Arquivo da tag: moradia

[FAG] O golpe em curso se chama “Ajuste Fiscal”

Retirado de:                                             https://www.facebook.com/FederacaoAnarquistaGaucha/posts/1057692934242264:0

Passe o que passe no andar de cima, a faca do ajuste nunca deixa de cortar na carne dos trabalhadores e setores populares. A recessão do país castiga, como sempre, as classes oprimidas. Corta direitos, salários e empregos e levam os serviços públicos à falência. Autoriza o saque do capitalismo de mercado sobre os bens púbicos e comuns, sobre a riqueza criada pelas sucessivas gerações de trabalhadores. “Administra” a pobreza pelos mecanismos criminais da justiça-polícia-prisão. Cria o sujeito indesejável, que perturba a segurança da ordem, o discurso punitivo que encarna o sentido comum do dia-a-dia e acomoda a banalização de uma guerra repressiva e genocida sobre negros e pobres, especialmente a juventude. Qualifica o bom e o mau protesto.

A briga desatada no palco do poder político passa longe do ajuste econômico e o Estado Penal. Em todos os cenários que podemos imaginar o sistema dominante trata de defender as medidas e as práticas de governo que empurram mais austeridade. Os trabalhadores brasileiros já estão pagando com o sacrifício dos sonhos e esperanças de dias melhores a farra financeira e criminal do capitalismo global. O fantasma das políticas miseráveis que castigam o povo grego, com desemprego em massa, arrocho salarial, perda de aposentadorias e demais direitos é um exemplo bem fresco.

Recessão e ajuste. O pacto social foi pro ralo.

O modelo que fez os ricos mais ricos e deu uma beirada de consumo, crédito e programas sociais para integrar os setores populares ao mercado já não tem mais vez. Só a indústria automotiva já demitiu 39 mil operários no primeiro semestre. A construção civil prevê 480 mil cortes de postos de trabalho durante o ano. O endividamento popular cresce e aperta o orçamento das famílias. A inflação criada pela subida dos preços administrados pelo Estado amplia a carestia de vida e corrói os salários. Não para por ai. O governo de Dilma e do PT condenou a juventude trabalhadora ao mexer nas regras do seguro-desemprego, esticando o tempo de trabalho para 18 meses. As burocracias sindicais arriaram uma bandeira histórica do movimento operário concertando com a indústria e o governo o programa de redução de jornada com redução salarial, o Pograma de Proteção ao Emprego (PPE), um plano de socorro dos patrões. Por sua vez, o lucro dos banqueiros tem recordes históricos às custas de uma dívida pública infame que arrocha investimentos na saúde, educação, moradia, etc.

No nível dos Estados e municípios a situação também é calamitosa. O achaque feroz da dívida pública, a sonegação e as insenções fiscais da patronal amordaçam o orçamento e os governos como no RS e em GO atacam o funcionalismo com congelamento e parcelamento de salários, corte de verbas sociais e planos de privatizações, concessões e extinção de órgãos e serviços públicos.

O pacto social que prometeu pela mão do desenvolvimento capitalista uma margem de melhorias sociais que chegassem na vida dos mais pobres fracassou. Com ele toda a narrativa triunfalista do crescimento que fez imaginário de uma pretensa prosperidade social fundada no sonho do consumo, no indivíduo flexível e “competitivo” ao gosto do mercado, na moral compensativa do trabalho precário e estafante, na privação dos espaços públicos e dos bens comuns em benefício de interesses especulativos. Quando as estruturas do poder e a riqueza ajustam o jogo todos sabemos onde é que a corda arrebenta.

A política como gestão dos controles do sistema.

De todos os lados a pressão ajoelha o governo do PT e o andar de cima cobra caro pela sobrevida. A rejeição cresce de pesquisa em pesquisa. A direita opositora se reagrupa pelo alinhamento de Eduardo Cunha com o PSDB, o DEM e os partidos que pulam do barco furado do governismo. Aparecem manobras judiciais pelo TCU e o TSE para criar uma situação política favorável ao impeachment ou empurrar a renúncia da presidente Dilma. Buscando jogar água nesse moinho, no último dia 16 de agosto mais uma vez o “antipetismo” foi às ruas por convocação de grupos liberais, conservadores e ultra-reacionários, ao que o governismo pretende contestar com a convocatória do dia 20 de agosto.

A operação Lava Jato, entre outros sentidos, tem reforçado a noção de uma solução judicial-repressiva para a crise. Juízes, promotores e agentes federais caídos nas graças da imprensa burguesa e das ruas. Políticos e altos burocratas do Estado e dos partidos na parede. Em menor medida, empresários graúdos figurando nos processos. Sem dúvidas ganha certa evidência um modus operanti que faz conexões entre as instituições políticas e o mundo corporativo empresarial. Mas há em tudo isso uma idéia sedutora, que faz vetor pro conservadorismo, de que a faxina deve ser feita pelos mesmos aparelhos de poder que punem implacavelmente a pobreza com as grades e o extermínio.

Em todos os casos, o sistema sempre reserva para si, bem longe dos mecanismos de participação popular, o direito de cortar cabeças seletivamente para não entregar o ouro. As redes de corrupção, sonegação e impunidade dos poderes políticos, econômicos e midiáticos são parte da estrutura, moeda corrente da representação burguesa. O que interessa ao andar de cima é deixar a política sempre no domínio privilegiado do parlamento, da justiça burguesa e/ou órgãos auxiliares. Normatizar os de baixo, quando muito, como eleitores.

Agenda de Renan e Levy. A ordem é arrumar uma saída pelo andar de cima.

A mão avarenta e fisiologista do PMDB, por conchavo das velhas raposas, segura, sabe-se lá por quanto tempo, o governismo na beira do precipício. Tudo tem seu preço. A arte de governar o país antes de tudo é a gestão estável dos interesses dos poderosos. As organizações patronais FIESP e FIRJAN além do Bradesco passaram o recado que querem, dentre todas as tramas para sair da crise política, um cenário que não toque no ajuste fiscal e na sua ofensiva sobre os direitos dos trabalhadores. Os editoriais de O Globo e Zero Hora assinam embaixo. Sangrar o governo Dilma e ajoelhar o PT até beijar os pés de quem pode mais agrada os senhores que não pretendem deixar o problema para a imprevisibilidade das ruas.

Nessa perspectiva, a Agenda Brasil anunciada na última semana é um pacote ao gosto das classes dominantes. Obra de um arranjo conservador do governo, tribunais e o senado, onde brilham Renan Calheiros, o PMDB e a política da tesoura do ministro Joaquim Levy. Consumação de uma virada governista ainda mais à direita, que reza missa pra aquelas imagens e lembranças da infame década de 1990 evocadas na campanha eleitoral de 2014. Chantagem barata que recrutava “voto crítico” no “menos pior”.

A saída que vem de cima faz agenda pelo ajuste e corta mais fundo. Com terceirizações e precarização do trabalho, ataque ao sistema gratuito e universal da saúde pública, desvio de receitas para o sistema da dívida. O atropelo de territórios indígenas, quilombolas, bens naturais e normas ambientais para a exploração brutal das mineradoras, construtoras e o agronegócio.

Para consagrar, tramita no congresso por ação do governo o projeto da Lei Antiterrorista. Endurecimento jurídico-represssivo sobre as rebeldias que não são canalizadas pela ordem. Punição dos militantes e das lutas que criam resistência e escapam dos controles burocráticos do Estado.

Luta sem governo, patrões e pelegos. Organizar a resistência dos de baixo

Dos últimos 05 anos emerge uma nova onda de lutas que marcam o caminho por onde é preciso avançar para que os oprimidos construam, por sua própria força, uma saída do cenário de ataques que se agravam. Ocupações por direito a moradia, greves radicalizadas pela base que se voltam contra as direções burocráticas, governistas e patronais dos sindicatos, lutas da juventude por educação e transporte coletivo de qualidade, resistência combativa de indígenas e quilombolas.

A violenta ofensiva da patronal e dos governos contra os de baixo exige a construção de uma alternativa que se gesta nos locais de trabalho, estudo e moradia, que crie resistência e acumule forças para derrubar o andar de cima. Urge a necessidade de superar definitivamente a derrota trágica e inapelável de uma formação política nascida diretamente das organizações operárias e populares que dirigiu uma estratégia obstinada a chegar à presidência, custe o que custar; que afirmou premissas teórico-ideológicas que formaram o credo de toda uma geração da esquerda brasileira e que ainda hoje forma paisagem, inclusive, para setores da burocracia radicalizada que se opõe aos governos do PT por esquerda. Chegar ao “poder” pela via eleitoral, simplificar esse problema pela direção dos aparelhos estatais e atribuir ao Estado o caráter de uma máquina que funciona ao gosto de seus pilotos de turno, que não está penetrado por relações sociais de poder e dominação, mecanismos internos de reprodução de dinâmicas burocráticas e oligárquicas. Uma concepção viciada que se manifesta nos mais diversos conflitos em curso, em métodos que fazem das lutas uma mera força de pressão que visa “persuadir” um possível eleitorado por via de discursos, palavras de ordem e da promoção de lideranças carismáticas ao passo que marginaliza o protagonismo e a organização de base.

A saída para a situação que vem se colocando aos trabalhadores não é uma saída pela eleição de novas direções mas, fundamentalmente, pela organização de base e ação direta popular. Processo que não é uniforme, requer paciência, firmeza, ação metódica, trabalho de base, por vezes silencioso. Distante do barulho que grita uma “alternativa” política que se relaciona com a promoção de lideranças “caudilhistas” que pretendem se alçar como intermediários, fiadores do protesto popular. O lastro ideológico bastardo do petismo é vasto e faz com que ainda se tenha preferência, por exemplo, em atos com carros de som ou os reiterados “encontros” formais onde futuros presidenciáveis possam se manifestar, onde correntes se “cheiram”, procuram “enquadrar” aquelas que julgam “centristas”, fazem chamados e exigências umas as outras, tiram fotos e retornam às suas casas a um piquete ou bloqueio que tranque os serviços, a produção ou a circulação em áreas estratégicas, que ocupe espaços públicos ou privados. O protagonismo do partido na promoção da figura de seu dirigente ainda se sobrepõem ao protagonismo coletivo da classe, na avaliação, nos riscos assumidos, nas vitórias e derrotas.

A superação do legado reformista, social-democrata, que deixou o PT na esquerda ainda requer muito empenho, inserção social e luta política e ideológica a ser travada, fundamentalmente desde as mobilizações em curso. Um período de ofensiva dos de cima e resistência dos baixo requer, antes de mais nada, fortalecer a organização e o protagonismo de base em cada local de trabalho, estudo e moradia que estamos vinculados, acionando a mais ampla solidariedade de classe às lutas em curso, para que os de baixo se afirmem enquanto os verdadeiros protagonistas da construção de uma saída que barre o ajuste e acumule forças para a construção de uma nova sociedade, socialista e libertária.

Porto Alegre, 19 de Agosto de 2015
Federação Anarquista Gaúcha (FAG), Organização integrada à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB).

11866370_1057692934242264_1711128580306752419_n

 

[CABN] Boletim jul/2015

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/boletim-jul2015/

Salve companheirada!

Neste boletim de julho: Jornal Socialismo Libertário #30; Greve IFC – Araquari; Solidariedade ao povo curdo em Joinville; Amanhecer Contra a Redução – Floripa; III Encontro Sul da CAB; Relato do Arraial da Ponta do Coral

Jornal Socialismo Libertário #30

A Coordenação Anarquista Brasileira lançou nova edição de seu jornal com uma análise do atual momento político e econômico, apontando as tarefas para a militância no próximo período. O jornal pode ser lido aqui:
http://www.cabn.libertar.org/cab-jornal-socialismo-libertario-30-julho2015/

Greve IFC – Araquari

O CABN apoia a greve de servidoras e servidores técnicos do IFC em Araquari, que vem demonstrando força e grande mobilização em suas atividades. Em defesa da educação pública! Só a luta muda a vida! Confira o relato de importante atividade de greve na semana passada:
http://greveifc.wix.com/blog#!ENCONTRO-PARA-DEFINI%C3%87%C3%95ES-E-TROCA-DE-EXPERI%C3%8ANCIAS/c218b/55b95dfc0cf27acb2d8c3fa9

Solidariedade ao povo curdo em Joinville

O CABN convida todas e todos para uma Roda de Solidariedade ao Povo Curdo no domingo, 16 de agosto, no Centro de Direitos Humanos de Joinville. “A proposta da atividade é contrapor o discurso dominante na grande mídia mundial, inclusive a brasileira, que trata a resistência popular curda como “terrorismo”, escamoteando o novo ar que o povo curdo apresenta à esquerda mundial.” Mais informações aqui:
http://www.cabn.libertar.org/joinville-roda-de-solidariedade-ao-povo-curdo/

Amanhecer Contra a Redução Floripa

A campanha Amanhecer Contra a Redução está mobilizada em Florianópolis para disputar a opinião pública e mobilizar a sociedade contra a redução da maioridade penal. A próxima ação é organizar o Festival Amanhecer, usando da arte e cultura para agregar a juventude e debater sobre por que a “redução não é solução”! O momento é de conseguir apoio e contribuição para realizar o festival. Confira o vídeo e apoie:
https://www.youtube.com/watch?v=V6AXXiZpUUw
https://www.facebook.com/AmanhecerFloripa

III Encontro Sul da CAB

“Nos dias 4 e 5 de julho, reunimos em Curitiba delegações do Coletivo Anarquista Luta de Classe (Paraná), Coletivo Anarquista Bandeira Negra (Santa Catarina) e Federação Anarquista Gaúcha (Rio Grande do Sul) para tratar da conjuntura atual, a coordenação de nossas frentes de atuação sindical, estudantil e comunitária, e também as campanhas da CAB para o próximo período.” Leia a declaração completa do III CAB-Sul aqui:
http://www.cabn.libertar.org/declaracao-do-iii-encontro-regional-sul-da-coordenacao-anarquista-brasileira-2015/

Relato do Arraial da Ponta do Coral – Florianópolis

O Movimento Ponta do Coral 100% Pública organizou, no sábado passado, um arraial comunitário na área, onde luta pela mudança de zoneamento para Área Verde de Lazer e a constituição do Parque Cultural das 3 Pontas, uma área pública, de lazer, de preservação ambiental e cultural. Leia mais:
https://parqueculturaldas3pontas.wordpress.com/2015/08/02/relato-do-arraial-na-ponta-do-coral/

Encerramos o boletim com o trabalho de muralismo do Coletivo Pintelute de Joinville, realizado durante o evento Ocupa Rock, na Cidadela Cultural de Joinville. Não à violência de gênero!

11760158_854816884588691_7642041997326358141_n

[CAB] Toda solidariedade à luta das 8 mil famílias das Ocupações da Izidora (MG)!

Retirado de: http://anarquismo.noblogs.org/?p=235

Acompanhamos o drama das 8 mil famílias das três ocupações da Região da Izidora (Rosa Leão, Esperança e Vitória) em Belo Horizonte, Minas Gerais. Manifestamos toda solidariedade à luta dessas famílias e repúdio à forma como o governo Pimentel (PT) está tratando o caso, com cinismo, repressão e terror psicológico.

A luta destas milhares de famílias é em defesa de um direito básico que deveria ser assegurado pelo próprio Estado que hoje criminaliza, reprime e despeja. Em Belo Horizonte o déficit habitacional ultrapassa a casa das 70 mil famílias sem teto. Em Minas Gerais, o déficit chega a 6 milhões. É por conta desta dura realidade, somada ao fator da especulação imobiliária que faz com que o povo pobre seja expulso das proximidades da região central para as margens, que surgem as inúmeras ocupações urbanas.

São inúmeros os lotes vazios, os terrenos devolutos e entregues às moscas da especulação na capital de Minas Gerais, enquanto milhares de trabalhadoras e trabalhadores vivem a penosa realidade do aluguel, de morar de favor, ou de simplesmente não ter um teto para abrigar sua família. Este contraste aponta, inevitável e justamente, para o surgimento de ocupações urbanas, que dão vida e função social para lotes que anteriormente serviam para a especulação e até mesmo para desova de cadáveres, estupros, etc. As ocupações urbanas são exemplos práticos de ação direta do povo organizado que faz valer seu direito que é furtado pelo Capital, pelo Estado e pela (in)Justiça.

Não é diferente com as ocupações da Izidora. A luta das famílias das ocupações coloca de um lado o direito que o povo tem de morar dignamente e de outro a ambição pelo lucro de construtoras e demais especuladores. Enquanto as famílias querem apenas um teto, a Construtora Direcional quer garantir o seu lucro de 15 bilhões com as construções que foram planejadas para o local. Neste embate, o governo Pimentel, a prefeitura de Márcio Lacerda, e o Tribunal de Justiça compraram o lado dos ricos e exploradores.

Somamos nossa voz às vozes de NÃO AO DESPEJO diante da possibilidade de o governador petista Fernando Pimentel promover um verdadeiro banho de sangue no norte de Belo Horizonte. É claro e evidente que um massacre está anunciado, de mesmo tamanho ou até maior do que houve com Pinheirinho, em São Paulo, em 2012. Isso porque a questão da Izidora, pelo tamanho dos terrenos, pela quantidade de famílias e pela disposição destas famílias de resistir ao despejo, é tida como o maior conflito fundiário urbano atualmente no país. Desta forma, o governador que alfinetou Beto Richa, governador do Paraná (PSDB), pelo massacre cometido contra os servidores públicos em 29 de abril deste ano, promoverá um atentado à vida de milhares de trabalhadoras e trabalhadores tão grande quanto o cometido pelo tucano em Curitiba.

Por isso, reafirmamos nossa posição em defesa da luta destas famílias, nos integramos à rede de solidariedade Resiste Izidora e reiteramos que se não for pela união popular, a organização de base e a solidariedade de classe, nossos direitos serão tratorados e, junto com eles, as nossas casas, a nossa dignidade, nossos sonhos e as nossas vidas.

 

Despejo Zero!

Resiste Izidora!

Somos todxs Izidora!

Com Luta, com Garra, a casa sai na Marra!

logo_cab

[MOB-PR – CURITIBA] EDUARDO PRESENTE! NOSSO LUTO É NA LUTA!

Retirado de:                              http://organizacaodebase.wordpress.com/2014/11/13/parana-eduardo-presente-nosso-luto-e-na-luta/

No dia 12 de novembro de 2014 perdemos mais um menino por falta de condições dignas de moradia. Perdemos uma criança em mais um incêndio ocorrido na Nova Santa Quitéria.

20141112_144744

Na noite de terça-feira, 11 de novembro, as chamas do fogão se alastraram pela casa de Eduardo Domenique de Oliveira, menino de 8 anos. Ele tentou se proteger no banheiro da casa, mas ficou preso pelo fogo. A Policia Militar chegou em 10 minutos, porém os bombeiros, que estão a menos de 8 km de distância (15 minutos) demoraram mais de uma hora e meia! Neste tempo, os moradores já haviam levado a criança quase sem vida ao hospital, mesmo com a policia tentando impedir que os moradores se aproximassem.

Em mutirão os moradores apagaram o incêndio, mas a dificuldade de apagar o fogo foi ainda maior porque a água na comunidade é escassa, tendo um relógio d’água para 75 famílias. A pauta da regularização da água é histórica na ocupação e vem sendo ignorada pelo Estado há 8 anos, desde o inicio da ocupação.

Eduardo faleceu às 6 da manhã e foi velado no Clube da Mães da comunidade. Ao mesmo tempo, centenas de moradores da Nova Santa Quitéria e Portelinha se manifestavam para que tragédias como esta não voltem a acontecer. Exigimos moradia digna! Exigimos regularização de água, luz e do terreno em caráter de urgência!

Hoje, quinta-feira, o enterro será no Cemitério Parque Senhor do Bonfim em São José dos Pinhais, às 11 horas. E após a cerimonia os moradores irão em luto para a luta. Haverá mais uma manifestação em frente à Prefeitura de Curitiba para recebermos uma resposta a nossas exigências. 

20141112_193059

EDUARDO PRESENTE! PRESENTE! PRESENTE!

NEM ESQUECER! NEM PERDOAR!

A CULPA É DO ESTADO!

REGULARIZAÇÃO JÁ!  

[MOB-PR] Todo apoio aos Mutuários de São José dos Pinhais!

Retirado de: http://organizacaodebase.wordpress.com/2014/10/29/parana-todo-apoio-aos-mutuarios-de-sao-jose-dos-pinhais/

Nós do MOB-PR (Movimento de Organização de Base do Paraná) nos posicionamos publicamente a favor da União dos Mutuários Trabalhadores de São José dos Pinhais (UMT-SJP). Os mutuários protestam em frente ao fórum de São José a cerca de 60 dias visando à derrubada de mais de 150 reintegrações de posse que beneficiam imobiliárias especuladoras.

O movimento representa cerca de 4.000 famílias (20.000 pessoas) que têm suas casas em risco devido ao superfaturamento de terrenos comprados a mais de 10 anos. Os mutuários compraram seus terrenos, os pagaram durante mais de uma década e agora correm o risco de perdê-los para as imobiliárias que estão cobrando valores absurdos e que ferem os contratos estabelecidos. As imobiliárias propõem acordos ofensivos, os quais chegam a cobrar aluguéis das casas construídas pelos próprios mutuários.

Neste momento a UMT continua acampada em frente ao fórum e lá continuará enquanto não caírem as reintegrações. Cabe ressaltar que já existe uma CPI a respeito do superfaturamento dos terrenos se desenrolando na Câmara Municipal de São José dos Pinhais, o que já demonstra que as irregularidades praticadas pelas imobiliárias são tamanhas que se tornaram passíveis de investigação. Todavia, sabemos também que só a luta poderá assegurar as casas dos mutuários.

Nós do MOB apoiamos e lutaremos ombro a ombro esta luta junto aos trabalhadores e trabalhadoras da UMT!

27 de Outubro de 2014

mob-pr

Todo apoio ao Movimento de Organização de Base – Paraná!

O Coletivo Anarquista Luta de Classe saúda a criação do Movimento de Organização de Base – Paraná!

Só com a organização de base, com a luta autônoma e solidária da classe oprimida vamos conseguir avançar nos nossos direitos e transformar essa realidade tão injusta e desigual!

Vida longa ao MOB-PR!

Viva a Portelinha!

Viva a Vila das Torres!

Viva o Campo Comprido!

Lutar! Criar Poder Popular!

Retirado de: http://organizacaodebase.wordpress.com/2014/07/01/nota-publica-de-criacao-do-movimento-de-organizacao-de-base-parana/

“A história são os pobres que a fazem
A vitória esta na mão de quem peleia,
Nossa gente tão cansada de sofrer
Vamos juntos decidir o que fazer,
Se o governo e os patrões só nos oprimem
Acumulando riqueza e poder
Ação direta é a arma que nós temos
Pra fazer justiça pra viver.”

Hino da Ação Direta

No dia 06 de abril de 2014 um passo muito importante foi dado para a luta autônoma e de base das comunidades do Paraná, o Movimento de Organização de Base foi criado no nosso estado. Moradores da PortelinhaVila das Torres e do Campo Comprido, em conjunto com companheiros e companheiras do Coletivo Quebrando Muros, Coletivo Tarifa Zero e um militante do MOB-RJ participaram do seminário de criação do MOB-PR.

Durante todo este dia foi discutida a conjuntura política e social de cada comunidade, assim como da cidade de Curitiba. Foram levantados os principais problemas que teremos que lutar para resolver e esboçados alguns caminhos que devemos seguir para chegarmos aonde queremos.

A partir da análise e discussão sobre três eixos fundamentais: Educação e Cultura PopularMoradia Digna Economia Coletiva conseguimos traçar alguns objetivos e formas de alcançá-los.

Com as contribuições do companheiro do MOB-RJ enxergamos vários pontos relacionados à organização que podemos nos espelhar e ainda aprendemos muito sobre os processos de resistência e luta que os companheiros e companheiras do Rio de Janeiro têm participado.

Nossos princípios, assim como os dos companheiros do MOB-RJ, ficaram claros desde o início. Sabemos que só com o ClassismoSolidariedade de ClasseInternacionalismoIndependência de ClasseAção Direta Democracia de Base vamos conseguir construir uma sociedade mais justa e igualitária!

A luta dos oprimidos nas periferias de Curitiba e do Paraná agora tem um novo movimento combativo e independente! O Movimento de Organização de Base que já se organiza na Vila das Torres, Portelinha e Campo Comprido!

Viva a Portelinha!

Viva a Vila das Torres!

Viva o Campo Comprido!

Viva o Movimento de Organização de Base!

contato: mob-pr@riseup.net

O Movimento de Organização de Base – RJ saúda as comunidades Portelinha, Vila Torres e Campo Comprido, o Coletivo Quebrando Muros e todos os colaboradores por promoverem esse grande passo na construção do poder popular. Termos como objetivo a organização local das lutas comunitárias a partir da base, do protagonismo de quem sofre na pele o dia a dia dos problemas sociais, nos despejos criminosos realizados pelos governos, que sofre com a falta de saneamento básico e necessidades essenciais (luz, água, gás…), na falta de acesso à educação etc. é a maneira que encontramos de resistirmos nessa sociedade de opressões. Por isso acreditamos que na luta do cotidiano, resistindo ombro a ombro,unidos pela mesma causa de forma solidária, somos muito mais fortes. Por uma vida com igualdade e liberdade social!

Viva o MOB-PR! Viva a solidariedade de classe! Viva o Poder Popular!
Lutar, Criar, Poder Popular!”

OPINIÃO ANARQUISTA: 2014 é ano de luta! Rumo à conquista de direitos!

Novo Opinião Anarquista do Coletivo Anarquista Luta de Classe sobre este momento histórico no Brasil:

Opinião Anarquista 06 - 01

Opinião Anarquista 06 - 02

Baixe em PDF: Opinião Anarquista 06

2014 é ano de luta! Rumo à conquista de direitos!

 

Copa para os ricos, miséria para o povo.

Com o maior evento realizado no Brasil nos últimos tempos vieram também milhares de famílias sendo despejadas de suas residências; trabalhadores acidentados e mortos na construção dos estádios da Copa; pessoas pobres, moradores de rua, usuários de drogas, prostitutas e travestis sendo retiradas à força dos centros das grandes cidades para dar aspecto de “limpeza e riqueza” para turista ver; ao mesmo tempo em que aumenta o tráfico de mulheres e exploração sexual de crianças no país. Se não bastasse, cresce enormemente a repressão policial e a criminalização dos movimentos sociais que saem às ruas para lutar por seus direitos.

Durante os preparativos para a Copa do Mundo no Brasil mais de 250 mil pessoas foram removidas à força de suas residências. Além da truculência utilizada para as remoções, as famílias despejadas se quer receberam as indenizações devidas. Por outro lado, os grandes empresários do ramo imobiliário e da construção civil lucraram milhões de reais sobre os terrenos onde antes havia comunidades.

Outro dado que chama atenção é o número de operários que morreram trabalhando na construção dos estádios da Copa: foram 9 trabalhadores! Trabalhadores que morreram por acidentes, quedas e descarga elétrica; vítimas da negligência e do desrespeito das empreiteiras e do Estado, que valoriza o lucro extraído do grande evento, em detrimento da condição de vida e de trabalho do povo.

A higienização social nos grandes centros urbanos, cidades turísticas e cidades que sediarão os jogos do mundial também choca. O Estado, de maneira brutal, retira com violência os moradores de rua, os usuários de droga e impedem que prostitutas e travestis continuem trabalhando nas ruas centrais das cidades para esconder as mazelas sociais brasileiras. Maquiar não é resolver!

Em todos os países que sediaram a Copa, há um exorbitante aumento no tráfico de mulheres, crianças e adolescentes principalmente para a exploração sexual. No Brasil isso não está sendo diferente e as principais vítimas são mulheres negras, jovens, com baixa escolaridade, moradoras da periferia que são enganadas com a promessa de melhoria de vida. Enquanto isso, o Estado não tem políticas públicas que se destinam a combater o turismo sexual e a exploração dessas mulheres.

Por outro lado a FIFA lucra mais de 10 bilhões de reais com a Copa no Brasil. Ao mesmo tempo, trabalhadores ambulantes e artistas independentes são impedidos de trabalhar no entorno dos estádios. Legado para o povo?! O povo não tem saúde, não tem educação, não tem transporte público de qualidade. Os trabalhadores não têm sequer dinheiro para comprar o ingresso e assistir aos jogos nos estádios.

Lucro e privilégio para os opressores e falta de condições para os oprimidos

Os serviços públicos estão cada vez mais sucateados e dando lugar à iniciativa privada. Hospitais sendo vendidos, escolas públicas fechadas por falta de condições, tarifas dos transportes coletivos sendo aumentadas todos os anos sem que o serviço melhore de qualidade, falta de concursos públicos; esses são alguns dos problemas que o povo vem sofrendo na pele diariamente.

O Governo PT, atrelado aos interesses dos convênios de saúde e da indústria farmacêutica, tem deixado que o SUS esteja cada vez mais precário. Podemos perceber isso quando comparamos o número de leitos do SUS e do sistema privado de saúde nos últimos anos. De 2010 até 2013 o SUS perdeu 12,7 mil leitos e a rede privada ganhou 13,4 mil. Por outro lado, cerca de 90% da população brasileira depende dos serviços do SUS, ou seja, está claro que quem tem acesso a saúde privada não é a maior parte da população.

A educação pública é outro serviço fundamental que vai de mal a pior. Atualmente o que se vê é uma grande expansão do ensino privado, ensino esse que não ensina o estudante a pensar e questionar a realidade, mas apenas a reproduzir o conhecimento. De 2000 até 2010 mais de 25 mil escolas públicas foram fechadas! Ao mesmo tempo em que a população em idade escolar aumentou consideravelmente. Para satisfazer essa demanda seriam necessárias mais de 20 mil novas escolas.

Na educação superior vemos a expansão das universidades privadas com incentivo do Estado através de programas como o PROUNI e FIES. No entanto, sabemos que as faculdades privadas, em sua maioria, não oferecem ensino, pesquisa e extensão de qualidade, mas apenas um ensino técnico destinado ao mercado de trabalho. O lucro dessas universidades cresceu entre 2011 e 2013, de R$ 24,7 bilhões para R$ 32 bilhões. Cada vez mais lucro para os donos das universidades particulares e menos condições de ensino para os estudantes nas instituições públicas.

Moradia digna é outro direito essencial que, no entanto, está bem longe de ser garantido. Em 2010, mais de 2,7 milhões de pessoas não tinham acesso à energia elétrica. Em 2013, mais de 100 milhões de brasileiros não tinham acesso à coleta de esgoto e em 2014, 40 milhões não têm acesso à água tratada, o que acarreta milhares de mortes causadas por doenças todos os anos.

Saúde, educação e moradia são só alguns dos inúmeros serviços e direitos que o povo precisa e que deveriam ser garantidos. E mesmo com a chegada de um “governo dos trabalhadores” ao poder esses estão bem longe do ideal, porque não importa o governo, o Estado existe para cumprir um importante papel de dominação de uma classe sobre outra. Por isso, nós, a classe oprimida, precisamos lutar com nossas próprias mãos para conquistar o que queremos!

 O que queremos?

É fato que muitas injustiças já foram cometidas durante a construção da Copa do Mundo 2014, entretanto devemos lutar para reverter, pelo menos em parte, esse legado perverso que será deixado e avançar na luta e organização da classe trabalhadora.

Pelo direito de organização e manifestação! Contra a criminalização dos movimentos sociais! Protesto não é crime!

Pelo fim imediato dos despejos forçados! Pelo direito à moradia!

Pelo fim do processo de higienização social! Pelo direito de ir, vir e permanecer nos espaços públicos! Por albergues dignos!

Pelo direito ao trabalho dos ambulantes, feirantes e artesãos!

Contra a exploração sexual e o tráfico de pessoas!

Por Serviços Públicos de qualidade! Da Copa eu abro mão, eu quero saúde, transporte e educação!

Exigimos pensão vitalícia às famílias dos operários mortos e incapacitados por acidentes de trabalho nas obras da Copa!

 Organização para a luta

Vivemos uma nova etapa da luta de classes no Brasil. Desde as revoltas populares em junho e julho de 2013 uma antiga forma de luta voltou a ter destaque nos movimentos sociais: a ação direta. A luta dos oprimidos feita por suas próprias mãos em resistência à dominação e na exigência de direitos é hoje um método que as organizações populares utilizam e que vem trazendo conquistas.

Cada vez mais a via eleitoral está perdendo espaço, uma vez que o povo está perdendo a esperança de que seus supostos “representantes” podem, de fato, fazer seus direitos avançarem e a desigualdade social diminuir. No lugar disso aparecem as lutas dos trabalhadores, estudantes, moradores da periferia, camponeses, que se organizam de maneira autônoma, em movimentos combativos que forjam seus próprios caminhos de forma coletiva e verdadeiramente democrática.

O descrédito com as eleições burguesas acontece devido à desilusão da classe dos oprimidos com a chegada do PT à presidência. Esse governo que se dizia dos trabalhadores não rompeu com a classe dominante, exploradora e opressora, mas pelo contrário, fez um pacto com essa classe!

Os serviços públicos, as condições de trabalho, ensino e moradia não avançaram com a eleição daqueles que se fizeram passar por “representantes do povo”, mas estão avançando com a ação direta dos oprimidos! A tarifa de transporte público baixou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Joinville, Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus e outras várias cidades em 2013. Greves vitoriosas de rodoviários em Porto Alegre e São Paulo e dos Garis no Rio de Janeiro em 2014. Inúmeras ocupações urbanas resistem e têm suas áreas regularizadas a partir de manifestações de rua e muita organização em várias cidades como Curitiba, São Paulo, Florianópolis e Belo Horizonte!

Acreditamos que só com a organização da nossa classe em cada local de moradia, estudo e trabalho, a partir de movimentos sociais combativos, horizontais e classistas que vamos conseguir criar o poder popular!   É com organização, ação direta e democracia de base que vamos resistir e avançar! Seja no grêmio da escola, no centro acadêmico da universidade, no sindicato da categoria, no movimento de bairro ou do campo vamos nos organizar para construirmos uma sociedade que seja igualitária, justa e livre!

Ação Direta é a arma que nós temos para fazer justiça para viver!

Lutar! Criar Poder Popular!

[CABN – Florianópolis] Ocupação Palmares Resiste e Vive!

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=1301

Durante o Carnaval, a Ocupação Palmares foi invadida duas vezes pela Polícia Militar e Floram, que derrubaram uma casa sem ordem oficial e também levaram todos os pertences de uma família. Abaixo, segue o primeiro vídeo do documentário sobre a Ocupação Palmares, produzido após os ocorridos. Este vídeo desconstrói a versão utilizada pelos veículos de comunicação de Florianópolis sobre os procedimentos da PM e da leitura de zoneamento realizada pela Floram.

Relato da Frente Autônoma de Luta por Moradia (FALM):

No último sábado de carnaval, por volta das 14 horas, Floram, Polícia Militar e CHOQUE foram autores de uma operação criminosa e desastrada na Ocupação Palmares, localizada no Alto da Caeira, no Maciço do Morro da Cruz (Florianópolis/SC). Ameaçando confiscar (roubar) as madeiras de um dos moradores, os policiais armados partiram para o confronto com moradoras e moradores. Mulheres, homens e crianças foram atacadxs com spray de pimenta e alguns foram atingidos por cacetadas e tiro de bala-de-borracha. Um dos moradores teve de ir ao hospital devido a um ferimento na cabeça. As agressões covardes iniciaram-se verbalmente, com policiais chamando moradorxs de “merdas”. Além de empurrarem uma mulher de uma altura de 2 metros, após dispararem os tiros, – e sabendo que o apoio jurídico e de militantes da FALM estava a caminho – os policiais partiram em retirada comentando entre eles: “Fizemos merda!”

É inaceitável que uma força truculenta de mais de 10 camburões, tropa de choque e PM venham apontar fuzis e cacetetes contra uma população desarmada, crianças e famílias inteiras. Na tarde de sábado, a PM usou da sua força para agredir moradoras e moradores com balas de borracha, spray de pimenta e cacetadas. Violência efetivada sobre famílias que apenas protestavam com justa causa. Um morador (pastor) teve sua cabeça atingida por um cacetete onde sofreu mais de 5 pontos, que deu entrada contra a violência ocasionada. Jamais houve um único papel assinado permitindo derrubar casas, pelo contrário, há “apropriação indevida” das madeirasm, eletrodomésticos e utensílios pessoais sem devolução permitida por parte dessas operações. É lamentável verificar que, como sempre, a política do governo é de se negar a dialogar com os mais necessitados e, em troca, saber que Florianópolis possui um dos déficits mais altos em questão de moradia no país, vide Moeda Verde, novo “Plano Diretor”, e toda uma rede de corrupção e especulação provinda contra àqueles que menos tem acesso às necessidades básicas.

Nesta segunda-feira (03 de março), em mais uma ação ilegal da Floram com o auxílio do efetivo da PM, o trabalho sujo foi terminado. A casa a qual tinham derrubado pela metade foi, nesta tarde, completamente destruída. Não bastasse isso, levaram (isto é, roubaram) todas as madeiras, móveis e eletrodomésticos dos moradores. É esse o carnaval que a Prefeitura Municipal de Florianópolis propiciou para esses moradores: SEM CASA, SEM NADA.

Não há política de moradia, mas há política de despejo.
Contra a ação truculenta da polícia!
Pelo direito à moradia e contra a criminalização da luta!
Todo apoio à Ocupação Palmares!

“Se não há igualdade para os pobres, que não haja paz para os ricos!”

PALMARES RESISTE!

Frente Autônoma de Luta por Moradia (FALM)

[COMPA] As ocupações da Câmara e da Prefeitura e a necessidade de Ação-Direta, Autonomia e Independência Política

Coletivo Mineiro Popular Anarquista
Agosto 2013

 

Manifestações mobilizaram mais de 100 mil na capital

Se junho foi o mês das gigantes manifestações de 100 mil em Belo Horizonte, julho foi o mês das combativas ocupações das sedes do governo municipal. Colocando frente a frente os meses de junho e de julho em um debate político, podemos extrair algumas reflexões importantes que evidenciam pontos e princípios táticos necessários para a luta popular.

No dia 29 de junho estava marcada uma sessão na Câmara Municipal para votar o projeto do prefeito Márcio Lacerda que previa a redução da tarifa do ônibus municipal em R$0,05, partindo de mais uma isenção de imposto (ISS) para a máfia das empresas de transporte coletivo da capital. O fato da sessão ter sido às 07:30h da manhã de um sábado para tentar desmobilizar qualquer ação não impediu que centenas de pessoas estivessem presentes na sede do legislativo. O povo se concentrou em frente à portaria da Câmara e foi barrado de forma violenta e arbitrária de entrar na casa. Resultado: projeto votado e aprovado às pressas. Logo após, fuga de todos os vereadores e enfim uma efetiva e massiva ocupação da Câmara.
Câmara Municipal ocupada: ação-direta pelo transporte!
Foram 9 dias de ocupação com uma pauta específica e clara: reunião com o prefeito para tratar do assunto do transporte coletivo de Belo Horizonte. Apesar das tentativas da prefeitura em nos ludibriar, nos enviando “garotos de recado” do prefeito para reuniões nada encaminhativas, a Câmara permaneceu ocupada até que a reunião com o chefe do executivo, o prefeito Márcio Lacerda, fosse realizada. E foi. Através da luta popular forçamos o recuo da intransigência da prefeitura, exigindo e conquistando a reunião com o prefeito; forçamo-lo a reduzir R$0,15 da tarifa – que diz respeito à isenção do PIS/COFINS para as empresas de transporte coletivo por parte do governo federal, o que até então se convertia num lucro ainda mais absurdo à oligarquia do transporte; iniciamos uma vigília e reivindicação mais incisivas e presentes na sociedade em relação à abertura dos obscuros contratos e planilhas da prefeitura e BHTrans com as empresas de transporte; fortalecemos a pauta do passe-livre estudantil e inicializamos o debate sobre tarifa zero na capital. Desocupamos, então, o legislativo, com conquistas importantes e históricas para a cidade, em um domingo que concentrou milhares de pessoas numa atividade cultural politizada que ocupou a região do Viaduto Santa Tereza.O avanço na pauta do transporte e mobilidade urbana aqueceu mais ainda a militância e as expectativas dos movimentos sociais e da luta de BH num modo geral. Foi preciso apenas um mês após a Ocupação da Câmara para que no dia 29 de julho a Prefeitura de Belo Horizonte fosse ocupada de forma inédita por centenas de pessoas, tanto dentro como fora do prédio. Dandara, Eliana Silva, Camilo Torres, Irmã Dhoroty, Ziláh Spósito, Nara Leão, Cafezal e outras comunidades e ocupações urbanas da cidade, em conjunto com os movimentos sociais, organizações, entidades e coletivos populares, resolveram tomar de assalto mais uma vez a agenda intransigente do prefeito Márcio Lacerda. Bastou dois dias de ocupação da prefeitura, da Av. Afonso Pena e da rua Goiás (onde se localizam as duas entradas/saídas do prédio), para que o prefeito fosse forçado a atender as reivindicações populares.

 

Prefeitura ocupada: ação-direta pela moradia!

 

Nessa pauta referente à moradia e reforma urbana a conquista foi ainda maior: suspensão dos mandatos de despejo das ocupações, criação de uma comissão para tratar desse assunto com membros das ocupações, prefeitura, técnicos e outros órgãos, além de reconhecimento das ocupações como áreas especiais de interesse social, o que abre caminho para a regularização das comunidades. A desocupação da prefeitura de uma das maiores cidades do país, quando as companheiras e companheiros que passaram a noite no prédio com fome, sede, frio, sob ameaça da Tropa de Choque e da Guarda Municipal foram recebidas/os calorosamente pelas/os que estavam do lado de fora, foi sem dúvidas emocionante e histórica.
Foi definitivamente um mês difícil para as elites dominantes. As oligarquias empresariais da cidade, principalmente a máfia dos transportes e a da especulação imobiliária perderam algumas regalias que há tanto gozavam. O prefeito, que não gosta de pobre, teve que sentar, ouvir e atender reivindicações dessa gente que ele detesta. A Câmara criou uma comissão especial para tratar de estratégias que impeçam novas ocupações. A PM nada pôde fazer, a não ser ouvir calada as palavras de ordem contra a repressão.
Ação-direta para derrubar as injustiças!
 Essas conquistas nos chamam à reflexão acerca do perfil tático e político de luta para a continuidade das jornadas já em curso e as próximas a serem tramadas. A necessidade de se alinhar em pautas específicas e potencializar nossas forças em torno dessa determinada pauta é imprescindível. Por isso que, nas manifestações de junho, quando a mídia despejou pautas vazias e gritos despolitizados nas mobilizações, não obtivemos avanços e vitórias satisfatórias como obtivemos no mês posterior, com uma mobilização bem menor em termos quantitativos. A pauta que deu início às manifestações de junho, que era de transporte, se esvaiu e perdemos a barganha política poderosíssima que tínhamos em mãos para alcançarmos êxitos e vitórias maiores ainda das que alcançamos nesse mês de julho. 100 mil pessoas nas ruas pela tarifa zero é definitivamente um terror, um pesadelo para as elites que dirigem a economia e o Estado, ainda mais 100 mil pessoas em atos radicalizados como foram os que se passaram.
Outro ponto importante a ser ressaltado é a necessidade de ação-direta para as conquistas de nossas bandeiras. Os atos do dia 11 de julho evidenciaram a queda vertiginosa, ano após ano, da representatividade dos sindicatos oficiais, pelegos e governistas e sua nula possibilidade de transformação social a partir da luta política, o que na realidade já se mostra bem claro há algum tempo. Isso se dá justamente por suas alianças com o patronal e o Estado e sua direção aparelhada por partidos eleitoreiros e governistas. O modelo de sindicato vigente já deixou pra trás há tempos o seu perfil reformista para se estabelecer como uma estrutura reacionária, a serviço dos interesses empresariais e do governo. E não só os sindicatos: muitos movimentos sociais seguiram e seguem esse rumo. Nesse sentido, reforça-se a necessidade de fortalecer os espaços, movimentos sociais e novas articulações sindicais que se organizam de modo autônomo, radicalizado e combativo em relação aos nossos inimigos de classe, distantes dos oficiais, oportunistas e capitalistas.
A ação-direta é o oprimido em confronto direto com seu opressor, no sentido político, econômico ou moral, sem intermédio de instituições ou entidades autoritárias, aparelhadas ou meramente reformistas. É a reação ao ataque do capital e do Estado por parte exclusiva do atacado. É a ação-direta, portanto, que deve ser a ferramenta permanente de luta da classe dos oprimidos para arrancar suas conquistas das rédeas capitalistas de nossos opressores. É na ação-direta, na solidariedade de classe no enfrentamento político sem amarras e oportunismo que temos condições de caminharmos em frente no nosso caminho de lutas, criando um povo forte rumo à revolução social.Desse modo, saudamos nossa garra, nosso suor, nossa dedicação e determinação nesse mês vitorioso de julho e reforçamos a necessidade de continuarmos a todo vapor em nossa luta pela via autônoma e combativa. Enfrentamento, disposição e ação-direta são palavras de ordem necessárias para as nossas próximas conquistas.
Poder!
Poder para o povo!
E o poder do povo vai fazer um mundo novo!

[OASL] Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.

Related Link: http://www.anarquismosp.org*

Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil
category brazil/guyana/suriname/fguiana | a esquerda | entrevista author Tuesday June 25, 2013 01:46author by Organização Anarquista Socialismo Libertário – OASL Report this post to the editors

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

logo1.jpg

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.
Related Link: http://www.anarquismosp.org