Arquivo da tag: mpl

[OASL] Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.

Related Link: http://www.anarquismosp.org*

Entrevista com a OASL sobre as mobilizações no Brasil
category brazil/guyana/suriname/fguiana | a esquerda | entrevista author Tuesday June 25, 2013 01:46author by Organização Anarquista Socialismo Libertário – OASL Report this post to the editors

A militância da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL) tem participado das lutas contra o aumento das tarifas em São Paulo, tanto na capital, como em cidades como Mogi das Cruzes, Marília e Franca, no crescente movimento que tomou conta do país. A militância de outras organizações ligadas à Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) tem, em outros estados, também ajudado a construir as lutas. Abaixo, dois militantes da OASL, Pablo Pamplona e Thiago Calixto*, que vêm participando das lutas, respondem algumas questões sobre o recente processo de mobilização no país. A OASL é membro do Anarkismo.net.

logo1.jpg

Jonathan Bane (JB): Como as mobilizações começaram e ganharam força? Como elas estão sendo organizadas e por quem?

OASL: Nos últimos meses, aconteceram muitas lutas significativas, como a greve dos professores do Estado de São Paulo, que ocorreu poucas semanas antes e também mobilizou milhares de pessoas em várias manifestações, mas que foi cooptada pela direção do sindicato. Outra luta relevante tem sido a dos estudantes e funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP) que está há mais de dois meses em greve, em algumas unidades com ocupação e com um corte de estradas em Marília, e tem lutado por bandeiras importantes como permanência estudantil, isonomia em relação às outras universidades públicas, por uma política de cotas sociais e raciais e contra o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP). A militância da OASL tem ajudado a construir essas lutas.

Por outro lado vemos outras mobilizações relevantes, em nível comunitário, sindical, agrário e estudantil, que têm ajudado a influenciar o estado de ânimo da população, como o apoio a trabalhadores despejados de suas casas em decorrência da especulação imobiliária e da preparação para os mega eventos, como no caso de Pinheirinho e Favela do Moinho, entre muitos outros. Os movimentos populares que estão articulando esses movimentos certamente têm ajudado a impulsionar a população às ruas.

As lutas contra o aumento da passagem vêm sendo organizadas majoritariamente pelo Movimento Passe Livre (MPL), que organiza e convoca lutas em torno da questão do transporte desde 2006. O movimento – com o qual temos grande afinidade e proximidade – conserva um caráter autônomo e combativo. Constrói suas lutas com independência e prima pela participação generalizada e horizontal. Não leva carros de som às ruas, os pronunciamentos são sempre passados em forma de jogral (alguém grita os informes e as pessoas ao redor repetem as mesmas palavras, para que um número maior de pessoas possa ouvir) e a passividade dos manifestantes nunca é estimulada; ao contrário, a participação e ação amplas são sempre incentivadas. Esse caráter, bastante característico nas lutas contra o aumento, tem conquistado um forte respaldo da população, que, ao nosso ver, está cansada das mobilizações no modelo tradicional da esquerda, em torno de palanques e discursos desgastados. A desobediência civil e ação direta, assim como o trabalho de base, têm sido constantemente praticados pelo movimento. Ao mesmo tempo, deve ser motivo de preocupação o fato de a oposição aos partidos ter sido, em grande medida, apropriada por um setor conservador e nacionalista, algumas vezes estimulada pela extrema-direita e ter se estendido à esquerda como um todo, incluindo os movimentos sociais e sindicatos. A grande mídia também tem contribuído para esse avanço das forças conservadoras e para o enfraquecimento das pautas relacionadas ao transporte.

JB: Protestos contra aumentos nas tarifas são bastante comuns no Brasil. Como é que o que está acontecendo em São Paulo difere de protestos passados?

OASL: Quando terminaram as mobilizações contra o último aumento da tarifa, em 2011, o MPL discutiu a ampliação de sua discussão. Fez uma avaliação de que se deveria seguir com a luta em outro nível de discussão e levantou uma campanha pela Tarifa Zero. O movimento levou a discussão do transporte público a uma questão política, de gestão pública de recursos e direito à cidade, defendendo que um transporte público de verdade, assim como outros direitos como saúde e educação, não deveria ser tarifado, mas garantido pelo poder público e pago com impostos graduais: quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, que não tem não paga. Com essa nova campanha, o movimento pôde sustentar, por dois anos, a discussão política interna e um trabalho externo de base em escolas e comunidades que, a nosso ver, foi muito positivo. Acreditamos que esse isso contribuiu para qualificar os militantes para a construção de uma nova jornada de lutas, maior e mais ousada, como ela de fato foi, desde antes mesmo do primeiro grande ato. Só não era esperado que a mobilização fosse crescer tanto e, em grande medida, escapar completamente àquilo que havia sido planejado.

Outro fator que pode ter contribuído é que, depois de oito anos e pela primeira vez nas lutas contra o aumento em São Paulo, temos um prefeito do Partido dos Trabalhadores (PT). A luta também interessou a fortes setores conservadores mais à direita, que vêm tentando desgastar a imagem do novo prefeito e, com isso, a do governo federal. Um elemento fundamental foi a posição da imprensa que, no início, colocou-se contra o movimento. Conforme as mobilizações cresciam, assim como o apoio popular – somados à enorme repressão que atingiu parte significativa dos repórteres dos grandes veículos – a imprensa foi mudando sua posição e passando a defender o movimento. Preferiu, entretanto, promover suas próprias pautas e incentivar o pacifismo, o civismo, o nacionalismo, criminalizando setores mais radicalizados. Finalmente, podemos identificar que a tecnologia em geral (câmeras em celulares, por exemplo), com destaque para a internet, permitiram a divulgação do que se passava nos protestos e que isso fosse potencializado pelas redes sociais. Essa variável também possui relevância.

JB: Qual tem sido o papel das redes sociais nas mobilizações?

OASL: Nada disso seria possível sem a construção de anos de luta do movimento, ou sem esse sentimento de revolta contra a repressão do Estado. No entanto, as redes sociais também têm um papel fundamental, como colocamos. O Facebook é uma ferramenta importante para o MPL, e seu principal ponto de referência. A convocação dos atos foi feita por “eventos”, notas públicas têm sido lançadas dando esclarecimentos sobre a luta e, principalmente, é por ele que os veículos de comunicação de massa são desmentidos.

A primeira manifestação teve cerca de 5 mil pessoas, e já teve acompanhamento ao vivo do Jornal Nacional, o principal jornal televisivo do país. O mesmo se seguiu pelos atos seguintes: a grande mídia continuou falando da luta (antes mesmo da redução da tarifa, ela já era capa de muitos dos principais jornais e revistas do país). Inicialmente, os manifestantes foram taxados de vândalos, jovens sem causa e outras posições que tentavam deslegitimar o movimento. Então todo o país falava das manifestações, o que foi fundamental, e pelas redes sociais compartilhava vídeos e informações que mostram outra versão da história.

A repressão, ao contrário de levar ao medo, incentivou a revolta da população, e, em São Paulo, o governo suspendeu as repressões mais massivas com a Tropa de Choque. Os manifestantes, muito influenciados pela grande mídia, passaram a condenar quaisquer atos de violência e o “pacifismo” se converteu em um dos grandes sensos comuns dos protestos.

Na nossa avaliação, os recentes fatos confirmam o que os anarquistas defendem desde sempre: não basta levar o povo às ruas; é preciso que o povo conquiste o poder, de baixo para cima, pelo seu próprio ritmo e organização, não por meio da tomada do Estado, mas pela construção de organismos participativos e populares. Para isso, o trabalho de base é imprescindível. Se não há uma preparação prévia, a discussão política é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estiverem mais organizados. No caso atual, os grandes capitalistas e o Estado. Grande parte da população que está nas ruas não tem acúmulo em discussões políticas e apenas reproduz o que vê há muito tempo através das lentes da ideologia dominante. Foi condicionada a converter a pauta a temas que interessam à direita, como o “orgulho de ser brasileiro”, “menos impostos”, “menos impunidade” etc.

As redes sociais não são boas por si só e não substituem, de forma alguma, a importância e necessidade da organização popular e trabalho de base permanente. Isso deveria ser lembrado por toda a esquerda. No entanto, como forma de propaganda, elas têm sido fundamentais para que muitas pessoas soubessem da luta e dos agendamentos das manifestações.

JB: As mobilizações são apenas pelo aumento da tarifa de ônibus ou existem questões sociais mais profundas que estão sendo levantadas? Se sim, quais são elas e por quê?

OASL: O MPL defende que qualquer tarifa de ônibus é um roubo, já que é um serviço público e, como tal, deve ser gratuito. O movimento entende que a questão da mobilidade urbana está diretamente relacionada a outros direitos básicos, como por exemplo, saúde, educação e cultura. Além de defender que o direito de ir e vir não se restringe a ir e voltar do trabalho. O direito à cidade, de qualquer cidadão poder usufruir das coisas que a cidade oferece, é então uma pauta central e muito profunda. A descriminalização dos movimentos sociais também é uma pauta importante que deve ganhar força com a chegada da Copa do Mundo.

Mas de qualquer forma o MPL sustentava, antes da revogação dos aumentos, e nós compartilhamos dessa análise, que a pauta da luta deveria continuar sendo a redução imediata da tarifa. Tínhamos receio de que uma luta por tudo terminasse como conquista de nada. Por isso apoiamos o foco na redução da tarifa. A partir do momento que a redução fosse conquistada, a luta poderia avançar para os próximos passos e, pelo acúmulo de conquistas de curto e médio prazo, o movimento poderia se fortalecer cada vez mais. Esse ponto de vista era compartilhado por praticamente toda a esquerda.

Entretanto, com a conquista da redução, outras pautas vêm sendo colocadas. Algumas pela esquerda, como a necessidade da tarifa zero, o fim da repressão aos movimentos sociais, o avanço nas lutas por direitos etc. Outras pela direita mais conservadora, ou mesmo por grande parte do senso comum que permeia muitas pessoas que estão nas ruas. O tamanho das mobilizações levou a população ao otimismo de pensar que “o Brasil está mudando” e à vontade de exigir tudo que lhe vem à mente. A nosso ver, é importante que nosso setor, que busca construir lutas populares autônomas e combativas, retome essa continuidade das pautas.

JB: Que tipo de dados demográficos estão envolvidos nos protestos? Eles são em sua maioria jovens e ativistas ou os protestos têm assumido um caráter mais popular?

OASL: Nos últimos dias as lutas conquistaram um público mais plural. Nas regiões centrais da cidade temos notado um conjunto de forças composto mais ou menos da seguinte maneira. Um setor mais autônomo e combativo, ligado ao MPL, que tem força e encabeçou o início das mobilizações. Um setor mais tradicional da esquerda, com partidos e movimentos, que tiveram participação significativa desde o início dos protestos. Um setor majoritário de novas pessoas que têm saído às ruas (pesquisas tem mostrado que a maioria das pessoas nunca havia ido às ruas), e que reproduz muito do senso comum; são em grande parte conservadores e sustentam pautas ligadas à agenda conservadora. Dessa ala vem o repúdio aos partidos políticos que acabou se convertendo em repúdio a toda a esquerda. Finalmente, há um setor, certamente o minoritário, que reúne a extrema-direita, em alguns casos articuladas a setores militares, do grande capital e latifundiários. A questão que ainda não está clara é qual a capacidade dessas novas pessoas que são majoritárias aderirem às propostas de luta classistas e combativas, ainda que independente de partidos políticos e do Estado.

Em termos de classe, as mobilizações da região central da cidade são compostas, na maioria, por quem está ou esteve no ensino superior. Entretanto, é possível notar uma participação de trabalhadores e moradores da periferia; a maioria fora da esquerda organizada. Nas periferias, os movimentos sociais têm realizado mobilizações muito importantes, de caráter marcadamente popular e com posições mais à esquerda. Talvez a continuidade dos protestos deva ser procurada nessas iniciativas, para aqueles que de fato desejam construir alternativas de poder popular.

Em termos de números, o país chegou a mobilizar mais de um milhão de pessoas (0,5% da população); em São Paulo, chegamos a algumas centenas de milhares em alguns dias.

JB: Como é que a população em geral reagiu aos protestos? Tanto para o uso excessivo da força pela polícia e as acusações de vandalismo?

OASL: Há uma divisão muito grande na reação geral. Nas primeiras manifestações tínhamos o seguinte quadro: havia aqueles que denunciavam os manifestantes como vândalos aproveitadores, mas até então não era uma posição majoritária. Havia aqueles que defendiam que as manifestações fossem pacíficas, e aqueles que acusavam a violência do Estado. Porém, dada a generalizada manipulação da mídia e a falta de preparo da esquerda em responder às acusações, temos hoje um grande número de pessoas que acusam qualquer ação direta mais radical de vandalismo. Está se tentando separar os manifestantes pacíficos dos violentos e, infelizmente, em alguns casos, o governo tem tentado colocar a conta dos atos de violência na conta dos anarquistas. Esse foi o caso no Rio Grande do Sul, com a invasão da sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) pela polícia e a tentativa de responsabilizá-la não só pelos atos de vandalismo, mas pelo cúmulo de apoio às iniciativas da direita. Isso é realmente um absurdo.

Antes de tudo, a violência é propagada diariamente pelo sistema em que vivemos. Violência é utilizar diariamente o sistema de transporte precário que temos, violência é morrer nas filas de hospitais públicos, violência é a educação de nossas escolas públicas, violência é a exploração que sofremos diariamente quando trabalhamos. Isso tem que ficar claro. O capitalismo é um sistema pautado na violência. Somos violentados todos os dias. E quando o povo reclama, se mobiliza, é novamente violentado pelo Estado, como têm sido os casos de repressão em todo o país. A violência das manifestações são respostas para essa situação a que a população é submetida todos os dias.

Ainda assim, devemos lembrar que as últimas manifestações em São Paulo mostraram casos de violência entre os próprios manifestantes, estimulado por setores da extrema-direita e protagonizado pelos novos e conservadores que estão nas ruas. Violência contra militantes de partidos, movimentos sociais e toda a esquerda organizada. E não se tratava de um rechaço pela esquerda, mas pela direita, em discursos e atitudes fascistóides. Muitos dos defensores da não-violência aderiram a isso, fato que a mídia praticamente não abordou.

JB: Há também protestos contra o aumento das tarifas no Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades. Qual é o caráter social desses protestos? Eles são semelhantes a São Paulo?

OASL: Não é possível dizer que o caráter social é o mesmo. Pelo menos em nossa impressão, esse setor conservador é maior em São Paulo do que no resto do país. Entretanto, outras cidades têm estado amplamente mobilizadas e nisso há similaridade. O país está bastante mobilizado de maneira geral.

Sobre o MPL, o que podemos dizer é que um de seus princípios é o federalismo, e que há cidades e estados onde o movimento existe organicamente. Sua articulação em diversos estados e mesmo a construção de blocos de luta contra o aumento tem contribuído com essa construção à esquerda, independente e combativa do movimento.

Acreditamos que as conquistas anteriores, que incluem Porto Alegre, e as conquistas de São Paulo e Rio de Janeiro – para não falar de outras regiões – têm contribuído com o aumento das mobilizações.

JB: O Brasil está atualmente sediando a Copa das Confederações. No ano que vem ele vai sediar a Copa do Mundo da FIFA e em 2016 o Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos. Qual tem sido o impacto social por sediar esses mega eventos?

OASL: Em depoimento nas redes de televisão pública, a presidente Dilma Rousseff garantiu que “o Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, e que apóia manifestações pacíficas, mas não vai “transigir com a violência e a arruaça”. Também surgem novas leis contra o “terrorismo”, facilitando a criminalização de movimentos sociais e da ação direta, e garantindo a proteção dos capitalistas e seus crimes.

É evidente que esses megaeventos têm trazido impactos sociais no sentido contrário a tudo o que poderia ser popular. Politicamente, fortalece figuras do poder e suas imagens e, deliberativamente, sua união ocorre com grandes empresários e especuladores. Após a confirmação absoluta desses eventos, a sistematização nos processos de higienização social ganhou força de vários setores conservadores e reacionários. Construtoras têm lucrado como nunca devido à intensa especulação no setor imobiliário, e essas mesmas construtoras foram responsáveis por financiamentos de partidos das alas liberais. Sabemos que favelas têm sido incendiadas de forma criminosa, com o claro objetivo de limpar a imagem das cidades para os turistas.

Em São Paulo, usuários de drogas têm sofrido repressão da polícia a mando do governo, que inclusive vem internando essas pessoas de forma compulsória. No Rio de Janeiro, um processo que a polícia, com apoio da mídia, tem chamado de “pacificação”. Ela serve de argumento para a instalação da polícia nas favelas e para prosseguir com a higienização e os assassinatos. Toda a mídia, juntamente com a burguesia e inclusive os militares, usa desses subterfúgios para retomar e propagar um sentimento ultranacionalista perdido depois dos períodos de ditadura militar.

JB: Os protestos atuais são de alguma forma relacionados a estes megaeventos?

OASL: O estopim foram os aumentos das tarifas de ônibus, metrô e trens. No entanto, junto às muitas pautas que surgiram, à esquerda e à direita, a questão da Copa tem sido relevante. As pessoas têm questionado o investimento público nesses megaeventos enquanto o país precisa de investimentos em muitas outras áreas como educação, saúde, transporte etc. Isso certamente tem contribuído com as manifestações.

O MPL tem apoiado desde o início o movimento Copa Para Quem?, que levanta essas questões, e está junto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que também pauta os reflexos que a Copa tem ocasionado na periferia pelas questões de moradia e especulação imobiliária.

JB: A revolta popular na Turquia teve alguma influência sobre o que está acontecendo atualmente em São Paulo e em outras cidades? E a Primavera Árabe?

OASL: Essas revoltas sempre nos levantam ao espírito do possível. Ver outros povos se levantando faz com que trabalhadores e trabalhadoras questionem por que não estão indo às ruas e reivindicando seus direitos, os lembra de tudo o que é preciso conquistar.

Mas dois anos atrás, na última jornada de lutas contra o aumento da tarifa, nós já víamos outros países se levantando e não houve uma adesão que chegasse minimamente perto do que vemos hoje. Pode haver uma forte influência no campo do inconsciente ou simbólico, especialmente para os militantes e ativistas, mas muito pouco pode ser dito sobre a grande massa nas ruas.

JB: Há algo que as pessoas fora do Brasil podem fazer para apoiar a luta aí?

OASL: Pautar essas manifestações e demonstrar solidariedade pública em manifestações organizadas em seus países e declarações de apoio. Divulgar e propagar sempre é algo que contribui.

Outra coisa importante é dar apoio à luta contra a repressão que os anarquistas têm sofrido em outras partes do país, em especial ao caso da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), e às outras lutas em curso como a dos estudantes e funcionários da UNESP, além de várias outras lutas dos movimentos populares brasileiros.

JB: Vocês gostariam de adicionar alguma coisa?

OASL: Achamos importante ressaltar a importância de um trabalho de base organizado e continuado. A imagem de centenas de milhares de pessoas ocupando as ruas espontaneamente levantaram novos ares otimistas, da possibilidade de mudança concreta fora das urnas. Pelo imaginário social, a ocupação das ruas tornou-se o novo campo do fazer político. Mas, graças à distorção dos fatos, tornou-se também o único campo. A direita tenta construir o imaginário de que toda organização política é inerentemente oportunista e corrupta, enquanto o trabalho de base é supostamente desnecessário, já que, como cantavam os manifestantes, “o povo acordou” (e quando é que esteve dormindo?).

As ruas são uma ferramenta fundamental para tornar a luta pública, mas não é nela que o debate público e a formação política serão completamente feitos. É pela luta diária, nos movimentos sociais, estudantis, sindicatos, comunidades, que o povo constrói o poder necessário para a conquista de sua emancipação. O que vemos hoje é que, se por um lado a esquerda tem potencial para mobilizar, algumas de suas formas estão muito desgastadas. É necessário, a nosso ver, dar ênfase no trabalho de base e adotar uma estratégia que contribua com esse projeto emancipador. A nosso ver, nas mobilizações, nos movimentos populares, estimulando o classismo, a combatividade, a independência, a participação democrática; em suma, tratando de construir poder popular. Não devemos deixar de lado a luta simbólica.

O ponto fundamental é que esse potencial deve ser convertido em força social que contribua com nosso projeto de uma nova sociedade; e isso não se dá por vias do Estado ou acordos com capitalistas. O povo precisa de uma alternativa própria. Se não houver organização popular, as lutas continuarão a ser perdidas. Como anarquistas, sustentamos que essa organização estará melhor preparada se for construída de baixo para cima, com uma base forte e capaz de levar a luta aos caminhos que interessa a ela como classe.

Vivemos um momento histórico, de uma reviravolta no estado de ânimo da população. Tivemos um imenso avanço quantitativo para a luta e, se desejamos avançar ainda mais, precisaremos focar no trabalho de base, por onde poderemos, com a luta diária, aprender com nossos erros e acertos.

Avante na construção do poder popular! Arriba los que luchan!

* Pablo Pamplona e Thiago Calixto são militantes da Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, e têm contribuído na luta contra o aumento ao lado do Movimento Passe Livre.
Related Link: http://www.anarquismosp.org

[CABN] Coquetel molotov e o desmoramento do Estado: as classes oprimidas sofrendo suas consequências

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/?p=832

“A tortura não era um método para arrancar informações, mas uma cerimônia de confirmação do poder”
Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços

As manchetes anunciam a todo instante, para fora de Santa Catarina, o que acontece desde outubro de 2012, quando a agente prisional Deise Fernanda de Melo foi assassinada em São Pedro de Alcântara, município da Grande Florianópolis. Deise era casada com Carlos Antônio Alves, diretor da Penitenciária de Segurança Máxima. Alertando sinais vindos de organizações criminosas de São Paulo que, no mesmo período, deixaram 20 mortes em menos de 24 horas, tais ligações, entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), não são reais como se afirmava.

Ao contrário do que se pensa, no final de 2012, as ações feitas pelo PGC, facção que tem origem no maior complexo de pessoas em reclusão do sul do estado, o Presídio Santa Augusta, em Criciúma, onde acontece o primeiro ataque reivindicado pela Facção PGC, assumem uma coordenação a nível estadual, ainda dentro do sistema carcerário de SC. Uma facção criada para se opor ao PCC, rival que teria membros dentro dos presídios catarinenses, o PGC, nas paredes internas da penitenciária de São Pedro de Alcântara, decide responder aos ataques da polícia e principalmente chamar a atenção para a denúncia de tortura por parte de agentes penitenciários e tropa de choque, ações que permaneciam invisibilizadas para a maior parte da população catarinense.

É nesse contexto que a população é bombardeada pelas imagens de dezenas de ônibus incendiados e ataques contra os órgãos de segurança pública. Até o momento, 98 ataques foram realizados em 30 cidades. Enquanto isso, o governador Raimundo Colombo (PSD), na tentativa de dar uma explicação para a crise na segurança para a mídia burguesa que passou a cobrá-lo, esquivou-se se posicionando alheio, deixando entender que tinha controle sobre a situação. Para o governo, eram fatos isolados os ataques que geraram o caos que até agora vivenciamos. Pelo contrário, o caos permanece nas ruas.

Trabalhadores(as) são induzidos para o recolhimento em suas residências ao cair da noite. As madrugadas são cortadas com sons de sirenes de viaturas policiais, a classe trabalhadora é abordada por policiais militares que cumprem o seu papel de opressão no Estado. Na capital Florianópolis instituiu-se um estado de sítio permanente entre as ligações Ilha-Continente e transeuntes são abordados sem a mínima precaução, principalmente nas periferias e nos morros da cidade. O COP (Central de Operações Policiais – Captura) de Florianópolis está à frente das subidas nas encostas mais pobres (nas zonas mais ricas não houve patrulhamento), como o Maciço do Morro da Cruz, que possui 16 comunidades em torno do Centro da cidade.

Entre a polarização da violência naturalizada pelo crime organizado e a repressão do Estado, uma guerra civil camuflada gera vítimas. Em Joinville, além das abordagens policiais à classe trabalhadora, houve o assassinato do trabalhador Jean Oliveira, 22 anos, com um tiro no olho após não parar numa blitz. À mãe Sueli Messias Onofre fica a perda do filho pelas mãos da força de opressão do Estado. Enquanto isso, no transporte coletivo privado, policiais militares armados estão dentro dos ônibus para fazer a “segurança” do patrimônio privado das empresas.

No entanto, apesar de todo bombardeamento sensacionalista que se promove, poucas são as análises conjunturais que explicam o contexto de uma crise para além dos presídios em SC. Na mesma linha que, tradicionalmente converge a “opinião pública” catarinense, ou seja, na defesa da guerra contra a “impunidade” – vimos repetidamente na época do Movimento Passe Livre contra os estudantes, nas greves dos trabalhadores(as) do transporte público, da saúde e da educação – agora a elite formadora de opinião, mais raivosa que nunca, grita a todo vapor por “morte à pobreza e ao crime”. Como uma hidra que assume diferentes formas, o problema social permanece o mesmo. Atacam as conseqüências no intuito de ocultar as causas, pois a origem desse problema, que é social, tem nome.

No cenário de torturas, violências sistemáticas aos homens e mulheres em condição de cárcere, o Centro de Direitos Humanos “Maria da Graça Bráz”, de Joinville (SC), ao lado de outras entidades de direitos humanos, relatava por diferentes meios de comunicação as condições desumanas que o sistema carcerário estava organizado. Inclusive o CDH alertava a possibilidade da conjuntura prisional explodir nas ruas de Joinville, fato que a realidade presente demonstra verossímil, inclusive para outras 25 cidades catarinenses. Parte da opinião pública catarinense acordou para a violência no sistema carcerário catarinense após as divulgações de denúncias e imagens de tortura que vazaram para a TV e redes sociais dentro dos presídios à Comissão de Direitos Humanos da OAB (SC). Para um dos juízes corregedores das varas de execuções penais, o sistema penitenciário é ultrapassado e amador, sem falar que as falhas estruturais estão em ruínas – uma cultura que alimenta maus tratos, falta de atendimento médico, falta de água, luz e direitos.

Na contradição do sistema capitalista não há vencedores.

O resultado disso são respostas ineficientes do Estado, que tenta intimidar e controlar os ataques contra si, mas que é incapaz de reconhecer que a origem está na sua própria cadeia reprodutiva de violência. Interesses privados e a omissão dos governos sistematizam a falência de um aparelho democrático. Um Estado que é conivente e reage com mais violência, num ciclo incessante, perpetua a iniqüidade e a impunidade, como vemos nos casos de abusos, torturas e extermínio.

O estado de Santa Catarina, estagnado economicamente, vem enfrentando suas piores crises da história, entre o governo anterior de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e Raimundo Colombo (PSD), as greves na Educação, na Saúde e agora o estouro na Segurança apenas atentam para as incompetentes administrações dos governos oligárquicos e empresariais. O governador Raimundo Colombo, no dia 06 de fevereiro, foi a Brasília solicitar auxílio do Governo Federal, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, colocou à disposição 300 vagas em presídios federais para possível transferência além de disponibilizar a Força Nacional de Segurança, que deve chegar na próxima sexta-feira (15/02).

Analisamos que, da forma como se dá o tratamento para as questões de ordem prioritárias, a única preocupação está em segregar os centros urbanos (através das faxinas sociais e remoção de comunidades) para alimentar a onda dos investimentos turísticos e da especulação imobiliária.

Quanto mais violência de grupos relacionados ao tráfico, maior será a repressão contra a população, visto que o Estado em nada tende a lutar a favor dos trabalhadores(as) que já sofrem diretamente das ações por parte do sistema capitalista e do braço armado do Estado oficial e paralelo. Neste governo desmoralizado, assistimos as repressões contra os trabalhadores(as) nas greves, a criminalização dos movimentos sociais e o fechamento de escolas estaduais. Enquanto na cúpula da segurança pública revelam-se os novos “heróis” em defesa do povo, a ação da polícia desmascara a institucionalização governamental da incompetência e corrupção. O governador se defende ao dizer que a onda de violência que foi gerada deve-se à ação de seu governo na guerra contra o tráfico.

Nesse discurso do bem contra o mal, crime organizado x Estado, as maiores vítimas são as classes oprimidas, o povo que não tem o básico, não pode esperar pelos milagres dos governos que não o representa. Em face destes acontecimentos, as empresas do transporte coletivo de algumas cidades, já deram o alerta que irão pressionar o governo para que os prejuízos causados pelos ataques sejam reconstituídos por meio de tarifas ainda mais caras, como já sinaliza Florianópolis, Criciúma e Joinville.

Entendemos que a violência urbana, e em especial a crise da segurança pública em SC, chegou a níveis dramáticos, com incursões em favelas, toques de recolher, abusos de poder e tortura. O governador mente quando fala da verdadeira crise, ocultando e se escondendo por trás de seus assessores de imprensa, só vem a demonstrar sua incapacidade em reconhecer que o problema que o estado enfrenta, é, antes de tudo, fruto da desigualdade social e da dominação do Estado.

No modelo capitalista, o crescimento do tráfico e do crime organizado, junto com o processo de urbanização acelerada das cidades em Santa Catarina, reflete a exclusão social. As questões da moradia, violência urbana e da falta de empregos, originando novas favelas e centros de exclusão nas cidades estão intimamente ligadas. Com a falta de renda e condições mínimas, o acesso aos serviços básicos é precarizado pelo Estado, o que também é uma forma de violência e de injustiça social.

Nesse sentido, vemos elites ligadas à segurança e uma população ligada à insegurança. O tráfico crescente em Florianópolis demonstra que o mapa da exclusão está vinculado à apropriação privada dos espaços coletivos urbanos, onde visivelmente ficam explícitas as diferenças sociais e territoriais. O problema de moradia nas cidades catarinenses, com pequenas ocupações de sem-teto e inúmeras favelas, sem um planejamento urbano e habitacional, favorece a lógica da informalidade e, conseqüentemente, a criminalidade e precariedade. O Estado, formador e gerador de violência social e política, é o principal culpado.

Deixamos nosso repúdio à atual administração do governo Colombo (PSD) e demais partidários deste sistema que, no nosso entendimento, só gera mais violência, deixando um grito e um alerta à população. Não somos de partidos de oposição, somos do povo! Chega de sistemas que produzem e disseminam violência!

CONTRA AS TORTURAS!
CONTRA A IMPUNIDADE!
CONTRA A FALTA DE MORADIA, SAÚDE E EDUCAÇÃO!
PELA CASSAÇÃO DOS CULPADOS!
POR TRANSPORTE GRATUITO E JUSTIÇA SOCIAL!

Coletivo Anarquista Bandeira Negra

Fevereiro de 2013