grupos-de-estudos-libertarios/

Venha participar!

Jornadas Anarquistas 2017, Montevidéu – Uruguai

Na tarde do dia 13 de fevereiro, a Federação Anarquista Uruguaia recebeu delegações de distintos lugares para uma mesa redonda entre organizações políticas, desde a concepção especifista que marca nossos modos de atuar e organizar. O propósito desta reunião internacional, que dá sequência a edição de Porto Alegre (Brasil) em 2015, foi o de ampliar em nossa região do mundo o debate sobre os elementos da etapa sistêmica e o que traz de específico a atual conjuntura histórica. Trocar informações, experiências e análises para a atuação social política do anarquismo organizado hoje, com os problemas e matizes que nos apresentam o tempo em que lutamos e resistimos.

Já faz tempo que importantes problemas teóricos, metodológicos e também políticos estão colocados e exigindo uma atualização de acordo com a nova situação que nos toca viver” diz um documento apresentado ao plenário.

O socialismo esteve presente e fazendo propostas no marco deste período histórico de tantas mudanças. Muitas são as experiências que tem colhido, não poucos são seus fracassos também. Quantos de seus paradigmas caíram junto e concepções inteiras tem demonstrado na prática que não conduziam ao propósito enunciado. Toda uma concepção autoritária, de instalação do socialismo por cima, tem ido pro ralo. Nem por isso o socialismo caiu. Segue sendo o antagonista do sistema vigente.

O acento posto pelo socialismo libertário na capacidade de resistência dos povos, no saber que sua experiência social constrói, a solidariedade tantas vezes praticada, são hoje mais necessários do que nunca. Não é a ciência, nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a ‘história’ em si e nem o progresso os que trarão mudanças que a humanidade e os pobres do mundo necessitam, hoje talvez mais pobres do que nunca .”

O documento aponta em seus parágrafos finais: “Colocando a bom serviço a técnica, a ciência e as teorias mais atualizadas e fecundas, as organizações de combate, políticas e sociais inseridas profundamente no processo em curso, com suas aspirações éticas e firme vontade resistente, terão que fazer o novo sulco deste tempo. (…) Que não arrotem vitórias prematuras os inimigos e os capituladores. Não haverá fim da resistência e da esperança

Em seu conjunto participaram delegações da FAU (Uruguai), Federação Anarquista de Rosário (Argentina), Via Libre (Colômbia), Federação Comunista Libertária e Comunidades Organizadas (Chile), FARPA, CALC, FARJ, FAG, Org. Maria Ieda (pela CAB Brasil), OSL (Suíça), Alternativa Libertária e Coordenação de Grupos Anarquistas (França).

Adiantamos sinteticamente que o acordo geral que chegamos aponta neste momento ao nosso desenvolvimento teórico-político articulado com o aumento da incidência libertária nas dinâmicas de luta e resistência da cena social política.

Reproduzimos abaixo recortes do texto que foi considerado durante a plenária e que tematizam o acionar do sistema em nossa época e aparecem categorias de análise para nossa produção teórica.

Estaremos publicando em breve o texto integral.

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Neoliberalismo no econômico, no ideológico e nas relações sociais

As mudanças que trouxe todo o processo de um período histórico, o que tem sido chamado de “reforma neoliberal”, ou simplesmente “neoliberalismo”, incluiu o que já é mais que conhecido: mercantilização dos serviços de saúde, pensões e seguros, as transformações substantivas do sistema educativo, as privatizações de empresas públicas, a introdução nas instituições estatais de modalidades de gestão próprias do setor privado, os mecanismos de flexibilização laboral e de contratações, etc. Junto a isso a injeção no ideológico social de uma “cultura de empresa”. Não é um processo de mudança que pode ser explicado só através do econômico, intervém nele, simultânea e constantemente fatores de outra ordem como: o político, ideológico, cultural, judicial e mudanças de racionalidade geral.

Dita mudança produziu como efeito uma grande fragmentação no campo social, especialmente no âmbito dos oprimidos e explorados. Um profundo individualismo, um processo massivo de individualização, que mudou boa parte do caráter das relações, tentou instalar outras modalidades que tem como centro a instabilidade e a fluidez. Onde o sentimento de pertencer a coletivos e comunidades sociais é deslocado com intenções de faze-los desaparecer.

Com razão que tem sido dito que estamos ante uma situação social histórica onde domina o mundo um sistema ecocida e genocida que está levando a humanidade à beira do precipício. Junto com uma política de exacerbação do consumo, que se designa como consumismo, vai uma destruição brutal da natureza, do ecosistema.

Biopolítica que mata e/ou deixa morrer

As perspectivas, no marco do sistema dominante, não são nada boas, são macabras. Sua política, sua forma de produção não mudam os rumos, fazem parte substancial de sua eistência. Sua depredação da natureza, sua exploração humana e a criação de miséria e “população sobrante” seguirão como suas dependentes.

É a presença de uma nova biopolítica onde hoje se combinam fazer morrer e deixar morrer, mais do que fazer viver.

Por estratégias de poder mundial temos: guerras de intervenção com massacres de populações, milhares de assassinatos de civis, destruição de hospitais, sequestros e assassinatos de prisioneiros, cadeias clandestinas em diferentes países para a tortura brutal e o assassinato, os ataques com drones tão “cirúrgicos” e “precisos” que deixam centenas de civis assassinados. Enormes populações desses “estados falidos” que depois de seu destroço ficam a deriva, mergulhados na fome e no desespero. Essas enormes populações de imigrantes vivendo em barracos até militarmente controlados e sem o mais elementar pra sobreviver. Multidões a nível mundial estimadas pelo poder como material sobrante que não importa nada, que pode se deixar que morra. Vão produzindo um enorme contingente humano que está expulso de todo direito, está preso para fora e sua vida não vale nada. Pois a lógica operante é: não são necessários para a produção e não tem capacidade de consumo.

A resistência que se manifesta dia a dia

As mudanças sistêmicas referidas estão aí, abarcando todo o tecido social. (…) mas isso ocorre no marco de um processo permanente de tensões sociais. De rebeldias, enfrentamentos, insatisfações, fortes resistências.

Ainda que a Resistência existe ao extenso e largo do poder dominante e tem múltiplas expressões regionais, não tem que ser necessariamente algo atomizado. Pelo contrário, distintos nós resistentes, agrupamentos, estendem frequentemente laços entre si e compõem em tais circunstâncias forças sociais que originam mudanças conjunturais. Como modo de exemplo tomemos a militância comum de camponeses, indígenas, feministas, ecologistas e grupos de DDHH ou levantamentos populares compostos por uma gama de resistências como na chamada Primavera Árabe ou no movimento Indignados da Espanha. Muitos processos de subjetivação em meio de tensões que são unidos por laços solidários. Processos subjetivos, engendrados em confrontações, que podem ser políticos e com propostas próprias em determinadas circunstâncias.

As resistências, por tanto, não são marginais senão ativas no centro de uma sociedade que se abre em redes; existem, nos fatos, os militantes do mundo dos oprimidos capazes de viver a miséria do mundo até o final com rebeldia e liberdade, de identificar e enfrentar as novas formas de exploração, dominação e sujeição.

Nossas reflexões e a atualidade

Nos anima então uma o propósito interessado de refletir sobre enfoques teóricos que possam resultar efetivos estrategicamente para confrontar-se com formações empíricas, favorecendo assim uma concepção de de teoria social não divorciada de uma prática de ação política com intenções de ruptura. Ao mesmo tempo, se tenta buscar uma alternativa conceitual frente aos numerosos problemas que hoje proliferam, e que em vez de tomar seriamente a pluralidade e a contingência de um mundo social que tem se transformado, por suposto sem tocar no núcleo duro do sistema mundo capitalista, termina ignorando as significativas variações existentes na vida coletiva contemporânea, gerando assim estancamentos e certas fossilizações no âmbito teórico-político com suas consequências no campo da ação social-política.

Por exemplo, esta nova configuração sistêmica traz consigo, além de uma nova racionalização, uma nova forma de Estado. Constituído em um processo, já tem elementos diferentes do Estado chamado de bem estar social. Mantém sim, mas dentro de outra articulação, o caráter repressivo das demandas de autonomia dos indivíduos e os coletivos, seu papel de contenedor dos conflitos sociais, seu monopólio da força repressiva. Em qualquer caso a dinâmica e determinadas críticas das classes detentoras do poder dominante coincidiram na necessidade de dar uma virada de página e de superar (reformando a fundo) a racionalidade welfarista (Estado de bem estar) em curso. Criou assim, em enunciados “teóricos” e nos fatos uma nova racionalidade, para a atual situação do sistema em seu conjunto como para o Estado que o integra. Não interessa um Estado não interventor, mas que sua intervenção seja de determinada maneira. Seja salvando bancos falidos depois de grandes roubos; fazendo espaço e apoiando o capital financeiro; criando forte controle sobre populações jogadas na miséria e descontentes; ou criando estados de exceção para zonas estimadas por eles perigosas no seio de países “democráticos”.

Para um conjunto dessas práticas, um dos discursos de verdade, uma ideologia operativa, será o da segurança da população, Ela vai cumprindo macabras funções ao mesmo tempo que pretexta levar a democracia e defender direitos fundamentais no terreno exterior, a países e regiões, com essas frequentes e criminais ocupações ou destruição de países que suas estratégias geopolíticas de poder indicam.

Uma nova ordem interior respaldada por um sistema de informação geral, “uma espécie de mobilização permanentes dos conhecimentos do Estado sobre os indivíduos”. Isto implica uma nova modalidade de relação entre o saber, a informática e o poder: não se trata exatamente da informação e do saber ao mesmo tempo global e individualizante da era das disciplinas, mas de um saber abarcador, massivo, que quer captar os grandes movimentos de conjunto. Importam especialmente territórios, “zonas vermelhas”.

Outro aspecto para que esta nova ordem interior funcione, é procurar a constituição de um “consenso” que possa significar uma certa regulação feita efetiva pelo mesmo povo oprimido que faça que “a ordem se autoengendre, se perpetue, se autocontrole”.

Para isso além dos mecanismos e dispositivos do sistema intervirão organizações e expressões sociais “amigas” que se desenvolvem no campo popular e que nos fatos já estão integradas no sistema. Que pensam com a mesma lógica.

A nova estratégia de governo e novo Estado neoliberal consiste em garantir os fluxos (financeiros, humanos, tecnológicos, etc.) e maximizar a proteção em áreas de circulação massiva. Nesse sentido, se identificam zonas chave para a segurança e a economia (centros comerciais, aeroportos, jurisdições fronteiriças, etc) e logo se calculam os custos e benefícios do investimento em dispositivos de vigilância, que traçarão a linha divisória entre zonas seguras e zonas desprotegidas. O fim é “poder determinar em cada momento quem se desloca, de onde vem, aonde vai, o que ele faz ali onde está, e se efetivamente tem acesso a rede em que se desloca e se tem ou não proibição”.

Saudações do CALC aos dez anos da Rusga Libertária/CAB!

O Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), organização anarquista especifista localizada no estado do Paraná, saúda e comemora uma década de construção da Rusga Libertária em terras mato-grossenses! Compomos desde 2012 a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) em conjunto com a organização-irmã Rusga Libertária e, neste momento, contamos com outras 10 organizações anarquistas especifistas espalhadas pelo Brasil.

Alegramo-nos em saber que os/as companheiros/as mato-grossenses têm se empenhado na tarefa árdua e cotidiana de construção de uma alternativa política frente as burocracias dos movimentos sociais, num contexto estadual em que reina o poderio dos latifundiários da soja e do agronegócio em geral.

Numa conjuntura nacional de lutas cada vez mais acirradas, com destaque neste momento para a luta contra a MP 746 (Reforma do Ensino Médio) e PEC 241 (55) – com direito a muita ação direta (ocupações, atos de rua e mais), é necessário continuarmos a construção de novos referenciais políticos. Somente nessa intensa peleia, com muito esforço organizativo nas escolas, bairros, favelas campos, florestas e locais de trabalho, conseguiremos construir um outro horizonte que rompa com as estruturas do capitalismo, do Estado e de qualquer dominação.

Ao mesmo tempo, passamos por um momento de aumento da repressão e criminalização à pobreza e aos movimentos sociais. Com os marcantes casos de Rafael Braga e da invasão à Escola Nacional Florestan Fernandes, destacando também o contínuo genocídio do povo negro e dos povos originários. Só nos resta a solidariedade entre a classe oprimida para resistirmos e avançarmos.

A cada modesto passo que damos, a cada ano que completamos de luta e organização, ficamos mais fortalecidos. Com muita convicção e firmeza, a partir de raízes históricas bem sólidas, seguimos na construção de uma matriz ideológica anarquista latino-americana, ampliando nossa atuação e amadurecendo nossas organizações.

Continuamos juntos, lado a lado. Partilhamos das mesmas concepções, princípios, estratégias, táticas, leituras da realidade. Nossa convicção e sentimento de pertencimento a algo maior aumenta nossas chances de vitória sobre os vários tipos de dominação. Seguimos construindo uma outra sociedade, fundada em outros valores, uma sociedade de socialismo e liberdade!

Saudações aos/às anarquistas especifistas do Mato Grosso! Seguimos sabendo que só a luta popular decide! Toda força para o nosso projeto de construção de uma sociedade justa e igualitária!

Lutar! Criar Poder Popular!
Viva o Anarquismo no Centro-Oeste!
Viva a Rusga Libertária! Viva a CAB!

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CALC, Novembro de 2016.

 

[CAB] SUPERAR O PETISMO E A BUROCRACIA NA ESQUERDA. SÓ A LUTA E A ORGANIZAÇÃO TRANSFORMAM A REALIDADE!

O que pudemos aprender com a farsa político-judicial que tirou o PT do trono deve valer muito nessa hora. Já dissemos o que pensamos do caso. E, para quem ainda não sabe, repetimos: o arranjo da Lava Jato com a grande mídia, combinado com a crise social, produziu discursos no cotidiano que prepararam o cenário perfeito para a ação dos vigaristas. Mas nossa tese geral é que: O PT FOI O SEU PRÓPRIO COVEIRO.

Foi progressivamente integrado na estrutura dominante durante os últimos 30 anos e bateu no teto como um partido dobrado pela política do ajuste fiscal e sócio da corrupção sistêmica. A escalada no governo e nas repartições burocráticas da institucionalidade levaram para dentro do movimento sindical e popular todo cretinismo político burguês. Fez simulação de parlamentarismo no interior das organizações de classe. Reproduziu os valores e as ambições que são ideologia corrente dessas instituições.

O que mais uma vez nos certifica o presente histórico da política brasileira é que o reformismo chega, quando muito, no governo pelas eleições. Para tanto, tem que se adaptar às estruturas do poder ou sofrer implacavelmente a reação conservadora do Estado. Na primeira opção, deixa de ser reformista, assume as pautas da direita e atua na margem curta que sobra do pacto com as classes dominantes, quando tem conjuntura para isso. Na segunda, nem sequer governa. O revés que carrega no colo essa concepção, que a aliança PT/PMDB deixa bem registrada agora, é que, para inspirar confiança no sistema de poder, rifa a independência de classe; ou seja, se coloca como gestor com a promessa de desmobilização das forças populares. Cedo ou tarde, acaba montando a cama para reação mais atroz se deitar.

Ainda há quem defenda o projeto democrático popular, como se o Estado fosse neutro e se pudesse fazer mudanças por meio dele. Se agarram a um dogmatismo de que faltou o programa e o partido certo da esquerda para mudar a sorte dessa aventura. O velho desejo vanguardista e reformista de fazer um acordão eleitoral. Desejo que, na prática, conserva os mesmos “meios”, a mesma estrutura que conduziu a esse fracasso e mantém a exploração e a desigualdade social. Um discurso no teórico-político que não consegue se libertar da tentação da “varinha mágica” das direções, que faz uma simplificação letal quando o assunto é o poder. Aquelas noções do poder como uma máquina neutra figurada pelo Estado que pode ser usada ao gosto dos pilotos de ocasião. A velha arrogância vanguardista, centralista, preconceituosa e elitista que desconfia do povo e não acredita em suas formas de rebeldia e de organização popular. Que busca de todas as maneiras conduzi-lo e dirigi-lo, burocratizando e matando as lutas sociais para capitalizar tudo para suas correntes, centrais e partidos.

As práticas e objetivos das burocracias sindicais, estudantis e partidárias são bem evidentes: aparelhar as estruturas sociais e usar o povo como correia de transmissão de suas pautas já prontas, elaboradas de cima para baixo pelas elites dos comitês centrais. Construíram assim, de forma sistemática, quase três décadas de uma cultura viciada em burocracia e recuada, de conciliação com patrões e acordos entre cúpulas de direções. Uma prática política que exclui as bases de atuarem diretamente nos processos de construção da luta, fazendo-as de massa de manobra para seus interesses eleitoreiros. E essa prática se manifesta tanto nas ruas quanto no interior dos organismos populares. Por isso, não haverá projeto combativo de mudança se a esquerda não superar o petismo e todas as formas de burocracia entranhadas nos movimentos e demais organismos sociais.

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Reação neoliberal, PEC do Fim do Mundo e ocupações

 As eleições municipais nos indicam um triunfo relativo do discurso liberal-conservador que defende a gestão técnica, a meritocracia como a grande solução para tudo, buscando se colocar como algo eficaz diante da já manchada e descrente política tradicional. Mas só aparentemente. A política miserável do ajuste vem casada com a repressão sobre a pobreza e o protesto para disciplinar a produção da cidade privatizada. A crise do PT e a ofensiva reacionária que se encorajou com sua queda explica muito. É forçoso admitir um valor ambivalente para a rejeição eleitoral sinalizada pelo expressivo número de abstenções, votos nulos e brancos. Leva dentro o mal-estar e a saturação com a fraude democrática burguesa, mas também carrega um ressentimento antipolítica ao sabor dos ventos, que fica no limiar do encanto com promessas mágicas, imediatistas e fascistas.

A PEC 241, aprovada em dois turnos na Câmara de deputados, agora vai para o Senado como PEC 55 – já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A MP 746, da reforma do ensino médio, foi incorporada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Pela educação, se registram os movimentos mais fortes de resistência, é a estudantada que tem se mostrado mais combativa aos ataques sociais nessa conjuntura. Mais de mil escolas foram ocupadas no país, com mais da metade no estado do Paraná. Nessa onda, juntaram-se também Institutos Federais e Universidades país afora. As táticas das ocupações reativaram, pelo menos no setor público, uma dinâmica de lutas pela base que afronta e amedronta a burocracia vanguardista de esquerda, ao mesmo tempo que abrem passagem para uma nova cultura política pela cara e a coragem, sobretudo, da juventude.

Está evidente que a juventude ganhou protagonismo nos últimos anos e que, na onda de lutas que temos na cena social-política, o movimento estudantil tem mais gravitação. Contudo, não podemos deixar de reparar que nesse cenário nos falta o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras e dos setores populares historicamente excluídos com mais força. Assim, se pela tática podemos falar de reforço e ampliação das ocupações como medida imediata, pela estratégia não podemos deixar de dialogar também com as dinâmicas sociais que são características de outras frentes de luta. Em nossa atuação social, apontarmos para uma frente das classes oprimidas, aglutinando os setores precarizados, terceirizados, povos das florestas, camponeses, povo negro, mulheres, LGBTTs e outros(as). Ter uma política bem resolvida para agrupar forças, como uma tendência combativa, e mantermos o passo firme na hora que vem o cansaço ou a exaustação que a luta traz.

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Todas as frentes de luta chamam para resistência.

 O Supremo Tribunal Federal deu parecer favorável, no dia 27/10, à regra que corta o ponto dos trabalhadores em greve do setor público. A bola da vez anunciada para as próximas semanas é o julgamento das terceirizações de atividades-fim. A reforma trabalhista avança a golpes de toga pela mão do judiciário. E o movimento sindical vem amargando a duras penas o saldo negativo de todo um período amarrado na institucionalidade, fazendo correia de transmissão dos governos de colaboração petistas. Um plano de ação não deve ser manobra de um blefe ou discurso vazio de quem se acostumou a ser patrão e a negociar em cima das costas da classe trabalhadora, do alto dos aparelhos sindicais. De recuo em recuo, conciliação a conciliação, não se faz greve geral com articulação de cúpula de direções sindicais e partidárias. O sindicalismo classista deve combater a burocracia oportunista de centrais e dirigentes e fortalecer a base nos locais de trabalho e não esquecer os setores precários da classe trabalhadora, para poder encontrar forças reais para lutar e vencer a exploração capitalista.

Já sabemos que, após as reacomodações de poder dos de cima, a situação nacional pós-impeachment traz um avanço pesado do elemento jurídico-repressivo. Temos o caso emblemático do capitão do exército infiltrado na pequena formação black block de São Paulo horas antes de um ato. Mais tarde foi apurada sua ligação com um militar reformado que atuou no DOI-CODI. O assédio a professores para delatar estudantes por ordens expressas da alta burocracia do ministério da educação e secretarias estaduais. Validação pela vara de infância e da juventude do DF de técnicas de tortura para desocupar as escolas com corte de água, luz, entrada de alimentos, emissões sonoras para impedir o sono. A escola de formação Florestan Fernandes foi tomada de assalto por forças da Garra no interior de São Paulo, entre tiros, golpes e prisões. Ou seja, há a total concepção de “inimigo interno” pelos aparatos de inteligência e de repressão do Estado. E, nesse sentido, nunca esqueceremos da criação da Guarda Nacional por Lula e da criminosa Lei Antiterror, aprovada por Dilma contra o povo.

O governo Temer é um governo de choque, de uma formação especial do poder político, que vai configurando um tipo de Estado policialesco autorizado pelas medidas de exceção do judiciário. Sempre é bom repetir: nas favelas, subúrbios pobres e para a população negra, a regra geral sempre foi e é o governo pela repressão, a política do extermínio e da cadeia. A manutenção da pobreza e do racismo reproduzem o crime, organizado ou não, que é mais uma forma de atuar do Estado nas favelas e periferias. O mesmo crime que ameaça a paz para os negócios e investimentos de empresários é usado como justificativa para as invasões, controle militar e extermínio dos moradores dessas comunidades. Mas, sabemos também que o Estado usa da violência justamente para desmobilizar, aterrorizar e possibilitar a implementação dos interesses do capital, da exploração e opressão. O que a situação nacional vem caracterizando é uma ofensiva da restrição de direitos que vai mais longe. As medidas de exceção como recurso da luta de poder do Estado e as classes dominantes contra toda forma de resistência e de autodefesa.

 Não se intimidar e abrir caminho pela independência de classe

 O caminho fácil e rápido não é um atalho para qualquer saída a ser construída desde baixo, com protagonismo popular efetivo. Com muita modéstia, nós formamos parte de um setor das lutas sociais e políticas que apontam para uma ruptura que não ignora os limites e possibilidades da etapa de resistência que atravessamos. Que não enxerga, de forma alucinada, a insurreição na primeira esquina e tampouco declina sua vontade de mudança radical frente à angústia, à descrença e ao individualismo presentes no dia a dia.

O que podemos e devemos marcar agora e sempre é um espírito de luta e solidariedade irredutível, encarnado nas práticas sociais que fortalecem o movimento popular. A ação direta como fator de luta de classe contra o capitalismo e todas suas formas de opressão. A mais ampla participação popular como princípio de ação política de combate aos usurpadores burocráticos das organizações de base. Essa postura é animada por uma estratégia de trabalho, a médio e longo prazo, de construção de poder popular. Uma frente de classes oprimidas com a capacidade política de enfrentar com seus organismos de democracia de base e federalismo esse degradante e opressivo mundo burguês. Mais uma vez, superar o petismo e as saídas oportunistas e burocráticas que apostam na via institucional e buscam apenas consolidar seus projetos de poder para se encastelarem nos cargos e privilégios da estrutura governamental. Colocar combustível e organizar os processos de luta no trabalho de base cotidiano e, junto aos setores autônomos, não ceder, porque as ruas estão em disputa também.

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LUTAR! CRIAR PODER POPULAR!

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[CAB] 28 de setembro: Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe

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“O sistema machista quer nos proibir com um papo furado, mas se homem engravidasse já seria legalizado.”

Brisa Flow

O dia 28 de setembro foi escolhido como o dia de luta pela descriminalização e legalização do aborto durante o V Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado na Argentina, em 1990.  Mas a discussão sobre o tema não é recente, pelo contrário. Em nossa tradição feminista e anarquista, Emma Goldman defendia em seus escritos a necessidade de descriminalização do aborto, bandeira que levantou em sua atuação sindicalista nos EUA e na União Soviética, após sua deportação.

Na Rússia Soviética, o decreto de 1920 tornou visíveis as necessidades das mulheres de interromper a gestação e tornou o aborto legal. Para o acesso ao aborto as mulheres enfrentavam uma burocracia absurda e seus pedidos entravam numa “lista de prioridade”. Aos olhos do Estado, o desemprego, a pobreza e a ilegitimidade levavam as mulheres a abortar, sendo quase impossível o acesso ao aborto legal quando se tratava de uma escolha da mulher em outras circunstâncias. Além disso, na URSS os médicos não utilizavam anestesia nas cirurgias de aborto, pois eram consideradas de menor importância, provocando um sofrimento doloroso para as mulheres e fazendo com que mesmo sendo legal, muitas mulheres recorressem ao aborto ilegal ou não abortassem. No curto verão da anarquia na Espanha, em janeiro de 1937 o Conselho de Saúde Catalão promulga um decreto de liberalização e controle do aborto nos hospitais.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 8,7 milhões de brasileiras com idade entre 18 e 49 anos já fizeram pelo menos um aborto, destes 1,1 milhão foram provocados.

O papel socialmente atribuído à mulher na sociedade faz com que derrubem apenas sobre os nossos braços a responsabilidade de prevenção e cuidado e o peso da gravidez. Percebemos que no círculo criminalizante do aborto, sempre somos nós, mulheres, as mais penalizadas. Respondemos com nossos corpos e nossas liberdades por uma gravidez gerada por homens e mulheres.

No Brasil o aborto é crime. A mulher que aborta, e quem quer que a auxilie, podem ser penalizados. Exceto os casos em que o aborto é legal no Brasil: risco de vida da mãe (diagnosticado de forma bem imprecisa pelos médicos e nos últimos momentos antes do parto, ou mesmo durante), em caso de estupro e quando o feto é anencéfalo. Fora estes casos, a mulher que comete o aborto é enquadrada no artigo 124 do Código Penal. Código este que é bastante ineficaz para evitar o aborto, mas totalmente eficaz para matar as mulheres.

Disto tiramos duas consequências sociais principais: nós, mulheres do povo, devemos procurar clínicas clandestinas e sem segurança para abortar. As mulheres que não tem como pagar colocam sua vida em risco com métodos caseiros. As ricas conseguem abortar sem riscos indo para fora do Brasil. As que pagam, mas realizam o procedimento aqui, ainda correm risco de morte, pois na maioria das vezes as clínicas clandestinas não possuem estrutura. O caso mais recente foi o da Caroline, grávida de cinco meses e mãe de uma menina de 10 anos, que procurou a clínica para o procedimento e acabou morrendo com um corte na barriga. A outra consequência é que mulheres podem ser presas por causar aborto. Como anarquistas, somos anticárcere e não aceitamos, de nenhuma forma, que mulheres sejam presas por interromper a gestação. O aborto não é um caso de polícia, mas sim de saúde pública! Quantas morrerão até que algo seja feito?

Nestes tempos em que cresce o conservadorismo espelhado em instituições e pessoas “públicas”, vemos nossos direitos cotidianamente ameaçados. A figura repugnante do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, levou ao Congresso muitos projetos de lei que ameaçam nossas vidas, dentre eles o PL 5069/2013, que torna crime o anúncio de métodos abortivos e a prestação de auxílio ao aborto, especialmente por parte de profissionais de saúde. Além disso, o PL 5069/2013 tem impacto direito no atendimento às vítimas de violência sexual, uma vez que considera estupro apenas as práticas que resultam em danos físicos e psicológicos e que a prova deverá ser realizada por exame de corpo de delito.  Eduardo Cunha também é autor do PL 1545/2011 que prevê pena de 6 a 20 anos para médicos ou médicas que realizam aborto, além da cassação do registro profissional.

Além das ameaças ao aborto legal para casos de estupro, o acesso a métodos contraceptivos também segue sendo ameaçado. O PL 1413/2007 de Luiz Bassuma, proíbe a distribuição, a recomendação pelo SUS e a comercialização pelas farmácias da pílula do dia seguinte. O mesmo deputado é autor do Estatuto do Nascituro (PL 478/2007), que proíbe o aborto mesmo em caso de estupro e transforma o aborto ilegal em crime hediondo.

Só a luta e a organização nas ruas podem barrar o avanço do conservadorismo sobre nossos corpos. Precisamos estar organizadas, quer em movimentos sociais mistos, quer em movimentos auto-organizados por mulheres. A construção do poder popular para barrar a opressão dos nossos corpos é o caminho que nós, anarquistas, trilhamos. E o poder popular se constrói cotidianamente, nas lutas populares, por fora das urnas, de forma horizontal e independente, sempre tendo na mira o socialismo libertário em que nós mulheres possamos ser verdadeiramente livres.

POR TODAS AS MULHERES MORTAS EM ABORTOS CLANDESTINOS NENHUM MINUTO DE SILÊNCIO! TODA NOSSA VIDA DE LUTA!

Construir um povo forte! Construir mulheres fortes!

Coordenação Anarquista Brasileira

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[CAB] O 1° de Maio em meio à crise final do projeto “Democrático-Popular”

http://anarquismo.noblogs.org/?p=478

O 1° de Maio em nosso “tempo”

Há 120 anos o 1° de Maio é uma data especial para a classe trabalhadora de todo o mundo. Um dia de luta, mas também de luto, reflexão e homenagem a todos aqueles que um dia sacrificaram suas vidas para a luta dos de baixo. Uma data que os de cima fizeram e fazem de tudo para esvaziar seu significado original, apresentando-a enquanto “Dia do Trabalho”, uma espécie de dia para santificar patrões e governos que, investidos de boa vontade, nos “dão trabalho” e “alternativas de vida”.

Independente deste jogo dos de cima, em todo o mundo o Primeiro de Maio sempre foi um momento importante para muitos trabalhadores e trabalhadoras pensarem sua própria situação, organização e capacidade de lutar por mudanças efetivas. Em outras palavras, sua capacidade de poder. É, portanto, uma data de toda a classe trabalhadora e por isso mesmo um marco internacional que paira além das tradições políticas e ideológicas que vêm desta classe em luta.

O 1° de Maio que se aproxima não se enquadra em um cenário favorável para nós. Difícil seria se enquadrar, já que nossa experiência tem demonstrado que até que se aniquile o Capital e o Estado, todos os tempos serão tempos terríveis.  No entanto, é nossa tarefa analisarmos quais são as características do momento em que entramos, suas coincidências com outros tempos, as forças dos agentes em jogo etc. Análise que pretende ser objetiva e não dogmática, sem querer encaixar a realidade dentro de uma determinada teoria. Um vício que tem levado parte expressiva da esquerda a dar voltas em círculos, como um cachorro que tenta agarrar o próprio rabo, sem inserção nas lutas sociais, atuando exclusivamente em direções, cargos, etc., ao invés de estar na base e construir movimentos populares desde baixo.

Nos últimos meses a esquerda em geral tem assistido a uma ofensiva do andar de cima, do conservadorismo e da direita no país. Essa ofensiva que, ao nosso ver, se manifesta como catarse no processo espetaculoso do impeachment da presidente Dilma, também gera consequências terríveis no âmbito da esfera organizativa dos de baixo. De um lado, um retrocesso político de muitos setores que hoje se reduzem a “defender a democracia”, sabendo-se lá o que se quer dizer com esse conto. Do outro, uma autoproclamação elitista que se coloca acima da classe: na incapacidade de conviver cotidianamente com ela, acredita que lançando algumas palavras de ordem pode acionar um incêndio e passar a “dirigi-la”.

Atônita e com pouca capacidade de reação no curto prazo, boa parte da esquerda tem se reduzido ao melancólico papel de espectadora de uma trágica ofensiva reacionária que tem acumulado consideráveis forças e convoca um esforço redobrado de nossa parte para fazer valer o pouco que conquistamos. O pouco que conquistamos com o sangue, suor e lágrimas de muitos, entre eles dos anarquistas Mártires de Chicago condenados à morte.

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O Espetáculo do Impeachment e a ofensiva conservadora

Grotesco espetáculo circense aparte, o impeachment movido pelo bando vigarista do congresso liderado por Eduardo Cunha foi um golpe parlamentar que se ancora na crise sem precedentes do governo Dilma e do petismo na cena política nacional:

– a franca evolução do PT ao centro e à direita pela política de alianças com as oligarquias que formam o centrão do Congresso Nacional, no qual as barganhas e as chantagens do PMDB representam sua expressão mais pura;
– a liquidação do pacto de classes diante de um cenário econômico recessivo e a rendição do governismo às pautas do ajuste fiscal cobrado pelo sistema financeiro e pelas patronais;
– a posição equivalente de um partido sócio da corrupção sistêmica e do estelionato eleitoral que é regra do jogo da democracia burguesa.

O desejo por trás da reação parlamentar, midiática e judicial nessas circunstâncias especiais é fazer com que o ajuste envergonhado que o PT conduz atinja o grau máximo pela via do impeachment, resultando na formação de um governo de choque. Atacar os direitos e os bens públicos sem os meios de colaboração e do “diálogo” que foram usados à exaustão pelos gestores petistas do capitalismo brasileiro, sejam aqueles integrados nas estruturas do Estado ou nas burocracias dos movimentos populares, com especial destaque ao movimento sindical. Tomar carona oportunista na comoção social produzida pelo derrame do discurso jurídico-criminal sobre a política e a corrupção para impor soluções ao gosto das mesmas classes dominantes de sempre.

Não nos restam dúvidas de que Sérgio Moro e a Lava Jato trabalham para estes interesses. Essa é a trama preferencial de uma narrativa privilegiada pelos grupos de mídia, que se aproveita da situação para fazer cortina de fumaça nas investigações que acusam os sonegadores pela Operação Zelotes e as contas na Suíça do HSBC. Os aparelhos judiciários não têm nenhuma vocação para uma mudança social que ponha o centro da decisão na participação popular.

O que boa parte da esquerda parece ter dificuldade de entender é que por fora da gramática do poder de classificar culpados e inocentes, de selecionar e excluir, de toda máquina penal que alimenta um discurso punitivo, o projeto liderado pelo PT se integrou nessas estruturas dominantes e se afundou na vala comum. Aparte do processo legal, o governismo e suas “correias de transmissão” no movimento sindical e popular atropelaram conceitos e valores que são muito caros a uma concepção de esquerda. A princípio não nos toca a legalidade do “triplex” ou do “sítio de Atibaia” que pressionam Lula. O que provoca nosso rechaço, antes de tudo, é que líderes históricos da legenda nascida das greves do ABC sejam consultores sem constrangimentos da patronal e gestores de fundos de pensão. No caso de Luis Inácio, estamos a falar de um palestrante de luxo da Odebrecht e amigo de Bumlai, poderoso empresário do agronegócio. Um fã ardoroso do banqueiro Henrique Meireles, para dar só alguns exemplos.

A tragédia de tudo isso é que na percepção dos setores populares a trajetória de fracassos e decepções de um partido gestado no fruto das lutas sociais dos anos 80 arrasta toda a esquerda para o mesmo buraco. Estimulam o ceticismo, a intolerância e a indiferença política e social, onde crescem as ideias reacionárias de uma salvação autoritária que adiam a urgência de organizações populares de base.

Aniquilar pela vidraça do PT todo tipo de movimento social e pensamento de esquerda tem sido a grande ofensiva dos setores reacionários que encabeçam o impeachment, colocando um “anticomunismo” primitivo como uma das principais questões desta ofensiva. Daí que entre o ajuste fiscal encontramos também uma ofensiva reacionária em relação à cultura e à educação, com o bizarro projeto “Escola sem Partido” que vem ganhando terreno em diversos Estados da união sob diversos matizes, mas com um mesmo fim: coibir a pretensa “doutrinação ideológica” de jovens nas escolas e universidades por um fantasioso “marxismo cultural” de professores da área de humanas. Uma teoria da conspiração que, como tal, na ausência de um mínimo fundamento histórico, teórico e pedagógico se nutre de um raivoso ressentimento conservador que busca, inclusive, encarcerar professores dependendo daquilo que dialoguem com os estudantes.

O retrocesso que nos ronda, portanto, não é apenas em relação à maior precarização de nossas relações de trabalho com o aniquilamento de direitos e arrocho salarial. É também um retrocesso que joga no plano cultural, na ávida busca dos conservadores em formar uma geração de jovens perdidos sem qualquer capacidade de elaboração de um raciocínio que problematize sua vida cotidiana e o espaço onde ela se desenvolve. Jovens que se acostumem a serem dóceis funcionários do trabalho precário ou mortos sumariamente na trágica “guerra das drogas” e nas chacinas que atingem a população das vilas e favelas, em especial a juventude negra. O modelo da “escola prisão”, de reduto disciplinador de corpos e mentes, da promoção de uma ideologia de competição, onde aos “melhores” cabe o papel de passar por cima dos “piores”, ganha uma posição privilegiada nesse cenário.

A vocação economicista e/ou parlamentarista de grande parte da esquerda não tem permitido a necessária atenção em torno dessa ofensiva cultural. Ao mesmo tempo demonstra a sedutora tentação de que pode se apresentar instantaneamente como a grande alternativa à desilusão das amplas massas com o petismo. Tudo se resume à correta escolha de um punhado de palavras de ordem que alimentem um otimismo delirante de que “agora é a nossa vez”. Caso o jogo não seja virado, basta culpar aqueles que “capitularam” e preparar-se para sua próxima derrota caricata.

Forjar a construção de alternativas desde as bases e com as bases

Os 14 anos de hegemonia do projeto democrático popular chegam a sua saturação final. Nestes últimos anos a esquerda não governista esteve em meio a uma luta para conformar uma alternativa a esse bloco. Cada setor, cada organização concebeu, a sua maneira, o que seria essa alternativa. Mas no fim, não foi capaz de presenciar alguma proposta que disputasse com o bloco governista nas lutas populares. Isso, por sua vez, não tirou de cena o surgimento de inúmeras experiências que transbordam ensinamentos e avanços difíceis de medir precisamente. Das “greves selvagens” e das revoltas nas obras do PAC, passando pelas jornadas de junho em 2013, a luta por moradia nas grandes cidades e a recente onda de ocupações de escolas por estudantes secundaristas em São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro e Belém mostram que em meio às trevas da ofensiva reacionária, também vai se afirmando uma nova geração de lutadores e lutadoras. Uma geração que não se formou pelas estruturas tradicionais de luta e organização que a esquerda construiu nas últimas décadas, por isso mesmo, uma geração refratária aos métodos e à cultura destas estruturas.

O 1° de Maio, evento histórico de nossa classe, é um momento para refletirmos nossa trajetória enquanto classe em luta, de resgatar os valores universais que difundiram nossos Mártires de Chicago na épica luta pela redução da jornada de trabalho, levada a cabo por homens e mulheres do povo em todo o mundo, disputando com os parasitas do trabalho a organização de nossas vidas. Uma vitória que estes parasitas nunca nos perdoaram e buscam contorná-la ainda hoje com seus infames artifícios, como é o caso do banco de horas.

O 1° de Maio é o momento para estarmos juntos, refletindo sobre nossa presença nos diversos espaços de nossa classe e em como temos alimentado cotidianamente laços de resistência. Da disputa contra ideias conservadoras à organização de uma luta contra o ajuste, tudo é decisivo na construção de um punho forte e solidário dos de baixo. Não se trata de apresentar-se enquanto única verdade, mas sim de construir, palmo a palmo, os alicerces do novo dique dos de baixo a conter a ofensiva dos de cima. É no fazer cotidiano de nossa classe que vamos acumulando força social, expressa no empoderamento dos de baixo e não no fortalecimento de aparatos. Uma força real que exige de nossa parte que não sejamos sectários, exige mais reflexão, capacidade de escuta e imaginação política.

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Em memória aos Mártires de Chicago, continuar a luta por direitos e pela transformação social!

Criar um Povo Forte! Desde baixo e à esquerda!

Lutar! Criar Poder Popular!

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Coordenação Anarquista Brasileira – 1° de Maio de 2016