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[CAB-FAU] Declaração da Federação Anarquista Uruguaia e da Coordenação Anarquista Brasileira sobre a situação na Venezuela

FEVEREIRO DE 2019
 A Venezuela está mais uma vez na mira e no centro dos debates. Declarações bombásticas de diversos atores sociais em todos os meios de comunicação condenando o governo de Maduro, alguns reconhecendo Guaidó como Presidente, outros se distanciando de ambos, como se tudo o que está em jogo na Venezuela, neste momento, fosse resolvido no reconhecimento ou não de um determinado governo. O assunto é muito mais profundo, e como já abordamos em outras ocasiões, tentaremos fazer aqui uma análise conjuntural específica cuja trama é muito mais complexa. Uma análise que realizamos com o máximo rigor possível, mas sempre amparados em nossa concepção anarquista e especifista, como parte dos povos latino-americanos que resistem às estruturas diárias do sistema capitalista e do imperialismo norte-americano, presente há quase dois séculos em nossa região.
Imperialismo que com seu monroísmo (programa da Doutrina Monroe) tem a pretensão de que a América Latina seja seu quintal. Em 10 de janeiro, Nicolás Maduro adentrou um novo período de seu governo. Nas semanas anteriores, o Grupo Lima (grupo criado e composto por 12 países da região com o único propósito de derrubar o governo de Maduro) empreendeu uma campanha ativa contra o que eles consideram ser um “ditador”, “usurpador”, “um governo ilegítimo”, com o objetivo de impedir um novo mandato de Maduro e do PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela).
Esta nova campanha veio acompanhada de uma importante atividade interna da oposição ao governo do PSUV, que incluía a autoproclamação do desconhecido Juan Guaidó como “presidente interino ou de transição”. Quem é Juan Guaidó? De onde veio? A mesma pergunta foi feita pela imprensa internacional que o apoiava, ou seja, grande  parte da mídia internacional apoia alguém desconhecido e ainda o “apresentam a sociedade”. Mas a agência estadounidense de notícias AP havia informado que Guaidó, viajou em meados de dezembro “silenciosamente” a Washington, Colômbia e Brasil para informar aos funcionários sobre a estratégia de oposição de manifestações massivas para que coincidira com o esperado juramento de Maduro para um segundo mandato em 10 de janeiro, segundo o ex-deputado de Caracas (fugido e exilado) Antonio Ledezma.
Esse mesmo Juan Guaidó é um deputado pertencente a um grupo de ultradireita da oposição, suposto presidente da Assembleia Nacional, que desde 2016 não funciona, não se reúne, devido a certos conflitos entre a oposição e o governo naquela época,  ao assumir uma maioria opositora na dita assembleia ou parlamento. Um conflito de poderes dentro do Estado, mas que agora a direita, articulando diretiva imperiais, utiliza para tentar dar um novo golpe de Estado.
Houve dos fatos políticos de relevância que ocorreram de forma quase simultânea e não foram coincidências, correspondiam a uma estratégia e acordos prévios, a auto-juramentação de Guaidó e o reconhecimento imediato dos Estados Unidos. O que chama a atenção nesta ocasião é que Juan Guaidó se tornou o líder da oposição da noite para o dia, com o total apoio do governo dos Estados Unidos, para desestabilizar novamente a situação política e social venezuelana, de modo a acabar com “a Revolução Bolivariana” e reintegrar os partidos da direita e da extrema direita novamente ao governo. Houve algum pequeno rearranjo no projeto que vinha se desenrolando. Os próprios operadores e cérebros políticos da direita venezuelana criticaram Guaidó por sua “amornada” nos primeiros momentos de sua aparição pública porque não decidira proclamar-se “presidente interino”, como fez em 23 de janeiro com total apoio dessa mesma direita e dos EUA. Toda direita vem incitando um golpe de estado de forma simples e direta. Golpe de Estado não tradicional e onde trata de combinar distintos elementos para consumá-lo, ao que se adiciona aqui a ameaça de intervenção militar.
Isso não é novo
Esse novo lado da direita venezuelana caminhava de mãos dadas com a mensagem do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, dando apoio às manifestações contra Maduro que começaram no dia 21 de janeiro e atingiram seu ápice no dia 23. Foram imensas mobilizações, que sem dúvida, conseguiram captar e canalizar o descontentamento e o desgaste da população com a “Revolução Bolivariana”. Mas isso não significa que tais mobilizações expressem diretamente os anseios e ambições das classes dominantes venezuelanas e da extrema direita. Esta situação ideológica e social é bastante complexa.
De fato, Guaidó é a “referência”, o peão colocado nesta situação pelos Estados Unidos, pelo motivo de não haver outro. Os principais representantes da direita estão extremamente desacreditados, seja em virtude de sua filiação de classe, como María Corina Machado, líder do Vente Venezuela y de Súmate/Vem Venezuela e Soma-te!, uma empresária e membro da “oligarquia” venezuelana, da qual o regime de Chávez expropriou algumas de suas importantes empresas, como as indústrias de alumínio; Leopoldo López, uma referência da extrema direita do partido Vontade Popular/Voluntad Popular fotografado depredando os bustos de “Che” Guevara ou Hernando Capriles, líder doPrimero Justicia/Justiça Primeiro, estão hoje desgastados e não podem exercer uma liderança eficaz. Por isso, a nomeação deste “peão” e sua lógica “incineração”, posta para levar adiante todo o trabalho sujo de que uma política imperial e seus aliados é capaz de realizar. O objetivo é tirar Maduro, estabelecer um governo de transição e apoiá-lo internacionalmente, tanto com os governos dessas latitudes como os da Europa. Ameaçando ao mesmo tempo com medidas militares. As empresas norte-americanas acompanham e participam de tudo isto, se preparando para o butim.  Em definitivo tratam de criar uma situação sem saída para a continuidade do governo bolivariano de Maduro.
Como recordamos, em geral, esta situação não é nova. Em abril de 2002, os Estados Unidos apoiaram um golpe de Estado contra Chávez, colocando Pedro Carmona no governo, presidente da patronal Fedecámaras. Um golpe de Estado sem sombra de dúvidas, com um claro sentido de classe. O golpe fracassou, Chávez retornou ao governo e promoveu com novos brios uma série de políticas sociais (“as Missões”) e de certo protagonismo do povo nas “comunas”, projeto impulsionado pelo Estado, mas que sem dúvida desencadeou uma importante participação das pessoas num certo período de tempo, criando cooperativas de produção, de consumo, organizando bairros inteiros numa forma limitada de autogestão mas de real e ativa participação em amplos planos sociais. Isso se realizou dentro da estrutura capitalista e conviveu com a burocracia estatal e o papel cada vez mais crescente do Exército, num processo contraditório, mas onde as pessoas começaram a ter um pouquinho de tudo aquilo que durante séculos lhes havia sido negado: uma alimentação decente, serviços sociais, certa dignidade e participação social e política. Com esta política social o governo Chávez contou com forte apoio popular.
Ainda estava fresco “o Caracaço” de 1989, essa imensa explosão popular contra a política neoliberal de Carlos Andrés Pérez, que gerou hiperinflação e fome, e a feroz repressão que se seguiu e que causou 3 mil mortes. Chávez aparece publicamente em 1992, numa tentativa de golpe de Estado que fracassou, sendo libertado anos depois e iniciando um movimento político que finalmente reuniu a esquerda venezuelana, incluindo vários ex-membros do movimento guerrilheiro dos anos 60. Um militar com um discurso nacionalista, guinando paulatinamente à esquerda, rodeado de pessoas e partidos de um amplo arco de esquerda… um desses atípicos experimentos políticos, realizados dentro da estrutura capitalista, que nos faziam recordar os “populismos” dos anos 40 e 50. A verdade é que esta política de reformas e certa redistribuição em direção ao povo estimulou o rechaço da burguesia venezuelana e da direita. Um claro instinto de classe – e de racismo – foi colocado sobre mesa: para a burguesia agora, os negros e mulatos, os índios, os pobres, os de baixo, ascendiam a “alguma coisa” e esse “algo” sempre ia ser superdimensionado por aqueles que têm poder e riqueza. Esse “algo”, ainda que não fosse muito, pertencia aos ricos, aos donos da Venezuela, e eles não estavam – nem estão – dispostos a perdê-lo.
Por isso veio o golpe de Carmona de 2002, o golpe da Fedecámaras [1], a Central dos Trabalhadores da Venezuela (uma central amarela financiada pelos Estados Unidos) e pelos partidos políticos tradicionais Copei e Ação democrática.
Fracassado o golpe de Estado, os EUA – todo o espectro da penetração imperial tendo a Central de Inteligência, a CIA na vanguarda – colocou suas mãos à obra com enormes recursos (centenas de milhões de dólares) para financiar novas organizações sociais opositoras com máscara inofensiva e partidos políticos de oposição (Vontade Popular – do qual Guaidó fazia parte -, Justiça Primeiro, dentre outros). Sem descuidar de tentar fortalecer os tradicionais partidos de direita. Ao mesmo tempo, através de seus mecanismos de armadilha e cínicos, financiaram diversas ONG’s e organizações que promovem “educação cidadã” e “direitos humanos”. A finalidade desse espectro imperial com o Comando Sul e a CIA na liderança foi e é debilitar o regime chavista para colocar o governo na direita. Os meios não importam. Se é pela via via eleitoral ou via desestabilização e golpe de Estado, não é relevante nem para os EUA nem para a oposição venezuelana. Eles não tem cuidado com o que sofre o povo, esses organismos fizeram correr rios de sangue e semearam fome por toda a sua vida sem mover uma palha para resolver essa situação. Seus discursos humanitários são para fazer eficaz sua miserável e assassina política que sempre recai sobre os de baixo.
A morte de Chávez foi um duro golpe para o regime, para a governabilidade bolivariana. Chávez tinha nomeado Maduro como seu “herdeiro”, sabendo que dentro do PSUV se intensificariam as lutas intestinas por cotas de poder e que a corrupção, a burocratização e a venalidade aumentariam, como de fato ocorreu. Não mexeram nas raízes do sistema e a lógica que circula pelo conjunto das relações de poder dominante estava cruelmente operando. A população não acompanhou Maduro com o mesmo entusiasmo, ele não era possuidor da agudeza política e o carisma de Chávez. Mas era um processo que tinha uma alta dose de “liderança carismática”, de certo “populismo do século XXI”, e encontrava ali sua fragilidade. Seguiam com uma política de moderadas reformas ao movimento popular, num contexto menos favorável. Diante os flancos que iam se abrindo e o grau do descontentamento popular, a direita e os EA recrudesceram seus ataques. Multiplicaram-se as diversas mobilizações no mesmo ano de 2013, logo depois da morte de Chávez. Utilizaram como ponta de lança o movimento estudantil, no qual um setor tinha forte infiltração da direita. Logo os partidos da oposição passaram por cima dos estudantes universitários e encabeçaram os protestos. Tornaram-se famosos os fascistas com roupagem democrática, Leopoldo López e Hernando Capriles.
As câmeras da imprensa internacional cumpriam seu papel mostrando como esses reacionários e golpistas foram presos e alguns deles mortos, mas não o que eles faziam, por exemplo, tacando fogo bestialmente num “chavista”. Além disso, foram assediados ou violentados trinta e cinco centros de saúde pública (Missão Barrio Adentro), dois hospitais, trinta e nova instalações da rede pública de distribuição de alimentos, dezoito meios de comunicação alternativos e comunitários.
Tampouco mostravam a resistência popular nas ruas, como da mesma forma não mostraram em 2002. Ficou evidenciado que as “guarimbas” [2] da oposição estavam organizadas e armadas com muito dinheiro fluindo dos diversos tentáculos da CIA como NED e IRI (planos de financiamento de várias organizações de direita), onde muitos deles posavam de defensores da liberdade, educação, direitos e humanidade. Internalizaram um cinismo cruel que merece o primeiro lugar de longe.
Desde então, a direita alternou mobilizações de rua (nem sempre massivas) e geralmente nos bairros dos esquálidos [3], nas zonas ricas de Caracas e em outras cidades com participação eleitoral. Mas as eleições, esse artifício liberal burguês, são úteis se derem o resultado que a burguesia quer. Como o chavismo se especializou em vencer eleições liberais burguesas, a burguesia venezuelana e norte-americana e a maioria das burguesias do mundo declaram que não são válidas as eleições, que na “Venezuela há uma ditadura” e que “Maduro é um usurpador”. Não ligam, e ocultam, que o próprio deputado Guaidó, agora “Presidente Interino”, foi eleito em comícios organizados pelo mesmo poder eleitoral que organizou as eleições presidenciais do 20 de maio do ano passado, que resultou na reeleição de Maduro. Nunca foi tanta verdade que as eleições só são válidas se vence quem os poderosos querem.
Esta é uma nova onda de ataques, mas foram vários, e em todos eles até o momento a direita e os EUA foram derrotados. No entanto, o regime de Maduro está erodindo, divisões aparecem em seu interior, vários grupos, indivíduos e setores populares manifestam seu descontentamento sem se voltarem, em sua maioria, para a direita; tudo num contexto em que o cerco econômico e a distribuição de alimentos e remédios pioraram nos últimos anos. Nenhum monopólio, como o do gigante dos negócios, Polar, foi atacado em suas estruturas tão importantes. Pode-se somar ainda a inoperância, a corrupção, a burocracia do próprio governo e o “mercado negro” que cresce nestas situações de desespero. Aparecendo “Boliv-ricos” [4] de última hora em alarmante quantidade.
Geopolítica e petróleo
A participação direta dos EUA, com algo novo nessa modalidade, na atual conjuntura da Venezuela é parte de sua estratégia política onde, claro, não está ausente a depredação e roubo das riquezas nas mãos das transnacionais que compõe a trama de poder imperial.
Todos sabem, os fatos estão na cara, que a política belicosa dos EUA, sua tendência geopolítica das últimas décadas é manter seu poderio mundial, que em determinados aspectos se vê ameaçado, o que se refletiu em muitos acontecimentos de sangue e fogo. Isso traz nas mãos perigos que podem ser de magnitude em nível geral. Um exemplo disso é sua política armamentista no que diz respeito a aumentar e tecnificar ainda mais seu potencial nuclear, a colocação de armas nucleares em lugares que significam rupturas de acordos anteriores no tempo que obrigam a potências como Rússia a respostas de alto perigo. O império norte-americano em oportunidades tendo como aliado a algum outro país, ou forças internas aliadas, fez toda uma cadeia de intervenções sangrentas, participando diretamente em vários casos e outros combinando essa intervenção com outras técnicas, como por exemplo, armar grupos com a intervenção de outros países para que fizessem parte de seu trabalho. Isso sem esquecer os milhares de mercenários, agrupados em empresas poderosas, que nesses eventos brutais aparecem, por vezes, com peso importante.
Para dizer brevemente, primeiro foi a Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia e depois foram Síria. Haviam aqui interesses mesclados, econômicos, políticos, de poder, de controle de áreas que o império considerava estrategicamente importante de acordo com os apetites de sua estrutura de poder e das competências com outros países como a China.
Mas toda essa macabra ação imperial não foi de fácil execução nem lhes trouxe  os benefícios esperados. Pelo contrário lhes significou um desgaste importante e reveses que não esperavam. Inclusive dificuldades em sua própria situação interna em nível de parte de sua população.
Os Estados Unidos não conseguiram determinados e importantes objetivos planejados e tiveram que entrar novamente no Iraque e Afeganistão. Em outra reviravolta atual se planeja abandonar novamente Afeganistão, sua guerra mais cara da história. É de mencionar sua ativa participação na destruição da Líbia, além de haver iniciado nova guerras na Síria e Ucrânia. Foi ficando claro que a incidência da facção armada militarista segue sendo, nos últimos tempos, um fato de primeira ordem no desenho de sua estratégia imperialista mundial. No interior do bloco imperialista com os EUA a frente aparecem tensões, interesses, que fazem que determinados poderes apostem em políticas distintas que contemplem apenas suas exigências parciais. Tal é o caso de muitas multinacionais e suas expressões ideológicas e políticas.
Se assinala o 11 de setembro como o momento à partir do qual a facção militarista trata de subordinar os interesses de muitas multinacionais à sua estratégia de guerra em nível dos inimigos no mundo. Nesta política do império aparece uma forma de intervenção do Estado que guarda relação com a nova constituição sistemática nesta “etapa” cruamente neoliberal chamada de controle social.
O que nos interessa enfatizar ainda que seja brevemente é algo que mais de um analista vêm afirmando. Que as prioridades, o desgaste imperial em suas aventuras mesquinhas e macabras de poder, a concentração que lhe exigiu essa estratégia, inicialmente no Oriente Médio e África, implicou nos fatos, por certo tempo, uma certa desatenção de seu “quintal”. Não é um abandono de sua política imperial sobre a área, mas sim estar menos em cima dos acontecimentos. Também se considerou com firmes fundamentos que a nova etapa que chegava a situação começaria a variar para mal do meio latino-americano. Vale dizer que a atenção imperial sobre a área aumentaria em grau de importância. Mas tendo em conta que durante esse tempo esse espaço foi bem aproveitado pelo seu inimigo principal: China. No dia de hoje já temos várias mostras de forte dedicação imperial a nossa área.
Vemos então, que dentro dessa estratégia geral que tem como inimigo principal a China e depois a Rússia, o objetivo primordial dos EUA hoje é retomar o controle, total do que considera seu “quintal”. Essa é a tarefa fundamental para eles e junto a isso vai de encontro a tomada de riquezas de nossos países latino-americano, o petróleo e minerais venezuelanos, por exemplo.
A Venezuela é literalmente um grande lago de petróleo. Conserva em seu território as maiores reservas de petróleo do planeta, com mais de 300 bilhões de barris, sendo a primeira reserva de petróleo do mundo. A segunda é a Arábia Saudita, mas como sua aliada “carnal”, os EUA não ousam invadir ou ataca-la de forma alguma, embora possua uma monarquia teocrática que financia o terrorismo salafista (como Estado Islâmico) ou seja o país do Oriente Médio com o nível mais alto de repressão contra as mulheres, a imprensa, etc. Ali os Estados Unidos não reivindicam a “democracia”. A casa de Saud – agora com Bin Salmán – são fiéis aliados da potência “democrática” do planeta, muito úteis a sua estratégia geral mundial.
Por razão desta estratégia mundial de poder, que abarca distintos contextos, Venezuela e Irã, entre outros países, estão na lista de “inimigos” dos Estados Unidos. Este pretende assumir o controle dessas diferentes áreas do mundo usando qualquer meio. Isso já foi feito na Líbia, de mãos dadas com a “democrata” Hillary Clinton e foi tentado na Síria. Os Estados Unidos não economizam em dizimar as populações, convertendo certos países para a mais absoluta miséria, transformando-os em “Estados falidos”, como feito na Líbia ou no Iraque.  Países que os EUA considere que prejudicam sua estratégia, que se aliam com inimigos, chineses e russos, que difundem ideias e constituição de organismos que dão às costas ao seu projeto necessitam ser destruídos. O Brasil no BRIC (que o integram China e Rússia) não era de seu agrado. Esse governo de tantas boas relações com os de cima igualmente não lhe servia. Também via como um perigo um governo como o venezuelano que falava de socialismo, anti-imperialismo, que promovia novas instituições: ALBA, CELAC, UNASUR, Petrocaribe e que promovia resistência a assinar os Tratados de Livre Comércio. Simplesmente pelo que representa esse grau de autonomia, em função de seus interesses políticos, econômicos e sociais, os EUA tinha que destruí-lo de qualquer maneira.
Por mais que o governo venezuelano não tenha mexido no núcleo duro do sistema, de que não construíra nada que se parecesse com o socialismo – ainda que  mencionasse isso constantemente – isso não importava, importavam eram os efeitos que esse discurso podia ocasionar. Na lógica dos EUA era um inimigo que tinha que ser destruído e basta. Nesse acionar operam hoje com mais afinco. De fato, o recrudescimento das sanções econômicas contra a Venezuela em dias passados, teve como eixe as ações de Citgo, a empresa petroleira venezuelana nos EUA, filial de PDVSA. Por essas sanções, EUA bloqueia 7 bilhões de dólares e 11 bilhões de dólares em exportações petroleiras para 2019. Isso somado corresponde aproximadamente a um terço do PIB do Uruguai. CITGO além disso possui três refinarias, 48 terminais de armazenamento e 6 mil estações de serviço nos EUA, um capital nada desprezível, mas onde se vende e distribui combustível a um custo menor que as petroleiras norte-americanas comandas pelos Rockefellers, Bush etc. A Citgo também é afogada em questões de crédito de nível internacional.
Foi justamente através do petróleo, em alta neste momento, que o regime  chavista pôde financiar as políticas sociais (“as Missões”) e uma certa redistribuição de renda nos anos do governo Chávez; como contrapartida desse petróleo a altos valores no mercado mundial, a Venezuela aprofundou sua dependência econômica e não se industrializou. Mas isso lhe permitiu uma política internacional de apoio aos países latino-americanos, criando o Petrocaribe. Cuba e várias Antilhas se beneficiaram dessa política de petróleo barato e de laços diplomáticos mais estreitos. Foi essa mesma política e aliança que possibilitou a derrota dos EUA e do Grupo Lima na OEA nos últimos dias. Mas foi essa política que também motivou os Estados Unidos a apoiarem e darem um golpe em Honduras contra o governo de Zelaya, porque estava timidamente se aproximando da política externa venezuelana. Os EUA não podem permitir que um de seus “peões” saia do tabuleiro. Honduras foi a base militar dos “contras” nicaraguense nos anos 80 e de todas as contra-insurgências daqueles anos. Foi também dali que partiu o golpe contra a “Revolução Guatemalteca” de Arbenz em 1954. Acrescentamos que os EUA também motivou, juntamente com a Arábia Saudita, a política de baixar os preços internacionais do petróleo para reduzir as possibilidades da Venezuela e do Irã e de suas respectivas políticas externas.
Um longo histórico de agressões
Com os meios de comunicação dando tudo de si para formar opinião e criar subjetividade contra a Venezuela, os EUA se apresentam como defensor de determinados valores que sempre atropelou, inclusive dos valores de sua própria democracia burguesa que foram ignorados quando lhe foi conveniente e que hoje já pouco dão valor. Diante esta saraivada que promove a amnésia é conveniente recordar algumas coisas que ocorreram em diferentes momentos e que são representativas acerca do qual é o verdadeiro rosto do império.
Nossa América Latina é um território que suportou as mais sangrentas agressões do imperialismo norte-americano. E nossos povos têm sofrido e suportado as consequências dessas agressões. Essa história criminal é longa, mas mencionemos algumas das mais notórias. Invasão ao México em 1845 e declaração de guerra. Resultado: o México perde metade de seu território, que atualmente é a área de petróleo dos Estados Unidos.
Cuba e Porto Rico em 1898. Através da “Emenda Platt” (emenda acrescentada pelos EUA na Constituição Cubana), a ilha se convertia numa colônia americana. Ali dominaram os interesses das empresas açucareiras, da banca e o jogo ianque, assim como a prostituição. Nesse momento, a Revolução Cubana cortou essas negociações e tal relação colonial. No entanto, Porto Rico permanece sob o pleno domínio da águia norte-americana.
Mas em ambos os casos, como na Nicarágua (invadida já em 1855), os Estados Unidos aplicam o mesmo esquema: apoio a governos “fantoches”, constantes fraudes eleitorais e golpes de Estado. Se necessário, em última análise, desembarque dos fuzileiros navais. Invasão. Contra ela lutou dignamente Augusto César Sandino na Nicarágua junto à sua guerrilha popular.
Em 1914, a invasão e saqueamento do Haiti. Anteriormente, em 1903, os EUA outorgaram-se o direito de inventar um país: o Panamá. Ele financiou e apoiou um “movimento de independência” naquela área que era da Colômbia. Ou seja, os EUA retirou parte da Colômbia para construir ali o famoso Canal Interoceânico, que era o território dos Estados Unidos, guardado por seus fuzileiros navais. É por isso que Omar Torrijos, que negociou com os Estados Unidos o retorno do Canal às mãos panamenhas, foi assassinado em um atentado em 1981.
Geograficamente mais próximo, o apoio direto da CIA e da Embaixada dos Estados Unidos ao golpe de Estado Pinochet no Chile em 1973, muito bem documentado. Da mesma forma, sua participação ativa no Plano Condor que assassinou e sumiu com dezenas de milhares de companheiros no Cone-Sul. O apoio dos EUA a inúmeros golpes na Argentina, no Brasil, na Bolívia e no Paraguai de Stroessner, seu apoio ao golpe de 1973 no Uruguai. A invasão a Granada em 1983.
A invasão dos fuzileiros navais ao Panamá novamente em 1989, para “libertar” esse país de Noriega, um cruel ditador. Naturalmente, o que os americanos não estavam dispostos a admitir era que Noriega era “seu homem” no Panamá. Trabalhou para a CIA e a DEA, mas ocorreu a ele “sobressair-se” aos Yankees no tráfico de cocaína da Colômbia via Panamá para os EUA, que não iriam perdoar esse “pecado” e assim o governo americano “disciplinou” o povo panamenho. Eles arrasaram o país e deixaram 3.000 assassinados.
Exemplos não faltam. Milhares de crimes. As faixas vermelhas de sua bandeira são de sangue, de povos assassinados por seus interesses mesquinhos. Para os interesses de uma burguesia que acredita ser a proprietária do mundo. Além disso, o plano de agressão contra a Venezuela, em seus primórdios, foi muito semelhante ao utilizado no Chile em 1973. Nesta última etapa, eles ajustaram “detalhes” de relevancia, seguem utilizando diversas formas de pressão, algunas grotescas mesmo para os valores burgueses mais além disso, agora ameaçam  descaradamente invadir o país sem grandes dissimulações.
O cenário internacional
O cenário internacional tem muita influência na crise venezuelana. Maduro antes de assumir seu novo mandato foi para a Rússia para se reunir com Putin para garantir seu apoio em todos os terrenos. O papel da China também é importante. Tanto a Rússia quanto a China têm investimentos significativos na Venezuela e na América Latina em geral. Isso faz com que esta região esteja no quadro das disputas inter-imperialistas do mundiais.
Mas há alguma verdade no fato de que terminou a “unipolaridade” pós-Guerra Fria terminou. Os EUA já não podem impor sua plena vontade ao mundo, mesmo que mantenham um poder militar esmagador. Neste período, o último caso foi a Líbia. Na Síria, já sentiram o freio da Rússia não só no campo diplomático, mas também no campo militar e nas alianças muito hábeis que o governo russo implantou, e da China no campo diplomático. Na Venezuela, o mesmo acontece, mas somente na “zona de influência” direta dos Estados Unidos, além dessa enorme quantidade de petróleo próximo.  Isso expressa de maneira clara que não está disposto a tolerar ese freio.
Dizíamos que os EUA perderam o voto na OEA graças a uma política venezuelana de longo prazo. Quanto tempo dura esse apoio das pequenas Antilhas? Os Estados Unidos invadirão algum destes pequenos países? Há algo que aparece de maneira destacada e queremos mencionar: que foi o asqueroso papel do progressismo de Mujica e “palanqueado” por este no terreno internacional e colocado na Secretaria Geral da OEA.
Ou Almargo tem duas caras, ou serve a quem lhe dá “trabalho” ou estamos frente a uma infiltração de mais alto nível, digna das melhores novelas de espionagem. Os serviços secretos venezuelanos e cubanos assinalaram que já suspeitavam desde a época do governo Mujica que Almagro trabalhava para a CIA. Não sabemos se isto é verdade. O certo é que agora certamente isso acontece, e o faz diretamente para Trump. Pelo visto, se não fez antes foi porque não lhe deram oportunidade, é uma figura repugnante, asquerosa e rasteira.
E é justamente no cenário internacional que se desenrola boa parte do conflito, porque os EUA não podem permitir que um país em sua “zona de influência” consiga realizar uma política exterior independente e acima, tente ordenar de outra forma seu “quintal”.
Tempos muito complexos virão
Enquanto os EUA e Almagro a frente da OEA e do Grupo Lima falam de uma invasão à Venezuela, nada dizem contra outros regimes que sem dúvida nada tem de democráticos e isto não é coincidência. Não dizem nada sobre o governo hondurenho, eleito por comprovada fraude eleitoral, depois de um golpe de estado que depôs Zelaya em 2009 e reordenara a situação interna, com uma feroz repressão ao povo, com os mortos e desaparecidos. Esse povo que hoje emigra desesperado.
Nada dizem do “golpe suave” de Temer e o ascenso proto-fascista de Bolsonaro já que claro, isso é de seu próprio interesse. Uma criação norte-americana oportuna para estes tempos. Um dos elementos necessários para desencadear essa nova onda golpista e intervencionista na Venezuela era o necessário apoio do governo brasileiro e de um governo “forte”, é claro. O secretário de defesa dos EUA, Jim Mattis esteve em fins de 2018 no Brasil com o propósito de conter a influência chinesa no Brasil. O mesmo se pode falar da Colômbia. Com as FARC já entregues ao jogo eleitoral burguês, os EUA pode utilizar a seu prazer o exército colombiano e os paramilitares. Neste tempo de “paz” assassinaram centenas de militantes sociais e alguns ex-guerrilheiros. Se torna relevante aqui neste caso o papel do ELN (Exército de Libertação Nacional de cunho camilista-guevarista [5], que vendo como ocorria realmente este processo, se participou das conversações, não aceitou ao fim este programa de “paz”. Finalmente não abandona as armas, retoma operativos militares, não se rende e está tratando de resistir no marco de sua específica concepção e aumentou sua presença na fronteira colombiana-venezuelana. Eventualmente pode se estar gerando um conflito regional se Brasil e Colômbia intervém, ficando aprisionado o mesmo ELN.
O mesmo pode ser dito da Colômbia. Com as FARC já comprometidas com o jogo eleitoral burguês, os EUA podem usar o exército colombiano e os paramilitares para seu próprio prazer. Neste caso, o papel do ELN (Exército de Libertação Nacional) de cunho camilista-guevarista, que não se entrega e está tratando de resistir, aumentando sua presença na fronteira colombo-venezuelana. Um conflito regional pode estar se formando se o Brasil e a Colômbia intervirem, ficando preso nele também o ELN.
Por agora, EUA não poupa recursos em submergir a Venezuela no caos, com vistas a retomar o controle desse governo e seu petróleo. Importa-lhes destruir esse pequeno polo que ainda dentro do capitalismo se apresenta como antagônico, tirando do meio os apoios de Rússia, China e Irã. Em nada lhe interessam as consequências que pode sofrer o povo venezuelano. Só lhes importa mencioná-lo para usar o povo em seus planos macabros. Mas toda essa intervenção imperial aberta coloca aos povos latino-americanos frente a um cenário de maior e decidida luta. Uma intervenção como a que vêm ocorrendo, agressiva e descarada os EUA no continente deve aumentar a resposta popular: mobilizações de rua massivas, amplo rechaço popular. Coordenação de ações dos verdadeiros e independentes movimentos sociais anti-imperialistas. Responder o atropelo brutal e aberto do imperialismo e seus aliados, ao capitalismo neoliberal, com o avanço popular, dos de baixo, num processo de povo forte.  No caso de se dar uma intervenção direta, o fundamental é o povo combativo na rua repudiando com força os assassinos. Se ocorrer essa intervenção direta, que tanto deseja os EUA e Trump e que não consolidaram pois seguem explorando outras vias que conduzam ao mesmo objetivo, em virtude de cálculos dos feitos políticos e sociais que isso pode provocar em perspectiva de médio prazo. Estão apostando tudo hoje em tirar as pessoas da rua para desestabilizar e tratar de capturar uma parte das Forças Armadas, para não deixar saídas e pôr seus candidatos servis no governo.
Sim, este é o novo capitalismo de que nos falam. Os estudiosos nos avisam que estamos numa etapa do capitalismo cuja composição sofreu modificações em relação ao período histórico anterior. Mas os novos elementos que compõe sua estrutura atual mantém fidelidade com o núcleo duro do sistema. A etapa chamada muito generosamente de “Estado de bem estar” ficou para tras e certas funções de contenção que realizaba esse Estado também. Igualmente  já está quase sem peso, a própria fantasia de democracia inventada pela burguesía para afirmar seu poder. Chegou como novo um capitalismo neoliberal cru e duro.
No entanto, o que não oferece dúvidas é que a trama mais polida, os dispositivos mais efetivos que o sistema capitalista foi tecendo neste último século não contradizem premissas fundamentais do que historicamente se conhece do sistema. Os mecanismos, dispositivos e instituições que foram polindo ou produzindo o capitalismo para sua manutenção e reprodução cumprem as funções que foram assinaladas, mais ajustado e tendo presente experiências vividas e desenvolvimentos tecnológicos. Mas a crua exploração e opressão estão aí e mais fortes que nunca.
Seu rosto de hoje é mais cruel, brutal e com meios tecnológicos mais efetivos para tratar de inserir populações, para fazer sentir como necessários os supérfluos consumos variados, para destruir mais decididamente a natureza e produzir grandes populações “excluídas”. Fica mais claro do que nunca, não existe possibilidade de um processo de ruptura, nem sequer reformas fortes, usando os meios que o sistema oferece: sua lógica, seu “sentido comum”, seus dispositivos, seus mecanismos eleitorais e instituições que lhe são próprias.
Obviamente então, esta “etapa” do capitalismo não é idêntica a anterior. Tem seus problemas específicos que constituem todo um desafio a uma proposta que tente processar uma mudança profunda. Aceitar esse desafio e ir formulando respostas sociais é nossa razão de ser. Produzindo e com disposição a corrigir, linhas de trabalho teórico-político devemos estar em ação social permanente. Não se trata de sentar e esperar momentos mais “favoráveis”, em toda circunstância deve haver uma estratégia coerente e tática funcionando.
Em alguns momentos que são de menor intensidade organizando-se para eventos próximos previsíveis, ajustando a organização interna em seus diferentes planos, em outros momentos de maior intensidade executando ações, aplicando previsões e lendo os acontecimentos para que as respostas sejam mais fecundas. A dinâmica assinalada nos diz a gritos, neste mundo capitalista, o poder que vem de cima não é popular. Se o povo não exerce o poder, e ao contrário desenvolve participação ativa num processo orientado para isso, com as práticas próprias que podem possibilitá-lo, criadoras de uma nova subjetividade, independentes da lógica e dinâmica do sistema não há avanço possível para novas relações sociais. O Poder Popular se cria todos os dias se exercendo nas diferentes lutas sociais que se apresentam.
A América Latina está num momento em que se avança a direita ligada ao imperialismo yanquee e suas multinacionais. É tarefa dos povos resistir, fortalecer os organismos populares que permitam fazer frente a qualquer agressão, tentativa de desestabilização da direita e aumento da miséria dos de baixo. Nessa tarefa de combate ir criando ao mesmo tempo um povo forte e independente que contenha os gérmens de um autêntico Poder Popular.
Os povos encontrarão seu próprio caminho e o povo venezuelano assediado hoje, e todos os de baixo, tem dado distintas mostras de combatividade exemplares, de aprendizagem social através de seu sacrifício e luta e de possuir desejos que não morreram.
Está claro, o único que cabe a todos os filhos desta terra, é a condenação unânime e absoluta de qualquer tipo de ingerência, de qualquer intervenção econômica, diplomática ou militar em nosso continente. Pela sua história e o que representam, os EUA nunca podem ser bem vindos, se vêm é para esfomear ou massacrar o povo venezuelano. Para aumentar a opressão e miséria de nossa gente, os de baixo, na América Latina. E como sempre amanhã isso ocorrerá com outro de nossos povos se os EUA se sentir afetado no mínimo de seus interesses. Contra isso é primordial que a resistência esteja presente em todos os terrenos, fortalecendo a luta e os organismos populares.
Na América Latina nem Yankees nem gusanos [6]!
Poder popular pela base!
PELA AUTODETERMINAÇÃO LIVRE DOS POVOS !!!
FORA YANQUIS ASSASSINOS DA AMÉRICA LATINA !!!
PELO O SOCIALISMO E PELA LIBERDADE!
AVANTE OS QUE LUTAM! ARRIBA LOS QUE LUCHAN!
FEDERAÇÃO ANARQUISTA URUGUAIA (FAU)
COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA (CAB)
Notas da tradução
[1] Fedecámaras é um acrônimo para Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), principal organização de associações patronais da Venezuela, composta por empresários de todos os setores econômicos deste país. São 14 os setores econômicos associados: comércio e serviços, indústria, construção, turismo, finanças, seguros, agricultura, pecuária, mineração, energia, transportes, telecomunicações, imobiliário e mídia.
[2] Guarimbas são ações de fechamento de ruas realizadas pela direita venezuelana em diversos pontos de um determinado local. Tais ações se caracterizam por serem realizadas por centenas de barricadas contendo um número pequeno de manifestantes em cada uma destas, tendo como objetivo bloquear uma grande área. Tais ações foram utilizadas sistematicamente nas manifestações golpistas.
[3] Esquálidos é o apelido dado a direita e a extrema-direita venezuelana.
[4] Boli-ricos é uma expressão utilizada para se referir a certa burocracia/apoio ao governo bolivariano que enriqueceu durante o período dos governos Chávez e Maduro.
[5] O texto se refere a duas referências da luta armada latino-americana: Ernesto “Che” Guevara e o padre guerrilheiro Camilo Torres.
[6] Gusanos é o apelido dado aos cubanos de direita e alinhados com o imperialismo yanquee.

[CAB] REFUGIADOS SÃO BEM VINDOS, FASCISTAS NÃO!

No dia 18 de agosto do corrente ano, as redes sociais e mídias foram bombardeadas com mensagens e vídeos de um ataque sofrido por refugiados venezuelanos pelas mãos de brasileiros na cidade de Pacaraima, fronteira entre o estado de Roraima e a Venezuela. Na ocasião, os refugiados que se abrigam em determinadas cidades do referido estado, foram expulsos de suas barracas, tendo seus pertences queimados, sofrendo violência física e verbal, tendo como plano de fundo o hino nacional, gritos raivosos e o ódio e repulsa estampado na cara de alguns.

Destacamos que a política de acolhimento de refugiados e suas dissidências parecem estar bem distantes da realidade brasileira e latino-americana. Engana-se quem pensa de tal forma, pois, as correlações econômicas e sociais que fraturam do imperialismo dos países do norte, constitui outras relações de domínio para com os nossos vizinhos, estabelecendo relações anacrônicas de governança e a pauperização extrema em determinadas localidades. Portanto, discutir sobre estes êxodos migratórios em massa, é além de uma revelação de contornos do capital e do Estado que demarcam novas políticas populacionais, um alerta para uma luta que nos é cara e emergente.

Salientamos que, este patriotismo encapado de fascismo escancara a barbárie propagada e reproduzida pelo oligopólio midiático, bem como, as políticas de fronteira e correlações com os países ricos. Apesar de o Itamaraty e o STF reforçarem que todo e qualquer refugiado é “sempre bem-vindo ao Brasil”, o Estado nacional, assim como sua funcionalidade inerente, é contraditório, tendo em vista a sua subserviência para o capital estrangeiro, em especial o estadunidense, bem como a demarcação obstacularizada de diálogo com os países do cone Sul. Em momentos de crise geopolítica, um dos principais argumentos e proposições do Estado, é a utilização do seu aparelho coercitivo. Isso já foi sugerido em entrevista pelo representante do Itamaraty, quando na ocasião, indicou que o estado de Roraima solicite a Garantia da Lei e da Ordem – GLO, possibilitando que o exército tenha mais “liberdade” para agir.

Todas estas ações não estão dissociadas, muito pelo contrário. As relações de dominação sobre o território brasileiro nos evidenciam que a violência e coerção se retroalimentam cotidianamente, sendo um elemento necessário a eficácia de um falso discurso de soberania nacional. Nós, da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB, repudiamos todos os ataques fascistas que nossos irmãos venezuelanos sofreram esta semana, bem como repudiamos e denunciamos as investidas xenófobas contra os nicaraguenses na Costa Rica. A nossa luta é internacionalista, anti-imperialista e prima pela solidariedade entre os oprimidos.

OS REFUGIADOS SEMPRE SERÃO BEM-VINDOS!
O FASCISMO NÃO SE DISCUTE. SE DESTRÓI!

[fAu – espanhol] Solidaridad con el pueblo Venezolano – Contra todas las formas imperiales, y más los yankis!

Retirado de:                               http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2015/03/25/solidaridad-con-el-pueblo-venezolano-contra-todas-las-formas-imperiales-y-mas-los-yankis/

No ha bastado un premio nobel de la paz ni las más artificiales aristas populistas para tapar o apenas maquillar el rostro aguerrido e incesante del imperialismo norteamericano. Obama, el hombre de la paz, no deja puerta entre abierta ni deja de prestar atención en América. La multifocalidad de control y atención de Estados Unidos sobre lo que acontece en el mundo no permite escape aparente a gran escala, aún con la concentrada dedicación político militar en medio oriente, Rusia, China.

Ha sido declarada Venezuela como enemiga de Estados Unidos mediante un decreto del propio Obama. Muchas preguntas surgirán buscando la retórica sobre cómo ese gobierno que ha incrustado su historia en guerras contra pueblos en todas partes del mundo, pueda cuestionar y salir como garante de un proceso de diálogo y todavía con el gobierno colombiano de aliado.

Claro que interesa el petróleo y la cuenca del Orinoco, claro que interesa mucho para norte américa controlar las nuevas alianzas que se tejen en el caribe con subsidios para países que el gobierno venezolano quiere promover como nuevos aliados comerciales. Claro que interesa todo lo que pueda significar un agotamiento de los recursos energéticos de China. Pero para llegar a eso se deben de nutrir de varias acciones. Acciones que van a orientarse hacia donde tienen los peores problemas: el campo de lo ideológico.

Lo han hecho con sabotajes de todo tipo y conspiraciones de cualquier alcance. Poco asombraría cuando hablamos de la presencia norte americana en América del Sur este hecho con la gravedad que reviste, y aún menos en Venezuela que mantiene en memoria no sólo el secuestro al ex presidente Hugo Chávez de entintada huella yankee, sino todo un largo recorrido de intromisión mediante agregados diplomáticos, culturales y militares de todo tipo, fundaciones y ONG truchas bancando la oposición, y los etcéteras más conspirativos y asesinos que estas historias ameritan.

Todo pareciera indicar que en esta etapa se han enriquecido mucho más las relaciones y acciones entre la derecha latinoamericana y EEUU. Hablamos de la derecha rancia latifundista y apoderada de los medios de comunicación; la derecha que no tolera ni permite el avance en materia de derechos humanos, la que inviste de impunidad todos los territorios en pasado y presente. Los aterrizadores de lo que fuera el neoliberalismo de comienzos de los años 90, son ellos los que crítican y buscan exterminar las asistencias sociales, las ínfimas políticas de atención en salud, la continuidad ultranza de las privatizaciones en su versión más radical. A ellos los ha tocado bastante la ley de medios en Argentina y la detención de los torturadores y genocidas del plan cóndor. A ellos les molesta y muchísimo las detracciones en la producción agropecuaria, que les toquen un solo centésimo aunque acumulen millones por día.

Y allí como si nada y sin recoger piolines sobre su pasado reciente y bien recordado Obama, el ejecutivo norte americano, no solo declara enemigo a Venezuela sino que se ofrece como garante a las negociaciones. Esas negociaciones entre partes del gobierno y la derecha de ribetes golpista y con observadores como EEUU y Colombia. No buscarán otra cosa que adelantar las elecciones nacionales o habilitar algún mecanismo desestabilizador, coleteo mediante y constante de los servicios de inteligencia CIA. Nada le vendrá mejor que intervenir desde allí, desde su propio seno donde la confrontación popular también sale a las calles.

Y hay algo que EEUU no quiere, y no es menor, hasta podríamos decir que es lo neurálgico del asunto en cuestión. ¿Sólo le interesa al poder de Obama una administración distinta del petróleo del Orinoco?, ¿Contra qué y quiénes deberá dar la batalla última y definitiva?. La preocupación sin duda desde el ángulo ideológico es la resistencia a la total dependencia yanqui que significan los diferentes bloques políticos formados en esta área. Bloques que aún desde una misma estructura capitalista quieren más independencia respecto a los yanquis. Eso es lo que precisamente molesta al gobierno de la Casa Blanca de Washington. Quieren disponer de su patio trasero a su antojo y en coherencia con su estrategia de gendarme mundial y de disponer de las riquezas de estos lugares sin resistencia de sus subordinados.

No podrán mientras el pueblo reivindique su soberanía y autodeterminación. Soberanía que no admite espacio para la ingerencia asesina de la historia negra de la CIA y las políticas imperiales norteamericanas. No hay lugar para ello con un pueblo fuerte, empoderado, con memoria. No hay sitio para la conformidad y sí para la resistencia. Así lo indican los medidores de opinión que hasta los que más se corresponden con CNN, New York, y Washington indican que existiría un rechazo casi total, unánime, en la población venezolana a una intervención colonialista norteamericana. Algo hay allí, algo se ha producido que se puede ver, algo ha dado contenido a tanto tiempo de opresión y saqueo.

Porque es un enemigo claro el imperialismo norteamericano, el que recuerdan nuestros pueblos desde la memoria inmediata hasta las anteriores. Y es bastante lo que en estos momentos se sale a defender en Venezuela, aunque las más rotundas críticas puedan decir que se trata de un puñado, un manojo de conquistas populares, a fuerza sí del movimiento popular. Ellas también en clave de empoderamiento de los de abajo y en los barrios obreros.

Basta de intervención norteamericana en América!.

Contra todo imperialismo, y más el norteamericano!.

Por procesos populares que apunten desde abajo a la construcción de un pueblo fuerte!.

Arriba los que luchan!!

federación Anarquista uruguaya

[fAu] Sobre a Venezuela e ante a morte de Hugo Chávez: Seguir criando Poder Popular!!!

Sua repercussão na América Latina e no mundo.

Uma forte comoção passeou pelo mundo, pois morre um governante e militante de características singulares. Bastante controvertido, polêmico e polemista, de afirmações políticas vigorosas, criativo, incansável no seu dizer e propor, de potente carisma. Trouxe para a cena social política o nome do socialismo quando já poucos ou quase ninguém, a nível de governos em uma estrutura capitalista, fazia menção a tal nome, muito menos depois da queda do chamado socialismo real. Com Marx e Deus na sua boca lançou um socialismo original do século XXI. Ainda se discute qual conteúdo possui tal conceito. Estava então, como segue estando, no trono da infamia, o modelo neoliberal. Seu fazer político o marcou com um selo muito pessoal.  Governante paternalista, personalista, autoritário, foram as definições mais frequentes que usou-se para o seu acionar. Criou mística e esperança na maior parte do seu povo e também, em parte, de outros povos da América Latina. Gritou energicamente forte, com algumas contradições, o seu anti-imperialismo, sobre a grande pátria latino-americana, da independência, sobre o Poder Popular criado fundamentalmente a partir de cima. Teceu desde seu governo, com o suficiente da sua marca, as relações políticas com vários governos ao redor do mundo. Fez uma política de solidariedade com os países latino-americanos e até mesmo para além desta área: venda de petróleo em condições favoráveis, e outros tipos de ajuda, por exemplo, para recuperação de indústrias que levariam os trabalhadores, como no nosso país. Assim como, da mesma forma, propôs e perseverou na construção de novas organizações na América Latina fundamentando de que, com isso resultaria em mais independência, que pudesse trazer melhorias significativas para a qualidade de vida das pessoas.

É um fato que está em vista de sua figura está dimensionada de modo que hoje move multidões em seu país e diferentes expressões e manifestações em nossa América Latina e diversos países do mundo. Só a prova de exemplo, vamos dizer que o Irã declara um dia de luto, Argentina, Equador e Brasil três dias de luto, e moradores da Rússia carregam flores para a porta da Embaixada da Venezuela. Há notas expressando tristeza e dor, desde o Vaticano até a China. Sua morte se torna um evento incomum.

Dor de povo, dor que dói.

Nesse povo numeroso que sai às ruas na Venezuela há expressão dor, sensação de perda de algo querido. Ao mesmo tempo, no interior da dor acentuada, marca que há um caminho à frente a seguir, que ficou uma linha traçada. Assim o vivem, o sentem e o dizem. “Hoje, o nosso dever é continuar ainda mais fundo com o socialismo, com a luta do projeto que o comandante nos deu”, responde um estrevistado a um repórter ao passo. Outros dizem coisas semelhantes e luta e socialismo mencionados novamente e novamente. Qual subjetividade se produziu nesta experiência social aos de baixo? Difícil de responder rapidamente e menos hoje. Se vive na dimensão da emoção, da angústia, do sentimento agredido. Também rebeldia. O que trouxeram estes ventos tão fluidos, tão contraditórios, com esperança, para amplos setores dos de baixo reais? Local onde houve um apoio mais amplo para Hugo Chávez. Que elementos ideológicos se produziram? Como esses elementos se expressarão no amanhã próximo?

É justamente ali, no povo, nos de baixo propriamente dito, onde reside na Venezuela e em todos os lugares, a esperança de início de processos para um amanhã melhor, justo e de solidário.

O anarquismo histórico ombro a ombro com o povo

A FAU é fortemente uma herdeira daquele anarquismo que os imigrantes trouxeram para estas terras. Daqueles semeadores que colocavam tudo para mudar esse sistema brutal, injusto até a demência. Diziam de modo direto nas publicações da época, que nada podia se esperar a partir desta burguesia cruel e exploradora, pois tínhamos que lutar por outra sociedade. O que eles diziam levavam-no à prática. Lá se encontravam metidos até os ombros dentro do seio daquele povo ao que sentiam pertencer. Eles não tinham nenhuma dúvida de que era o seu lugar. A sensibilidade social daqueles militantes libertários que vinham de diferentes partes da Europa lhes perimitiram tomar contato rápido com o sentimento, com todo o imaginário daqueles “nacionais”, que nunca tinham ouvido falar em sindicatos, muito menos em socialismo libertário ou anarquismo. Mas bem tinham como referentes caudilhos políticos e partidos criados descaradamente para manter privilégios. Na vida cotidiana, vivendo com os mesmos problemas de seu povo, sofrendo aquela superexploração, dando, de fato, um exemplo de companheirismo, oferecendo coisas como o desejo de tecer com colegas de trabalho a sensibilidade espremida, foram criando os primeiros sindicatos, explicando que poderia ser alcançado um mundo melhor, que se devia lutar para arrancar dignas condições de existência e da preparação de um amanhã próprio. Depois, nos sindicatos se ensinava a leitura e a escrita, havia palestras sobre vários temas, se formavam temas dramáticos, se levantavam panelas solidárias durante as greves. Ao fazê-lo, em seguida, nesse amassar dos sonhos, foi-se construindo um outro sujeito. Não veio só nem dos livros, veio da ação cotidiana, das práticas que se foram realizando, da participação que estavam levando os trabalhadores que não conheciam a palavra “sindicato”. É claro que aquela militância estava inserida profundamente e propunha uma orientação nas tarefas sociais cotidianas. Propostas que calçavam com aqueles desejos. Mas bem se sabe que desejo não se engravida. Aquele trabalho diário estava, na verdade, organizando representações, idéias, comportamentos, produzindo ao mesmo tempo determinadas mudanças no imaginário dos de baixo. Este foi o caso aqui e, pelo menos, na maioria dos países da América Latina.

Hoje, o imaginário dos de baixo é mais rico, contém muitas experiências-primas e cruas, e a sua subjetividade é ao mesmo tempo mais complexa. Contém elementos de rebeldia e compreensão geral da injustiça que o rodeia. E assim, por vezes, ganha as ruas. Além disso, sempre resulta mais proveitoso que se esteja participando dos eventos sociais do que esteja em um estado de resignação e alheio ao seu entorno. Como estará o imaginário dos de baixo na Venezuela, quando muito se falou do Poder Popular, quando muito se falou sobre o imperialismo, quando certas formas de participação social têm sido eficazes? O que sabemos é que o quietismo e a resignação não produzem nenhum grau de resistência, a possibilidade está na ação política social real, por mais contraditória e confuso que seja.

Imperialismo e poder popular

São conceitos, tanto do imperialismo como o do poder popular, que estiveram com freqüencia nas palestras de Hugo Chávez. Seguem ainda presentes no discurso neste momento nos lábios de estadistas e militantes populares. O conteúdo e sua implementação são já farinha de outra história.

Podemos dizer que são muitas as pessoas que queriam passar o horizonte linguístico do termo imperialismo. Sugerem, às vezes o dizem, que é algo que pertence ao passado do capitalismo. Sugere-se que, nesta era pós-moderna as relações sociais mudaram com o grau de tais problemas que já se dissolveram. Se hoje há algo que fica claro é que a existência de relações de dependência, tudo o que constitui uma política imperial, é um componente constitutivo do sistema capitalista.

Quem deu por morto ao imperialismo não serve para coveiro. O imperialismo vive e oprime como nunca. Enquanto isso, os Estados dos países mais industrializados têm aumentado seus papéis em vários campos. Não é há contradição nisso de que muitos desses países se encontram no que designam como crise e que estão jogando para o desemprego milhões de trabalhadores.

É verdade, hoje, há outra forma de capitalismo de Estado, não deixou de se ocupar de algumas funções anteriores e se ocupou de outras que considera estratégicas para esta etapa. Uma etapa onde o feroz capital financeiro viaja o mundo deixando o rastro de miséria.

Capital financeiro internacional que diariamente se cruza com a esfera política e ideológica. Os banqueiros não têm dificuldade em pagar os bilhões de dólares que eles mesmos roubaram. As estruturas: econômicas, jurídico-políticas e ideológico-culturais revestem hoje uma articulação muito específica. Para isso deve-se acrescentar o uso muito importante da tecnologia da informação para o benefício dos poderosos. Tudo isto interessa aos efeitos de recolocar os temas do presente, os processos em curso, o estado atual da estrutura imperialista.

Não há dúvida de que devemos continuar falando sobre imperialismo. Mas não perdemos a perspectiva, programas táticos a parte, de que consequente anti-imperialismo deva ser anticapitalista.

O bloco imperial, apesar da sua situação interna, continuou operando a todo momento. Nem na América Latina ou em outras partes do mundo. Seguem tentando hoje subordinar seus projetos em todo o Sul. Há ataques e campanhas que vão desde sutis a grotescas, sobre cada país que tenta algum grau mínimo de independência política. Em termos de nossa América a penetração imperial está em várias pontas. No econômico, eles conhecidos por tratados, tal a Alca na etapa anterior e, em seguida, para a resistência oferecida, são populares como substitutos, o TLC e TIFA. Militarmente são as várias políticas do Comando Sul. Ideologicamente, instrumento de primeira ordem para estruturar toda a política, há produção de “teorias” gerais e parciais para justificar todas as suas ações. O pensamento único está composto por uma grande variedade de discursos que abrangem vários domínios.

Ao contrário do que a mídia diz, os EUA introduziram e continuam colocando bases na América Latina, com a Amazônia e o Brasil cercados, financiam a repressão e o tráfico de drogas no Plano Colômbia e, mais recentemente, em sua penetração no México; sempre latentes estão os “clássicos” golpes da CIA e suas políticas desestabilizadoras. Somemos as guerras, intervenções militares, massacres.

Descontamos a intervenção tradicional do FMI, Banco Mundial, a ex-Organização Mundial do Comércio e o BID. Os projetos globais e todos esses mecanismos de prisão e predação.

Sabemos que é impossível separar a estrutura imperialista e os interesses das transnacionais das suas matrizes. Assim estamos em um momento histórico onde as 500 maiores empresas do mundo controlam 80% da circulação da riqueza, bens e serviços. E dentro dos serviços nós colocamos a informática que é bem conhecido, na forma como é utilizada, o serviço singular e implacável que proporciona a toda a política de dominação, com a constante criação de novos mecanismos e símbolos.

A propósito da Venezuela, algo sobre a América Latina hoje

Antes da implantação desta nova fase do capitalismo e das suas brutais e sistemáticas práticas imperiais relacionadas com isso, não se pode dizer que os povos têm estado tranquilos. Apenas mencionaremos de passagem e, genericamente, a chamada “Primavera Árabe”, as revoltas populares, como na Grécia, Portugal, Espanha e mesmo até nos EUA.

Mas queremos enfatizar nossa área. Resumidamente lembraremos da resistência na nossa América Latina na última década, onde, sob diferentes condições sociais e econômicas, em curto espaço de tempo, o povo do Equador, Peru, Bolívia, Argentina, México e Venezuela, protagonizaram confrontos violentos, muitas vezes desesperados , quebrando o circuito da miséria e da injustiça brutal que os aprisionava em um nível elevado. Filha da situação da política neoliberal feroz neste último período. O Caracazo foi quase um precursor destas revoltas populares.

Com diferentes graus de intensidade, o questionamento de tal situação foi se tornando em escolha urgente de luta. Uma luta não orientada geralmente, por aparelhos políticos tradicionais da esquerda, mas do tipo da ação direta popular. Governos caíram, outros tiveram que repensar a sua continuidade de projeto para apaziguar a raiva e tentar não mudar nada de substância. Assim, apesar da cumplicidade de governos na América Latina com a continuidade dos projetos imperiais, continuidade que assumiu várias formas e graus, o cenário político do continente ficou um pouco revolto. No entanto, pode-se observar que após a substituição “progressista”, realizada em vários países, em muitos deles, não houve alterações relevantes nos fundamentos da política interna ou da estrutura de dependência. É claro que não queremos dizer com isso que todas as coisas seguem iguais, seria de pouco rigor. Há um certo número de elementos que compõem uma conjuntura política distinta. Há registros de que existem tentativas de criar estruturas e instituições na América Latina que limitem essa dependência assim como há reformismo forte em países como Bolívia, Venezuela e Equador. Enquanto que, um conjunto de fatores internacionais trouxeram alguns efeitos positivos para a economia da maioria dos nossos países. Definitivamente são questões que merecem um tratamento mais profundo que hoje o deixamos por aqui.

Poder Popular

Nestes anos, especialmente aqueles de baixo da alça da Venezuela, estavam-se desenvolvendo uma série de atividades populares. Isso foi tomando formas organizacionais: coletivos, conselhos comunais, comunas, etc. Isto, como um todo, foi chamado de Poder Popular. A burocracia partidária foi crescendo em interferência e cada vez mais substituindo os autênticos representantes destas formações populares. Havia, e ainda continuam havendo protestos de coletivos e comunas que reivindicam autonomia e que ganhos obtidos tenham efeito. Nós temos a recente situação dramática das reivindicações indígenas para as suas terras e que resultaram no assassinato vil do militante Sabino Romero feito por contratados.

Aliás, sabemos que o movimento bolivariano não é algo homogêneo, e sua composição é fluida. Diferentes abordagens políticas e ideológicas não são escassas. Em um momento de descontentamento dos de baixo, aqueles que trabalham em organizações sociais em comunidades, que rejeitavam o controle crescente da burocracia partidária, e que em um evento popular, Hugo Chávez fazia a leitura de uma carta de Kropotkin a Lênin. Sua maior área de apoio estava sendo afectada pelo comportamento burocrático. Nesta oportunidade apela para enfatizar uma prática de Poder Popular diferente. Vejamos.

Hugo Chávez diz: “Parece-me vital tomar isso como uma referência ao que aconteceu na União Soviética que só começava a Revolução Russa.” Começa a ler a carta:

“Sem a participação das forças locais, sem uma organização a partir dos de baixo dos trabalhadores e camponeses, se é impossível construir uma nova vida por eles mesmos.

Parecia que os soviets serviriam justamente para cumprir a função de criar uma organização desde baixo. Mas a Rússia tornou-se uma República Soviética, só de nome (comenta: 1920, isso começou mal, não?) A influência dirigente do “partido” sobre as pessoas (acrescenta: “partido entre aspas, partido falso”), que consiste de recém-chegados, porque os ideólogos comunistas, estão, principalmente, nas grandes cidades, já destruiram a influência e energia construtiva que os soviets tinham, no momento atual, são os comitês do partido e não os soviets que carregam a direção na Rússia e sua organização sofre os efeitos de toda organização burocrática. Para sair desta confusão a Rússia deve retomar todo o gênio criativo das forças locais, em cada comunidade, o que a meu ver, podem ser um fator na construção da nova vida, e quanto mais cedo a necessidade de retomar o caminho, quanto melhor será. As pessoas então estarão prontas e dispostas a aceitar novas formas sociais de vida, se a situação atual continuar, mesmo a palavra ‘socialismo’ será transformada em uma maldição.” “Temos que olhar para isso”, diz ele em tom de forte crítica da sua militância.

O empoderamento do povo, o Poder Popular é sem dúvida, com uma consequente prática um fator político de primeira ordem. Para encarar adequadamente política e teoricamente esse conceito, que rapidamente definimos como a capacidade de uma força político-social de realizar seu projeto, há questões de caráter estratégico e teórico que devemos considerar. Hoje faremos de forma breve e para uma situação específica que se está chamando.

Diferentes abordagens e orientações podem surgir a partir de tal conceito de Poder Popular. Por exemplo, existe toda uma conceituação em torno do conceito de vanguarda que pode fazer com que práticas opostas ao que se tenta, ponham-se em ação. O conceito de vanguarda que foi todo um paradigma para quase um século. Na verdade, este conceito nos indica o critério de que deve haver uma única direção: do partido para a classe e toda à população. Hoje seria de, pelo menos em alguns lugares, do partido para o movimento popular. Contém a crença de que a população, o sujeito histórico estabelecido, já seja classe, ou movimento popular, deve permanecer subordinado ao Partido. De que a “massa” operária ou popular, em geral,  sozinha é incapaz de criar instâncias de deliberação. Além disso, também a crença de que no seio da sociedade capitalista não pode ser gerada a partir de baixo, condições básicas para a sua dissolução. Muito não importa, então, com essa concepção, o grau de desenvolvimento da auto-organização, de auto-gestão, de instâncias contínuas de participação popular. Não se trata, no fundo, de criar um povo forte, senão um partido forte. Reducionismo político total, filho, por outro lado de toda uma concepção geral reducionista.

Uma ideología para o Poder Popular

Se trata de apostar a um processo que produza uma ideologia de ruptura. Ela articulada com a prática política nesse sentido.

E a ideologia não vem de fora, ocorre no coração das práticas, idéias e comportamentos que o povo vai realizando através dos seus vários enfrentamentos. A produção de uma nova tecnologia sócio-política e “discursos de saber” correspondentes à libertação não podem ocorrer sem deslocar aos que fazem a dominação. É tarefa política de desconstrução. São discursos que devem entrar em confronto e que devem regar todos os casos em que o povo protagonize lutas de resistência.

Uma estratégia de Poder Popular não é uma enteléquia, ou algo que vem com o feitiço certo. Não é um ato isolado. Requer a modificação de práticas, de ruptura, de descontinuidade, em áreas como o econômico, o ideológico, o político-jurídico, o cultura geral. É estar batendo e quebrando esta vasta rede de dominação. Todas essas idéias se concretizam em um processo com participação ativa popular. Um povo, que compondríamos como um amplo espectro dos oprimidos e explorados, nesta fase, designamos como conjunto histórico de Classes Oprimidas. Um povo que sofre, dentro das mudanças estruturais, uma fragmentação de importância que deve ser superada. Onde novas estruturas de dominação têm sido desenvolvidas e surgidas em outros lugares do que àquelas tradicionais. Necessário, indispensável, construir laços de solidariedade que vinculem, que façam com que a unidade das suas lutas constituam uma base de primeira ordem para que conformem uma força social capaz de dar confrontamentos efetivos e dar passos em qualidade. Nós não estamos falando de gradualismo, nem linearidade ou de tomar os inimigos um por um. Estamos falando de oporem-se sistematicamente, estrategicamente, um universo que inclui a nova realidade histórica, as mudanças que foram surgindo em processos complexos. A nova militância que esta situação impõe.

Nossa América Latina teve na última década, por exemplo, várias experiências de luta. Ela enriqueceu seu quintal ideológico.

Em certos momentos históricos se produzem com peso um conjunto integrado de idéias, representações, noções no interior do imaginário dos diferentes sujeitos sociais. É este conjunto articulado de caráter imaginário, e que toma a forma de “certezas” que é defendido pelos mesmos sujeitos sociais. Isto é o que pode transformar estes sujeitos em protagonistas de sua própria história ou em sujeitos passivos e/ou disciplinados pelas forças dominantes ou por estratégias equivocadas que o pedem quietude, silêncio, “disciplina”.

Assim, a ideologia tem a ver diretamente com a constituição histórica dos sujeitos sociais, e com a forma como estes se expressam na sociedade. É algo muito diferente da noção de que a ideologia é a falsificação da realidade, precisamente porque ela é um dos componentes fundamentais de qualquer realidade social.

A ideologia tem na sua constituição elementos de natureza não-científica e que contribuem para aumentar a ação, motivando-a com base a circunstâncias que não derivam estritamente delas. A ideologia está condicionada pelas condições históricas, mas não determinados por elas mecanicamente.

Nesta relação entre a ideologia ea produção de sujeitos históricos, relação que se não existisse, não haveria nem ideologia nem sujeito, é que vai moldando-se os momentos de vigência ideológicas. Bem como, os sujeitos/agentes históricos se expandem e levam a hegemonia dos corpos sociais, a partir da vigência das ideologias.

Estes momentos podem ser expandidos chegando a se totalizarem, em outros momentos as ideologias se sobrepõem na mesma sociedade ou ficam vivendo em áreas isoladas. Frente ao fruto da fragmentação neoliberal, quebrar o isolamento de representações ideológicas com potencial emancipador é tarefa permanente de uma organização política com intenções de mudança.

Assim podemos concluir a importância da luta ideológica, presentes principalmente em tempos históricos atuais no nosso continente. Onde a operação da ideologia neoliberal, com todos os meios operacionais informáticos funcionando; o que dá a curva à direita das esquerdas institucionais que vão cada vez mais inserindo-se no sistema.

Em suma, uma concepção e uma prática do Poder Popular tem a sua produção específica, tem o seu próprio universo. Ele tem a sua própria produção. Para jogar como uma força transformadora, condicionante de conjunturas, produzindo progressos desestruturantes há uma condição necessária: deve sempre manter sua independência. “A independência de classe” se dizia em outros momentos do desenvolvimento histórico, hoje diríamos, ajustando ao novo contexto: a independência das classes oprimidas, isto é, de todos os movimentos populares.

Mas queremos salientar que, apontando esta categoria, em especial tendo em conta as características particulares de cada formação social, sua história, suas transformações, sem negligenciar o que tem de comum com outros países, principalmente na área e, obviamente, as condicionantes que globais estruturas de poder estabelecem.

É bem sabido, as malhas de podera dominante esmagam, manipulam, moldam. Inserem em seu seio, partidos, ideologias, movimentos, histórias, os amassam e depois os devolvem como bons seguidores do antigo e reprodutores do atual. O mecanismo se repete uma e outra vez. E muitas são reiteradas como forças incomensuráveis girando nessa roda louca. Nestes dispositivos é que temos que atirar com propostas e ações de conteúdos diferentes. Com uma coerência que permita pisar firme.

Está a mais notar que a circulação infinita das mesmas dinâmicas e lógicas não podem criar algo novo, apenas recriar o existente, com menor ou maior fantasia.

Para permitir que outras relações sociais, os fatos parecem indicar a necessidade de usar outros materiais para a nova construção. Uma outra abordagem, outra perspectiva, outra lógica, outras práticas, outros mecanismos. Outro ponto de partida. Nada original, é a nova civilização que elaboraram os socialistas antigos. Esse processo deve descansar e implantar-se em uma feroz independência das classes oprimidas. De um povo construindo seu destino no ritmo que permitem as condições históricas. As armadilhas, as relações, as próprias alianças tácitas e explícitas devem ser feitas a partir dessa perspectiva de independência. Uma vez que não pode ser isolado, como deve se estar no meio do povo e nos eventos sociais complexos e variáveis, esse fator adquire uma importância de caráter estratégico de primeira ordem.

Diante de todas essas mudanças e perdas sociais, contra a cultura que proclama o fim das ideologias e da história, declarando o capitalismo e suas instituições como a única realidade possível, é que atualmente a luta ideológica ganha dimensões estratégicas para a produção de um novo sujeito histórico, capaz de enfrentar tais concepções dominantes com base na ação direta. A partir da ideologia, do poder das ideias, é que se pode mobilizar os corações e razões, coletivamente, articulando-os em uma expressão de resistência e progresso na medida que convoca diferentes sujeitos sociais e os transforma em agentes capazes de reescrever a história e conceber um mundo novo. Tudo isso articulado na expressão política subsequente.

Inseridos em nosso povo, vivendo seus problemas cotidianos, com esperança e ferramentas eficazes iremos construindo crescentes espaços de socialismo e liberdade.

Arriba los que luchan, sempre.

6 de marzo de 2013

Fonte do texto traduzido: http://www.cabn.libertar.org/?p=879

Texto original  da FAU: http://federacionanarquistauruguaya.com.uy/2013/03/07/sobre-venezuela-y-ante-la-muerte-de-hugo-chavez-seguir-creando-un-pueblo-fuerte/

55-años-comienzo FAU

Considerações sobre a morte de Hugo Chávez

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Para refletir. A Venezuela se encontra diante de um impasse. Na arena externa, o vice-presidente em exercício, Nicolás Maduro, teve de expulsar dois diplomatas dos Estados Unidos hoje, pouco antes do anúncio do falecimento de Hugo Rafael Chávez Frías. Ou a inteligência do país, auxiliada de fato pelo G2 (serviços de inteligência cubanos), de fato identificaram sondagens nas FFAA (o que ocorre sempre), ou então se tratou de manobra diversionista. Mas a probabilidade de alguma articulação para desestabilizar o país é bem alta.

Pouco depois, foi anunciada a morte de Hugo Chávez. Na semana passada, o baita jornalista Elias Aredes Junior me perguntou exatamente se eu achava que Chávez voltara à sua terra natal para falecer? Entendo que sim. Já terminal, optou por morrer no país e com isso ajudar o condicionamento da sucessão. O problema não reside aí, e sim nas múltiplas possibilidades de cenários no futuro próximo.

A cancha está aberta…

Projetando cenários para a Venezuela pós-Chávez

1) Cabello assume como presidente do Poder Legislativo e Maduro concorre pelo PSUV; já Capriles, pela oposição unificada. Seria uma eleição única, onde o Departamento de Estado e o continente, além dos capitais Ibero-americanos e as petroleiras, estarão presentes.

2) Maduro garante o exercício do Poder Executivo e não transfere no prazo constitucional o poder para o Parlamento. A oposição ameaça não participar do processo. Neste caso, o papel das FFAA é fundamental para a manutenção chavista do poder.

3) O PSUV racha e a oposição também. Este cenário é muito improvável, mas pode vir a ocorrer no campo da oposição, caso a direita não tenha uma eleição agendada para logo. No caso, a cancha fica aberta, inclusive com maior agressividade do Império.

4) Mesmo que Nicolás Maduro saia vencedor das eleições marcadas – o mais provável – abre-se uma segunda rodada no exercício do poder pelo líder chavista. A interna do PSUV está terrível e pode haver racha interno; mas isto seria após uma provável vitória nas urnas.

PSUV no poder

Para concluir a primeira projeção, lembro do populismo na Argentina.

O peronismo sem Perón é diferente do peronismo com Juan Domingo, o que também já não era muita coisa diante das propostas de juventude de esquerda que se somou ao movimento no final dos anos ’60. No caso venezuelano, a reprodução da cultura política do país por dentro do PSUV (formado por caudilhos e mesmo politiqueiros reconvertidos, os setores são chamados de direita endógena) é marcante. O problema seria a quebra do pacto.

O PSUV existe em função de Chávez. Na sua ausência, a dimensão ideológica não é tão forte como a conveniência de estar bem com o Executivo. Hoje existem diversos peronismos e existirão diversos chavismos em um par de anos. O mais provável é que, até as próximas eleições, nada venha a ocorrer. Até porque a tendência é que Maduro seja o candidato oficial e vença nas urnas.

Mas se o PSUV perder, dificilmente a direita leva o poder, mesmo que o ganhe nas urnas. Seria também uma quebra de pacto, assim como os rasgos de constitucionalidade se rompem ao não serem convocadas as eleições nos prazos legais. O chavismo sempre se baseou na legalização e constitucionalização do processo, quase sempre deixando como pauta do longuíssimo prazo, ou da terra do nunca, o câmbio social profundo ou o problema da sucessão.

Agora o problema chegou e a balança só pode pender para o processo bolivariano se houver um grau elevado de unidade pelas forças sociais – como rádios comunitárias, o que existe de sindicalismo combativo, movimento indígena, palenqueros (equivale a quilombolas) e o que sobrou da comunidade urbana organizada e mobilizada em Caracas e nos estados vizinhos.

Neste último caso, repousa o controle sobre e das milícias. Se este controle estiver com as lideranças – duvidosas em sua maioria – do PSUV, tudo pode acontecer inclusive durante o provável governo de Maduro. Já se este controle estiver com a parte mais radicalizada dos diversos movimentos bolivarianos, como Tupamaros, Andrés Vive, Comunidades al Mando, Frente Campesina Zamora, entre outro, aí existe alguma chance de câmbio profundo, desde que não se instale um cenário onde as FFAA reprimam diretamente o movimento popular, ao menos não num primeiro momento.

No momento, as urgências dizem respeito ao fato de serem ou não convocadas eleições e se antecipar aos movimentos do Depto de Estado, da mídia palangrista e dos esquálidos. Mas isso é agora; o médio prazo é logo ali, assim que Maduro assumir o poder pelas urnas (de novo).

Bruno Lima Rocha