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[CAB] Opinião Anarquista: o Anarquismo é luta social e exige respeito

Diante do ataque orquestrado pela polícia civil do Rio Grande do Sul em conluio com a Rede Globo, denominado “Operação Érebo”, que tem como objetivo criar precedente para enquadrar a ideologia anarquista na Lei Antiterrorismo, a Coordenação Anarquista Brasileira afirma que somos historicamente fruto das lutas do povo oprimido. Nossa ideologia nasceu na luta das/os de baixo, da classe trabalhadora contra todas as formas de dominação. As violências que a nossa classe sofre no cotidiano com a falta de acesso aos direitos mais básicos são o que impulsiona o trabalho realizado pelo anarquismo, em meio ao povo e na defesa de uma sociedade mais justa sem desigualdade social e livre de todas as formas de opressões.

Por isso os militantes da Coordenação Anarquista Brasileira, da qual a Federação Anarquista Gaúcha faz parte, são trabalhadoras e trabalhadores, filhos e filhas do povo. Somos militantes, e como tais, atuamos em sindicatos, ocupações de moradia e movimento estudantil e demais espaços sociais. Defendemos o trabalho de base, buscando mobilizar distintos sujeitos sociais desde seus locais de trabalho, estudo e moradia. Portanto não nos prestamos a caricaturas pintadas pela Rede Globo e pelo Delegado Jardim.

Diante desta calunia, que tem por finalidade não apenas tipificar o anarquismo na Lei Antiterror mas também paralisar toda a esquerda revolucionária através do medo, afirmamos que não vamos nos acovardar, seguiremos em luta contra o ajuste e a repressão.

O Anarquismo é luta social e exige respeito

O Anarquismo existe há mais de 150 anos, é fruto do socialismo e uma ferramenta da classe trabalhadora par a conquista de seus direitos. Esteve presente na construção da Primeira Internacional e está nas lutas sociais da atualidade. Uma ideologia que historicamente participou de muitas das lutas organizadas e forjadas pelas mãos dos/as trabalhadores/as em diferentes continentes e países: Comunas Parisienses, Revolução Russa, Revolução Ucraniana, Revolução na Manchúria, Revolução Mexicana e a Patagônia Rebelde na Argentina; as Federações Operárias Regionais na Argentina (FORA) e no Uruguai (FORU). O Anarquismo também esteve presente e contribuiu muito no chamado “sindicalismo revolucionário” no Brasil, ajudando a impulsionar lutas e greves no início do século passado, como a Greve Geral de 1917.

O anarquismo, como ontem, permanece cotidianamente envolvido nas causas sociais, nas lutas sindicais, nas associações de bairros, de moradores. Compromissado em combater as desigualdades e opressões, defendendo o avanço nos direitos das mulheres e LGBTTT, pela demarcação dos territórios indígenas e quilombolas, em apoio e solidariedade aos povos e trabalhadores do campo.

A violência da mídia e da Globo

No último domingo, dia 29/10, em seu programa Fantástico, a Rede Globo tentou, de forma grosseira, confundir sobre o que de fato é a ideologia anarquista, chegando ao ponto de compará-la ao nazismo.

Violência é o que a Globo pratica, ao criminalizar e difamar a ideologia anarquista. Ao expor trocas de mensagens de celular sem nenhuma permissão para isso. É uma atitude irresponsável e leviana que pode prejudicar trabalhos sociais sérios construídos com esforço e compromisso no dia a dia.

Esse tipo de jornalismo serve apenas a seus próprios interesses, buscando lucrar vendendo factoides grosseiros e calúnias. É também um jornalismo servil aos interesses do Capital e da crescente Direita no país repete assim o mesmo papel que teve durante a ditadura civil-militar.

A violência dos poderosos contra o povo

É importante falarmos aqui também de toda a violência contra o povo praticada pelo capital, pelo Estado e governantes. A violência das eternas filas de espera dos hospitais, da falta de remédios e recursos, de salários não pagos aos profissionais da saúde. A violência dos transportes públicos, superlotados e sucateados, dominados por mafiosos amigos de governadores e prefeitos. Vamos lembrar da violência do ensino público abandonado pelo governo para ser privatizado. Os trabalhadores e trabalhadoras da educação que não recebem seus salários, e os estudantes que também são violentados pelo Estado. A violência dos latifundiários, grileiros e bancada ruralista contra os povos indígenas, sendo expulsos de seus territórios, contra os sem-terra e os pequenos agricultores. A violência do Estado e da polícia contra o povo negro, o genocídio nas favelas e periferias.

Mas, apesar disso, quem o estado, a polícia e a mídia rotulam de terroristas e violentos são aqueles que se organizam na busca pela transformação social, pelo fim de toda essa injustiça e desigualdade social promovidas pelos poderosos e capitalistas.

Solidariedade para avançar contra os ataques

A solidariedade por parte da esquerda é fundamental neste momento. Este não é apenas um ataque isolado contra a ideologia Anarquista. Não é possível compreender estes acontecimentos se não os pensarmos inseridos no contexto de avanço da direita no país. E mais ainda, na estrutura mundial de dominação do capital, em especial o imperialismo norte-americano e a forma como ele vêm atuando na América Latina e no Brasil. Para que os recursos naturais deste continente e seus povos sejam cada vez mais explorados, se faz necessário criminalizar e reprimir os movimentos sociais e as organizações políticas. Por isso é, toda a esquerda que está sob ameaça e ataque, assim como os movimentos populares. E todos aqueles que se opõem à sanha do capital internacional e nacional que quer colocar suas garras sobre os recursos naturais e as terras, e explorar ao máximo o povo, destruindo todos os direitos que foram conquistados com muita luta.

Por isso estes ataques devem ser denunciados. É preciso mostrar que o Anarquismo não é que mostra a mentirosa reportagem da Rede Globo, e que vem sendo veiculado pelos outros grandes veículos de informação (SBT e BAND). Não aceitamos nenhuma forma de criminalização muito menos ideológica. Somos historicamente fruto das lutas do nosso povo oprimido e permaneceremos firmes na luta anticapitalista por um mundo novo e uma nova sociedade que carregamos em nossos corações.

CONTRA A FARSA DA REDE GLOBO

ANARQUISMO NÃO É CRIME, É LUTA!

VIVA O ANARQUISMO!

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[FARJ] Entrevista com um comunista libertário ucraniano: “Os anarquistas se tornaram o maior obstáculo à anarquia”

Retirado de: https://anarquismorj.wordpress.com/2014/12/03/entrevista-com-um-comunista-libertario-ucraniano-os-anarquistas-se-tornaram-o-maior-obstaculo-a-anarquia/

2 de novembro, 2014 – Comissão Jornal (mensal)

Donetsk, cidade no sudeste da Ucrânia é palco de confrontos entre separatistas pro russos e a população ucraniana. Um militante comunista libertário que lá vive e milita, nos deu alguns instrumentos para compreender quais são as forças presentes e as razões da letargia do movimento libertário.

Qual é a situação na Ucrânia?

A vida continua com duas realidades paralelas: as pessoas continuam com sua vida cotidiana, com as crianças ao redor, com o mesmo lugar dos mortos, da violência, do ódio. A divisão da sociedade se reforça a cada dia. É uma revolução política da burguesia nacional, em um contexto de guerra civil e de uma intervenção mal dissimulada da Rússia.

 

Qual é a composição social dos manifestantes do sudeste e dos de Maïdan?

Maïdan e os separatistas do sudeste não diferem muito um do outro. Os dois agrupam uma diversidade de classes sociais, intelectuais, empregadas(os), empresários, ruralistas, estudantes, lupemproletariado, antigos militares…Todos viraram reféns e marionetes dos clãs econômicos.

As pessoas de Maïdan colocaram no poder novas oligarquias e a gente do sudeste deixou de dormir por conta da família do presidente deposto Yanoukovitch e de seu mestre em Moscou. Toda essa retórica é perfumada pelo nacionalismo, como resultado das feridas sangrentas e da cólera durante décadas. Na realidade, o inimigo está no Kremlin, no Capitólio americano e no parlamento alemão. Os líderes de Maïdan assim como os líderes separatistas, são frações da burguesia nacional e de seus componentes radicais.

À leste, eles intimidam as pessoas com o partido de direita Pravyi Sektr (Setor de Direita), e lhes chamam ao combate do fascismo, mesmo que eles se inspirem no fascismo imperial da nação russa. Em Donetsk, segundo sua lógica, você pode escolher em ser russo ou ser um fascista. Em uma palavra, você está abatido ou está morto. Isso aconteceu em Maïdan e acontece agora no sudeste.

 

O que se pode dizer sobre o referendum do 11 de maio (1)?

É um referendum marcado por seus postos de votação sem observador e sob o olhar atento de pessoas disfarçadas. Foi uma farsa inscrita em uma estratégia visando criar repúblicas populares independentes, e depois pedir sua admissão na federação russa. Mas tem uma grande parte das pessoas de Donetsk e de sua região que são partidários de uma Ucrânia unida. Os separatistas são melhores organizados, têm os melhores recursos administrativos e o apoio do estado vizinho, isso é tudo.

  

Você acha que tem especialistas russos no sudeste?

Eu não acho, eu tenho certeza. E muitos dentre eles estão nas bases de treinamento nas regiões de Donetsk e Lugansk, onde grupos de 400 a 500 habitantes e voluntários da Rússia treinam sob a direção de instrutores militares (…) A maioria das pessoas que defendem a bandeira separatista são habitantes, trabalhadores ordinários ou veteranos das forças armadas. Mas um número significativo e que organiza o processo com autoridade, é formado por voluntários da Rússia. O fornecimento de armas e de dinheiro vem da Rússia. O chefe atual do governo em Donetsk, que se proclama “República Popular”, é Boroday. Estratégia desenhada pela administração do Kremlin.

 

Tem alguma possibilidade dos protestos se transformarem numa revolução social?

Neste momento, é um cenário improvável. Uma revolução social é possível unicamente na presença de dois fatores: uma demanda das massas por uma transformação radical e a organização política de viés revolucionário dos anarquistas, que será capaz de defender o processo de mudança.

Na realidade, não há nenhuma demanda por uma revolução social. A única mudança imaginada está no interior do quadro político. E mesmo esses tímidos rebentos de anti-autoritarismo que puderam se manifestar, se não forem sustentados por uma organização revolucionária e anti-autoritária forte, serão destruídos pela agenda política da burguesia e pelos partidos nacionalistas.

 

Quais são as perspectivas para os anarquistas no contexto atual?

O principal problema do movimento anarquista é a ausência de uma organização anarquista. Os anarquistas têm estado incapazes de usar a situação porque estão presos às ilusões anti-organizacionistas.

A organização é uma incubadora, uma escola, uma sociedade de apoio mútuo e uma plataforma produtiva para idéias e projetos; mas o mais importante, ela é um instrumento para a realização das idéias, um instrumento de influência e um instrumento de luta. Ela não pode ser substituída por grupos de afinidade.

Os anarquistas de hoje, como em 1917, perderam a oportunidade de serem influentes no processo. A RKAS (2) reivindicando o anarquismo plataformista de Makhno sobreviveu a muitas crises, se implicando na greve dos mineiros, e teve muitos projetos a longo prazo, mas que não foram sem desacordos e cisões internas.

A gente pode se lembrar da propaganda anti-eleitoral da cisão da RKAS, a Mezhdunarodnyj Souz Anarkhistov [3] em Donetsk. Os divisionistas argumentaram sobre o prentenso autoritarismo da RKAS. Uma vez liberados da “ditadura do escritório organizacional da RKAS”, que lhes fez ir às minas e usinas propagandear o jornal Anarquia, e discutir com os sindicatos e com as cooperativas, e construir uma “guarda negra” auto-disciplinada, eles mostraram suas capacidades estratégicas e ideológicas colando cartazes feitos à mão contendo a seguinte mensagem “Não vá às eleições, coma legumes”.

 Todas as tentativas para construir uma organização através do projeto RKAS deram lugar a uma cruzada contra “o autoritarismo e extremismo”. Finalmente os anarquistas se tornaram o maior obstáculo à anarquia. Eu recorro a esse paradoxo para chamar a sua atenção sobre esta velha doença “a anti-organizacão”, destruidora e irresponsável (…)Talvez a RKAS renasça se dando conta de todos os seus erros e se modernizando, talvez nós criaremos algo novo (…) Nós não a abandonaremos e nós não desapareceremos.

 

Em que você está engajado neste momento?

Infelizmente eu não posso lhe dizer tudo. Caso contrário, muita gente e eu mesmo teremos múltiplos problemas, e nós temos muitos projetos para o futuro. Oficialmente a RKAS foi dissolvida, mas seu núcleo se movimenta nas ações ilegais.

 

Este texto é um resumo, reformulado por Jacques Dubart, de uma entrevista com um mlitante da RKAS – Confederação Revolucionária dos Anarco-sindicalistas _acessível sobre anarkismo.net, traduzido do texto publicado em inglês no 9 de agosto.

[1] Referendum de auto determinação, assim que Donetsk “pediu” sua anexação à Rússia.

[2] Confederação Sindical Anarquista Internacional.

[3] União Internacional dos Anarquistas.

[CAB] Lançamento de revista da CAB: “Socialismo Libertário” n° 1

Lançamento de revista da CAB

Em junho de 2012 a CAB publica o primeiro número de sua revista “Socialismo Libertário”. Seguem abaixo o sumário e o editorial da revista com os links para os artigos na internet. O donwload da revista em PDF também pode ser aqui realizado.

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Revista “Socialismo Libertário” num. 1

Em junho de 2012 a CAB publica o primeiro número de sua revista “Socialismo Libertário”. Seguem abaixo o sumário e o editorial da revista com os links para os artigos na internet. O donwload da revista em PDF também pode ser aqui realizado.

Revista Socialismo Libertário num. 1
Baixe aqui a revista em PDF

Sumário:

Editorial

Há 150 anos, homens e mulheres aspiraram à união e à coordenação internacional do incipiente movimento operário, para, através do federalismo e da livre associação, reunir a força necessária para golpear e derrubar o capitalismo. Durante esse processo, os anarquistas estiveram presentes e constituíram parte significativa desse esforço militante.

Estivemos nas barricadas da Comuna de Paris, em 1871, nas experiências comunais das revoltas na Macedônia, em 1903, nas lutas e nos sonhos criados pela Revolução Mexicana de 1911, nos combates encarniçados da Revolução Russa, de 1917. Aspiramos e construímos nossos sonhos libertários durante a Revolução na Manchúria (1929-1931), a Revolução Espanhola (1936-1939) e a Revolução Cubana, de 1959. Mais tardiamente, estivemos nas universidades e fábricas nos acontecimentos do Maio de 68 e nas lutas contra as ditaduras da América Latina. Fizemos parte da Primeira Internacional (1864-1877), da Segunda Internacional (1889-1916) e da Internacional Anarco-Sindicalista, de 1922. Impulsionamos sindicatos de intenção revolucionária e organizações anarquistas nas Américas, na Europa, na Ásia, na África e na Oceania. Temos mantido permanentemente, desde o surgimento do anarquismo, nossa presença em meio às lutas sociais nos cinco continentes.

Em solo nacional, nos misturamos, desde a Primeira República, aos combates classistas nos bairros, nas ruas e nas fábricas, sempre com a utopia da transformação radical sublinhando nossas ações. Há 100 anos, no estado de São Paulo, militantes operários decidiram dar um basta à educação vigente, elitizada, restrita e a serviço do pensamento dominante; unindo pensamento e ação, plantaram as sementes das escolas modernas. Cinco anos depois, o movimento operário realizou uma greve geral em vários estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Tais mobilizações, ocorridas em 1917, há 95 anos, também contaram com a presença da militância anarquista, que ajudou a constituir o que chamamos hoje de luta sindical. Os anarquistas também construíram espaços específicos para o debate de suas questões, para estabelecer acordos, analisar a realidade em que viviam, produzir declarações públicas e planejar suas ações. Esse foi o caso dos grupos anarquistas formados no início do século, tais como a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro, em 1918 – que teve vida curta, atingida duramente pela repressão – e o Partido Comunista (libertário), de 1919. Esta iniciativa organizacionista, recorrente, jamais foi apagada pelo tempo. No contexto da redemocratização (depois do Estado Novo getulista), os anarquistas brasileiros, após anos de ditadura, tentaram, apesar das dificuldades, reorganizar-se numa Federação Anarquista de âmbito nacional. Atuam neste período, de 1946 a 1959, a União Anarquista de São Paulo, a União Anarquista do Rio de Janeiro, o grupo anarquista Ácratas do Rio Grande do Sul e individualidades de outros estados.

Nesse processo, há 55 anos foi realizada a Conferência Anarquista Americana, em Montevidéu, no Uruguai, contando com a presença de delegados do Brasil, da Argentina, dos Estados Unidos, do Paraguai, do México e do próprio país sede, servindo como um desses espaços para a articulação e o fortalecimento do anarquismo.

Todas essas iniciativas demonstram a vontade histórica dos anarquistas de se organizar para intervir com maior vigor no terreno da luta de classes: se há luta, há resistência; se há dominação, há organização e vontade de transformação social.

Hoje, neste pedaço de terra da América Latina chamado Brasil, no décimo aniversário do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), nós, organizações anarquistas que constituímos parte do FAO, humildemente damos continuidade às aspirações, aos sonhos e às lutas de milhares de mulheres e homens que viveram para aportar grãos de areia na construção de outra sociedade, socialista e libertária. São 10 anos de uma caminhada que, ainda que modesta, julgamos conseqüente, com todas as dificuldades e desafios que implicam tal intento. Temos buscado a construção de uma organização nacional, desde baixo, construída pela base, de forma sólida e madura, nesse imenso e diverso território, sem nunca perder do horizonte o objetivo da revolução social.

No Brasil, parte de nossa geração, privada do contato com os nossos “velhos” combatentes, teve de se apoiar, em grande medida, em suas próprias realizações. Somos fruto de anos de debates e articulações que visaram reorganizar o anarquismo brasileiro, para que ele pudesse incidir nas lutas de seu tempo. Somos fruto das iniciativas que buscaram formas distintas de associação e organização de classe, experimentos e experiências de contracultura, com todas suas contradições e limites. A depender da região, somos fruto do contato direto com gerações mais antigas do anarquismo, cujo esforço jamais pode ser esquecido. Somos, enfim, uma geração de jovens que começou a militar entre os anos 1980 e 1990 e que, a partir de então, assumiu para si a tarefa de atualizar o anarquismo, visando constituir uma ferramenta de luta, a partir de organizações específicas anarquistas inseridas socialmente, que contribuísse com a construção de um horizonte de auto-organização e emancipação das classes oprimidas.

O contato que, em 1994, foi travado com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e, conseqüentemente, com toda sua história – desde 1956, a FAU atuou ininterruptamente, parando apenas quando boa parte de seus militantes foram presos, mortos, seqüestrados ou desaparecidos –, foi marcante neste processo. As relações políticas com a FAU foram decisivas para a opção que fizemos em relação ao modelo de organização especificamente anarquista que hoje adotamos.

Por razão dessas relações, a Federação Anarquista Gaúcha (FAG), do Rio Grande do Sul, foi fundada, em novembro de 1995; e, desde então, o intento conjunto se fortaleceu com outras organizações posteriormente fundadas. O projeto de construção de uma organização nacional anarquista, fundamentada no modelo organizativo da FAU, foi impulsionado no Brasil por um processo que ficou conhecido como Construção Anarquista Brasileira. A primeira tentativa nesse sentido foi a fundação, em 1997, da Organização Socialista Libertária (OSL), com núcleos no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Pará, que terminou se revelando uma iniciativa precipitada.

Em 2002, uma nova tentativa, pautada em grande medida no acúmulo das experiências anteriores, decidiu criar um fórum, o FAO. Era um passo inicial, que tinha por objetivo permitir o acúmulo necessário de debates, de acordos e de experiências práticas, para a fundação de uma organização anarquista nacional. A lição dos anos 1990 tinha sido aprendida: não podíamos começar a “construir uma casa pelo telhado”.

Desde a fundação do FAO, algumas organizações deixaram de existir e outras se consolidaram e vêm sendo decisivas para esse esforço coletivo: o Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP), de Alagoas, que comemorou em abril seus 10 anos; a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), que já vai para seus 9 anos e a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, que vai para seu 3º ano de atividades.

Outras organizações vêm aos poucos se somando ao processo e mantendo proximidade com o FAO, estreitando os laços orgânicos: o Coletivo Anarquista Bandeira Negra (Santa Catarina), o Coletivo Anarquista Luta de Classe (Paraná), o Coletivo Mineiro Popular Anarquista (Minas Gerais), a Organização Resistência Libertária (Ceará), o Coletivo Anarquista Núcleo Negro (Pernambuco), o Coletivo Libertário Delmirense (Alagoas) e outras iniciativas, que estão em processo de nucleamento ou de articulação.

O aniversário de 10 anos do FAO é especial para nós, já que, há mais de um ano, temos debatido e apontado a necessidade de darmos um passo a mais na direção do nosso projeto nacional. Queremos avançar, porém, sem tirar o pé do chão, no sentido de proporcionar uma maior organicidade entre as organizações e de responsabilidades e compromissos mais profundos. Para isso, decidimos passar de um fórum para uma coordenação: o FAO, por razão desse ganho de organicidade conquistado nos últimos anos, se torna a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). Assim, maiores esforços se fazem necessários, e a responsabilidade que assumimos com esse passo também é grande. No entanto, as aspirações, os sonhos e a vontade que temos de construir outra sociedade, em que nós, classes oprimidas, sejamos donas de nossos próprios destinos, é tamanha, que não nos intimidamos.

É por isso que, nesse 10º aniversário do FAO, data do congresso de fundação da CAB, reafirmamos nosso compromisso militante de nos somar na construção de um povo forte, que ponha abaixo o sistema de dominação capitalista a partir da luta direta, pela base, da construção federativa de nossas próprias instâncias de auto-organização, de autogestão e de democracia direta. Amparados nas experiências históricas daqueles que nos precederam, comemoramos a fundação da CAB como mais um importante passo na presença do anarquismo nas lutas sociais contemporâneas.

Neste primeiro número da revista Socialismo Libertário, apresentamos um texto com nossas concepções sobre o poder popular, tema que julgamos essencial. Esperamos ter condições de, nos próximos números, aprofundar questões teóricas, estratégicas e conjunturais, de maneira a estimular esse processo nacional.

Em memória aos milhares de militantes anarquistas que fizeram história!
Em memória aos oprimidos e às oprimidas, de ontem, hoje e sempre!
Viva a revolução social! Viva a anarquia!
Rumo à organização nacional!

Coordenação Anarquista Brasileira.

Junho de 2012

[CURITIBA] Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

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Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul

Curitiba 23-24 de julho de 2011

FORMAÇÃO REGIONAL DO FAO EM CURITIBA

Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

Marcado pelo clima de solidariedade e pela calorosa recepção, todos os presentes puderam discutir durante dois dias distintos temas em torno do anarquismo que, por meio da dinâmica adotada, puderam apreender e debater significativamente, o que certamente acrescenta muito ao processo nacional brasileiro que o FAO vem buscando impulsionar desde 2002 quando foi fundado.

A formação teve uma agenda densa, com distintos temas que tinham por objetivo fortalecer teoricamente o conjunto da militância. Foi trabalhada em cinco eixos fundamentais: A formação política da corrente libertária (uma leitura do anarquismo), história social de processos revolucionários com participação anarquista, teoria da organização política anarquista, marco teórico e categorias de análise (método de análise) e via estratégica e poder popular. O eixo propaganda de intervenção foi tratado apenas brevemente.

Descrevemos muito sinteticamente os temas tratados para dar uma idéia ao leitor do conteúdo da formação.

Vale reforçar que a formação foi ministrada pela FAG e que, por isso, o conteúdo reflete a sua elaboração teórica, que tem muitas similaridades e algumas diferenças em relação a outras organizações que compõem o FAO. Nesse sentido, todo o conteúdo é de sua responsabilidade e queremos que ele contribua para o debate e o fortalecimento de nossa corrente.

Temos todo interesse de fortalecer o processo organizativo nas regiões e – no caso específico dessa formação conduzida pela FAG – de impulsionar, além do próprio Rio Grande do Sul, os estados de Santa Catarina, Paraná. Havendo interesse de aproximação nessas regiões, não deixe de nos escrever. Outras organizações do Brasil encarregam-se no momento de outras regiões; por isso, se houver interesse de militantes de outras regiões, entre em contato e daremos o encaminhamento necessário. Pedimos aos interessados que entrem em contato pelo e-mail fagsorg@riseup.net.

A FORMAÇÃO POLÍTICA DA CORRENTE LIBERTÁRIA (UMA LEITURA DO ANARQUISMO)
“Nós, os socialistas-anarquistas, existimos como partido separado,
como programa substancialmente constante, desde 1868,
quando Bakunin fundou a Aliança; e fomos nós os
fundadores e a alma do rumo antiautoritário da
‘Associação Internacional dos Trabalhadores’”
Errico Malatesta

Nesse tema, buscaram-se respostas às questões: O que é o anarquismo? Quando ele surgiu? Quais são suas principais correntes estratégicas-táticas?.

Contrapôs-se a definição do anarquismo como um fenômeno ahistórico, que o inscreve no campo das práticas e discursos de uma ética humanista e libertária, independente das condições sociais e históricas. Afirmou-se, distintamente, que foi na segunda metade do século XIX, quando o capitalismo industrial se desenvolvia na Europa e as primeiras grandes lutas da classe operária tinham lugar, que a ideologia anarquista nasceu e ganhou expressão em práticas políticas de oposição ao socialismo legalista, estatista ou reformista. O anarquismo é a corrente libertária do socialismo, forjada historicamente na luta de classes como crítica, proposta e ação revolucionária.

O anarquismo ganhou variantes estratégicas na sua dinâmica, agregou elementos de discurso para pensar novas circunstâncias histórico-concretas e incorporou/desenvolveu modos específicos de organizar e expressar o socialismo e a liberdade nos conflitos sociais segundo seu tempo e lugar. É a referência histórica de um tronco de princípios e fundamentos que marcam a continuidade dessa tradição revolucionária na luta contra o capitalismo e os modelos de dominação.

O desenvolvimento de suas principais correntes estratégicas-táticas se deu por algumas escolas, organizações e por alguns autores do campo popular e socialista: o mutualismo operário e o socialismo de P.-J. Proudhon; Bakunin, a Aliança da Democracia Socialista e sua atuação na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT ou Primeira Internacional); o comunismo anarquista de Kropotkin e Malatesta; a propaganda pelo fato e o “individualismo tático” (não confundir com o individualismo de matriz individualista como o de Godwin, Stirner etc.); o sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo.

HISTÓRIA SOCIAL DE PROCESSOS REVOLUCIONÁRIOS COM PARTICIPAÇÃO ANARQUISTA

Os anarquistas têm protagonismo numa rica história social em que a guerra social, a revolução e o projeto constituíram lutas libertárias contra a ordem burguesa. A formação teve por objetivo a discussão, com alguma profundidade sobre alguns desses episódios da história social: Primeira Internacional, Comuna de Paris, o sindicalismo revolucionário no Brasil, Revolução Mexicana, Revolução Russa e Revolução Espanhola.

O espírito que permeou a discussão era o seguinte: buscar compreender os principais fatos do episódio revolucionário, avaliando quais foram seus aspectos positivos e negativos. Em suma, buscar aprender com esses processos e tirar deles lições que poderiam fortalecer as posições anarquistas em todos os sentidos e evitar que se cometam erros similares aos que foram cometidos no passado. Pontua-se abaixo alguns aspectos desses processos.

Primeira Internacional
A Associação Internacional dos Trabalhadores é a organização histórica do movimento operário revolucionário fundada em 1864 por inspiração do mutualismo proudhoniano e dos sindicalistas ingleses. A experiência dos internacionais dura até 1872, quando Bakunin, J. Guillaume, companheiros da ala federalista, são expulsos por um congresso fraudulento formado por uma maioria de aliados de Marx. As posições da ala federalista na Primeira Internacional lança as bases do que viria a se chamar sindicalismo revolucionário: solidariedade operária, independência de classe, táticas de ação direta.

Comuna de Paris
Uma insurreição popular toma conta da cidade de Paris, com apoio da Guarda Nacional e expulsa as autoridades. A Comuna de Paris é criada em 18 de março de 1871. A Comuna era constituída pelo comitê central de uma federação de delegados de bairro, com mandatos revogáveis e remuneração igual a dos operários. Louise Michel foi uma ativa militante da Comuna, junto de outros, tornando-se anarquista durante o processo de luta.

Sindicalismo revolucionário e luta libertária no Brasil
No Brasil, a atuação anarquista vai se dar, sobretudo, no impulso e na organização dos primeiros sindicatos de resistência e em grupos para a propaganda e a articulação na luta operária. Com o anarquismo, o movimento operário ganha definição classista, táticas de greve, sabotagem, forma uma cultura de resistência com imprensa, escolas, teatro. É realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, em 1906, de orientação sindicalista revolucionária, que funda a Confederação Operária Brasileira (COB). Lutas contra a carestia de vida, greves por redução de jornada, baixos salários, direitos sociais são heranças dessa época.

Magonistas e zapatistas na Revolução Mexicana
Em confronto com a ditadura do governo oligárquico de Porfírio Diaz, o latifúndio e os capitalistas estrangeiros, é desatada a revolução em 20 de novembro de 1910, tendo como precursora as agitações do Partido Liberal Mexicano (PLM). As forças liberais burguesas ocuparam a cena dos acontecimentos para chegar ao poder por uma revolução política. Uma disputa violenta entre coalizões e partidos se sucedeu até 1920. Os anarquistas do PLM e Ricardo F. Magón lançaram sua guerrilha do norte por uma revolução social. O exército camponês de Emiliano Zapata lutou por uma reforma agrária radical e fez do Estado de Morelos ao sul uma zona de municipalismo autônomo zapatista.

Revolução Russa e o poder dos sovietes
Pelo fim da guerra, contra a fome e a miséria que dilacerava o povo se levantou a luta revolucionária contra o Império dos czares russo. Em outubro de 1917 a revolução socialista colocou as fábricas na mão dos operários, deu a terra aos camponeses e liquidou os restos do sistema feudal. Socialistas e anarquistas faziam frente única até a que o partido comunista monopoliza o poder estatal e a sua burocracia usurpa o poder dos sovietes. O exército makhnovista da Ucrânia e os marinheiros de Kronstadt defendem até a morte os sovietes como órgãos de poder popular revolucionário.

Guerra e Revolução Espanhola
Quando as tropas reacionárias do general Franco se sublevam em 18 de julho de 1936 colidem imediata-mente com a radicalização do proletariado. Se abre uma guerra em toda a Espanha que para os anarquistas será a vez de aplicar seus planos de revolução social. O anarquismo mobilizava a maior força social de todo o país. Tinha na Confederación Nacional del Trabajo (CNT) cerca de 2 milhões de trabalhadores organizados pelo anarco-sindicalismo. A revolução espanhola fez coletivizações agrícolas no campo e socialização de cadeias produtivas na indústria e serviços públicos.

TEORIA DA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ANARQUISTA
“Possuir a capacidade política é ter consciência de si
como membro de uma coletividade,
afirmar a idéia que daí resulta e perseguir sua realização.”
P.-J. Proudhon

“O anarquismo é o viajante que toma as ruas da história
e luta com os homens tais como são e constrói
com as pedras que lhe proporciona sua época.”
Camillo Berneri

A tema da teoria da organização política foi tratado a partir de cinco eixos principais: prática política, organização específica, estratégia e tática, ação de massas e luta avançada. Serão pontuados alguns aspectos em relação aos eixos.

Prática política
A teoria aponta para a elaboração de conceitos e de um método para pensar e conhecer rigorosamente a realidade social e histórica. A análise profunda e rigorosa de uma situação concreta será um trabalho teórico o mais científico possível. A ideologia é composta de elementos de natureza não científica, que contribuem para dinamizar a ação. A expressão de motivações, a proposta de objetivos, de aspirações, de metas ideais, isso pertence ao campo da ideologia. Uma prática política eficaz exige o conhecimento da realidade (teoria), a postulação harmônica com ela de valores objetivos de transformação (ideologia) e meios políticos concretos para conquistá-la (prática política).

Organização específica anarquista
Para distinguir seu programa e não diluir sua bandeira na massa das forças sociais os anarquistas formam uma organização específica para a prática política. Por suas finalidades revolucionárias, a organização só reúne uma minoria ativa para poder atuar na luta pública e fora dela. A organização é uma federação de militantes com unidade ideológica e estratégico-tática, com democracia interna e uma disciplina consciente para suas realizações. O anarquismo organizado não substitui nem representa as organizações sindicais e populares. Dentro dessa concepção, não é um partido para tomar o poder, mas para ajudar a desenvolver capacidade política nas massas para construir poder popular.

Estratégia e tática
A atividade de uma organização política supõe uma previsão do devir possível dos acontecimentos durante um lapso mais ou menos prolongado, previsão que inclui a linha de ação a adotar pela organização frente a esses acontecimentos de maneira a influir sobre eles no sentido mais eficaz e adequado. Uma linha estratégica é, habitualmente, válida enquanto perdura a situação geral a qual corresponde. As opções táticas, na medida em que respondem a problemas mais precisos, concretos e imediatos, podem ser mais variadas, mais flexíveis. Sem dúvida não podem estar em contradição com a estratégia.

Ação de massas
A organização das forças populares, dos movimentos e organizações das classes oprimidas é parte fundamental da estratégia anarquista. Estar organizado socialmente e inserido nas lutas é um critério para atuar como força política. A classe trabalhadora e os movimentos sociais devem se organizar com independência de governos, partidos e patrões. A luta de massas é um espaço para fazer unidade em defesa dos interesses de classe. O anarquismo deve atuar como fermento moral e intelectual, levando seus métodos de luta e organização como um anticorpo de luta permanente contra a burocracia, o centralismo autoritário e a colaboracionismo. O lugar das ideologias na frente social não é o de protagonismo imediato, de partidarização, mas circulação de idéias, métodos e valores a partir das situações concretas que formam as experiências da luta.

Luta avançada
O problema da violência, como categoria da política, é fundamental num processo revolucionário que procure abater as estruturas de poder do capitalismo. A luta avançada é uma parte decisiva da prática política de uma organização revolucionária que atua também, com uma estratégia articulada e global, no nível das lutas populares. A luta revolucionária por objetivos socialistas deve contar com o protagonismo de um setor importante das massas e por isso não dispensa o trabalho político e ideológico no interior dos seus movimentos. A organização de uma força militante como elemento de choque e recurso técnico prévio da radicalização das lutas contra o poder burguês é uma exigência para uma estratégia vitoriosa de revolução social.

MARCO TEÓRICO E CATEGORIAS DE ANÁLISE (MÉTODO DE ANÁLISE)

Para o trabalho de análise, com a utilização de um método determinado, houve a necessidade de distinguir, como colocado, as categorias de ideologia e estratégia. A formação pontuou: O socialismo é uma aspiração, uma esperança dos povos e das classes oprimidas (ideologia). Mas precisa ter sua elaboração teórica, vinculada ao terreno do saber, dos estudos e da análise social rigorosa (teoria). Isso implica, portanto, ter claro quais são os elementos mais fixos que constituem a ideologia, e quais são os elementos teóricos, que funcionarão como uma caixa de ferramentas e que terão por objetivo proporcionar elementos para que se possa conhecer; nesse sentido, as ferramentas teóricas não têm, necessariamente, de ser anarquistas, ainda que se deva ter em conta a relação entre ideologia e teoria, ferramentas que devem proporcionar elementos para uma compreensão adequada do sistema, das formações sociais, da conjuntura. Nesse sentido, a teoria busca conhecer e a ideologia transformar.

Capitalismo como sistema de dominação
O capitalismo é um sistema. Sistema é um conceito para discernir o “núcleo duro”, a configuração dos elementos constitutivos que fundam e dão sentido a uma totalidade social. O capitalismo constitui um sistema de dominação que tem por constituição fundamental alguns elementos: Propriedade privada; exploração; disciplinamento dos corpos; a modalidade de representação, administração e justiça; um sistema coercitivo e repressivo; a existência de classes sociais; exclusão social. Esse sistema de dominação está formado por uma estrutura global formada por distintas esferas, entre elas: estrutura econômica; estrutura política-jurídica-militar; estrutura ideológica-cultural (idéias, representações, comportamentos, modo de informação, tecnologias de poder a ela unidas). Estrutura é o conjunto de elementos de uma organização social e suas relações, presentes no sistema de dominação. O capitalismo, concebido globalmente como sistema de dominação, possui agentes que impulsionam essa dominação em todas as esferas. Por exemplo: Política: organizações internacionais (FMI, Banco Mundial, OMC, União Européia, OTAN, etc); Economia: empresas transnacionais, bancos; Ideológico: conglomerados de mídia.

Interdependência das esferas
O método apresentado na formação baseia-se na interdependência das esferas e, portanto, entende o sistema como um todo no qual uma esfera influencia, sustenta e torna as outras dependentes. O sistema de dominação (capitalismo) é constituído por uma estrutura global formada por distintas esferas, estrutura esta que não têm determinação outra a não ser a interdependência. As distintas esferas da estrutura tem autonomia relativa, com elementos específicos que constituem no seu interior outras esferas menores. A dominância de uma estrutura sobre a outra não se estabelece a priori, é produto das análises respectivas. O sistema de dominação é dinâmico e atravessa várias etapas históricas mantendo elementos estruturais que o reproduzem de distintas maneiras.

Poder, dominação, resistência e as distintas esferas da sociedade
A estruturação da sociedade está baseada em última análise nas relações de poder e dominação, relações fundamentais que atravessam todas as esferas e configuram modos de articulação da estrutura global com seu característico núcleo duro. O poder circula por todo o corpo social, pelas diferentes esferas estruturadas. Vale dizer por todas as relações sociais. O poder está nas relações sociais, nos diferentes campos das relações sociais e o aparelho de Estado estaria contendo com toda sua dimensão, circulando pelo seu interior,certa síntese de poder dominante. Sendo assim, o poder não reside nas estruturas nem nas instituições, mas no campo das relações sociais. E não somente no político, mas também no econômico, ideológico, jurídico e todas as instituições do sistema. Teríamos assim poder no econômico, jurídico-político-militar, ideológico-cultural. Nesse sentido, há resistências nas distintas esferas que podem ser maiores ou menores, mais ou menos ameaçadoras ao sistema de dominação.

Poder e Estado
As instituições, os aparelhos, as estruturas não são amorfas, estão sempre penetradas pelo poder. Articulada a estrutura de produção, por exemplo, está o poder, as classes e as lutas. O aparelho de Estado contém certa síntese de poder dominante que circula no seu interior. Não se pode definir o Estado como o conjunto da sociedade e nem equiparar Estado e poder. O Estado é o lugar de “condensação” de diversos poderes, um lugar específico que tem sua própria “autonomia relativa” e que é capaz de manter e reproduzir privilégios de diferentes ordens. Sua dinâmica é centralizadora, apta só para dominação, sua função é repressora e controladora. Os conceitos básicos para o Estado o definem como monopólio da força repressiva organizada, da “justiça”, estrutura de privilégios, centralizadora, anuladora do que não controla.

Formações sociais e conjuntura
As formações sociais concretas são o campo da análise descritiva de sociedades históricas onde o sistema de dominação tem determinação em estado prático. O grupo de acontecimentos que marcam um momento específico das formações sociais e suas estruturas fundamentais formam a conjuntura.

Ideologia e sujeito
Determinados momentos históricos produzem com peso um conjunto articulado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos distintos sujeitos sociais. Um conjunto articulado de caráter imaginário, que toma a forma de “certezas” defendidas pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes. Isto é o que chamamos de ideologia (não confundir a ideologia da sociedade que se fala aqui com a ideologia anarquista, tratada anteriormente). Ideologia não é falsa consciência. O sujeito real não está representado na figura do “eu”, na consciência, mas é constituído na estrutura do inconsciente, isto é, nas formações ideológicas em que ele se reconhece. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. É construindo força social e tomando ativa participação nela que se podem formar embriões da nova civilização ou do “homem novo”, de outro sujeito. Digamos que este é o tema de como se transforma a consciência, para usar a linguagem clássica. Pelo que tem se visto a economia por si não transforma a consciência. O que o sujeito vive e como vive cotidianamente, historicamente, no marco de determinados dispositivos, seria o elemento principal de mudança de sua consciência. O que está no centro da história não é o homem, mas as lutas de poder e economia. Os fazedores de história seriam especialmente classes (grandes coletivos) operando como forças sociais.

VIA ESTRATÉGICA E PODER POPULAR
“O socialismo sem liberdade é a escravidão e a brutalidade;
a liberdade sem socialismo é a injustiça e o privilégio.”
Mikhail Bakunin

O anarquismo postula no processo de lutas uma ruptura revolucionária com a ordem porque é condição para fazer um caminho de construção final de uma sociedade socialista e libertária. O processo revolucionário, na mesma medida que desarticula as estruturas de dominação, abre caminhos para a construção do poder popular, concebido como o poder revolucionário protagonizado pelas organizações populares. Onde o político e o social adquirem uma nova articulação que o assegure. A viabilidade desta concepção do poder popular está vinculada com uma definição determinada da ruptura revolucionária. Dela dependem tanto o curso que possa seguir o processo revolucionário como as características concretas do confronto com as forças repressivas do Estado. Vamos conceber a ruptura nos termos de uma insurreição popular. Essa opção implica uma maior, mais ampla e mais decisiva participação das organizações populares. A construção do poder popular requer a preparação das organizações populares destinadas ao seu exercício. Não se trata de dar o nome de “poder popular” as velhas e conhecidas formas de ação política e representação que excluem o povo de toda instância de decisão fundamental. Criar ou recriar, fortalecer e consolidar as organizações operárias e populares e defender seu protagonismo é ir fecundando, passo a passo, um socialismo com liberdade. Importa muito como se orienta e concretiza o trabalho político e social permanentemente. É próprio da estrutura política especial do Estado a separação entre sociedade e poder, povo e política, sua reprodução institucional e pelo discurso de uma autoridade superior atribuída de impessoalidade que regula a vida social. Uma estratégia de poder popular deve levar em conta a necessidade uma nova estruturação político-social que descanse no protagonismo das organizações populares e articule o poder em torno da participação das bases nas decisões fundamentais do processo político da sociedade. A revolução que queremos é uma revolução socialista e libertária, portanto delimita desde o princípio amigos e inimigos. Uma revolução anticapitalista e antiautoritária aponta inconfundivelmente ao desaparecimento das relações de dominação e, assim, contra a sobrevivência de todas as classes e camadas dominantes. É uma revolução que pretende o desaparecimento da burguesia como classe, o desaparecimento de latifundiários e capitalistas, castas militares e hierarquias estatais. A revolução socialista e libertária só pode encontrar combatentes nas classes oprimidas. A frente de classes oprimidas a que nos referimos se constitui como uma rede de relações permanente, ligada programaticamente, da multiplicidade de organizações de base capazes de expressar na luta os interesses imediatos destes setores sociais e de desenvolvê-los e aprofundá-los no sentido de metas e orientações do tipo transformador e socialista.

A CONSTRUÇÃO DO ANARQUISMO DE BASE ESPECIFISTA NO BRASIL

A formação realizada em Curitiba, conforme avaliação do FAO, foi uma experiência muito relevante. Realizada pela FAG anteriormente para seu conjunto de militantes, pôde ser aperfeiçoada e estendida a um coletivo mais amplo. Essa atividade de formação evidenciou a necessidade de construção de um material próprio de formação, capaz de potencializar aquilo que se convencionou chamar de anarquismo especifista no Brasil.

O momento parece bastante propício. O FAO constitui um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista. O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma verdadeira organização anarquista no Brasil, de caráter especifista. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já. Fazem parte do FAO hoje, cinco organizações pelo Brasil: Federação Anarquista Gaúcha (FAG), do Rio Grande do Sul; Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP), de Alagoas; Rusga Libertária, do Mato Grosso; Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), do Rio de Janeiro e a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo. Encontram-se em processo de aproximação organizações e grupos dos seguintes estados: Santa Catarina, Paraná, Ceará, Pernambuco, além de individualidades em outros estados. Portanto, esse momento tão importante para o anarquismo especifista que avança lutando e organizando, forjando as bases para uma unidade que permita constituir uma organização nacional.

Temos abertamente a intenção de fortalecer os estados em que estamos presentes e de conseguir aproximar a militância de outros estados, afim de fortalecer esse processo organizativo. Se você se interessa pelas nossas propostas, não deixe de entrar em contato!

Não tá morto quem peleia!
Arriba los que luchan!

Militância envolvida no Primeiro Curso de Formação Política da Região Sul
Fórum do Anarquismo Organizado – Brasil

http://www.vermelhoenegro.org

Declaração de Princípios e Intenções (FAO)
http://www.anarkismo.net/article/17346

Julho de 2011

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