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[FAG] 100 anos da Greve Geral de 1917

Retirado de: https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/08/03/100-anos-da-greve-geral-de-1917-2/

A seguir, o texto de memória histórica lido durante o Ato da FAG  em celebração do centenário da Greve Geral de 1917 no Brasil realizado na última sexta-feira, dia 28 de Julho no Teatro da Cia de Artes em Porto Alegre, RS.

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

Com a fraternidade libertária que nos é de costume, estendemos a mão para todos e todas que se fazem presentes neste momento especial em que comemoramos o centenário da greve geral operária de 1917 no Brasil. De princípio fica avisado que não é nosso propósito falar ou pintar um passado puro e irretocável, de sujeitos perfeitos e histórias impecáveis. Alguém já disse e vale muito para as nossas circunstâncias: a inteligência precisa estar armada de memória, não para fazer exercício diletante, MAS PARA CONSTRUIR NO PRESENTE, COM SEDE DE JUSTIÇA SOCIAL E COM VONTADE MAIS TENAZ E POTENTE, UMA SOCIEDADE LIVRE E EQUÂNIME.

O que nos motiva nesse momento é recordar um pedaço de história tingida de sonho e rebeldia dos oprimidos, dessa longa história negra e vermelha, de muitas cores que matizam mais de 500 anos de opressões, lutas e resistências. Nossa melhor homenagem para com todas e todos que nos antecederam é seguir peleando, criando resistência libertária com o coração pulsando um mundo novo, abrindo caminho pelo passo da luta e da organização.

Por regra geral, o esquecimento, a desfiguração, o extravio da memória são armas usadas pelos opressores de ontem e hoje, para liquidar o exemplo que nos encoraja e que transmite saberes e experiências das lutas sociais passadas. A formação e o desenvolvimento das grandes cidades – isso que se chama na língua dominante por progresso capitalista –, foi montado por cima de dores e tragédias, da luta irreprimível dos povos e das “classes perigosas” para o triunfo da prosperidade burguesa.

“(…) de manhã, antes do sol ruborizar o polido horizonte, os becos, as pocilgas infestas e imundas despejam uma multidão de trabalhadores – homens, mulheres e crianças, que pelas ruas escusas e lamacentas, desfilam rotos, andrajosos, mal dormidos e mal alimentados, com os músculos das faces contraídos pela dor, pela fome, pela miséria! Que desfilam todos silenciosamente como fantasmas que a cova não quis guardar, que seguem todos pacificamente como carneiros ao matadouro; os homens encolhidos, cabisbaixos, como que vergados sob o enorme jugo da miséria que os aniquila; as mulheres de semblantes tristes, tangidos pela mágoa e pelo sofrimento, levando para a fábrica saudades dos filhinhos que tiveram que abandonar em casa, chorando, por não encontrarem o alimento suficiente (…); as crianças com as faces ainda umedecidas pelas lágrimas que dolorosamente verteram ao abandonar os cacos que lhes serviam de brinquedos e as flores apanhadas na rua, para ir ao tugúrio, onde as máquinas e engrenagens produzem infernal barulho e permanecem ali durante doze intermináveis longas horas, para ir à fábrica onde seus olhos não poderão ver o sol, onde seus franzinos pulmões não encontrarão ar puro, e onde não poderão brincar com as borboletas e as flores…”

Dolorosa e amarga descrição do cotidiano da classe trabalhadora que faz o companheiro Zenon de Almeida, em conferência pública ao sindicato dos sapateiros em 1914.

SIM! ENQUANTO UNS SEGUEM PARA AS BASTILHAS MODERNAS COM UM MAGRO CAFÉ NO ESTÔMAGO, SEM SABER NEM MESMO SE TERÃO COM QUE ALMOÇAR OU JANTAR, OS OUTROS SEGUEM CHEIOS ATÉ A INDIGESTÃO, PENSANDO QUAIS AS PÍLULAS QUE SERÃO MELHORES PARA RESTITUIR O APETITE.

HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS SEGUEM MACABROS PARA O EXAUSTIVO TRABALHO, TRABALHO BESTIAL (…) ENQUANTO OS RICOS PROCURAM O REPOUSO DEPOIS DE UMA NOITE DE AFRODISÍACA ORGIA (…) ESBANJAM O TRABALHO DE MIL BRAÇOS.

A questão social feita bandeira de combate dos miseráveis foi parar nas garras da polícia desde sempre, sobretudo quando o povo se levanta e reclama pela justiça e pela liberdade que o capitalismo lhe nega sistematicamente. Esse, por sua vez, ataca feroz como estrutura de dominação e de violência sistêmica que lhe é tão particular.

A industrialização brasileira e o crescimento da urbanização se deram de forma lenta e se desenvolveram sobre o sangue negro do escravismo-colonial que possibilitou a acumulação gerada pela atividade produtiva agrária.

A concentração da indústria no século XIX se dava em torno do eixo Rio-São Paulo e, em menor escala em Porto Alegre. Já contando com a mão de obra super explorada de negros (antes e depois da Lei Áurea em 1888), a política racista das elites brasileiras incentivou a imigração de europeus para que os postos de trabalho fossem ocupados por brancos. O contingente operário passou a ser formado também por muito imigrantes, italianos, espanhois e portugueses, que trouxeram consigo as experiências e valores do socialismo libertário. As lutas em curso no país já neste período – século XIX –, não foram, no entanto, resultado de uma “importação” pura e simples da experiência que trouxeram os imigrantes. O imaginário da resistência negra e indígena encontrava-se com o horizonte do anarquismo em meio ao tardio desenvolvimento do capitalismo brasileiro dentro de uma nova forma de exploração humana em condições históricas e de formação social específicas.

Organizando, impulsionando e avançando pela luta de classes, o anarquismo criou meios para geração de valores diferentes daqueles vividos pelas classes dominantes. Como movimento de massas, encarnou com todas suas consequências a máxima: “a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”. O que se vulgarizou como “infância do socialismo” foi, nada mais, nada menos, que as curvas de uma experiência histórica genuína de independência de classe. O Anarquismo faz vetor de uma cultura política feita a pulmão debaixo do fogo inimigo, que rompeu com o colaboracionismo de classe da formação social-democrata que já trazia germes de burocratização e separou o fazer da luta operária dos valores e das instituições do mundo burguês. O incansável trabalho organizativo e de propaganda revolucionária dos libertários gerou instrumentos de luta e conquista econômica no movimento operário (os sindicatos classistas), de educação libertária e popular (as escolas racionalistas e as universidades do povo), de cultura de classe (os ateneus operários, bibliotecas sindicais, grupos de teatro social, bandas e liras operárias, atividades de lazer e recreação para toda família trabalhadora), de literatura socialista (com a publicação e distribuição em massa de livros como A conquista do pão, O salário, No Café, Germinal) de informação (os periódicos operários) e de defesa (os grupos de autodefesa e sabotagem).

Em 1906 é realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, onde converge o caudal de forças sociais nucleadas em cenário urbano pelas organizações de resistência. É fundada a Confederação Operária Brasileira (COB) e o jornal “A Voz do Trabalhador”, seu órgão de comunicação.

O sindicalismo revolucionário, já esboçado pela posição de Bakunin e a ala federalista da Primeira Internacional décadas antes, era estratégia para as organizações operárias: nenhuma expectativa nas estruturas do poder do Estado, nenhuma ilusão com as disputas por cargos. A chamada “neutralidade política” nada mais era que a convicção de se manter fora das esferas da política burguesa, e o reforço da importância de manter os sindicatos abertos a todos operários e suas famílias sem adoção de critério de distinção ideológica ou religiosa. Evitava-se, assim, tanto o risco da burocratização e da conciliação de classes, quanto os perigos da disputa interna entre trabalhadores devido a doutrinas ou programas políticos. Defende-se a organização das mulheres, a priorização da luta pelas 8 horas de jornada de trabalho e decide-se pela criação de escolas laicas para os sócios das associações operárias e seus filhos. A ação direta foi adotada como tática do movimento sindical, fortalecendo a concepção de que o protagonismo é de quem vive do trabalho e da luta, não de intermediários de partidos políticos ou chefes de Estado.

O sindicalismo revolucionário como estratégia sindical se confirma pelas teses aprovadas no primeiro Congresso de 1906, quando este:

“aconselha o proletariado a organizar-se em sociedades de resistência econômica, agrupamento essencial e, sem abandonar a defesa, pela ação direta, dos rudimentares direitos políticos de que necessitam as organizações econômicas e, pôr fora do sindicato, à luta política especial de um partido e as rivalidades que resultariam da adoção, pela associação de resistência, de uma doutrina política ou religiosa, ou de um programa eleitoral.” E ainda: “O Congresso considera como único método de organização compatível com o irreprimível espírito de liberdade e com as imperiosas necessidades de ação e educação operária, o método federativo, a mais larga autonomia do indivíduo no sindicato, do sindicato na federação e da federação na confederação e como unicamente admissíveis simples delegações de função sem autoridade.”

Ao unir-se nas associações operárias de resistência – que, a partir de então, no Brasil, passariam a se chamar sindicatos – para lutar, utilizando como métodos a ação direta, a independência e o federalismo, estava em curso uma luta sindicalista de intenção revolucionária. O projeto libertário atribuía dupla função ao sindicato: a luta coletiva e solidária de defesa operária e conquistas imediatas e a acumulação de forças e capacidade política para a autogestão socialista dos meios de produção.

O sindicalismo, ainda que focado em conquistas por dentro do sistema capitalista, era o movimento capaz de preparar a classe trabalhadora para as grandes lutas pelo socialismo e pela liberdade. Ainda hoje, entende-se que é a partir da vida de todos os dias, dos sofrimentos e reivindicações e laços cotidianos que se criam as condições para embates mais amplos e profundos. É com um povo forte, produzido por militância diária, com organizações de base e na luta por direitos e liberdades que se avança rumo ao Poder Popular.

A conjuntura econômica, produzida no contexto prévio à Primeira Guerra, viu ao mesmo tempo o aumento do operariado com a industrialização, os baixos salários, o desemprego com o crescimento das cidades e a carestia da vida. Esses foram os temas de luta no 1º de Maio de 1917 pelo país.

No início de Junho de 1917, operárias da fábrica têxtil Crespi, no bairro da Mooca em São Paulo, paralisam suas atividades reivindicando aumento de salário e redução da jornada de trabalho. É preciso lembrar: a grande greve de 1917 teve impulso com a luta de mulheres. A fábrica havia praticamente dobrado seus lucros em dois anos com aumentos contínuos da jornada de trabalho sem aumento de salário. Além disso, uma motivação é a revolta das trabalhadoras contra o assédio sexual por parte de supervisores. Outras mobilizações já haviam ocorrido contra supervisores em virtude da violência contra as mulheres. As operárias, em sua tripla jornada, também eram aquelas que acompanhavam a perda de poder aquisitivo, pois tinham o controle dos gastos familiares, o que impulsionava também a luta contra a carestia.

A participação das mulheres anarquistas no movimento operário, muitas trabalhadoras têxteis, é decisiva, antes, durante e depois da greve geral de 1917. Militantes como Isabel Cerruti, Maria de Lourdes Nogueira, Branca Nery, Alzira Werkauzer, Elvira Boni e Angelina Soares demonstraram que a luta pela emancipação da humanidade contra o capitalismo passava pela emancipação das mulheres.

No final de Junho, a greve das operárias da Crespi já contava com a solidariedade da adesão de 1.500 operárias e operários da fábrica Ipiranga, também têxtil. Greve que se espalha por outros ramos, como móveis e atinge também a indústria de bebidas Antarctica.

Em Julho, a greve seguia se generalizando por toda a cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país, com batalhas nas ruas. Como as fábricas possuíam pouco ou nenhum estoque, a paralisação das atividades causava impacto quase imediato no comércio, ou seja, no dia a dia da cidade.

Uma unidade de cavalaria da polícia de São Paulo reprime violentamente uma manifestação no dia 9 de Julho. Nesta ação, é assassinado pelas forças da repressão, com um tiro no estômago, o sapateiro espanhol anarquista José Martinez, com apenas 21 anos de idade.

Este episódio causou a ampliação da greve pelo estado e pelo país. Em Campinas tivemos o confronto em uma linha férrea que ficou conhecido como “O massacre da Porteira do Capivara”, onde 16 foram feridos e 3 foram mortos pela polícia. Em sua maioria, os manifestantes eram ferroviários e metalúrgicos, entre eles Armando Gomes, operário negro que impulsionava as ligas operárias de bairros e era também a principal liderança da organização negra, a Liga Humanitária Homens de Cor.

O funeral do jovem operário Martinez, ocorrido no dia 11 de julho, foi o grande estopim da explosão de solidariedade, que se transformou na principal arma de luta dos grevistas contra as baionetas e os sabres da polícia. Uma enorme manifestação popular, com bandeiras negras e vermelhas, refletia a dor e a sede de justiça proletária. As barreiras impostas pelo policiamento eram rompidas pela multidão que seguia impetuosa até o cemitério. Como de praxe, este funeral – transformado em ato político –, resultou em forte repressão por parte da polícia e das tropas do exército, uma vez que alguns batalhões recusaram-se a intervir. Encorajadas pela mobilização, várias entidades de classe de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Sul vão se juntando ao movimento grevista.

Depois de ter enterrado a primeira vítima da greve, o Comitê de Defesa Proletária, núcleo articulador dos diversos setores em São Paulo, reuniu-se, clandestinamente, na noite de 11 de julho, com representantes de trinta e seis associações operárias e de várias comissões de grevistas com o objetivo de agrupar num único Documento/memorando, as reivindicações comuns a todas as categorias profissionais, previamente discutidas nas suas respectivas agremiações. Com os comércios fechados e os transportes parados, os governos se viam impotentes diante da ação operária insurgente. A repressão apenas fortalece a luta e a greve segue firme, com piquetes e sabotagens em fábricas e passeatas pelas ruas.

No Rio Grande do Sul, segundo o companheiro gráfico Polidoro Santos o anarquismo registra atividades desde fim do século XIX. Ao calor da greve generalizada dos 21 dias, em 1906, os trabalhadores anarquistas agrupados na União Operária Internacional (UOI) e, através do jornal A Luta, fizeram ativa propaganda de um sindicalismo de ação direta, formado por organizações de resistência da classe operária, com independência política de governos, partidos e patrões.

A partir de 1909 o sindicalismo classista que praticavam os libertários se integra na Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). As ligações com associações do interior eram mais esporádicas e a FORGS congregava, sobretudo, organizações operárias de Porto Alegre, tendo sede no Ateneu Operário da rua Santo Antônio. Teve atividade contínua pelo menos de 1909 até 1927.

Em 1917 os primeiros incidentes se dão quando em Santa Maria um grupo de ferroviários da Viação Férrea do Rio Grade do Sul se apossa de uma locomotiva e percorre a linha de Marcelino Ramos propagandeando a greve. No dia 29 de julho circularia amplamente um protesto que denunciava a exploração dos trabalhadores pela administração da ferrovia.

A assembléia dos operários dos canteiros, pedreiros e carpinteiros, onde o anarquismo radicava uma posição forte, bem como a agitação da UOI (União Operária Internacional) por uma reunião geral de todas categorias na FORGS, no domingo 29 de julho, deram o estalo para a greve geral em Porto Alegre. Mais de 500 trabalhadores se reuniram para aprovar a declaração de greve, nomear um comando que se chamou Liga de Defesa Popular (LDP) e demarcar uma pauta de reivindicações. A FORGS dirigida em 1917 pelo socialismo reformista foi empurrada para a Greve Geral a contra gosto de seus dirigentes.

A pauta de reivindicações versava sobre pontos que atendiam sentidas demandas populares, como o preço dos alimentos, moradia e transporte coletivo, bem como questões classistas de luta contra a patronal, como a redução da jornada de trabalho para 8 horas, o aumento de 25% sobre os salários e a regulamentação do trabalho de mulheres e crianças.

No dia 30, boletins da FORGS e do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Classes Anexas, distribuídos e afixados em postes no Campo do Bomfim, convocam os trabalhadores para uma concentração pública na Praça da Alfândega para o dia seguinte. A LDP (Liga de Defesa Popular) havia preparado um comício para publicizar a greve no dia 31 de julho.

Ao meio-dia os ferroviários do Rio grande do Sul se declaram em greve, o que já condicionou a paralisação do alto comércio neste dia. Na tarde do dia 31 já estavam em greve as estações de Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Bagé, Gravataí, Passo Fundo, Couto, Cacequi e Rio Pardo. O inspetor da Viação Férrea promete despedir todos os grevistas, passa a admitir funcionários não especializados e solicita a imediata intervenção das tropas militares.

Uma hora antes do comício já era intenso o movimento de populares na praça da Alfândega, em Porto Alegre. Meia hora depois chegava o policiamento, com mais de 120 homens da BM (brigada militar), Piquete da Chefatura de Polícia, Escolta Presidencial, Polícias Administrativa e Judiciária.

O comício foi aberto por Luiz Derivi e contava com a participação de cerca de 4.000 a 5.000 pessoas e forte reforço policial. Cecílio Vilar dá o tom logo a seguir:

“o momento não é para conciliações, é de luta. A luta mais justificável, a luta pela vida. Os operários devem se erguer como um só homem, para sair as ruas e conquistar o pão que nos está sendo roubado e a fim de protestar contra a exploração de que é vítima a classe trabalhadora”.

Entre 31 e 4 de agosto a vida urbana em Porto Alegre foi completamente alterada. Participaram da greve pedreiros, padeiros, trapicheiros e estivadores, trabalhadores da Cia (companhia) Força e Luz, operários têxteis, carroceiros, caixeiros, choferes, tipógrafos, entre outros. Estimativas apontam para cerca de 30.000 grevistas em Porto Alegre.

No dia da deflagração da greve se reuniu a União dos Condutores de Veículos, decidindo a adesão da categoria. Estes trabalhadores passariam a controlar o tráfego na capital. No dia 1º de agosto o diretor da Santa Casa dirige-se à FORGS para solicitar providências no sentido de manter o fornecimento de gêneros à casa de saúde. Foram fornecidos ao diretor dois salvo-condutos, assim como ao Hospício São Pedro e Asilo da mendicidade, e estaria livre a venda de gêneros as residências onde houvesse doentes. No salvo-conduto, em cujo topo lia-se “Justiça”, em vermelho constava também: “O portador do presente tem plena autorização da Liga de Defesa Popular (LDP) para conduzir carne verde e outros artigos destinados aos doentes da Santa Casa”. Sem o documento não havia circulação de carroças.

No dia 2 de agosto se dá uma ocupação militar da estação de Santa Maria. Em represália, os grevistas arrancam trilhos, derrubam pontes e bloqueiam a via com dormentes e postes telegráficos em vários pontos do estado. Alguns trens passam a circular guarnecidos por tropas. Em Passo Fundo há violentos choques entre ferroviários e forças militares.

Neste mesmo dia é convocada uma manifestação pública para pressionar o governo, cujos locais de concentração seriam a FORGS e a Praça dos Navegantes. A manifestação se dirigiu ao palácio do governo estadual, onde uma comissão da LDP (Liga de Defesa Popular), composta pelos anarquistas Luiz Derivi, Cecílio Vilar e Zenon de Almeida é recebida pelas autoridades. Borges de Medeiros declara que decretaria medidas de controle da exportação e atenderia a questão de horas de trabalho e salários para os empregados do estado. A comissão saiu do palácio e comunicou aos já estimados 5000 manifestantes os intentos do governo estadual e municipal. Após as promessas de Borges a greve não declinou e tampouco se tornou mais “pacífica”.

A partir daí aumenta a pressão pelo fim da greve tanto pela imprensa como pela polícia. No dia 3 o Chefe de Polícia ameaçou a proibir os meetings e as reuniões em praças públicas, e a partir da tarde são proibidos os “ajuntamentos”. A cidade se assemelhava a uma praça de guerra e em todos os recantos suspeitos havia pelotões de infantaria e patrulhas de cavalaria cruzavam com freqüência. Nessas condições, sem possibilidade de manifestações, a greve se reduziria ao confronto patrão-empregado. Durante todo o dia 4 são feitas reuniões na sede da FORGS avaliando a situação, e às 23h a LDP (Liga de Defesa Popular) publica um boletim anunciando o fim da greve e comprometendo-se a apoiar as categorias que ainda se mantivessem paralisadas. Manter-se-ão ainda paralisados estivadores, padeiros, alfaiates, sapateiros, chapeleiros, pedreiros e carpinteiros, calceteiros e canteiros, operários de fábricas de móveis e operários de fábricas de meias.

No dia 5 de agosto chega ao fim a greve dos ferroviários, diante da violenta intervenção das tropas federais, e sem nenhuma reivindicação conquistada devido a intransigência da direção da Viação Férrea, controlada na época por uma concessionária belga.

Também haveria greves importantes em Pelotas, Rio Grande, Passo Fundo, Santa Cruz, Montenegro, Bagé e outros centros.

Em relação a totalidade das reivindicações, pode-se dizer que houve vitória parcial dos trabalhadores. Muitos militantes anarquistas tiveram que sair de Porto Alegre devido às perseguições resultantes de sua atuação na greve, sobretudo após os movimentos que vieram em seguida em 18 e 19.

PORTANTO, COMPAS: “É PRECISO QUE NOS REVOLTEMOS, LUTANDO SEMPRE”, tal como declarou Zenon aos compas sapateiros, na conferência que já fizemos memória.

QUE IMPORTA QUE A AURORA SEJA RUBORIZADA PELO CLARÃO DO INCÊNDIO!” avisou Spartacus do Sul.

QUE IMPORTA QUE NA MADRUGADA DESSE DIA A TEMPESTADE SEJA TEMPESTADE DE SANGUE! O SOL É MAIS BRILHANTE DEPOIS DO VENDAVAL.

HOMEM LIVRE, MULHER LIVRE, SOBRE A TERRA LIVRE!

À LUTA E À ORGANIZAÇÃO!

Com Espertirina, Eulina e as valentes irmãs Martins, Djalma Fetterman, Reinaldo Geyer, Nino e a ação direta que respondeu aos carrascos e algozes do movimento operário. Com a pedagogia libertária de Dorvalina, a agitação de classe e feminina de Alzira, a luta incansável de Luiz Derivi entre os pedreiros, de Polidoro Santos e o grupo solidários dos gráficos, a convicção libertária e classista de Orlando Martins.

Conosco ficam os exemplos de uma vida rebelde que não se amansa, que não se dobra ao opressor. Para armar o cotidiano social-político e nossas práticas de resistência com aqueles valores de solidariedade, liberdade e justiça que dão sentido para palavra COMPA. Para não ceder nossa vontade libertária e se acomodar ao mundo miserável, dominador e opressivo que tanto repudiamos.

Esse é o sentido e o valor da memória que aqui reclamamos em alta voz. Sempre com os que lutam e os que não vendem sua independência por confortos e privilégios da máquina de picar carne do sistema capitalista. Com o socialismo e a liberdade no coração que não teme as ruínas e que leva um mundo novo por onde passa e naquilo que faz.

NÃO SE AJUSTA QUEM PELEIA.

VIVA A ANARQUIA!!!!

[CAB] Luta Social #2 – julho/2017

Mais um número do Luta Social, publicação de circulação nacional da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) que traz nesse número um editorial sobre a Greve Geral, nota sobre as eleições da APEOESP, artigo histórico sobre os 100 anos da greve geral de 1917, informes sobre trabalho de base e texto sobre a brutal repressão que atinge os camponeses e trabalhadores rurais no Brasil.

Lutar! Criar Poder Popular!

Baixe clicando na imagem ou no link: Luta Social #2 – julho/2017


[OASL] 99 anos da Greve Geral de 1917

Retirado de: https://anarquismosp.org/2016/07/16/99-anos-da-greve-geral-de-1917/

Em 1917, a classe trabalhadora de todo o mundo sofria com os ecos da Primeira Guerra Mundial e com o progresso predatório do capitalismo, que tornava o trabalho nos campos e nas indústrias cada dia mais penoso. A insatisfação das trabalhadoras e trabalhadores reverberava na intensificação de suas lutas, em especial na forma do sindicalismo revolucionário, que se caracterizava como a força mais presente nas lutas da América Latina.

Na cidade de São Paulo, além da precarização do trabalho, dos baixos salários e da ameaça constante do desemprego, também veio a somar uma crise de alimentos que multiplicou o preço do pão sem alterar um centavo no salário. Como resposta, a partir do mês de maio, os sindicalistas tomaram as ruas se manifestando por melhores condições de trabalho e de vida.

José Ineguez Martinez, um jovem sapateiro e anarquista de 21 anos, foi assassinado pela polícia de São Paulo no dia 09 de julho. Com um tiro no estômago, foi levado para a Santa Casa, onde faleceu no mesmo dia. Os sindicatos e jornais operários de toda a cidade espalharam a notícia no dia seguinte, chamando a adesão da classe à greve. Na manhã do dia 11, cerca de 10 mil pessoas acompanharam o seu enterro.

A organização dos trabalhadores, que já vinha sendo construída pelos anos, mostrou resultado no fortalecimento da greve. Estima-se que a greve chegou a ter a adesão de 100 mil trabalhadores. O fim da greve, que hoje completa 99 anos, ocorreu no dia 16 de Julho. Em uma semana conseguiram do poder público, dentre outras conquistas, o compromisso em reduzir os preços dos alimentos e em tirar medidas pela defesa de trabalhadores menores de 18 anos e das trabalhadoras de período noturno. Foi o início de um processo revolucionário: boa parte de São Paulo ficou sobre controle dos trabalhadores e a patronal, temerosa, foi colocada contra a parede.

A Coordenação Anarquista Brasileira vem reconstruindo, desde baixo, o vetor social do anarquismo. No contexto que vivemos hoje, com o crescente corte nos direitos trabalhistas, tão arduamente conquistados pela organização popular, é urgente resgatar a história de luta das e dos anarquistas e sindicalistas de 1917. Vemos hoje a utilização das ferramentas históricas dos trabalhadores, como as ocupações, utilizadas atualmente nas lutas dos povos oprimidos. É o caso dos estudantes e educadores da cultura que atualmente sustentam as ocupações das fábricas de cultura do governo do estado. Mantendo viva sua memória e continuando o seu trabalho, pelas reivindicações, mobilizações e ocupações, é que poderemos construir um mundo novo.

Não nos esqueceremos!

 

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[OASL] Memória – Edgard Leuenroth (1881-1968)

Retirado de: http://anarquismosp.org/2015/11/18/memoria-edgard-leuenroth-1881-1968/

Edgard Leuenroth participou ativamente do movimento operário e foi uma das principais referências do anarquismo brasileiro durante a primeira metade do século XX.

O ofício de tipógrafo o inseriu no movimento operário, onde ajudou a fundar o sindicato dos tipógrafos que mais tarde viria a se tornar o sindicato dos gráficos. Tornando-se uma das referências anarquistas no sindicalismo revolucionário de São Paulo e do Rio de Janeiro, foi um dos articuladores da Greve Geral de 1917.

Partidário do organizacionismo, esteve à frente de importantes periódicos anarquistas como A Plebe e Ação Direta. Foi por meio da imprensa que Edgard ajudou o anarquismo a resistir e se rearticular nos momentos de mais aguda repressão. Este militante compreendia que a memória também é um campo de disputa política, preocupando-se com a preservação da memória do anarquismo e do movimento operário, conservando grande volume de documentos, jornais, periódicos e outros arquivos.

Edgard Leuenroth é parte da história do anarquismo no Brasil.

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Lutas Sociais e o Retorno do Anarquismo Organizado às terras paranaenses

Retirado de: https://coletivoanarquistalutadeclasse.files.wordpress.com/2010/11/no-batente-out2015-versc3a3o-final.pdf

Publicado no jornal No Batente #5

Anarquismo e a luta de classes: no mundo, no Brasil, no Paraná

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O Anarquismo, Socialismo Libertário, é um projeto político ideológico forjado na luta entre a classe dominada e a dominante, surgindo no século XIX. É na Europa e na luta entre os trabalhadores urbanos e seus patrões que o anarquismo vai se constituindo, consolidando-se enquanto projeto político dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). A partir da segunda metade do século XIX, o anarquismo passa a ter muita relevância nos movimentos do campo e da cidade, destacando-se em movimentos revolucionários em Paris, México, Ucrânia, Manchúria e Espanha.

No Brasil, o anarquismo começou a se desenvolver a partir do final do século XIX, em meio ao crescimento da população urbana e da indústria. A exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, com jornadas de trabalho extenuantes, condições insalubres e salários baixos, deu espaço a inúmeras revoltas e greves. Neste período, milhares de imigrantes europeus vieram ao Brasil e se juntaram a um povo lutador e mestiço que já batalhava aqui, trazendo consigo também a ideologia do anarquismo que tinha grande influência nos movimentos populares na Europa.

É no final do século XIX que a Colônia Cecília surgiu, comuna que ocorreu no município de Palmeira no Paraná, e no começo do século XX que as mobilizações urbanas tiveram grande força e influência anarquista no Paraná e no Brasil.

Com greves e revoltas históricas, os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras conquistaram aumentos de salário e direitos trabalhistas, mas, com a repressão e criminalização do Estado, tanto o movimento sindical como a articulação dos anarquistas enfraqueceu. Com centenas de deportações e prisões, o anarquismo deixou de ter destaque nas mobilizações populares por quase todo o resto do século XX no Brasil e até o século XXI no Paraná.

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Após a repressão e criminalização às organizações anarquistas no início do século XX, o anarquismo perdeu seu vetor social, isto é, perdeu sua relevante inserção nos movimentos populares durante várias décadas. No Paraná, o CALC tem como objetivo retomar este vetor social, assim como as demais organizações da CAB pretendem fazê-lo em seus estados. Para nós, é essencial que a organização anarquista influencie os movimentos sociais para que eles sejam os mais combativos e agreguem mais gente possível, construindo a partir das bases a luta contra a dominação.

O Paraná é e foi palco de muita luta da classe oprimida. No campo e na cidade, a revolta e a organização dos de baixo é marca presente neste estado do sul do Brasil. Os conflitos agrários e sindicais estão muito presentes desde o final do século XIX, a luta por reforma agrária e melhoria de salários já perdura por mais de um século e a resistência dos de baixo se manteve contra a ditadura civil-militar, contra os latifundiários e patrões.

Desde o final da ditadura no Brasil, muita luta e organização foi feita no Paraná, surgindo aqui o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fundado em Cascavel na década de 80; existindo um histórico forte de luta sindical nos 80 e 90 nos centros urbanos; criando-se vários movimentos de luta por moradia e associações de moradores que permitiram que milhares de pessoas tivessem uma moradia e conquistassem serviços públicos nas periferias desde a década de 80; além de um movimento estudantil que luta a décadas contra a precarização e privatização.

Atualmente vivemos uma conjuntura muito difícil para a classe oprimida, no Paraná e no Brasil. Para grande parte do povo brasileiro o Partido dos Trabalhadores (PT) representou a esperança de mudança e melhoria de vida. Porém, apesar de o PT estar inserido fortemente em inúmeros movimentos sociais no campo e na cidade, seu objetivo sempre passou por “conquistas eleitorais”, de modo que qualquer transformação radical deixa de ser possível. Especialmente quando o PT ganha a presidência do Brasil evidencia-se como vários instrumentos de luta da classe oprimida (como sindicatos, associações de moradores, entidades estudantis, movimentos do campo) estavam dependentes desse partido, passando a ser cada vez mais burocratizados e atrelados a interesses partidários. Entretanto, tais interesses são muitas vezes antagônicos aos de quem o partido se propõe a representar.

Retomada do Anarquismo Organizado nas lutas sociais no Paraná

Neste cenário recente é que o CALC surge e tem como tarefa se inserir nos movimentos e contribuir para que não se reproduzam os mesmos erros e vícios da esquerda institucional, que considera os movimentos sociais como meio de disputar o Estado. Propomos e temos agido no sentido da busca de transformações da realidade concreta, a partir da defesa do caráter classista e combativo dos movimentos, acumulando força social para que consigamos acabar com o sistema capitalista.

Desde seu surgimento, o CALC atua em diversas frentes de luta e seu esforço é para ampliar ainda mais sua atuação. Mesmo antes de seu lançamento público, seus militantes fundadores atuaram no movimento estudantil universitário, na luta pelo transporte público e na luta comunitária, em Curitiba. E com o decorrer dos anos foi estendendo sua atuação para a luta sindical, pela saúde e expandindo sua influência para além da capital paranaense.

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Luta pela Educação

Atuamos nas greves de 2011, 2012 e 2015 na UFPR, que tiveram várias conquistas importantes no âmbito da assistência e permanência estudantil, com caráter combativo e organizado desde as bases dos cursos.

Diante da crise econômica gerada pelos de cima, os de baixo são obrigados a pagar a conta, mais uma vez. No Brasil, o ano de 2015 iniciou com a ameaça de um ajuste fiscal que pretendia enxugar os gastos públicos para aumentar o lucro dos grandes bancos e empresariado. A educação sofreu corte de 18 bilhões de reais e está previsto corte ainda maior para o ano de 2016, com congelamento dos salários e na contratação de professores até 2017. Em consequência disso, diversas universidades pelo país estão sem verbas para manter seu funcionamento; sem verbas de custeio (pagamento de trabalhadores terceirizados, água, luz, telefone) e com inúmeros prejuízos para programas de assistência e permanência estudantil (corte de bolsas, programas pesquisa, extensão e monitoria). Em resposta ao grande golpe que a educação enfrenta, 46 universidades federais entraram em greve neste ano. A UFPR não ficou de fora da luta, trabalhadores técnico-administrativos, professores e estudantes entraram em greve geral em defesa da educação pública e contra o ajuste fiscal. Diante da postura intransigente do Reitor Zaki Akel, os estudantes decidiram ocupar o prédio da Reitoria e só saíram de lá com negociação de pautas e garantia de um calendário de negociação continuado.

No âmbito estadual a educação pública também sofre cada vez mais ataques dos governos e, atualmente, sofre duros golpes do Governador Beto Richa (PSDB), tanto cortando investimento, como reprimindo e criminalizando a luta dos estudantes, trabalhadores e trabalhadoras. No primeiro semestre de 2015 tivemos uma luta histórica contra as medidas de austeridade do governo Richa, duas ocupações da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) e muita ação direta para impedir o “pacotaço de maldades” do governo. O movimento sindical dos servidores públicos, com destaque aos professores do magistério estadual, em conjunto com o movimento estudantil secundarista e universitário barraram medidas que cortariam direitos dos trabalhadores, sucateariam ainda mais as escolas e tirariam a autonomia universitária.

Porém, com as dívidas do Estado do Paraná podendo colocar em risco o futuro político de Beto Richa, era “necessário” atacar a previdência dos servidores públicos para conseguir pagar as contas. Mas o movimento de luta não aceitaria isso de braços cruzados. Então, no histórico dia 29 de abril, a Praça Nossa Senhora da Salete no Centro Cívico de Curitiba, tornou-se cenário de guerra. Milhares de trabalhadores, trabalhadoras e estudantes indefesos contra uma artilharia de guerra. Apenas um lado tinha armas, o que houve não foi um confronto, mas, sim, um massacre. Centenas de pessoas desmaiaram, ficaram feridas, e tiveram sequelas. Sem contar com inúmeras detenções que ocorreram naquele dia e os milhares de trabalhadores e trabalhadoras que estão tendo sua previdência roubada.

Durante e após as mobilizações contra as medidas de austeridade, Beto Richa e seus comparsas do governo do Paraná tentaram criminalizar os libertários e anarquistas como sendo “infiltrados” no movimento legítimo dos professores e colocando o anarquismo como sinônimo de bagunça e desordem. Ao mesmo tempo em que a burocracia sindical fazia o desserviço de pedir para que abaixássemos as bandeiras rubro-negras. Não vão nos intimidar! A bandeira rubro-negra continuará erguida! Protesto não é crime!

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Luta Comunitária

A luta comunitária e por moradia tem um grande histórico no Paraná, especialmente em Curitiba. Entretanto, nas últimas décadas anda desarticulada e burocratizada, com associações de moradores servindo na maioria das vezes para apoiar candidatos em épocas eleitoreiras e sem fazer luta direta ou articular os moradores e moradoras para conquistar direitos e moradias dignas. Os movimentos por moradia ligados ao PT, após a “vitória nas urnas” passaram a se desarticular e perder força nas periferias. Como resposta a isso, é criado o Movimento de Organização de Base (MOB) no Paraná em 2014 – movimento social comunitário e por moradia que é baseado na independência de classe, democracia de base e ação direta. Hoje o CALC contribui para o fortalecimento do MOB em Curitiba e no Paraná, movimento que tem lutas importantes por regularização fundiária, água, luz, e tem construído cooperativas e ações culturais.

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Luta pelo Transporte

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A luta pelo transporte público tem seu ápice nas Jornadas de Junho de 2013, primeira vez em mais de 30 anos foi feita uma luta de massas a revelia das lideranças e organizações alinhadas ao PT, com manifestações com dezenas de milhares de pessoas e ocupações de prédios públicos – em Curitiba tivemos a ocupação da Câmara Municipal em outubro daquele ano. O CALC compõe desde lá a Frente de Luta Pelo Transporte em Curitiba, e contribuiu com a construção do Coletivo Tarifa Zero (CTZ), que faz parte da federação do Movimento do Passe Livre (MPL). No Paraná, quem manda no transporte público são as máfias do transporte e só com muita força social organizada conseguiremos transporte coletivo público e tarifa zero.

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Luta pela Saúde

Outra luta relevante e intensa em que tivemos inseridos foi a luta contra a EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), privatização do Hospital de Clínicas da UFPR, o maior hospital público do Paraná – a partir da Frente de Luta pra Não Perder o HC. Em 2014, o movimento estudantil e sindical da UFPR se organizou para não permitir que a EBSERH fosse aceita na universidade, algo que já estava acontecendo em quase todos os outros hospitais escola do país. Após muita resistência do movimento, em um golpe articulado pelo Reitor Zaki Akel e em meio a bombas de gás lacrimogênio e tiros de bala de borracha, a EBSERH foi aprovada em 28 de agosto. A privatização do HC-UFPR foi aceita em uma “reunião por celular” entre os conselheiros universitários.

barramos de novo

Muita luta aconteceu e muito mais está por vir!
Pela construção dos movimentos pela base!
Viva a organização do povo!
Lutar! Criar Poder Popular!

5 anos

[CAB] Unionism and Direct Action (em inglês)

Retirado de: http://www.anarkismo.net/article/27377

In the first half of 2014, the struggles of diverse categories of workers were taken to the streets to the dismay of bosses and governors. The powerful’s counterattack was supported with the help of the mainstream media, which tried to criminalise the protests and demobilise the strugglers. This happened before, during and after the World Cup – a time in which the news sought to legitimise the violent actions of the repressive apparatus of the state and its leaders. Following this came the political persecutions and arrests of dozens of protestors in an authoritarian manner, violating democratic means and human rights.

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But it is undeniable that these workers’ struggles took on large proportions, and you can identify in them a common practice that has been quite rare in contemporary Brazilian unionism. They were strikes built in the workplace, independently of the union leaderships – sometimes even having to confront them. They won victories, total or partial, that the old union leaders, many of them playing the game of governments and bosses, said were impossible to win. These movements inspired many others, in smaller proportions and not always with the same level of advancement, that were hugely significant in the attempt to reinvigorate the way of waging union struggles in Brazil.

This practice can be identified, principally, in the protagonism and direct action of the rank-and-file, deciding on the course of the strikes in opposition to the bureaucracy and centralisation of personalised union leadership and partisan union currents. The latter, on the other hand, are flawed union practices which in general do not realise the urgencies of the working class, nor do they build spaces with political autonomy and the direct participation of workers.

Thus, experiences of autonomy, struggle and class solidarity emerged around the country, be they in the example of protesting workers in the big infrastructure works of the PAC (mainly in the north and northeast of the country), the street sweepers in Rio de Janeiro, the bus drivers in Porto Alegre, or the subway workers in Sao Paulo. They demonstrated, in practice, that the struggle begins from below and, not infrequently, without the guardianship of – or even against – the union leaderships in a clear demonstration that who should have control of the struggles is the rank-and-file as a whole and not a group of “enlightened” leaders.

Actions that also have in common the renewal of some important values of the various historical struggles of the exploited and oppressed classes around the world:

Direct Action: the methods of struggle to advance demands had a very diverse repertoire after the strikes. Examples of these are pickets, occupations, sabotage and demonstrations that paralysed the circulation and operation of essential services. Direct Action is the use of all necessary means to strengthen struggles spearheaded by workers. It means not handing over to someone else the power to decide on matters of everyday life. Instead, the collective is to exercise this power directly, without intermediaries or representatives.

Rank-and-File Protagonism: there is a disposition in the rank-and-file of workers to advance the union struggle and often of fighting the bureaucratic stance of the unions’ leadership themselves. This is how the example of union struggles in this period was driven by the rank-and-file of the sectors. This is the ingredient of a strong unionism, with workers’ control through direct democracy. Combatting the authoritarian and anti-democratic culture present in the unions, including in many of those led by groupings that put themselves on the left in political composition.

To the extent to which workers organise themselves and advance, the reaction of the state and governors has been to criminalise strikes and protest, repressing legitimate struggles and propagating lies through the bourgeois media; the great ally of the bosses and the powerful. Here we denounce the complicity between this hegemonic capitalist media, the governors and the strong economic groups that control the country.

We are excited to see the revival of this combativeness in union struggles around the country, since being the protagonists of our struggles is fundamental. Unions are important instruments that can empower the workers’ struggle. However, when they are captured by a partisan bureaucracy, or contained by the employer, they cease to be a means of struggle and turn into a way of life for the opportunists; people who claim to be representatives of the workers but who fortify themselves in the union structure. They subordinate the workers’ urgencies to their interests, or to those of their party, distancing themselves from the workers’ reality.

It is in the accumulation of our forces and through our mobilising power that we can confront even the unjust judicial decisions in the service of governors and bosses. It is also through our collective strength that we can achieve the victories we desire. That we do not lose our desires for change! That every fight, every picket, every strike, with their victories and defeats, may strengthen the idea that a new world is possible.

Within this process of radicalisation of struggles, it is necessary to have as an objective the revival of Revolutionary Syndicalism. A conception of union struggle defended by Mikhail Bakunin – besides having been named as a “potential suspect” for stimulating struggles and being involved in them in Rio de Janeiro [1] – the 200th anniversary of whose birth we commemorate in 2014.

200 Years of Bakunin

In 2014, we remember the 200th anniversary of the birth of the Russian revolutionary and anarchist Mikhail Bakunin. Exemplary militant, his life was confounded with the struggles of the workers of his time, principally within the International Workingmen’s Association (IWA). Together with other comrades he was also responsible for the establishment of anarchism as a force socially engaged in the struggle for freedom and equality. In 1868, Bakunin helped found the Alliance of Socialist Democracy, a clandestine organisation and the first specifically anarchist organisation in history, which acted within the IWA.

The IWA being the space that brought together and boosted workers’ struggles in this time, it is important to point out that it was the accumulation of the International’s anti-authoritarian currents that had the greatest influence on the labour movement of our Latin American continent. After the Hague Congress of the First International, statist and federalist conceptions split up amid strong polemics and followed different paths. And it is the libertarian current of socialism (federalist and anarchist) that would boost the continuity of the IWA, and it is in 1872, in Saint-Imier in Switzerland, that Bakunin and the federalists founded the International, later known as anti-authoritarian.

The sections and federations linked to the International that were formed throughout Latin America relied on quite accurate general guidelines and on autonomy for their development, giving continuity to the federalist proposals and Bakunin’s revolutionary syndicalism. He understood syndicalism as a means and not an end in itself, and that the role of anarchists should be to add fuel to the processes of class mobilisation and to organise struggles together with the workers. Propagating the cause wherever they met workers. It was in fact in action, and from the tactics consecrated by experience, that the outlines of a more radical union doctrine were taking shape, becoming the historical expression of the time.

The Genealogy of the General Strike

The idea of the general strike was launched by the International Congress held in Brussels in September 1868. At the time, it was a tool with the objective of struggling against the war at the time. But it was in 1869 that Bakunin, in a pioneering way, analysed all the possible consequences of the General Strike.

“When strikes are expanded, communicating little by little, they become very close to turning into a general strike; and a general strike, with the ideas of liberation that reign today in the proletariat, can only result in a great cataclysm that would provoke a radical change in society. We are not yet at this point, no doubt, but everything leads us to it.”

Bakunin thus makes important contributions to this conception of the strike as a tool for mobilising the workers’ force, and that “they already indicate a certain collective force, a certain understanding among workers”. As a practice of assertive struggle and of formation in struggle, the General Strike should also embody the solidarity between sectors of the oppressed class because, “the needs of the struggle lead workers to support each other, from one country to another, from one profession to another”.

Brazilian Anarchist Coordination – union front

English translation: Jonathan Payn

Translator’s note:

1) Mikhail Bakunin, an anarchist born in Russia 200 years ago this year, was being investigated by Brazilian police for allegedly participating in anti-World Cup protests in Rio de Janeiro, in 2014, after a teacher who was suffering state repression at the time mentioned him in a phone call.

Related Link: https://anarquismo.noblogs.org/?p=110

[CAB] SINDICALISMO E AÇÃO DIRETA

Trabalhadores (as) decidindo os rumos da luta

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No primeiro semestre de 2014, a luta de diversas categoriais de trabalhadores (as) ganharam as ruas para o desespero de patrões e governos. O contra-ataque dos poderosos teve a ajuda da grande mídia, que tentou criminalizar os protestos e desmobilizar os lutadores. Isso ocorreu antes, durante e depois da Copa do Mundo, momento em que os noticiários buscavam legitimar as ações violentas dos aparelhos repressivos do Estado e seus governantes. Na sequência, vieram também as perseguições políticas e prisões de dezenas de manifestantes de forma autoritária, violando os meios democráticos e direitos humanos.

Mas é inegável que as lutas destes/as trabalhadores/as tomaram grandes proporções, e pode-se identificar nelas uma prática comum, que tem sido bastante rara atualmente no sindicalismo brasileiro. Foram greves construídas nos locais de trabalho, independente das direções sindicais – por vezes tendo até mesmo que enfrentá-las. Conquistaram vitórias, totais ou parciais, que os antigos diretores sindicais, muitos deles fazendo o jogo dos governos e patrões, diziam não ser possível conquistar. Esses movimentos inspiraram diversos outros, em menores proporções e nem sempre com o mesmo grau de avanço, mas com uma importância enorme na tentativa de renovar a maneira de fazer a luta sindical no Brasil.

Essa prática pode ser identificada principalmente no protagonismo, na ação direta das bases decidindo sobre os rumos das greves frente à burocracia e à centralização das direções sindicais personalizadas e por correntes sindicais partidarizadas. Estas últimas, por outro lado, são práticas sindicais viciadas, que em geral não dão conta das urgências da classe trabalhadora, nem constroem espaços com autonomia política e participação direta dos/as trabalhadores/as.

Assim, experiências de autonomia, luta e solidariedade de classe emergem pelo país, seja no exemplo dos operários em protesto nas grandes obras de infra-estrutura do PAC (principalmente no norte e nordeste do país), os garis no Rio de Janeiro, os rodoviários em Porto Alegre, ou os metroviários de São Paulo. Demonstraram, na prática, que a luta começa desde baixo, e não raras vezes sem a tutela ou mesmo contra as direções sindicais. Em uma clara demonstração de que quem deve ter o controle das lutas é o conjunto da base e não um grupo de dirigentes “iluminados”.

Ações que também têm em comum a retomada de alguns importantes valores das várias lutas históricas das classes exploradas e oprimidas em todo mundo:

Ação Direta: os métodos de lutas para fazer avançar as reivindicações tiveram um repertório bastante diversificado desde as greves. São exemplos disso os piquetes, ocupações, sabotagens e mobilizações que paralisaram a circulação e o funcionamento de serviços essenciais. A Ação Direta é o uso de todos os meios necessários para potencializar as lutas protagonizadas pelos/as trabalhadores/as. Significa não entregar na mão de outros o poder de decisão sobre os assuntos do cotidiano. Ao contrario, é o coletivo a exercer esse poder de forma direta, sem intermediários ou representantes.

Protagonismo de Base: há uma disposição da base dos trabalhadores em fazer avançar a luta sindical e muitas vezes combatendo a postura burocrata da própria direção dos sindicatos. Assim foi o exemplo das lutas sindicais nesse período, impulsionadas pela base das categorias. Esse é o ingrediente de um sindicalismo forte, com controle dos/as trabalhadores/as através da democracia direta. Combatendo a cultura autoritária e anti-democrática presente nos sindicatos, inclusive em muitos daqueles dirigidos por agrupações que se colocam à esquerda na composição política.

Na medida em que os/as trabalhadores/as se organizam e avançam, a reação do Estado e governos têm sido a de criminalizar a greve e o protesto, reprimindo as lutas legítimas e propagando a mentira através da mídia burguesa, a grande aliada dos patrões e poderosos. Denunciamos aqui a cumplicidade entre essa hegemônica mídia capitalista, os governos e os fortes grupos econômicos que controlam o país.

É com entusiasmo que vemos as retomadas desta combatividade nas lutas sindicais pelo país, pois tomar o protagonismo de nossas lutas é fundamental. Os sindicatos são instrumentos importantes que podem potencializar a luta sindical. Contudo, quando estão tomados pela burocracia partidária, ou engessados pela patronal, deixam de ser um meio de luta e viram um meio de vida para os oportunistas. Pessoas que se dizem representantes dos/as trabalhadores/as, mas que se encastelam na estrutura sindical. Subordinam as urgências dos trabalhadores aos seus interesses, ou aos de seu partido, distanciando-se da realidade dos trabalhadores.

É no acúmulo das nossas forças e pelo nosso poder de mobilização que podemos enfrentar, inclusive, as injustas decisões judiciais a serviço de governos e patrões. É também pela nossa força coletiva que podemos alcançar as vitórias que almejamos. Que não percamos nossos desejos por mudanças! Que cada luta, cada piquete, cada greve, com suas derrotas e vitórias, possa fortalecer a ideia de que um novo mundo é possível.

Dentro desse processo de radicalização das lutas, é necessário ter como retomada de objetivo o Sindicalismo Revolucionário. Concepção de luta sindical defendida por Mikhail Bakunin, que o ano de 2014 comemoramos os 200 anos de seu nascimento, além de ter sido apontado como um “suspeito em potencial” de estimular as lutas e ter envolvimento com elas, na capital carioca.

Os 200 Anos de Bakunin

Em 2014, relembramos os 200 anos do nascimento do revolucionário e anarquista russo Mikhail Bakunin. Militante exemplar, sua vida se confundiu com a luta dos trabalhadores de sua época, principalmente dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Junto com outros companheiros, também foi responsável pela constituição do anarquismo como força socialmente engajada na luta pela liberdade e igualdade. Em 1868, Bakunin ajudou a fundar a Aliança da Democracia Socialista, organização clandestina e a primeira especificamente anarquista da história, que atuou dentro da AIT.

Sendo a AIT o espaço que aglutinou e impulsionou as lutas dos trabalhadores nesse período, é importante pontuar que foram os acúmulos das correntes anti-autoritárias da Internacional que tiveram maior influência no movimento operário de nosso continente latino americano. Após o Congresso de Haya, da Primeira Internacional, as concepções estatista e federalista se separam em meio a fortes polêmicas e seguem caminhos distintos. E é a corrente libertária do socialismo (federalista e anarquista) que vai impulsionar a continuidade da AIT, e é em 1872, em Saint-Imier na Suíça, que Bakunin e os federalistas fundavam a Internacional conhecida mais tarde como anti-autoritária.

As seções e federações vinculadas à Internacional que foram se formando em toda a América Latina contavam com orientações gerais bastante precisas e com autonomia para o seu desenvolvimento, dando continuidade às propostas federalistas e de sindicalismo revolucionário de Bakunin. Ele entendia o sindicalismo como um meio e não um fim em si. E o papel dos anarquistas deveria ser colocar combustível nos processos de mobilização da classe e organizar as lutas junto com os/as trabalhadores/as. Fazendo a propaganda da causa onde quer que se encontrassem os operários. Foi de fato na ação, e a partir das táticas consagradas pela experiência, que os contornos de uma doutrina sindical mais radical foi tomando forma, tornando-se a expressão histórica deste período.

A genealogia da Greve Geral

A idéia de greve geral foi lançada pelo Congresso da Internacional realizado em Bruxelas, em setembro de 1868. Na ocasião, era uma ferramenta com o objetivo de lutar contra a guerra naquele período. Mas foi em 1869 que Bakunin, de forma pioneira, analisou todas as possíveis consequências e potencialidades da Greve Geral:

“Quando as greves ampliam-se, comunicam-se pouco a pouco, é que elas estão bem perto de se tornar uma greve geral; e uma greve geral, com as ideias de liberação que reinam hoje no proletariado, só pode resultar em um grande cataclismo que provocaria uma mudança radical na sociedade. Ainda não estamos nesse ponto, sem dúvida, mas tudo nos leva a isso.”

Bakunin traz assim importantes contribuições a esta concepção da greve como ferramenta de mobilização de força dos/as trabalhadores/as, e que “já indicam uma certa força coletiva, um certo entendimento entre os operários”. Como prática da luta reivindicativa e de formação na prática, a Greve Geral deve também encarnar a solidariedade entre os setores da classe oprimida, pois “as necessidades da luta levam os trabalhadores a apoiarem-se, de um país a outro, de uma profissão a outra”.

Coordenação Anarquista Brasileira – frente sindical

[CURITIBA] Próximo encontro de estudo do CEL – 29 de julho – domingo às 10H

 Encontro Círculos de Estudos Libertários (29.07.2012)

22 de julho

O Círculo de Estudos Libertários (CEL) surgiu como espaço de estudo em janeiro de 2011, com o objetivo de debater “a atuação política, a teoria clássica e contemporânea do Anarquismo, (…) fortalecendo a perspectiva classista, autônoma, socialista e combativa das classes exploradas, em sua formação cultural e intelectual”. Com dois encontros por mês e textos lidos previamente por seus participantes, o grupo teve relativo sucesso no que se propunha a fazer, se tornando ainda “por tabela”, uma referência
para os novos companheiros e companheiras interessados nas propostas do anarquismo organizado. A partir de 2012 o CEL tornou-se um espaço ligado ao Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), continuando dessa forma, aberto a participação dos trabalhadores e trabalhadoras que queiram se debruçar sobre o estudo das lutas sociais e a participação dos socialistas libertários nas mesmas. Seguindo agora um programa definido de textos
pretendemos melhorar a qualidade de nossos encontros, contribuindo também, para auxiliar a formação teórica da militância anarquista aqui na cidade de Curitiba (PR).

Próxima leitura:

Módulo HISTÓRIA DO ANARQUISMO NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA

Curso 8: Anarquismo e Sindicalismo no Brasil

– Alexandre Samis. “Sindicalismo e Anarquismo no Brasil”.

– Felipe Corrêa. “A Perda do Vetor Social no Anarquismo dos Anos 1930”

Baixar arquivo no site:  http://www.anarquismosp.org/portal/images/stories/ArquivoFasp/docs/programa_de_formacao/modulo_03.pdf

Ou fotocpie na fotocopiadora da Reitoria, rua amintas de barros ao lado da casa das bolachas, pasta do CEL.

Em Textos e Documentos – Programa de Formação FARJ-OASL

Socialismo! Liberdade!

Coletivo Anarquista Luta de Classe.

Onde? Rua Presidente Faria, 515.

Quando? 29.07.2012

Que horas? 10:00

Organização: Coletivo Anarquista Luta de Classe

5° Encontro Círculos de Estudos Libertários

Lançamento de “Ideologia e Estratégia”, de Felipe Corrêa

Retirado de: http://anarkismo.net/article/21612

Anarquismo, movimentos sociais e poder popular

A Faísca Publicações Libertárias acaba de publicar o livro IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA: Anarquismo, movimentos sociais e poder popular, de Felipe Corrêa.

Faísca, 2011, 238 p.
Faísca, 2011, 238 p.

A Faísca Publicações Libertárias acaba de publicar o livro IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA: Anarquismo, movimentos sociais e poder popular, de Felipe Corrêa.

Conteúdo:

Apresentação

Prefácio Alexandre Samis

IDEOLOGIA E ESTRATÉGIA

Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário
Uma resenha crítica do livro de Edilene Toledo, a partir das visões de Michael Schmidt, Lucien van der Walt e Alexandre Samis

A Estratégia de Massas de Neno Vasco

Movimentos Sociais, Burocratização e Poder Popular
Da teoria à prática

Abaixo segue a apresentação do livro com os respectivos links dos textos do livro, já publicados anteriormente no Anarkismo.net.

Os três artigos agora reunidos em livro foram escritos durante o ano de 2010. Ainda que tratem de temas relativamente distintos, pode-se dizer que têm interesses similares. Tentarei, nas próximas linhas, sistematizar seu conteúdo, de maneira a permitir sua melhor compreensão e a demonstrar a intencionalidade que os cruza transversalmente.

Os textos surgem a partir de uma necessidade concreta de reflexão teórica que se deu em meio à militância prática, âmbito em que pude aprender, refletir ou mesmo aprofundar alguns dos temas em questão.

Primeiramente, evidencia-se o tema do anarquismo. Devido à significativa quantidade/qualidade de material publicado sobre o assunto, foi possível uma sistematização que aceita alguns dos pressupostos colocados na literatura, mas ao mesmo tempo rechaça outros. Ao definir o anarquismo como uma ideologia, busquei fundamentar minha argumentação no material produzido pelos grupos e organizações que hoje constituem parte orgânica ou orbitam em torno do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) e pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU), organização que contribuiu decisivamente, desde meados dos anos 1990, para o campo teórico do anarquismo especifista brasileiro, que ainda segue em construção.

Nessa concepção ideológica do anarquismo, não se assume a leitura marxista de ideologia, considerando-a simplesmente como “falsa consciência”, mas, conforme expus nos dois primeiros artigos, de conjunto amplo de idéias, valores e aspirações que possuem relação direta com uma determinada prática política.

Foi necessário, a partir dessa noção do anarquismo como ideologia, buscar uma reflexão sobre o que é o anarquismo e localizá-lo no espaço e no tempo. Foi o que tentei realizar em “Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário” [http://www.anarkismo.net/article/16164], o primeiro artigo do livro, quando, ao criticar a definição de anarquismo de outros autores, senti-me obrigado a propor minha própria definição. Foi o que realizei a partir de uma reflexão histórica do tema, tentando formalizar os conteúdos apreendidos nos últimos dez anos de leitura. Da mesma maneira, ao criticar as abordagens que não localizavam o anarquismo no espaço e no tempo, tive de pensar, levando em conta a definição assumida, quando e onde surgiu o anarquismo – o que me levou a assumir a posição de que esse é um fenômeno que se inicia na Europa em meados do século XIX.

Ainda nessa reflexão sobre o anarquismo, desenvolvi uma análise por meio de duas categorias que julguei fundamentais para a compreensão do assunto. A primeira, da ideologia, que constituiria o anarquismo em si, sua espinha dorsal, e a segunda, da estratégia, que implicaria os caminhos escolhidos pelo anarquismo ao longo dos anos para atingir seus objetivos revolucionários, socialistas e libertários. Foi a partir dessas duas categorias que tentei conceituar os princípios ideológicos fundamentais que, para mim, definem o anarquismo, e mencionar os principais debates estratégicos que, historicamente, deram-se internamente ao anarquismo.

A partir dessa noção, refuto a tese de que há “anarquismos”. Para mim, o que há é uma ideologia, o anarquismo, que, ao longo da história, adotou e continua a adotar diferentes estratégias – ou “formas históricas”, como vem colocando Alexandre Samis – para melhor avançar rumo aos seus objetivos. Uma dessas estratégias, como coloco no primeiro artigo, foi a do sindicalismo revolucionário – impulsionada pelos anarquistas mundialmente, os quais, na maioria dos casos, detiveram a hegemonia do movimento no
que diz respeito à determinação de seu modus operandi.

O tema do sindicalismo revolucionário, relativamente bem discutido no campo da história, encontra agora uma visão que se pauta no (correto) argumento de que o que houve no Brasil da Primeira República foi sindicalismo revolucionário e não anarcosindicalismo. Abordagem que tem como conseqüência, independente da intencionalidade, o desvínculo entre o anarquismo do sindicalismo revolucionário, atribuindo ao último caráter de ideologia própria. Desvincular o anarquismo do sindicalismo revolucionário no Brasil seria, a meu ver, realizar uma revisão historiográfica sem o menor fundamento nos fatos.

Foi esse o motivo que me incentivou a escrever “Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário” – fiz questão de colocar o mesmo título do livro que criticaria –, realizando uma resenha crítica do livro homônimo de Edilene Toledo e produzindo um texto em tom de polêmica. Tomo, para isso, duas referências fundamentais das produções contemporâneas sobre o anarquismo: os livros dos africanos Michael Schmidt e Lucien van der Walt (Black Flame) – referência central no tratamento do anarquismo em geral – e do brasileiro Alexandre Samis (Minha Pátria é o Mundo Inteiro) – referência central para o anarquismo no Brasil.

Foi no processo de crítica dos argumentos do livro em questão que pude utilizar as reflexões de ambos os livros, dos africanos e do brasileiro, para construir uma argumentação construtiva, formulada a partir de suas posições e também de alguma reflexão própria. Era necessário, também, tentar formalizar os principais argumentos da discussão “sindicalismo revolucionário versus anarco-sindicalismo”, de maneira que fosse possível entender o que estava em jogo nas discussões realizadas. Terminei baseando minha distinção nos autores que tomei para o argumento construtivo, e também nas discussões que foram forjadas no anarquismo brasileiro em geral, e no de São Paulo em particular, que, desde os anos 1990, havia acumulado algo neste sentido.

Outra questão relevante era encontrar categorias que pudessem explicar essas diferentes estratégias; a proposta de Schmidt e van der Walt de se falar, em nível mundial, em “anarquismo de massas” e “anarquismo insurrecionalista”, pareceu-me adequada; no Brasil, com a pouca expressão do insurrecionalismo, creio que as categorias utilizadas por Samis, de “organizacionistas” e “antiorganizacionistas”, apesar de próximas das outras, adaptam-se melhor ao contexto do que foi o anarquismo no Brasil da Primeira República.

A escolha dos livros nos quais me baseei para os argumentos construtivos não foi acidental. Senti a necessidade de fugir do eurocentrismo que vem marcando muito das “histórias do anarquismo” que se tem publicado e, para isso, a utilização do livro dos africanos torna-se central por construir hipóteses para a interpretação do anarquismo em nível mundial, considerando mais de um século de teorias e práticas em todo o globo. A utilização da obra de Samis para o tratamento do Brasil também foi proposital, visando fugir da historiografia clássica sobre o tema, que incide em vários problemas metodológicos e muitas vezes distorcem suas posições teóricas por razão da adoção de um ou outro ponto de vista ideológico.

“A Estratégia de Massas de Neno Vasco” [http://www.anarkismo.net/article/18792], o segundo artigo, tem exatamente a intenção de dar suporte ao argumento do primeiro, demonstrando, fundamentado em material teórico produzido pelo autor, as noções do anarquismo como ideologia e do sindicalismo revolucionário como estratégia. Ainda que Neno Vasco não tenha dado tanta ênfase em seu tempo à construção de uma organização política especificamente anarquista, suas posições estão em completo acordo com muito daquilo que defendo como proposta de anarquismo e como estratégia a ser adotada. Ele defendia um anarquismo classista, que funcionasse como fermento e motor das lutas populares – o que caracteriza sua estratégia como sendo uma “estratégia de massas” –, e que deveria impulsionar o movimento sindical a partir de uma concepção programática, envolvendo a ação direta, a independência de classe e a neutralidade sindical, fortalecendo as lutas de curto prazo na medida em que elas pudessem contribuir com uma estratégia revolucionária, de ruptura, no longo prazo.

Estratégia esta que possui similaridades com a proposta dos anarquistas que atuavam na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e que inspirou a primeira onda do sindicalismo de intenção revolucionária, pré-CGT francesa, nas décadas de 1870 e 1880, assim como o sindicalismo revolucionário propriamente dito, tanto da CGT como de diversas outras localidades do mundo – incluindo o Brasil. É possível dizer, ainda, que essa estratégia possui muito em comum com a proposta de poder popular que os anarquistas especifistas vêm utilizando como base de sua estratégia e que tentei abordar em “Movimentos Sociais, Burocratização e Poder Popular” [http://www.anarkismo.net/article/18158], o terceiro artigo.

Os dois primeiros artigos apóiam-se, fundamentalmente, em literatura teórica anarquista que poderíamos chamar de clássica: Bakunin e Malatesta, no primeiro, além das referências já citadas; Neno Vasco, no segundo – independente de não ter adquirido uma envergadura internacional como os dois primeiros, pode ser também considerado um clássico. O terceiro artigo, ainda que fuja um pouco à regra no que diz respeito às referências teóricas clássicas, possui uma conexão direta com a discussão dos outros artigos, não pelos aspectos ideológicos, mas no que diz respeito à discussão de estratégia.

Buscando referências contemporâneas de teóricos dos movimentos sociais, esse artigo busca, a partir de uma constatação da burocratização dos movimentos sociais – o principal fenômeno que impede a construção de poder popular nos setores populares já organizados –, as causas dessa burocratização e propõe um programa antiburocrático a ser aplicado nos movimentos burocratizados. Levando em conta que, nesse artigo, trabalhei com uma concepção ampla de movimento social – que inclui também o sindicalismo –, creio que o programa proposto pode, em linhas gerais, subsidiar distintas discussões daqueles que estão envolvidos os diversos campos das lutas populares.

Desse programa antiburocrático, que não deixa de ter muita similaridade com o programa que era proposto pelos anarquistas para o sindicalismo revolucionário, surge a discussão sobre o poder popular. Ainda que o tema deva ser aprofundado – e eu mesmo tenho me dedicado atualmente neste sentido –, o debate sobre o poder popular, nessa concepção libertária, nada mais é do que pensar estrategicamente. Ou seja, refletir sobre os objetivos estratégicos, as linhas estratégicas e táticas para intervir na realidade, assim como adotar um método de análise que dê conta de uma interpretação dessa realidade e que potencialize o atuar. Foi buscando aportes nesse sentido que desenvolvi 20 teses sobre o poder popular, praticamente resumindo documentos e artigos contemporâneos que, desde o campo libertário, abordam a temática.

Em suma, posso dizer que os três artigos articulam-se em torno desses dois eixos: ideologia por um lado, e estratégia por outro. No que diz respeito à ideologia, objetivam pensar o anarquismo de maneira séria e honesta teoricamente, evidenciando teorias clássicas, trazendo discussões contemporâneas e refletindo criticamente sobre o material analisado. Buscam apresentar ao público em geral, e também àqueles com afinidades ideológicas, um anarquismo que seja digno de respeito no campo da esquerda e do socialismo; um anarquismo que possa retomar sua intensa e honrosa história de lutas que tiveram grande influência nos mais distintos movimentos populares em todo o mundo. Conceber um anarquismo que possa ter relevância política e, incidindo sobre a realidade, impulsioná-la no sentido desejado, mudando a correlação de forças que hoje se dá na sociedade e, passo por passo, entre conquistas de curto prazo, ter como chegar aos objetivos revolucionários e socialistas de mais longo prazo. No que diz respeito à estratégia, proporcionar aos libertários – anarquistas ou não, organizados politicamente ou não – plataformas possíveis para intervenção nos distintos campos da luta de classes. Ou seja, elementos programáticos que possam potencializar hoje a construção da sociedade que queremos amanhã.

Ideologia e Estratégia é, portanto, um livro saído do calor das lutas, buscando, em um movimento que se poderia chamar dialético, formalizar teoricamente uma série de conhecimentos que foram apreendidos tanto em teoria quanto em prática, de maneira que essa teoria agora produzida possa, em um futuro breve, retornar como contribuição, ainda que singela, às lutas e movimentos de nosso povo. Essa é, real e honestamente, a minha intenção e espero, com a devida humildade, poder submetê-la agora à apreciação crítica dos leitores.

Felipe Corrêa
Maio de 2011