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[FAG] Elementos da conjuntura eleitoral de 2014 – Opinião Anarquista da FAG

Retirado de: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=541

Estamos às vésperas das eleições que definirão os novos governos de turno, a nível estadual e nacional. Governos que independente dos programadas defendidos, jogarão conforme as regras e no marco da lógica do sistema de dominação capitalista na sua atual etapa, a do capitalismo financeiro. Enquanto anarquistas, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Enquanto lutadores sociais entendemos que uma análise cirúrgica da conjuntura eleitoral é necessário e possibilita definir quais são os fatores de peso na formação do atual cenário.

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Junho de 2013, a disputa de seus significados e alguns elementos da conjuntura nacional

É própria do atual cenário eleitoral a disputa pelos sentidos do que foram as jornadas de luta de 2013 e a tentativa de capturar os vetores ideológicos forjados e legados por essa experiência, de mobilização nas ruas por milhões de pessoas, assim como aquela das lutas no contexto da copa do mundo. São poucas as siglas que reivindicam as jornadas de protesto do ano passado, seja para mostrá-las como exemplo de um massivo descontentamento com relação ao período de governo petista, seja para citá-las como um sinal de que esse descontentamento, apesar de todas as “conquistas” dos governos PT, é contra o atual sistema político que se colocou como um entrave para o encaminhamento positivo da agenda de reivindicações das jornadas.

É nesse sentido que o plebiscito popular para uma nova constituinte foi o grande “chamariz” do PT e de seus aliados. No entanto, na atual conjuntura, tal mecanismo visa apropriar-se da forças das ruas e desaguá-la na institucionalidade, garantindo a conciliação de classes, contendo e mediando o conflito para definir a correlação de forças nos fóruns de disputa política formais. Para nós, esse fato por si só já representa uma derrota política para os de baixo, pois não aponta e nem constrói uma alternativa para além das eleições e do Estado enquanto espaço privilegiado da política.

Contudo, o que temos visto é que predominam disposições gerais de desconfiança e até de rechaço às instituições políticas, por um lado, e, por outro, uma impotência da tática de denúncia e do discurso “esclarecido e racionalista” frente ao poder simbólico das regras do jogo institucional utilizado pelos setores da esquerda que participam nas eleições. Poder simbólico que não deixa perceber nuances programáticas, apostas estratégicas distintas, ideologias de mudança ou de conservação.

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Em que pese nem tudo seja igual, está ausente um projeto político de caráter reformista, com adesão eleitoral, que incida sobre as estruturas de poder da formação brasileira. Se há uma luta da oposição burguesa mais conservadora para quebrar o modelo de gestão neo-desenvolvimentista, que passa pela desestruturação dos instrumentos de Estado para a política econômica, autonomia do Banco Central, metas de inflação – ampliando os controles de mercado – esta não pode ser entendida como o simples ataque a mudanças de fundo realizadas por um pretenso projeto de esquerda que se quer derrotar.

Nesse sentido, a polarização dos candidatos (PT, PSB e PSDB) representa, na verdade, variações administrativas no marco do Estado já que ambos os projetos não fogem dos ajustes exigidos pelas relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro.

No RS, dois projetos em jogo?

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No RS, temos visto uma maior polarização em torno das candidaturas de Tarso Genro/PT e Ana Amélia Lemos/PP. Concorrem, dentro das regras do jogo, dois modelos que se representam como mais “puros”, suscitando um imaginário do tipo plebiscitário: se está com o PT ou com o PP. Uma cultura política que desde a nova republica não reelege governadores também é um fator de peso na conjuntura estadual.

Entretanto, é preciso que deixemos de lado esse pensamento binário e enxerguemos elementos que nos indicam que ambas as possibilidades (sem falar nas demais) não representam transformações de fundo para os de baixo.

Com relação ao governo Tarso, há uma série de aspectos que acreditamos importante ressaltar com relação a sua administração e que em certa medida arranharam sua imagem:

  1. A repressão aos protestos de 2013/2014 e em particular as perseguições a militantes e organizações de esquerda.
  2. Os reiterados protestos e greves dos trabalhadores da educação da rede estadual pelo pagamento do piso nacional que até hoje não foi atendido.
  3. A paralisação das demarcações de terras indígenas e a intensificação do conflito entre indígenas e pequenos agricultores na região norte do estado que resultou em 2 agricultores mortos e 5 índios presos durante mesa de negociação.992973_10201372598781061_197371978_n

O governo do PT repetiu expedientes que foram consagrados pela “tecnologia da coalizão” exaltada por Tarso Genro. Prevalece em suas práticas de governo um dispositivo de diálogo que procura dissuadir o conflito social, neutralizar nos circuitos da burocracia as pautas de contestação e integrar na gestão auxiliar dos conselhos e gabinetes os movimentos e sindicatos mais dóceis. Do ponto de vista do funcionamento dos aparelhos de repressão se faz distinto o uso mais intenso dos serviços de inteligência e das táticas de dispersão que evitam colisão frontal.

Já em um cenário de governo de Ana Amélia/PP, é impossível não associarmos com a administração da ex-governadora Yeda Crusius/PSDB, ainda que em condições diferentes. O PP (nacionalmente alinhado ao PT) é um partido que tem base forte pelo interior, que representa historicamente as oligarquias rurais e que provavelmente terá relações de força mais favoráveis na barganha que monta a base do legislativo. Trata-se de uma candidatura que conta com a preferência do grupo RBS onde foi funcionária de longa data. Além disso, a truculência com as lutas sociais tende a se intensificar ainda mais. A ascensão da candidata do PP é proporcional as baixas expectativas com reformas sociais e políticas públicas que resultam do “desencanto com o PT”, de uma sensação de ‘menos pior’ que é cada vez mais fraca de sentido.

Entretanto, em que pese em uma conjuntura formas específicas de governar, o Estado do RS tem estruturas do poder que estão fora de causa nestas eleições. Dívida pública que sangra os fundos públicos pra pagar o capital rentista; o poder do agronegócio na economia gaúcha, no desmonte das normas ambientais e sobre a agenda de investimentos em infraestrutura (portos, geradoras de energia) e a guerra fiscal da indústria para se apropriar de recursos do estado (fundopem), são exemplos disso.

Portanto, está fora de questão mudanças de fundo, em que as estruturas mais consistentes do sistema de dominação capitalista sejam colocadas em questão. Apostar no “possível”, nessas circunstâncias, é deixar de construir desde já um processo próprio, um caminho de protagonismo e de organização dos de baixo no marco de um horizonte socialista e libertário.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo

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Chamar a anular sem fazer prioridade ao trabalho de organização popular é pedir o voto como fazem os partidos integrados no sistema. Não é o voto em si, como mecanismo decisório da sociedade, que é o problema, o problema é para qual estrutura de poder ele funciona. É por isso que nós anarquistas da FAG não estamos em campanha pelo voto nulo. Como já dissemos, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Contudo, do ponto de vista militante, entendemos que nessa conjuntura eleitoral e para além dela, precisamos construir laços de luta, de unidade e uma perspectiva programática desde o nosso local de trabalho, moradia e estudo.

O período em que vivemos demanda a articulação de todo o espectro das lutas sociais que confrontam o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa mínimo de soluções populares. Construção de unidade dos de baixo, de baixo para cima e que não se confunde com unidade entre partidos, frentes eleitorais ou candidaturas operárias. Criação de um Povo Forte para impor na cena nacional uma nova correlação de forças e que aponte um projeto de transformação social. Em síntese, política anarquista para além do voto e das eleições burguesas.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo!

Pela construção de uma inter-setorial dos combativos!

Nem direita, nem governismo! Forjar um programa dos de baixo!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG (Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB)

OPINIÃO ANARQUISTA: 2014 é ano de luta! Rumo à conquista de direitos!

Novo Opinião Anarquista do Coletivo Anarquista Luta de Classe sobre este momento histórico no Brasil:

Opinião Anarquista 06 - 01

Opinião Anarquista 06 - 02

Baixe em PDF: Opinião Anarquista 06

2014 é ano de luta! Rumo à conquista de direitos!

 

Copa para os ricos, miséria para o povo.

Com o maior evento realizado no Brasil nos últimos tempos vieram também milhares de famílias sendo despejadas de suas residências; trabalhadores acidentados e mortos na construção dos estádios da Copa; pessoas pobres, moradores de rua, usuários de drogas, prostitutas e travestis sendo retiradas à força dos centros das grandes cidades para dar aspecto de “limpeza e riqueza” para turista ver; ao mesmo tempo em que aumenta o tráfico de mulheres e exploração sexual de crianças no país. Se não bastasse, cresce enormemente a repressão policial e a criminalização dos movimentos sociais que saem às ruas para lutar por seus direitos.

Durante os preparativos para a Copa do Mundo no Brasil mais de 250 mil pessoas foram removidas à força de suas residências. Além da truculência utilizada para as remoções, as famílias despejadas se quer receberam as indenizações devidas. Por outro lado, os grandes empresários do ramo imobiliário e da construção civil lucraram milhões de reais sobre os terrenos onde antes havia comunidades.

Outro dado que chama atenção é o número de operários que morreram trabalhando na construção dos estádios da Copa: foram 9 trabalhadores! Trabalhadores que morreram por acidentes, quedas e descarga elétrica; vítimas da negligência e do desrespeito das empreiteiras e do Estado, que valoriza o lucro extraído do grande evento, em detrimento da condição de vida e de trabalho do povo.

A higienização social nos grandes centros urbanos, cidades turísticas e cidades que sediarão os jogos do mundial também choca. O Estado, de maneira brutal, retira com violência os moradores de rua, os usuários de droga e impedem que prostitutas e travestis continuem trabalhando nas ruas centrais das cidades para esconder as mazelas sociais brasileiras. Maquiar não é resolver!

Em todos os países que sediaram a Copa, há um exorbitante aumento no tráfico de mulheres, crianças e adolescentes principalmente para a exploração sexual. No Brasil isso não está sendo diferente e as principais vítimas são mulheres negras, jovens, com baixa escolaridade, moradoras da periferia que são enganadas com a promessa de melhoria de vida. Enquanto isso, o Estado não tem políticas públicas que se destinam a combater o turismo sexual e a exploração dessas mulheres.

Por outro lado a FIFA lucra mais de 10 bilhões de reais com a Copa no Brasil. Ao mesmo tempo, trabalhadores ambulantes e artistas independentes são impedidos de trabalhar no entorno dos estádios. Legado para o povo?! O povo não tem saúde, não tem educação, não tem transporte público de qualidade. Os trabalhadores não têm sequer dinheiro para comprar o ingresso e assistir aos jogos nos estádios.

Lucro e privilégio para os opressores e falta de condições para os oprimidos

Os serviços públicos estão cada vez mais sucateados e dando lugar à iniciativa privada. Hospitais sendo vendidos, escolas públicas fechadas por falta de condições, tarifas dos transportes coletivos sendo aumentadas todos os anos sem que o serviço melhore de qualidade, falta de concursos públicos; esses são alguns dos problemas que o povo vem sofrendo na pele diariamente.

O Governo PT, atrelado aos interesses dos convênios de saúde e da indústria farmacêutica, tem deixado que o SUS esteja cada vez mais precário. Podemos perceber isso quando comparamos o número de leitos do SUS e do sistema privado de saúde nos últimos anos. De 2010 até 2013 o SUS perdeu 12,7 mil leitos e a rede privada ganhou 13,4 mil. Por outro lado, cerca de 90% da população brasileira depende dos serviços do SUS, ou seja, está claro que quem tem acesso a saúde privada não é a maior parte da população.

A educação pública é outro serviço fundamental que vai de mal a pior. Atualmente o que se vê é uma grande expansão do ensino privado, ensino esse que não ensina o estudante a pensar e questionar a realidade, mas apenas a reproduzir o conhecimento. De 2000 até 2010 mais de 25 mil escolas públicas foram fechadas! Ao mesmo tempo em que a população em idade escolar aumentou consideravelmente. Para satisfazer essa demanda seriam necessárias mais de 20 mil novas escolas.

Na educação superior vemos a expansão das universidades privadas com incentivo do Estado através de programas como o PROUNI e FIES. No entanto, sabemos que as faculdades privadas, em sua maioria, não oferecem ensino, pesquisa e extensão de qualidade, mas apenas um ensino técnico destinado ao mercado de trabalho. O lucro dessas universidades cresceu entre 2011 e 2013, de R$ 24,7 bilhões para R$ 32 bilhões. Cada vez mais lucro para os donos das universidades particulares e menos condições de ensino para os estudantes nas instituições públicas.

Moradia digna é outro direito essencial que, no entanto, está bem longe de ser garantido. Em 2010, mais de 2,7 milhões de pessoas não tinham acesso à energia elétrica. Em 2013, mais de 100 milhões de brasileiros não tinham acesso à coleta de esgoto e em 2014, 40 milhões não têm acesso à água tratada, o que acarreta milhares de mortes causadas por doenças todos os anos.

Saúde, educação e moradia são só alguns dos inúmeros serviços e direitos que o povo precisa e que deveriam ser garantidos. E mesmo com a chegada de um “governo dos trabalhadores” ao poder esses estão bem longe do ideal, porque não importa o governo, o Estado existe para cumprir um importante papel de dominação de uma classe sobre outra. Por isso, nós, a classe oprimida, precisamos lutar com nossas próprias mãos para conquistar o que queremos!

 O que queremos?

É fato que muitas injustiças já foram cometidas durante a construção da Copa do Mundo 2014, entretanto devemos lutar para reverter, pelo menos em parte, esse legado perverso que será deixado e avançar na luta e organização da classe trabalhadora.

Pelo direito de organização e manifestação! Contra a criminalização dos movimentos sociais! Protesto não é crime!

Pelo fim imediato dos despejos forçados! Pelo direito à moradia!

Pelo fim do processo de higienização social! Pelo direito de ir, vir e permanecer nos espaços públicos! Por albergues dignos!

Pelo direito ao trabalho dos ambulantes, feirantes e artesãos!

Contra a exploração sexual e o tráfico de pessoas!

Por Serviços Públicos de qualidade! Da Copa eu abro mão, eu quero saúde, transporte e educação!

Exigimos pensão vitalícia às famílias dos operários mortos e incapacitados por acidentes de trabalho nas obras da Copa!

 Organização para a luta

Vivemos uma nova etapa da luta de classes no Brasil. Desde as revoltas populares em junho e julho de 2013 uma antiga forma de luta voltou a ter destaque nos movimentos sociais: a ação direta. A luta dos oprimidos feita por suas próprias mãos em resistência à dominação e na exigência de direitos é hoje um método que as organizações populares utilizam e que vem trazendo conquistas.

Cada vez mais a via eleitoral está perdendo espaço, uma vez que o povo está perdendo a esperança de que seus supostos “representantes” podem, de fato, fazer seus direitos avançarem e a desigualdade social diminuir. No lugar disso aparecem as lutas dos trabalhadores, estudantes, moradores da periferia, camponeses, que se organizam de maneira autônoma, em movimentos combativos que forjam seus próprios caminhos de forma coletiva e verdadeiramente democrática.

O descrédito com as eleições burguesas acontece devido à desilusão da classe dos oprimidos com a chegada do PT à presidência. Esse governo que se dizia dos trabalhadores não rompeu com a classe dominante, exploradora e opressora, mas pelo contrário, fez um pacto com essa classe!

Os serviços públicos, as condições de trabalho, ensino e moradia não avançaram com a eleição daqueles que se fizeram passar por “representantes do povo”, mas estão avançando com a ação direta dos oprimidos! A tarifa de transporte público baixou em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Joinville, Belo Horizonte, Porto Alegre, Manaus e outras várias cidades em 2013. Greves vitoriosas de rodoviários em Porto Alegre e São Paulo e dos Garis no Rio de Janeiro em 2014. Inúmeras ocupações urbanas resistem e têm suas áreas regularizadas a partir de manifestações de rua e muita organização em várias cidades como Curitiba, São Paulo, Florianópolis e Belo Horizonte!

Acreditamos que só com a organização da nossa classe em cada local de moradia, estudo e trabalho, a partir de movimentos sociais combativos, horizontais e classistas que vamos conseguir criar o poder popular!   É com organização, ação direta e democracia de base que vamos resistir e avançar! Seja no grêmio da escola, no centro acadêmico da universidade, no sindicato da categoria, no movimento de bairro ou do campo vamos nos organizar para construirmos uma sociedade que seja igualitária, justa e livre!

Ação Direta é a arma que nós temos para fazer justiça para viver!

Lutar! Criar Poder Popular!

OPINIÃO ANARQUISTA: Mais uma vez pela Força das Ruas! EBSERH NÃO PASSARÁ!

Novo Opinião Anarquista do Coletivo Anarquista Luta de Classe sobre as lutas contra a privatização do Hospital de Clínicas:

OPINIÃO ANARQUISTA 5.1

OPINIÃO ANARQUISTA 5.2EBSERH NÃO PASSARÁ!

Baixe aqui em PDF: OPINIÃO ANARQUISTA 5

1 ° de maio, do luto à luta, das origens aos dias atuais

Primeiro de maio é dia de luto e luta, não de festa!

Texto publicado na primeira edição de Opinião Anarquista  do CALC, distribuído  no primeiro encontro do CEL (Círculo de Estudos Libertários), no dia 01 de Maio de 2013.

1° de Maio: Lutar com os de “baixo” ou festejar com os de “cima”?

“Tenho sido tratado aqui como um assassino e só se me tem provado que sou anarquista. Pois repito que protesto contra essa bárbara pena, porque não me foi provado crime algum. Porém se tenho de ser enforcado por professar ideias anarquistas, por meu amor à igualdade, à liberdade, à fraternidade, então nada tenho a objetar. Se a morte é a pena correlativa à nossa ardente paixão pela liberdade à espécie humana eu digo bem alto: disponde de minha vida!”

(Adolph Fisher, um dos mártires de Chicago)

Breve histórico das origens do 1° de Maio no mundo:

A data do 1° de maio tem sua origem relacionada a eventos que ocorreram no ano de 1886, nos Estados Unidos da América, em Chicago. Naquele ano ocorreram em todo os E.U.A. manifestações que tinham em comum a luta pela jornada de 8 horas diárias de trabalho. Em Chicago 35.000 pessoas foram as ruas buscando tal reivindicação no em 1886, resultando desta manifestação 6 mortos e 4 feridos. No quatro de Maio, em meio a um meeting operário que ocorrera na Praça de Haymarket, uma bomba é “misteriosamente” arremessada na policia.

Sem conseguir encontrar um culpado a policia decide por prender anarquistas, destacados militantes do movimento operário. Foram presos: George Engel, Adolph Fisher, Louis Lingg, August Spies, Samuel Fielden, Oscar Neeb, Michael Schwab, Wilian Lessinger, Jhon Most. Mais tarde, antes que ocorresse o julgamento Albert Parsons, também procurado pelo caso, mas foragido, se entregaria em sinal de lealdade a seus companheiros. O julgamento ocorre no dia 28 de agosto de 1887, este segundo as pesquisadoras do movimento operário Cardoso e Araújo tinham como objetivo por parte das “(…) autoridades judiciárias norte-americanas viam neste julgamento a oportunidade de eliminar a influência do anarquismo entre os operários” (CARDOSO & ARAÚJO, 1986). Os resultados do julgamento são condenações a forca para Parsons, Fisher, Engel, Spies, prisão perpétua para Fielden, Schwab, 15 anos de reclusão para Neeb e a expulsão de Most dos E.U.A. Lingg havia suicidado-se no cárcere e Lessinger desapareceu no presídio no qual estava.

Em memória aos “mártires de Chicago”, como ficaram conhecidos os trabalhadores condenados por ocasião do “massacre da praça de Haymarket”, o Congresso da II AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), ocorrido no dia 11 de junho de 1889 declara o 1° de maio dia de luta pelas 8 horas. Tal congresso ainda contava com a militância anarquista em seus espaços (expulsos em 1896). Em 1890 os E.U.A. aprovam a jornada de 8 horas, em 1894 é revisado o julgamento dos “mártires de Chicago” que passam a ser considerados inocentes, graças à luta e organização dos trabalhadores americanos.

O 1° de Maio na Terra das  Araucárias

A primeira comemoração genuinamente operária do 1° de maio no Brasil se dá em Santos em 1892. No Paraná, a data inicialmente era comemorada como um “pacto” de classes, as autoridades e a mídia empresarial da época estimulavam a cordialidade dos trabalhadores, que deveriam receber a data como “presente” de seus patrões. Podemos ver na matéria publicada na mídia local de Curitiba no 1° de maio de 1900: “Aos operários paranaenses apresentamos no dia de hoje as expressões de nossas simpatia pelo modo pacífico e digno com que festejam e glorificam.” (Apud, Diário da Tarde, Curitiba, 1° de maio 1900). Nos anos subsequentes permaneceu o “bom comportamento” até que em 1907 a Liga dos Sapateiros chama uma passeata e atividades artísticas que memorassem o dia de “luto e luta” no Teatro Guaíra. A partir deste momento a data seria alvo de disputa por parte da classe trabalhadora e das elites, bem como seu direito de livre organização. Nesse mesmo ano é aprovado o artigo (n°1637) que possibilitava a expulsão de imigrantes. Nos anos posteriores teremos atos públicos da classe trabalhadora: em 1908 na Associação Curitibana dos Empregados do Comércio é fundada a Liga Operária 1° de maio e em 1909 ocorre o ato do 1° de maio na Sociedade Protetora do Operário, quando a data passa a ser motivo de mobilizações também em várias cidades do litoral impulsionada pelas manifestações da capital. Mais tarde em 1913 a data é motivo de uma manifestação massiva contra a carestia que força a prefeitura a negociar com uma comissão de operários, o dia passa a ser um momento de exercício da ação direta, tal elemento pode ser encontrado no 1° de maio de 1917, segundo Araujo e Cardoso um prenuncio da Greve Geral de 1917.

Frente a uma conjuntura de forte ascensão da organização da classe operária, ao mesmo tempo em que uma revolução proletária ocorre na Rússia, e intentos similares ocorrem no Brasil como a Insurreição de 1918 no Rio de Janeiro, o Estado por meio de seus governos cumpre seu papel de defensor das classes dominantes. O Presidente Arthur Bernardes criaria em 1923 a lei 5221 que possibilitava o fechamento de associações operárias, o que na verdade regularia uma prática, na medida em que a União Operária Paranaense, por exemplo, já havia sido fechada em 1920. Os anarquistas, principais animadores do movimento operário naquele momento, tem “atenção especial da repressão”, tendo uma lei que proíbe sua propaganda promulgada em 1921 a lei 4269. Os anos de 1929 e 1930 figuram como momentos de resistência onde vemos a data ser comemorada pelos operários de forma desvinculada das elites.

Em 1930 é eleito Getúlio Vargas, um populista que buscava selar o pacto de classes. Em 1931 cria o Ministério do Trabalho, trazendo consigo a lei de sindicalização, subordinando os sindicatos à outorga do estado, situação que permanece até hoje. Tal lei acaba por destruir a liberdade de organização dos trabalhadores. Como a repressão não bastava para apaziguar os ânimos das classes exploradas, em 1932 são aprovadas as primeiras leis trabalhistas, sob a tutela do “pai dos pobres”, que buscava com tais medidas apagar da história os anos de luta da classe operária, verdadeira responsável pela aprovação de tais leis. Para ter dimensão do período: se aprovava leis de proteção ao trabalho de um lado, e se proibiam os desfiles no 1°de maio do outro.

A repressão se intensificaria nos anos de governo Vargas, que terminaria como uma ditadura no período do Estado Novo (1937-1945). Este período faria por destruir todo movimento operário autônomo. Segue-se neste momento uma série de tentativas de vincular o 1° de maio a uma data cívica, festiva, como bem já se apontava em 1919 com a transformação desta em feriado, em 1943 é aprovada a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) nesta data, em mais um dos esforços de Vargas em demonstrar que a luta de classes não era necessária.

Tal tendência se consolidaria no movimento local, e mesmo nacional, que não conseguiria reagir nas décadas seguintes. Durante toda a década de 50 registram-se as “festas do trabalho”, com fito de memorar o pai dos pobres. Passariam longos anos assim, até que por volta dos anos 60, reapareceriam manifestações de rua de cunho reivindicatório. Mas tal movimento não amadureceria e em 1964 temos um segundo golpe de Estado, agora militar, regime que proibiria os sindicatos. De 1964 a 1968 vemos uma forte repressão ao movimento operário. O regime militar tornaria a data um momento cívico novamente, de festejos, práticas esportivas, de “ordem”, tudo menos luta. Nos fins dos anos 70 veríamos um esboço de reação do movimento de trabalhadores local, sucedem-se naquele ano muitas manifestações e greves por direitos democráticos.

Durante toda a década de 80 o movimento dos trabalhadores acumularia forças para derrubar a ditadura. No ano de 1983 as primeiras manifestações por eleições diretas ocorrem pelo Brasil, tendo Curitiba como um local de manifestações de massa em torno da pauta.

Tal movimento acumulou forças por todo o período da reabertura democrática, forjando as organizações da classe que seriam responsáveis por tocar as lutas das classes exploradas, dentre elas a CUT (Central Unica dos Trabalhadores). Esta desde cedo se identifica em muito com o projeto do PT (Partido dos Trabalhadores), pois este partido é formado pelos que estavam nas lutas por liberdade e direitos, e mais, impulsiona com sua militância tais organismos. Estes passam a ter ligações “umbilicais”. Durante toda a década de 90 o PT amadurece seu projeto eleitoral. A CUT segue como base de apoio de tal projeto, que culmina na vitória presidência de Lula em 2002. Isso nos coloca em uma conjuntura em que o movimento dos trabalhadores acaba por tornar-se suporte das candidaturas trabalhistas.

No atual momento é um partido de origem trabalhista que dirige o país. O Estado, todavia, não mudou seu caráter, continuando a atacar os direitos da classe trabalhadora. O que mudou com tudo isso foi a postura da classe e seus organismos, hoje totalmente envolvidos pela agenda do Estado. Se “ontem” eram os “representantes” das classes dominantes que reprimiam e cassavam os direitos dos trabalhadores, hoje são oriundos da classe trabalhadora aqueles que governam em prol da exploração. O último ataque é encabeçado por sindicalistas, aplaudido pelo governo e pelos patrões, que é a ACE (Acordo Coletivo Especial), que visa tornar lei os acordos sindicais (entre patronal e laboral). Tal lei faria por acabar com os direitos trabalhistas na prática, pois atualmente a imensa maioria dos sindicatos se encontra descolada da base em suas decisões, e que tem direções facilmente cooptáveis.

Em mais um 1° de maio estamos na eminência de mais ataques à classe trabalhadora. Por todo o século XX, as classes dominantes com apoio do Estado buscaram acabar com o movimento dos trabalhadores independente, combativo e revolucionário. Hoje o movimento se encontra na defensiva, e mais, a regra é a cooptação dos trabalhadores para projetos eleitoreiros, fazendo do movimento mera base de candidaturas “trabalhistas”, trazendo os trabalhadores para o hall da política burguesa (o Estado). Hoje aqueles que buscavam ser os “representantes” da classe são aqueles que gerenciam a exploração. O confronto ideológico entre a ideia de um 1° de maio dia da “Festa do trabalho” ou dia de “luto e luta”, é cada vez mais necessário, vide as grandes “festividades” financiadas por entidades sindicais, partidos políticos e Estado. É necessário recuperar não só o 1° de maio, mas o movimento dos trabalhadores para as mãos destes, afinal a “emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”.

Baixe a versão que foi impressa do Opinião Anarquista/CALC  n° 1 aqui Opinião Anarquista 1-1de maio 2013

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[FAG] SOLIDARIEDADE À GREVE DOS RODOVIÁRIOS! PARA DERROTAR OS PATRÕES, OS PELEGOS E A MÍDIA.

Retirado de: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=224

 

SOLIDARIEDADE À GREVE DOS RODOVIÁRIOS!
PRA DERROTAR OS PATRÕES, OS PELEGOS E A MÍDIA!

Chegamos ao 9º dia de uma greve histórica que tem servido de exemplo para todos os trabalhadores desse país. Uma greve que nos bastidores concorria com os interesses dos patrões chorando prejuízo e tentando usar os trabalhadores para chantagear um aumento da tarifa. Uma greve em que a pelegada levou um rodo da base que aderiu 100% ao movimento enquanto a burocracia do sindicato se mostrou mais amistosa com a brigada militar do que com os piquetes nos portões. Enfim, a cada dia que passa os trabalhadores rodoviários tomaram conta do movimento e terminamos a primeira semana de greve com a sensação de que o poder de virar o jogo está em nossas mãos.

A greve não é ilegal, é legítima!

Durante todos esses dias os meios de comunicação ficam martelando na cabeça do povo as determinações da justiça de que a greve é ilegal e deveríamos manter um percentual de ônibus nas ruas. Porém, nada falam que há décadas as empresas lucram às custas das abusivas tarifas cobradas e de que o salário pago aos rodoviários é cada vez menor proporcionalmente. O papel cumprido pelos meios de comunicação, em especial o Grupo RB$, tem deixado os patrões da máfia do transporte de lombo liso e ainda tentam jogar o povo trabalhador contra o movimento. De forma ridícula, tentaram criminalizar o movimento alegando que a cidade está insegura, mas essa ninguém engoliu. Para contrapor a tentativa de isolar os rodoviários, a participação do movimento sindical e do Bloco de Lutas pelo Transporte Público nos piquetes tem sido a prova de solidariedade, assim como foi a caminhada até à frente do tesourinha na assembleia da última sexta que provou a importância da aliança para além da categoria. Portanto, é fundamental fortalecer a relação direta com os setores solidários sem deixar ser levado à reboque dos partidos e da burocracia sindical.

Seguir na luta para avançar sem conchavos à revelia dos trabalhadores.

Assumir as rédeas da luta e garantir que os trabalhadores sejam protagonistas do seu destino também exige critérios, pois a todo o momento algumas armadilhas têm sido plantadas pelo inimigo para tentar puxar o tapete da força coletiva. Por isso é fundamental um conjunto de princípios e métodos que garantam o controle dos trabalhadores sobre os rumos da luta sindical: o debate permanente, a participação através da ação direta e da democracia direta, a assembleia como a instância soberana de decisão dos trabalhadores, ou seja, uma conduta sindical que zela pela independência de classe jamais delegando o que é tarefa nossa aos intermediários presentes nos governos, aos técnicos, burocratas e parlamentares como se esses tivessem a solução para os problemas do transporte público.

Avançar nos direitos cortando o lucro dos patrões!

Nenhum passo atrás na pauta de reivindicações! Fazer a defesa incondicional dos direitos e fazer justiça cortando o lucro dos patrões! Por um transporte 100% público sob controle dos trabalhadores! Fortalecer as táticas de ação direta e seguir na greve em solidariedade com os que lutam! Lutar, criar, Poder Popular!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

 

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Opinião Anarquista Outubro de 2013: Avançar na organização da Luta! Radicalizar nas Ações! Uma breve análise sobre a ocupação da Câmara Municipal de Curitiba

herança das jornadas de Junho/julho

Desde as jornadas de Junho e Julho, quando milhares de pessoas foram às ruas de Curitiba e milhões tomaram as cidades de todo o país, vem se afirmando a necessidade de organização das lutas que vem se desenvolvendo tanto em torno do transporte, outros serviços públicos (saúde e educação), contra a repressão do Estado (seja na luta pela desmilitarização da policia, como da luta pelos direitos homoafetivos, etc.), a contestação aos mega eventos (a violência que geram ao povo pobre por conta das relocações e da criminalização da pobreza promovida pela militarização das cidades) e tantas outras demandas que vem sendo reprimidas e agora tomam a cena política.

Em Curitiba a luta pelo transporte público, gratuito e de qualidade tem se organizado a partir da proposta da Frente de Luta Pelo Transporte (FLPT) que articula individualidades e grupos que tenham acordo com a seus métodos de organização e pautas, isto desde os primeiros momentos da jornada de junho/julho. O método de organização da FLPT tem sido a democracia direta (a FLPT se organiza em reuniões e assembleias onde todos/as tem voz e voto) e a delegação de tarefas (aqueles que constroem as deliberações devem executar o que foi deliberado) e a ação direta (a FLPT não busca por meio de meios indiretos como eleger representantes na câmara ou no executivo implementar suas pautas, mas por força de suas próprias ações). O CALC por meio de sua militância busca estar presente e tomar parte da FLPT desde seu inicio. A FLPT fez possível a intermediação das ruas com o poder público, e se mostra necessária para que o movimento apresente uma pauta definida e tenha a organização necessária para suas ações (convocação de atos, divulgação dos mesmos, confecção e distribuição de material informativo, etc.). Deste modo foi possível em um primeiro momento conquistar a redução da tarifa de 2,85R$ para 2,70R$.

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As jornadas de junho/julho se encerraram pondo fim a um fluxo de luta de massas, todavia não sem deixar precedentes. A ação direta de massas se inscreveu na política nacional, e de certo modo podemos afirmar que alterou a cultura política da população brasileira, seja de uma parcela da população que “aprendeu” quais são os caminhos que levam as conquistas populares: a organização e a luta, como da população que mesmo sem ir as ruas passou a enxergar as movimentações sociais com bons olhos e apoiar fazendo coro enquanto opinião pública.  Cabe agora neste momento de “refluxo” das ruas as organizações tanto no nível social como político intensificarem seus trabalhos organizativos aproveitando do momento favorável. Nesse sentido da “jornada” ficam  as conquistas econômicas (redução da tarifa) como as políticas a criação de um instrumento amplo que congrega todos/as (a FLPT) que desejam lutar, como o avanço na consciência dos explorados/as que se reconhecem nas lutas e nas pautas que ocupam as ruas.

Continuar Organizando e Lutando!

Com um pequeno momento de inatividade após a grande “jornada”, logo voltaram os/as lutadores/as a se articularem na FLPT, seja organizando atos como a agitação e propaganda, galgando sempre mais espaço para os debates em torno do transporte público.

No último dia 15, terça-feira, os componentes da Frente de Luta Pelo Transporte estiveram presentes em sessão aberta da CPI do Transporte de Curitiba (reivindicada pela própria FLTP) e após o término desta ocuparam a Câmara Municipal por 24 horas. Tal ação se deu em advertência ao poder público (prefeitura e câmara) de Curitiba que se omite em relação à situação do transporte coletivo, mesmo quando isso se torna inaceitável, pois o próprio poder público aponta em dois relatórios distintos aquilo que o povo já sabia o transporte de Curitiba é organizado de forma criminosa e a tarifa é um assalto. Apontam os relatórios do TCE (Tribunal de Contas do Estado) e da CPI do Transporte, que ocorre na Câmara de vereadores de Curitiba, entre outras coisas que existe irregularidades nos contratos (ao menos 40) e abusos no preço da tarifa (esta poderia cair para no mínimo o valor de 2,40R$, o TCE indica 2,25R$). Mesmo o poder público, personificado no TCE, exige a anulação dos contratos, estatização da URBS e redução imediata da tarifa. Diante desta conjuntura a FLPT decide por ocupar a câmara para ampliar a denuncias e visibilizar a luta pelo transporte público. E como no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo a bandeira rubro-negra esteve presente junto das organizações anarquistas.

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Como já apontamos neste período em que o movimento vive um refluxo, cabe aos organizados manter a “chama acesa”. O “peso” das ruas diminui quando contamos com pouco mais de uma centena nas ruas. Ao mesmo tempo a criminalização da luta segue, e a mesma mídia que repudiava todo e qualquer tipo de protesto agora defende “as marchas”, claro pacificas, isto é, que nada alteram na ordem, buscando cooptar para sua proposta de “protesto cidadão”. Dentro desta perspectiva avançar nos métodos de luta é necessário, e ação da FLPT de ocupar a câmara aponta nesta direção, abrindo caminho para novas radicalizações no futuro, e demonstrando que de maneira organizada podemos intensificar em nossas ações.

Por outro lado não podemos nos balizar por alguns poucos indivíduos que “militam” para que a luta e as ações não sejam organizadas previamente e para que cada um tenha sua “liberdade individual”, mesmo que em oposição ao coletivo. De maneira algumas acreditamos que a luta não deva se radicalizar, porém sempre no marco daquilo que são os acordos do movimento, afinal se defendemos a liberdade, somente pelos métodos democráticos (diretos) garantimos a todos/as o direito de deliberar de igual modo. Acima de tudo radicalizar em um sentido libertário significa radicalizar junto ao povo, e não a sua frente, nesse sentido recusamos qualquer tipo de vanguardismo seja dos que buscam usurpar o ser político do povo em proveito de seus projetos políticos, seja de minorias descoladas que buscam “adrenalina” e realização pessoal no movimento.

Não podemos também nos deixar seduzir por aqueles que se oferecem para nos representar. Na ocupação alguns vereadores se propuseram a lutar por nós dentro da estrutura do Estado. Não devemos acreditar que os “nossos representantes” travaram esta luta, afinal foi com a omissão ou corrupção (grande parte dos vereadores são bancados pelas empresas do transporte) destes que os contratos foram estabelecidos, desta maneira, estes senhores buscam se vincular a ação da FLPT somente para levantar um palco e apontar holofotes para si. Somente a força das ruas, a ação direta das massas pode derrubar a máfia do transporte a avançar para um transporte realmente público.

Desta forma não podemos confiar nem no heroísmo de nossos representantes nem de espontaneistas de plantão, nossa força é a força coletiva, que organizada junto ao povo implementa as conquistas por meio da organização do poder popular.

Antevendo o ano que vem como um ano de intensas mobilizações em todo o Brasil, devido a justa revolta contra a Copa do Mundo, evento simbólico para demonstrar para que lado pende este governo que gasta verdadeiras “fábulas” de dinheiro para realização dos mega eventos mas alega estar com os caixas vazios para reajustar salários e mesmo garantir os serviços públicos. É fundamental que forjemos instrumentos de organização, a Frente de Luta Pelo Transporte tem se apresentado como espaço para aglutinar os lutadores/as de Curitiba, esta tem se tornado uma referência nas lutas da cidade e deve seguir organizada neste período de “refluxo” das ruas construindo a pauta e apontando instrumentos de luta direta, Com objetividade nas demandas e respostas, que possam captar todo descontentamento popular, organizando a luta e contribuindo para a transformação da realidade.

Para nossa luta não temos outra força senão a do povo organizado, e é por esta força que nossos direitos serão conquistados, pela força das ruas avançamos rumo a um transporte realmente público!

Se a tarifa não baixar, Curitiba vai parar!

Passe Livre já!

Lutar! Criar! Poder Popular!

CALC, 25 de Outubro de 2013.

Baixe aqui a versão impressa: Opinião Anarquista Outubro

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Opinião Anarquista #3 – Breve análise socialista libertária sobre os atuais movimentos

Novidade nas ruas         

Podemos afirmar que o mês de junho de 2013 entrou para a história do Brasil, sendo o dia 17 uma data emblemática: foram 1,5 milhões de pessoas a ocuparem as ruas – 20.000 só em Curitiba. Não víamos isso desde 1992, quando milhares foram às ruas exigir o impeachment de Collor.

Com toda a certeza, estas mobilizações transformaram o panorama político, afinal, foi apenas por meio da ação direta das ruas que as tarifas de ônibus baixaram em diversas cidades do país, reinserindo esta tática política na ordem do dia. As marchas também expressaram o descontentamento daquilo que se configura como um primeiro movimento de massas após 10 anos de governo PT, governo este que, além de não avançar nos direitos sociais (saúde, educação, trabalho, transporte), ainda intensificou em privatizações (Hospitais, aeroportos, portos), (contra)reformas (previdência, universitária, trabalhista, etc.), promoção de lucros recordes para os bancos, e ainda injetou rios de dinheiro na burguesia imobiliária e da construção civil. E mais, frente aos movimentos sociais, não demonstrou uma postura distinta a seus antecessores, criminalizando e perseguindo a militância que não se rendeu à cooptação, mostrando que como todo governo tem um lado: o das classes dominantes, e assim jamais poderia atender as expectativas da população brasileira que clamava por mudanças.Imagem1

Quem acordou o gigante?

As manifestações, que se inciaram em várias cidades do país por conta do aumento da tarifa, receberam em seu inicio duras críticas de imprensa, devido às ações mais radicalizadas da juventude na rua (que ocorreram, em geral, apenas em resposta à violência policial).  Porém, em um dado momento, a mídia corporativa muda sua postura: de ofensiva, passa a ser “generosa” com os manifestantes, e mesmo chamar o povo “pacifico” para as ruas, ao mesmo tempo em que criminaliza os “vândalos”. Assim, tenta influenciar os atos de rua, imprimindo a ordem institucional (ordem do Estado burguês) aos movimentos de massa. Para tanto, incita os manifestantes a se colocarem uns contra os outros (“pacíficos” versus “vândalos”), deixando de lado o verdadeiro inimigo: os banqueiros, os patrões, o Estado e seu aparato repressivo. Com vistas à agenda eleitoral de 2014, a grande imprensa investe nas manifestações e tenta “surfar” nesta onda, inserindo suas pautas. Por meio de seu poder monopolista dos meios de comunicação, tenta criar uma onda de ufanismo e patriotismo, tentando assim varrer a esquerda dos movimentos e estabelecer uma agenda “conservadora”, em que aparecem pautas como a luta contra a corrupção (mas só a do PT), o que favorece diretamente a direita eleitoral por um lado (PSDB e DEM), e indiretamente convida os grupos de extrema direita (skinheads, anonymous, Integralistas, nazistas etc.) para irem à rua defender a “bandeira certa” (a do Brasil, que unifica explorados e exploradores sob de uma mesma política).

Se, por um lado, observamos as tentativas da direita de dar os rumos deste movimento por meio daqueles que cumprem o papel de ser sua voz (a mídia corporativa), por outro, como libertários, não podemos deixar de afirmar nossa crítica histórica acerca da burocratização dos movimentos sociais, que os retira sua autonomia e poder de mobilização nas bases. Cabe afirmar que de maneira alguma legitimamos os ataques às organizações de esquerda, pelo contrário, os repudiamos em absoluto. Porém,  a esquerda não pode se esquivar de suas responsabilidades no que tange a seu desgaste: a tentativa de fornecer uma resposta eleitoral aos anseios do povo por meio de “candidaturas populares” – onde o caso mais exemplar é o PT e sua ascensão ao poder do Estado -, arrasta para a legalidade do Estado (eleições e parlamento) as disputas políticas do povo, fazendo com que suas organizações (sindicatos, associações de bairro, entidades estudantis e movimentos sociais) não sejam mais que estruturas de apoio de seus partidos. Cabe destacar que esta forma de atuação da esquerda tem sem sombra de dúvida tido resultados nefastos, porque não só não traz as conquistas que o povo objetiva com sua luta, desviando-a de seu sentido (que é transformar a vida dos de baixo), como acaba por colocar em descrédito com a população em geral as organizações de base do próprio povo. Se faz necessário ainda afirmar que boa parte da esquerda de oposição ao PT não foge a este modelo de atuação, colaborando por reforçar este estigma sobre as organizações de esquerda e até sobre as organizações populares de base, e por fim, sobre a própria política, que passa a ser vista como “suja” (afinal, a política burguesa no Estado capitalista realmente é suja e corrupta por excelência; o Estado capitalista é corrupto na media em que legitima a exploração dos trabalhadores). Tais práticas de aparelhamento e subordinação do projeto dos de baixo a projetos políticos partidários eleitorais acaba por ser responsável, ao menos em parte, para a desorganização e despolitização da população.

Desta maneira, a população deixa de ter referência nessas organizações, e o poder do Estado e das corporações midiáticas (aparelhos da burguesia) acaba por se sobrepor ao do movimento justamente pela força dos aparatos que tem em suas mãos, tornando o povo refém de suas armadilhas e manipulações.

Se não há referência de luta, quem dá as cartas?

Já nos referimos aqui sobre a legitimidade das lutas das massas que tomam as ruas do país, afinal, seu descontentamento é não só justificado, como justo. Porém, este processo também traz uma lição pedagógica para as esquerdas: não basta apenas termos o povo na rua exercitando a ação direta; por mais que isso em si possa ser bastante positivo, se não há organização prévia e enraizamento na base, não será “disputando a direção” de tais movimentos, ou mesmo se impondo sobre as massas, que construiremos um projeto de transformação da sociedade. Sem haver organização social das bases deste movimento, sem haver espaços de referência e construção coletiva de uma agenda de ações e lutas, tal movimento fica muito mais suscetível às vozes que vem da força dos “de cima” (a mídia corporativa e o Estado), de tal modo que esta população desorganizada acabou, por conta da ausência de interlocução e de um projeto político coletivo, iniciando um processo de disputa entre aqueles que já “dão as cartas”: de um lado, a direita e a mídia corporativa, do outro, a esquerda governista. Se, por um lado, a mídia tentou pautar o movimento sugestionando uma agenda de lutas que tinha como foco a desestabilização do PT para as eleições, o mesmo PT soube usar do momento para implementar parte do seu programa (5 pactos) a “toque de caixa” no Congresso, onde pouquíssimo ou quase nada ouviu-se das vozes das ruas para a construção de tais demandas.

Deste modo, parece que tal movimento restringiu-se devido à organicidade prévia do MPL-nacional (Movimento Passe Livre, organizado há pelo menos 10 anos), que tem um modelo de ação e forma de atuação já enraizados na população, que levaram a população a contestar o preço das tarifas e mesmo exigir um transporte realmente público (tarifa zero). Ao que tudo parece, estas são as únicas pautas que genuinamente vieram das ruas e tiveram eco.

Fica a lição: Organizar na base ou ser engolido pelas ruas!

Desta experiência de luta, esperamos que toda a esquerda possa retirar aprendizados (nos colocamos no campo da esquerda, logo nos incorporamos em tal crítica). Reiteramos nossas afirmações acerca da necessidade de que a esquerda se enraíze mais nas bases da sociedade, se colocando ao lado do povo cotidianamente, nos locais de trabalho, moradia e estudo. Afinal, tal movimento é sintoma da ausência da esquerda nestes locais, logo, da sua falta de capacidade de influenciar as massas em geral. Mostra-se insuficiente a metodologia de disputa das direções das entidades sindicais e estudantis; é necessário uma mudança na estrutura dos movimentos.

É necessário voltarmos ao tema do desgaste das entidades de base a nível social (sindicatos, entidades estudantis, associações de bairro e movimentos sociais) que precisam ser reabilitadas frente à população em geral, precisam voltar a ser os espaços de construção do pensamento e ação política das massas. Tal resultado, temos certeza, somente virá com a ação unificada da esquerda para retomar, nas bases do movimento, tais espaços organizativos dos pelegos, e mesmo de organizar onde ainda não há organização. Somente assim poderemos enraizar um programa de transformações no povo e pautar tais movimentos de massa.

O trabalho é duro – não existem fórmulas que possamos seguir para dar uma “guinada” em tal conjuntura. Mas temos, ao menos, um apontamento: somente um duro trabalho de organização das bases sociais pode mudar tal conjuntura e colocar em curso a construção do poder popular. Neste movimento, não exigimos mais que um posto de combate: sem sectarismo e em unidade nas lutas para construir um povo forte!

Barrar o aumento pela força das ruas

Tarifa Zero já!

Criar Poder Popular!

CALC, julho de 2013

baixe aqui a versão que foi impressa: Opinião Anarquista 02.07.2013

[FAG] Opinião Anarquista: Tomar as ruas por uma agenda contra a direita e o governismo. Avançar um programa de soluções populares!

Retirado de: http://batalhadavarzea.blogspot.com.br/2013/06/tomar-as-ruas-por-uma-agenda-contra.html

 larga noite das lutas de 17 de junho mudou a conjuntura brasileira e redimensionou os protestos sociais. A mobilização massiva de cerca de 1 milhão de manifestantes em dezenas de capitais e cidades do país e do mundo não acontecia em nossa história política desde o Fora Collor em 1992. Há um antes e um depois que põe na cena nacional um novo sujeito histórico coletivo que é catalisador de uma poderosa força social nas ruas.
Na gestação dessa nova correlação de forças a luta contra o aumento das tarifas do transporte coletivo é a expressão mais articulada de uma avalanche de sentimentos e demandas reprimidas que extrapolam os controles dominantes da sociedade brasileira. Há uma saturação do modelo capitalista aprofundado nos últimos 10 anos pela versão neo-desenvolvimentista dos governos do PT. Esse modelo prometeu um Brasil grande e moderno as custas de uma deterioração brutal do meio ambiente, dos espaços públicos e das condições de vida do povo trabalhador e da juventude.
O modelo dominante demandou um pacto social de classes que aumentou o poder dos grandes capitais sobre as cidades, os bens comuns e as fronteiras agrícolas. Todo o território foi redesenhado pelas representações do ideal produtivista de um lugar emergente no sistema mundial do poder e das riquezas. Mega-eventos, obras público-privadas de infra-estrutura, empresas do agronegócio estampam a ideologia do Brasil em crescimento. O neo-desenvolvimentismo se deve a uma variação do papel do Estado como fator de crescimento dos grandes capitais, integração relativa de setores populares e normatização social. Não quebra as estruturas dominantes do poder, da exploração e das desigualdades sociais, pelo contrário, a reformula e desata seus mecanismos através de uma ideologia sintonizada com certos desejos individuais de consumo e prosperidade.
A pretensa inclusão social por meio de bens particulares, associa a felicidade com o consumo, mas não é capaz de satisfazer demandas coletivas que formam a qualidade de vida nas cidades. A percepção de dias melhores pelo povo se esvai pelos efeitos insuportáveis de uma estrutura opressiva da vida social cotidiana. O desenvolvimento urbano acelera a desapropriação do direito dos setores populares sobre a cidade, restringe os espaços públicos e a mobilidade, deteriora a saúde e a educação, espalha o trabalho precário e flexível e negligencia o genocídio da juventude marginalizada das periferias. Para aqueles que não se integram em suas pautas de conduta e ao mundo da pobreza que não é assimilado por suas técnicas de poder, erige um Estado penal que abarrota o sistema penitenciário repleto de pobres e negros. Aos indesejados se desata uma agenda conservadora que reclama a redução da idade penal e a internação compulsória dos dependentes químicos.
Pelo interior do país este modelo é aplicado com força bruta sobre os direitos indígenas e quilombolas e contra uma reforma agrária e urbana que quebra os latifúndios revitalizados pelo agronegócio e a especulação imobiliária. Uma nova etapa da guerra de extermínio dos povos originários suprime a demarcação de terras e criminaliza a resistência, fazendo mortos e dizimando culturas.
O caráter nacional das lutas
Essa saturação do modo de vida ganhou expressão conflitiva pelas ruas de todo o país porque não se viu representada pelas instituições políticas burguesas ou pela voz da imprensa monopolista. No entanto, se num primeiro momento as mobilizações agitavam principalmente pautas relativas ao aumento das tarifas do transporte, temos visto serem agregadas um conjunto de bandeiras e reivindicações que dão contornos policlassistas às últimas mobilizações e em alguns casos, a exemplo de São Paulo, um caráter conservador e nacionalista e ufanista.
Nessa conjuntura de massificação das mobilizações, a grande mídia reorientou o seu discurso e se inicialmente atacava e criminalizava as manifestações, busca agora pautá-las fazendo um discurso que divide entre o que é o legítimo direito à manifestação e o que são atos de vandalismo realizados por uma minoria. Dessa forma, sai de cena o caráter classista e de esquerda das reivindicações por um transporte 100% público e entra em cena um discurso apolítico e muitas vezes de um nacionalismo extremamente ufanista, onde entram em cena gritos como o “jingle” da rede globo “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!”.
Se a direita mais conservadora do país tenta agora surfar na onda que não só não criou, como fez de tudo para reprimir, logrando já alguns ganhos e com isso semeando uma certa confusão entre o campo popular e de esquerda, não podemos tirar uma conclusão precipitada de que essa direita “virou a mesa”. O jogo esta em aberto e cabe ao conjunto da esquerda classista deste país redobrar os esforços no sentido de capitalizarmos ao máximo o sentimento de indignação que hoje varre o país. Sem sectarismos e disputas mesquinhas que levam a calúnia como meio de autoconstrução, urge à esquerda a responsabilidade de cerrar um punho forte e fazer frente ao inimigo.
Se nos precipitarmos afirmando que a direita “virou o jogo” e/ou ao mesmo tempo não formos capaz de superar vícios sectários e, em unidade na luta, incidir com uma pauta classista nesse cenário estaremos, desgraçadamente, entregando o controle das ruas à direita mais reacionária do país, que busca desatar um “carnaval da reação”, agitando sua pauta que inclui desde a genérica e oportunista “luta contra a corrupção” (como se este setor não estivesse inserido na corrupção estrutural que há no país) à redução da maioridade penal,  luta contra as “bolsas miséria” dentre outras reivindicações que agitam seus instrumentos de luta ideológica, os grandes oligopólios da mídia.
Os limites das ruas e a necessidade de organização desde baixo
A dimensão tomada pelos protestos, aliado ao trabalho que a grande mídia e setores da direita tem feito para introduzir suas pautas nas mobilizações, mostra os limites que essa modalidade de luta possui quando não há organização de base que lhe dê sustentação e retaguarda em períodos de refluxo.
Os setores que vem participando dos protestos são, em sua maioria, de uma geração jovem que não possui as mesmas referências de organização e de luta daquela geração do final dos anos 80 e inicio dos anos 90 que lutou pelo fim da ditadura civil-militar e posteriormente contra o neoliberalismo  forjando instrumentos de organização como o PT, a CUT e o MST, além da reorganização da UNE. Trata-se de uma geração que possui novos referentes, muito vinculado às redes sociais da internet que acaba sendo o lugar em que despeja as idéias, as propostas, as críticas e as construções. Nesse contexto, as mobilizações de rua, quando muito massivas, demonstram limitações que em nossa opinião precisam ser superadas.
Para nós, anarquistas da FAG, se a força das ruas e da ação direta é decisiva ao expressar o poder dos oprimidos, ela tampouco é suficiente se esses mesmos oprimidos não possuem instrumentos de luta e de organização em que as pautas expressas nas ruas possam ser discutidas, elaboradas e coordenadas em outros espaços de organização. Sindicatos, Entidades Estudantis e Associações de Moradores são exemplos, mas coletivos por local de trabalho, comitês de discussão sobre temas que nos tocam como transporte, saúde e educação em bairros, escolas, etc. são outros exemplos de organização que devem ser implementadas para que as reivindicações que sentimos cotidianamente sejam discutidas, acordadas e lançadas de forma contundente nas ruas com nossas mobilizações.
Sem esses espaços de base, nos prendemos ao vai e vem da conjuntura, daqueles grupos organizados que possuem interesses bem definidos e que a todo momento tentarão pautar as mobilizações e não construiremos um projeto próprio, enquanto oprimidos e que seja capaz de fazer frente às classes dominantes e seus instrumentos que hoje tentam cooptar as mobilizações que, com muita força, organização e dedicação conseguimos desatar.
Abrir a caixa preta da patronal do transporte coletivo! Por um modelo 100% público!
Democratização da mídia!
Contra os gastos da Copa. Em defesa de saúde e educação pública e de qualidade. Protesto não é crime!
Contra o massacre da juventude pobre e negra das periferias!

 

Opinião Anarquista #2: Vencer o aumento das tarifas nas ruas, vencer o reformismo nos movimentos sociais!

A população de pelo menos 28 cidades do Brasil saiu às ruas nas ultimas semanas para lutar contra os abusos das classes dominantes, que se expressa, agora, em aumentos na tarifa do transporte público. Esse movimento é fruto de uma insatisfação popular que já vem se desenvolvendo à muito tempo, gerada pela forma como o Estado vem se organizando e mostrando seu verdadeiro caráter de classe: está junto com os empresários e não com xs trabalhadorxs.

Essa insatisfação popular não é resultado de um aumento de 0,20$, 0,30$ ou 0,35$ no valor da tarifa do ônibus, mas sim o acúmulo de uma série de ataques do Estado às condições de vida dos/as trabalhadores/as, tais como o acesso precário à saúde, o transporte coletivo precarizado (tanto para os usuários como nas condições de trabalhado para os/as próprios/as funcionários/as do transporte – motoristas e cobradores/as), a mídia que manipula as informações em benefício do Estado e das classes dominantes, criminalizando os/as trabalhadoros/as, a pobreza e os movimentos sociais.

 

É por isso que o povo foi pra rua, pra mostrar sua insatisfação e responder à violência do Estado, da qual é vítima diariamente em todos os espaços de sua vida. É por isso também que esse movimento não para de crescer e tem um potencial transformador, pois ele é o acúmulo de um descontentamento histórico das classes exploradas desse país.

Apresentação1

Os exemplos de luta que estamos observando nas maiores cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, principalmente, são um dos combustíveis que nos move nesta luta, pois mostra que a luta do povo não é local, nem regional, nem uma luta isolada dos outros problemas sociais, mas é uma expressão da crise dessa forma de sociedade em que vivemos, onde pequenos grupos de indivíduos se beneficiam com a exploração e exclusão da grande maioria da população.

Diante disso vemos qual é a reação imediata da classe dominante ao levantamento do povo: enviar a polícia, legitimar a repressão com o discurso do “exagero” e do “vandalismo”, intentando assim criminalizar o movimento social frente ao resto da classe trabalhadora. Os mais de 300 manifestantes presos em São Paulo são um claro exemplo disso. Porém pensemos na violência do próprio Estado: trabalhadores/as que deixa de usar o transporte público por não ter dinheiro da para pagar pelas altas tarifas (estima-se que 37 milhões de trabalhadores deixam de usar o transporte público por não poder pagar); subsídios às empresas de transporte, retirados dos impostos que os/as próprios/as trabalhadores/as pagam; desocupações para responder aos interesses da especulação imobiliária; violência da polícia, impedindo que nos manifestemos, prendendo e espancando aqueles que buscam lutar por melhoras em sua precária condição de vida.  É preciso entender que ao legitimar o discurso do pacifismo, estamos legitimando o discurso das classes dominantes, que exigem para si (o Estado seu fiel defensor) o monopólio da violência. O Estado existe para proteger o status quo, para manter a exploração e dominação dos/as trabalhadoros/as. A Luta de Classes não é pacífica.

A burguesia não irá ceder pelo problema moral de milhares de pessoas estarem nas ruas protestando. Ela irá ceder por receber prejuízos dos atos do movimento. Portanto, as manifestações precisam causar alguma forma de prejuízo a burguesia para que suas reivindicações sejam atendidas pelo Estado.

O fato de alguns grupos políticos tentarem manchar o real caráter deste movimento popular classificando-o como “violento” só expressa o medo destes sobre a capacidade transformadora desse movimento. É muito claro que quem deseja participar da ordem vigente irá criticar quem deseja revolucioná-la, pois apresenta um perigo ao seu objetivo de substituir a direção do Estado.

Portanto, sem medo das críticas daqueles que somente desejam neste movimento capitalizar força política para participação desta ordem, ou seja, participar da democracia burguesa, que buscam neste movimento angariar adeptos as suas campanhas, e mesmo se construir como “salvadores”, que em troca de seu voto oferecerão mundos e fundos, para depois trair a vontade do povo, devemos seguir, assim como em diversas capitais do Brasil, a exemplo de Goiânia e Porto Alegre, onde pela via da Ação Direta se revogaram os aumentos. Essa é a forma de pela qual conseguiremos barrar o aumento, bem como a forma pela qual ousamos transformar as bases da sociedade. REVOGAR O AUMENTO DO BUZÃO PELA FORÇA DAS RUAS!

CALC, 17 de junho de 2013

Baixe a versão impressa:Opinião Anarquista 2- 17.06.13