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[CQM – CURITIBA] A Revolução Curda Hoje (PRÓXIMO SÁBADO)

Retirado de: https://www.facebook.com/events/1745196022385273/

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Na região do Oriente Médio, mais especificamente nas fronteiras da Síria, Turquia, Irã e Iraque, há um cinturão denominado Rojava onde um processo revolucionário está ocorrendo. Nessa região, o povo curdo – que há tempos luta por sua autodeterminação e independência – está construindo uma nova forma de organização social pautada pela democracia de base, anticapitalista, antiestatal e pela libertação das mulheres.

Nesse processo as mulheres são protagonistas do movimento, e além de pegarem em fuzis para combater os ataques do Estado Islâmico, organizam-se em uma brigada própria (Unidade de Proteção das Mulheres – YPJ) para influenciarem na organização dessa sociedade e combaterem os regimes opressivos da região e de seu próprio povo.

O espaço contará com a presença de um militante que esteve em regiões curdas e trará elementos e relatos desse processo revolucionário que consideramos dos mais importantes no contexto atual. Pretendemos relacioná-lo a outros processos de luta e entender o que isso tem a ver com a nossa realidade, na prática.

QUANDO: Sábado (25/06), às 14:30
ONDE: Reitoria UFPR – Dom Pedro I, Sala 613

[CAZP] Boletim CAZP #JUL 2015

Retirado de: https://cazp.wordpress.com/2015/07/08/boletim-cazp-jul-2015/
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DIREITO A CIDADE E “MUNICIPALISMO LIBERTÁRIO’’

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A cidade que passou ao longo de sua existência a aglutinar o conjunto da população que antes ocupava em maior número o campo, e que buscava uma forma de organização societária de maneira a atender o bem coletivo, foi aos poucos sendo atravessada por uma relação de poder específica, denominada de domínio, que surgiu com a divisão em classes sociais e que implicava que a organização da vida atendia os interesses de uma minoria em detrimento da maioria. Isso permitiu o desenvolvimento do Estado, sendo um instrumento que sempre serviu aos interesses das classes dominantes, disfarçando sua política essencialmente opressora das mais variadas formas.

A construção da vida em sociedade implica em diferentes posições e ideias que serão disputadas por diferentes grupos e indivíduos – as relações de poder. A divergência e a disputa de ideias não é um problema a ser combatido, mas uma realidade do ser humano. Ocorre que em uma sociedade dividida em classes sociais, permeada por relações de domínio (tipo específico de relação de poder), os interesses das classes dominantes prevalecem contra o bem-estar coletivo, ainda que seja em nome deste.

Desde que as relações de domínio passaram a determinar a relação social e a forma de estruturar a cidade em que vivemos como uma das consequências também houve resistência das camadas que sofrem opressão. Mesmo considerando grupos melhor posicionados dentro da escala de acesso à produção material e cultural da humanidade, a maioria não constrói as políticas de gestão da cidade de maneira satisfatória. Quem tem influência decisiva nesse processo é a camada minoritária da sociedade, que confirma seu projeto de dominação com as políticas executadas pelo Estado, gestor das cidades.

Essa resistência, mesmo que não tenha saído do marco da dominação, garantiu alguns direitos dentro da organização da cidade. As necessidades mais imediatas pautaram a luta dos grupos dominados na disputa pela cidade. Se há exclusão da maioria de certos espaços da classe dominante, existem bloqueios de estradas que reivindicam as mais variadas coisas (saneamento básico, lazer, educação etc.), que podem travar toda a cidade.

Essas lutas imediatas constituem a possibilidade de construção de uma força social capaz de reivindicar a cidade para o conjunto de quem mora nela. Cada disputa de espaço na cidade pelos grupos dominados é um caminho trilhado na luta contra o Estado e por uma cidade para os trabalhadores.

No entanto, um desafio que se coloca é fazer o trabalhador – que está imerso no seu dia a dia, tragado pela rotina trabalho-casa-trabalho – pensar criticamente, para que se interrompa esse boom de projetos de exclusão social, que só geram lucros para o empresário.

Quando paramos e procuramos alternativas para ir de encontro aos problemas que todos sofremos no cotidiano, e se fizermos isso de maneira solidária aos outros setores que sofrem dos reverses provocados pela cidade capitalista, podemos ter uma chance de impedir o sucesso da classe dominante. Por mais difícil que seja, temos uma chance. Parar e aceitar é a certeza da derrota. Nós preferimos tentar. Cada derrota no projeto excludente, cada avanço em termos de mobilidade urbana, cada derrota da especulação imobiliária são vitória daqueles que concebem uma nova forma de se construir a cidade.

Não podemos esquecer que nossos espaços de convivência foram forjados numa sociedade profundamente desigual. Para termos êxito definitivo somente se aliarmos a luta do bairro com a luta por uma nova sociedade. Não esperemos uma nova sociedade para lutar pela melhoria de nosso bairro e de nossa cidade, mas não esquecemos que ela só ganha sentido se encararmos como degraus necessários para construção de outro patamar histórico.

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Bookchin e o Municipalismo Libertário

O anarquista norte-americano Murray Bookchin defendia uma nova forma de sociedade baseada na reinvenção da construção dos espaços de convívio, de moradia e de construção de nossa sociabilidade. Chamava de Municipalismo Libertário sua proposta. Trata-se de uma proposta de organização política da cidade baseada na democracia direta em oposição à lógica representativa do Estado que tira da coletividade seu poder de decisão, sempre delegando a uma minoria aliada aos interesses capitalistas ou incapaz de ultrapassar estes interesses.

Na compreensão de Boockin, tornar os sujeitos ativos nas decisões, chamando para si a capacidade de planejar e executar as tarefas do dia a dia da cidade é formar sujeitos críticos que passam a ver que a sua vida depende do bem-estar do coletivo, que suas decisões têm que ir para além do egoísmo individualista para ela mesmo ter sentido. Isso não é possível numa sociedade desigual, por isso o municipalismo libertário concebe o fim das classes sociais e a gestão da cidade pelos seus próprios moradores.

Acreditamos que resgatar essas ideias do municipalismo libertário colabora bastante no atual debate das discussões do direito a cidade e colabora muito na tentativa de se aliar as lutas imediatas a luta por uma nova sociedade. Porém uma crítica ao pensamento de Bookchin é extremamente importante. Para ele a categoria do trabalho está ultrapassada. A luta por uma nova sociedade não passaria pela luta construída pelo local de trabalho, senão apenas pelo local de moradia.

Para nós, anarquistas, o anarquismo sempre esteve junto a organizar os trabalhadores a partir das contradições vivenciadas no local de trabalho. Inclusive foi na militância sindical que os anarquistas tiveram mais expressão social. A desigualdade da sociedade se dá, sobretudo, na distribuição desigual da riqueza material e imaterial produzida pela humanidade. Para reformulá-la de maneira a apontar para uma sociedade sem classe, é necessário mudar a maneira como se trabalha, acabando com a divisão de trabalho manual e trabalho intelectual, e mudando a lógica de como os produtos são produzidos e distribuídos. Isso só se dá no local de trabalho.

O mesmo sentido se dá ao trabalho voltado para a prestação de serviços, como saúde e educação. Para reorganizá-los numa perspectiva igualitária e livre, é preciso reformulá-lo dentro do próprio ambiente de trabalho. Tudo sendo planejado e executado pelo conjunto dos/ das trabalhadores/as. Obviamente que a reorganização desse trabalho deve ser feita em sintonia com as demandas do bairro e da cidade.

Bookchin prossegue, afirmando que a fábrica ao destruir o trabalho artesanal acabou a possibilidade de um trabalho mais positivo, mais próximo das ideias comunitárias. Virou uma padronização dos operários, uma nova fórmula de escravidão.

De fato, o ambiente fabril, estruturado numa sociedade de classes, reproduzirá a desigualdade e é extremamente opressor. No entanto, não podemos desprezar que a seria impossível para sociedade se manter hoje, mesmo em outra perspectiva societária, sem uma produção industrial. Se o capitalismo trouxe a degradação ambiental, desperdício de recursos e exclusão social, a produção fabril nos permite produzir para 7 bilhões de pessoas no mundo. Hoje a distribuição do que é produzido é desigual, mas o fato é que existe produção para todos, mesmo que os produtos não cheguem a atender a necessidade do conjunto, mas apenas de alguns. Não seria possível alcançar essa produção em escala artesanal. Tampouco podemos acreditar, como defende Bookchin, que a tecnologia permitiria livrar a humanidade totalmente do trabalho material.

Para nós, a luta por uma nova sociedade será feita no dia a dia do trabalho e da vida cotidiana. Pensamos uma sociedade federada em locais de moradia e de trabalho. Nisso Bookchin erra e deixa a desejar, não anulando sua belíssima contribuição com a discussão da cidade.

Ficamos nesse ponto com Bakunin, que fala que a humanidade se diferencia dos demais animais pela capacidade do trabalho inteligente e da fala. Somos homens e mulheres porque trabalhamos. Nenhuma mudança social será feita se desprezar esse espaço fundante da humanidade.

A revolução de Rojava e o Municipalismo Libertário

Existe em uma parte do Oriente Médio uma população dispersa entre alguns países: a população curda. Tem seu direito de soberania popular negado há muito tempo. Durante a guerra civil na Síria e o recente avanço do Estado Islâmico, o povo curdo, que já luta por sua liberdade há décadas, se organizou de maneira inusitada na fronteira da Síria com a Turquia, numa região chamada Rojava. Milícias guerreiras da Unidade de Proteção Popular (YPG/YPJ) travaram combates ferrenhos contra a selvageria ignorante do Estado Islâmico e com seus próprios esforços conseguem o que Estados da região tiveram dificuldade de fazer: barraram o avanço do Estado Islâmico na cidade de Kobani.

Momento único na história recente da humanidade, não pela derrota imposta militarmente, mas, principalmente, por como foi feito isso e o que ocorreu depois. É o que queremos destacar. O protagonismo da mulher, nesse processo, tem sido uma força decisiva. Planejando, cuidando da cidade e participando dos combates aos facínoras do Estado Islâmico. Mulheres que sofrem bem mais com o avanço de ideias ultra machistas e totalitárias e que souberam dar a resposta.

Sobre a orientação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) se vive uma nova forma de vida nessa localidade, com todas as dificuldades que uma realidade de guerra impõe. Incríveis semelhanças com Barcelona da Guerra Civil espanhola de 1936. O PKK deu uma guinada na sua orientação teórica ao adotar o Municipalismo Libertário como uma das suas orientações para reconstruir sua vida em sociedade. Tem conquistado a população de Kobani. Organização de assembleia por bairros, controle da própria população sobre suas vidas no que se é chamado de Confederalismo Democrático.

Auto declarados anti-estatistas e anti-capitalistas esse movimento tem uma dura tarefa pela frente: combater um inimigo feroz por um lado e reconstruir uma vida social sobre novos parâmetros. Suas ideias, obviamente, não agradam as fossas hegemônicas do Oriente Médio e nem ao sistema capitalista internacional. Nossa solidariedade às mulheres e homens curdos em luta. Eles mostram que um novo mundo é possível.

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Reescrevendo a história das mulheres em Rojava – Parte 2

Retirado de: http://www.cabn.libertar.org/reescrevendo-a-historia-das-mulheres-em-rojava-parte-2/

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Por Rojda Serhat-Şevin Şervan-Cahide Harputlu – JINHA

Tradução  Eliete Floripo

ROJAVA – este ano em Rojava, as mulheres estão se preparando para o 8 de Março com tanta excitação como dor. Apesar da intensificação dos ataques contra as mulheres, elas fizeram um histórico ano para as mulheres através de seu trabalho de defesa de Shengal e Kobane e da construção de Rojava. Nossa série continua hoje com a história da ativista de uma base da organização que precedeu a revolução; reflexões das mulheres sobre o seu trabalho no governo; e uma entrevista com a comandante do YPJ Meryem Kobane.

As raízes da revolução Rojava: décadas de organização para a libertação de curda

Henife Husen, co-presidente do movimento político democrático, guarda-chuva do Movimento para uma Sociedade Democrática (PEV-DEM), diz que a resistência e luta das mulheres tinham uma história muito antes de Rojava.
Com a supervisão de Apo (Abdullah Öcalan), a busca da liberdade no Curdistão, chegou a Rojava também. As mulheres de Rojava aceitaram isto desde o início; elas abriram suas casas, deixaram seus filhos para esta luta.
“Para a revolução chegar até aqui, houve muito apoio moral e material,” incluindo o combate na linha de frente da Frente Nacional de Libertação do Curdistão (ERNK) e apoio de Apo , disse Henife”.
Abdullah Öcalan passou um tempo em Rojava na década de 1990. “A estadia do líder do Curdistão em Rojava tinha três projetos principais,” disse. O mais importante deles foi o projeto de libertação das mulheres. Em Rojava, muitas mulheres participaram de suas reuniões.
Henife disse que as reuniões resultaram em uma série de mudanças na sociedade. Enquanto as primeiras mulheres juntaram-se a guerrilha uma a uma, as revoltas populares no Curdistão do Norte na década de 1990 resultaram em uma explosão de voluntários para a guerrilha. “O primeiro mártir por ser uma mulher, teve um enorme eco. Cada mártir prepararam o terreno para mais pessoas no voluntariado”.
A filosofia de Öcalan propagou, as mulheres começaram a organizar todas as suas atividades econômicas, incluindo o trabalho doméstico. “As mulheres começaram a fazer o que ninguém mais poderia fazer,” disse Henife. Mas depois que Abdullah Öcalan foi feito prisioneiro pelo Estado turco, disse Henife, a repressão começou a tornar-se intensa em Rojava. O estado facilitou uma gama de políticas sujas que se assemelhavam muito a aquelas implementadas pelo Estado turco contra o povo do norte do Curdistão.
“Começaram políticas de fome. Desemprego ampliado. Nestes dez anos causou imensa devastação, especialmente contra as mulheres,”disse Henife. “Havia uma aliança entre os dois Estados,” ambos facilitaram o crime e a corrupção.
Em um curto período de tempo, prostituição, drogas e espionagem tornaram-se generalizadas em Rojava. “Homens mais velhos que vinham do Norte (Turquia) para comprar mulheres jovens para ‘casamento’. “Depois disso, mudou o entendimento local do Islã, disse Henife. As mulheres também participaram deste novo Islã. Sociedades religiosas apareceram em todos os lugares.
A atividade Pro-curdo foi proibida, e diz Henife que dezenas de seus amigos foram presos e torturadas. Alguns foram mortos por seus torturadores. Narziye Keçe foi preso em 2004 e desapareceu sob custódia do estado.
As pessoas começaram a temer a atividade política. Henife diz que as organizações islâmicas cresceram para preencher a lacuna, quando as pessoas ficaram com medo de organizar a luta de libertação curda e as detenções do estado. Para as mulheres resultou em mais repressão no nível das famílias, onde mulheres ativas foram ameaçadas a serem jogadas para fora de casa ou com o divórcio se permanecem ativas na luta.
Mas, diz Henife, nunca deixaram de se organizar, formando a organização Tevgera Jinan (Movimento de Mulheres) em 2005. Organizadoras formaram parlamentos locais e comitês em cada cidade, mesmo quando a participação foi baixa, inclusive por meio de Tevgera Azad (Movimento Livre). Este nível de organização continuou até a revolução de 2011.
Com o período de 2010-2011 veio uma explosão de atividade e organização. O primeiro Congresso de TEV-DEM, teve a decisão de abertura das casas de mulheres em cada cidade, a decisão da organização das mulheres Yekitiya Estrela, foi de organizar-se em discussões de base — parlamentos de discussões e decisões importantes tiveram lugar um após o outro. Comitês foram organizados para cuidar da educação, imprensa, relações públicas e econômicas, e, mais recentemente, as Academias Femininas, criadas em 2012.
As mulheres foram a chave para tudo isso, tendo papel importante e organizando-se durante o período da revolução. As mulheres eram parte dos Conselhos revolucionários e órgãos de decisão.
O sistema de co-presidente, no qual cada posição tem dois representantes (um homem e uma mulher), foi implementado nos parlamentos locais e comunas. Um cota de 40% para as mulheres também foi implementado.
“Nestes desenvolvimentos de maior participação popular, as mulheres tinham um papel de liderança na sociedade”, disse Henife. Yekitiya Estrela tornou-se um espaço para as mulheres. No início da revolução, as mulheres estavam participando do PYD, onde o sistema de co-presidente estava em asayiş.
Yekitiya Estrela começou a dar suporte para o YPG. Depois as mulheres se organizaram como o YDH em segredo, e então, formaram o YPJ. Kobane tornou-se um exemplo para as mulheres de Rojava e do mundo, com sua mais famosa mártir sendo Arîn Mîrxan, que sacrificou-se para a cidade. “O que libertou Kobane foi o espírito do camarada Arîn” e aqueles como ela, disse Henife.

No governo de Rojava, as mulheres resolvem seus próprios problemas

Ministra de mulheres Hiva Irabu diz que o Ministério foi uma das primeiras instituições fundadas após a declaração de autonomia no Cantão de Cizîre. Somente mulheres no Ministério — o primeiro no mundo.
“Quando começamos a trabalhar, analisamos e pesquisamos experiências em muitos países, mas não conseguimos encontrar um Ministério formado especificamente para resolver os problemas das mulheres,” disse Hiva. “Começamos os projetos nas áreas de interesse para as mulheres: economia, política, educação, desenvolvimento, violência contra as mulheres, a cultura, a lei.” Muitos projetos realizam-se em colaboração com grupos do movimento de mulheres.
“Fizemos um relatório sobre as mulheres que sofreram violência e que vieram para as casas de mulheres,” disse Hiva. “Como resultado, começamos os projetos de solidariedade e abrigos de mulheres. Mulheres em perigo de morte vivem aqui. Também temos projetos para ajudar a resolver os problemas econômicos das mulheres que vivem em abrigos.”
O Ministério reuniu um conjunto de estatísticas não disponíveis anteriormente sobre as mulheres por meio de pesquisa em Cantão de Cizîre . Além da população total de mulheres, as estatísticas também registraram o número de mulheres que sofreram violência, a poligamia, o casamento infantil; que estão em dificuldades econômicas; que se divorciaram; e que são deficientes. Segundo a pesquisa, houve 2.250 casos de violência contra a mulher em 2004.
Agora, o Ministério tem ajudado no desenvolvimento de uma lei que tome medidas contra uma variedade de formas de violência contra as mulheres, do casamento infantil, poligamia, deserdação de mulheres e a troca noiva e a violência doméstica.Essas práticas variam entre os diferentes grupos em Rojava, como a poligamia (por exemplo) generalizada entre os cidadãos árabes, presentes entre curdos e ausente entre assírios e sírios.
Foco principal em 2015 do Ministério é a atividade econômica. O Ministério planeja treinar mulheres com habilidades que eles já têm, então elas poderão se sustentar sem depender de parentes do sexo masculino. Outro projeto cria centros para crianças deficientes e juventude.
Revda Hesen, co- prefeita da cidade de Qamişlo, no Cantão de Cizîre, têm visto as mulheres tomar seus lugares em uma variedade de projetos desde o início da revolução em Rojava há três anos — incluindo os membros da equipe de 30 mulheres no governo municipal. Mulheres dirigem uma série de projetos municipais só para mulheres. Zin Xelil, da força de Asayiş (manutenção da paz) do governo da cidade, diz que as mulheres desempenham um papel importante na defesa da cidade. Ela diz que a autodefesa da revolução liderada por mulheres Rojava é crítica.

Luta do YPJ para a autodefesa das mulheres em todas as áreas da vida

Meryem Kobane, uma comandante da YPJ, tem sido parte da resistência Kobane desde o início.
“Não há nada na natureza sem mecanismos para a sua própria autodefesa”, diz Meryem do projeto de autodefesa das mulheres. Ela diz que a dominação das mulheres não é natural. Militarismo e exploração começaram com o sistema tribal e a ideia de que as mulheres não podem tomar parte na defesa da comunidade, mas só podem servir os homens, mas o Estado formalizou essa mentalidade, de acordo com Meryem.
“Ao longo da história, como as mulheres são descritas? “Sua natureza opõe-se à guerra”. Sim, é claro que isto é verdade, mas para as guerras de dominação. Mas autodefesa é diferente.” Ela observou que a legítima defesa é uma propriedade fundamental e natural. A guerra é uma arte, Meryem diz, e as mulheres em particular, abordam dessa forma.
“Dizem as mulheres, “vocês não tem força de vontade, vocês não são fortes, vocês não podem ser uma liderança, vocês não podem proteger suas próprias vidas”, disse Meryem. “As mulheres tomaram parte em muitas revoluções na história, mas seu papel sempre foi suprimido”.
Ela observou que houve algumas dificuldades para as mulheres no início da defesa de Kobane, apesar da longa história de luta das mulheres em Rojava e no Curdistão em geral.
“Um número de camaradas da resistência Kobane, incluindo os mártires Sozdar e Roza, queriam as posições YPJ para ser separado dos homens — porque nossos pais e irmãos nos disseram ‘não pode fazer isso’, disse Maryem. Mas as mulheres lutaram contra os homens que lhes disseram que não tinham nada na frente. Agora, seu papel é famoso. Mulheres mártires como Viyan e Peyman, deram suas vidas para Kobane. Mulheres do YPJ tem estado na vanguarda da guerra em locais como Serêkaniye e Efrîn.
“O Daesh fez uma maratona de Mosul para cá, mas eles foram parados em Kobane”, disse Meryem. Dizendo que elas sentiram a necessidade de mostrar que as mulheres geradas na filosofia de Abdullah Öcalan nunca iriam desistir, disse ela “, enquanto houvesse um curdo ainda vivo, Kobane não iria cair.”
As mulheres não estão apenas resistindo na guerra, de acordo com Meryem, mas na vida cotidiana. “Em qualquer lugar na sociedade que há um grupo que quer resistir a sua própria exploração, deve haver um mecanismo de autodefesa — em cada rua, cada casa, cada local de trabalho.
“Por exemplo, as mulheres que trabalham em fábricas tem que se organizar. Elas precisam se reunir regularmente e se houver um ataque a uma mulher, elas precisam se unir.” Meryem disse que a solidariedade feminina contra a exploração econômica e todas as outras formas de exploração precisa ser um reflexo de base.
“As mulheres são empurradas para a prostituição, como se elas não tivessem outra opção. As mulheres estão sendo apedrejadas quando elas próprias são vítimas de estupro. Estamos dizendo que há outra forma de viver. E a solução não é só as armas.
“A luta começa com o conhecimento de si mesmo,” disse Meryem, salientando a importância da educação na luta do YPJ. “Nós avisamos os camaradas para que viessem até nós para aprender tudo o que eles queriam, incluindo como usar armas. Sua mente precisa estar aberta a tudo”, disse. Desde o início, o estudo da filosofia de Abdullah Öcalan tem sido crucial para os esforços das mulheres para se organizar.
Meryem diz que, estupro, apedrejamento, rapto, femicídio e outros crimes contra mulheres aumentam na ausência da autodefesa. Em Dera Zor, 700 mulheres e crianças foram decapitadas diante dos olhos do mundo. Crimes contra a humanidade, como a campanha de Anfal de Saddam Hussein e do ataque Daesh em Shengal foram evitadas em Rojava somente graças à luta dos mártires. Ela observou os nomes das mulheres muitos mártires que se sacrificaram nas fileiras da frente: Revan, Gulan, Ozgur, Roza e outras milhares que deram suas vidas para viver livremente suas identidades.
A história está cheia de mulheres que lutaram, de acordo com Meryem, de Rosa Luxemburgo a Leyla Qasim e as três militantes curdas mortas em Paris. Meryem saudou as mulheres que continuam sua luta nas ruas no 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Ela cumprimentou particularmente as mulheres que vão se reunir em Nusaybin, no norte do Curdistão na Marcha Mundial das Mulheres.

“As mulheres têm que se unir” disse. Ela diz que espera um dia para ver uma Assembléia Internacional de Mulheres.

 

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TEXTO ORIGINAL EM: http://kurdishquestion.com/index.php/kurdistan/west-kurdistan/rewriting-women-s-history-in-rojava-part-2.html