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A Farsa das Eleições

Texto retirado do jornal No Batente #6

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O ano de 2016 é ano de eleições municipais (para prefeitos e vereadores) e as discussões sobre política costumam aumentar bastante.

O POVO NÃO ACREDITA NOS PARTIDOS E POLÍTICOS PROFISSIONAIS

Vivemos em um período em que o povo brasileiro, em sua maioria, não confia nos partidos políticos e em políticos profissionais. De acordo com uma pesquisa de 2016 realizada em 27 países apenas 6% dos brasileiros confiam nos políticos profissionais (GfK Verein, 2016). Por outro lado, nesta mesma pesquisa, cerca de 87% da população brasileira confia nos professores. Outra pesquisa que aponta dados sobre essa questão revela que 91% da população brasileira não confia nos partidos políticos (Datafolha, 2015).

Essa falta de confiança e credibilidade não é sem motivo. Apesar de todas as promessas, o que percebemos são serviços públicos estão precários, aumento da violência policial, criminalização da pobreza e dos movimentos sociais, diminuição de salários e empregos, além da divulgação de cada vez mais escândalos de corrupção.

O número de votos brancos, nulos e abstenções têm aumentado consideravelmente nas últimas eleições. Nas eleições presidenciais de 2010 foram 26%, já em 2014 esse número aumentou para 29%.

AS ELEIÇÕES SÃO UMA FARSA: QUEM ESCOLHE E QUEM MANDA SÃO OS DE CIMA.

No Brasil, assim como em todos os demais países capitalistas com democracias representativas, quem coordenada e direciona o Estado é a classe dominante. Além de serem os de cima que ocupam as cadeiras do legislativo e executivo, eles também estão ali para defender os interesses da classe dominante. Exemplo desse fato é que a metade dos governadores e dos deputados declara patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão (’’oficialmente’’, já que eles declaram os valores que quiserem).

Assim como em inúmeros outros países, as famílias que dominam politicamente o Brasil estão há várias gerações nesta posição, algumas desde os tempos do Brasil Colônia. Sarney, Alves, Magalhães, Calheiros, Richa, Dias, Requião e Fruet são alguns exemplos. Ao mesmo tempo em que essas famílias estão sempre presentes nos cargos estatais, elas são donas de inúmeros latifúndios e empresas e possuem articulações profundas com todas as outras poderosas famílias de suas regiões. Para exemplificar isso, a Família Sarney tem patrimônio estimado em mais de R$250 milhões, dona de dezenas de imóveis, emissoras de rádio, televisão e muito mais. Outro exemplo é a Família Richa, que já recebeu – somente dos cofres públicos – mais de R$30 milhões, inúmeros cargos e secretarias para toda a família, sem contar nas inúmeras posses que têm.

No estado do Paraná, as famílias Richa, Requião – Mello e Silva, Malucelli, Rocha Loures, Khury, Beltrão, Camargo e Fruet são alguns exemplos que remontam à dominação econômica, política e social na região, chegando, em alguns casos, há mais de 300 anos de manutenção da família no poder do Estado. Donos de boa parte das terras do Paraná, de dezenas de empresas (corretoras de seguros, bancos, empreiteiras, emissoras de rádio e televisão) essas famílias ganham ou decidem quem vai ganhar cargos na maquina estatal bem antes do “espetáculo” das urnas.

Quem escolhe a música é quem paga a banda. E quem é que paga as campanhas eleitorais? Em sua maioria são empresas. Em 2014, por exemplo, foram R$3 bilhões investidos por empresas nas campanhas eleitorais R$500 milhões por pessoas físicas e R$ 72 milhões do fundo partidário (dinheiro público). Por mais que façam parecer que querem acabar com o financiamento empresarial de campanhas, é claro que a farsa das eleições não vai mudar. Essas famílias bilionárias que dominam o Paraná (e o Brasil) há séculos vão encontrar jeitos de continuar com seus privilégios – seja a partir da utilização de “laranjas” que farão doações em seus nomes para as campanhas, seja por meios ilícitos (como já acontece).

Nas eleições municipais de Curitiba em 2012, os candidatos Gustavo Fruet, Ratinho Júnior e Luciano Ducci receberam, cada um deles, mais de R$5 milhões de empresas como empreiteiras, supermercados e empresas de alimentos. Várias dessas empresas investiram em mais de um candidato, ou seja, qualquer um deles que ganhasse iria trabalhar de acordo com os interesses de quem investiu em suas campanhas.

O mesmo acontece com os demais cargos, como os vereadores, por exemplo. O financiamento parte de construtoras, empresas de transporte e de alimentos. Aqueles que ganham as eleições retribuem seus investimentos em projetos de leis favoráveis aos financiadores. O Estado serve para que a classe dominante continue a dominar.

DE ONDE PODEM VIR MELHORIAS PARA O POVO?

Os direitos sociais (trabalhistas, previdenciários, educação, saúde, etc.) não foram oferecidos “de mão beijada” pelos poderosos. Para a classe dominante, é interessante que a vida do povo seja precária e que não seja necessário o Estado investir em direitos sociais. Assim, sobra mais dinheiro para gastarem com outras coisas e obrigam o povo a se sujeitar a trabalhos precários, com jornadas longas e salários baixos.

Se hoje temos direito a férias, 13° salário, aposentadoria, sistema público de saúde (SUS), escolas e universidades públicas, linhas de ônibus que passam na periferia e outros tantos direitos, é porque milhares de lutadores e lutadoras sociais deram suor e sangue por essas causas.

Quando os movimentos sociais estão bem organizados e conseguem pressionar a classe dominante, o povo conquista novos direitos. Porém, quando os movimentos sociais estão desarticulados, a classe dominante se aproveita para tentar retirar os direitos já conquistados – como é o caso atual das privatizações dos serviços públicos, a reforma trabalhista e a reforma da previdência.

Não adianta acreditar que elegendo vereadores, deputados, prefeitos e presidentes “de esquerda”, “bem intencionados”, “os menos piores”, iremos conquistar mais direitos e termos vidas mais dignas. É só a partir da luta e organização popular, nos sindicatos, escolas, movimentos urbanos, campo e floresta que poderemos resistir aos ataques, conquistar novos direitos e construir uma outra sociedade.

CONTRA A FARSA ELEITORAL E O CORTE DE DIREITOS!
SÓ A LUTA POPULAR DECIDE!

[CAB] Nota de repúdio à difamação política

Retirado de: http://anarquismo.noblogs.org/?p=125

A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) vem a público emitir uma nota de repúdio às difamações que vem sofrendo durante este período eleitoral por parte de determinados setores e, recentemente, de um coletivo de mídia alternativa. Estes vêm insinuando de maneira covarde ou afirmando categoricamente que membros da nossa corrente (especifista) vêm apoiando o voto crítico no governo Dilma, com o claro intuito de atacar nossa Coordenação.

A posição da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), que reúne 9 organizações anarquistas dessa corrente, espalhadas em diversas regiões do país, sempre foi clara nesse sentido: “Ou se vota nos de cima. Ou se luta com os de baixo”, ou seja, a defesa do voto nulo e a abstenção eleitoral. Além da análise conjuntural realizada, em que avaliávamos as especificidades das duas propostas de gerência do capitalismo brasileiro, as organizações vinculadas a nossa coordenação emitiram dezenas de comunicados e realizaram atividades que não deixam dúvidas sobre nossa posição; recomendando à nossa militância e àqueles que nos cercam o “Não votar”, o “Votar Nulo” e, principalmente, à partir disso, o se organizar nas bases pela construção do Poder Popular.

Lembramos que a CAB, nesse sentido, só responde e exige coerência de sua própria militância. Não temos controle da posição de militantes dos movimentos sociais nos quais estamos inseridos e, tampouco, podemos ser responsabilizados por opções individuais fora de nossa corrente. Sabemos também que, a despeito das divergências com outras correntes do socialismo sobre esse ponto, manteremos uma relação fraterna com aqueles que defendem outras opiniões. Nosso debate sempre foi e sempre será político. Difamações, insinuações injuriosas e inverdades não fazem parte da nossa prática política.

Chamamos atenção para a responsabilidade ética dos que difundem essa opinião caluniosa ou se omitem diante da difamação que nossa Coordenação vem sofrendo, ainda que coloquem-se como anarquistas.

Assim, mais uma vez, seguiremos na luta, fora das urnas e na construção do poder popular.

 Ou se vota nos de cima, ou se luta com os de baixo!

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[FAG] Lutar e vencer fora das urnas – Opinião Anarquista sobre o 2º turno das eleições

Os resultados parciais das eleições para o governo federal em 1° turno repetem a polarização entre o PT e o PSDB dos últimos 20 anos. Votos brancos, nulos e abstenções chegaram perto de alcançar 30% dos eleitores. O congresso nacional teve pouca renovação e posições conservadoras lograram um avanço. Ao que tudo indica o governo Dilma terá no próximo dia 25 de outubro uma disputa apertada com o candidato Aécio Neves.

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Em nosso Ato Público de 20 de setembro reafirmamos que a via eleitoral é bloqueada pelos poderes econômicos, pelos mecanismos conservadores do Estado e pelos oligopólios da mídia para fazer mudanças que atinjam as estruturas do poder dominante. Trocando em miúdos, quem faz carreira e se habilita a governar com o sistema, pelo sistema é governado. O espaço de manobras da política dentro das instituições e as relações de poder que a fazem funcionar é marginal e controlado para que nada saia da ordem de coisas estabelecida.

Com isso, não fazemos vista grossa com o que tem de específico e singular entre os candidatos e os partidos da democracia burguesa. A rigor está fora do panorama das eleições presidenciais um projeto reformista, por esquerda, no sentido clássico. O que vemos são variáveis administrativas, modos de operar a máquina que ao final não põem em causa as suas engrenagens, não questionam, ainda que timidamente, as suas regras de funcionamento.

Os governos Tucanos foram a mão pesada do neoliberalismo no Brasil. Dirigiram o ingresso violento do país nos circuitos ideológicos e econômicos do mercado capitalista globalizado. Privatizações de bens públicos, arrocho salarial, recorte de direitos sociais, desemprego de massas e desmonte dos serviços públicos fizeram parte de seu expediente. Em que pese toda rejeição popular suscitada, a direita logrou impor no fundamental os seus estabilizadores da ordem. O que se chama pelo nome de estabilidade econômica é, antes de tudo, a produção de um consenso conservador que tomou de assalto o discurso político e fez recuar posições de esquerda até o ponto de fazer o seu setor majoritário renunciar as pautas mais caras da classe trabalhadora e se integrar ao poder como mais uma peça funcional.

dilma-aecio_1_0O PT governista, na sua escalada ao parlamento e, finalmente no governo central, é expressão de uma história de capitulação ao sistema. Esse processo não começa quando o Lula chega Lá, mas toma definições no curso de uma linha que faz da política parlamentar e da carreira burocrática-institucional a sua escada. Que se consuma em 2002, com a declaração de fé da “carta ao povo brasileiro”, feita ao pé da bandeira da ordem e do progresso capitalista.

O período de 12 anos de governo petista possui elementos distintos aos dos dois mandatos do governo FHC. O PT cria governabilidade com uma política de alianças que atrai e divide setores oligárquicos da direita. Foi empurrado pra vala comum dos conchavos, lobbies, propinas, caixa dois entre tantos esquemas de desvios de verbas públicas e favorecimentos de negócios privados. Na sociedade organiza um pacto social que faz chegar mecanismos de governo nas duas pontas da estrutura de classes. Faz política de crescimento dos ganhos do sistema financeiro e dos grandes capitais e, junto a isso atende com programas sociais os mais pobres que estavam desassistidos de políticas públicas, incluindo os setores populares no mercado via consumo. Contudo, deixa de fora o combate às estruturas de concentração da riqueza e do poder e medidas que atuem nessa direção como a taxação das grandes fortunas, redução da jornada de trabalho sem perdas salariais, fim da terceirização, reforma agrária e urbana que ataque a concentração fundiária e a especulação imobiliária, etc.

O governismo petista conduz ideologicamente a um desarme do projeto independente das organizações e das lutas das classes oprimidas. Quebra a unidade de classe e planta confusão, ambições e valores que formam um perfil técnico-burocrático absolutamente estranho aos valores militantes de esquerda. Faz do sindicalismo oficialista aparelhos de transmissão da vontade do governo e co-gestores de fundos de pensão, quebrando toda a cultura organizativa e de luta com perspectivas de acumulação a um projeto de ruptura e transformando os tradicionais instrumentos de organização da classe em meros gestores burocráticos.

Esse processo de enfraquecimento progressivo da organização da classe trabalhadora atingiu níveis absurdos com a ascensão da coalizão pretensamente reformista ao Planalto, mas vem de antes, muito antes. Em que pese as inúmeras expressões de sindicalismo combativo e de base no seio da CUT ao longo dos anos 1990, podemos afirmar que nessa década, fundamentalmente após o lamentável desfecho da greve dos petroleiros de 1994, a CUT vem consolidando um fazer sindical alheio a sua base. Não são poucos os exemplos onde o aparato governista no movimento sindical atua de forma deliberada para desmobilizar e desmoralizar o conjunto dos trabalhadores.

Nesse sentido, o próprio PT é responsável por criar o estado de coisas que pode impedir sua continuidade enquanto governo. O Partido dos Trabalhadores não está enfrentando simplesmente uma ofensiva dos setores mais à direita, mas fundamentalmente a sua própria cria.

Organizar a rebeldia que vem de baixo

Nosso voto é NULO e ATIVO!

Enquanto anarquistas, não participamos no 1º turno e não participaremos nesse 2º turno das eleições com o nosso voto. Nosso voto foi e será nulo! Um voto nulo ativo, pois ativo é e será nossa militância cotidiana na organização independente dos diferentes setores das classes oprimidas. Enquanto anarquistas politicamente organizados na Federação Anarquista Gaúcha (FAG), apostamos na inserção social orientada estratégica e programaticamente e que dê passos concretos na construção do Poder Popular. Um esforço de fomento e impulso criativo no interior dos movimentos sociais e espaços de base da participação, iniciativa e protagonismo. Nas fábricas, oficinas, escolas, faculdades, bairros, no campo e na floresta.

CABNão temos nada a oferecer, hoje, àqueles e àquelas que pensam as eleições burguesas como um meio mais fácil, rápido e eficaz de resolução dos nossos problemas enquanto povo. O que temos a oferecer é um espaço de organização, um projeto coletivo a se construir no cotidiano das lutas por melhores condições de vida e um horizonte Socialista e Libertário. Não estamos falando de algo para um amanhã que nunca chega e sim da forja diária de valores combativos, de lutas por conquistas parciais no marco de conquistas estratégicas, de acúmulo de forças e de experiências coletivas que não são perdidas tão facilmente na troca de governos de turno.

Nosso voto é nulo, nossa militância ativa, constante e cotidiana!

Organizar a rebeldia que vem de baixo!

Lutar e vencer fora das urnas!

Como votam os anarquistas?

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— Olá Maria!

— Oi Ana! Nossa, que bom que eu te encontrei. Sabe, estou aqui pensando em quem eu vou votar. Você, que sempre fica falando de política, pode me ajudar?

—Você sabe que eu sou anarquista né?

— Sim! E eu queria saber isso mesmo, como votam os anarquistas?

— Votamos nos atos de rua, nas assembleias dos movimentos sociais, nos sindicatos. Votamos na luta!

— Sim, mas e nas urnas? Vocês votam nulo então?

— Na verdade, para nós o voto nas urnas não faz a menor diferença. Não importa em quem você vota, nenhuma das mudanças que nós realmente queremos e precisamos virá dos representantes! Além do que, as eleições estão definidas muito, muito antes do dia em que vamos às urnas.

— Como assim? Você está dizendo que elas não são justas?

— Nem um pouco! Para ganhar as eleições, você precisa fazer campanha. Pra fazer campanha, você precisa de financiamento, que vem das indústrias, bancos, do agronegócio… Ou seja, quem não se vende para os ricos, não tem a menor chance de ganhar! Todos os candidatos que tem alguma chance vão defender os interesses de quem os financiou.

— Ah, mas os candidatos são diferentes… Sempre tem um que é menos pior, não é mesmo?

— São diferentes sim, mas não faz muita diferença para nós, pessoas trabalhadoras. Sabe, todos os candidatos que tem alguma chance de ganhar representam os interesses dos poderosos… Eles só fazem isso de jeitos diferentes. Nenhum deles trata dos problemas mais fundamentais da sociedade. Hoje em dia temos um governo federal que se diz de esquerda, mas na prática está privatizando o que é público, não investe nos nossos direitos essenciais,como educação, saúde e transporte… Ou seja, nem mesmo reformas ele é capaz de fazer.

— Mas então não devíamos votar em candidatos que realmente fariam essas reformas?

— Nenhum deles faria essas reformas, porque eles têm que obedecer às leis do capital internacional. Eles não podem dar o calote na dívida pública, por exemplo. O Estado é todo construído pra que isso não aconteça. E sem mexer nisso, nenhuma reforma realmente profunda é possível, porque a maior parte do nosso dinheiro vai pro pagamento dessa dívida. Ou seja, além de os vencedores já estarem definidos pelo financiamento, o que eles vão fazer é limitado pelo poder econômico, tanto dos ricos do país, quanto dos interesses dos ricos do mundo todo! Mais do que isso, a política brasileira é dominada por bancadas conservadoras, que impedem até mesmo as reformas num sentido de garantir direitos para as minorias.

— Ué, pra que eleições então?

— Elas servem pra legitimar o discurso de “democracia”, que de democrático não tem nada! É muito vantajoso para as pessoas que estão no poder iludir o povo com a ideia de que temos o poder de mudar alguma coisa através do voto, nos distanciando das ações que
são realmente transformadoras. Dessa forma, legitimam aqueles que estão no poder, governando para os ricos, e quando as coisas não vão bem, a culpa é do povo que “não soube votar”.

— Mas se não é através do voto, o que podemos fazer?

— Ir às ruas, às lutas de base. Para nós, anarquistas, importa muito mais as lutas cotidianas, a construção de uma outra alternativa de fazer política, do que votar ou não em um ou outro candidato…

— E desde quando ficar gritando na rua é fazer política?

— Desde muito tempo! A maior parte dos direitos do povo foram conquistados assim. Quando os trabalhadores fazem uma greve e a levam até o fim, eles conquistam melhores condições de trabalho; Quando os sem-teto ocupam um imóvel, eles avançam no seu direito de moradia; O mesmo vale para os sem-terra que ocupam terras; quando os moradores da periferia fazem um protesto, trancam vias, radicalizam, eles conquistam suas pautas, que são necessidades básicas do bairro onde moram; quando os estudantes pressionam os reitores e governantes é que eles conseguem mais assistência estudantil e por aí vai. Em nenhum desses casos, dependemos de representantes! Em todos esses casos, quem realmente faz a política é o povo. E da melhor forma possível: O povo fazendo política para o povo!

— Ah é? E quando isso aconteceu de verdade?

— Muitas vezes! E nem precisamos ir longe: nas jornadas de junho do ano passado, o que aconteceu quando milhões de pessoas foram para as ruas? A passagem de ônibus de mais de 100 cidades baixou. Vimos recentemente várias greves fortes e radicalizadas, atropelando as direções pelegas dos sindicatos, saindo com conquistas de direitos, mostrando que a organização dos trabalhadores fala muito mais alto do que a voz de qualquer direção! E esses movimentos não estavam dependendo de representantes para nada disso.

— Tá bom, Ana, vou pensar nisso tudo que você me disse…

—Olha, e temos muito o que fazer de política nessa sociedade. E saiba que para os anarquistas a política não é feita somente em ano de eleição, para nós ela é feita todos os dias. Se quiser participar, fale com algum de nós!

— Tá bom, pode deixar. Até mais!

— Até!

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[FAG] Elementos da conjuntura eleitoral de 2014 – Opinião Anarquista da FAG

Retirado de: http://www.federacaoanarquistagaucha.org/?p=541

Estamos às vésperas das eleições que definirão os novos governos de turno, a nível estadual e nacional. Governos que independente dos programadas defendidos, jogarão conforme as regras e no marco da lógica do sistema de dominação capitalista na sua atual etapa, a do capitalismo financeiro. Enquanto anarquistas, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Enquanto lutadores sociais entendemos que uma análise cirúrgica da conjuntura eleitoral é necessário e possibilita definir quais são os fatores de peso na formação do atual cenário.

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Junho de 2013, a disputa de seus significados e alguns elementos da conjuntura nacional

É própria do atual cenário eleitoral a disputa pelos sentidos do que foram as jornadas de luta de 2013 e a tentativa de capturar os vetores ideológicos forjados e legados por essa experiência, de mobilização nas ruas por milhões de pessoas, assim como aquela das lutas no contexto da copa do mundo. São poucas as siglas que reivindicam as jornadas de protesto do ano passado, seja para mostrá-las como exemplo de um massivo descontentamento com relação ao período de governo petista, seja para citá-las como um sinal de que esse descontentamento, apesar de todas as “conquistas” dos governos PT, é contra o atual sistema político que se colocou como um entrave para o encaminhamento positivo da agenda de reivindicações das jornadas.

É nesse sentido que o plebiscito popular para uma nova constituinte foi o grande “chamariz” do PT e de seus aliados. No entanto, na atual conjuntura, tal mecanismo visa apropriar-se da forças das ruas e desaguá-la na institucionalidade, garantindo a conciliação de classes, contendo e mediando o conflito para definir a correlação de forças nos fóruns de disputa política formais. Para nós, esse fato por si só já representa uma derrota política para os de baixo, pois não aponta e nem constrói uma alternativa para além das eleições e do Estado enquanto espaço privilegiado da política.

Contudo, o que temos visto é que predominam disposições gerais de desconfiança e até de rechaço às instituições políticas, por um lado, e, por outro, uma impotência da tática de denúncia e do discurso “esclarecido e racionalista” frente ao poder simbólico das regras do jogo institucional utilizado pelos setores da esquerda que participam nas eleições. Poder simbólico que não deixa perceber nuances programáticas, apostas estratégicas distintas, ideologias de mudança ou de conservação.

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Em que pese nem tudo seja igual, está ausente um projeto político de caráter reformista, com adesão eleitoral, que incida sobre as estruturas de poder da formação brasileira. Se há uma luta da oposição burguesa mais conservadora para quebrar o modelo de gestão neo-desenvolvimentista, que passa pela desestruturação dos instrumentos de Estado para a política econômica, autonomia do Banco Central, metas de inflação – ampliando os controles de mercado – esta não pode ser entendida como o simples ataque a mudanças de fundo realizadas por um pretenso projeto de esquerda que se quer derrotar.

Nesse sentido, a polarização dos candidatos (PT, PSB e PSDB) representa, na verdade, variações administrativas no marco do Estado já que ambos os projetos não fogem dos ajustes exigidos pelas relações de poder do sistema de controles do capitalismo financeiro.

No RS, dois projetos em jogo?

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No RS, temos visto uma maior polarização em torno das candidaturas de Tarso Genro/PT e Ana Amélia Lemos/PP. Concorrem, dentro das regras do jogo, dois modelos que se representam como mais “puros”, suscitando um imaginário do tipo plebiscitário: se está com o PT ou com o PP. Uma cultura política que desde a nova republica não reelege governadores também é um fator de peso na conjuntura estadual.

Entretanto, é preciso que deixemos de lado esse pensamento binário e enxerguemos elementos que nos indicam que ambas as possibilidades (sem falar nas demais) não representam transformações de fundo para os de baixo.

Com relação ao governo Tarso, há uma série de aspectos que acreditamos importante ressaltar com relação a sua administração e que em certa medida arranharam sua imagem:

  1. A repressão aos protestos de 2013/2014 e em particular as perseguições a militantes e organizações de esquerda.
  2. Os reiterados protestos e greves dos trabalhadores da educação da rede estadual pelo pagamento do piso nacional que até hoje não foi atendido.
  3. A paralisação das demarcações de terras indígenas e a intensificação do conflito entre indígenas e pequenos agricultores na região norte do estado que resultou em 2 agricultores mortos e 5 índios presos durante mesa de negociação.992973_10201372598781061_197371978_n

O governo do PT repetiu expedientes que foram consagrados pela “tecnologia da coalizão” exaltada por Tarso Genro. Prevalece em suas práticas de governo um dispositivo de diálogo que procura dissuadir o conflito social, neutralizar nos circuitos da burocracia as pautas de contestação e integrar na gestão auxiliar dos conselhos e gabinetes os movimentos e sindicatos mais dóceis. Do ponto de vista do funcionamento dos aparelhos de repressão se faz distinto o uso mais intenso dos serviços de inteligência e das táticas de dispersão que evitam colisão frontal.

Já em um cenário de governo de Ana Amélia/PP, é impossível não associarmos com a administração da ex-governadora Yeda Crusius/PSDB, ainda que em condições diferentes. O PP (nacionalmente alinhado ao PT) é um partido que tem base forte pelo interior, que representa historicamente as oligarquias rurais e que provavelmente terá relações de força mais favoráveis na barganha que monta a base do legislativo. Trata-se de uma candidatura que conta com a preferência do grupo RBS onde foi funcionária de longa data. Além disso, a truculência com as lutas sociais tende a se intensificar ainda mais. A ascensão da candidata do PP é proporcional as baixas expectativas com reformas sociais e políticas públicas que resultam do “desencanto com o PT”, de uma sensação de ‘menos pior’ que é cada vez mais fraca de sentido.

Entretanto, em que pese em uma conjuntura formas específicas de governar, o Estado do RS tem estruturas do poder que estão fora de causa nestas eleições. Dívida pública que sangra os fundos públicos pra pagar o capital rentista; o poder do agronegócio na economia gaúcha, no desmonte das normas ambientais e sobre a agenda de investimentos em infraestrutura (portos, geradoras de energia) e a guerra fiscal da indústria para se apropriar de recursos do estado (fundopem), são exemplos disso.

Portanto, está fora de questão mudanças de fundo, em que as estruturas mais consistentes do sistema de dominação capitalista sejam colocadas em questão. Apostar no “possível”, nessas circunstâncias, é deixar de construir desde já um processo próprio, um caminho de protagonismo e de organização dos de baixo no marco de um horizonte socialista e libertário.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo

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Chamar a anular sem fazer prioridade ao trabalho de organização popular é pedir o voto como fazem os partidos integrados no sistema. Não é o voto em si, como mecanismo decisório da sociedade, que é o problema, o problema é para qual estrutura de poder ele funciona. É por isso que nós anarquistas da FAG não estamos em campanha pelo voto nulo. Como já dissemos, votamos nulo por coerência a uma estratégia de construção do Poder Popular. Contudo, do ponto de vista militante, entendemos que nessa conjuntura eleitoral e para além dela, precisamos construir laços de luta, de unidade e uma perspectiva programática desde o nosso local de trabalho, moradia e estudo.

O período em que vivemos demanda a articulação de todo o espectro das lutas sociais que confrontam o modelo dominante do capitalismo brasileiro com um programa mínimo de soluções populares. Construção de unidade dos de baixo, de baixo para cima e que não se confunde com unidade entre partidos, frentes eleitorais ou candidaturas operárias. Criação de um Povo Forte para impor na cena nacional uma nova correlação de forças e que aponte um projeto de transformação social. Em síntese, política anarquista para além do voto e das eleições burguesas.

Ou se vota com os de cima ou se luta e se organiza com os de baixo!

Pela construção de uma inter-setorial dos combativos!

Nem direita, nem governismo! Forjar um programa dos de baixo!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG (Integrante da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB)